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História

Um verdadeiro palco de glórias

História de: Adin Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/07/2011

Sinopse

Adin Costa começa a sua narrativa lembrando-se da extrema pobreza em que passou na infância. Conta sobre os lugares por onde morou, dos hábitos e bons costumes das cidadezinhas interioranas. Fala sobre seus pais, irmãos, casamento e filhas.  Autor de mais de quatro mil crônicas e de sua autobiografia, do qual prefere se chamar de depoimento vivo, Adin abandonou a profissão de dentista e tornou-se um radialista respeitado e amado, sendo o primeiro brasileiro a se formar como jornalista, que cursou na Faculdade Cásper Líbero. Critica o sistema atual de rádio por ter receio em radicalizar as programações presentes e conta ainda sobre o poder que o microfone tem. Hoje luta para expor uma programação que envolve música clássica ou música lírica e fazer com que os índices de audiência para as classes A e B sejam completamente diferente daquilo que existe.

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História completa

P/1 -Para começar eu queira que o senhor falasse o seu nome completo, o local e a data de nascimento?

R -Adin Costa. Nasci em treze de novembro de 1928. Cidade interiorana de Ipaussu, bem próximo a Ourinhos. E essa situação de ter nascido no interior é simplesmente um episódio pequeníssimo na minha vida, porque na realidade eu tenho tido uma vida de caráter paulistano. Paulista sim no sentido de nascimento. Paulistano no sentido de vivência. E a vivência, se eu estou hoje com oitenta e dois e meio, praticamente oitenta e um e meio é dentro da cidade de São Paulo.

P/1 -Eu queria que o senhor falasse um pouco da história dos seus pais, a profissão deles, o nome deles.

R -Meu pai teve uma vida em Pernambuco, Ouricuri, mas aos dezesseis anos ele foi obrigado a sair de lá. Devido às grandes privações que havia na família. E percorreu durante todas as suas peregrinações aproximadamente todos os estados do Brasil, menos Rio Grande do Sul. E fixou-se no Estado do Rio de Janeiro. Aonde ele veio a se casar com aquela que tornou a minha mãe. Na cidade de Campos dos Goitacazes. Ele tinha trinta e dois anos, ela dezesseis anos, e após o casamento desenrolou-se toda uma série de eventos que culminaram numa estada de permanência e ao mesmo tempo de profissionalização no Estado de São Paulo. Esta peregrinação foi extremamente abundante, porque foram muitas e muitas cidades que o casal percorreu já com filha pequena, minha irmã. Que hoje está com oitenta e nove anos. E essa peregrinação veio a se desenrolar de uma forma tal que era decorrência exatamente da necessidade de transferências, mudanças de profissão. Família extremamente pobre, dentro do aspecto de pobreza. Hoje quando se verifica, as famílias têm um padrão completamente diferente. É muito difícil de a gente poder avaliar o que significaria pobreza naquele instante. Pobreza significaria falta de alimentos. E falta de alimentos poderia até gerar outra condição, falta de possibilidade de estudos. Então foi com um sentido demasiadamente importante que os meus pais fizeram com que os filhos, em primeiro lugar, tivessem a possibilidade de curso primário e depois secundário e universitário. Mas se a gente obtiver a necessidade de reparar, fazer-se uma análise daquilo que aconteceu no passado, vai se notar que tudo que aconteceu na sequência de muitos e muitos anos e também na sequência de muitas e muitas cidades, teve como elemento primordial a responsabilidade do velho pai, e ao mesmo tempo o carinho da velha mãe. Meus pais já faleceram há muito tempo. Ele faleceu em vinte e oito de março de 1980 e ela aproximadamente há dez anos.

P/1 -Eu queria voltar um pouco mais atrás. Queria que o senhor contasse a história dos avós. Se o senhor conheceu os avós, de onde eles vieram.

R -Não, não conheci. A nossa família é uma família apequenada até pelas condições de o meu pai ter se separado dos seus parentes maiores. E esta situação de haver uma dimensão tão pequena da família é porque estabeleceu aqui em São Paulo, depois de muito tempo, um núcleo familiar onde somente havia pai, mãe e filhos, sem qualquer ligação ou então liame com aqueles parentes que vieram lá de Pernambuco e outros de Mato Grosso. Aquilo nos deu talvez uma perfeita noção, não de desamparo, mas o meu pai tinha como norma na vida simplesmente haver a responsabilidade do sustento da família sem qualquer motivação vinda de parentes. Então foi uma família que praticamente se destacou pelo fato de numerosamente pequenina. Eram quatro, cinco, seis pessoas no máximo. E essa família se desenvolveu dentro de um status que não houve abrangência de forma alguma com outros parentes. Ainda que, episodicamente a gente tivesse uma visita ou outra. Mas o que eu poderia relatar. E aqui eu estou me lembrando de algumas palavras que escrevi no livro, que aqui está ao lado. É um livro de momentos de explicação, ou então, depoimento vivo. Mas aquilo que escrevi agora pouco foi que a gente estabelece uma autobiografia. Autobiografia ela tem muito, muito de inverdade. De insinceridade, porque nós nunca desenvolvemos uma aptidão do coração para ele deslanchar, para ele criar caminhos novos de lealdade aos fatos. E temos até essa frase, que eu criei essa frase, não agora. Porque eu escrevi quatro mil e oitocentas e poucas crônicas para o rádio. Mas essa frase em latim ‘ Vide cor meum’ que significa ‘conheci meu coração’. E se parte do princípio que a gente só conhece o coração, quando a gente não tem condição de transportar tudo àquilo que a gente sente intimamente para outras pessoas. Nós temos substancialmente uma capacidade para esconder, subtrair. Negar aquilo que de íntimo a gente não tem coragem de revelar. E somente nós nos transportamos para situações que são aquelas que nós damos uma qualidade maior frente aos nossos elementos amigos. Nunca poderemos ter uma condição de satisfazer o ego de alguém que nos ouve. Mas satisfazer esse ego significa que a gente não tem a disponibilidade de dizer aquilo que por confissão. E a confissão tem um caráter intimista. A gente nunca terá essa condição de dizer aquilo que vai ao mais profundo do nosso âmago. Não temos essa coragem. Então dizemos através de uma autobiografia aquilo que é uma exposição unilateral. Ela é parcial. Ela é segmentária. Ela é praticamente uma biografia cujo espelho está embaçado por uma realidade maior que ela não tem uma condição de sofrer a submersão dos fatos. Então quando a gente confessa que teve uma existência pobre, até aí se vê que essa confissão não teve muito para ser analisado como crítico, ou como crítica. A gente nota que essa confissão, pode ter até um elemento de auto elogio. Fui pobre e hoje não o sou mais. Ou então, sofri muito e muitas privações e hoje já não têm essa capacidade de sofrer as mesmas privações. Então nós temos praticamente uma condição de capacidade de cotejo entre o passado, os tempos pretéritos e os tempos de hoje, mas sempre nos animando a dizer que hoje estamos dentro de um status melhor. Isso nos convence de que a situação é entusiasmada para retratarmos algo que hoje existe de bom e que no passado praticamente deixou de existir. Mas esse existir bom, hoje é praticamente um autoelogio. É isso que acontece. Então é como se a pessoa viesse a criar uma escala de valores. Quais são os valores? Fui pobre. Consegui prevalecer minha capacidade de aguerrida. Vontade de aguerrido, entusiasmo. E consegui hoje estabelecer um novo meio de vida. Ou então um novo grau de vida. E como se a pessoa estivesse simplesmente dizendo que partindo da escala zero, hoje estou na escala cinquenta, ou sessenta, ou setenta, mas mostrando progresso. É exatamente aquilo que estou lhe dizendo. É a pessoa que não está apenas se convencendo, mas está também querendo convencer que existe hoje um valor maior como adulta do que aquela pessoa lá no passado como criança não tinha condição de fazer valer a sua personalidade.

P/1 -É curioso Adin. Nessa abundância de eventos que os seus pais passaram de peregrinação, como é que eles param em Ipaussu?

R -Em Ipaussu.... Pelo que sei, e a historiografia aqui, ela peca por falta de minúcias. O que eu sei é que foram muitas e muitas cidades visitadas pelo meu pai, que ele era um funcionário público. E dentro dessa ação, dentro desse procedimento de visitas a várias cidades, em função exatamente do seu serviço é que num determinado instante ele veio a estadear-se na cidade de Ipaussu. E lá eu nasci. E lá a minha família ficou por pouquíssimo tempo. Mas nós moramos em talvez mais de dez cidades do interior do estado de São Paulo. É o que eu mais ou menos eu sei. Teve um irmão nascido em Tietê. Falecido. Tenho irmã nascida em Campos dos Goitacazes, lá no Rio de Janeiro. Outra irmã nascida aqui em São Paulo. Então essa diversificação de nascimentos mostra exatamente esse encaminhamento, quase que desordenado de uma família a procura de um bem estar. Ou então a procura de um grau melhor de profissionalização.

P/1 -Eram quatro irmãos?

R -É. Seria uma irmã falecida antes do meu nascimento. Um irmão, um irmão e outra irmã. Hoje nós somos três. Mas com dois falecidos, nós tivemos então a família com cinco irmãos. Não convivendo com todos ao mesmo tempo, mas em épocas separadas. Hoje eu estou com oitenta e dois e meio. A irmã mais velha está com oitenta e nove. E essa outra que nasceu em quarenta e sete, ela está com sessenta e quatro anos aproximadamente.

P/1 -Conta um pouco dessa casa. Qual era o bairro aqui de São Paulo que vocês foram morar quando vocês chegaram aqui?

R -É interessante. Nós temos uma Rua no Belém que se chama Rua Cassandoca. Essa rua é travessa. Essa é uma rua pequena. É uma travessa da Rua Taquari. Essa Rua Cassandoca, no tempo da minha infância, talvez eu tivesse três ou quatro anos, era de terra com uma valeta profunda, de dois ou três metros onde as crianças brincavam. Eu, nesse tempo, não tinha noção do que seria estado de pobreza ou então de miserabilidade, mas há um fato que ficou dentro da minha memória. E esse fato, talvez seja a pontificação de uma evocação que nunca, nunca deixou de existir. Eu estava ao lado meu velho pai. Eu deveria ter três anos aproximadamente e um vizinho, que tinha apenas um pequeníssimo armazém, não de secos e molhados, como se dizia antigamente, mas um armazém pequeno. Ele me deu um chocolate pequenininho em forma de peixe. Peixinho de chocolate. Nesse instante eu desembrulhei o invólucro e comecei a saborear o chocolate. O meu pensamento naquele instante foi mais ou menos o seguinte: Como é bom ser rico. É o homem que me deu o chocolate. Porque eu nunca, até então havia experimentado o sabor de uma iguaria doce. Então chocolate estabeleceu um capítulo muito, muito importante na minha vida de meninice. Eu traduzi para mim próprio que bom seria se eu tivesse todos os dias um chocolate para saborear. Aquilo que aconteceu como fato inusitado. É um capítulo a parte de toda a minha infância e cujo capítulo, ele teve um significado tão grande, que esta memória se arrasta até hoje como sendo uma forma de eu conviver com uma pobreza que lá existiu. Em pretéritos tempos, mas que serve apenas como ênfase daquilo que uma criança passa e que às vezes não sabe de forma alguma confessar aos seus mais íntimos, pai ou mãe. Mas depois da Rua Cassandoca, nós devíamos ter tido, calculo eu, acho que mais uns cinco, seis lugares por onde nós passamos e finalmente fomos para a Rua Tobias Barreto. Lá eu deveria ter os meus seis ou sete anos de idade e permanecemos durante pouquíssimo tempo nessa rua. Meu pai era dentista. Uma vida também de grandes perturbações financeiras. Mas quando a gente fala dentro do sentido de que a perturbação financeira é apenas uma forma de a gente dar uma verbalização ao caso. Aquilo que alguma pessoa poderia pensar. Bom, foram momentos mínimos de felicidade ou de alegria. Ou talvez momentos assim muito, muito difíceis de serem transportados para o momento atual. Mas o que eu posso dizer é que o meu pai na qualidade de dentista, não tinha equipamentos dentários para o consultório. Apenas uma cadeira, mas era cadeira de viajante e ao mesmo tempo um pequeno armário. Não havia nem motor de pé, naquele tempo, porque nem se podia pensar em motor elétrico. E ele era obrigado a sair da Rua Tobias Barreto. Talvez número duzentos e setenta e ir em direção a Rua Marcial, na Mooca e tomar um motor de pé emprestado. Ele ia e voltava a pé com um peso de seis, sete quilos aproximadamente. Servia-se desse motor de pé durante um dia para depois então estabelecer a devolução. Aquilo que hoje significa quem sabe um valor. É uma estimativa simplesmente simbólica que vou fazer. Mas vamos supor que hoje um motor de pé, caso existisse, ele estaria custando cem reais. Mas durante anos o meu pai não pode adquirir um motor de pé. Ao se falar sobre essa situação de extrema precariedade. Tem uma maneira muito, muito especial de a gente reviver. Reviver a pobreza no seu sentido máximo. E ao mesmo tempo reviver a pobreza no seu sentido que talvez tenha para muita gente até caráter pejorativo. Não eufemístico, porque eufemístico seria a gente dourar a pílula, daquilo que aconteceu, mas essa maneira de dourar a pílula seria a grande inverdade. Então esse fato, que é simplesmente um fato nuclear mostra que adjacente ou então paralelamente outros fatos se desenrolavam, mostrando a caracterização dessa pobreza, que hoje somente serve como recordação. Mas seria muito difícil a experimentação do que é pobreza. E relato então outro fato que se junta a este da profissão do meu velho pai. Eu deveria ter então meus cinco anos e nos visita uma pessoa que era portadora de tuberculose. Já se sabia naquele instante que uma tuberculosa era totalmente ou completamente incurável. E era uma enfermidade amedrontadora. Esse senhor que nos visitou que era portador de tuberculose, pediu para a minha mãe um copo de leite. E nós não tínhamos o leite. Então mandou-se buscar o leite com o dinheiro desse próprio visitante. E eu fui buscar o copo de leite numa leiteira vizinha. Cheguei com o copo de leite e ele solveu o copo de leite e deixou praticamente acho que um centímetro no fundo do copo. O que aconteceu, na qualidade de criança. O leite, para mim sempre foi e até hoje é um excelente alimento. Agradável em todos os sentidos. Quando ele deixou aquele centímetro de leite no fundo do copo, eu de forma imediata e irresponsável, bebi aquele um centímetro de leite. Houve um desespero da minha mãe quando acabei de beber. E aquilo detonou uma situação muito, muito desagradável. Ela desesperada. Não ficou desesperada apenas naquele instante, mas desesperada durante muitas e muitas semanas. E meses. Com receio de que eu já tivesse tido a possibilidade de contágio com a tuberculose. Por causa de um resto, um sobejo de leite no fundo do copo. Eu estou contando esses dois fatos porque são dois fatos que eles têm uma assemelhação. Uma identificação muito grande como que era pobreza naqueles tempos. E o que significaria também hoje a pobreza talvez traduzida em campos de diferentes manipulações do destino. Então hoje quando vejo uma criança pobre, eu me olho na situação que eu tive lá no passado. E às vezes eu me apiedo. Eu tenho uma condição de conviver com o problema, como se o problema ainda fosse problema meus. Mais ou menos isso.

P/1 -Eu estou curioso para saber naquele olhar infantil que o senhor recorda agora, como era o seu pai?

R -Tanto o meu pai como minha mãe foram pessoas adoradas por mim. Meu pai pernambucano, como já disse nascido em Ouricuri, extremo oeste do Estado de Pernambuco. E minha mãe fluminense, nascida em Campos dos Goitacazes. Mas nunca eu poderia ter o mínimo de restrição ao paternalismo existente por ele naquela época e nem por minha mãe. Maternalismo. Foram excelentes pessoas na minha vida. E aquilo que foi um retrato da minha convivência quando criança, e depois mocinho. E ao mesmo tempo também depois como cirurgião dentista. Ele num consultório, eu “noutro” consultório. Tivemos sempre uma vocação de muita disciplina e convivência. Eu sempre tive no meu pai o mestre, o conselheiro, o orientador, aquela pessoa poderia realmente me dar meios para atribuir a mim próprio uma nova condição de convivência com, não somente a profissão, mas convivência com os meus familiares. Depois esposa, filhos, etc. Foi o melhor pai do mundo. Ela foi a melhor mãe do mundo. Isso que eu posso dizer.

P/1 -Seu pai era funcionário público e dentista? Como era?

R - É. Bem no passado eu não assisti essa fase da vida dele. Ele foi funcionário público e como funcionário público servia a Fundação Rockefeller, que era uma fundação que prestava serviços de assistência aos meios rurais. Tanto lá no Rio de Janeiro como também aqui em São Paulo. Em 1932 que ele se tornou profissional cirurgião dentista. Nessa condição ele então desenvolveu seu trabalho em bairros diferentes, mas onde ele cristalizou sua atividade profissional foi no bairro do Belém e depois, durante pouquíssimo tempo bairro de Vila Mariana. O bairro do Belém para nós tem um significado muito, muito importante. E historicamente aqui nós estamos fazendo com que exista uma recapitulação de tudo aquilo que oferece uma gama de imagens diferentes. Mas no bairro do Belém o que a gente pode pensar em rememorar é aquilo que talvez os registros não ofereçam muita condição de apontar fatos ou eventos importantes. Mas eu me lembro de que em 1937, deve ter sido o dia primeiro de abril de 1937, quando foi feita a iluminação pública da Avenida Álvaro Ramos, que é uma avenida importante no bairro do Belém. Antes desta iluminação nós tínhamos os lampadários a gás. E os lampadários a gás para mim têm um significado muito, muito importante. Porque quando criança eu assistia todas as noite um velhinho que vinha acender o lampadário a gás com a manipulação de uma vara longa. De um lado havia praticamente um gancho para abrir o lampadário e de outro lado uma mecha acesa para efeito de criar a iluminação naquele lampadário. O último lampadário que existia no bairro do Belém era na confluência da Avenida Álvaro Ramos com a Rua Tobias Barreto. O último. Dali para frente era a mais completa escuridão. E exatamente nesse entroncamento das duas vias é que estava o Cemitério da Quarta Parada, que subsiste ainda esse Cemitério da Quarta Parada. Esse fato da gente ter como ponto de evocação a iluminação. Há no caso também outros meios da gente considerar como importantes. Como, por exemplo, a entrega do leite e do pão. Leite significa uma carroça da Vigor, naquele tempo. E o leite era servido de uma forma completamente diferente ao que se imagina hoje. Lá na parte posterior da carroça de leite, a carroça era tracionada por quatro cavalos, duas parelhas de cavalos. Então lá atrás havia uma manivela, meio manivelada significa por uma torneira, meio litro de leite. Uma manivelada completa, um litro de leite. Era assim que era servido o leite naquela época. Então me lembro de que tanto pão e leite, havia necessidade das famílias guardarem para o dia seguinte. Fazia-se isso pondo o leite em uma garrafa de leite ou na soleira da porta, de um dia para o outro, sem ninguém intervir com o furto ou com o roubo. Essa forma de a gente pensar naquilo que hoje poderia imaginar como impossível ter um litro de leite. Ter um filão de pão na soleira de uma porta durante várias horas. Porque é um fato impossível de se concretizar. Mas mostra um fator que era da moralidade antiga. Moralidade no seu aspecto aparentemente mais vulgar. Aspecto diário. Portanto aspecto que mostrava o que significava a respeitabilidade da família com relação a outras famílias. Ou então das pessoas com outras pessoas. Não havia crime. E não havendo crime era uma sociedade pura. Em todos os sentidos. Não havia um mínimo de prevaricação, de temor, indisciplina, nem daquilo que hoje, fazendo-se comparação, não havia o mínimo de extravasamento da indisciplina do jovem, principalmente. Então era uma sociedade constituída. Ou então uma comunidade constituída de bens, de valores que hoje nós não temos de forma alguma. Nesse aspecto talvez eu possa até fazer uma menção. Aquelas cidadezinhas interioranas que temos ainda no Brasil, onde esses aspectos de materialização, de moralidade, de bons costumes, de hábitos tradicionais ainda persistem. E persistem de uma forma que possivelmente vão desaparecendo com o tempo. À medida que tais cidades pequeninas, vão tendo uma gradação para cidades maiores ou então cidades médias. Então a cidade pequenina, em minha opinião ainda é uma forma de a gente pensar naquilo que foi São Paulo antigo.

P/1 -Eu queria entender dessa gradação. O senhor contou agora a pouco da iluminação. É um tipo de gradação. É cobertura de uma gradação. Como o senhor viveu essa iluminação chegando. Como foi essa experiência na sua infância?

R -É uma alegria geral. Porque é difícil um jovem hoje pensar no que seja iluminação a gás. Trata-se de uma mecha dentro de um lampadário. E essa mecha talvez corresponda hoje a uma lâmpada de cinquenta watts, no máximo. Era uma pobreza infinita de claridade. A claridade praticamente era difusa apenas numa metragem quadrada, quem sabe de vinte metros, ou trinta metros. Não mais do que isso. Então era uma vida que estava submersa à iluminação. Por quê? As famílias se recolhiam praticamente antes das vinte horas. Não havia programas de rádio que fossem além das vinte e uma horas. Não havia. A Rádio Emissora começara as suas transmissões às nove da manhã e ia até vinte ou vinte e uma horas. Cessavam as transmissões. Os cinemas não funcionavam depois das vinte e uma horas. Então a vida pacata, a vida na forma sublimada de quietude, de silêncio, era tão perfeita que não podia considerar vida social, como hoje nós temos, depois das vinte e duas horas. Não havia essa condição. Essa São Paulo antiga era uma São Paulo muito, muito diferente da São Paulo de hoje. Até pelo clima. O chamado fog londrino. São Paulo tinha em todas as suas fases invernais a sua neblina noturna. Então isso foi desaparecendo com o tempo, naturalmente à medida que as chaminés começam a poluir. As máquinas começam a poluir e, portanto houve uma deficiência desse retrato lírico de São Paulo. O que só pode também imaginar é que a luz que veio como elemento modificador de uma época que ficou muito, muito lá atrás. Essa luz elétrica muito antes já existia no centro da cidade, mas também com uma forma de apresentação totalmente diferente. Era uma luz débil, não era como a luz elétrica de hoje. Somente as vias principais do centro da cidade é que apresentavam essa viabilidade de iluminação para que os transeuntes tivessem condição de andar sem qualquer tipo de percalço. E eu faço até lembrança que a primeira cidade no Brasil que teve iluminação elétrica foi exatamente Campos dos Goitacazes, lá no Estado do Rio de Janeiro.

P/1 -Contando um pouco seu relato da São Paulo noturna, ainda a reclusão. O senhor me convidou um pouco a entrar na sua casa de infância. Eu fiquei curioso de saber como ela era. Fisicamente mesmo.

R -O sobrado da Rua Tobias Barreto, número duzentos e setenta até hoje existe lá. É um sobrado bom. A recordação que eu tenho é que esta rua sobrevivia às escuras. Porque havia apenas um aspecto muito desagradável, que era a vicinalidade com o cemitério. Então o Cemitério da Quarta Parada, emblematicamente sempre foi um ponto muito, muito nostálgico, mas uma nostalgia fria, aborrecedora. Porque eu, na qualidade de criança, já assistia ao desfile quase que interminável de enterros. E quando a gente fala nesse aspecto aqui, é um aspecto muito problemático para a mente de uma criança. A criança se torna figura obrigatória de convivência de um problema que nem sempre tem condição de ver e compreender, não é? Então a criança começa a compreender o sentido da vida e da morte através desta maneira interminável de enterros que passam diante da sua visão. E quando saí da Rua Tobias Barreto, número duzentos e setenta, eu fui para a Avenida Álvaro Ramos, número mil e trinta e oito, distância de aproximadamente duzentos metros, lá havia também essa presença extremamente triste do cemitério. E talvez na minha visão como criança eu já tinha uma percepção muito, muito clara do que era o término da vida. Isso pela passagem dos féretros. Pela passagem das pessoas que choravam enquanto estavam se encaminhando ao cemitério. E os costumes fora e dentro do cemitério eram costumes completamente diversificados da data de hoje. Essa percepção que eu tinha possivelmente levou-me a ter considerações ou então análises bem diferentes daquela outra pessoa que nunca tinha visto uma cena de passagem de féretro. E guardou-se em mim a imagem, que é uma imagem que se traduz como presente até hoje, como sendo uma imagem que persiste no sentido de ser momento de tristeza, momento de pranto, momento de vicissitude, momento de aborrecimento e etc. Essa é a imagem que ficou para mim.

P/1 -E os cemitérios não abrigavam velórios dentro. Os velórios eram feitos em outros locais?

R -Eram feitos mais nas residências mesmo. Era assim. O que a gente poderia até imaginar é que o Belém teve o seu primeiro cemitério onde hoje é o Largo São José do Belém. Nós temos a igreja São José do Belém. Ali foi o Cemitério da Quarta Parada. Nesse local. Depois de muito tempo erguer-se o Grupo Escolar Amadeu Amaral. É um Grupo onde eu fiz uma parte dos meus estudos primários. E ali também existia o Cine São José, um dos mais antigos de São Paulo. E hoje esse espaço é ocupado pelo Bradesco. Dentro do Largo São José do Belém. Como elemento vitorioso de todas essas rememorações. E que eu tendo estudado nesse Grupo Escolar Amadeu Amaral eu era obrigado a sair da minha casa, mais ou menos três quilômetros de distância a pé. Porque a situação financeira não me permitia tomar o bonde. E o bonde naquela época eram dez centavos apenas, mas não havia condição para isso. Mas eu ia e voltava com uma satisfação infantil muito grande. Porque andar, andar, peregrinar, peregrinar, peregrinar… Significava para mim simplesmente um passeio. Não era um procedimento de cansaço. Nem de responsabilidade. Era de diversão. Isso sim.

P/1 -Eu queria que o senhor contasse um pouco das brincadeiras. Já que o senhor está falando de diversão. Das brincadeiras de infância. Quais eram?

R -Pelo que mais ou menos posso regredir é que os garotos gostavam muito, muito da chamada briga de pedras. A gente armava uma forma de defesa com folhas de zinco. E do outro lado também outros garotos e então atiravam pedras uns contra os outros, como se fora um tipo de guerra armada pra ver, não o vencedor, mas para simplesmente mostrar a pontaria. Dos elementos que estavam ali num conflito simbólico. Essa era a brincadeira principal da garotada daquele tempo. Agora se a gente for um pouco mais a frente, e sendo assim algo que eu me desperto a verificar como um fato muito, muito curioso para o jovem de tempo atual. Só se falava num criminoso aqui em São Paulo. Num único criminoso. Meneghetti. Origem italiana. E Meneghetti era um elemento que sendo assaltante, nunca se envolveu com a morte de ninguém. Nunca foi um sicário. Nunca assassinou ninguém, mas roubava. E era um elemento desperto para uma atividade nos telhados dos sobradões aqui em São Paulo. E condenado há aproximadamente trinta anos. Ele esteve na Penitenciária do Estado de São Paulo, aqui no bairro da Luz. Durante todos esses anos. E já quase que na fase da senectude. Velho, velho. Saindo da Penitenciária ainda envolveu com assaltos novamente. Essa a história de Meneghetti. (risos)

P/1 -Foi pego aqui perto, na Vila Madalena. Tem uma casa em homenagem.

R -Tem sim.

P/1 -Eu queria que o senhor contasse dos seus sonhos infantis, o que queria ser. Tinha alguma coisa que o despertasse?

R -Em 1939, eu estava com onze anos. Primeiro de setembro de 1939 é quando houve a declaração da Segunda Guerra Mundial. E nós tínhamos o aparelho de rádio Pilot. Norte americano o rádio. No Brasil não se fabricava rádios. E meu pai comprou esse rádio, dentro de um alongamento de prestações, acho que foram dezoito prestações para a compra. E esse rádio tinha ondas médias, longas e curtas. Pelas ondas curtas captava-se bem a BBC de Londres. No Brasil vinte e uma horas, em Londres uma hora da manhã. Diferença de quatro horas. O noticiarista brasileiro em Londres era Aimberê. Um excelente locutor. Eu vou repetir. E essa repetição que eu vou fazer nesse instante. Essa recidiva tem como argumento uma necessidade de ênfase. Eu tinha onze anos, e ao ouvir Aimberê, eu dentro daqueles chiados das BBC de Londres. Então o som tinha clareza de sinal, mas depois desaparecia. Então era um envolvimento da rádio emissora com o rádio ouvinte, mas de uma forma que tinha alternância de acústica. Era um pouco difícil de ouvir perfeitamente bem a BBC de Londres. Mas em noites normais, o som ele se tornava praticamente audível porque era um som perfeito. Repito. Eu tinha onze anos e comecei então a apreciar a modulação. A perfeição da voz do locutor Aimberê. E eu sempre pensava naquele instante, como eu gostaria de ser locutor de rádio. Foi a partir daí que praticamente nasceu a minha vocação para o rádio. Aimberê era uma figura extremamente amada, idolatrada por mim. Porque eu pensava na grande distância entre Brasil e Inglaterra. Nessa distância eu imaginava como seria agradabilíssimo para mim se um dia eu estivesse no estúdio de uma rádio e pudesse a minha voz ser ouvida a uma distância praticamente adimensional. Eu pensava isso com meus onze anos. E ao passar do tempo, eu fiz o curso ginasial, fiz o curso colegial. Naquele tempo colégio científico. E depois eu entrei para a Faculdade de Jornalismo. Naquele tempo era Escola de Jornalismo Cásper Líbero.

P/1 -Só perguntar uma coisa. A escolha do jornalismo foi por causa disso?

R -Foi por causa disso. Foi por causa dessa série de eventos com a BBC de Londres. Uma que eu gostava também muito, muito de estudar. Eu disse agora pouco, para o José Carlos que entre as minhas predileções havidas na minha infância, pré-adolescência e adolescência sempre foi a predileção pelo hábito da leitura. Tanto que eu frequentava a Biblioteca Mário de Andrade, que é a Biblioteca Municipal, todos os domingos além dos dias comuns. E aos domingos eu ficava desde manhã até a noite. Lendo livros que para mim tinham um significado muito importante. Não era somente uma forma de dimensionar cultura, mas era uma forma também de entretenimento, de diletantismo. Por aspectos que somente a leitura poderia me oferecer. O aspecto então da formação intelectual para o jornalismo nasceu exatamente lá através da BBC de Londres. Em 1952 eu já havia me formado como odontologista e também como jornalista. Então início de 1952 é que eu fui para a Rádio Excelsior. Mas como eu fui para a Rádio Excelsior? Aconteceu um fato sintomaticamente coincidente. Eu estava na Rua Direita com um amigo e nos encaminhando para a Praça Patriarca, e esse meu amigo vislumbrou a presença, lá ao longe, de um elemento que pertencia ao rádio teatro da Record. Osmano Cardoso. E nós nos aproximamos de Osmano. Ele me apresentou e disse: “O Adin há pouco tempo fez um teste aqui pela Rádio Gazeta e nesse teste ele ficou em segundo lugar entre cento e oitenta e poucos candidatos.” Aquele que obteve o primeiro lugar foi o sobrinho do Itá Ferraz, que era diretor artístico da Rádio Gazeta. Na realidade com esta classificação que veio a me desproteger, porque eu teria ficado em primeiro lugar. Mas esta coincidência de ter encontrado Osmano foi perfeitamente boa para mim, pelo que se desenvolveu a seguir. Sabedor, ciente de que eu havia prestado esse concurso pela Rádio Gazeta. Era a emissora de elite em oitocentos e noventa quilohertz. Ondas médias. E ele um sabedor de que eu havia prestado esse teste e que  tinha me classificado em segundo lugar disse: “Eu aqui na Record nada, nada posso lhe fazer porque o ambiente não é propício para o que você deseja injetar como conhecimento seu dentro da programação. Mas na Rádio Excelsior eu tenho um grande amigo, que é o Fausto. E eu vou ver se consigo alguma boa situação para você.” Eu não me lembro bem se foi um mês e pouco depois, ou quase dois meses, houve uma vaga na Rádio Excelsior. Programação noturna. E dentro de um convite que o Osmano soube para preenchimento dessa vaga, ele veio com o seu carro, um Oldsmobile até o meu consultório na Água Rasa e de lá nós dirigimos até a Rádio Excelsior, Rua das Palmeiras. Fiz o teste. Eram mais ou menos dezenove horas. Fausto Macedo estava fazendo um programa de turfe, naquela época. E logo em seguida eu fiz o teste. O teste foi devidamente aprovado e ele disse simplesmente isso para mim: “Você pode começar hoje mesmo?”. “Posso”. Então das vinte horas até às três da manhã eu comecei a minha vida profissional dentro da Rádio Excelsior. Fazendo uma programação que era fina, elitista. Para as classes A e B. Quanto ao Osmano Cardoso que foi o elemento indicador, pertencia ao Rádio Teatro da Record. O Rádio Teatro da Record Foi fundado em 1932. Primeiro Rádio Teatro do Brasil. Só em 1937 é que nós tivemos o primeiro Rádio Teatro no Rio de Janeiro pela Nacional do Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo esse Rádio Teatro foi instalado, formado por Manoel Durães e sua esposa Edite de Moraes. E como complementação do Rádio Teatro nós tivemos Farid Riscala, Osmano Cardoso, Nestório Lips, Otávio Gabus Mendes, avô desses dois rapazes que trabalham na Rede Globo de Televisão. E depois com o tempo mais três, quatro, cinco, seis atores. Esse Rádio Teatro funcionava aos sábados e domingos, com a peça integral cada sábado e uma peça integral cada domingo. E as peças eram rastreadas em grandes escritores brasileiros. Então nós tivemos a oportunidade de assistir peças baseadas em livros de Machado de Assis, José de Alencar. De Eça de Queirós, lá de Portugal e assim por diante. Essas peças eram excelentes no sentido cultural. No sentido também que não havia competitividade com a televisão porque a televisão não existia. A televisão só veio existir praticamente em 1943 aproximadamente. 1943 ou 1944. Ou 1945. E o que resultou na instalação desse Rádio Teatro é que em seguida a Rádio São Paulo também veio a criar o seu Rádio Teatro que se tornou praticamente uma rádio que estandardizou o Rádio Teatro do Brasil. Ela funcionava vinte e quatro horas com peças de Rádio Teatro. Porque estou lhe informando sobre esta situação da Excelsior, é que eu praticamente nunca fui funcionário da Rádio Excelsior. Porque através ainda do Osmano Cardoso solicitei dele que houvesse uma intermediação dele para efetivar uma visita que eu pudesse fazer a qualquer grande titular de empresa aqui em São Paulo. Ele telefonou para o Diretor presidente para a Companhia União dos Refinadores de Café e Açúcar União. Rua João Antônio de Oliveira. E para lá eu fui e fiquei praticamente nesse dia com os programas gravados. Eu acho que fiquei umas sete horas esperando para conversar com esse Diretor presidente da Companhia União dos Refinadores. Após essa demanda de tempo muito, muito angustiosa para mim fui recebido com uma extrema delicadeza. Esse Diretor Presidente disse a mim: “Hoje foi um dia muito, muito dificultoso para mim. Muitos compromissos, até o momento presente eu não almocei. Mas um pedido do Osmano é um pedido de um irmão. E vou atendê-lo com todo prazer. Pode colocar os aparelhos dos seus dois programas.”. Eu levei o Programa “Hall da Fama” e o outro que era o programa “A Hora Doce”,  atribuível exatamente ao Açúcar União. Um era um programa de clássicos ligeiros e outro era um programa lírico. O de clássicos ligeiros foi aprovado por ele. Gostou também muito do lírico. E ele simplesmente disse o seguinte: “Quando você pode colocar no ar esse programa?”. “Amanhã”, eu disse. No dia seguinte eu estava com o programa no ar. Aí eu disse a ele: “Mas o senhor não pretende saber sobre os valores?”. “Não, não. Pode colocar o programa no ar e depois você manda o contrato”. “Ótimo então”. O programa permaneceu durante muito tempo na Rádio Excelsior. Eu tive como ouvintes dois elementos que eu gosto muito de citar. Um foi o grande escritor Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros. E outro foi Menotti Del Picchia, um grande escritor brasileiro. Com eles, de forma separada, almocei e convivi algum tempo. Meus rádios ouvintes. Essa sensação de citar esses dois nomes, me leva também a uma ponderação solidamente firme sobre o caso. Eu tive o beneplácito à condição de bem analisar o que seja um rádio ouvinte quando ele tem um vínculo muito, muito estreito com aquele que comanda um programa. Devo ter recebido alguns milhares de cartas. Alguns milhares de telefonemas. E tudo isso de uma forma conjunta e também anônima. Tudo isso resultou em que para mim o rádio era o verdadeiro palco de glórias. A tal ponto de a gente sempre imaginar que apesar de a fisionomia estar escondida atrás do microfone, portanto anônima, dentro de um estúdio, a voz se torna um elemento de tão grande imantação com o rádio ouvinte, de tão plena identificação que a gente se olha como se fora um verdadeiro deus. Esta é mais ou menos a análise, exegese que a gente faz do rádio ouvinte quando está dentro do rádio, a gente se sente querido. E dentro desta condição de avaliação do que seja o rádio ouvinte, ele apesar de ter nomes esquisitos, qualificações esquisitas, profissões esquisitas, se torna emblematicamente um grande amigo ou então uma grande amiga. Recordo-me que foram muitas e muitas. Centenas de conversações que tive com tais pessoas na qualidade de rádio ouvintes. Então a profissão como jornalista, a profissão exercida dentro da radiodifusão sempre deu a mim um diletantismo. Ou uma forma de apreciação sagrada do que significa uma rádio emissora. E quando digo sagrada é porque a gente sai de uma condição material, que seria o exercício da profissão para ir para outro pólo. Que é exatamente o pólo da gente ver-se como elemento que recebe amor. Que recebe até paixão de pessoas desconhecidas. Aí está o grande valor do elemento que trabalha ou na radiodifusão, ou na imprensa escrita, ou na televisão. Então esse valor se torna imemorial, diuturno, secular. Ou multi secular. Ele se torna também uma vivência diária, a todo instante, onde eu passo a ter os meus passos dirigidos ao passado. Eu me vejo sempre dentro daquela velha condição de ser eu um ser amado. É assim. Mais ou menos. Eu quando eu falei sobre Aimberê, devo me evidenciar um fato muito importante. Aqui em São Paulo nós tivemos o Clube dos Estados. Nem sei se ele ainda existe. O Clube dos Estados aglutina elementos da imprensa. Então são escritores, são poetas, curadores, jornalistas. Elementos que estão ligados a imprensa nos seus vários campos. E houve um jantar no Hilton Palace Hotel, aqui na Avenida Ipiranga, há muitos anos. A memória praticamente conspira nesse instante, mas calculo eu que deve ter havido há mais de vinte e cinco anos. Foi um jantar muito, muito agradável. Com a presença de escritores de todo o Brasil. E elementos mensageiros da cultura. Sentei-me à mesa com mais três pessoas. Mesa pequena redonda. E lá tinha diante de mim um elemento bastante idoso, que era Aimberê. E começamos a conversar. Eu disse a ele: “Aimberê, você nem pode calcular a emoção grande e eloquente que eu sinto de estar com você pela primeira vez. Nem podia imaginá-lo um dia com a minha presença. Porque é um momento de glória para mim.” E relatei a ele o que havia acontecido e o que aconteceu a posteriori, com relação a minha profissionalização dentro do rádio. Depois de eu relatar tudo, eu disse com muito sentimentalismo e diria um pouquinho mais do que sentimentalismo. Eu fui às profundezas do bem querer. Um tipo assim de sentimento que tem muita, muita pureza. Eu falei: “Devo a você todo o sucesso da minha vida. E digo mais. Não é um sucesso simples, mas eu levo para o último dia da minha vida a recordação da sua voz. E hoje da sua voz e da sua fisionomia”. Uma lágrima desceu sobre o rosto do Aimberê. Foi assim.

P/1 -O senhor não reconheceu a voz dele na mesa?

R -Não havia reconhecido. Não havia por quê. Hoje eu estou conversando com você, e se eu for para o microfone, nossa voz microfonicamente tem algumas alterações. Você poderá talvez até identificar plenamente que sou eu que esteja falando dentro de um estúdio. Mas o que se passou é aquilo que se se desenvolveu numa fase que veio lá de 1939 até. Não sei se trinta anos depois com diálogo com uma pessoa que tinha uma voz, que era uma voz de mansuetude. Uma voz cálida, diferente talvez. Não tinha impostação microfônica. Não deu para reconhecê-lo. Depois sim, que ao conversar eu tive a condição de sentir que ali estava o Aimberê.

P/1 -O senhor estava falando na possibilidade ou impossibilidade do coração não se expor frente a uma autobiografia. Coisa do espelho embaçado. Atrás do microfone fica mais fácil poder falar da sua trajetória ou falar alguma coisa que é mais difícil de falar pessoalmente? É possível isso?

R -É mais fácil você diz?

P/1 -De falar de si mesmo. De se expor.

R -Não, não. Assim perante o grande público, eu nunca iria lhe falar aquilo que estou lhe falando porque me parece que nós estamos dentro de uma intimidade. Estamos dentro de um circuito fechado e, portanto eu não sinto as asperezas da popularização, ou da minha fisionomia, ou então da minha voz. Principalmente da minha fisionomia. O que eu sinto é que a gente está diante de um microfone. Eu sempre li as minhas crônicas. Como eu disse lá atrás. Eu devo ter realizado, devo ter escrito para a Rádio Excelsior, para a Rádio Marconi, onde fui diretor e para a Rádio Difusora onde permaneci pouquíssimo tempo. Eu devo ter lido aproximadamente quatro mil e oitocentas crônicas, todas elas de caráter lírico. Sem subestimar a poesia, mas eu diria que elas tinham sempre um ingrediente poético. Porque eram mensagens sobre os vários sentimentos que elidem na pessoa. E sentimentos esses com temas às vezes até convergentes. O amor com o bem querer. Ou a saudade como o bem querer. Mas também nós temos dispositivos de sentimentos que são diferenciados pela forma como se apresentam. Então a indiferença é um sentimento, ou talvez uma trágica emotividade que está dentro do ser humano, e corresponde às vezes a problemas muito, muito sérios no convívio ou social ou sentimental de pessoa para pessoa. Mas ao escrever essas crônicas, eu sempre as li. Eu nunca tive a espontaneidade de falar ao microfone, como estou falando nesse instante, sem qualquer forma de respeitar um texto. O que eu estou lhe falando que é por exponencialização de um sentimento todo, todo libera. E é feito para que nesta pequena amplitude de tempo seja levado a efeito aquele que vocês acham que deva ser mantido como material de recordação. Mas o que aconteceu comigo dentro desse espaço de tempo, de convivência com o microfone, que foi de 1952 até praticamente 1985, 1986, veio a se traduzir como o melhor da minha vida. Como odontologista nem quero recordar, porque a minha vida como odontologista se aplicou muito como especialista em avulsões complexas dentárias. Então os casos mais complexos eu dava atendimento. E também por questão obrigacional de dar atendimento a convites, eu fui cirurgião dentista da Ford Motors Company durante muitos anos. Mais interessante desses aspectos de vivência dentro de outra atividade é que nunca me deixou amparado por um entusiasmo, como é a situação do rádio. Eu que estou lhe dizendo. Aí sim há muita franqueza absoluta, eu diria até radicalista em me situar sempre como jornalista ou como homem de rádio e nunca como odontologista. Tanto é assim, que se eu tiver tido, no passado conhecimento e ligação com cinco colegas de odontologia, talvez tenha sido muito. Agora com os profissionais do rádio foram centenas. Então há muita diferença.

P/1 -Tem um episódio na sua vida que é importante para a sua história e para do país. O senhor primeiro formando como jornalista. Conta um pouco desse episódio para a gente?

R -Em 1947 eu prestei vestibular para Jornalismo na Cásper Líbero, que era na Avenida Conceição, oitenta e oito. Prédio da Gazeta. Ali no terceiro andar, me parece, funcionava o Salão Nobre da Gazeta, todo “entapetado” de veludo e cadeiras luxuosas. Um ambiente finíssimo e ali também se estabelecia a presença do Centro de Debates Cásper Líbero, centro onde reuniam grandes empresários e os temas eram diversificados de atenção, aquilo que seria modularmente de interesse para classes diferentes do empresariado brasileiro. O vestibular foi prestado por noventa e quatro vestibulandos e apenas dezessete passaram, e entre os dezessete estava eu. Quatorze se formaram, dos dezessete. E dos quatorze eu fui o primeiro por ordem alfabética. O meu nome começa com a letra A. Adin. Então eu fui o primeiro a colar grau dentro do Jornalismo brasileiro. Foi a primeira escola.

P/1 -Vamos continuar a história para não perder.

R -A carta testamentária de Cásper Líbero, ele faleceu em 1942. Em 1943 foi dado início a Rádio Gazeta. Emissora de elite. Ondas médias em oitocentos e noventa quilohertz. E a Rádio Gazeta foi criada com o pressuposto de ser a melhor rádio emissora do Brasil no tocante a cultura. Tanto é assim que ela teve as suas duas orquestras sinfônicas. Grupo Coral de muita importância. O melhor corpo de locutores que nós tivemos em qualquer rádio do Brasil. E quando a gente fala em corpo de locutores significa que as maiores vozes, ou as melhores vozes do Brasil estiveram na Rádio Gazeta. Eli Otávio de Lacerda, Nelson Pinto e Silva, que veio da Rádio Excelsior. Vamos ver.... Ita Ferraz veio da Rádio Cruzeiro do Sul, que depois se transformou em Rádio Piratininga. Sergio Fajardo, César Abraão. Eu poderia citar todos, desde que a memória não viesse a falhar nesse instante. E também eu não estou muito, muito bem lembrado se foi em 1942 ou 1943 que faleceu Cásper Líbero. Mas a Escola foi fundada com inspiração da Carta testamentária, bem como também a Rádio Gazeta. E a Rádio Gazeta tinha como filosofia de funcionamento o atendimento às classes A e B de São Paulo. Funcionava com dez quilowatts na antena e o que eu poderia dizer é que se passaram pelo microfone da Rádio Gazeta grandes cantores e musicistas internacionalmente conhecidos. Isso eu posso dizer. Que a gente pode até pensar num Carlos Ramires. Colombiano que trabalhou no filme Escola de Sereias. Um Belarmino Gilly. Um Tito Schipa. Uma Fedora Barbieri. E ao mesmo tempo elementos cujas vozes se tornaram célebres naquela época. E vozes que eram captadas dentro do elenco de vozes aqui em São Paulo. Esse sim é um ponto importantíssimo nessa entrevista. A Rádio Gazeta foi para mim uma escola muito importante. Repito. Mais importante do que a própria Escola de Jornalismo Cásper Líbero. Por quê? Ali estava um arsenal, uma convivência com aquilo que eu desejava fazer dali para frente quando estivesse no rádio. Porque os meus programas. E foram muitos programas que eu fiz no rádio brasileiro. Vou tentar enumerar apenas uns cinco ou seis: Almoçando com Música; Panorama Musical da Itália; Vozes Eternas; Músicas pianísticas...Panorama musical da Itália já citei...Hall da fama; A hora doce…. Eu devo ter feito mais uns dez programas. Todos eles envolvidos com a música clássica ou a música lírica. Nesse setor é que eu estou naturalmente entusiasmado por falar. Porque até hoje, apesar da idade avançadíssima, oitenta e dois anos e meio, eu penso em retorno ao rádio. Esse retorno está dependendo de algumas situações que infelizmente existem em São Paulo ou no Brasil. É o distanciamento dos rádio ouvintes com a programação fina. Quando não existe esse distanciamento existe uma dificuldade também. A gente poderia dizer distanciamento de empresas que poderiam ser patrocinadoras com relação às rádios. Como as rádios não oferecem um berço para essa programação ou para essa grade programática, então o que há é que você dificilmente consegue um campo ou um status, ou uma convivência com rádios e com patrocinadores de forma simultânea para fazer aquilo que seria o melhor da radiodifusão brasileira. O melhor. E faço aqui uma crítica. É uma acusação. É um libelo. A programação que existe aí, principalmente programação musical atenta contra aquilo que é de bom gosto. Não é boa programação. Eu diria até que é sofrível programação. E nós já tivemos além da Rádio Gazeta. Nós tivemos a Rádio Eldorado, que tinha uma excelente programação, desapareceu com o tempo. Então é uma Rádio Eldorado que se transforma em uma rádio jornalisticamente apegada mais à notícia e à informação. A Rádio Gazeta se transformou com um novo slogan. Invés de ser emissora de elite, transformou-se em “a dona da bola”. E de alguns anos para cá a Rádio Gazeta está sob a administração da Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero. É uma programação de caráter universitário, mas que não atende de forma alguma, nem pela qualidade, nem pela quantificação de programas, ao ouvinte comum, nem ao rádio ouvinte das classes A e B. Então ela submergiu ao tempo e também as dificuldades de uma programação excelente. Não existe aqui em São Paulo. E aquilo que significa denodo, luta porfia de minha parte, é exatamente retroceder aos tempos antigos. Não é retroceder em qualidade de programação, mas retroceder aos tempos antigos e fazer uma programação que seja de atendimento a essas classes A e B. Nós não temos aqui em São Paulo. E se temos alguma coisa a respeito é através da Rádio Cultura. E para a Rádio Cultura eu faço muitas e muitas críticas. E não são poucas. Diria que a Rádio Cultura de São Paulo, FM, não atende de forma alguma as classes A e B. É uma programação de qualificações diferentes, de grade para grade. Elas são programações instituídas, formadas, exponencializadas por maestros. Eu tenho um grande respeito aos maestros como músicos, como programadores não. São péssimos programadores. Então é uma Rádio Cultura que enseja em mim só e exclusivamente críticas. Não vejo como essa rádio, se fosse comercial, pudesse prosperar. Ela só criaria prejuízos em cima de prejuízos. E vou um pouco além. Essa Fundação Padre Anchieta, não é uma auto sustentabilidade, porque ela depende do governo do estado. O Governo do Estado de São Paulo cria aportes financeiros. Portanto de condições anualmente. Cria aportes financeiros que vão até oitenta milhões de reais, mal disponibilizados. Mal investidos. Então quando a gente pensa nesse colosso de dinheiro. Nessa adimensionalidade de dinheiro e que não dá frutos adequados, correspondentes. Não cria boas situações de irmandade com o rádio ouvinte. Isso tem um significado muito importante. Qual é? É de ser uma rádio ou uma televisão, que é o canal dois, de distribuição de programas, mas cuja distribuição atenta somente para um percentual tão pequenino entre aqueles que adoram ouvir rádio ou adoram ver televisão que não chega de forma alguma a um por cento. Televisão. E quanto ao rádio, muito, muito menos. Então nas estatísticas do Ibope, você vai notar que a Rádio Cultura tem uma quantificação que é zero vírgula zero, zero, um. É nada, praticamente. Então quando a gente observa que de mil rádios ouvintes, não chega a um rádio ouvinte que esteja ouvindo a Cultura. É porque essa Rádio não oferece, de forma alguma, uma programação que tenha o mérito de ser uma boa programação. É uma péssima programação.

P/1 -Depois dessa análise, eu queria retroceder a sua história pessoal. No momento você contou da Rádio Excelsior. Quando o senhor saiu e para onde foi?

R -Eu fui....veja bem...em 1964, exatamente quando se instalou a revolução. E essa revolução esteve sob o império do Ato Institucional número cinco. Eu fui para a Rádio Marconi como um inocente. Eu apresentei ao diretor proprietário da rádio Dorival Masci de Abreu, uma agenda de programas e ao mesmo tempo aquilo que era uma experiência minha do passado e que estava simplesmente deslocando para ser materializada na Rádio Marconi. Eu fiz um trabalho, parece-me mais ou menos de dez laudas e o diretor proprietário, Dorival Masci de Abreu, ao ler o trabalho disse: “Adin, você pode ser o meu diretor máximo aqui da rádio?” “Posso”. “Então você vai ser o diretor de planejamento geral da rádio. Toda a hierarquia estará submetida a você e nós vamos então nos tratar como Diretores.” Então eu disse ao Dorival: “Você vai observar em mim, não um elemento vaidoso. Não um elemento auto ególatra. Você vai sentir algo diferente. Eu sempre vou tratá-lo não como meu superior, hierarquicamente falando, mas como companheiro, como amigo. Como aquele que eu possa discordar frontalmente e irei fazer valer o meu ponto de vista, não o seu. Dentro dessas condições, eu virei para a Rádio Marconi a fim de ser seu Diretor máximo”. Muito bem. Então eu instituí vários programas meus e ao mesmo tempo outros que foram ao ar durante bastante tempo. Pela Rádio Marconi, horário, por exemplo, do meio dia até as treze, eu fui ao encalço do diretor proprietário da Indústria de Tapetes Bandeirantes. Eu estou tentando lembrar o nome da rua onde estava. Era lá na Mooca. Então eu fui e obtive dele o patrocínio. O patrocínio que naquela época era muito, muito importante. Praticamente oito milhões. Esse patrocínio, numa época em que o salário mínimo era de quarenta e seis reais mensais. Com isso consegui dar um levantamento muito grande à rádio. Também estive com o diretor de programação para o rádio e televisão da São Paulo Light, hoje Eletropaulo, Doutor Lima. E lá eu também consegui patrocínio da São Paulo Light. Um patrocínio que não era em dinheiro, mas era em substituição aquilo que a rádio deveria pagar pela energia elétrica ocupada. Então ao invés de pagar cem por cento da energia elétrica pagava apenas trinta por cento. Então eu criei o “Programa Vozes Eternas” para a São Paulo Light. Também Café e Açúcar União, que lá no passado esteve como patrocinador, mas eu fiz o programa “A Hora Doce”, dentro da Rádio Marconi sem patrocínio. Volta a fama sem patrocínio. Mas eu consegui aproximadamente uns cinco patrocínios importantes para a Rádio Marconi. O que prova, pelo menos naquele tempo que havia uma vinculação muito, muito estreita entre o elemento empresário, ou o elemento que respondia por uma multinacional. Hoje nós estamos sentindo. E hoje está presente aqui nesse estúdio o José Carlos, que é um elemento que tem uma maneira especialíssima de trato do programa de merchandising com as multinacionais. E estamos nos envolvendo com a possibilidade de fazermos uma programação em São Paulo em alguma rádio emissora, que possa estar atenta a uma programação direcionada para a as classes A e B. Neste contexto, o que eu posso imaginar, é que quando a gente está à frente de uma rádio emissora, e eu permaneci à frente da Rádio Marconi durante muitos anos, é que a gente tem e também não tem liberdade de fazer aquilo que seria a vocação que se predestina a fazer dentro daquela rádio. Porque estamos sempre dependendo de patrocinadores, ou de anunciantes. Mas quando a gente investe a nossa atenção nessa programação e ao investir num primeiro patrocinador, num segundo, num terceiro, dali para frente você quase que predestina a rádio a ter uma evolução. Um êxito muito, muito grande. Porque você vai abandonando os anunciantes que não lhe servem, porque não estão a distritos nem assemelhados, nem identificados as classes A e B. O problema que nós estamos sentindo. E eu estou novamente nomeando o nome do José Carlos é que as rádios têm alguns receios de modificarem o establishment da sua programação e fazer algo tão diferenciado que seria então o radicalismo da programação presente. Isso acontece. Mas estamos aguardando pelo menos duas rádios emissoras que possam dar atenção àquilo que nós estamos fazendo. Essa mensagem que estou dirigindo a você, Tiago, é uma mensagem que mostra um pouco de amargura. Também é a mensagem que pode mostrar eventualmente um pouco de otimismo. Otimismo porque existe uma expectativa de a gente fazer aquilo que de melhor poderia existir no rádio brasileiro. O body casting é brasileiro. Então vamos dizer assim, o paulistano ainda não viu a perfectibilidade que existe numa programação dessa ordem. E eu estou lutando ao lado dele para que tenhamos a eventual sorte lotérica de expor essa programação e fazer com que os índices de audiência para as classes A e B sejam completamente diferente daquilo que existe. Porque nós temos atualmente em São Paulo, aproximadamente setenta e oito rádios emissoras. Trinta e seis de FM, outras trinta e seis de AM. O que ocorre é que nós temos aproximadamente umas oito rádios que são noticiaristas e a grande parte são de rádios formadas por musicalidade. Essas que são formadas por um sentido de musicalidade, elas somente atentam para um orbe, para um universo, que é da juventude. O elemento que ultrapassa quarenta, quarenta e cinco, cinquenta anos, já não é assistido por essas rádios emissoras. Então ele se vê desprestigiado. E por mais que ele venha escolher no dial alguma rádio emissora que possa dar condição de ser rádio ouvinte, ele nunca vai ter essa condição. O que significa, que de minha parte esta luta é uma luta infrene. É uma luta vocacional, que tem um valor muito, muito além do que qualquer empresário possa pensar. Mas a luta vai continuar com certeza absoluta. Não importa que haja dez respostas não. O que importa é que poderá existir no futuro e não importa qual seja esse futuro. Daqui um mês, um ano, dois anos, poderá existir eventualmente uma resposta sim. E aí sim nós vamos colocar essa programação no ar.

P/1 -Seu Adin, o senhor é uma pessoa que realizou o sonho de infância, ser locutor. Como é isso vendo em retrospectiva essa trajetória de vida?

R -Bom. Veja bem. Quando a gente tem uma vocação, a vocação às vezes pode até ter não somente uma direção. Ser locutor de rádio. Mas ela poderá também estabelecer-se dentro de outro campo. Ser engenheiro. Ser cirurgião dentista. Ser médico. Mas o que vale é aquilo que tem uma prioridade, um valor maior. A minha vocação. Se eu for quantificar nesse instante, sempre foi o rádio. Noventa e cinco por cento e cinco por cento de odontologia. Odontologia, ela serviu para mim como campo de ganho. Eu tive que manter a família. E a família sempre subsistiu devido à materialização dessas duas vocações minhas. Para o rádio e para odontologia. Como odontologista eu trabalhei mais de sessenta e poucos anos. Hoje, já uns seis ou sete anos que estou aposentado. Mas apesar de não ter sido uma vocação precipuamente importantíssima, porque ela veio como trajetória criada pelo meu velho pai, mas apesar disso a profissão deu-me o galardão, a vitória de ter sido bem exercida. Porque criei um patrimônio. Eu tenho cinco sobrados. Sendo dois grandes. Quatrocentos e tantos metros quadrados cada um. Um aqui em São Paulo e outro lá em Peruíbe. E mais outros três sobrados que são menores aqui em São Paulo. Foi a profissão, mais de odontologista, como se comparar, do que a profissão como de radiodifusão. A radiodifusão na minha maneira de compreender, de sentir e também de experimentar, somente pode lhe dar um quinhão de glória financeira se você conseguir patrocínios. Porque se você depender de salários, a profissão deixa de ser estimulante, porque os salários nem sempre correspondem aquilo que você torna desejável. É isso daí.

P/1 -Eu queria que o senhor contasse um pouco. O senhor fez uma trajetória da vida profissional. Falar um pouco da vida pessoal. O senhor casou com que idade? Os primeiros filhos. Conta um pouco dessa história.

R -Essa história oferece sempre um ponto de interrogação. Mas eu vou de uma forma subliminar mais ou menos o seguinte. Eu tive um primeiro casamento que durou apenas oito anos. Esse primeiro casamento eu tive quatro filhas. Nesse instante apenas duas superaram o tempo, porque outras duas faleceram. Eu tive uma filha que faleceu com quase seis anos de idade. Ela era diabética. E agora, há menos de sete anos faleceu outra. Essa nascida em 1956. Ela estava já com cinquenta e poucos anos. Faleceu com câncer. E teve ela, essa última, uma vida circunstanciada a uma multiplicação de problemas que nem quero pensar nesse volume de problemas que ela enfrentou. Fiquei viúvo e agora faz sete anos. No mesmo mês em que ela faleceu também faleceu a mãe. Esse casamento, que foi um casamento “inexistoso”, porque houve a separação, houve o desquite. E depois então eu fui obrigado a ter um companheirismo. Desse companheirismo nasceu uma filha, hoje está com quarenta e um anos. Eu tenho uma perfeita condição de convivência com essa minha companheira e com minha filha. E hoje tenho essas três filhas. Uma morando em Vinhedo. Outra morando nos Estados Unidos e outra morando aqui no bairro de Tatuapé. Essa que mora em Vinhedo está muito bem posicionada, socialmente falando. Mora num recinto fechado em Vinhedo e eu a vejo de uma forma muito, muito rara. A que mora nos Estados Unidos eu somente há vi, a última vez deve fazer aproximadamente quinze anos e me parece que nunca mais a verei. Ela não pretende morar mais no Brasil. Adaptou-se tão bem, que ela disse de uma forma muito clara e persuasiva de que não pretendia mais morar no Brasil porque já estabeleceu a sua vida de casada lá. Eu estou tentando me lembrar da cidade onde ela está. Talvez dentro de alguns instantes eu me lembre. O que ocorre com essas minhas três filhas é que elas estão ao lado de outra filha que criei e essa filha que crie, teve dois filhos. São praticamente netos meus. Eu considero netos não apócrifos, mas netos verdadeiros porque eu os crio. E a situação hoje é de uma convivência mais com essa filha do segundo casamento. Do segundo companheirismo e mais essa filha de criação. Quando eu falo em filhas sou obrigado a criar dentro do paternalismo uma expressão muito, muito especial. São queridíssimas filhas. Todas elas, queridíssimas. Eu não poderia pretender de forma alguma algo que pudesse determinar ou que pudesse qualificar melhor essas pessoas do que estou nesse instante falando. E quanto aos netos, estão aí. Um com dez anos nesse instante. E outro com quinze anos. Devido à dificuldade de convivência do velho avô com o jovem, que hoje está com costumes e hábitos completamente diferentes, há um conflito. Conflito de gerações. Esse conflito é grande, não é pequeno. Eu por exemplo com relação ao jovem de quinze anos, que é filho dessa minha filha de adoção, tenho dificuldade de diálogo. Dificuldade de aconselhamento. Dificuldade de didatismo. Dificuldade de escolarização. E vejo isso como sendo um problema não somente meu. Mas é um problema da sociedade no geral. O jovem de hoje se predispõe a ser um inimigo ou adversário potencial dos próprios familiares, porque ele tem ao redor de si, o  jovem tem ao redor de si companheiros que lhe são muito mais afetos, que lhe são muito mais irmãos. Que lhe são muito mais amigos do que o velho avô. O avô para eles é uma figura ultrapassada. É uma figura que não é somente uma figura avoenga. É uma figura que significa mestiçagem entre uma tradição que não se deve mais respeitar e aquilo que é invocado como a dificuldade desse velho se associar aos costumes do moço. Associar aos costumes do jovem hoje não é que seja difícil, é impossível. Então esse contraste. Esse radicalismo de intenções entre jovem e velho eu sinto como sendo um grande problema para mim e também para minhas irmãs. É um problema que se arrasta, ele se desloca no dia a dia como sendo um grande problema. Não é pequeno. Grande.

P/1 -O senhor fez uma trajetória da vida profissional. Só a título de exemplificação mesmo, queria que o senhor contasse uma história muito marcante dessa época da Excelsior ou da Marconi. Algo típico ou marcante para o senhor.

R -Um rádio ouvinte meu, conhecido no Brasil inteiro, Dalgas Frisch. Dalgas Frisch é um elemento que gravou vozes de pássaros, ruídos de peixes. É um elemento muito, muito dado ao mundo selvático. E o Dalgas, a figura universalmente conhecida como sendo um elemento que tem uma formação de identidade com aves e pássaros como nenhuma outra pessoa é engenheiro. Ele esteve na Rádio Marconi me visitando e fez questão total de copiar uma crônica que naquele dia tinha sido lida por mim, pelo microfone na Rádio Marconi. Eu falei: “Dalgas, eu faço o seguinte: eu vou copiar duas, três, quatro, cinco, dez crônicas para você e envio.” “Não, não. Eu quero essa crônica de hoje, apesar de você depois assumir a responsabilidade de mandar as demais.” Eu tinha a minha sala no prédio onde funcionava a Rádio Marconi. Ele fez questão de sentar na minha mesa e copiar, depois disse a mim algo que praticamente ficou sacralizada esta manifestação dele. “Eu talvez possa convidá-lo para fazer a dicção de um filme do Walt Disney.” Eu disse: “Com muita satisfação.” “E vou indicar o seu nome para o Walt Disney, a empresa, no sentido de você ser o locutor de quem sabe dois, três filmes que venham a fazer.” Senti no Dalgas um amigo que eu nunca poderia ter tido a percepção de ser, naquele instante um bom, um privilegiado amigo. Para mim, privilegiado amigo. De outro lado, antes dessa data, ele era simplesmente um desconhecido. Esse fato de uma pessoa importante no universo biológico do Brasil ter me visitado, deu-me uma aspiração de que o microfone é muito mais importante do que se possa imaginar, como se imaginava nos tempos passados. Nos primevos tempos. Hoje se sabe que o microfone é um ambiente de difusão de ideias tão “incompetitivo” que faz com que novas religiões se estabeleçam sem que haja necessidade de templos. Então cito aqui, somente como referencial as novas igrejas pentecostais, que criam um volume tão grande de seguidores, que podemos contá-los aos milhões. Hoje sabe muito, muito bem que as novas pentecostais. E temos aí a Igreja Universal do Edir Macedo. Também temos a Igreja Mundial do Valdemiro Santiago. Eles devem ter de um lado e do outro. Essa primeira que citei mais de três mil templos reais, com a média de setecentos e poucos lugares em cada igreja. E Valdemiro Santiago tem uma despesa só de aluguéis de televisões e rádios que vai um pouco além de seis milhões de reais mensais. O que prova que o microfone ou então a televisão, se constituem como instrumentos importantíssimos. Não é para efeito de difusão da fé. Difusão de todos os segmentos que se possa pensar. Científicos, culturais. Segmentos políticos e etc., etc. E que uma igreja, na sua compartimentação física nunca, nunca poderá criar esse âmbito colossal de seguidores. E eu particularmente ao conversar com os padres e pastores, já tenho dito aquilo que é convencionalmente o bem conhecido. Um microfone serve como elemento propiciatório de difundir algo para milhões de pessoas num determinado instante. Entretanto se você não tiver o microfone, mas falar de um altar de uma igreja, você falará apenas para cinquenta, oitenta, duzentas, trezentas pessoas. O que é muito, muito diferente. Esta paixão que eu tenho pelo microfone é devida exatamente pelo sentido de grande volume de alcance que não tem de forma alguma competição com o meio físico onde a pessoa está. E, digo mais, agora nós temos tido ultimamente dois sistemas que estão em estudos. O sistema Iboc. Sistema para efeito de radiodifusão. E o sistema de RM, também para radiodifusão. O que vou lhe dizer neste instante e vai ficar gravado. É algo que deverá ser devidamente bem analisado no futuro. Uma rádio de OC, Ondas Curtas. Veja bem. Ouça bem o que estou lhe falando. Uma rádio de Ondas Curtas, dentro de pouquíssimos anos, seis anos, oito anos terá importância muito maior. Nem há comparação. E aqui existe um sentido profético nas minhas palavras. Apesar de eu não ser especialista no assunto, mas pelos conhecimentos que tenho e aquilo que sei por parte de informações advindas do exterior, principalmente Europa e Estados Unidos. Esses dois sistemas aplicados a rádios de OC e também de AM se traduzirão como sendo as rádios mais importantes do mundo. OC porque o som será um som límpido, estéreo e universal. Sem qualquer infringência de elementos exteriores. Chuva, sol e também durante o dia que possam veicular obstáculos. Não haverá. E nós já temos experiências dos dois sistemas em muitas rádios. Hoje a rádio BBC, ou Sistema BBC de rádio e televisão e seu parque gráfico e editorial, tem aproximadamente em todo mundo dezoito mil e poucos funcionários. A BBC de Londres. Mas utilizando esses dois sistemas. Nós temos, por exemplo, a Rádio Nacional de Lisboa. A Rádio Central de Moscou. Nós temos também outra Rádio Central de Johannesburg, lá da África do Sul, e muitas dezenas de rádios europeias e também norte americanas. Aqui no Brasil não foi adotado esse sistemas para efeito de irradiação junto ao público brasileiro ou então latino americano. Mas dentro de algum tempo. Calculo dois anos. Três anos nós já estaremos com a aplicação desses dois sistemas. Isso nos convence de que o rádio brasileiro, com a tecnologia que vem de fora. Ou do Japão. Ou da Europa. Ou dos Estados Unidos. Essa nova tecnologia vai redimir um passado que foi de pouca tecnologia aplicada ao rádio. Então hoje nós temos, por exemplo, uma rádio de FM, que está mais ou menos no ar de trinta anos para cá e substancialmente vem crescendo. Tanto é assim que, mais de cinquenta por cento das rádios existentes no dial paulistano são de FM. E outras cinquenta são de AM. E a progressão que deve existir daqui para frente, vai ser uma progressão mais no campo nas rádios de OC. Mas isso daqui a alguns anos. Outra pergunta?

P/1 -Outra pergunta é para finalizar, pensar um pouco no final da entrevista. Como foi contar um pouco. Claro que é um pedaço apenas. Recorte dessa trajetória, mas como foi contar hoje esse pouco de trajetória.

R -Veja bem. Quando fui convidado pelo José Carlos para vir aqui, eu desconhecia totalmente a finalidade, o ambiente físico que me encantou muito. E agora eu sou obrigado então a tecer um comentário. Mas esse comentário deveria demandar pelo menos uma hora. Eu vou falar em cinco minutos. Eu sei que o tempo é exíguo. O ambiente aqui é o melhor dos ambientes que se possa imaginar. É um material humano, que é um material que se dedica a oferecer o máximo de simpatia para quem chega aqui, como elemento neonato. Praticamente. E o ambiente físico que demonstra um capricho, um zelo muito, muito grande pelas visitas que já existiram, depoimentos, historicidades muito, muito importantes e que a gente nota uma circunspecção, uma seriedade muito, muito grande nesse trabalho de vocês. Se eu pudesse falar do sentido de elogios, então os meus elogios seriam hoje, amanhã até o último dia da minha vida, com relação a esse campus de atividades que vocês desempenham aqui. Eu iria até um pouco além. Até hoje, pelo que tenho sentido na minha vida, nunca tive algo tão agradável, no sentido radiofônico como essa experiência de hoje. Essa experiência se traduz como sendo uma experiência rara, agradável. Ou agradabilíssima. É praticamente umas verdadeiras núpcias que a gente estabelece com pessoas que hoje, na condição de novos amigos, mas creio que serão grandes amigos daqui para frente. A você, Tiago, Adilson que está ali. A gente só pode pensar. A Gabriela que está na outra sala. A gente só pode pensar em termos de querer fazer com que haja preservação. Tradicionalização das amizades conquistadas hoje. E que eu não vou de forma alguma esquecê-las nunca, nunca mais.

P/1 -Obrigado Adin. A gente também. Obrigado mesmo. Foi ótimo

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