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História

Um troço para contar

História de: Depoimento de Edmilson Soares Andrade
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 12/07/2021

Sinopse

Mais conhecido como Magrão, Edmilson nasceu em Três Marias, Minas Gerais e, com seis meses de idade, mudou-se com os pais para Brasília e depois para a cidade-satélite de Gama. As mudanças acompanhavam o trabalho de seu pai, Ezequiel. Na adolescência, roubava manga e jogava seu futebol. Era desengonçado, mas dançava bem o soul nas festinhas. Com 16 anos, ingressou como aprendiz no Banco no Brasil, onde desenvolveu sua trajetória até chegar à Fundação Banco do Brasil. Atuou com os projetos sociais desenvolvidos pela fundação, no qual teve a oportunidade de retornar às origens nordestinas de sua família e ver de perto as condições de vida nas cidades que visitou. O mineiro superou dificuldades e hoje pode contar seus causos e troços.

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História completa

Projeto Fundação Banco do Brasil

Depoimento de Edmilson Soares Andrade

Entrevistado por Tatiana Dias e Aurélio de Paula Araújo

Brasília, 24 de janeiro de 2006

Realização Museu da Pessoa

Entrevista FBB HV-02

Transcrito por Lívia Oushiro

Revisado por Izadora Telles

 

P/1 – Edmilson, muito obrigada por ter vindo participar deste projeto com a gente. Eu gostaria que você começasse a entrevista repetindo para mim o seu nome completo.

 

R – Tá. Edmilson Soares de Andrade.

 

P/1 – Data e local de nascimento.

 

R – Três Marias, Minas Gerais, 05 de outubro de 1959.

 

P/1 – Edmilson, registre pra gente também o nome dos seus pais.

 

R – É... Ezequiel Soares da Silva e Elza Amélia de Andrade e Silva.

 

P/1 – Conta pra gente qual que era a profissão de seu pai, Edmilson.

 

R – Papai... oriundo do Nordeste, né? Papai veio trabalhar – acho que vou até me antecipar - em Três Marias, né, na profissão de topógrafo, exercendo a profissão de topógrafo na construção da hidrelétrica de Três Marias, e lá eu nasci. Não sei, acho que estou atropelando.

 

P/1 – Não está, não! É isto mesmo, pode ir falando! Não, não... você que manda! Pode continuar!

 

R – E no ano de 1959, eu nasci em Três Marias.

 

P/1 – Edmilson, você poderia registrar pra gente o nome de seus irmãos?

 

R – Ah, tá. Eu sou o mais velho, né, de cinco irmãos. Então eu tenho a Edna – isto em ordem decrescente, né? – Edivo, Ezequias e Elzemira. Quer dizer, tem uma mistura de Elzemira, de Elza com Ezequiel, o papai, então são esses meus irmãos.

 

P/1 – Você disse que o seu pai sai de Três Marias e vem...

 

R – ... pra Brasília.

 

P/1 – É onde você passa a sua infância?

 

R – Sim, até hoje.

 

P/1 – Então conta tudo pra gente!

 

R – Tá. É, realmente, aquele início de Brasília, a construção é de 1960. Eu cheguei, o quê, com seis meses. E daí morei na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirantes, né. Então, na verdade, era o acampamento da construção de Brasília. E aos sete anos? Não, sete anos não... Aos três anos, eu fui morar numa cidade, onde eu resido até hoje, que é a cidade-satélite chamada... de nome Gama, né? Então... e estou até hoje lá. A minha infância... a minha infância, infância simples, né? De um nordestino que veio tentar a vida aqui em Brasília, mas graças a Deus, uma vida digna, tá?! Uma infância, o quê? Infância de soltar, jogar finca, bolinha, aquele negócio... Mas simples, estudante, ali, pé-no-chão... por aí, não tem muito mais assim que me vem agora pra falar da infância, né?

 

P/2 – O seu pai foi topógrafo?

 

R – Topógrafo.

 

P/2 – E ele veio pra construção de Brasília?

 

R – É. Ele exercia aquela função de topógrafo numa empresa, não sei que, em Três Marias. Findada a construção da barragem, ele veio pra Brasília. Aí então aqui ele foi trabalhar na empresa chamada Novacap, que era “Nova Capital”, né, onde... como eu vou dizer? Eu vou chamar... ela empregava praticamente todos, o motorista, não sei o quê. Mas era... era uma... não sei se é correto dizer que foi assim, uma primeira estatal, uma primeira daqui de Brasília – acho que não seria nem isto a palavra – mas aí ele ficou na Novacap. Foi trabalhar como topógrafo também, né, e depois saiu pra outras divisões, lá da DI – departamento de quê, meu Deus do céu? Não me recordo. Mas veio exercendo também, e depois, mudou, bem mais pra frente, ele mudou de profissão, aí foi ser fiscal. Foi onde é que ele se aposentou, como fiscal.

 

P/1 – Edmilson, como é que era o cotidiano da sua casa na sua infância?

 

R – Olha, era aquele negócio... pai... a gente diz, a palavra é “ausente,” por conta do tempo do trabalho, né, trabalho. E eu lá, com mamãe, a gente com mamãe, eu na condição de mais velho, tive que ajudar logo cedo, né? Porque eu... 46, a minha irmã com 42... Então quando um saía da barriga, você tinha que começar a aprender as coisas, porque a mãe estava grávida e foi indo, foi indo. Você ajudava com os afazeres de casa, os afazeres domésticos e estudava, brincava, corria. “Menino, vem pra cá!” Aquelas coisas de antigamente, né?

 

P/2 – O senhor frequentou uma escola?

 

R – Sim. É... a minha primeira escola, na época era primário, foi na Escola Classe número quatro. Isso no Gama, tá? Depois, Escola Classe 16, tudo na rede pública. Depois passou pra Centro de Ensino, que eu já fui lá na sexta e sétima série. A oitava série eu já fui fazer no... não, isso no CG, Colégio do Gama, e lá também eu fiz o segundo grau. Depois passei, aquele negócio, você tem que trabalhar pra ajudar, como não tinha condição, então você trabalhava. Eu já com 16 anos, foi quando? Dezesseis anos e dois meses eu ingressei no Banco do Brasil como menor, aprendiz, por conta de que... Chegou um colega, o Carlos Eduardo, que já trabalhava no banco, era menor estagiário também e no CG ele chegou com uma lista – Colégio do Gama, no caso – uma lista lá pra fazer aí essa... “Ah, quem quer se inscrever? Quem quer...?” “Opa, coloca o meu nome aí!” Ele colocou, a gente depois fez a prova e eu passei, então foi assim, uma felicidade. E realmente é o que mais adiante, eu fiquei assim muito triste porque eu vim a sair do banco com 16 anos e dez meses, eu saí do banco porque era um contrato, e aí que era o interessante da coisa. Eu perguntava, ficava assim chateado, por quê? Eu acolhi inscrições para o concurso de escriturário, porém eu não poderia me inscrever, por quê? Porque eu não tinha idade. Tinha que ter 16 anos e dez meses, e à época – oito meses... – eu não tinha aquilo ali. Então chegou 16 anos e dez meses, eu tive que sair. Aí eu saí, passei... então, mas acho que eu vou passar depois, acho que você me perguntou se eu estudei em algum colégio... Tá, então, depois que eu saí com 16 anos e dez meses concluí o segundo grau – que era uma condição também, né, você tinha que estudar – saí, concluí o segundo grau, e certo dia, passeando, fui rever os amigos lá do banco. O FUNCI [Departamento de Funcionalismo?] onde eu trabalhava... Eu encontrei o Rosane. “Rosane! Ô, Rosane, tudo bem?” “Tudo bem, Edmilson. Edmilson, você está trabalhando?”, ela falou. “Estou não, Rosane.” “Ô, bicho, o que te aconteceu?” Ela não perguntou nada, falou, “Não, ‘peraí’.” Conseguiu, ligou pro PACIEM (?), que era um departamento, DEIG [Departamento de Informações Gerenciais e Estatísticas], que eles estavam contratando pessoas. Aí eu fui pra lá. “Não, manda o rapaz aqui.” Fui lá, fiz a entrevistazinha, passei, fui pra uma empresa terceirizada – acho que eu não falei isso antes, né? Aí então trabalhei por três meses como contratado do banco lá no DEIG, depois o banco extinguiu esta política de contratação de empresa – terceirizada, no caso – mas meu cadastro ficou, e logo em seguida, acho que três ou quatro meses depois, criou... Ele abriu um concurso pra contínuo e como já tinha uma gama de pessoas que já conhecia o serviço, já conhecia o banco, já conhecia tudo, eles convocaram essas pessoas. Quem quisesse se inscrever, fazer a inscrição, fazer esse concurso, e daí foi que eu voltei ao banco até agora, quando me aposentei.

 

P/1 – Então vamos dar uma paradinha, vamos voltar um pouquinho...

 

R – Vamos, exato, que eu estou interrompendo... Era o colégio, né, desculpa.

 

P/1 – Onde que era essa agência do banco que você foi trabalhar e como que era o cotidiano de trabalho no banco nessa época? Como é que eram as pessoas? Conta pra gente um pouquinho.

 

R – Ah, tá. Bem... era no Edifício Sede I, no nono andar. Isso, o FUNCI, Departamento de Funcionalismo do banco, vinculado à Diretoria de Administração, Diretoria de Recursos Humanos, alguma coisa assim. Daí eu cheguei completamente diferente ao cotidiano que eu vivia. O mundo em que eu vivia era um, o mundo do Gama, da cidade-satélite, mais distante, onde a escolaridade, as pessoas... Era bem o contrário. Tá, então fui trabalhar lá. Um troço interessante é que em casa não tinha telefone e aí eu fui apresentado a um aparelho, um PABX-seis-teclas, alguma coisa assim, pá, pá, aquele troço, aí fui trabalhar com o Lins que era um contínuo também na recepção lá. “Aí, Edmilson, vamos aqui.” Começou a me ensinar, pá, pá, pá. E eu fiquei assim bastante... A palavra não é emocionado... Sei lá, também não é chocado... Eu fiquei deslumbrado, vamos dizer assim, com as pessoas, com a forma como as pessoas tratavam umas às outras, aos clientes, como eram atendidas as ligações, quem vinha por alguma forma obter alguma informação ali, de qual que era o tratamento, a educação, tá, que se dava... Eu, graças a Deus, muito embora, mesmo sendo humilde, não tendo esse contato assim, mas mamãe sempre primou por aquele negócio, a gente ouvir bem, falar baixo, responder tudo “numa boa”. Então, ali, naquele ambiente de trabalho que era completamente diferente pra mim, eu fiquei assim, deslumbrado. Pode até parecer que... “Pô, esse cara está fantasiando!” Mas, não, era realmente o que me passou. Então quando eu cheguei, por exemplo, no primeiro dia que eu cheguei em casa, falei: “Mãe, é maravilhoso! Realmente o pessoal lá, olha, é excelente, pá, pá, pá.” E o telefone? Nossa! Tocava... Aí eu não sei, eu tirava aqui mas... e aí tocava outro. Eu falava: “Caramba, Lins.” “Não, rapaz, aperta aqui, pá, pá, pá.” E daí foi. Fui pegando com a vivência e fui me apaixonando – a verdade é essa – pelo banco. E o local em si – eu falei das pessoas – o local que a gente cuidava? Nessa época, eu... O FUNCI centralizava todas... tinha um documento chamado “fé-de-ofício”. Então todos os funcionários de todo o Brasil... O fé-de-ofício é localizado aqui de Brasília.

 

P/1 – Que que significa FUNCI mesmo, só pra gente poder registrar?

 

R – É... Departamento de Funcionalismo. Eu trabalhei no FUNCI, trabalhava no Departamento de Funcionalismo. Então era a vida... Remoção, então tudo estava aqui. O gerente... Um funcionário pedia remoção, caía aqui com a gente. Eu ia descobrindo aos poucos que eu também era sempre curioso, né, mas a minha função mesmo de estagiário, o quê que era? Era fazer um pagamento ali na agência, era levar um documento lá no arquivo geral, que ficava no segundo subsolo, ia comprar um lanche. Então era esse negócio, ia tirar uma xerox... Outro troço que foi também assim, que eu fiquei extasiado, é... microfilmagem. Aquela maquininha lá, roda pra cá, roda pra lá, então, quer dizer, tudo novo, e eu deslumbrado ali. Então essa foi a minha apresentação ao Banco do Brasil. As pessoas e o local que eu trabalhava eram desse... Nesse modelo. E não sei se eu posso adiantar, depois, um troço que, acho que não só a mim, mas a mim foi bastante marcante, é que quando eu tive que sair – acho que a palavra correta é essa –, eu entrei “em parafuso”. Eu era um guri de 17 anos e dez meses, estava alistado na Marinha e de repente eu me vi saindo daquela casa – que ali, na verdade, é uma casa, são amigos que até hoje a gente tem. Alguns faleceram, tal, alguns a gente perdeu o contato, mas muitos outros a gente até hoje, né – e de repente, eu me vi assim que eu voltava... Eu estava em casa, ia pro colégio, eu não saía, voltava na rua, que foram meus colegas, que a gente cresceu de sete até... Até então eram dez anos de convivência, realmente crescendo nesse... Se eu viesse aqui da padaria e tivesse alguém aqui na, na... Eu dava a volta pela outra rua, entendeu? Entrava “em parafuso” assim. Eu cheguei: “Papai, ô, eu não consigo ficar aqui. O senhor me manda pra casa da minha tia, alguma coisa assim.” Aí, fui passar pra trabalhar esse negócio. Foi assim bastante... foi forte. E numa época que você não tinha psicólogo, então, quer dizer, existia, mas não é hoje esse acesso da forma que era. Então, quer dizer, você ter que trabalhar aquilo, foi bem pesado.

 

P/1 – Mas aí você presta concurso e volta como contínuo dentro do banco?

 

R – Volto como contínuo.

 

P/1 – E aí... ficou feliz demais.

 

R – Não, aí tudo bem. Eu já esperado, eu já estava legal. Mas eu passei, o quê, acho que me parece... Talvez seis meses do tempo que eu saí, eu fui pra Bahia... Isso, fui, e tinha que me apresentar à Marinha. Voltei, fui dispensado de excesso de contingente. Fui, aí voltei à Bahia de novo... Não... Aí, depois fiquei por ali, talvez uns dois meses depois, foi que eu vim visitar um colega. Ele chamou... daqui uns, sei lá, vamos botar oito meses, aí eu já estava de novo nesta casa chamada Banco do Brasil, né?

 

P/1 – Edmilson, a gente falou de trabalho e tudo. Mas você saía? Como é que era a sua juventude nessa época, como é que era Brasília? Descreva um pouco...

 

R – Olha, Brasília... É interessante a gente falar assim porque, na verdade, o Distrito Federal e Brasília... Você fala Brasília e a gente confunde muito quando, na verdade, Brasília é esse centro aqui, é esse polo aqui onde está... São as asas, né, os ministérios... Então eu, a minha infância, como eu disse, onde eu vivo até hoje, é Gama. Gama é uma cidade que é localizada, o que, a uns 40 quilômetros de Brasília, tá? É mais na saída. Então lá, é... O poder aquisitivo é bem menor – como já havia frisado antes – e a gente, a nossa infância, vamos falar da adolescência. Era aquilo, era soltar pipa, era ir tomar banho nos córregos lá embaixo, era roubar manga na chácara da viúva... Era esse troço, assim. É... Aí vinham as festinhas, o tempo das festinhas, dos embalos, entendeu? Era festinha na casa de fulano. “Hoje tem festa na casa do Carlinhos.” “Ah, tá, vamos lá!” Era bater uma “pelada”, todo sábado tinha uma “peladinha,” depois a gente ia pra casa de um colega, ouvia uma musiquinha à tarde, ficava ali... Então era uma coisa simples. E estudava à noite, entendeu, a galera, “Vamos lá.” Mas era coisa assim, uma festinha, uma bola, uma peladinha no sábado, domingo a gente começa a jogar no time de fulano... Coisa assim, não é muito... não tem muito atrativo, porém era simplesmente maravilhoso porque era bem, a gente era bem livre, não tinha essa preocupação que hoje tem, que tem que estar de olho em todo mundo. Era todo mundo tranquilo.

 

P/2 – E os namoros nas festinhas, como é que eram?

 

R – Os namoros... Eu sempre fui um camarada meio desengonçado, grandão. Com 17 anos e dez meses eu já tinha praticamente a altura que tenho hoje, um metro e 86. Aí, daí que... Magrelo, aquele “palitão”, assim... Era assim, não tinha muito... Agora, o seguinte, dançava bem. Sempre dancei bem. Isso não é modéstia, não...

 

P/1 – É uma vantagem...

 

R – Falsa modéstia não se aplicaria aqui. Eu gostava de dançar, a gente dançava o tal do soul, né. Então não sei se... Vocês lembram talvez só de filme, sabe como é que era. Mas era música lenta que você, pra dar uma volta, assim, praticamente meia música, aquele negócio, pá, luzinha... E as festinhas, no caso lá, a gente não tinha... Discoteca foi bem depois, boate... que boate? A gente nem pensava em boate. Então era festa na casa de fulano, festa na casa de ciclano. Quando tinha um que era mais ousado, trocava a lâmpada lá, colocava uma lampadazinha mais fraca pra dar aquele clima, e era aquilo... Você curtia a menina aqui, saía ali pra fora pra dar uma voltinha, dava uns amassos, como se diz hoje, e aí voltava. Mas também, não tinha essas saídas, não. Mas era gostoso, dava pro gasto.

 

P/1 – Você, você faz curso superior logo nessa época ou demora um pouquinho?

 

R – Não, não. Isso aí foi algo assim que... Hoje eu já não me culpo mais, não, mas eu já me culpei bastante. Concluído o segundo grau, aí eu deixei rolar. E depois, a minha mulher que veio: “Amor, você tem que... Pô, você está novo, cara, vá fazer uma faculdade.” “Ah, mas aquele negócio, aquele saco de “trem”, sala de aula, não-sei-o-quê.” Então, tá. Vamos. Tudo bem. Fui, fiz a inscrição no vestibular, vou ver qual é, né? Porque, o seguinte, eu saí do segundo grau, concluí o segundo grau, passei praticamente uns dez anos sem nada, e voltava... Aí, não, vou fazer um supletivo, fazer um supletivo pra dar uma reciclada, que era algo mais barato, né, mas na área de cursinho, e fui fazer esse vestibular. Aí falei. “Puxa, o quê que eu vou fazer?” Direito é muito concorrido, né? O negócio é entrar, depois a gente muda, né. Aí, fui, falei... não. Economia e pedagogia. Pedagogia porque dava muita gente, mas também tinha muita vaga, né? Aí economia era alguma coisa assim... Não, economia é interessante porque está na minha área, né, está ali: banco, economia, tem a ver. Então, tá. Fui lá, fiz. Tal foi a minha surpresa com o resultado. “Passei, cara!” Foi algo assim também que... Eu fui tão descrente... Na verdade, eu queria, né, estava assim mas... Quando eu vi o resultado... Bicho, foi assim. Tinha um colega da Fundação, meu camarada da Fundação nessa época, o Luís Eduardo, que fez também lá, e a gente saiu da Fundação direto pra ver o resultado. “Passei! Passei!” O Luís não passou... O Luís já estava... O Luís estava bem mais novo, mas não passou. “Não, não tem nada não, depois você passa.” Tanto que hoje ele é advogado, né. E eu não sabia que eu queria tanto, mas acho que foi aquele negócio: não, eu sou capaz. Tá, passei, fiz três semestres. Terceiro semestre... É, três semestres. Aí, veio o lance do meu guri, né, meu filho, do Caio... Tem umas coisas que... É, ele é filho do coração, né? Tem o Caio e a Maria Luíza, que são filhos adotivos nossos. Então, o Caio, e a gente entrou na fila, né. E eu me lembro que quando eu... No dia em que eu recebi a notícia que nós teríamos que ir à Vara do Juizado do Menor, eu tinha uma prova de contabilidade. E na prova de contabilidade, eu conhecia... Conhecia bastante a matéria, entendeu, e era de consulta. O professor era “chegado”, tal, tal. Tudo bem, fui lá, entrei, fui lá para o meu cantinho atrás e começou a prova. Rapaz, tinha que fazer um balancete. Aí, não dava. Procurava aqui na pasta, nada, e fazia, fazia... Isso, uma meia hora lá, ah, peguei, “o quê que eu estou fazendo aqui?” Aí escrevi lá no rodapé: “Jorge, desculpa, velho, mas não dá, não. Amanhã vou ser pai.” Pá, levantei, entreguei, saí, né. Fui lá, tinha que buscar minha esposa no aeroporto, fui lá, voltei, apareceu, e o quê que o Jorge fala? O pessoal estava saindo, né. E o Jorge: “Chega aí. Ô, bicho, que é isso, cara? Você fez o exercício, estava tudo correto, cara.” Falei: “Não, Jorge, deixa pra lá.” Tá, conclusão, esse terceiro semestre, beleza. Levei essa prova aí, estava “de boa.” Não tirei uma nota legal nela, mas já... A nota já dava tranquilo, né? Só que depois, eu falei: “Pô, dez anos de casado, agora vem o Caio, eu vou ficar toda noite vindo para a faculdade? Ah, vou não. Vou curtir o moleque, né?” Aí, deixei, tranquei. Aí, passou-se mais algum tempo, mais uns dois anos talvez, aí eu voltei. Retomei. Aí mudaram a grade, né, aí eu tinha que fazer, eu tive que fazer uma matéria que era... Duas, três matérias que tinham do primeiro semestre. Mas só que eu peguei um chefe da cadeira lá de Economia, que era o professor também de Metodologia Científica. O cara era um porre! Aí não bati... Não sei, é que a “falação” já estava em outro nível, então a cabeça estava bem assim, aí não aguentei, não, aí falei “tchau” e parei, deixei quieto.

 

P/2 – Você falou “passou”, mas passou na UnB [Universidade de Brasília]?

 

R – Não, não. UnB realmente é uma faculdade, Universidade de Brasília, uma universidade pública, onde estão as melhores cabeças, né? Infelizmente, não fiz parte desse universo. Eu fiz na, na... FIPLAC [Faculdade Integrada do Planalto Central]. Uma faculdade aqui no... Uma cidade aqui no Estado de Goiás, uma cidade vizinha, cidade de Valparaíso. Faculdades Integradas do Planalto Central.

 

P/1 – Edmilson, é no DEIG que você fica mais tempo?

 

R – DEIG. Departamento de Informações Gerenciais e Estatísticas.

 

P/1 – Conta pra gente como é que funcionava, quais que eram as suas atribuições, um pouquinho desse cotidiano dentro desse departamento.

 

R – As minhas atribuições no DEIG... Eu tinha iniciado? Eu como contínuo, né. Então, aí era interessante, porque no contínuo a gente trabalhava. O DEIG funcionava em um prédio no Edifício Camargo Corrêa. Então era só o DEIG e os outros. Tá. O que é que o DEIG fazia? O DEIG era o Departamento de Informações Gerais e Estatísticas, então ele colhia as informações das agências, da gerência, da superintendência, já existia nesse tempo. Esses dados, valores de safra, de custeio, de EGF [Empréstimo do Governo Federal], AGF [Aquisições do Governo Federal], esse negócio todo, eu fazia aquilo, condensava, trabalhava em grandes números, e a gente ia encaminhar para as diretorias, pra presidência, a vice-presidência, Diretoria de Crédito Rural, para eles terem ciência o que que estava acontecendo, né. E o que era eu enquanto contínuo? Aí, voltava, era quase de menor de idade. Era pagamento, era cópia, era malote, malote imenso, imenso, eram caixas e caixas de 063 – era um formulário que a gente recebia – assim, absurdo. Carrinhos e carrinhos. Inclusive tem até eu não sei... O senhor Ricardo tinha sido convocado. Ricardo foi um camarada que incentivou a sair dessa condição de contínuo. Ele era muito gaiato, um carioca, assim, “porreta,” meu amigo até hoje. Eu na posição de contínuo porque ele tinha... Às vezes a gente chegava empurrando uns carrinhos, era tipo um berço, ele chamava de “berço.” “Cadê o berço?” Tinha um berço e um skate. O skate era só a prancha, né, com a rodinha, e o berço não, era fechado até em cima, a gente enchia aquilo de caixa, pá, pá, empurrando. Aí o Ricardo, quando pegava assim, eu chegava perto da sala dele, ele: “Smack, smack, smack [imita som que se faz para o burro andar]! Vai, burro-sem-rabo! Cá, cá, cá...” Dava aquela risada gostosa. Aí, tinha alguém que falava assim: “Não, frescura, não é nada disso, não!, que aquilo lá no Rio, aqueles camaradas que catam papel, o pessoal chama de burro-sem-rabo.” “Tá legal, sacana, me aguarde.” Então, tá. Mas nunca me senti ofendido de maneira nenhuma, sabe? Pelo contrário, eu achava que esse cara estava de sacanagem, estava querendo dar uma cutucada para eu perceber o que que estava acontecendo. Tá, isso no DEIG. Então, tinha essa parada, né? Você leva e traz, pá, pá. Daí, aí eu passei em um concurso interno, né, e fui... Tinha posto efetivo, isso. Então eu passei em um concurso interno, fiquei no mesmo DEIG, que tinha vaga lá, então fiquei como PE [posto efetivo], não sei, talvez dois meses. Eu nem coloquei isso aí... PE. Talvez como dois meses. Então logo...

 

P/1 – Ficou onde?

 

R – PE, Posto Efetivo, no DEIG. É que eu coloquei só como auxiliar administrativo. Daí, aí surgiu uma vaga, aí eu fui como auxiliar administrativo. Aí não... Já ia recomendar os meninos, né? Os meus colegas que haviam ficado na condição de contínuo ainda. E, naquela parte de burocracia, vinha assim... Bater uma carta, né, ia receber o malote, você ia abrir, você ia ver, que você via o destino, providência, o que que era aquilo. Passado um tempo, fui assistente, aí você já vai começar a gerenciar, supervisionar, trabalhar com auxiliar, com os postos efetivos, né? E foi daí... Até eu fiquei depois, eu fui trabalhar na época que teve um troço que foi pesado, o DEIG foi extinto, extinguiu-se o DEIG...

 

P/1 – Em que ano?

 

R – Em 1989, 1990... Foi 1990 que eu fui pra Fundação, aliás, né? Então tá.

 

P/1 – Isso.

 

R – Então ficou... Nessa época a gente viu que iam extinguir o departamento. Que que é isso? Tinham móveis, tudo aquele troço. Então tinha que cuidar desta parte de inventário da coisa, né, o que tinha, o que não tinha, levantar, o que aconteceu, que é que deu baixa, onde é que está, foi para lá, foi para cá... Então foi um pedacinho pesado, fiquei com essa parte de almoxarifado, para falar a verdade. E foi assim... Bem, bem pesado. Extinguiu-se o DEIG e eu fui para a Fundação. Acho que eu falei bem em linhas gerais o que eu fazia.

 

P/1 – Tem algum outro momento de você no Banco do Brasil que você queira relembrar, alguma pessoa, um momento marcante? Você, ainda, até o Banco do Brasil, até 1990.

 

R – Não, agora não vem nada, não. Sei que acho que tem alguma coisa aqui que estava batendo, mas agora acho que não é nada, não.

 

P/1 – Só mais uma perguntinha. Quando surge a Fundação Banco do Brasil, você trabalhando no DEIG, isso tem alguma implicação?

 

R – Não, não...

 

P/1 – O que acontece? Você fica sabendo...?

 

R – É completamente distinto. Eu tinha um colega que trabalhava na Fundação Banco do Brasil, o Rocha, morava também no Gama, colega com a gente. Jogava até no mesmo time e ele trabalhou na Fundação, também trabalhava na COTEC [Consultoria Técnica], e ligado à Fundação. E quando foi extinto o DEIG, o que acontecia? Você tem que se localizar, procurar um local para você se encaixar e que seja aceito, né. Aí, tal, falei: “Pô, neguinho, acabou lá o DEIG, como é que faz? Como é que é,” falei, “e lá na Fundação, tem jeito?” “Ah, Magrão” – Magrão, me chamavam de Magrão, né? – “Magrão, não sei, não, vou conversar com o pessoal lá, me parece que tem vaga, parece que tem alguém saindo lá.” “Então vê lá pra mim.” Pá, e eu fui, mandei para lá meu currículo, aquele negócio todo. Fui chamado para fazer a entrevista até com o Jacques e fui aprovado, fiquei. Fui trabalhar no SETAD [Setor Administrativo] com o Lemes. Aí, passou, 1090, foi em 1990, né, até 2003.

 

P/2 – Você pegou o início da Fundação?

 

R – É... a Fundação, ela tinha, é verdade, pouco tempo lá. É isso. Vamos lá.

 

P/1 – Você pegou esse início da Fundação. Como é que foi essa chegada na Fundação, sair do trabalho no banco, né, essa parte administrativa e, de repente, estar trabalhando na Fundação Banco do Brasil. O que significou pra você, esta mudança?

 

R – É, até então... É interessante também essa passagem, porque... O que acontece? Eu fui pra Fundação, fui trabalhar também na área administrativa, trabalhava no SETAD, vistoria e (_____), então você cuida desse negócio. Mas a diferença era o público alvo porque, então, eles tinham vários, vários... Ia chamar de programa, mas não é programa, é um negócio que daqui a pouco vou me recordar... As linhas de atuação da Fundação... A cultura, nessa época a Fundação estava trabalhando assim bastante com a cultura, tecnologia científica, (_____). Bem, não me recordo. E é um negócio assim que todo mundo perguntava: “Mas o que a Fundação faz?” “Ah, rapaz, espera aí, bicho, deixa eu pensar aqui, deixa eu me situar, situar ainda que eu não estou...” “Então você saiu do banco?” Porque aqui... como Brasília tem muita fundação educacional... Não, é a Fundação Banco do Brasil. “Ah, você saiu do banco?” “Não, eu estou servindo a Fundação.” E a Fundação, quer dizer, não tem nada a ver com aquilo de banco, você não tem que perguntar de cheque, não é nada disso. Eles vão tratar de outros projetos, eles vão tratar agora com a sociedade. A Fundação agora é o braço social do banco. Então, realmente, não é diferente, mas só enquanto, no meu caso, na minha função, só enquanto ao cliente final, que mudou, passou a ser uma empresa, uma prefeitura, uma empresa... a comunidade em si que não era necessariamente correntista do banco ou até colegas, funcionários.

 

P/1 – Você consegue identificar fases na Fundação? Da sua entrada até 2003, você consegue caracterizar de alguma forma?

 

R – Acho que não. Muito embora tenha sido várias, várias funções, mas como elas tiveram sempre relacionadas... Ah, sim. Tinha uma parte que foi mais interessante na Fundação. Essa época eu já era supervisor. Então, tinha a área administrativa e a área operacional. Na área administrativa, a gente fazia com que aquilo que a área operacional trabalhou chegasse aonde deveria ser, a gente faz “a coisa acontecer,” a gente chama assim. Então a gente foi em um projeto “O Homem do Campo” ... Isso, Projeto Homem do Campo... Onde pessoas que trabalhavam na área administrativa puderam trabalhar como operacional só que em campo. Isso eu não sei, as outras pessoas, outros colegas que vierem aqui, entrevistar os que virão, acho que vão falar assim, que foi uma fase que foi realmente marcante, porque era aquele negócio de você receber um laudo técnico que uma agência mandou com respeito daquilo, eu vou interpretar aquilo que está escrito, né? “Ah, está aqui.” Pá, pá, vou aprovar ou não, logicamente dentro dos parâmetros que seriam... O que é diferente daquilo, de uma entidade qualquer encaminhar aquele pedido, a gente analisar, falar: “Isso aqui é interessante, pá, pá, é viável, está dentro daquilo que a Fundação se propõe” e você ir a campo e ver o que está acontecendo, você conhecer a comunidade, você conhecer a carência, se é aquilo que realmente estão pedindo. Porque o camarada escreve de uma forma bonita e ele te pega em um dia assim, que você está meio sentimental... “Pô, esse camarada aqui merece 100 por cento”, e outro dia, você está: “Ah, esse cara aqui está querendo me engrupir, rapaz! Não, não vai.” Você tem aquilo ali e fala: “Poxa, é, foi selecionado dentre aqueles.” E você vai a campo, você vai ver, você vai pesquisar, você vai conversar com quem está tentando te vender o produto e quem é interessado direto, né? Então isso foi assim um troço maravilhoso. Pra mim, sei lá, a grande maioria de lá. E outro troço interessante, dentro desse projeto, desse contexto, foi que eu tive a oportunidade de ir ao sertão nordestino, fui ao Rio Grande do Norte, Santana do Siridó e Santo Antônio do Salto da Onça. Depois eu fui a Santa Catarina, lá no chamado Meio-Oeste. Fui à Mafra e Campos Novos. Então, quer dizer, eu convivi lá em cima com a pobreza, até que eu já conhecia, conhecia que meus pais vieram de lá. Então você vai passar umas férias lá, você vê. E vi a diferença da pobreza nordestina para a pobreza do sul, em Santa Catarina. Quer dizer, o troço primeiro começa pela paisagem porque você vai na mesma época, lá em cima aquele deserto, e você vai aqui no outro, não, você vê verdinho, entendeu, alguma coisinha irrigada – é pequeno, mas está irrigado. Então, quer dizer, realmente é uma divisão. Isso foi uma constatação do que a gente já imaginava. Mas o gostoso foi poder sair dali, da Fundação, daquele local, você preso ali, analisando a coisa, e você ir a campo, você botar uma bota, mateira (?), você pisar na lama aqui, entendeu? Você correr lá e ver aquilo. E depois também que é mais interessante, você volta, aí tá, aí foi aprovado, isto, aquilo, valores, cortou, cortou aquilo lá, tudo bem. Aquele projeto que você construiu juntamente lá com o parceiro lá do outro lado lá, e depois você vê aquilo lá, você vê um ginásio, você vê uma escola, você vê funcionando, você vê a coisa acontecendo. Isso foi uma fase boa, excelente, marcante.

 

P/1 – Edmilson, teve algum significado para você, que é filho de nordestino, seu pai saiu da terra natal, ver a Fundação entrar em um lugar, em um sertão e promover uma transformação? Tem algum significado especial para você?

 

R – Sim, sim. Eu, enquanto funcionário da Fundação Banco do Brasil e, consequentemente, do Banco do Brasil, sim, é gratificante, porque, primeiramente, a gente pode perceber e mostrar também para as pessoas que o banco não é só aquele agente que fala: “Se você não fizer isso aqui, eu vou tomar a sua lavoura,” como muita gente pensa. “Se você não deu conta de pagar o trato, eu vou ter que tomar.” É o carrasco, ele empresta, mas poxa, ele também tem outras obrigações para com seus acionistas, né? E essa parte do social mesmo foi... É aquilo, é gostoso, é a gratificação da pessoa, entendeu, de ver que ela pode ajudar direta ou indiretamente algumas vezes, uma transformação de um lugar e de uma pessoa também, você poder levar um... Lá no sertão do Sergipe ou do Ceará, poder ver aquele projeto, você trabalhou, você foi lá e viu que você trouxe água de tantos quilômetros para chegar e essa água está chegando naquela casa ali, entendeu? Um local que não tinha como e você vê que foi possível, você ver colocar um poço, que seja um poço comunitário, que seja um poço localizado ali. Então isso, realmente, é gratificante e é bom demais. Isso nos faz crescer como pessoa. Então, realmente, ela mudou, deu para perceber, você sai daquela... Do cru, muito embora eu não tenha trabalhado em agência, né, não tive esse... Já foi mais na parte administrativa, mas essa diferença de banco e de Fundação, isso enquanto... Você mesmo, você, a gente ou agente, ali, percebe e modifica.

 

P/2 – Nessas andanças...

 

R – ... Que foram poucas... Ah, pela Fundação, tá...

 

P/1 – Eu gostaria de saber se teve algum personagem que o senhor conheceu ali da comunidade que lhe chamou a atenção, alguém com quem você fez amizade...

 

R – Dentro da Fundação?

 

P/2 – Não, dentro desse...

 

P/1 – ...desse projeto...

 

R – Ah, tá, tá. É, na verdade...

 

P/2 – ... alguém que lhe chamou a atenção ali...

 

R – A gente tinha um prefeito que ele chamava assim: “Amigo Edmilson, amigo Alfredo...”, que era o prefeito lá de Santana do Siridó, o Hudson, rapaz novo, mas bastante competente e era algo assim, novo, e como foi meu primeiro projeto, e como eu não tinha essa vida de ver como funciona uma prefeitura, um prefeito, a gente via, estava assim com ele, e o que que acontecia? Em todo lugar que você estava, tinha alguém pedindo: “Seu prefeito, o senhor esqueceu, aquele carro de areia que ia pra lá...” “Ah, tá.” Aí ele anotava em um papelzinho. “Seu prefeito...” E tratando sempre todo mundo assim, política é política, né, não tem jeito. Mas ele é um camarada que, além dessa de política – eu acho também que ele tinha que fazer esse papel, ele não pode falar: “Não, sai pra lá.” Pode ser isso, né? Mas era um camarada que a gente via que ele era justo e queria fazer acontecer a coisa. E fez. Agora eu acho que dei aqui uma embolada no que realmente você queria de, vamos dizer, de pitoresco, ou de alguma coisa assim... Não, não tem realmente nada de... Que eu pudesse ilustrar bem, assim... Foi só a forma desse rapaz, acho que foi porque foi um primeiro contato direto, foi engraçado assim... Mais ou menos engraçado, foi, tá. Na noite em que chegamos em Santana de Siridó, aí ele foi nos receber, pá, pá, recebeu, daqui a pouco, a gente estava com um calor danado, a gente tudo suado, tinha andado não sei quantas horas de carro e daqui a pouco ele fala... Ah, agora interessante... “Nós vamos abrir até a Câmara.” A Câmara Municipal era uma vendinha lá. Aí, abriram, e uma sessão solene, né? Tipo, oito horas da noite, aquele negócio lá, todos os vereadores, algo assim que... “Puxa,” eu falei, “Alfredo, estamos ‘bem na fita’, hein, cara? Sessão extraordinária aqui a essa hora!” Então foi esse troço assim gostoso, mas não sei se a gente viu alguma coisa assim de triste... Mas acho que não é bom falar disso, não. Vamos ficar só no mais...

 

P/1 – Edmilson, você acompanhou a fase que a Fundação atendia os chamados “projetos de balcão”?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você lembra de quais eram...

 

R – Não, não...

 

P/1 – ... como funcionava...

 

R – ... porque nessa época eu não estava ligado diretamente. Então eu sei que o seguinte: era serviço à beça. Nessa época eu trabalhava cadastrando, então a gente recebia pelo malote, a gente recebia e tinha que colocar no sistema, mas era muita coisa. Foi uma época que chegava... Você recebia, recebia, recebia, quer dizer, não dava vazão, porque saía um e estavam chegando dez. Isso, então, sendo assim, bem “light”, porque era muita coisa, muita coisa. Um tempo que você tinha pedido de tudo quanto é lado, todos os campos, e pedia. Pede, pede, pede, pede... Então, realmente, os nossos colegas, analistas lá, eles suavam bastante pra muita coisa você selecionar, selecionar, selecionar, daí a pouco você passa um legal aqui, e está levando um que não era tão interessante. Era muita coisa, né? Então realmente foi... Acho que eu não sei falar em nome de todos, mas era... Eu lembro quando a gente fazia o levantamento no final do ano... Como é que falava? Era assim: “Em análise, em ser deferido, indeferido...” Eram milhares... Era um calhamaço de coisas que entravam, muita, muita; bota milhares nesse negócio aí.

 

P/1 – Só pra eu poder entender quando eu lhe perguntei das fases, o senhor falou que tem uma certa hora que as pessoas de dentro da Fundação saem a campo...

 

R – Sim.

 

P/1 – É quando começa a focar em projetos específicos, termina essa fase “detrás do balcão”?

 

R – Isso, isso. Aí, essa parte do projeto Homem do Campo, ela deixou de receber isso aí, e foi se basear no tripé: saúde, educação e agricultura familiar, né? Então você ficava em saúde, educação e agricultura. São um dos pilares... Como se fala? Bem, são dentro dos campos de atuação, do espectro lá da Fundação. Foi nessa época que a gente começou a sair que, na verdade, o projeto Homem do Campo, ele foi... Tentava-se colocar piloto, né, pra ver, pra daí o que fosse... Se eu aplico na comunidade “x”, ela se deu assim, então vamos tentar... Da forma que foi trabalhada, então vamos tentar reaplicá-la ali.

 

P/2 – Voltando um pouquinho... Em 1992, a Fundação sofreu algumas denúncias e sofreu intervenção também do Ministério Público, foi um período conturbado... Você estava na Fundação nesse período...

 

R – Sim.

 

P/2 – Como é que foi? Como é que isso interveio no cotidiano de trabalho de vocês? Como é que foi receber estas notícias?

 

R – Olha, é... Por um lado... Se a gente colocar pelo lado da moralização, da ética, porque... Um troço que é muito interessante que no funcionalismo do Banco do Brasil é o seguinte: o que for proposto a eles a fazerem, eles fazem, e fazem o melhor ou da melhor forma, tá? Então, isso é um troço. E eu que estive lá, já vi “N” projetos, não só na Fundação, mas dentro do banco. O banco foi... Tá, ele tem que alcançar tantos milhões de cotas. Alcançava e alcançava mais, e é um produto bem vendido - alguma coisa estava voltando aí?. Então, por esse lado, pra desmoralizar, ele falou que o Banco do Brasil, a instituição até então – muito embora fundação, mas está diretamente ligado, né? – era das instituições com a maior credibilidade. E foi aquele negócio. Se você ia em qualquer município antes tinha... O padre, o delegado, às vezes o prefeito e o gerente do banco. Isso, quase sempre foi isso. Então, tá. Pra essa parte foi interessante pra se moralizar a coisa, se é que existia alguma coisa, tanto que a intervenção foi curtíssima, né. Se percebeu que não era aquilo que estava sendo apregoado. Agora, enquanto funcionário, enquanto a gente lá da Fundação, foi bastante ruim. Você, enquanto pessoa, “Pô, bicho, estou pensando aqui, tentando trabalhar legal. O pessoal está pensando que está acontecendo isso.” E você enquanto funcionário também porque dá uma... uma puxada, né? Assim, é tipo uma nódoa, você ter um local que é tão visto assim de repente, chega o Ministério Público, pá, o repórter, click, click, click, click, e todo mundo lá, “O que está acontecendo? O que está acontecendo?” “Não, fechado, pá, está aqui.” Então foi chato, foi um troço chato. Como eu disse, interessante, sim, que se existia alguma coisa foi moralizado e foi limpo, e não se mostrou que não existia. Por outro lado, o ruim de você estar fazendo parte daquela instituição. Então não é aquilo que você passa... “Ah, eu trabalho lá...” Mas, é... Por esse lado foi ruim. Política e eu...

 

P/1 – A gente tem que falar das coisas ruins também, né? Não tem só coisas boas nessas histórias, né?

 

R – Claro, claro.

 

P/1 – O governo Collor, Edmilson, atinge de alguma forma a instituição, a Fundação Banco do Brasil em algum momento?

 

R – Taís, eu sinceramente não vou saber te dizer porque eu me confundo em épocas, eu sou assim meio ruim nesse negócio de épocas, e isso, na verdade, eu não sei te precisar se... Vou te dizer, não sei precisar... Se a época dessa intervenção era governo Collor ou não. Eu não consigo precisar. Então, eu, sinceramente, não... Tenho que dar uma pulada nessa aí, porque eu...

 

P/1 – O Collor assume, aí retém as cadernetas de poupança e tal, e a intervenção é em 1992, é mais ou menos nesse...

 

R – Acho, acho que é a mesma...

 

P/2 – É em 11 de setembro. É em 11 de setembro, as notícias vazam...

 

P/1 – Sim, mas quando o Collor assume, que ele retém as cadernetas de poupança...

 

R – Eu acredito que tenha... Eu, enquanto pessoa física, com certeza. Eu, enquanto pessoa física, eu tinha conseguido fazer uma poupança, coisa que eu nunca tinha feito, de repente... Nessa época eu estava até fazendo um curso, então, quer dizer, eu estava no deserto, eu estava “ilhado”, e quando eu soube à noite, eu cheguei em casa, falei: “Puta merda”, mas tudo bem. Mas então, olha, sinceramente, eu não vou saber te precisar, te dizer, alguma coisa com relação às contas da Fundação e de... Eu, sinceramente, não sei te dizer.

 

P/1 – Tudo bem.

 

R – Eu fico devendo essa.

 

P/1 – Vamos passar então para a fase de reestruturação da Fundação em 1995, há um certo corte de pessoal e tudo... Você poderia registrar e definir pra gente como é que foi essa reestruturação estratégica da Fundação a partir de 95, se ela existiu. Estou enganada?

 

R – Olha, ela existiu e ela foi dolorosa, ela foi doída, por quê? Porque você tem um grupo de pessoas que trabalham (_____). E, quer queira, quer não, você vai ao Banco do Brasil e a Fundação não fica atrás, são sempre muito apegados, são sempre muito família, muito grupo, entendeu, enquanto funcionários ali, mas se dão muito bem. E foi a coisa, foi assim que... Dolorida porque não sabia quem ia ficar, de repente coloca todo mundo para um lado, daqui a pouco, “Fulano, fulano, fulano sobem. Não, fulano fica aqui.” E daí a pouco descem. “O que foi?” “Não, estamos indo embora.” Então, quer dizer, foi traumático, foi chato, foi um troço que foi dolorido, como é que fala  - ah, essa época acho que foi até o tempo do doutor Rabelo, não sei se é ele que... Acho que é ele que chega. É, então, quer dizer, é uma guinada, mudava completamente a forma da Fundação trabalhar. “Não vai sair mais dessa parte de balcão... Vai passar mais pra essa parte de...” E foi interessante, foi bom, mas a forma de que foi feito... Mas sempre é isso, né, diz-se que todo corte é dolorido. Então, ela foi, foi traumática, foi... Deixou isso até... Não vou dizer que amizade se rompeu, mas deu uma trincada por conta de que fica naquela: “Não, porque conhecia, porque era chegado de fulano...”, aquele negócio que sempre existiu e sempre vai existir em todo lugar, né. Então com certeza foi traumática, foi um mal-estar geral na Fundação, tanto de quem ficava... De repente quem ficava, ficava contente porque ficou, que continuava no emprego, aquele negócio todo... Não que quem tivesse saído estava desempregado, mas aquele emprego ali, daquele local... Mas que foi algo que foi complicado de se remendar depois, né? Remendar relações mesmo, de pessoas, de setores, né, a administração com o administrado, ficou um clima pesado, isso enquanto funcionalismo, enquanto tecnicamente, eu acredito – muito embora que eu seja uma pessoa, assim, inapropriada pra falar, como praticamente não trabalhei na área operacional – mas a gente percebeu que a coisa deu mais uma caminhada, ficou mais fácil trabalhar. Deixou de entrar aquela quantidade enorme de projetos que entravam, né, (______), foi mais direcionado.

 

P/2 – A Fundação teve uma vitória muito grande que foi conseguir sua sede própria. Vocês saíram do Edifício Camargo Corrêa para ir lá para o (_____). Como é que foi essa “chegada na casa própria”, como vocês mesmo definiram lá na Fundação?

 

R – É, essa chegada foi legal. Inclusive, eu ralei à beça nesse... Eu era o supervisor do SETAD [Secretaria de Divisão] e coube a mim, à minha equipe e aos outros pra fazer essa mudança física, né, enquanto... Logicamente, a gente sempre achava que a Fundação tinha que ter um local pra trabalhar e esse local também tinha que ser um local bonito, apresentável porque a gente estava recebendo pessoas, autoridades, a UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], não-sei-o-quê, e sempre tinham parcerias que a gente tinha ou pretendia fazer, então você tem que se apresentar, né? E lá, nos outros locais, que é que tinha? A gente estava sempre mudando porque de repente mudava, um camarada precisava, você tinha que sair. E o centro não era de fácil... Não era fácil chegar. Tá, a chegada lá. Eu lembro que o Luís Eduardo chegou, tinha que fazer algumas viagens ao Rio de Janeiro para contatar PREVI [Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil], negociar, reuniões, pá. Então, entra o Edmilson. Tanto que não tinha nem que visitar a nova sede, foi umas duas vezes, porque era... Cabia ao pessoal da engenharia, então você não tem muito que... Olhar piso.

 

P/1 – Isso antes da mudança?

 

R – Isso antes da mudança. Eu fui olhar aquilo ali e daí depois chega a minha parte. Eu nunca gostei de estar de frente aos holofotes, eu gosto sempre de trabalhar na coxia, sabe? Nunca houve. Então, o quê que acontecia? Tá, o pessoal ia lá, “e como é que está lá?” “Tá, não, tá ficando bonito, cara!” “Pô, bacana. Então tá bom. E aí, quando é que a gente vai mudar?” “Tanto.” Agora, precisa saber, assim, com certeza, você tem que contratar um pessoal, né, tudo, quem vai trabalhar comigo, não-sei-o-quê... Então, foi uma “ralada” tremenda, eu, aqui, o Edmilson, mais o pessoal que estava comigo. Agora que foi muito gostoso estar lá no (...). Vocês conheceram? Conhecem, logicamente, né?

 

P/1 – É aquele prédio que eu fui, né? Sim, conheço.

 

R – Então, está bastante bonito. É... E está pequeno já.

 

P/1 – Edmilson, eu vi pela sua trajetória aqui que você passa a gerenciar uma área da Fundação. Isso é desde o início ou é a partir de que época? Só pra gente retornar...

 

R – Não, isso foi... – é, o Otávio já havia saído, aí veio a Eloísa... Então, vou colocar aí que foi que... Ah, com isso aí eu sou fraco... Espera aí... Eu saí foi em 2003... – 99 ou 2000, alguma coisa assim. Talvez 2000, acho que 2000. É, 2003... É, acho que 2000.

 

P/1 – E o quê que muda no seu cotidiano?

 

R – Muda, não. Praticamente não muda nada. O que mudam são só nomenclaturas, né? Vem, aí eles vão, vamos fazer uma reestruturação, pá, pá, “não, mas aqui não está bom. Na supervisão, vamos colocar, gerenciar a área aqui, vai ficar mais... Enquanto isso, mudou tudo lá.” Então... Porque, na verdade, tudo isso, essa supervisão, gerência, tudo era em um setor administrativo, setor de infraestrutura. Então o quê que era? Era sempre aquilo: receber, cuidar dos contínuos, das recepcionistas, né? Queimou uma lâmpada lá... “Porra, Ed, essa lâmpada daqui está queimada!” “Pô, eu não sei, se você não me falar eu não sei, bicho...” “O cara deu descarga ali e não... Jogou papel no chão!” “Pô, bicho, me avisa...” Então é sempre essa parte ali, entendeu? É sempre de tentar fazer as coisas acontecerem, a Fundação funcionar. Essa foi a minha parte lá.

 

P/2 – A chegada da Eloísa Helena mudou um pouco o foco da Fundação com o surgimento do banco de tecnologia, dos prêmios. Como é que você encarou isso aí?

 

R – É um troço interessante... Não sei nem se eu disse isso... Eu nunca fui um camarada político e como sempre disse, gosto sempre de trabalhar na coxia ali. Gosto de fazer as coisas... Eu dei uma viajada agora. Repete, por favor, a pergunta, que deu uma...

 

P/1 – Repete.

 

R – Você perguntou da chegada da Eloísa, tá, mudou o foco, a criação do banco de tecnologia...

 

P/2 – Isso... Como é que você encarou isso aí, se teve alguma mudança no seu cotidiano isso aí?

 

R – Não. Na minha parte, enquanto parte administrativa. Se mudou, é muito pouco, não é nada significativo. É só uma opinião, sei lá, pessoal minha. É aquele negócio todo. Acho que é pequeno o tempo, entendeu, agora são quatro anos, são dois podendo ser renovados por mais dois. Mas é tão pequeno, que quando a coisa começa a funcionar de uma certa forma, aí há uma nova eleição, chega uma nova diretoria, normal, né. Você não pode... Tudo isso acontece. Chega uma nova direção lá na presidência e muda. “Vamos mudar!” Pô, isso dá uma uma quebrada. Então de repente você está colocando uma pessoa na direção, você está trabalhando isso aqui pra fazer... “Eu quero que nessa parede aqui, aqui nós vamos colocar os quadros, troféus, guardar a história da Fundação.” Aí você vai, pá, pá, pá. E contata quem vai fazer aquilo ali, quem não vai. De repente, já chega uma outra administração, e fala: “Não, não é nada disso. Aqui nós vamos fazer uma outra coisa...” Então são mudanças que iam para minha área e eu agora, enquanto funcionário na minha área, todas essas mudanças – que, como eu disse, eu acho muito pequeno o tempo – elas, praticamente, não afetam muita coisa na minha área de administração enquanto você está de infraestrutura, é fazer a peça girar. Então, eu vejo isso com uma certa satisfação. O banco de tecnologias... Interessante. Prêmios... Não, isso aqui dá certo lá, então a gente... Vamos tentar reaplicá-la em tal lugar, onde é que você pode. Você tem um banco onde alguém pode ir buscar. E tem aparecido cada coisa maravilhosa, coisas simples. Pô, tem um rapaz que é lá no Nordeste pegou um filtro lá que ninguém imaginava que uma água consegue “dessalobrar” aquela água, ele consegue quase que limpar lá. Beleza. Quer dizer, são coisas que... É simples, né? Mas só que teve um gênio lá que criou, então, realmente, é bom o banco de tecnologia. Quer dizer, mas, mudou daquilo que eu estava lá atrás, naquele balcão, para você ter alguma coisa que alguém se interessa para vir buscar. Aí, quem sabe isso aí interessa para ser aplicado na nossa comunidade, né? E... Sei lá o que falar.

 

P/1 – Oh, Edmilson, você já comentou do projeto Homem do Campo... Tem algum outro projeto que você acompanha de perto, que você considere mais importante, algum...

 

R – Não, não...

 

P/1 – Nenhum xodó, nenhum?

 

R – Tsk, tsk, tsk. Não. Porque, como eu te disse, depois... Essa foi muito assim que... Ah, sim. O Criança e Vida. Criança e Vida...

 

P/1 – Tem algum!

 

R – Criança e vida. Não, é... Que depois você falou... Interessante. Puxa, Criança e Vida é realmente interessante. Criança e Vida é o quê? Um programa que é para identificar o câncer infantil, né, mortalidade... Até porque eu também aposentei por conta de um câncer, para você ver a coisa, como é que funciona. Mas então é um programa muito, muito, muito interessante, programa Criança e Vida. Me parece até que agora que ele está...

 

P/2 - ... findando...

 

R - ... findando, né? Por que o que era? A Fundação se propôs, o quê? Juntamente com as outras entidades, criar centros de excelência. Que que é? Onde pudesse ser diagnosticado, onde pudesse ser tratado. A pessoa tinha que sair lá de Manaus, tinha que vir para Brasília, tinha que vir para não-sei-pra-onde. Não, vamos colocar alguns pontos. Se diagnosticado, o grande problema é diagnosticar, né. Diagnosticado, 80 por cento, com o tempo, diagnosticado 80 por cento, graças a Deus, são salvos, né, são tratáveis. E tratáveis com sucesso. Então esse...

 

P/1 – Desculpe...

 

R – Não, que é isso!

 

P/1 – Fora o Homem do Campo, você se desloca para alguma outra localidade por conta de algum outro programa?

 

R – Não. Foi só esse Homem do Campo, como eu te disse, onde ele, onde foi... Chutado, né? Operacional e administrativo. Vamos ver como é que é, o pessoal, senti... Que era quem decidia, né? “Puxa, que que é que o Operacional faz?” A gente sabia, mas achava que existia uma certa distância.

 

P/2 – E quando o senhor se aposentou na Fundação, como é que foi?

 

R – Olha, foi algo assim... Foi pesado pela condição em que eu saí, entendeu? Me recordo que quando eu entrei no banco, era... Não tenho um contrato, então com 30 anos de trabalho, eu estarei me aposentando. Aos 49 anos de idade, eu estarei me aposentando. Com 30 anos. Aí depois mudou, 35, 53, pá. Mas sempre foi bem mais para cá, né? E, de repente, eu me vi, depois de... Eu estava com 23 anos de banco, é... 23 anos de banco, aí me vi de repente sendo obrigado, né, a deixar, deixar os colegas, deixar a Fundação, deixar o banco por conta de um tumor, né? E é algo assim que a gente... Não pela forma que esse tumor bateu, assim, não. Você havia estudado, criado, feito um projeto seu... Não, é para daqui a tanto tempo. E de repente você... “Não, você não trabalha mais aqui porque você não serve.” Graças a Deus não estou encostado ainda, mas não era sempre assim. Ainda bem que fui diagnosticado precocemente, na hora certa, né? Mas foi... Não, deixa eu pensar bem... Não foi doído ou dolorido para me aposentar, ou pela aposentadoria porque eu tinha que pensar em viver, né. Então de repente eu compensei... Não tive tempo desse aqui, dessa ruptura, “Pô, agora, e que que eu vou fazer? Amanhã eu vou ter que acordar e não vou ter que ir para o banco.” Porque eu tinha que trabalhar aqui nessa outra parte, né, na parte da saúde, então nesse ponto de eu sair da Fundação... Saí da Fundação, saí. Mas tenho muitos amigos lá. Amigos, não muitos, porque está tendo uma saída, uma mudança lá, mas... Poxa, e por conta da doença não foi traumática por ter sido antes, né?

 

P/2 – Mas e a saudade da Fundação?

 

R – Ah, não. A saudade, ela existe. Saudade, ela existe. É, como diz, às vezes, quando eu vou visitar o pessoal lá, eu falo: “Não, não é de trabalhar. A gente pode ver vocês, pá, eu vim aqui...” Porque parece até mentira minha, mas às vezes eu não vou mais ou com mais frequência porque quando eu chego, aí paro para conversar, pá, pá, pá, não sei o que, tal... E às vezes tem um chefe lá, uma direção nova que diz assim: “Pô, o cara vai ficar de papo aí até que horas, hein?” Então, para não atrapalhar o colega lá, aí eu nem vou, então eu prefiro mais assim quando o Chicão, seis, sete horas. Pego o Chicão, “Não, vamos lá no Bar do Boró hoje, feijoada”, sexta-feira, então a gente vai. Então, por exemplo, teve o casamento do Valdir esses dias, e aí vai aquela turma que é mais chegada e aí a gente se reúne lá, toma uma cerveja, conversa, dança, joga conversa fora. “Ed, ô, aparece, cara, não sei o que...” Eu falo, “Não, rapaz, (____) também.” Então tenho contato com algumas pessoas, né, a grande maioria. Tem aqueles com que a gente trabalha, tem aqueles que a gente curte. Eu tenho saudade, tenho saudade, sim. E acho que algumas pessoas lá têm saudade também, porque eu era gaiato... O cara podia chegar (____). “Vai pegar pesado!” “Não, espera aí, velho, o quê que está pegando? Vamos resolver aqui...” (____), ficava legal. Então era aquele cara tipo boa praça.

 

P/1 – Edmilson, pessoas ou fases marcantes para você na Fundação, que você tenha lembrança. Você já citou alguns amigos... Algum momento que você ache importante registrar?

 

R – Momentos, momentos, momentos, não. Momentos são... No dia da minha despedida, eu via que o nosso auditório lá estava... Não estava repleto, mas estava quase, e eu não contei, não visualizei quem não estava. Sei quem não estava, porque estava de férias, porque passava com a gente lá, a gente tinha o conhecimento que estava viajando, alguma coisa assim. Mas a grande maioria do pessoal estava lá, entendeu. Me... Sei lá, me confortaram na medida que podiam, que queriam, que gostavam, ou que gostam... A época que estive... Eu estava de licença, que eu estive internado, que eu estive de... Sei lá, até mesmo quando fui para a cirurgia... A quantidade de telefonemas, de cartões, até tenho um cartão desse tamanho lá em casa, está lá guardadinho, da forma, das mensagens que o pessoal me passava, entendeu, o que estava escrito, da forma como a minha esposa que ia lá buscar informações, tem o doutor Jairo que trabalha lá no projeto Criança e Vida, entendeu, da forma que eles vinham e informavam ela, pá, pá, pá... Inclusive, eu... Eles me pouparam bastante. Depois... “Você pensa que você estava... Você estava é quase indo. Você pensa que foi simples, mas não foi, não...” Quer dizer, então eles me deram uma poupada nesse ponto, que esclareceram a ela, entendeu? A Rosa, a Rosa foi assim... A Rosa trabalhava com o Formiga. Rosa Neuman - pronuncia-se “nóiman”. Eu a chamava de “neuma,” e ela falava, “Não é “neuma”, é “nóiman, que é alemão”. É... Poxa, o Fabrício, o Fabrício... Camarada, é aquele garoto que ele tinha que... Se ele não trabalhasse na Fundação, até mesmo, ele teria que ser esse camarada que trabalha em agência de publicidade, sabe? Que ele tinha umas tiradas assim, se você... Qualquer coisa aqui, ele já cria um slogan, tá, já dá... Um camarada que é assim, ó: [estalada de dedos] Tum! O Chicão... O Chicão é “praça” pra caramba, gente boa... Romano, muito embora tenha tido uns “pega” com a “rapá,” acho que foi a única pessoa com quem eu falei alto, que a gente discutia, mas amigão também. Romano... Naja, Estrela... E são pessoas que se eu for ficando falando aqui eu vou deixar alguns, entendeu, então... De momentos, assim, acho que foram muitos, muitos, muitos, muitos momentos bons. Poucos, muito poucos momentos de tristeza, ruins, chatos. O salto, se a gente for colocar assim, bota lá... 90, que beleza! Dez anos... Aqui para não ficar a coisa chata, né. Mas...

 

P/2 – Desse período que você falou de uma forma geral na FBB [Fundação Banco do Brasil], tem um fato engraçado, curioso, que aconteceu lá dentro da Fundação com você?

 

R – Comigo?

 

P/1 – Ou com alguém que você queira contar, lógico...

 

R – Sabia que essa era uma pergunta que fatalmente viria, assim, mas... Isso eu sabia desde que eu fui contatado, entendeu? Mas eu não me recordo. Com certeza tem, mas não vem à memória que eu possa ilustrar.

 

P/1 – Manda uma carta!

 

R – Então, tá legal. Eu tenho o endereço de vocês, qualquer coisa eu... Eu mando.

 

P/1 – Edmilson, como é que você avalia a sua trajetória dentro da Fundação?

 

R – Olha, a minha trajetória na Fundação, ela foi, com certeza... Eu nunca fui de brilho, eu não era aquele camarada que estava à frente, que estava aparecendo. Mas foi uma trajetória de responsabilidade, de íntegra ... “Íntegra”, não, entrega! De entrega, entendeu? De responsabilidade. Que é um troço que eu aprendi lá quando eu era menor estagiário, é um troço que a gente aprende a gostar do que se fala, o BB, o grupo. Então, interessante, de repente, você vai ver isso com as demais pessoas, como é que a gente se entrega ao que seja... À Fundação, que seja ao banco. Então diria que foi... Não foi brilhante, até porque, como eu já disse, eu não sou aquele cara de aparecer, eu gosto de fazer as coisas aqui, sabe, as coisas simples, mas que está sempre... Está fazendo, está dando continuidade. E foi, acima de tudo, honesta, tanto para a Fundação, como para comigo, e de amizade com todos. Acho que não tem ninguém que eu tenha magoado, e se magoei, acho que com certeza fui perdoado, e depois, foi uma coisa de momento. Então, não tenho nada de... E a recíproca, né? Também, se eu magoei, acho que... Foi isso, mais ou menos a trajetória, uma passagem assim de camaradagem, acho que poucas vezes, há muito pouco tempo eu me vi assim como trabalhando lá com aquela obrigação, aquela coisa que fala, “Puta merda, tenho que estar lá, tenho que fazer isso.” Não, aconteceu, sim, houve, mas foram poucas. O todo aí, balançando; o saldo é positivo.

 

P/1 – E o quê que você aprendeu lá dentro, Edmilson?

 

R – O quê que eu aprendi? Aprendi que as pessoas, todas elas, são sempre... Devem, sempre devem ser respeitadas, entendeu? Porque aquilo de respeitar... É respeitar a carência, aquele (____). Porque até aquilo, enquanto projeto... Se chega um projeto que eu leio e faço descaso daquilo, depois quando eu vou ver aquilo lá... “Puta merda, eu fiz... Desrespeitei quem escreveu, eu não acreditei, e lá, aquela pessoa lá, como é que... Consequência dessa ação. Está acontecendo isso.” Então, enquanto Fundação, enquanto parte social, a gente aprende cada coisa nas instituições que a gente ia visitar aí, pegava certidão de procuração, aquele troço todo. Eu falava, “Não, gente. A Fundação, ela não, ela não... Não dá a sopa.” Um negócio que virou jargão lá, que de vez em quando até o nosso presidente usa. Ela não dá o peixe, né, ela ensina a pescar. Então, isso que é o interessante, é respeitar, era ensinar a pessoa a se respeitar também, é que o ser humano é para estar... pessoa. É para a gente estar ali do lado, em convivência, em harmonia. Não importa quem... Seja eu que mando hoje, que eu sou o mandado. Tem muita coisa aí pra gente mudar. Profissionalmente, tem os cursos. Isso não é interessante, não. Interessante é gente, ainda mais pela situação em que eu saí, né? Então a gente aprende essa... Acho que é isso.

 

P/2 – Edmilson, você pode traduzir pra gente a Fundação Banco do Brasil em algumas poucas palavras?

 

R – Acho que está... Está até escrito em algum lugar, uma missão, alguma coisa da Fundação. Não, é um agente de transformação que a gente tem que fazer, fazer valer mesmo. É agente de transformação. Essa é a Fundação Banco do Brasil. É o que deve ser um agente de transformação.

 

P/1 – Edmilson, a gente está caminhando pro final.

 

R – Oba!

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente não te perguntou e que você gostaria de falar?

 

R – Não, talvez tenha uma coisa que eu tenha deixado passar. Com certeza deixei, inclusive, acho que vou ficar até devendo alguma coisa hilária pra mandar para vocês, mas acho que em linhas gerais, acho que é isso, o recado...

 

P/1 – O quê que você acha dessa... Da importância desse projeto de registrar a memória da Fundação Banco do Brasil?

 

R – Ah, não, não, não. É importante, é importantíssimo, “importantissíssimo” porque, é, na própria área em que eu trabalhava, SETAD, de infraestrutura, a gente foi percebendo quando a gente foi fazer um... Que tinha alguns projetos da Fundação, algumas peças de projetos em que a Fundação não tinha... Quer dizer, a Fundação produzia “N” livros, ou discos, sei lá, o que fosse, material, revista “x”, depois descobriram que a Fundação tinha alguns, e alguns que a Fundação não tinha uma unidade daquela. Poxa, a gente precisa ter aquilo ali, uma história de projetos, até mesmo para pesquisa, né? Então, é importante, sim. E que agora, além de quê, além de a gente estar tratando de projetos, a Fundação neste livro vai estar tratando de pessoas, vai estar mostrando pessoas que, de uma forma ou de outra, elas participaram do crescimento da Fundação. Então é de suma importância.

 

P/2 – O que o senhor achou de ter participado dessa entrevista aqui?

 

R – É... É, realmente, assim, quando eu recebi a ligação – pra falar a verdade, quem recebeu não fui eu, foi a minha esposa, me parece que foi o seu Timóteo, não sei, um nome assim, não me recordo... Eu falei assim, “O quê, amor?” “Ô, ligaram aqui para você. Entrevista que é sobre a Fundação, não-sei-o-quê...” “Ah, tá bom.” Aí, foi, foi, foi... Poxa, ou eu estou importante ou a Fundação está andando assim muito... Eu fiquei feliz, até orgulhoso. Olha, poxa. Bacana. Quer dizer, a minha parte ali, se eles acham que eu tenho alguma coisa para mostrar, para contribuir para esse memorial, aí desse livro... Fiquei feliz de ser lembrado.

 

P/1 – Então, Edmilson, em nome da Fundação, em nome do Museu da Pessoa, nós gostaríamos de agradecer a sua presença aqui, por ter passado essa tarde agradabilíssima com a gente. Adorei a sua história, muito legal, viu?

 

R – Eu é que agradeço.

 

P/1 – Muito obrigada.

 

R – Obrigado.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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