Busca avançada



Criar

História

Uma agente de esperança na comunidade

História de: Sandra Lorenzi Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2005

Sinopse

Sandra relembra de sua infância no Rio Grande do Sul, sobre sua relação difícil com seu pai, pois era alcoólatra e bem agressivo, suas mudanças de cidade, como foi ser mãe solteira, e por conta disso foi julgada pela comunidade, como conheceu o seu marido e teve sua segunda filha em Santo Augusto, como é trabalhar com alcoólatras e crianças desnutridas sendo agente comunitária de saúde e como é trabalhar no projeto PIÁ com crianças de rua. Também comenta sobre alguns casos que mais marcaram durante o seu trabalho.

Tags

História completa

P/1 - Sandra, vamos começar, você faz uma identificação do seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Bom, meu nome é Sandra Lorenzi Marques, tenho 31 anos, trabalho no bairro São João, atendo 100, 314 famílias, que dá uma população de 1.080 habitantes, e...

 

P/1 - Onde você nasceu?

 

R - Nasci no município de Erechim.

 

P/1 - Sei, quando?

 

R - Dia 18 de Julho

 

P/1 - De 1900 e...

 

R - De 1965.

 

P/1 - Você pode me falar um pouco sobre a sua família, do lado do seu pai, o que você sabe sobre a história dos seus avós, por exemplo, os pais do seu pai?

 

R - Bom, os meus avós são imigrantes italianos, tanto do lado do pai, como da mãe.

 

P/1 – Lorenzi...

 

R - São Lorenzi tutti buona gente? (riso)

 

P/1 - Buona gente, macarrone?

 

R - Isso, isso, eles imigraram, vieram se conhecer no Brasil, daí...

 

P/1 - Ah, os seu avós são imigrantes?

 

R - Isso, eles são imigrantes italianos.

 

P/1 - Você os conheceu, são vivos?

 

R - São, quer dizer, agora já faleceram, a vó faleceu faz acho que, uns dois anos, já.

 

P/1 - Você conviveu com eles?

 

R - Convivi, com todos eles.

 

P/1 - Falavam italiano?

 

R - Até para se comunicar com a avó tinha que ser na linguagem italiana, porque ela não entendia.

 

P/1 - Você fala italiano?

 

R - Ah, pouca coisa (riso), mas a gente entendia e daí, a mãe, o pai, eles falam bem a língua italiana.

 

P/1 - E eles fizeram o quê, os pais dos seus pais, eram o que, lavradores?

 

R - Agricultores.     

 

P/1 - Tinham terra?

 

R - É, eles chegaram aqui, no município de Campinas. Quando chegou o avô, o pai do meu pai, era só mato, mato mesmo, até foi um dos primeiros colonizadores de Campinas do Sul, da região.

 

P/1 - Onde é que fica Campinas do Sul?

 

R - Fica há 36 quilômetros de Erechim.

 

P/1 - A noroeste?

 

R - Isso. Se conheceram lá, daí a minha mãe, quando ela casou ainda era aquela época que quem decidia o marido eram os pais, e a minha mãe casou assim, a mãe decidiu que o pai tinha que ser o namorado.

 

P/1 - O pai dela decidiu?

 

R - Isso, decidiram: "Ó você vai casar com o fulano", em questão de oito meses eles estavam casados já, nem chegaram, nem tinha, nem tiveram aquele conhecimento, aquilo que a gente tem hoje em dia.

 

P/1 - E seus avós por parte de mãe, eram imigrantes italianos?

 

R - Também imigrante italianos, Bota, também italiano.

 

P/1 - Bota é o sobrenome dela?

 

R - Isso, sobrenome Bota, são italianos.

 

P/1 - E vieram mais anteriormente, ou eles eram, seus avós, também italianos

imigrantes?

 

R - Bom, eu não tenho conhecimento deles...

 

P/1 - Dos Bota?

 

R - Mas eu acho que o imigrante é o Bernardão, seria os pais da minha avó e do avô, acho que eles já moravam no Brasil, mas eram os bisavós...

 

P/1 - Que eram os imigrantes?

 

R - Isso, que eram os imigrantes.

 

P/1 - Bom, e eles, também proprietários rurais, vieram parar aqui, na época da colonização?

 

R - Vieram, até por parte deles, não estou bem a par, porque eles não moraram ali em  Campinas, então o pessoal já comenta mais dos avós Lorenzi, eles vieram e imigraram para essa região mesmo de Campinas do Sul, não eram de outro local, e os avós eles primeiro passaram por Realeza, no Paraná, depois vieram para Espumoso, no Rio Grande do Sul e daí depois que vieram para Campinas do Sul, então fizeram um rodízio mais comprido, até chegar à Campinas.  Uma coisa que a minha mãe sempre conta, eu acho engraçado, porque ela casou [quando] tinha quatorze anos de idade, o pai um dia chegou em casa, primeiro dia chegou em casa da lavoura, ela estava brincando de boneca, porque ela não tinha aquela instrução que tem hoje do casamento, o que é que é o casamento.

 

P/1 - E seu pai era muito mais velho que ela, ou não?

 

R - São 3 anos, a mãe.

 

P/1 - Então, ele também era um garoto?

 

R - É, ele também era um garoto.

 

P/1 - Eles deviam achar que era brincadeira?

 

R - É, isso, é mais ou menos...

P/1 - Por que casaram tão cedo, você sabe?

 

R - Por opção da vó, a vó achava que chegava a hora já tinha que escolher o marido e casar, eu acho que foi, não foi por escolha deles, pela idade, foi mais ou menos uma coisa assim. Na época, também era já assim tudo, era praticamente uma rotina, (riso) todos deveriam casar cedo, ou senão ficava para titio, para ‘benzer tormenta’ eles diziam, quando chegava os temporais, uma coisa mais ou menos assim.

 

P/1 - Benzer tormenta?

 

R - Isso, quando se arrumava aquele tempo feio, disse que eles procuravam duas, três solteironas com mais de trinta anos para fazer um benzimento (riso), para a tormenta ir embora.

 

P/1 - Bem exagerado? (riso)

 

R - Isso, é uma coisa assim.

P/1 - Bom, é uma função bem chata? (riso)

 

R - É. (riso)

 

P/1 - Ninguém devia querer ficar?

 

R - É, ninguém gostaria, ninguém gostava de ficar, mas sempre tinha uns que não dava certo, ou que se achava, elas pensam da mesma maneira que a gente, pensavam o que a gente pensa hoje, que o casamento não é uma coisa que tem que ser sem conhecimento sem nada, acho que tem que ter um certo conhecimento, elas pensavam assim, mas na época não era bem entendido a situação.

 

P/1 - Como é que era  a situação financeira dos seus avós por parte de mãe e por parte de pai?

 

R - Bom, por parte de mãe a situação financeira era boa, por parte de pai também excelente, ele tinha lá um pinhal, tinha não sei quantas colônias de pinheiro, eles tinham uma empresinha de ônibus, transporte, tinham moinho, mas eu não sei quais são os motivos, ele começou a ingressar no alcoolismo, na bebida e foi jogando, jogando, jogando e acabou perdendo tudo o que ele tinha, ele praticamente morreu sem nada, só com a casa e poucos alqueires de terra que sobrou. Até uma coisa que o meu pai sempre conta, às vezes eu digo: "Ah, isso aí é brincadeira" porque uma vez em uma mesa de jogo ele não tinha o que jogar, ele jogou a vó (riso), colocou a vó na mesa de  jogo, são histórias que eles contam, se é verdade mesmo eu não sei, mas é um...

 

P/1 - E por parte da sua mãe, também tinham uma...

 

R - É, mas a situação financeira deles continuou naquela, até hoje, com exceção da  mãe, as minhas outras tias, que são cinco irmãs, são todas bem de vida.

 

P/1 - Tem terra, são agricultores?

 

R - Isso, são agricultores, um é...

 

P/1 - Não são grandes propriedades, mas tem a sua estabilidade?

 

R - Não, mas tem seus, até tem uma tia minha que ela trabalha em Porto Alegre, irmã da mãe, é a única que não quis lidar com a terra, ela é enfermeira padrão já  aposentada, trabalha no hospital em Porto Alegre, continua trabalhando, porque ela diz que parar de trabalhar é para velho e ela ainda não se acha velha, ela acha que ela está bem nova para, é uma coisa que eu...    

 

P/1 - E apesar de terem casados tão jovens, seus pais tiveram casamento acertado ou foi um relacionamento mais complicado com o passar do tempo?

 

R - Bom, no começo acho que foi assim, aprenderam a... Não era aquele amor, eu acho, aquela coisa, mas [com] a convivência eles aprenderam a conviver junto, com o tempo eu acho que foi surgindo, não sei se dá para chamar bem de amor, mas eles se davam bem.

 

P/1 - Se davam bem, uma relação estável, tranquila?

 

R - Isso, tranquila.

 

P/1 - Vocês são quantos irmãos?

 

R - Quatro.

 

P/1 - Quatro irmãos?

 

R - Dois casais.

 

P/1 - E eram rigorosos com vocês, como é que foi?

 

R - Era. (Riso)

 

P/1 - Como foi a criação?

 

R - Era, a nossa criação era rigorosa, a mãe olhava para nós, nós tínhamos que ó... E desde o trabalho. O pai e a mãe iam para a lavoura e nós com uma idade mínima de seis, sete anos, já tínhamos que ir limpar casa, cuidar da criação fazer almoço e se chegasse em casa e não estava pronto, nós entrávamos para o laço mesmo, sem, sem...

 

P/1 - Batia?

R - Batia mesmo, o pai e mãe, a mãe nem tanto, mas o pai, o pai caprichava na, na, o que ele tinha ele dava, se ele estava com o chicote na mão ele dava com o chicote, se tivesse com a cinta na mão, era com a cinta, chinelo, o que tivesse...

 

P/1 - Era estourado?

 

R - Era estourado, até eu me lembro que uma vez a minha irmã... Os banheiros não eram junto com o corpo da casa, era longe, dava uns dezesseis metros, ela foi tomar banho, não levou a toalha junto e ela gritou para eu levar, eu não escutei e o pai estava lavrando para o lado de cima da casa, veio com o chicote, Deus o livre, eu achei que eu... Fiquei de cama. Depois ele pediu desculpa, tudo, mas...

 

P/1 - Só por que ela pediu a toalha?

 

R - Só porque ela pediu a toalha e eu não escutei, daí ele... Ele não suportava mandar alguma coisa e nós demorássemos para fazer, era sagrado, não adiantava se esconder nem nada, uma hora ou outra nós entrávamos mesmo.

 

P/1 - Apesar disso, você acha que sua infância foi uma infância que teve lá bons, felizes ou foi uma infância difícil, mais marcada pelas dificuldades?

 

R - Olha, com todas as dificuldades, eu acho ainda que perto de certas infâncias a minha foi razoavelmente boa, não foi assim tão... Claro, a gente brincava, estudava e com dez anos, quando o pai começou com o problema do alcoolismo, porque eu não sei se o alcoolismo...

 

P/1 - Seu pai era alcoólatra?

 

R - É hereditário, porque assim, uma coisa que a minha mãe sempre diz: a vó, quando ela engravidou dos filhos, geralmente o vô estava alcoolizado, então eu não sei se existe... Até a gente às vezes comenta, diz que existe a here… Dos doze filhos que a vó teve, só um que não era alcoólatra, inclusive as mulheres, agora um me parece que já está na recuperação, dois eu não tenho certeza, mas tem meu pai que é alcoólatra, eu adoro lidar no bairro com alcoolismo, eu acho que mais por causa disso, tentar ajudar as pessoas no alcoolismo. Eu tenho um irmão mais velho que a tendência dele é grande, ele não tem aquele controle que certas pessoas tem, qualquer probleminha, qualquer coisinha ele apela pra bebida, então às vezes eu comento com a mãe: "Bah, o meu maior medo é que meu irmão também vá para esse lado". Mas a gente conversa bastante, coloca a situação do pai, o que o pai tinha, o que o pai era, porque meu pai foi um grande líder na comunidade, ele foi o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais há doze anos, o pessoal lá respeitava ele, realmente e daí quando ele começou a se entregar para o alcoolismo foi perdendo crédito, aquela confiança que a comunidade tinha, e hoje as pessoas olham para ele não com aquele orgulho, aquela coisa: "Bah, o Sr. Milvo, um colaborador da comunidade!", mas assim: " Coitado do Sr. Milvo, a que ponto ele chegou".

 

P/1 - E você falou da situação dos seus avós que era estável e o seu pai conseguiu ter uma situação estável também?

 

R - Não.

 

P/1 - Como é que foi?

 

R - Meu pai passa por grandes dificuldades.

 

P/1 - Ele chegou a ter uma propriedade rural?

 

R - Tem, ele tem ainda uma propriedade, ele tem acho que quatro hectares de terra, que é mínimo, mas dá para tirar para a sobrevivência deles, eles conseguem, mas para a sobrevivência, não para...

 

P/1 - Ele mesmo que dirige? Ele planta?

 

R - Não, ele não tem mais condições de trabalho por causa do alcoolismo, então eu tenho uma irmã, é casada e mora, ela optou por morar junto com o pai, até o meu cunhado se sujeitou a, porque a vida dele, a situação financeira dele é bem melhor do que a do pai, ele optou por morar lá para ajudar, para dar uma força, porque a minha mãe é bastante doente, ela tem problema de pressão e ela não foi operada, teve várias cirurgias na coluna, então ele optou morar lá para tocar, tipo enfermeiros, eles estão lá mais para enfermeiros e cuidadores do que para... Sem fins lucrativos, sem nada.

 

P/1- E seu pai continua ainda...

 

R - Continua, continua, até foi feito tratamento para alcoolismo em Bento, foi internado em uma clínica, na época meu irmão me chamou de bandida, de assassina, de tudo quanto foi nome, mas depois quando ele viu que estava dando resultado ele ligou um dia para mim, eu já estava morando aqui em Santo Augusto, ele ligou quase chorando no telefone, ele disse: "Sandra, o pai está outra pessoa." Ele mudou, voltou da clínica, só que ele tinha que ficar noventa dias e ele ficou só trinta. Ele voltou, ficou seis meses, Deus o livre, até quando eu cheguei lá ele veio me encontrar, ele disse: "Bah, Sandra, se eu tivesse te escutado antes, se eu tivesse..." Porque o problema do alcoolismo é assim: ele tem que entrar de acordo com o tratamento, senão não adianta. Quando ele entrou de acordo, fui pra lá passear, para ver a mãe, como é que estava o pai, eu tinha o meu piá que morava lá junto, a mãe que cuidava dele, eu fui pra lá passear e daí em uma conversa ali... Tinha meu irmão que estava no seminário, ele precisava de uma certa quantia de dinheiro e o pai tinha e não queria mandar, ele disse que o Henrique já estava na hora dele mesmo ter o sustento dele. Daí eu briguei com ele, coloquei o problema do alcoolismo, ele concordou em ir fazer o tratamento. Aquela história do alcoolismo, ele se jogou no chão, se ajoelhou, jurou que nunca mais ia beber, eu chamei a mãe e disse: "Mãe, o pai está entrando de acordo, vamos providenciar o dinheiro, vamos providenciar carro, vamos levar antes que ele mude." Daí foi. Na época criou uma polêmica lá, meus tios fizeram um horror, até tinha um tio, que eu tinha como um pai, depois eu perdi aquela confiança, aquele amor que eu tinha nele, eu perdi, porque ele disse que a mãe ia colocar uma casa de prostituição, sabe todo aquele problema, o pai bebe por causa da mãe, porque o pai bebe por causa dos filhos, teve vários problemas, por exemplo, eu fui mãe solteira de uma relação que não deu certo, mas fica a comunidade, joga, joga, marca. O meu irmão também teve um casamento que não deu certo, tudo juntou e daí a comunidade colocou como que se o pai fosse alcoólatra por causa disso.

 

P/1 - E que não é verdade.

 

R - Isso não é a realidade, a gente sabe que não é por aí, mas foi aquela história, os tios viraram a cara, colocaram que a mãe ia colocar uma plaquinha, luz vermelha, ia reunir os filhos para trabalhar (riso). Quando o pai voltou recuperado, provisoriamente, porque foram seis meses ali, ele voltou à religião, fazia as orações dele lá na igreja, ele fazia até casamento, batizados, tem muita gente que coloca assim: "Bah, eu prefiro que o Milvo batize meu filho do que um padre, porque ele faz uns batizados lindos, a mensagem que ele transmite. E daí nós começamos a se revoltar, porque ele ia para frente do altar e falava uma coisa e a prática em casa era totalmente [diferente], o pai se tornava agressivo, ele é alcoólatra, ele estava em um estágio que se torna agressivo, ele quebrava tudo dentro de casa, batia em quem chegasse perto, ele até agrediu várias vezes a minha mãe e...

 

P/1 - Bom, o ambiente fica insuportável.

 

R - Isso, fica, fica insuportável e daí eu saí de casa, o meu irmão saiu de casa, todo mundo, eu praticamente saí de casa com dez anos, o meu irmão tinha treze na época e nós começamos, acho que é por isso que a gente é bastante independente, a gente aprendeu a lei da sobrevivência logo cedo (riso). E meus outros irmãos também, ainda a minha irmã, ela me cobra bastante, às vezes ela diz: "Sandra, ainda você e o Erisom não podem se queixar tanto, porque vocês tiveram um pouco do pai que não era alcoólatra". E a revolta maior dos meus irmãos mais novos, Henrique e da Adriana é que começou des...

 

P/1 - É, você estava falando, do problema de, de...

 

R - Da revolta.

 

P/1 - De sair de casa, da revolta que foi criando os seus irmãos mais novos.

 

R - É, até eles cobram, porque às vezes a gente se queixa, diz: "Bah, o pai está assim, o pai..." daí a minha irmã já diz: "Fica quieta, porque você teve pai ainda, por pouco tempo, mas você teve e eu não sei o que é que é ter, não sei o que é ter um carinho do pai, uma conversa, ou..."  ou por exemplo o pai chegar em casa e desligar, porque na nossa época o pai fazia assim, por incrível que pareça ele desligava a televisão, teve uma época que a gente nem tinha televisão, ele chegava, reunia nós e contava história, então era gostoso, e a Adriana e o Henrique não tiveram esse, esse...

 

P/1 - Esse lado mais afetivo?

 

R - É, eles não tiveram, só tiveram o lado mesmo ruim e daí o pai começou a agredir a mãe, minha irmã saiu de casa...

 

P/1 - E a sua mãe, como é que ficava nessa história?

 

R - Bom, a mãe eu sempre digo, se existe céu ela é uma que vai acho que direto, ela aguenta tudo, ela aguenta o problema dos filhos, o problema do  marido, aguentou a comunidade e está lá firme, ela colocou na cabeça que Deus quis isso para ela e ela vai ter que aguentar até o final, às vezes a gente cobra dela, diz: "Mãe, não é assim, as coisas mudaram, porque é que a mãe não separa, a mãe é nova ainda ela tem 53 anos, ela é super nova, a aparência dela é de quarenta, eu sempre digo: "A mãe parece mais nova do que nós". Mas ela diz assim: "O que é que adianta Sandra, eu já estou a quase quinze anos que eu não sei o que é um carinho do marido, eu não sei o que é". Porque eles moram na mesma casa, mas separados, ela diz assim: "Eu acho que eu nem saberia mais como que é ter um carinho de uma pessoa, um amigo para conversar, para passar a tarde, tomar um chimarrão junto, ela questiona bastante isso, às vezes a gente cobra dela: "Mãe Bah!"

 

P/1 - É às vezes as pessoas...

 

R - Separa, separa. Até quando...

 

P/1 - Não tem coragem de tomar atitude?

 

R - Isso, quando o pai começou com agressões eu estava aqui e a gente tem uma coisa que entre os irmãos a gente é muito ligado, se o meu irmão se machuca, eu sinto, meus irmãos sentem, um está no Maranhão, se a gente não está bem ele sente, apesar da distância, mesmo assim a gente sente, daí eu estava aqui este tempo atrás, eu dizia para o Paulo: "Bah, a mãe não está bem, a mãe não está legal". Eu ligava para lá era batata, tinha acontecido, alguma coisa tinha dado errado. E daí fica aquela coisa.

 

P/1 - Sandra, agora apesar dessa dificuldade toda, você estudou?

 

R - Estudei.

 

P/1 - Terminou o segundo grau  e caiu fora cedo, com dez anos, como você disse, como é que foi quando você saiu de casa e por que?

 

R - Eu saí de casa, porque o pai começou a trabalhar no sindicato e daí ocorreu que ele tinha um caso com outra mulher, nós começamos a brigar em casa e eu não suportava isso, daí apareceu essa oportunidade, esse emprego, meu irmão trabalhava em uma firma, ele fazia telas para vender.

 

P/1 - Telas de que?

 

R - Telas de... Essas que a gente...

 

P/1 - Grafia?

 

R - Isso, na mesma loja a mulher precisava de uma guria, uma guria nova para cuidar das crianças, e eu disse para o...

 

P/1- Desculpe eu falei  de Silk Sream.  Não é Silk Scream?

 

R - Não, não é telas de televisão, de TV, esses...

 

P/1 - Ah, já sei, tela de cercar?

 

R - Isso, de cercar, e daí eu fui para lá e comecei... Não foi tanto tempo, mas eu consegui fazer a 5ª, 6ª, 7ª série, quando eu estava nessa casa.

 

P/1 - Trabalhando como doméstica? Como era?

 

R - Isso, eu cuidava das crianças de manhã e limpava a casa, ajudava, de tarde eu ia para o colégio, voltava cinco horas, lavava a roupa, passava roupa, guardava a roupa e cuidava das crianças, às vezes eu ia fazer o meu dever de casa tipo meia noite, meia noite e meia, mas...

 

P/1 - Como é que era a relação com patroa?

 

R - Era legal.

 

P/1 - Ela não era uma pessoa chata?

 

R - É, ela não era uma pessoa tão chata, ela era exigente, ela sempre dizia: “Eu pago, quero que seja feito dentro do que for” e foi três anos assim, mais ou menos nessa base. Depois o pai começou a gastar muito, nós não tínhamos mais condições de pagar aluguel, nós fomos morar nesse colégio João XXIII, na época foi o padre da comunidade, o padre Antônio deu a idéia de nós... A mãe cuidava do colégio, limpava as salas de aula, eram inúmeras salas, limpava a secretaria, cuidava do pátio do colégio e eles não cobravam aluguel, água e luz de nós e o pai continuou trabalhando no sindicato, daí nós voltamos para casa...

 

P/1 - Ele fazia o que no sindicato?

 

R - Ele era presidente do sindicato.

 

P/1 - Sindicato dos Trabalhadores Rurais?

 

R - Isso.

 

P/1 - E ele trabalhou como empregado rural?

 

R - Isso.

 

P/1 - Ele chegou a ter a propriedade dele?

 

R - Ele trabalhou assim… Ele tem ainda, na época ele tinha a terrinha dele, mas recebia como presidente do sindicato também, daí nós fomos para esse colégio ajudar a mãe, porque ela não vencia, era muito trabalho, foi lá que nós concluímos os nossos estudos.

 

P/1 - Você estudava e também trabalhava?

 

R - E ajudava a limpar o colégio, fazia almoço, às vezes a mãe se entretia, era roupa, calçado, dentro de uma família que tem quatro filhos, mais o casal, gera bastante serviço, e além disso cuidava no colégio, ajudava os professores, eu era muito metida, a mãe diz que eu sempre fui metida, desde pequena, tinha uns professores que precisavam passar a prova, já ia lá para ajudar a passar no mimeógrafo as provas e sempre meio escutando, meio, sempre querendo ajudar os outros, mas pensando: "Um dia Bah, um dia será que eu vou poder fazer o que eles estão fazendo, sempre querendo…”

 

P/1 - Já querendo também abrir um caminho para você.

 

R - Isso, abrir um caminho para mim, sempre pensando nisso.

 

P/1 - Como é que foi depois do colégio?

 

R - O pai começou... O alcoolismo dele se tornou terrível.

 

P/1 - Agravou de uma vez?

 

R - Isso, ele não tinha mais condições de trabalhar lá e eles voltaram para a colônia, voltaram para o interior, daí eu vim morar...

 

P/1 - Para Campinas do Sul?

 

R - Isso, voltaram, é Vila Progresso.

 

P/1 - Vila Progresso, fica no município de Campinas do Sul?

 

R - Isso, fica no município de Campinas do Sul.

 

P/1 - Você falou que voltaram para a colônia e tal, a sua mãe teve que aguentar a colônia comunitária?

 

R - Teve.

 

P/1 - Eram pessoas muito difíceis, porque esse conflito com a comunidade?

 

R - Ali eu não sei o porquê do conflito, pena que o pai foi para Campinas, ele comprou um autinho e coisa, daí já começaram: "Oh, o Lourei já está roubando, lá do município, já está isso, já está aquilo". Mas era assim, sempre o dinheiro que o pai tinha, o tempo que ele estava ali no interior, ele bebia de vez em quando as cachacinha dele, mas não era alcoólatra, não dava para ser chamado de alcoólatra, o que agravou foi depois, quando ele foi para o sindicato, começou mesmo a se tornar dependente da bebida, então ele ia para o barzinho, esquecia o auto lá, voltava, deitava na cama, daí às vezes voltava, lembrava, voltava para buscar o carro era assim. Hoje quando a gente lembra, dá uma vontade de rir até do que acontecia (riso), mas na época era difícil para a gente entender. Quando a mãe voltou para a colônia eles começaram a colocar... O Lorenzi voltou por causa da família, porque a família não ajudava, porque a família só pensava em gastar, porque isso, porque aquilo, daí ele não conseguiu vencer, não conseguiu aguentar as despesas da família, teve que voltar para o interior, quando na realidade a gente sabia que não era isso, mas... Daí voltou a mãe, voltou meu irmão mais novo, o pai só e nós ficamos na cidade, daí eu vim para Caxias do Sul.

 

P/1 - Campinas?

 

R - Isso, eu vim para Caxias do Sul.

 

P/1 - Para?

 

R - Para trabalhar também, surgiu uma oportunidade para cuidar de uma senhora de idade, o salário era bom, valia a pena, daí eu me mandei para Caxias, daí ficou lá. Mas sempre assim, com a cabeça sempre lá, porque a gente nunca sabia o que é que ia acontecer, eu ficava pensando: "Bah, já são seis horas, o pai deve estar chegando em casa, como é que vai ser". Sempre com a cabeça, eu fiquei três anos lá e voltei, voltei para lá porque eu já tinha um filho, então...

 

P/1 - Você voltou para...

 

R - Eu voltei por causa do meu neném.

 

P/1 - Depois dessa história que você estava em Caxias, aí depois você volta para Campinas?

 

R - É, voltei para Campinas.

 

P/1 - Depois de quantos anos que você ficou em Caxias?

 

R - Três anos eu fiquei em Caxias.

 

P/1 - E lá você teve o namoro, o romance?

 

R - Não, o namoro foi antes de eu ir para Caxias do Sul, antes de eu ir para lá.

 

P/1 - Você teve seu filho lá?

 

R - Daí eu tive o neném, daí a pressão da comunidade...

 

P/1 - Com essa senhora?

 

R - Isso, daí a pressão da comunidade, foi terrível.

 

P/1 - Lá em Caxias?

 

R - Lá em Campinas.

 

P/1 - Lá em Campinas?

 

R - Isso. É prostituta, é isso, é aquilo, é mãe solteira, não vale nada, daí eu não aguentei a pressão, deixei o meu filho com a mãe e fui embora para Caxias.

 

P/1 - Ah tá!

 

R - Fiquei lá três anos, mas não deu para ficar mais, aí eu voltei para Campinas, peguei o meu piá para trabalhar junto comigo, eu trabalhava de doméstica e segurava o Heliomar comigo, eu aguentei um ano e seis meses assim, com o Heliomar junto. Daí aquela coisa, tu trabalha de empregada doméstica em uma casa que tem crianças, os filhos do patrão, tem isso, tem aquilo e já ficava aquela coisa, já não tinha condições de dar tudo, daí o Heliomar voltou para a mãe, eu vim embora para Santo Augusto, não fiquei.

 

P/1 - Quando?

 

R - Eu vim, deixa eu ver, fazem sete anos, eu vim em noventa para cá.

 

P/1 - Em noventa?

 

R - Em noventa eu vim para Santo Augusto...

 

P/1 - Por que você decidiu vir para cá?

 

R - Porque quando eu saí, quando eu estava trabalhando nesse emprego, eu trabalhava no Gerente da Caixa Econômica Federal de Campinas e ele foi transferido para Santo Augusto, me fizeram uma proposta de trabalho: "Vamos para lá, Sandra, a gente já está acostumado contigo". Já fazia um ano e pouco que eu estava trabalhando com eles, "Tu quer levar teu piá junto, tu leva", mas daí a mãe bloqueou e disse: "Não, chega do Heliomar sofrer, o Heliomar vai ficar comigo". A mãe segurou ele e eu vim embora para Santo Augusto. Eu cheguei aqui em fevereiro, em julho eu conheci o Paulo e começamos a namorar, casamos e já fazem quase sete anos que eu estou (riso) casada.

 

P/1 - Você se casou logo que você chegou?

 

R - Logo, logo que eu cheguei aqui a gente já...

 

P/1 - Depois do casamento você deixou essa casa ou você continuou a trabalhar?

 

R - Eu trabalhei, trabalhei mais três anos aqui, dentro dessa casa com o gerente. Depois nasceu a Ana Paula, que foi em 93. Eu engravidei, trabalhei até completar nove meses. Antes de eu ganhar a Ana Paula os meus patrões foram para a praia e como aqui estava acontecendo, na época, aquela coisa de roubos e arrombamento de casa, aí ele disse: "Não Sandra, fica cuidando da casa, a gente te paga um pouquinho a mais, você ganha o teu neném, vem para cá até nós voltarmos da praia". E foi o que aconteceu, eles foram para a praia e eu fiquei, eles foram no começo do mês de fevereiro, a Ana Paula nasceu lá pelo dia dez e nós ficamos ali, aí depois eu fui morar junto com a minha sogra, morei dois meses junto com ela, não deu muito certo, daí fizemos uma casinha para nós, construímos, mas foi bom porque a gente se preocupou em construir uma casa e a gente já vinha guardando dinheiro há um ano, um ano e meio e até essa patroa que eu tive, dizem que tem aquele velho ditado, a gente só é boa enquanto está trabalhando para eles (riso), eu não acreditava nisso, mas realmente é o que acontece com empregada doméstica hoje, claro, nem todas as patroas, tem patroas que são excelente, mas com essa eu trabalhei quase quatro anos e meio, quase cinco anos bem dizer, na casa dela, eu não trabalhava com carteira assinada, porque eles colocavam como dependente por causa do imposto e IPTU que dizem, umas coisas assim, aí eu trabalhava frio...

 

P/1 - Eles colocaram você como dependente?

 

R - Isso.

 

P/1 - Do imposto de renda?

 

R - Isso. Daí, quando eu ganhei a Ana Paula, eu disse: "Não Miriam, tu me paga os quatro meses, a gente volta, depois eu volto a trabalhar". Ela achava que não tinha esse direito, que eu não tinha direito de, quer dizer, eu criei dois filhos dela, e quando nasceu o meu ela  achou que eu não tinha o direito desses quatro meses de licença maternidade. Daí eu disse: "Não, então vamos acertar". Quando nós fomos acertar eu já tinha… Quando eu vim para cá era para eu ganhar um salário x, quando eu cheguei aqui foi a metade que eu ganhei, que eles me pagavam, mas tudo bem, já fazia tempo que a gente estava convivendo junto. Quando a Ana Paula nasceu ela achou que eu não prestava mais, que eu não valia mais e pronto. Ela disse assim: "Não, então Sandra eu..." Eu por mim tinha deixado por isso, mas daí veio a questão do meu marido, ele disse: "Não Sandra, tu trabalhou, eu acho que todo trabalhador quando trabalha tem direitos, tem direitos a férias, tem direito a 13º, a salário desemprego..." mas esse não tinha na época, mas tem o direito à licença maternidade, que são uns quatro meses. Daí ele veio, foi grosso com ela, ela foi super grossa, apesar do grau de estudo que ela tinha, ela era professora primária, ele disse assim: "Não, então diz para a tua mulher ir procurar os teus direitos". Eu fui para a justiça e tenho minha geladeira lá, minha televisão, graças a isso, daí eu parei de trabalhar, parei três anos.

 

P/1 - E o seu marido fazia o que, qual era o trabalho dele?

 

R - Faz, desde que eu conheço ele, ele trabalha com recapagem de pneus.

 

P/1 - Negócio dele mesmo?

 

R - Não, ele é empregado, até ele teve... Dentro da firma eles tem um grupo, uma equipe de trabalho boa até, ele comenta em casa que não é tão puxado, às vezes é, em época de safra, aí vem aquela coisa: "Acho que eu vou sair, acho que eu vou sair." Mas como o desemprego é tanto, aqui não tem muita opção de trabalho, tu fica onde tu está ou de repente você corre o risco de ficar um ano, dois anos sem emprego. Daí surgiu esse programa, estou aí até hoje (riso). Faz um ano e três meses.

 

P/1 - Como é que foi a sua entrada no PACS?

 

R - Bom, começou como um... Na época eu estava desempregada e nós comentando um dia de tarde: "Bah, você ouviu? Está dando programa, está dando na televisão, no rádio, o programa dos..." estava convocando na rádio local, estava convocando pessoal. O meu marido disse: "Ah, eu vou me inscrever". A minha sogra disse: "Por que é que vocês não vão se inscrever também?" Tinha minha cunhada, até duas cunhadas minha. Eu disse: "Ah, vamos lá se inscrever, mas mais por curiosidade". Comentando um dia que eu já tinha experiência, que eu já tinha trabalhado há seis anos voluntária como agente de saúde, é aquela coisa, não é aquele trabalho que tu tem que marcar horário, é assim: a pessoa vinha na tua casa, estava com febre ou coisa, daí não era praticamente um trabalho que tu se dedicava só aquilo, mas sempre ajudando os outros.

 

P/1 - Onde aconteceu isso?

 

R - Isso quando eu morava em Campinas ainda. A gente trabalhava, estudava, mas fazia esse trabalho também da...  

 

P/1 - Como que acontecia isso? Você na sua casa atendia as pessoas da comunidade?

 

R - É, não basicamente da comunidade, eram pessoas carentes, mais carentes que necessitavam de vez em quando de um carinho, ou de uma injeção, daí a gente ia lá, conversava, fazia aquela visita, aquela...

 

P/1 - Mas como surgiu esse, alguém chegou e propôs que vocês fizessem isso?

 

R - Isso era trabalho voluntário da Secretaria de Saúde local, eles colocavam como a demanda de procura da secretaria, era grande, eles não tinham como atender toda a população, então a gente fazia esse trabalho.

 

P/1 - Mas eles que chamaram vocês? Deram treinamento, alguma coisa, ou não?

 

R - É, eles só ensinaram a gente assim, pressão, medir a temperatura e curativos, uma pessoa...

 

P/1 - Injeção?

 

R -  Injeção a gente fazia, mas assim, dependendo do caso, não eram em todos, todos os tipos de injeção que a gente fazia, tinha umas que eram mais complicadas, para a coluna, daí era a secretaria que fazia.

 

P/1 - Mas vocês faziam injeção também na veia ou...

 

R - Não, só no músculo.

 

P/1 - Só no músculo?

 

R - Só no músculo, nas veias a gente não fazia. A maior parte do trabalho voluntário era [fazer] curativos, porque não tinha aquela necessidade de tirar ficha, de repente uma pessoa que eu precisasse mais ficasse sem, fazia isso só  por causa de um curativo de um, o famoso bicho do pé (riso), o piolho, a gente trabalhava com isso.

 

P/1- E a secretaria dava os medicamentos para vocês?

 

R - Dava, isso, nós pegávamos na secre...

 

P/1 - A secretaria de Campinas do Sul?

 

R - Isso, de Campinas do Sul, repassava essa...

 

P/1 - Mas, vocês não tinham que correr casa, nada disso?

 

R - Não, não era assim. A hora que tu tivesse tempo, se tu quisesse, tinha tudo isso, não era uma coisa obrigatória que tu tinha que fazer, era conforme...

 

P/1 - A secretaria dava os medicamentos? E as pessoas te procuravam?

 

R - Isso, às vezes tinha lá uma velhinha de sessenta, setenta anos que não tinha ninguém que morasse com ela, então ela ia no médico, consultava, recebia medicação, a gente ia lá e dava, controlava o remédio, era mais ou menos isso que a gente fazia.

 

P/1 - E você acha que funcionava nesse esquema?

 

R - Eu acho que não.

 

P/1 - Não?

 

R - Não, porque pelo trabalho que a gente está fazendo agora, eu acho que não tinha… Porque continuava tudo na mesma situação, o remédio tinha que sair da secretaria, então não tinha aquela prevenção, era a medicina curativa mesmo, não tinha prevenção da doença, e o programa de hoje não, o programa de hoje já é...

 

P/1 - Bom, você começou no programa, como é que foi o início, você foi recebida pelas famílias?

 

R - É, nós tivemos quinze dias de treinamento aqui, daí no começo não foi fácil, porque era ano político, era ano de eleições, então sempre tem assim... Esse teu serviço vai durar até depois do dia quinze, porque isso é uma maneira que o município encontrou de se eleger de novo, se bem que o trabalho que o município estava fazendo em cima da saúde aqui era maravilhoso, eu acho, não sei se porque eram profissionais de saúde, tinha o secretário, era o doutor Flores, o trabalho que ele desenvolveu aqui em Santo Augusto... Tanto é que nós ficamos em 4º lugar em todo estado, a nível de saúde, graças à ele, graças ao esforço dele.

 

P/1 - E você então, foi meio que mal recebida no começo?

 

R - Foi, no começo tinha... A gente até tinha lá o presidente do nosso bairro, era o contrário, era a oposição e ele era vereador, então ele mesmo ia nas casas e colocava: "Não, o trabalho da Sandra é político mesmo, vocês vão ver no que terminar as eleições isso aí para, essa bajulação vai parar, essas conversas, esses bate papo vão acabar". Eu não sei, eu acho que todos passaram por essa dificuldade, mas como tem cada interferida, eu acho que no meu bairro foi terrível, no começo foi terrível.

 

P/1 - Qual é o perfil da população que você atende, são pessoas de área urbana, meio urbana, meio rural, como é que é?

 

R - É só urbana.

 

P/1- Só urbana?

 

R - Só urbana.

 

P/1 - São o que, são operários, são trabalhadores rurais, o que eles são?

 

R - Bom, uma parte tem lá sua terrinha, a casa, ali dentro do bairro, mas a maioria é população carente, desempregados.

 

P/1 - Desempregados?

 

R - Isso, o planejamento familiar não funcionou direito, então é aquela quantia de crianças, tem bastante desnutrição, 25% da população do bairro é alcoólatra, os idosos que tem lá...

 

P/1 - Eles vivem de quê, só fazem bicos ou tem serviço certo?

 

R - A maioria é biscate, a maioria é isso, é carpidas, então passa o caminhão, até esse ano o pessoal estava se queixando por causa dos inseticidas que estão sendo bastante utilizados, os venenos, daí tem diminuído bastante isso, a carpida.

 

P/1 - O que é a carpida?

 

R - Limpeza de terrenos, mas não propriamente de terrenos, é de terras mesmo, são grandes fazendeiros que pagam oito reais, sete reais por dia para limparem a lavoura deles, então isso tem diminuído. Eu tenho bastante crianças lá de quatorze a quinze anos que roubam comida, o que vier na frente que eles puderem pegar, eles pegam, eles pegam mesmo, mas não é aquele roubo, eu acho assim que eles...

 

P/1 - É por necessidade?

 

R - Isso, é por sobrevivência mesmo. Tem vários casos que é por sobrevivência, e eu tenho notado, depois que eu comecei a trabalhar aqui, gerou bastante desemprego, o alcoolismo, então a pessoa não tem o que fazer e vai lá no barzinho e coisa. O que tenho lá também que nós enfrentamos é prostituição de menor, nós temos vários casos e daí aqui em Santo Augusto nós não temos conselho tutelar, me parece que está para ser implantado, mas a gente não tem o conselho tutelar, então não tem como trabalhar, o único trabalho que a gente faz, a gente vai lá, conversa com essas meninas novas, até tem várias que já são mamães, umas que estão grávidas, a gente aconselha, conversa, é a única maneira que a gente tem de trabalhar ali é mesmo com o diálogo. Tem uma instituição que se responsabilize por isso, não tem a gente agir nisso, porque a polícia não tem como agir, a secretaria da saúde também não tem como agir, porque a maioria são casas, não são bares, não são nada, então não tem como ela invadir aquela casa, comprovar que está havendo mesmo a prostituição. Até se torna um ponto de ansiedade nossa, porque tem o problema e existem soluções, mas aqui infelizmente ainda não tem como a gente agir em cima disso.

 

P/1 - Sei, e me conta assim, por exemplo, algum caso especial que você encontrou, que foi difícil, ou uma criança desnutrida, que casos mais te marcaram nesse trabalho até agora?

 

R - Bom, me marcou bastante um caso de alcoolismo de uma senhora de 57 anos, ela era dependente do álcool e daí, eu não sei se foi por simpatia ou o que, eu gostei dela, aquela coisa, enxerguei, fui com a cara dela e a mãe dela tem 81 anos, mora junto e é uma pessoa super querida e eu fui lá a primeira vez e a mãe dela me colocou, diz: "Olha Sandra, eu não sei mais o que fazer, eu não sei mais o que fazer com a minha filha, eu gostaria que fosse ajudada". Daí eu fui lá conversar com ela, ela estava alcoolizada, fui uma vez, fui duas, fui três, fui quatro, eu fui dezoito vezes à casa dela, as dezoito vezes ela estava alcoolizada, mas eu sempre dizia para ela: "Eu não vou desistir, eu ainda vou chegar aqui um dia e você vai estar sã e nós vamos poder conversar". Hoje quando ela me enxerga, parece que foi na 20ª vez que eu fui lá, consegui pegar ela sóbria, daí nós conversamos sobre o alcoolismo, até usei um pouco da chantagem, que ela precisava de um módulo sanitário, de um banheiro, ela tinha a famosa patente, a tradicional patente e estava...

 

P/1 - Como é que é a tradicional patente?

 

R - É uma casinha de madeira com um buraco, ali ela toma banho, ela faz as necessidades e tudo e já estava cheio aquele pocinho dela, já estava correndo e estava incomodando os vizinhos e então ela colocou esse problema, eu disse: "Então Dona Júlia, vamos fazer o seguinte, eu consigo módulos de sanitário para a senhora, mas só depois de sessenta dias sem a senhora botar uma gota de álcool na boca". E foi indo, foi indo por esse lado, hoje ela é uma pessoa recuperada, ela tem problema de pressão. Claro que o alcoólatra sempre é alcoólatra, e se ela chegar… O meu medo é ela chegar a tomar de novo e eu coloquei para ela a situação e ela deixou, hoje ela está lá com o banheirinho dela, foi conseguido...

 

P/1 - Há quanto tempo ela está sem beber?

 

R - Faz oito meses.

 

P/1 - E ela entrou para...

 

R - Não, fez isso sozinha, até ela diz assim: "Sandra, hoje eu deixei de beber de vergonha, de vergonha, porque cada vez que você vinha me visitar a gente não podia tomar um chimarrão, a gente não podia conversar". Foi um caso que me chamou bastante a atenção.

 

P/1 - Desnutrição tem na sua área?

 

R - Tem, eu estou com trinta, 36 crianças que são consideradas desnutridas, até tem dois casos que eu procuro... Às vezes no dia da pesagem: "Mãe ó, leva, vó vamos lá levar as crianças". É uma menina de doze anos de idade, ela pesa dezesseis quilos e um guri de oito anos pesa quatorze, então é um grau de desnutrição assim, terrível e como antes eles não tinham agente de saúde, por isso que eu digo, o agente comunitário de saúde hoje já não dá para ser chamado: Agente Comunitário de Saúde, é mais um agente de esperança da comunidade, porque ela sempre coloca, essa mãe dessas duas crianças, que nunca ninguém foi lá na casa dela e explicou que as crianças dela eram muito pequenininha, que as crianças dela eram muito magrinhas, muito miudinhas, simplesmente vinha a vizinha lá e dizia: "Ai, como o teu filho é pequeno, mas é, você também é pequena".  Então quando nós começamos a colocar o problema da desnutrição, a gente foi na casa, agora é sagrado, aquela mãe se interessa e as crianças já estão, claro que elas não vão desenvolver como se fosse uma criança acompanhada desde quatro, cinco meses de idade, mas dá para notar que elas são mais ativas, elas não são mais aquelas crianças quietinhas, paradinha, são mais ativas, elas brincam, quando tem as brincadeiras elas entram junto na brincadeira e antes elas eram meio colocadas de lado, e fora o problema que elas são duas crianças filhas de prostituta, então a comunidade dá aquele...

 

P/1 - Rejeita?

 

R - Isso, e agora a gente já está conseguindo mudar essa mentalidade da comunidade, graças a Deus essas crianças não estão mais sendo vistas de lado como eram antes, agora elas estão com a conversa, explicação.

 

P/1 - São filhos da mesma mãe?

 

R - Da mesma mãe.

 

P/1 - E quando o problema passa pela desnutrição, normalmente passa pelo dinheiro, pela impossibilidade de  comprar o alimento.

 

R - Isso.

 

P/1 - E como que você age nesse caso?

 

R - Bom, nós temos uma nutricionista, a Simone, ela trabalha na  STAS [Secretaria Municipal de Trabalho e Ação Social] e a gente faz avaliação da criança, repassa para ela e nós temos alimentação alternativa que funciona, são os farelos, os pós, o farelo da casca, o pó da casca de ovo, o farelo de trigo, o pó de arroz, são várias vitaminas que tem, a gente repassa para essas crianças e o leite.

 

P/1 - De que?

 

R - A gente passa o farelo e dá a orientação da mãe como usar, como preparar e usar, e o leite em pó, também.

 

P/1 - E como é que elas preparam esse farelo?

 

R - O farelo de trigo é torrado e é colocado no alimento, ou até no próprio mingau, faz com o leite e a criança come no bolo, no pão, no feijão e tem os pós que é o pó da folha de mandioca da abóbora, a casca do ovo a gente orienta para a mãe usar no suco, porque ele fica um pózinho meio incomodativo se colocar na comida, na boca, parece tipo uma areia, fica tipo uma areinha fina, daí a gente orienta a mãe para colocar no suco, a criança toma no suco de fruta e nem percebe. E os pós que a gente aconselha, quando o prato da criança está servido pega uma pitadinha, bota um pouquinho daquele pó, a criança come e nem vê o que ela está comendo.

 

P/1 - E esse pó é o que?

 

R - O farelo da folha de mandioca,  da folha da abóbora, do chuchu, são folhas verdes escuras e nós temos também a semente da melancia, que é torrada e moída, da abóbora, do amendoim, tudo é repassado para essas mães.

 

P/1 - E esses farelos de sementes, faz o que com eles?

 

R - Também utiliza quase da mesma maneira, nos alimentos.

 

P/1 - Faz bolo?

 

R - Isso´, faz bolos, coloca no feijão, no molho.

 

P/1 - Isso tudo é produzido aqui?

 

R - Aqui, aqui.

 

P/1 - Pelas nutricionistas da secretaria de saúde?

 

R - Isso, pela STAS.

 

P/1 - Pela  STAS.

 

R - Isso, pela STAS.

 

P/1 - O que é a STAS?

 

R - A STAS é... Ai, como é que eu vou te explicar agora.

 

P/1 - Você sabe o que significa essa sigla?

 

R - Ih, deu um branco agora (riso). A STAS é assim, é onde eles fazem… Por exemplo, tem uma casa, eles vão lá, dão o material, é a esposa do prefeito que administra.

 

P/1 -  Deve ser uma assistência social?

 

R - Isso, isso, é Assistência Social, não sei, eu não me lembro mais agora o nome, o que é a sigla mesmo.

 

P/1 - É ligado a secretaria de saúde, ou...

 

R - A prefeitura municipal.

 

P/1 - Também da secretaria de saúde?

 

R - Isso, aqui todas as secretarias trabalham em equipe, uma está ligada com a outra, não é aquele trabalho individual, eles sempre estão trabalhando em equipe, eu acho que até por isso que dá certo. Como eu estava te falando vem o leite, mas isso o município que banca. Nós temos o projeto PIÁ, mas é municipal, é assim: são crianças de rua, a gente diz crianças de rua porque não tem condições de... Ficam quebrando uma florescente, ou jogando pedrada em uma vidraça, a STAS recolhe essas crianças e trás para a STAS. Tem a horta municipal e essas crianças ajudam na horta. É repassado todo final de semana uma cestinha básica de alimento em troco do... Às vezes eles limpam o canteiro ou assistem uma fita de vídeo, estudam, brincam ali na praça, no centro, jogam bola e sempre com um responsável, um profissional acompanhando essas crianças, dá incentivo à escola para não faltar à escola, sempre incentivando as crianças para não parar de estudar, acho que é...

 

P/1 - Bom, e você se lembra de mais algum caso ou de alguma situação da sua região que você acha que vale a pena contar?

 

R - Tem o problema do idoso que eu acho assim... Hoje em dia a pessoa diz que o idoso é um zero à esquerda, está lá para incomodar, tem mais é que ir para o exílio, para asilo ou já viveu a vida dele, deixa ele lá quieto. Daí esses dias tinha um caso de um senhor, ele tem três filhos, os três não moram aqui, e ele era um senhor sozinho e acabou adoecendo de solidão, a solidão é uma doença (riso), é uma doença que mata. Como o meu bairro é bastante grande não tem como tu ir quase toda semana na mesma casa, quando eu ia lá...

 

P/1 - Como é o nome do seu bairro?

 

R - São João, então não tem como, por exemplo, tu fazer cada semana uma visita para um idoso, porque são vários, eu tenho bastante lá. Cada vez que eu chegava na casa desse senhor, ele dizia: "Ai, que bom que você chegou, eu não via a hora para que você chegasse pra gente conversar, pra dar risada, contar casos, tomar um mate, porque é a única pessoa que vem me visitar e que me faz feliz". Porque a gente chega lá, conta piada. De manhã a gente estava conversando lá, eu disse: "Olha, senhor Aristides, a sua doença também é solidão, o senhor está muito sozinho, o senhor é novo, está com recém sessenta anos, está na hora de arrumar uma namorada". Eles dão aquelas gargalhadas, aquelas risada, a gente fala que isso também é saúde, de vez em quando dar umas boas risadas também é saúde. E esse senhor acabou adoecendo, nós levamos o médico, enfermeira lá, ele até foi so hospital, ele não queria vim para o hospital, porque ele tinha medo de morrer sozinho e eu falei para as filhas, chamei elas e disse: "Olha, sem querer me intrometer nem nada, mas a única doença que o teu pai tem é solidão, está na hora de vocês darem mais carinho, mais atenção para ele, não é porque ele é velho que a gente vai deixar ele de lado, ele está com 79 anos” daí a filha colocou...

 

P/1- E qual era o mal que levou ele para o hospital?

 

R - Solidão mesmo.

 

P/1 - Eu sei, mas ele tinha alguma coisa física?

 

R - Ele começou com dores, dores por todo corpo e...

 

P/1 - Só que ele não tinha nada?

 

R - Não, ele não tinha nada realmente, ele começou: "Me dói aqui" e ele chorava de dor, quem via ele dizia: "Meu Deus, ele está morrendo" de vez, não é. Até esse dias eu falei para as filhas: "Bah, mas eu não posso, eu tenho crianças, eu tenho isso". Eu disse assim: "Você já pensou, se quando você era pequena você estivesse doente teu pai também te falasse: ‘Hoje eu não posso te levar no médico porque hoje eu estou muito ocupado’” E foi uma conversa... Depois eu comecei a pensar: "Bah, mas eu não tinha nada que ter falado" porque às vezes a gente se exalta, tu acaba falando algumas coisas que não deve. Mas depois eu cheguei em casa e comecei a pensar: "Não, eu acho que tinha que ser por aí mesmo, de vez em quando tu tem que pegar e dar uma boa chacoalhada para..." ela acabou levando o pai para morar junto.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Esses dias ela me ligou, eu disse: "E como é que está o teu pai?" "Graças a Deus ele está ótimo, brinca com os meus filhos, é um entretenimento". Eu disse: "Então, agora você me dá razão que a única doença que teu pai tinha realmente era solidão". Ele era uma pessoa sozinha.

 

P/1 - Ficava trancado em casa em um ponto que psicologicamente abalava?

 

R - É, assim como tem... A gente acompanha distantes e tem também vários casos, principalmente nessa vila, nós vamos hoje a tarde, agressão à mulher. Teve um caso de uma gestante lá,  também chamou muita atenção, a gente encaminhou, ela até fez queixa na delegacia, tudo, uma gestante que já está grávida de sete meses e cada vez que ela saía para vim fazer o pré-natal ela chegava em casa, o marido dela batia nela assim, terrivelmente, até que ela cansou.

 

P/1 - Alcoólatra o marido?

 

R - É, alcoólatra, até que ela cansou, ela me procurou, eu disse: "Não, se tu está disposta vamos fazer a denúncia, vamos… Eu posso até te acompanhar". Claro que a gente procura não se envolver tanto, porque corre aquela coisa assim: "Bah, mas fulano levou para delegacia, nós vamos ter que se cuidar porque ela vai levar nós também". Eu acompanhei ela, mas sem aquela coisa de.. "Eu vou na frente, depois te espero lá" sem aparecer. Ela veio, fez a denúncia, daí ele parou. Quando ele descobriu que ela estava grávida, porque até o momento ela não sabia, quando ele descobriu que ela estava grávida, ele deu tanto nela, deu tanto nela que escarrou sangue pela boca, pelo nariz, os olhos dela ficaram horríveis, pelos ouvidos. Ele dizia que o filho não era dele, que isso, que aquilo...", porque geralmente alcoólatra quando bebe é isso que acontece. Hoje a preocupação em cima dessa mãe… Ea continua lá, porque não tem para onde ir, ela já tem dois filhos, já está esperando o terceiro, não tem para onde ir, porque nós não temos onde abrigar essas mães no município e gera um custo muito grande também para, para ter, por exemplo, uma casa para abrigar essas mães, elas acabam ficando na casa, acabam apanhando de novo e essa é a rotina delas, a gente até fala: "Mas sai da..."



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+