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História

Um visionário do guaraná

História de: Waldo Mafra Carneiro Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

As brincadeiras de infância, encenando guerra entre índios e as corridas de cavalo montam o cenário do depoimento: floresta, rio, Amazônia! Amante dos esportes, Barrô conta o caminho que o levou a cursar Educação Física e também o abandono à profissão. Amante do guaraná, assumiu a plantação do pai e até hoje se dedica à arte artesanal da produção do pó de guaraná, junto com a atividade de turismo e artesanato na região. Contra o “guaraná clonado”, Barro faz uma reflexão sobre a produção do guaraná hoje no Brasil.

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História completa

O meu pai teve várias atividades. Primeiro foi pescador, numa época em que se matava muito animal silvestre, mas a caça dos jacarés e lontras era proibida. Depois meu pai foi tirar pau-rosa e plantar guaraná. Minha mãe sempre trabalhou no serviço doméstico, mas também fez um curso de permanente, como era chamado aqui naquele tempo. Ela foi uma das primeiras cabeleireiras aqui de Maués (AM). Ela colocava os cabelos das pessoas em permanente. Ela tinha essa atividade e depois também abriu comércio. Foi comerciante por muitos anos.

 

Meu nome é Waldo Mafra Carneiro Monteiro, mas me chamam de Barrô desde criança ou, como a gente chama aqui, desde curumim. A gente jogava futebol na rua e na praia e eu sempre fui um jogador razoável. Aí, começaram: “Ele barrou o fulano, ele barrou...” E aí ficou! Até hoje eu sou conhecido como Barrô. Tem muita gente que me conhece mais com esse apelido do que com meu próprio nome.

 

Nós somos em quatro irmãos, todos homens. Eu sou o terceiro. Posteriormente, meus pais adotaram uma menina. Então nossa família é composta de cinco pessoas. Nossa infância foi muito tranquila porque, naquela época, a luz apagava às 10 horas da noite. Nós brincávamos muito. Não tinha maldade, não tinha computador. A gente brincava muito na praia de luta de espada, de guerra de índio. A gente armava as nossas flechas, os nossos arcos e ia brincar na praia, ficava ali atirando um no outro, se fazia de morto e era eliminado da brincadeira. E assim crescemos, nessa brincadeira sadia. A gente fazia assim: vocês são os Mundurukus, nós somos os índios Sateré-Mawé. Ou vocês são os Mura ou os Tupinambás. E formava a brincadeira! A gente guerreava, uma turma contra outra turma de outra rua. A gente se digladiava, mas era uma brincadeira sadia. Ninguém guardava mágoa, tudo terminava ali mesmo. A gente brincava muito também de corrida de cavalo. A gente tirava umas pequenas varas e saía correndo. Brincava muito também de bola. Essas eram as brincadeiras naquele tempo.

 

Na minha juventude, sempre pratiquei esportes, joguei futebol, basquetebol, boxe. Como aqui não tinha professores qualificados de educação física, fui convidado para dar aula. Aceitei e comecei a trabalhar com educação física. Depois veio o primeiro vestibular que teve da UFAM [Universidade Federal do Amazonas], aqui em Maués, para educação física, eu fiz e passei. Então tenho formação acadêmica. Depois deixei de dar aula porque achei que não era vantagem ficar dando aula. Economicamente, professor ganhava muito.

 

Quando foi uma vez, apareceu um italiano batendo na porta da minha casa. Ele estava escrevendo um roteiro turístico sobre o Brasil, o Amazonas, e chegou até aqui, em Maués. E veio com uma carta, recomendado de uma prima minha que mora em Manaus e que tinha conhecido ele, pedindo hospedagem para o papai, para ele ficar uns quatro, cinco dias no máximo. Papai acolheu. Ele veio para casa e começou a me mostrar a importância do turismo. Em Maués não tinha ninguém trabalhando com isso. Foi quando a gente começou a trocar idéias e ele me mostrava os prós e contras, o que era bom o que não era. Ele veio passar cinco ou seis dias e passou quase 20. Aí que eu passei a me interessar mais por essa atividade em conjunto com o artesanato, porque minha esposa é professora de artes. Ela dava aula de educação artística e ensinava numa instituição chamada Iebem [Instituto Estadual do Bem Estar do Menor], que tinha aqui em Maués.

 

Ficou certo com esse italiano que ele traria os turistas. A idéia era essa: ele viria da Europa, sairia da França para Belém. De Belém para Manaus, viria para Maués. De Maués faria Parintins, daí para Santarém. De Santarém para o Pantanal e depois para São Paulo. E dali voltaria para Europa. Estava detalhado mesmo. E eu ia operar com ele essa parte de Maués até Parintins. Isso me fascinou. Eu sou o pioneiro aqui em Maués de trabalho com turismo.

 

E paralelo a isso, eu tocava também o guaranazal do meu pai. Fazia colheita, vendíamos o guaraná, excelente, isso no início do ano 90. Eu nunca gostei do guaraná clonado. Eu prefiro o guaraná tradicional. Porque, no meu entendimento, eu acho que ninguém tem nada o que aprender com quem vem de fora para plantar guaraná. Muito pelo contrário. As pessoas que vêm de fora é que têm que aprender porque guaraná é uma planta nativa. Ela foi domesticada pelos índios. Os índios é que trouxeram da floresta e transformaram em arbusto, mas em pequenas roças. O branco é que inventou de aumentar a produção. Mas o índio, até então, não fazia guaraná para vender. Fazia para consumo. Para ele beber. É um alimento dele. Aí o branco veio e quer uma produção em escala, não conseguiram até agora e não sei se vão conseguir. O que eles já estudaram, já gastaram. Por quê? Porque eles mexem com o crescimento da planta, mexem com o adubo químico, botam um monte de coisa no guaraná e até agora não vi resultado. O clonado é mais um que está passando aí.

 

Eu faço assim: dou tratamento. Boto na peneira, tiro o miúdo, tiro o graúdo, bato, porque eu faço questão de ser artesanal mesmo. Não quero industrializar meu guaraná. Eu falo para todo mundo aqui: “Não vendo guaraná, vendo cultura”. Eu não boto metal, não boto ferro no meu guaraná, não. Ele é todo manual. Ele industrializado, botam na descascadeira, botam na popa, contato com ferro. O meu guaraná não. Ele é torrado em barro e catado com a mão! Eu trago para casa, bato na peneira, seleciono tudo. Tiro aquelas sementes que estão mais ou menos uniformes e as que estão queimadas, que a gente chama de pretinho, e tiro tudo. Deixo só mesmo aquelas que estão bem torradas. E você fala: “Como tu conhece a que está bem torrada?” Eu conheço porque provo. Pego a semente e engulo. Aquilo ali no estalo aqui do dente, na boca, eu sei se está bem torrado ou não. E sei se está boa e separo. Assim vou selecionando.

 

A lenda do guaraná tem duas versões. Tem uma da Cereçaporanga que é a mais conhecida, a mais popular, que dizem ser escrita pelo homem branco. Essa lenda sempre foi encenada por ser mais fácil de executar a dramatização dentro do palco, porque é uma espécie de Romeu e Julieta, adaptado aqui para o meio da selva. Mas de tanto a gente cutucar e bater, houve uma conscientização em cima. E eles resolveram contar a lenda dos Sateré-Mawé e ficou uma coisa bem melhor.

 

Quando a gente trabalha com guaraná e consome guaraná, tem amor a ele, muito mesmo, sabe? É uma coisa que passa para gente. Cada ano que passa, cada tempo que passa, ele vai ficando mais famoso. E acredito que ele é e ainda vai ser um alimento bem procurado e bem consumido no planeta.

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