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História

Um vida dedicada ao trabalho

História de: Raimundo dos Santos Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2013

Sinopse

Raimundo nasceu no Maranhão e aos 13 anos migrou para o Pará. Em seu depoimento conta sobre suas andanças pelo Pará e Acre, onde trabalhou como seringueiro e na colheita da castanha. Recorda o trabalho que teve como padeiro em Santarém. Casou-se duas vezes, tendo ao todo 18 filhos. Lembra como começou com um mercado para vender produtos para o empreendimento do Jari e como os filhos e a esposa o ajudaram nessa tarefa. Seu sonho é poder voltar a sua terra natal e reencontrar os parentes que lá deixou.

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História completa

Nasci no dia 15 de novembro de 1931 em Caxias, Maranhão. Meus pais são de Caxias, meus avós também. Naquela época minha avó, por parte de mãe fazia panelas. Preparava o barro, preparava a panela, prato, colheres, candeia, tudo era de barro. O meu avô preparava fumo. Nós trabalhávamos com fumo, adubava a terra, com enxadas e preparava fumo e nós vendíamos. O meu pai me teve, criei vendendo fumo, frutas, laranja, tangerina, lima, na nossa propriedade. Os meus avós maternos, trabalhavam na mesma profissão. Meus pais se casaram em Caxias mesmo e moraram lá. Era no lugar chamado Rio Seco. Eram seis irmãos. Uma irmã e cinco irmãos.

Eu era o mais velho. A casa era barreada, tinha uma sala, um quarto e uma cozinha. Os filhos dormiam na sala, a minha mãe com a minha irmã dormia no quarto. Meu pais colhia sal também, na salina para vender na cidade. Preparava o fumo e vinha para cidade a cavalo. Naquele tempo vinha a cavalo, não tinha estrada, era só caminho mesmo. Vendia na cidade de Caxias. Naquele tempo era na cidade, hoje parece que é a capital. Minha mãe fazia a mesma coisa, fazia louça de barro, fazia farinha de tapioca, fazia farinha d’água para nós comer. Naquele tempo mulher não piava, só era o homem que resolvia tudo. Mulher não falava não, só cuidava do filho e da boia. Eles eram carinhosos.

Muito carinhosos com os filhos mesmo, nunca meu pai teimou com a minha mãe. Naquele tempo, se respeitavam os dois. Nós somos católicos. O padre ia fazer missa, dizer missa, batizado, fazer batizado, casamento. Na cidade, ele pegava o cavalo e ia na cidade. Eu entrei com dez anos na escola. Nós ia de pé, juntava os primos tudo, os parentesco e ia de pé para escola. Umas duas léguas, difícil, tudo era difícil, mas ainda tenho a terceira série. Naquele tempo, não tinha diversão, entrava na escola, era todo mundo calado. Não tinha este negócio de recreio, grita para cá, não. Tudo era calado. Eu gostava era de estudar. Parei porque não tinha meio mesmo para estudar mais.

Ela só ensinava até a terceira série, foi o tempo que eu vim para o Pará. Eu vim trabalhar para o Pará cortar seringa. Tinha treze anos. Naquele tempo comia era peixe, tainha, mel, murijuba, um peixe chamado jurupiranga, bagre e ainda tinha o peixe bagralhão. Tinha muito, era muito farto nesse tempo, muito farto. Carne era mais difícil. Desde 8 anos, se podia trabalhar, eu estava ajudando a capinar, plantar. Ajudava muito o meu pai, só era ele e eu e Ione, nós dois, depois que ele foi produzindo. Plantar fumo, o cara aduba a terra, vira a terra todinha na enxada, depois de virar, plaina ela e leva as mudas de planta e depois vai colher.

Nesse tempo comprava mais era com pataca e vintém. Pataca era a moeda antigamente que tinha. Pataca, vintém. Eu cansei de comprar açúcar, não existia açúcar branco, era só açúcar morena. A gente ia e levava uma pataca e comprava um pouquinho de açúcar. A gente morava em uma fazenda. Nós tinha a casa e tinha a capela e tinha a escola. Três moradias, a escola que era longe e a capela. Era do meu pai. Se ajuntava para preparava os vizinhos tudo. Era uma comunidade. Os tios tudo era vizinho. Com 13 anos eu vim só para Santarém. Primeiro eu vim para Belém. Falavam muito que no Pará tinha dinheiro, principalmente Santarém.

Eu fiquei pensando em pedir para o pai. Os velhos contavam história um com o outro. Quando os velhos contava história, puxava fundamento, falava muito no Pará, que era bom, isso e aquilo outro. Eu ficava pensando: “Eu vou ganhar dinheiro para trazer para o meu pai”. Eu vim em costa de burro, jumento. Naquele tempo era jumento, era na costa de jumento, para um lugar chamado Cururupu. De Cururupu, eu peguei e vim para um lugar chamado, perto de Viseu. Eu não conhecia ninguém. Cheguei e fui trabalhar. Lá eles procuravam muito rapaz novo, assim para vender pão. Aprendi a fazer pão. Só fazia o pão com ele, tinha os molequinhos que vendia. Eu morava na casa do patrão mesmo, do padeiro.

Depois eu ganhei uma boa ponta e eu vim para Santarém, fui cortar seringa, riscar seringueira, tinha uns 18 anos. Passei uns quatro anos vendendo pão com ele. Eu ainda fui com outro rapaz cortar cana, uns dois anos cana com ele. Não me correspondia com a familia. Não tinha por onde mandar, vinha em costa de burro, depois para voltar era difícil. Sentia muita saudade, ganhei muito dinheiro para querer voltar, mas não voltei mais, não. Eu só ia cortar e ia dormir no quarto. Cortava cana o dia todo, quando era de tarde eu vinha, pagava, terminava o serviço, ele pagava. Foi quando eu arranjei dinheiro e vim direto para Santarém, por causa do negócio da borracha, que falavam em seringa. Santarém era uma cidade grande. Fiquei dois anos em Santarém. Lá eu arranjei um quarto. Diversão era festa. Tinha muita festa.

Quando acabava o dinheiro, eu ia embora para o alto de novo. O alto era onde cortava seringa, Tapajós. Tinha uma companhia do Henry Ford, chamado Fordlândia e Belterra. Fiquei em Fordlândia, cortando seringa. Na borracha eu passei muito tempo, cortando. Devo ter passado uns 15 anos, mais ou menos, cortando seringa. Não ajuntei dinheiro por que eu gastava tudo. Neste tempo não tinha briga. Eu cortava a noite, eu gostava de cortar à noite por causa do leite, para não ventar, para secar o golpe que a gente dá na seringueira. Dá um golpe que a gente dá e coloca a tigela. Então, se ventar muito, seca. Saia às sete horas e chegava de madrugada, já trazendo leite. Ia aqui numa estrada, quando fazia o rodo, eu tornava a me cortar, daqui eu já ia colhendo, quando eu chegava na ultima tigela, já vinha com o balde cheio de leite. Fiquei dez anos no Acre. Tinha muito índio, naquele tempo só se encontrava com índio. Tanto no Tapajós como no Acre. Nós trabalhava para nós mesmo.

Agora vendia o leite para os patrões. Era um senhor chamado Bernardinho, comprava o leite, entregava, levava. Tinha vários. Comprava castanha. Também tinha a fábrica da castanha de inverno, colhia castanha no alto. Terminava a seringa de verão e entrava para castanha. Nós que tinha o apelido de soldados da borracha. Porque cortava seringa, era o mesmo soldado da borracha, quem cortava seringa era o sodado da borracha. Era difícil mulher também. Quando eu me casei, no Xingu, eu procurei logo trabalhar, com a minha terra. Depois baixei por Tapajós, e do Tapajós e para o Xingu. Tapajos é um rio muito grande, muito grande o rio, tem muito seringa, muita. Lá tinha minério também, mas eu nunca fui para o minério. Muita seringa, tinha muito seringueiro. E eu trabalhei uns dois anos mais ou menos. Morava no mato mesmo, em barraco. Via muito queixada, muita anta... Bastava dar um tiro, eles corriam tudo. Conheci minha mulher no Porto de Moz, uma cidade, no Xingu. Conhecia só uns dois rapaz.

Fui dar um passeio e eu topei com ela na rua. Me agradei dela e fui com o pai dela falar. Gostei só de olhar. Olhei, fui pedir para o velho. O velho, naquele tempo, era tudo ciumento das filhas. Eu falei com ele. Ele me deu a filha para casar. Passei uns 15 dias, tornei ir na casa dele. Falei serio mesmo, ele me arranjou a filha, eu casei. Teve uma festinha para os parente dela, porque eu não tinha parente. Não tinha como chamar meus pais. Eu comprei uma casa me Porto de Moz. Fui morar com ela na cidade. Depois eu me empreguei com um cara, depois de uns dois anos, ele me chamou para tomar conta de um terreno dele, umas fazendas.

A fazenda era do outro lado do rio, é um rio grande. Fui para lá morar. Passei 25, 22 anos trabalhando com ele, tomando conta do que era dele, depois fui procurar trabalhar para mim. Todos meus filhos são de Porto de Moz, só tem dois que é daqui, os dois gêmeos, nasceu para cá, na região do Jari. Foi quando o gerente do banco foi no meu roçado, depois que eu saí da fazenda, abriu o terreno e disse: “Olha, você tem que ir trabalhar no Jari, na estrada nova, que é a terra para você trabalhar”. Arrumei tudo os filhos e viemos embora. A primeira mulher foi cinco filhos. Francisca morreu e eu casei com a outra. Ela morreu de parto, o bebê morreu com ela.

Eu demorei um ano para casar. Conheci em Porto de Moz. Depois que ela morreu, andando por lá, que eu trabalhava em fazenda, eu conheci, passei na casa do pai dela, conheci ela. Eles não queria não, porque eu tinha cinco filhos. Depois, eu falei com ela, disse: “Ah eu vou para lá com você, se você casar comigo” “Eu caso”. Eu fui com o velho, ajeitei o velho, casei com ela. Até hoje, eles chama tudo de mãe para ela. Eu trabalhava em roça. Foi quando o gerente do banco foi e disse para mim que era para mim vir para cá. Tinhas uns 12 filhos, no total são 18. Tinha cinco, mais 13. Nós só tinha 11, os dois já foi para cá. Vieram tudo numa jangada para lá.

O negócio melhorou, porque era muito braço. Comprei terra dos caras que morava aqui mesmo. Tinha uns donos antigos, eu comprei uma de um cara chamado Vicente, outro chamado Francisco. Foi o tempo que os filhos foi crescendo e eu fui comprando terra para eles. Não tinha nada, tudo era mata. O pessoal começaram a entrar, eu entrei também. Comprei este lote aqui, comprei mais outro para um filho e na frente eu comprei quatro. Tem quatro filho colocado. Nós fomos trabalhar com banana, para Jari, plantamos banana, todo tipo de verdura, macaxeira, mamão Havaí, cebola, tudo tipo de que a Jari precisava no mercado, nós plantava.

O carro entrava para vir pegar. Vendia para Jari, firma. Eram quatro supermercados que ela tinha, eu abastecia. Olha, Jari, naquele tempo, era uma fartura muito grande. Mercado grande, muita coisa, pagava no dinheiro também. Trabalho também para o restaurante de vez em quando levo: alface, jurumum, mamão Havaí, macaxeira, tomate, laranja, limão, açaí, tudo nós leva. Os filhos são tudo filho formado. Tem duas formadas, tenho um filho formado, é doutor, doutor Geraldo, ele está até para Espanha. Formou-se matemática.

Um é formado em técnico industrial, o outro é técnico florestal, a outra é enfermeira, a outra vai se formar, eu nem sei que ela disse, ligou para mim, não sei nem quando foi que ela, ela escolheu. E o resto, tem quatro que é fazendeiro. Tem um gadinho para cima. E tem um que trabalha comigo, casou-se e ficou comigo aqui. Tem o Zitito é da minha nora, que mora comigo e os dois é de um filho meu. O maior desafio foi trabalhar e ganhar o dinheiro. Trabalhar, graças a Deus a Jari, nessa parte, o povo que trabalha com ela ganha, todo mês, paga, toda vez eu levava, pagava no monte e eu fui comprando as terras.

Então foi lugar melhor que eu já achei, foi nesta região, para criar os filhos e viver. Olha aqui tem barro roxo, essa terra que eu trabalho é terra preta. É o barro roxo Ainda tomo conta de tudo, a gente faz os negócios, chega aqui o carro, quando vem, apanha tudo e a gente leva. Quando não, a gente leva um bocado para feira, outro leva para o restaurante. De 15 em 15 dias a gente vai na cidade, compra, faz a mercadoria, traz tudo. Carne quando a gente quer comer um bicho à vontade, vai pega um mamote, abate. Quando não, traz de fora, tem tudo. Fartura, compra e traz para cá. Seis e meia nós estamos de pé.

Minha esposa ajuda. O tempo todo está me ajudando, desde o começo. Tanto pagar escola, custa 300 reais por mês, são dois, tem um quarto, que nós paga aluguel também e o rancho. Agora, eles estão de férias para cá. Ela que me ajuda. Para plantação, até o mês passado, a gente tirava três mil e pouco por mês, até quatro mil nós fazia por mês. Eu sou aposentado. Eu com ela. Nunca vi ninguém da minha família. Não recebi cartas. Eu quero ir, eu vou atrás deles agora, depois que os filhos estiverem colocados tudo. Vou levar ela. Muitos anos, mas eu vou, para nós vai ser um prazer chegar lá. Meu maior sonho que eu tenho agora é colocar do jeito que está tudo no jeito ai. É pegar minha velha e ir no Maranhão, na minha terra. Meus pais vê se ainda estão vivos ainda. Vou encontrar sim, os parentes, irmão, irmão eu vou encontrar.

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