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História

Um voluntário a serviço da cultura de paz

História de: Luiz Henrique Froner Souza Góes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/11/2014

Sinopse

O dentista e voluntário Luiz Henrique contou em seu depoimento ao Museu da Pessoa parte de sua história. Lembrou a sua infância, as brincadeiras e os primeiros estudos. Ao se decidir pela profissão de dentista, espelhando-se no seu pai, Luiz conta que ingressou na USP de Ribeirão Preto. Na cidade, estagiou atendendo crianças carentes em uma igreja e despertou a vocação para o voluntariado. Ao voltar a São Paulo e ingressar no mercado de trabalho como dentista da Siemens se interessou em fazer cursos de filosofia na ONG Palas Athena. Luiz relembra a decisão de virar oficineiro voluntário da ONG, ministrando cursos sobre a cultura de paz, tendo os ensinamentos de Gandhi, Martin Luther King e Dalai Lama como base. Em seu depoimento ele conta também uma experiência mística que teve em uma viagem na Índia e encerra sua história falando da importância do Criança Esperança para o financiamento de um projeto do Palas Athena.

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História completa

Meu nome completo é Luiz Henrique Froner Souza Goes. Eu nasci em São Paulo, São Paulo capital, em 18 de novembro de 1963. Meu pai chama Leonan Luiz Souza Goes. Ele nasceu em Barretos, São Paulo. E minha mãe também nasceu em Barretos. Ela chama Maristela Goes. Minha mãe foi professora de geografia, formou-se em Geografia, História e chegou até iniciar aulas. Ela se formou na PUC em São Paulo. E o meu pai é dentista.  Meus pais sempre foram muito alegres.  Eu tenho dois irmãos. Mariângela Froner Souza Goes e meu irmão Carlos Henrique Froner Souza Goes. O meu irmão Carlos tem hoje 45, a minha irmã 51. O Souza Goes vem da Ilha da Madeira, de Portugal, também antes de bisavô. Mas dos bisavós pra cá todos brasileiros. Foi uma infância de muita brincadeira de rua. E muitas viagens também. Mas a minha casa especificamente era muito legal porque era uma casa pequena, dois quartos, num quarto ficavam os filhos e agregados, no caso, por exemplo, eu tinha primo que morava comigo que o meu tio faleceu cedo e um dos primos veio morar comigo.

Fiz o primário no Pequenópolis e daí fui pro Porto Seguro. Essa transição teve uma coisa bem marcante que foi também uma mudança de casa. Eu saí dessa vila, desse microcosmo e já fomos morar no Morumbi numa casa grande, com um quintal enorme, jardins e era próximo do Porto Seguro, muito próximo. Como eu sempre fui ligado a esporte, quando chegou na época do vestibular, na minha certeza da época, eu queria fazer Educação Física. Eu cheguei a prestar a Educação Física, meus pais sempre deram liberdade pra eu poder estudar, fazer o que eu quisesse. Cheguei a prestar e passar na USP em Educação Física, fiz os testes e tudo, mas na hora eu tive aquele clique e falar: “Mas isso é um hobby. Será que eu quero mesmo?”. Fui conversar com o professor de Educação Física do Porto Seguro. Será que é isso mesmo que eu quero? E todos me falaram: “Luiz, você gosta de esporte e isso é uma coisa. Ser professor de Educação Física é outra coisa”. E nisso eu negava, aquela negação adolescente, da influência do seu pai, mas eu gostava de odontologia, eu sempre gostava de ver meu pai trabalhar. Eu ia pro consultório, ficava ajudando ele manipular o amálgama, fazer aquelas coisas, desde criança, mas eu tenho a fase da negação, não quero ser que nem meu pai, que ele já tem a profissão dele. Fui totalmente, logo em seguida que eu decidi, foi a primeira coisa que eu fiz: “Vou ser dentista”. Tomei essa decisão, fiz um ano de cursinho, porque eu tive que fazer cursinho, e entrei na USP em Ribeirão Preto. Foi ótimo também, é uma profissão que depois a gente pode até falar, mas eu adoro essa profissão, é uma profissão muito legal. Eu acho que foi uma das melhores fases da minha vida porque Ribeirão Preto é uma cidade muito interessante. Uma cidade quente, alegre, e você ser estudante fora de São Paulo, a 300 quilômetros de São Paulo, na época também era muito legal, porque você não vinha pra São Paulo. Eu passava um semestre e vinha duas vezes, três vezes porque tinha que estudar o final de semana. E morar em república, outra fase interessantíssima, porque você começa a dividir o quarto com mais dois, dividir a cozinha.  A gente morava em seis.

Eu procurei trabalhar em instituição. Lá eu tive o meu primeiro contato com trabalho voluntário. Trabalhei numa igreja como dentista e também foi muito legal, durante uns seis meses eu ia à igreja trabalhar com as crianças, ainda como estudante. E também, logicamente depois a gente acaba sempre tendo que fazer um estagiozinho, mesmo que seja no consultório do seu pai, mesmo que você já está na hora de chegar a conclusão do curso. Mas o meu primeiro contato mesmo foi lá em termos de triagem, educação de ensinar crianças a escovar dente. Desde o primeiro ano de faculdade a gente foi incentivado a isso. Logo no começo de profissão eu fui trabalhar na Siemens junto com uma clínica de dentistas que atendiam na Siemens. O que acontece? Todos os que estavam ali tinham pelo menos dez anos de profissão e eu recém-formado mesmo. Eu me formei em dezembro, no dia 26, e comecei a trabalhar quatro de janeiro na Siemens. Eu fiquei quatro anos. O momento talvez mais importante da minha vida tenha sido morar em Ribeirão Preto, república. Porque um dos meus amigos de república, de Bauru, mas ele já era assim eu diria espiritualmente evoluído. Ele já era um cara que estava mais ligado, enquanto eu estava pensando em coisas banais ele já tinha todo um envolvimento e ele me falou, logo depois que a gente estava se formando ele falou: “Luiz, você tem que conhecer a Palas Athena, que lá você vai estar”.  A Palas Athena na verdade tem 35 já ou mais, 38 anos de existência e no começo era uma escola, praticamente um centro de estudos filosóficos. Era um local pra se estudar filosofia. O envolvimento hoje da Palas Athena, 28 anos depois, é praticamente em 68 projetos que a gente toca e fez e acontece, desde prefeitura no Pará até polícia militar com cultura de paz em São Bernardo do Campo. Então técnica de meditação pra médicos em Santo André. Então são projetos que acabaram crescendo. É uma ONG corretíssima em que você tem desde uma editora, que a gente edita livros do Dalai Lama, trouxemos o Dalai Lama, quem traz o Dalai Lama para o Brasil todas as vezes é a Palas Athena. Então fazemos palestras com personalidades.

Eu tinha ido numa Fundação Casa na unidade Itaquera e durante a palestra, eu lembro que foi uma palestra muito difícil, os meninos tinham acabado de sair de uma rebeliãozinha, uma coisa assim, então tava um clima um pouco bélico e eu insisti, eu insisto sempre. Porque falar Gandhi você tem que insistir, depois ele faz luz, mas no início você tem que insistir. E eu subia na mesa, eu andava de um lado pro outro e os recursos sempre foram muito pequenos pra falar de Gandhi, era uma televisão, hoje graças a Deus as coisas melhoraram muito, eles recebem o trabalho de Gandhi com telão. Já me oferecem muito mais recursos. Mas era a televisão, o filme do Gandhi com alguns trechos que eu selecionei e falando, falando. O foco não é atingir a todos, não tenho essa pretensão, mas no final eu vi dois olhinhos assim, dois, três brilhando muito e um dos garotos veio pra mim e falou: “Poxa, tio, que legal. Esse Gandhi fez isso...”. E começou a perguntar. Fez, aí tal, e como é que foi isso? Foi isso. E nisso esse garoto se mostrou muito especial e eu tenho, a gente costuma ir com a biografia do Gandhi que é um livro Autobiografia do Gandhi, que é editado inclusive pela Palas Athena editora. E tinha lá, eu cheguei pra diretora, falei: “Isso aqui fica pra vocês”. Hoje a gente já também sempre dá um livro pra unidade. Enfim, foi ótimo. Saí satisfeito, percebi aquela criança. Seis meses depois eu estou indo com a condução da Fundação Casa pra uma unidade outra no Brás, quando tem uma funcionária fala: “Você não é o Luiz do Gandhi?” “Sou, tal.” “Nossa, eu sou diretora, fui diretora da unidade Itaquera.” “Ah, então.” “Puxa, Luiz, eu queria te falar, lembra aquele garoto no final da palestra que falou com você?” “Lógico que eu lembro, ele ficou super interessado e tal.” “Pois aquele garoto saiu da unidade e na hora que ele saiu ele escreveu uma carta e na carta ele fala de um dia um homem veio e mudou a vida dele”. E nesse dia eles acompanharam, esse garoto até hoje é um menino perfeito e ele nesse momento mostrou todo o efeito de que é você tentar não apagar o incêndio de uma floresta, mas levar a gotinha. Então foi uma cena muito marcante, eu me emociono ao falar disso, mas nesse dia da Kombi, que era uma Kombi, eu comecei a chorar no meio da Kombi, todo mundo: “Calma, Luiz, não, desculpa, tal”.

Mas é impressionante realmente porque nenhum trabalho é mensurado com o resultado do que você muda, mas um que muda é um que já fez a diferença. Eu tenho feito, por exemplo, eu fiz vários projetos ligados a cultura de paz. Então desde projetos como, por exemplo, CEU, Semana Gandhi, em que eu vou pra escolas públicas falar, mostrar vídeo também de Gandhi, mas também falo de Martin Luther King em outros projetos também. E atualmente eu faço um trabalho junto ao EJA que é essa antigo Mobral misturado com supletivo em que também montei um projeto, junto com a ajuda da Palas, que a Palas incentiva muito esse trabalho, um projeto voluntário em que eu dou uma aula mensal pra esses idosos, pra essas pessoas mais velhas, que eu escolho um tema de filosofia, um tema da vida, do cotidiano pra falar pra eles naquela horinha e meia que eu fico com eles. Então são temas muito interessantes, eu escolho felicidade, eu escolho temas como o belo, viver e o morrer, temas como política, agora véspera de eleição eu falei sobre ética e política. Eu trabalho no EJA com cerca de cem, de 80 a 120 numa palestra que eu faço lá. Mas assim, especificamente teve uma coisa muito engraçada, a empregada da minha irmã vai no EJA então é tão engraçado porque eu já encontro, convivo na casa da minha irmã, encontro com ela. E eu percebi uma mudança nela muito legal.

Quando eu viajava pela Índia, foi quando eu estava de bicicleta, eu sempre que vou pra um lugar, desde 20 anos, mais, eu procuro achar bicicletas, porque pra mim é o meio de transporte que eu uso até hoje. Mas na Índia eu achei e aí eu tava numa cidade de Jaisalmer, fronteira com o Paquistão, deserto. Peguei uma bicicleta e fui pro deserto. Deserto, deserto, deserto, até que fura o pneu da bicicleta, o da frente e o de trás, naqueles espinhos de deserto e volta, tem que voltar pra cidade, o dia vai escurecer e eu vejo um templo pequenininho no alto de uma duna de uma montanha. E aí quando eu chego cansado eu largo a bicicleta e subo as escadarias do templo e o templo era como se fosse uma capelazinha minúscula, né? Aí eu estava tão cansado que eu já sentei, tinha um alpendre grande assim e eu deitei e dei uma cochilada eu acho que de uns dois minutos. No que eu acordei tinha um prato de comida. Juro-te, não é mentira. Tinha um prato de comida quentinho na minha frente, colocado do lado ali no alpendre. Eu fiquei estático assim, fiquei impressionado, mas na primeira reação, eu não sei se era porque... Foi realmente comer, agradecer ao nada. Depois eu fiquei muito curioso, falei: “Mágica não existe assim”. E aí existia um monge que vivia atrás desse templo, uma micro cozinha, e que ele só fazia isso, ele vivia pra cuidar daquele templo e cozinhar pra se viesse alguém. Então isso é um hábito muito comum dentro do hinduísmo, Krishna, todos eles têm.

Na verdade é assim, de conhecer o Criança Esperança eu conheço há bastante tempo. Logicamente como todo brasileiro é pela televisão mesmo, só aqueles eventos, festas em que você passa durante muitos anos da sua vida pensando que era só aquilo que era o Criança Esperança. Talvez seja uma sugestão pro Criança Esperança de aumentar o conhecimento das ações que o Criança Esperança tem que não é só o show do Criança Esperança. Então eu passei muito tempo pensando que era isso daí, mas eu não sabia que era muito maior. E como a Palas Athena sempre teve ligada a projetos... Sempre não. Como eu te falei, a gente evoluiu pra ser uma ONG que trabalha com assistência, cultura de paz, nós tivemos um convite, a Palas Athena mesmo pelo Criança Esperança pra fazer um projeto, um projeto específico em determinada escola. Na verdade eu não lembro, faz muito tempo já, se não me engano foi 2008, então eu não lembro especificamente o local, mas era pra desenvolver ali um plano de aplicação de cultura de paz.

Então eles fizeram que nós da Palas Athena tivemos a carta branca do apoio do Criança Esperança pra escolher os temas, escolher os professores, o período, o período era mais ou menos pré-determinado, e colher os frutos disso. Então foi um projeto incrível porque enquanto eu estava indo pra falar sobre Gandhi, pra falar sobre os ideais de Martin Luther King, na outra semana tava indo outro pra falar de ética, pra falar de cultura de... E outro professor, então ficou uma corrente, um projeto incrível, muito bem descrito, muito bem desenhado e executado que nós fizemos em convide da Unesco e Criança Esperança. Porque somos parceiros, a Palas Athena é parceira da Unesco há muito anos e nesta parceria entrou esse convite do Criança Esperança. O meu papel foi muito gratificante, que falar de Gandhi e os ideais dele pra essas crianças, esse CEU, essa escola, foi muito importante, muito mágico também pelo fato de ter alternativa. Eles têm alternativa que não seja um caminho de violência pra conseguir as coisas, um caminho único, o poder. Não. O poder pode ser o oposto desse poder que você acha que é que a violência te traz. Então isso tudo, esse projeto Criança Esperança foi incrível porque ele nos deu a liberdade de montar esse projeto nas bases de cultura de paz. Então foi muito legal a experiência mesmo.

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