Busca avançada



Criar

História

Uma artista do Jequi

História de: Maria Lira Marques Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2009

Sinopse

O descobrimento do mistério do barro, a inspiração para a criação das peças de cerâmica e os caminhos na infância que a levaram a ser uma artista são narrados pela dona Lira, como é mais conhecida. Orgulhosa das tendências artísticas da mãe, dona Lira reconhece que seu talento é uma herança que recebeu dela e que, se estivesse viva, teria orgulho das exposições de que a filha já participou. Com a mãe também aprendeu cantos de trabalho, alguns dos quais dona Lira apresenta durante o depoimento.

Tags

História completa

Oh, pelo que minha mãe conta, a gente tem descendência das três raças: do negro, do índio e do branco. Porque aqui tinha os índios botocudos, né? E a gente vê na família pessoas da pele bem negra e dos cabelos muito lisos, assim, iguais aos seus, de olhos puxadinhos que nem índio. Tem várias pessoas na família assim! Eu nasci nessa rua aqui, Rua Coronel Inácio Murta. Sou filha de Odília Borges Nogueira e Tarcísio Santana Marques. O meu pai era sapateiro e minha mãe era doméstica, lavava roupa pras famílias.

 

Tem um canto de roda que minha mãe cantava quando a gente passava roupa. Eu numa mesa e ela em outra, e chegava uma certa hora que me sentia cansada e um pouco… Não sei se era preguiça! A gente ficava esmorecida de ficar em pé o dia todo passando roupa. E naquele tempo não era ferro elétrico, era ferro à brasa que você tinha que estar tocando com o fole pra o ferro esquentar. E aí eu falava com ela assim: “Oh, mãe, eu vou parar um pouquinho”. Ela: “Oh, minha filha, a gente não vai parar não porque senão a gente não dá conta de passar a roupa toda pra entregar. Vamos cantar porque cantando o tempo passa e o trabalho rende”. E ela gostava de cantar esse canto de roda que chama Saudade de Taperoá. É assim:

 

Eu tenho saudade de Taperoá/

Oi leva eu beleza, leva eu pra lá/

Leva eu, beleza, leva eu pra lá/

 

Agora me deu saudade/

Não posso dizer de quem/

Está longe desta terra quem meu coração quer bem/

Está longe desta terra quem meu coração quer bem/

 

Era um dos cantos que ela gostava de cantar, além de outras modinhas. Mas essa ela gostava muito de cantar. Eu via a minha mãe trabalhar também com cerâmica, não pra vender. Geralmente ela gostava de fazer os presépios. Na ocasião de Natal, o pessoal já encomendava: “Odília, eu quero um presepinho”, e ela fazia e dava pras pessoas que moravam aqui nessa rua. E fazia outras figuras também. Então eu comecei também a fazer, mas não com cerâmica. Eu fazia com cera de abelha, porque o meu pai tinha bastante cera em casa pra passar no cordão pra costurar os sapatos. E eu comecei as primeiras figurinhas com cera de abelha. Eu ficava olhando, presenciando ela trabalhar…

 

E aí eu fui crescendo e quis saber mais sobre o barro: o mistério da queima, de como tirar o barro, isso aí eu já aprendi com a Dona Joana, minha vizinha que morava em outra rua, mas que não era tão longe de casa. Ia até a casa dela pra aprender a queima e pra ir até onde tirava o barro. Falou sobre o forno, como que fazia. Logo eu tomei providência de pedir a alguém pra fazer um forninho pra mim. Ela também me explicou sobre a lua, que o barro não podia ser tirado na lua forte. Também pra queimar. Todo esse mistério eu aprendi com ela! E aprendo até hoje porque toda vez que eu encontro com um amigo que é artesão, a gente aprende uma técnica diferente.

 

Hoje, quando eu estou participando de alguma exposição e vejo o pessoal elogiando os trabalhos, sinto aquela vontade de chorar pensando que, se a mãe fosse viva, ela poderia estar ali também junto, participando daquela alegria. Porque a minha mãe, mesmo ela sem saber grandes leituras, fico vendo que ela era uma artista também. Ela tinha tendência pra teatro, ela fazia muita coisa manual, flores de papel e de outras coisas. Ela me ensinava como declamar uma poesia. Ela tinha uma voz muito bonita também, gostava muito de cantar serestas e esforçava pra gente aprender o que fosse bom. Ela foi uma boa lavadeira de roupa e passadeira também. E estou aí até hoje fazendo os meus trabalhos e falo com muito orgulho que é uma herança da minha mãe, que eu só deixo mesmo quando morrer ou se tiver uma determinada doença que não deixe a gente executar mais o trabalho. Mas eu falo com orgulho: foi uma herança muito valiosa que recebi da minha mãe.

 

Eu não tive uma juventude de brincar nas casas dos outros, não! Sempre que brincava também era assim, era de roda, era de esconder, de pique, mas sempre na porta durante a noite, que naquele tempo também não tinha luz elétrica, a luz era só até a meia-noite. A brincadeira sempre acontecia à noite, na porta, e juntava todas as crianças com adulto pra contar história. E foi assim até que chegou o Frei Chico! Ele junta um grupo de moças e forma um coral. Ele colocou um anúncio na Igreja convidando mais moças pra participar de um coral, o Trovadores do Vale, e pediu  para que cada participante levasse uma pessoa pra também fazer parte do coral. Fui convidada e entrei para o coral. Tudo que eu vi lá já me cativou, os enfeites que tinham... Ele decorava tudo, né? E quando começou a cantar, logo já bateu no meu coração. O que eu logo senti, era os cantos de roda, era batuque, e o quê? Era o que minha mãe cantava! Percebendo aquilo, eu cheguei aqui, como eles aqui em casa falavam, que eu cheguei igual uma vaca brava. “Mãe, mas o padre canta isso, o padre canta aquilo, são os cantos de roda, canto de batuque! Ah, canta esse pra mim levar pro padre, que o que a gente está cantando lá é isso”. Ela ia cantando e eu ia colhendo aquilo e levava lá pro Frei: “Olha o canto de roda que a minha mãe cantou!”, e ele foi colhendo e logo, quando ele viu que eu tinha dom pra coisa, me convidou pra trabalhar com ele.

 

O Frei Chico, conhecendo depois o meu trabalho de cerâmica, me deu força! E esse trabalho junto com ele era de pesquisa sobre a cultura popular no Vale do Jequitinhonha. As pesquisas foram um incentivo muito grande. Também porque o que a gente sabia, os cantos de roda que eu via a minha mãe cantar, via outras cantar, a gente não sabia o valor que tinha. O trabalho com ele só foi me incentivando a ter mais conhecimento desses cantos, os cantos de trabalho que minha mãe cantava. Canto pra apanhar arroz, canto pra levar o gado, canto dos canoeiros pra levar as mercadorias, que saíam daqui as canoas. Existe os cantos de boiadeiro pra levar o gado, os cantos de tropeiro pra levar a tropa. Então eles vão cantando pra viagem ser mais alegre. Para numa parada, vai cozinhar, junta pra cantar:

 

Você me chama meu tropeiro, eu não sou tropeiro não/

Sou arrieiro da tropa Marcolino, o tropeiro é meu patrão/

Menina suspende a saia, moda anágua não barrar/

E a renda custou dinheiro, Marcolino, dinheiro custou ganhar/

Você me chama meu tropeiro, eu não sou tropeiro não/

 

Esse é um canto de trabalho dos tropeiros, pra levar as tropas. Geralmente esses cantos falam da luta do nosso povo e da vida do nosso povo. Tem também os cantos de roda, os cantos de batuque, acalantos, os cantos de pedir esmola, que tem um assim:

 

Meu patrão, meu patrãozinho, passa lá e passa cá/

Mete a mão na sua gibeira, tira uma nica e me dá/

Passa uma mão na sua gibeira, tira uma nica e me dá/

 

Foi um trabalho da cultura popular que nós pesquisamos com as pessoas mais velhas, os cantos de pedir esmola, os cantos de penitência pra pedir chuva. A gente não canta nada nosso não, tudo é colhido da boca das pessoas mais velhas.

 

A própria pesquisa me inspira também no meu trabalho com a cerâmica, como a peça da penitência. Tem uma outra peça, a peça da seca, e vai por aí... Teve uma época que eu fiz muitos bustos. Eu gostava de fazer Sócrates, eu gostava de fazer Platão porque eu tenho uma certa, como que eu vou dizer, eu gosto desse tipo de pessoas, né? Eu fazia como eu imaginava que eles fossem. Além de eu não saber copiar, eu não sinto aquele gosto, aquele prazer. O meu prazer é de criar. Eu imaginava Sócrates e Platão e fazia. Depois de muito tempo que eu entrei na escola é que eu fui ver retrato de Platão e de Sócrates. Eu tenho uma certa simpatia por essas pessoas, esses filósofos. Tenho uma coisa assim, uma atração por esse tipo de pessoas, né? E aí eu fazia os bustos, mas sem conhecer. Fazia a meu modo.

 

Eu amo a arte. Eu já falei: é herança da minha mãe, quero levar pra frente. Quem quiser aprender eu não vou esconder. Eu dou dicas. Pra dar na mão é que não dá porque o meu trabalho é mais de inspiração. Eu sempre gosto de estar criando, de estar imaginando. E o próprio Vale do Jequitinhonha, todo o Vale é inspirador. Eu gosto muito de mostrar essa parte da luta, da opressão. Não é só no Vale do Jequitinhonha que tem pobreza. Mas é claro que isso inspira. Eu sempre falo também que se eu soubesse escrever, eu ia escrever. Então eu posso mostrar isso no trabalho de cerâmica, eu posso retratar na cerâmica, fazendo aquilo que eu sei!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+