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História

Um texano com alma de minério

História de: Don Duane Willians
Autor: Raquel
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Mais velho de três irmãos, adorava o convívio com os avós, tios, primos, saiu de sua terra natal no Texas e veio começar a carreira de geólogo no Brasil em 1958. Trabalhou na Guatemala, Suriname até que, em 1962, foi para Poços de Caldas e lá ficou, trabalhando na 3a maior empresa de Alumínio do país, com atuação de destaque na recuperação de áreas degradadas.

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História completa

Projeto Trajetória Alcoa Realização Museu da Pessoa Entrevista de Don Duane Willians Entrevistado por Mauricio e Maria Poços de Caldas, 5 de dezembro de 2007 Código: Alcoa_HV08 Transcrito por Juliana Leuenroth Revisado por Ana Paula Ferreira Silva P1- Don Willians, boa tarde. R- Boa tarde [pausa]. P1- Bom, pra começar a entrevista, diga seu nome completo, local e data de nascimento. R- Bom, em inglês, é Don Duane Willians. Aqui, no Brasil, é mais o “Dom Duane Willians”, né? Local de nascimento é Lubbock, Texas, Estados Unidos, 18 de dezembro de 1935. P1- Bom, a sua atividade atual, na Alcoa, é aposentado… R- Sou aposentado e tenho uma firma de consultoria que faz algumas consultas para Alcoa. P1- Qual o nome dos seus pais? R- Ornol (?) Willians e Anna Katlein Igo (?) Willians. P1- Qual era a atividade profissional dos seus pais? R- Meu pai, basicamente, era professor de segundo grau, High School, como se fala. E a mãe, dona de casa. P1- Qual a origem da família? R- Bom, tenho um irmão que mexe com Genealogia, então, volto bem pra trás. Uma porção de reis, pessoas que não prestam, né? [risos]. Basicamente. Mas Willians, o sobrenome, é do País de Gales. Da minha mãe é origem francesa. Só que tem uma... aí tem tudo no meio, da Europa inteira. P1- Tem irmãos? R- Tenho dois irmãos. Sou nove anos mais velho que um e doze anos mais que o outro. P1- Podia falar um pouco da sua infância? Como era a casa que morava? A cidade… R- Somos de origem não pobre, vamos dizer, mas... de fazendas. Meus pais, avós, eram fazendeiros e tudo. Era muito ligado à zona rural, às cidades pequenas. E nasci, cresci no Oeste do Texas, que é muito plano, não tem morro, córrego. Mas muito ligado aos avós, aos pais da minha mãe, principalmente, aos irmãos dela. E, naquela época... a gente morava em cidades pequenas, meu pai professor de segundo grau, né? A primeira imagem que tenho na vida é já andando, tinha dois pra três anos de idade, depois que foi identificado qual seria a época... andando com o meu pai, numa manhã de neblina, um pouco frio... Não tinha muito dinheiro, apesar de também os professores, não ganham muito dinheiro até hoje, né? Em qualquer lugar... Ainda mais nesse nível. Um aluno, uma aluna do meu pai deixava meu pai ordenhar, fazer a ordenha de uma vaca pra ter leite em casa. Lembro, andando numa estradinha de terra com meu pai, segurando o balde de leite e eu, ao lado dele, segurando a outra mão. Era uma vida muito simples. Mas era muito ligado aos meus avós, pais da minha mãe. Ia muito à fazenda. E era o neto mais velho. Participei da vida, intensamente, dos meus tios e avós, além dos meus pais. E todas gerações de primos que vinham depois além dos meus irmãos. Quando começou a Segunda Guerra Mundial, lembro, sentado com o meu pai, escutando o bombardeio de Pearl Harbour dos japoneses.Tinha já... o quê … seis anos, cinco ou seis anos de idade e escutando ao vivo os eventos. Depois, lembro muito bem, Roosevelt pedindo ao Congresso Americano a Declaração de Guerra contra o Japão e Alemanha também. A guerra mudou tudo. No país, muitos, claro, foram para a guerra. Meu pai foi trabalhar numas fábricas da General Eletrics. Éramos texanos, fomos para o interior de Nova York. A mudança era total. De clima, de cultura, saudades. Porque éramos de uma região muito protestante, assim, outros; católicos, judeus e pra outras regiões bem diversos. Isso influenciou muito. Essa diversidade muito boa. Passamos a guerra fora do Texas e quando acabou, meu pai teve a oportunidade, era muito dado com as pessoas, sabe? Conseguiu um emprego como vendedor, caixeiro de vendas de uma empresa, da GE, de eletrodomésticos. Então, voltamos para o Texas. Moramos em várias cidades. Acabamos voltando à cidade maior que a gente morava. Em volta, acho que tinha uma universidade onde meu pai tinha se formado e minha mãe também. E acabei estudando. E era a base regional de família, né? Então, era... tive um problema muito grande, fui criado dentro de uma religião bem restritiva, não tão evangélica talvez como o bispo Macedo... mais mediano. Acabei, quando universitário, revoltando contra aquilo, tomando um pavor de... [risos] desse tipo de religião. E comecei a ter muito contato com latinos, com estudantes da universidade. Claro, ali a aproximação, o México era mais perto. Mas tinham outros países. Tinha uma turma de brasileiros. Os brasileiros, em geral, eram mais animados. E estudava Geologia. Isso até era um impulso porque não existia, naquele momento, cursos de Geologia no Brasil. E poucos anos depois, teve por causa da Petrobrás. A Petrobrás estava começando e a indústria petrolífera precisa de muitos geólogos. Mas aqui, os Engenheiros de Minas não deixavam abrir um curso de Geologia. Então, alguns desses brasileiros eram estudantes de Geologia, bolsistas da Petrobrás ou até particulares. Acabei agregando muito à eles. E tomei uma decisão de sair dos Estados Unidos. Achava o México perto demais, com Porfírio Dias, aquele ditador de quê? 40, 60 anos... [risos]. No México, antes das Revoluções, né? Diziam que o problema do México era ser perto demais dos Estados Unidos e longe demais de Deus [risos]. Deus era muito longe. E achava os brasileiros interessantes. Eram muito alegres e pessoas muito dadas. Vim pro Brasil sem emprego, sem nada. Entrei num avião, recém formado... Bom, me formei... P1- Só interrompendo... Qual foi o motivo de ter escolhido Geologia? R- Isso foi um tanto difícil, porque é uma idade... Formei no Segundo Grau, High School, com…. acho que com 16 anos de idade. De qualquer maneira, se tivesse 17, 18, é um momento de difícil escolha. As pessoas são forçadas, às vezes, a fazer essa escolha. Mas é terrível... Não sei bem porque escolhi Geologia. Depois de um semestre até comecei a ter as minhas dúvidas, pensei em ir para Ciências Contábeis, Antropologia, Filosofia pura, uma porção de coisas, mas acabei voltando pra Geologia, afirmando. Mas tive um problema muito sério, era muito ruim em Matemática. Na maior parte das Universidades dos Estados Unidos, você tem dois caminhos: o BA e o BS, o Barchelor Science e o Barchelor of Arts. Tomei o Barchelor Arts porque era... e, por escolher, junto com Geologia, outras matérias, outras áreas muito interessantes. Fiz línguas. Espanhol, francês, alemão. E gostava muito de História, Antropologia. Fiz até uma matéria em Economia. É uma base bem ampla que, pra mim, foi muito bom. Agora, Regionalismo lá era terrível. É muito tacanho, assim, certas maneiras. As pessoas não tinham muita informação é claro sobre o Exterior, um pouco mais através das guerras que os Estados Unidos se metiam, mas com pouca informação. Tive um período muito feliz enquanto morava no interior de Nova York, alugamos as casas com móveis. E tinham coleções de National Geografic nas duas casas, completos, de décadas. Então, digo que conheci o Mundo. E peguei um amor muito grande por mapas. Isso até acabou influenciando um pouco a Geologia. Então, por exemplo, hoje em dia, nunca fui à Europa, não sinto necessidade porque já conheço. E conheço de uma outra época, quer dizer, antes de guerras e com muito menos turistas para poluir o ambiente e tudo. Tenho uma visão muito boa de muitas partes do mundo. E gosto muito disso. Geografia, em geral. Deliro com a História também. Então, foi pra mim uma coisa muito importante. Conheci o mundo através da National Geografic [risos]. P1- Aí veio para o Brasil. Como é que foi, assim? R- Aí vim para o Brasil, cheguei em São Paulo, fui pra casa de um desses colegas; era um paulistano, ele não estava, mas mandou um telegrama. Isso foi em 1958 e Congonhas era, a parte internacional, um barracão de madeira, tá? O vôo para o Brasil teve até escala em Havana, que o Fidel só tomou em 1959. Em 1958, você descia do avião. Então, o aeroporto tava fervendo ainda de soldados do Batista. E uma tremenda... muita gente saindo da ilha. Mas era só escala de duas horas. Depois, lembro em Lima, a gente descia do avião pra tomar café no saguão do aeroporto. E Titicaca, o lago, passava bem baixinho, acima. E fui chegando ao Brasil, assim à noite. Tardezinha, acho. Então, esse colega tinha mandado um telegrama pro pai. O pai foi no aeroporto me receber. Naquela época ia até o avião [risos]. E teve um fato muito interessante. Eu trouxe uma arma. Uma Walther P38, que lá era bem fácil a compra. Então, vim para o Brasil, não sei se ia pra selva, pra onde, comprei uma arma. E no avião, contei isso para um britânico que estava ao meu lado: “Ih! Onde que tá? Tá na... Ih! Você...” Porque comecei a preencher a declaração e botei. Aí, quando o avião desceu, lembro, o fiscal foi abrindo a... aí quando viu a declaração, gelou. E o pai desse colega, que estava ao lado, começou a falar, que o brasileiro é muito bom de... muitos.. de bico. Foi explicando que era geólogo, que ia trabalhar na Amazônia e precisava de uma arma. E não é que o fiscal concordou e me entregou uma outra declaração em branco pra preencher, mas deixando a pistola fora [risos]. Aí, quando fui pegar o carro lá em Congonhas, no estacionamento, tinha um carregador ao lado e me aventurei de falar as primeiras palavras em português. Perguntei: “Choveu hoje?” Não é que o cara entendeu? Aí despencou um discurso lá que não entendi nada, mas já fiquei satisfeito que... [risos]. P2- Foi compreendido, né? R- Fui entendido. Aí, depois fui pra casa dessa família. E, durante o trajeto, era bem interessante a visita. Durante a visita, veio um príncipe do Japão e lembro, passando, especificamente, a Avenida Paulista, naquela época, em 1958, mas milhares de japoneses na rua. Todo mundo com bandeirinha do Japão e tudo. Você olhava aquilo: “Ué, onde que estou?” Milhares de japoneses, porque o príncipe ia passar e acontece que passamos um pouco antes e a passagem estava livre ainda. Aí, são imagens muito diferentes, né? Acabei assistindo a chegada de um navio do Líbano, cheio de libaneses [risos] que o pessoal chamava de turco. Mas com atitudes bem diferentes, homens se beijando na boca, encontrando a turma que chegava, a turma que estava esperando. E os rapazes andavam de mãos dadas, irmãos ou primos. E achava aquilo... Hoje que tô... [risos]. Tá bem diferente, né? Mas nessa trajetória, nessa passagem por São Paulo, fui até a Politécnica, na USP, no curso de Engenharia de Minas, um rapaz, italiano, que falava até bem inglês, contou que existia uma firma americana fazendo prospecção de minério de ferro em Belo Horizonte. E aí peguei um avião e fui pra lá e me empregaram [risos]. Então, foi o meu primeiro emprego. P1- E... mas antes da Alcoa? R- É, porque cheguei em 1958, então, me empreguei na... hoje em dia, são as minas da MBR, Minerações Brasileiras Reunidas, que, agora, pertencem à Vale. Trabalhei um ano, um ano e meio lá. Nessa trajetória, me mandaram pra Guatemala, morei na selva com índios, um período de seis meses, que foi também extremamente interessante e importante na minha... pra minha formação total. P1- Também na extração? R- Não, era prospecção. P1- Prospecção já. R- É, de um outro minério. É um local que tinha tensões sociais muito grandes e, poucos anos depois, teve o massacre, onde que começou a Guerra Civil que acabou morrendo meio milhão de pessoas na Guatemala. Morei ali, então, assisti muita coisa... P1- Aí, depois veio da Guatemala… R- É, voltei, fiquei lá só os seis meses. Essa firma americana me mandou lá. Voltei pra BH, aí quando acabou o emprego, a prospecção, fui trabalhar numa subsidiária da Cruzeiro do Sul. Cruzeiro do Sul, naquela época, era uma empresa de transporte aéreo separada da Varig, depois a Varig absorveu-a. Mas tinha uma arma (?), a Cruzeiro do Sul que era de fotografias aéreas. E dentro desse ramo, tínhamos muitas atividades sobre o uso e interpretação aérea de florestas, projetos de estradas de ferro, rodagem, hidrelétricas, da própria Geologia, Geofísica, prestando serviço, normalmente, para Órgãos de Governo. Trabalhei nessa firma durante um período que foi muito importante, na Praia Vermelha. P1- Ah, no Rio de Janeiro… R- Que o meu primeiro emprego foi em volta de BH, né? E nesse emprego, morava em Copacabana e trabalhava na Praia Vermelha, bem perto do bonde pro Pão de Açúcar. P1- Aí, depois? R- Aí passei para uma outra empresa americana, também de prospecção. Primeiro, essa subsidiária da Cruzeiro do Sul me mandou pra Poços de Caldas, em 1960. Então, fiquei aqui nove meses trabalhando com um geólogo americano da Alcoa. Não era funcionário da Alcoa, só emprestado da Cruzeiro do Sul. E participei de toda a prospecção, porque existia uma empresa da família Ibanton (?) que tinha os direitos sobre a bauxita. Então, eles fizeram uns contatos lá e a Alcoa estava prospectando essas áreas… era a Companhia Geral de Minas, justamente, ainda existe, subsidiária da Alcoa. É a mineradora de bauxita e, em Poços de Caldas, a Alcoa. Então, era emprego... Quer dizer, foi determinado também o prazo. Nesse tempo, conheci uma carioca que tava morando aqui. Casamos. Quando terminou o serviço, voltei pro Rio, mudei de emprego para Unicarbo (?) que é uma empresa americana muito grande, também. E trabalhei, acho que um ano e meio, um período. Acabou o emprego, mas, nesse tempo, a Alcoa comprou os direitos sobre a bauxita aqui em Poços e me convidou pra voltar. Então, vim embora, em 1962. Cheguei aqui e não saí mais. Em 1962, claro, não tava nada acontecendo, era um período, inicialmente, bem quieto, depois começamos a ver uma movimentação no país que acabou na Revolução de Março de 1964. Mas a Alcoa comprou essa empresa e tinha um pequeno movimento do minério, da bauxita e eu, como gerente, aqui em Poços e o meu chefe direto era um membro da família Banton (?) que a Alcoa acabou gostando e convidando para participar. Ele fez durante um tempo, era Paulo Egydio Martins que depois foi Governador do Estado. Foi meu chefe de 1962 para 1964, 1965. Saiu da empresa quando foi convidado pelo Castelo Branco para ser Ministro da Indústria e Comércio e não voltou. Mas era uma pessoa fantástica. Jovem, na época. Muito ativo, uma pessoa muito interessante, muito boa de trabalhar. P1- Como era o cotidiano da prospecção, que nem a bauxita… R- Bom, a prospecção foi naquele período de 1962. A gente tinha 130 homens divididos em porções de equipes, fazendo furos de sondagem, manuais. Eram três homens por equipe e, aí, tinha topógrafos. Eu trabalhava direto no campo com isso, tinha mais um trabalhando comigo e esse geólogo americano, como chefe. P1- Mas tem mais americanos? R- Não, só ele. P1- Ah, eram só vocês dois, então? R- É. E foi um trabalho muito intenso. Um período curto pra saber a dimensão das reservas. Depois, quando a Alcoa comprou, sabia onde que estava a bauxita, naquele momento. Depois, foi comprando mais áreas e minas aqui, em Poços de Caldas. P1- E a reserva era grande? R- Era grande... Bom, a gente... não, não era, não. Mas a extensão, a gente não conhecia nada sobre a... realmente, o que iria acontecer. E, claro, quando a Alcoa começou a projetar uma fábrica aqui, foi muito pequena. Essa fábrica, aqui em Poços de Caldas, nunca construí uma tão pequena. E, naquela época, era menos de um terço que tá hoje. Não era nada. A gente achava um monstro, né? E as pessoas ainda acham que é muito grande. Mas, na realidade, é um brinquedo, essa fábrica aqui. Inicialmente, se a nossa produção era menos de um terço que é hoje, então, as reservas davam pra… lembro, rapaz, daria, naquele momento, 120 anos. Bom, a fábrica foi crescendo e muitas coisas mudando, não só triplicando o metal, mas fazendo outras vias de produção também, usando a bauxita para outros produtos que não o metal e, até hoje, praticamente, não tem mais bauxita. Tem muito pouco, resto, agora. P1- E como é que foi o processo de construção da fábrica? R- De 1962 até depois da Revolução que começou a ter um clima de mais investimento para firmas estrangeiras no Brasil, mas não era uma coisa que explodiram de uma vez pra outra, não. Foi muito lento, a Alcoa nunca tinha feito nada na América do Sul, a não ser no Suriname, esse país lá em cima, ao lado, que tinha grandes reservas de bauxita. Era tudo grande novidade para todas as empresas. A não ser alguma outra, mais tradicional, que já estava instalada no Brasil, há algum tempo. Então, a Alcoa começou a... em 1965, esse Paulo Egídio Martins era... participava, ajudou muito, no início, alguns contatos e foi formada uma empresa. Pra começar um projeto, tem que ter uma pessoa jurídica. Então, formou essa Alcominas, Companhia Mineira de Alumínio. Alcominas, foi o nome da empresa. Era a Alcoa junto com uma outra empresa americana. Então, aí começou o projeto. E, naquela época, não tinham grandes empresas de projetos no Brasil, era tudo projetado via Estados Unidos. A própria Alcoa, basicamente. Então, começou a haver uma porção de americanos escolhendo o local e como ia ser a fábrica, que tamanho, tudo isso. Estava aqui desde 1962. E isso foi em 1965. Até participei da inauguração, fundação desta empresa, da Alcominas. Foi a __________ lá no Palácio da Liberdade em BH e, naquela época, uma sociedade anônima precisava de sete sócios, pessoas físicas ou jurídicas. Faltou gente, então, me enfiaram no meio também. Inicialmente, me deram lá umas poucas ações. Então, participei de tudo do início. Aí, muito visitante, né? Estados Unidos, querendo conhecer o local, tudo isso. Começou a firmar, realmente, o projeto, como que ia ser, designar as pessoas. Designaram a pessoa que está bem marcante no livro, o Tom Sheffield (?), acho que alguém já mencionou ele, essa figura. Ele é um ano e meio mais velho que eu, mas já tinha uma certa experiência, era bem jovem também ainda. Trabalhei pra ele nesse período da construção, de 1965 até o início das operações, em 1970. O Hélio (?) ________ começou aqui em 1966. Acompanhei ele como o meu chefe direto, nesse período. E foi muito interessante, a construção é sempre um período, um momento muito diferente. P1- Quais foram as dificuldades encontradas? R- Bom, muito menos do que seria hoje. Primeiro, a fábrica era pequena. E uma receptividade na cidade muito grande, dos ganhos econômicos que podiam dar entre as autoridades e a população, em geral. E acabou sendo, através dos anos, quase todas as famílias que existiam na cidade, naquela época, acabou tendo alguém trabalhando na Alcoa. Teve muito pouca, assim, oposição, restrição que, claro, na época, tinham alguns mais de esquerda, né? Que até me dava muito bem, sempre gostei de lidar com comunistas e socialistas. Mas não teve realmente, era bem fácil. E, claro, pegando uma região do interior, com o nível de entusiasmo, mesmo de pessoas mais simples, mais pobres e tudo, e a gana de querer trabalhar e avançar na vida, de alguma maneira ou outra... o pessoal era muito bom. Isso já era previsto também, as pessoas davam muito de si. Claro, num país que vai se industrializando, uma porção de coisas vai acontecendo, isso muda um tanto, né? Com o tempo, mais... voltam muitas pessoas, que tem pessoa que é da vida, é o impulso de avançar, de simultaneamente, estudar ou tentar obter mais conhecimento, mais perspectivas de vida. Todo mundo conhece isso muito bem [risos]. Então, aí varia demais de... e, claro, quase todo mundo era de origem muito simples. Então, essa gana, esse foguinho no interior das pessoas, né? Era muito marcante. Visando algum tipo de progresso, principalmente, pessoal, de... P1- Depois da inauguração da fábrica, como é que foi a… R- Eu já era, cuidava do minério, vamos dizer, das reservas. Então, fui colocado como, naquele momento, era superintendente de mineração que era agregada à refinaria. Aí, refinaria é a fábrica de alumina. Na Alcoa, têm duas grandes divisões: fábrica de alumina e a meteorologia. (?) Um processo totalmente diferente. Mas a mineração era tão pequena, até uma das primeiras máquinas para minerar, de pá, carregadeiras, __________, eu mesmo que levei na mina [risos]. Atravessava a cidade dirigindo [risos]. Foi um período muito interessante. Aí começou. Com o tempo... isso foi em 1970, a inauguração da fábrica. E de lá pra 1974, que a mineração era muito pequena, todas as chefias de gerentes e alguns superintendentes ainda eram americanos e me puseram pra fazer outras coisas dentro da refinaria, para ser superintendente de outras áreas também. Era, foi uma experiência muito interessante. A fábrica começou com uma sala de cubas - tem três hoje em dia - em 1970. 1974 foi inaugurada uma segunda sala e, em 1979, uma terceira. E, nessa altura, lá, nos Estados Unidos, a Alcoa, algumas pessoas lá, achavam que a mineração deveria se separar, já tava crescendo a fábrica. Separar da fábrica de alumina, separar da refinaria. Então, fui colocado como gerente da mineração e fiquei até quando me aposentei, em 1997. P1- Nunca saiu da unidade de Poços de Caldas? Sempre ficou aqui? R- Não, não. Não saí. P1- E como que a Alcoa trabalhou, durante todo esse período, a questão da recuperação dessas áreas de mineração? R- É, isso já... no início... quase sem referências, as minerações que existiam eram todas pequenas ainda. Tinha a CBA do Antônio Ermírio, Companhia Brasileira de Alumínio já gerando aqui, mas em pequena escala também e umas outras menores ainda. Mas, então, começamos em 1970. Chegando 1977, o gerente da fábrica que ainda era um americano, disse: “Escuta, o que vamos fazer?” Deixou uma buraqueira lá muito feia, não era profunda, bauxita é bem superficial e a média são só quatro metros e meio. Mas o resultado final, olhando, um campo minerado, lavrado, horroroso, muito feio. E a gente, a consciência ecológica de Meio-Ambiente, tudo, tava só mais ou menos começando, não só dentro de uma população, mas na própria indústria, sabe? Que não tava certo, não poderia deixar daquele jeito. Então, em 1977, o gerente da fábrica, na época, falou: “Vamos ver o que a gente faz”. Eu não sabia nada. Tinha uma origem um pouco do campo, de fazenda, mas sem, realmente, ser agrônomo, nada disso [pausa]. P1- Bom, continuando sua trajetória da questão da recuperação das áreas… R- Aí, então, a gente, bobo, né, sem informação. Mas tinha ouvido falar que uma empresa, a MBR, Minerações Brasileiras Reunidas, de Belo Horizonte, estava tendo algum problema lá, ambiental. E que tava tomando algumas atitudes. Então, fui lá. Bati na porta, tinha um engenheiro florestal, formado em Viçosa e até um rapaz nativo de Viçosa me mostrou o que estavam fazendo. E mencionou que tinha um rapaz americano, professor, lá, na Universidade Federal de Viçosa, que tinha, talvez, algum tipo de experiência. Então, na hora, fui pra lá conhecer essa pessoa e acabamos trabalhando juntos bastante, durante alguns anos. Primeiramente, fizemos um convênio com a Universidade. Mas vi que sabiam muito pouco [risos]. E universidades têm, quando entram num projeto, gostam de estender aquilo, que vira uma coisa mais, não digo eterno, mas de longo prazo. Vi, pro meu gosto, que não ia dar. Precisávamos de ir mais rápido. Então, rompi e, nesse tempo, tentei até na Universidade Federal do Paraná, mas também... não tinha ninguém, realmente, de muito conhecimento. E não tinha quase nenhum professor no Brasil, universitário na área que fosse... mais agronomia ou engenharia florestal, que interessava por isso. Não tinha. E achava muito estranho. Aí comecei a falar: “Não, vamos plantar árvores”. A turma só sabia plantar árvore de eucalipto e pinus, que são os pinheiros, maior parte do Sul dos Estados Unidos ou do Caribe também, pelo clima e tal. E me deixavam desesperado, porque não tinham conhecimento de plantar árvores nativas, isso era muito pouco. Não era o interesse, o interesse era comercial, de produzir celulose para alguma coisa em volta, de eucalipto e pinus. Nesse tempo, passou aqui um americano que era Vice-Presidente Internacional da Alcoa, que não era um alcoano, assim, de tradição, mas que a Alcoa o tinha empregado pra alguma coisa específica, tinha trabalhado na Austrália, na Alcoa lá, antes. E a Austrália tava começando... a Alcoa, na Austrália, tava começando a tratar umas áreas mineradas. Já era muito maior a mineração, tinha fábrica grande lá e esse Vice-Presidente Internacional tomou iniciativa de mandar pra cá um agrônomo da Alcoa da Austrália que ficou comigo um tempo, só uma semana. Mas foi um impulso muito grande. Através dele, mandou um outro, mais técnico e deu muito apoio, muita sugestão. Aí começamos, realmente, em 1978, 1979 a... logo antes, a gente estava fazendo algumas coisas, de terraplanagem nas áreas mineradas para suavizar a superfície, umas coisas assim que era evidente que teria que fazer, mas muito dentro das técnicas e, depois, a gente foi aprendendo e vendo a cidade controlar a erosão, uma porção de coisas. Mas sobre o plantio em si, não tinha muita informação, a não ser eucalipto e pinus e alguma coisa de gramínea. Agora, as gramíneas, os capins que plantamos, era quase tudo espécie da África, pra pastagem. Já era tradição, em muitas partes do mundo e, aqui, no Brasil, também. Aí ficava desesperado com aquilo. “Que coisa estranha.” Bom, nessa ajuda que a Austrália deu, acabou mostrando vários caminhos, que tinham diversas coisas que podíamos fazer, sim, com as universidades, mas projetos específicos. Por exemplo, o que chamam de Levantamento Florístico é o levantamento das plantas que tem. Pode só levantar todas as árvores ou ser mais completo dentro da Botânica, porque, além das árvores, têm as outras plantas embaixo. Esse tipo de coisa. Então, comecei a ter muito contato. Enquanto isso, a gente começou a plantar, realmente, um monte de eucalipto e pinus e esses capins. E, nesse período, haviam outras empresas, no Brasil, também começando, porque isso tudo começou quase mundialmente, Brasil talvez um pouquinho pra trás, mas não muito, não. Em termos de tempo, Estados Unidos e Canadá, Austrália e África do Sul, muitos países da Europa, foi meio simultâneo que começaram a acontecer. Aqui, no Brasil, tinha a Vale, em Itabira, Carajás nem existia. Tinha uma mineração grande de bauxita, neste ano, no Pará, que o carro-chefe era a Vale, mas tinham outras empresas sócias, que já era bem grande também. Quer dizer, muito maior que Poços em termos de produção de bauxita. Tinha uma empresa de carvão, em Rio Grande do Sul, começando... tinha a Alcan, em Ouro Preto, querendo fazer uma coisa e essa empresa MBR, aqui, em Belo Horizonte. Então, a gente juntava bastante pra trocar informações e incentivar. Era e foi um período muito gostoso de contatos e trocas. Teve um momento - que o presidente da Vale era um agrônomo - tive a liberdade de pegar, podia pegar o telefone e ligar direto pra ele e atendia. O presidente da MRN (Mineração Rio do Norte), lá, em Porto Trombetas, também tinha, conheci nos Estados Unidos, já tinha contato direto com vários níveis assim, que tenho certeza que o Allan Bell (?) não podia pegar o telefone e falar direto com o presidente da Vale. Mesmo sendo Estatal, ainda, naquela época. Então, era um momento... porque a gente não era nada comercial. Era uma coisa técnica, de troca de informações e incentivar um o outro e posso dizer, até uma alegria muito grande [risos], sabe? Muito... Fico muito entusiasmado com uma porção de coisas. Bom, aquilo foi indo, a gente foi fazendo diversos tipos de trabalhos e muito contato mútuo. Aí, as universidades não interessavam. Os professores, vamos dizer. Estudante já começou a ser... estudante é outro bicho, né? Quer pensar algumas coisas novas, então, isso é muito bom. Acaba sendo um carro-chefe de empurrar algumas coisas pra frente. Mas, aí, alguns botânicos começaram a interessar um pouco. Mas chegou num ponto... uma coisa que fiz, consegui trazer dos Estados Unidos, um técnico pra fazer uma avaliação entre as empresas que citei, como que tava indo, nos olhos dele, que já tinha mais experiência. Isso foi feito junto com esse professor de Viçosa e também foi muito interessante. Então, viajei bastante com ele, mas tinha muita liberdade, em certos momentos, de visitar outras minerações pelo Brasil. E estabelecer contatos, tinha muito contato com o Órgão Ambiental do Estado de Santa Catarina. Ia bastante pra lá, ajudar um pouco, dar uns palpites. Chegou ao ponto que… o gerente era, talvez, o último americano que teve aqui.. chegava pra ele: “Bob, tô indo pro Sul”. “Você vai voltar quando?” “Ah, daqui uns dez dias.” “Ah, então, tchau.” Agora, enquanto isso, pro lado da Alcoa, ninguém sabia nada ainda, então, tinha total liberdade. Claro, tinha que ter uma confiança que aquilo que tava fazendo era uma coisa útil, né? Felizmente, gastava muito pouco dinheiro nisso. Também já era um outro ponto, que não é nada que onerava muito os cofres da empresa, em termos do quê que fazia na mina, né? Então, chegou ao ponto, entretanto, que comecei a me sentir inútil nesse contato com as empresas e tal. E falei: “O negócio é via acadêmica e o estudante”. Acadêmica também ainda não estava interessado, então, comecei a dar palestras, inicialmente, para estudantes de Biologia, Agronomia, Engenharia de Minas e Universidades. Aí, eles, claro, ficaram entusiasmados. E, aos poucos, então, alguns professores começaram a enxergar que existia no outro campo... Sabe como é que é, academia, as universidades, né? É uma briga de foice também, essas máfias e tudo, mas quando pinta uma coisa nova, alguns... é uma correria, por bem ou por mal, realmente, de preencher certos espaços. Isso acabou acontecendo. Até o resultado... Hoje em dia, existe uma Associação Brasileira de Ambientação de Áreas Degradadas que o último Congresso, em Curitiba, faz dois anos, tinham umas 400, 500 pessoas e, a maioria, estudantes. Até as empresas não apoiaram muito, mas a academia, em massa, e estudantes. Então, isso é muito gostoso. Não é que, realmente, fui o grande impulsor disso? Mas tentava incentivar esse tipo de coisa. E sempre tem que lembrar, quer ou não, aqui, em Poços de Caldas, é um tanto isolado e a Alcoa é muito pequena. Não tem muito expressão. Hoje em dia, tem uma maior porque tem outras fábricas e tudo isso. Mas não tinha muita expressão. Então, isso... pode pegar tudo e dividir sei lá quantas vezes. O negócio é pequeno. Até é gostoso também, tem suas vantagens. P1- E chegou a escrever alguns livros sobre esse tema? R- Bom, com esses contatos todos, teve uma pessoa que me... acabou sendo o órgão, o Ibama, né, me chamou querendo fazer alguma coisa mais oficial. Assim, em termos de publicação, de ver o que poderia dar. Acabou tendo um grupo que coordenava, em Brasília, pessoas que o Ibama... e um rapaz dessa firma de carvão do Rio Grande do Sul, escrevemos um Manual, tem a imagem aí, é o Manual de Revegetação de Áreas Degradadas. Foi em 1990. Nesse meio tempo, fui empregando, normalmente, agrônomos e engenheiros de Minas. Alguns davam certo, outros não, realmente, não era técnico de fazer as coisas, né? Tinha algumas idéias e sabia orientar mais ou menos esse tipo de trabalho. Eu, como gerente, não seria... Aí foi avançando bastante, essas técnicas foram melhorando, fizemos um viveiro de espécies nativas de árvores aqui e ajudou muito. Teve uns altos e baixos, normalmente, em termos de pessoas. Mas foi andando, vamos dizer. Bom, a gente percebia, lá pra trás, que um dia a legislação brasileira ia começar a tomar alguma atitude. Os governos, federal, o que fosse. Normalmente, aqui no Brasil, espera-se que tudo comece no Federal, as grandes iniciativas. Então, a gente sabe que um dia ia ser obrigatório de fazê-lo. Começamos dez anos antes. Realmente, virou uma obrigatoriedade. Isso foi na Constituição de 1987. P1- De 1988, né? R- 1988? P1- Isso. R- Então, começamos dez anos antes e ganhamos a experiência que sabíamos que vinha, de alguma maneira ou outra. Isso foi um gancho também muito importante. Agora, para isso, a gente, quer dizer, estamos fazendo um trabalho lá, mas tudo é interligado, tudo no Meio-ambiente. Você tem toda ______ para tratar de selvagem, água, solo, tudo. P1- E o Parque Ambiental? R- Então, é... tô chegando aí. Aí é... comecei a pensar que precisava de uns levantamentos científicos de animais e plantas, essas coisas assim e pensei, primeiro, em aves, porque passarinho é sempre uma coisa bem simpática. Não agride ninguém e todo mundo, basicamente, gosta de proteger e tudo. Acha bonitinho e tudo. Então, comecei a perguntar para alguns colegas se tinha alguma entidade que tinha essa possibilidade. Já sabia que pra planta era bem mais complicado. Tínhamos feito um trabalho, voltando um pouquinho pra trás, em 1979, fizemos um convênio com a Unicamp pra levantamento de umas plantas, aqui em Poços, que foi muito bem sucedido. Aí que, realmente, consegui, sabe, ser mais perto com a universidade. E através da Unicamp foi depois com a Viçosa, com a USP de São Paulo, com a Universidade Federal de Lavras, Unesp Rio Claro. Isso gerou uma equipe de contato muito agradável, porque tudo volta aos professores que interessam pra te ajudar, que maneiras e assuntos podem colocar seus alunos trabalhando em cima e tudo isso. Isso foi muito importante. Então, através de uma empresa de mineração falaram de uma entidade, não de governo, de uma ONG em Curitiba que fazia levantamento de animais, alguma coisa no campo. Fui atrás. Era SPVS, Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, faz parte do nome. Entrei em contato, vieram aqui, fizeram proposta para o levantamento de aves que não consegui, realmente, implementar, naquele momento, mas vi que tinha uma coisa muito interessante, que era a Educação Ambiental. Através da pessoa, de relação aos comentários aqui na época, um profissional até formou junto com a esposa do __________, acho que em Santos, Jornalismo. Era pessoa da Alcoa aqui em Poços, Relações Públicas, a gente chamava. E a gente então investigou o que a SPVS poderia fazer ou fazia em Educação Ambiental. E era, realmente, maravilhoso. Então, aí se estabeleceu um programa que, a cada dois anos, vinham aqui durante um período, no verão. Tem um parque municipal lá embaixo, um espaço bem grande, fazia uma sede de palestras, de brincadeiras e tudo com as crianças aqui na cidade, de faixas etárias, que foi um sucesso muito grande e era muito ______. E foi um incentivo muito grande. Bom, aquilo era um sucesso tão marcante que perguntei: “Escuta, quê que a gente podia fazer a mais?” Falaram: "Bom, tinha que fazer uma coisa permanente de Educação Ambiental." Então, a gente... Ah, nessa época, nesse meio tempo, fiz o levantamento de aves, um levantamento de vida selvagem que pode ser planta ou animais, feito em quatro fases, porque tem as quatro estações do ano. Então, cada estação dedica um período, com profissionais naquela área, fazendo o levantamento. Tinha feito o de aves aqui em Poços, então, esse grupo já conhecia um tanto os ambientes, os locais. Eu falava: “Bom, pra mim tem que ser numa área da Alcoa”. Seria conveniente se não tão longe do centro da cidade, porque se pra crianças, pra um público não... fácil de chegar lá, de alguma maneira ou outra, perto de água, perto... não tão longe de luz ou de telefone. Então, começamos a pensar: “Ah, em tal lugar...”. Começamos a concentrar sobre aquilo que... já foi lá? Não foram ainda? P1- Ainda não... R- Era ali. Aí começa todo um esquema de planejamento, que precisa... “Qual é o público? Ah, o público tem que ser as crianças do Primeiro Grau.” Aqui na cidade, tinham 46 escolas de Primeiro Grau, davam uns 20, mais de 20 mil estudantes entre Estadual, Municipal e particular, que já é um público grande. Não será um lugar de turismo. Vai ser dedicado à Educação Ambiental para essa faixa etária, da primeira à oitava séries que chamavam na época. Tudo começou num planejamento: “Bom, a gente poderia fabricar uns kits por faixa de idade, que seria a base de ensino. A gente pode, se a SPVS, em Curitiba, fornecer esse kit, montar a instrução.” Pessoas que, eventualmente, não serão os monitores, que vão lidar com as crianças e a parte física. Escolhemos um lugar que não teria que cortar árvores nativas, que já tinha eucalipto plantado, em Aramina, mas da Alcoa. Eram só sete quilômetros do centro da cidade, não teria que cortar árvore nativa e, basicamente, não teria que mudar muito a topografia que também não queria. Era um lugar de meia encosta, mas de acesso fácil. E acabou, então, sendo o local escolhido, realmente. E trabalhando tudo em volta daquilo. Agora, para ter aprovação, também foi um trabalho com os diretores da Alcoa. Claro, tinha que convencer, basicamente, o Abraão. Tinha que chegar lá, vários diretores da Alcoa, tomarem conhecimento. Começaram a ajudar muito, assim, na finalização da idéia. De realmente, fazer a instalação, gastar o dinheiro, fazer o investimento que também não foi uma coisa tão grande, mas... inicialmente, até o nome era diferente, era... deixa ver... SPVS… Chamamos de CEPA, Centro de Educação e Pesquisas Ambientais, CEPA Alcoa. Só foi… o quê... fazem uns dois anos, mais ou menos, que o ________ teve a idéia, que a Alcoa... Depois daqui, foi feito um parque assim, em São Luís, na Alumar (Consórcio de Alumínio do Maranhão S.A.). O rapaz gostou tanto da idéia; também é um rapaz muito ativo e fez uma coisa maravilhosa lá, também. E já foi batizado como Parque Ambiental. Então, _______ achava melhor ter um nome comum e é claro, soa melhor do que o CEPA da vida. Foi mudado o nome para… por isso, que é Parque Ambiental, hoje em dia. Vocês vão acabar indo lá e... P2- Com certeza. P1- Bom, só retornando um pouquinho, queria que comentasse sobre as unidades aqui em Poços de Caldas. Um pouco da refinaria, da redução, da fábrica de pó de alumínio. Como é que foi essa sequência? R- Bom, uma coisa muito interessante, falei bastante que a fábrica é pequena, é um brinquedo, né? E continua sendo muito pequena. Mas isso, no meu livro, a gente toca nesses assuntos, sobre a fábrica, que acabou gerando uma coisa muito importante, porque era pequena, mas foi uma fonte de gente que começou a vir dela, que foram treinados aqui, que acabou sendo utilizado pela Alcoa mundo afora. Teve algumas coisas interessantes na... Por ser pequena, é que pode, às vezes, fazer umas experiências, tá? Escala pequena que se der errado, não tem o efeito tão danoso [risos] para consertar, entende? Fábrica grande é uma coisa terrível. Você não vai lá mexendo assim, porque tem muitos efeitos. Mas na fábrica menor, algumas coisas pode fazer, então, isso foi muito importante como um lugar de ensaio, de alguma coisa dentro da Alcoa também. Acho que isso é um ponto muito importante. Agora, outro, é que, desde o início, tinha a mina que tinha a bauxita aqui, tinha a fábrica de alumina e a redução. São muitos poucos lugares no mundo, em toda grande indústria de alumínio, que têm os três juntos. Atualmente, têm aqui, pode-se dizer que, basicamente, ainda tem em Ouro Preto, que era a Alcan, depois foi vendida pra uma outra empresa e, hoje em dia, é indiana. A fábrica é de um grupo indiano. A Alcoa tinha, no Suriname, os três juntos, mas parou a parte de metal, então, não tem mais. E não tem outras fábricas assim no mundo, não. Você pode ter num lugar a mina de bauxita que transportada depois para uma fábrica de alumina que depois aquela alumina é transportada para ___________. Ou se pode juntar num mesmo lugar, que não existe, a mina com a fábrica de alumina. Ou você tem um lugar que tem a fábrica de alumina junto com a ___________. Mas os três juntos... Só tem dois no mundo. Então, isso é muito curioso, é muito mais curioso do que, realmente, ganho de puro gasto tecnológico. E, além do mais, a Alcoa aqui ainda foi agregada com a fábrica de pó de alumínio. Uma outra unidade ainda. Então, isso é mais um ponto. P1- Que foi também pensado para ser integrado ao que já existia. R1- Ah, sim. Porque o pó de alumínio pega o metal da ________ e vai direto. Acho que esse barulho está incomodando tanto. Tem mais portas aí que podem fechar para diminuir, viu? Não aqui, a de entrada. Você quer? Vamos dar uma paradinha [pausa]. R- Então, identificou-se uma possibilidade de agregar outra fábrica. A Alcoa, naquele momento, só tinham mais dois no mundo de pó de alumínio. Senão me engano, nesse momento, só tem mais uma, no Texas. E aqui, essa. E é uma coisa bem diferente. Quer dar mais uma parada? Parece que talvez esteja correndo um pouco pra lá, pegando uma trajetória e dando uma volta mais assim... P1- Se quiser seguir… R- Bom, vocês que sabem. P1- Não vai interferir na… P3- Não, pode ir. R- E então, essa... Agora, teve outro fato também, que ainda não existe, é que perto da Alcoa tem uma fábrica de cabos condutores de alumínio construída por Salvador Arena, um italiano industrial, em São Paulo, uma figura muito, muito incomum. Justamente, ele fez essa fábrica aqui porque podia pegar metal quente. Porque se resfriar o metal e pra reesquentar vai dinheiro. Então, ele podia pegar metal quente, transportava, o quê … uns três, quatro, cinco quilômetros ainda quente e já usa pra fazer o cabo. Ele acabou vendendo essa fábrica à Alcoa. Hoje em dia, não é mais da Alcoa, é da Phelps-Dodge, outro grupo americano. Mas teve um momento de uma coisa muito incomum: você tinha minha fábrica de alumina, metrologia (?), o alumínio em pó, o pó de alumínio e essa fábrica de cabos. P1- Tudo na mesma região, integrado? R- Não, tudo quase ao lado. Pertíssimo, né? Então, a... P1- E ao longo da sua trajetória, assim, houve alguns momentos que a... Já passou por dificuldades? R- Ah, sim. Teve momentos, porque sendo pequena, perde muitas oportunidades de economia de escala. E ainda sofre com isso. E sempre vai, de alguma maneira, sofrer. Então, o preço... a alumina depende muito do preço da energia. Teve momentos que o custo da energia - que no nosso caso, era Cemig, a empresa estatal do Estado de Minas - o preço era muito alto. E teve até pensamento de parar a fábrica, fechar. Chegou até a parar essas três linhas de cubas, acho que era meia linha, parou um momento. Isso, felizmente, reverteu de certa maneira. É que, hoje em dia, em termos de energia, a Alcoa tem investimento em duas usinas junto com outros grupos no Sul do país e tá envolvida em outros projetos aqui mais no Centro-Oeste. E isso acaba tendo uma energia mais barata que já tá aqui beneficiando. O grande momento, quer dizer, problema do momento é que as reservas de bauxita tão começando a minguar. Isso já é um problema. Talvez vai acabar tendo um outro tipo de solução, de trazer essa alumina de outro lugar se não puder produzir de bauxita - que vai chegar ao ponto de não existir na região aqui - ou antieconômico de trazer aqui a bauxita de outro lugar. Então, vão haver modificações grandes. Mas essa fábrica já vai... são quase 48 anos, né [risos]? É muito tempo... Lembro, na época, que: “Escuta, qual é a vida de uma fábrica?” A Alcoa falava muito, sabe? Estamos em 40, então... Não é que tá velha de parar, não, que tá excelente a fábrica. E então a... você modernizando, né? E teve momentos muito significativos na parte ambiental, de melhorias tecnológicas que deram grandes pulos. Você tem uma fábrica na parte de ________, excelente, de... em termos de emissões de poluente, coisas assim, baixíssimos. E algumas inovações que até nasceram de pessoas aqui, a Alcoa acabou adotando, até mundialmente. Então, você tem o grande pulo do gato. Muito significativo [pausa]. [conversa que não tem relação com a entrevista]. P1- Bom, retomando. Falando um pouco sobre uma questão que aborda também no seu livro, a das ações sociais. Queria que comentasse um pouco como é que a Alcominas ou a Alcoa trabalhou, em Poços, sobre essa questão. R- Bom, primeiro havia uma, como tinha falado antes, receptividade muito grande, por parte da população de emprego. E com isso, as pessoas já imaginam alguns avanços em termos de... De fato, teve uma preocupação muito grande. No início, até a própria Alcoa, começando na construção; é que, fatalmente, vem operários de fora. Na construção, tem ofícios especializados de montagem, produtos de aço, concretagem, maior escala, coisas assim. Os riscos são os problemas de saúde endêmicas, esse lado do Brasil. Foi visto, apesar de aqui estar no Sul de Minas dividido com São Paulo, a Doença de Chagas, daquele barbeiro, que pica aqui. E também esquistossomose que é transmitida por um caramujo. Chegou ao ponto que Minas Gerais teve muito ________ até na Pampulha. Belo Horizonte era muito infectada, hoje em dia, acho que limpou. Mas tiveram muitos problemas. Então, foi trazido um médico, até de renome, de Nova York, que fez uma avaliação junto com o pessoal da área médica da Alcoa. Aí junto, um médico aqui da cidade que fez residência, essas coisas assim, em Boston nos Estados Unidos e já tinha um inglês... Então, através dele, foi feito um levantamento de Doença de Chagas, na região, e xisto, a incidência desse caramujo que era vetor. Felizmente, os dois lados, viram que não tinham problemas. Ainda, pessoas chegando, vamos supor, nordestina, tudo, Norte de Minas ou de outros lugares, poderiam estar trazendo alguma coisa. Então, isso foi monitorado para os empregados que vinham, portadores dessas doenças. Esse foi um momento muito interessante, voltado para a saúde, principalmente, e o impacto que uma empresa em construção iria provocar. Virando pro outro lado, era fatal que haveria um fluxo de pessoas para trabalhar na indústria, mesmo na produção. Que algumas pessoas, ações, dependiam de curso de nível médio que não tinha esse tipo de pessoa na região, muito pouco. De qualquer maneira, teria muita gente chegando. Aí teve também uma coisa muito impactante, da região, mesmo na construção. Teve momentos de grande atividade de construção civil. Simultaneamente com a construção, procura muito grande de operários na construção e, depois, na produção. Foi olhado tudo isso, medido de certa maneira e começaram uns momentos apropriados de buscar essa mão de obra fora de Poços. Até mais de cem quilômetros em cidades pequenas. Isso também houve um influxo, uma chegada de... E normalmente, muitas vezes, essas pessoas são da zona rural. Podem ser até das pequenas cidades. Esse também foi um impacto muito grande porque qualquer centro, mesmo esquecendo alguma coisa da vida, tem esse movimento de aumento da população urbana. Uma outra preocupação muito grande era o impacto sobre o Turismo que, nos últimos anos, antes da Alcoa, teve uma atividade, quer dizer, começou lá atrás com as águas quentes, as termais. Essa foi a origem de Poços. Até a própria palavra, Poços, era um poço. Caldas vem de água quente, né? Tem a cidade de Caldas aqui perto, mas o nome da cidade é devido que aqui pertencia lá. Então, tinha essa água quente, lá acabou sendo, durante um tempo, o ponto administrativo da região. Depois, é claro, separou porque foi crescendo. Teve na cidade esses momentos da hidrotermalismo, da cura de pessoas que acabam importando algumas coisas interessantes. Primeiro, chama-se elite. Quem viria pra cá seria gente rica. Então, aí começam a hotelaria, lugar pra esse pessoal ficar. E aí, naquela época... esses sempre pensam atrás, algumas coisas para acalentar mais a vida que muitos, nesse caso... jogo, cassinos. Aí começou um tipo de movimento em Poços que chegou ao ponto da figura de Prefeito e Prefeitura não existir, só a capital do Estado, BH. E o governador viu que tinham dois lugares importantes nesse sentido que seriam Poços de Caldas e São Lourenço. Induziu uma legislação que apontava o prefeito dessas duas cidades. Nomeava, assim, tinha que passar pras Assembléias e que ele poderia, através das pessoas, fazer investimento. Agora, esse investimento sempre visava às elites. Teve essa coisa. Depois, com Dutra, em 1946, acabou o jogo e caiu uma certa depressão aqui, porque não tinham mais os cassinos. Hidrotermalismo, por si, não era tão importante. Não tinha essa camada de elite mais. Teve um período, sim, no meio da década de 1930, para Poços que até esse livro da mineração pega muito, que essa Geral (?) de Minas foi fundada em 1935. É que foi uma década muito importante, muita coisa acontecendo em Poços de Caldas devido ao investimento do Estado. E, no meio disso aí, Getúlio tomou seus amores por Poços através da esposa que teve uma certa cura aqui de um acidente. Aqui, vamos dizer, virou um antro de políticos [risos]. É bem interessante. Durante um período... Mas com cassinos, tudo aquilo operando... Bom, tudo acabou em 1946. Caiu uma certa depressão, a cidade ainda dependia de turismo, mas num nível pouco diferente, não é tanto as elites. Não tinha mais jogo, tinha uma camada, assim, que gostava do termalismo. Era um lugar gostosinho e tal, pequeno que, com o avanço do tempo, chegava no fim da década de 1950, início de 1960, uma perspectiva de industrialização de algumas pequenas indústrias, devido, muitas vezes, aos recursos minerais. Uma fábrica de refratários, uma mineração pequena disso ou aquilo. Então, essa perspectiva seria o grande pulo que estamos vivendo ainda. Agora, é claro, teve uma camada de saudosismo, vamos dizer. “Puxa, aqui vai ficar industrial. O quê que vai acontecer? É muita gente de fora, de peão...” E coisas assim... “Vai poluir a cidade.” Não sabiam muito a poluição da indústria, né? Mais em termos humanos. E vai gerando uma cidade maior, com todos seus problemas. Lembro até o hoteleiro falando: “Eu não estou gostando dessa história, não. Que aí vai começar greve, movimento sindicalista, tal." Acho que não foi tanto assim. Mas, faz parte. De certa maneira, às vezes, não tão gritante como ele tava imaginando. Mas vai mudando a feição. Agora, a cidade tem uns 120 mil (?) hotéis e pensões. 120 hotéis e pensões. E o movimento de turismo se nota. Até incomoda a gente que mora aqui, de certa maneira. Mas, no fim, não é tão importante, já vi dados, alguns - que cheguei a levantar - que talvez o turismo afete cinco por cento da economia da cidade. Visualmente tem um efeito um tanto maior. Mas não digo que, no fim, dado ao fato que não tinha mais o jogo, o turismo aumentou. Agora, aumentou mais na parte mediana. Tem os farofeiros, que incomodam a gente, de domingo. Isso... Mas é uma coisa à parte, não tem nada a ver com as indústrias... E tudo isso é só pra encher o saco da gente e a gente reclamar e tudo mais. Faz parte, tem uma camada tão extensa da população que vive disso. Então, isso era também um fato importante. Até esse pessoal de turismo achava que ia acabar. Bom, como um lugar também de interior, se não tem empreendedores de turismo assim, então, a gente pode criticar facilmente. O nível deles podia ser um pouco mais criativo e coisa assim. Acaba conhecendo bem a região e as pessoas. Mas... tá aí. E a cidade crescendo e virando um monstrinho, de certa maneira, como toda cidade vai ficando. Agora, nessa aí teve um dado que a administração e muitas pessoas usam demais, é que tem aquele Índice de Desenvolvimento Humano sobre os dados do ano 2000, a Fundação João Pinheiro, que é do Governo de Minas, né? Junto com, não sei se Ipef (Instituto de Pesquisas e Estudos) ... sei lá. Pegou esses dados do país inteiro, de todas, acho que cinco ou sete mil municípios que existem no Brasil e fez um Atlas. Tenho até no meu computador. Não foi ________, depois, só tem uns dados de 2000, que esses dias saíram os dados do país como um todo, esse das United Nations… P2- IDH, né? R- É... Não, mas.... É... Eu tô tentando lembrar, não sei se penúltima em português, o programa de desenvolvimento… P1- Das Nações Unidas. R- Nações Unidas. United Nations Development Program. Bom, então acontece que nesse ano, 2000, Poços é o primeiro lugar no Estado. Um pouquinho acima de BH. Eles usam muito isso, que a cidade é maravilhosa. Não é tanto assim. Porque o que usam, realmente, para formar a Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) é a longevidade das pessoas, o grau de instrução, o movimento econômico, mais alguma coisa? São só uns três itens. Mas levanta muito mais e os dados estão lá. Mas são esses que formam o Índice de Desenvolvimento Humano. Então, isso é muito significativo no país, que para aquele ano, 2000, Poços tá no vigésimo, quadragésimo lugar, alguma coisa assim. Acontece que, São João da Boa Vista, nosso vizinho, é um pouquinho mais alto que aqui, o pessoal não sabe, nem eles, normalmente, sabem direito. Mas pegam todo esse lado, Nordeste fora, pra cá de Ribeirão e pra cima de Campinas, a cidade que tem índice maior também. E o Sul de Minas, que tem um tanto. Então, isso é... Alguns querem usar para demonstrar que aqui é um bom lugar de se viver, que de fato, tem muitas vantagens. E é um lugar agradável, de clima. Hoje em dia, o turismo não é mais tão voltado ao termalismo, mas é um lugar mais fresco, em geral, agradável, tem alguns pontos turísticos e tudo. Então, pra esse nível de turismo, é interessante. P1- E o que considera como sua principal realização na Alcoa? R- Acho na área de reabilitação de área degradada, meu grande trabalho. P1- Faria alguma comparação entre a época que estava atuando na Alcoa e hoje? O que mudou? R- Bom, no momento é hepatite A [risos] que está me pegando bem. Mas até a minha voz sumiu, sabe? Minha voz, normalmente, é mais forte. Além de perder sete quilos, ter o olho amarelo, devem estar filmando bem o olhão bem amarelo [risos]. P2- O azul ressalta mais. R- Bom, é... Muda tudo. Mudei muito a minha vida. Saí de um casamento e, em dois, três anos, fui para outro, que tem grandes mudanças. A minha esposa é fisioterapeuta e professora, hoje em dia, na PUC. A PUC tem um campus grande aqui, PUC Minas. E temos uma filha que fez 13 anos agora. Sou praticamente 60 anos mais velho que ela, né? Meus outros filhos; tenho cinco ao todo, as mais velhas são gêmeas, moram nos Estados Unidos, têm 42 anos. A minha vida diária é ser pai. Minha esposa tem a atividade que demanda bastante tempo e ser mãe de… P2- Uma pré-adolescente. R- É, levar na escola, no inglês, aquelas coisas todas. Dividimos um tanto. Ela, a esposa, faz parte disso e… presto algum serviço para a Alcoa, dentro da possibilidade, e tenho bastante contato com as pessoas lá. A confecção do último livro que fizeram, aquele maior, foi bem marcante. As coisas vão mudando, ahn? Aí vai conversando com as pessoas que trabalharam desde 1970, da época da construção, e, normalmente, é aquela lamentação que as coisas pioraram... “Ah, antigamente era assim...” Não penso muito assim, não. O curso natural das coisas é a mudança. Os tempos mudam. Acho difícil criticar, pode até ser saudosista, é um pouco saudável. Mas não saudosista a ficar… realmente... conturbar o... ficar com raiva porque tem isso ou aquilo acontecendo. Tem um lado natural disso. E já vem outras gerações, tudo isso mudando, que já fomos assim também. Acho que, também, o homem é naturalmente, não é, saudosista. Mas tem que dosar isso, tem o lado bom da memória e tudo isso. Mas tem um lado que pode levar o lado ruim também. Então, não lamento, não. As mudanças... É, as pessoas mudam. Tem quantos empregados na Alcoa que nem sabem de mim? Às vezes, nem viu o livro, porque já faz dois anos e tudo isso e não interessa muito. Também entendo, porque há coisas do passado, muito de antigamente que, muitas vezes, enchem o saco. Ainda mais se as pessoas começam a falar muito sobre isso. Enche [risos]. P2- Como foi a idéia da criação do livro? R- Bom, tem que começar com aquele primeiro, da Mineração. Teve comigo todos aqueles anos, desde, acho que 1971, um engenheiro de minas que, agora, talvez ano que vem, vá aposentar também da Alcoa. Acharam interessante se pudesse contar um pouco a história. E comecei a brincar com a idéia, nunca tinha escrito alguma coisa assim... Achei: “Bom, precisa de um escritor”. Realmente, alguém que sabe tudo, que possa conversar, contar as histórias que conheço. Aí foi indo. Foi difícil de encontrar uma pessoa. Às vezes, queriam muito dinheiro, vamos dizer, e via que a Alcoa não ia se interessar por causa disso. Então, acabamos pegando um rapaz aqui da cidade, da Alcoa. Contratando um rapaz que tinha trabalhado um pouco em Relações Públicas dentro da Alcoa, que seria mais acessível e tal. Começamos. Esse livro, vai ver que coloquei a Coordenação minha, mas o texto central é de outra pessoa. Fui conversando com ele, ele foi escrevendo. No fim, tive muita liberdade, meti muito a mão em cima do texto dele. Mas vi que tinham coisas que podia agregar, em termo de imagens e pequenos textos, que podiam, de certa maneira, enriquecer o livro. Então, eu que fiz, toda essa parte é minha. Peguei uns ganchos, como a década de 1930, em Poços de Caldas, que foi um surto tremendo em termos de avanço para Turismo, com investimento do Estado que criou uma porção de coisas que estão aí hoje ainda. As Termas, o Palace Hotel, uma porção de outras coisas também. Até obras públicas importantes. Nesse gancho vou contar um pouco mais a história da Mineração no Planalto. Comecei a fuçar aquilo, conversar com pessoas que... inicialmente, não era bauxita, tinha um tal de zircônio aqui, um aditivo para aço. Tinham umas figuras, pessoas muito interessantes no livro, histórias mil. Bom, pensando, na década de 30, quando foi fundada essa empresa, também teve um fato que, pessoalmente, sempre tive muita curiosidade, a Revolução Paulista de 1932, que ninguém aqui sabia nada. E isso de fato não sabe porque nenhum poçoscaldense lutou. Agora, uns poucos quilômetros pra lá, já é a divisa, muito paulistas lutaram. Fui atrás de informações. Muito confuso, tal, às vezes, pegava um livro de um combatente, mas não tinha muito nexo. Depois descobri um livro, já escrito em 1933, por Herbert Levy, que foi o deputado e fundador da General Mercantil. P2- Ah, a Gazeta Mercantil. R - Gazeta Mercantil, o fundador. Era tenente, na época, recém-formado e escreveu um livro sobre... Ele lutou nesta região. Sabia os momentos. Pulei em cima daquilo e virou uma história interessante. E outras coisas, fatos, tudo, fui juntando um saco de gato e é muito querido na cidade. Agora, aí, o segundo livro já é muito diferente. Saiu esse livro e o gerente, na época, da fábrica, o Edson Schiavotelo: “Escuta, e se escrever sobre a fábrica? Sobre a Alcoa em Poços?” “Bom, vamos lá.” A abordagem era muito diferente. Tudo voltado para a Alcoa e as pessoas. Achava essa historinha de: “Começou a produzir isso e aumentou tantas toneladas pra cá e instalou isso, tal tal, isso impactou nacionalmente sobre a indústria, comércio de alumínio no país”. Isso não interessa. O que interessa são as pessoas que viveram aquilo. Então, já foi uma abordagem que sentia mais. No início, fui atrás de... porque teve um livro escrito que, no fim, não foi... não foi lançado. P2- Mas vai ser? R- Não. É outro livro... É outro livro que não sei toda a história e é bem complicado, mas tentei ir atrás, um pouco, desse lado do impacto no país e tudo, mas não conseguia as informações. Isso também não interessa. O que interessa são as pessoas. Aqui começou. Levei, não sei se foram dois anos ou um ano e meio, uma coisa assim. Foi muito gostoso. Muitas pessoas estavam vivas ainda. No fim, antes de terminar, o chefe (?) morreu. Mas um mundo de gente estava vivo para contar histórias e tudo e, claro, o livro é como o Nermésio (?) fala, muito a minha cara porque, claro, juntei as coisas, não ia saber fazer um... Não sei se agradou, mas sei que a peãozada gostou muito. [risos]. É o que interessava. Os mais pra cima não sei, mas também não me interessa. Queria agradar essa, o que chamava de cambada [risos]. P1- E o quê o senhor... poderia contar algum caso pitoresco que ocorreu ao longo desses anos? R- No fim, são tantos. Alguns já falei. É uma pergunta... acho difícil. O livro... até cito vários que estavam envolvidos o chefe (?). Era uma pessoa muito firme na construção. E posso dizer que... como botei no livro. Fui subordinado direto, mas era muito rigoroso. Tinha um grupo de engenheiros novos, recém-formados e ele foi muito perspicaz, buscou escolas, isso em Belo Horizonte. Mais a UFMG, entendeu? Católica, na época, também, que tava começando. A Católica só foi fundada em 1958. Quer dizer, PUC Minas. Eram engenheiros novos, colegas, que tinham algum elo, muitos do interior do Estado, loucos para voltar para o interior, casar com a noivinha da terrinha, tudo. Usou esse gancho para formar um grupo muito importante. Agora, era muito rigoroso. Gostava de dizer: “O chefe (?) comeu o meu rabo uma vez” [risos]. Ele, no fim da construção, ia tomar conta da mineração e precisava de operadores de máquinas. Então, fui atrás de um, empregado de uma empreiteira de terraplanagem, que ainda tinha alguns trabalhos. Aí o chefe (?), toda sexta-feira, fazia umas voltas, no sábado - a gente trabalhava no sábado - pra notar coisas que ia comentar com o grupo na segunda de manhã cedo. E aí, numa determinada segunda de manhã cedo, a gente, a turma meio apavorada, não sei o quê vinha dele. Porque era muito exato e, como falo, rigoroso, mas muito justo. E não tinha argumento com ele. Se viu alguma coisa, era aquilo mesmo, não tinha jeito de fugir do julgamento dele. Então, determinada segunda chegou: “Don, você fez uma coisa errada. Foi no acampamento de tal firma, tentou contratar um operador que está trabalhando lá ainda no serviço. E fez mal. Vai sair daqui agora, vai lá no acampamento da empresa pedir desculpas para o engenheiro tal [risos], que você errou” [risos]. Então, fui, né? [risos]. P1- Don, qual é, na sua opinião, a importância da Alcoa para a história da Indústria do Alumínio no Brasil? R- Bom, deixa ver. Foi a terceira do país. Primeiro, foi, em termos cronológicos, a Alcan em Ouro Preto. O Antônio Ermírio que, hoje em dia, é alumínio, é um pouco mais antiga e depois é aqui. Então, novamente, é uma fábrica pequena, praticamente, sempre foi maior que a Alcan no Brasil. Mas em termos de outras que vieram depois, é pequena. Mas foi... falei que era uma fonte de gente, técnicos e engenheiros aqui para a Alcoa. Vou também para outras indústrias. Isso ligado ao fato também de uma... acho que de uma agressividade comercial do Alan, muito astuto, buscando coisas e oportunidades. Vê, a Alumar, tudo isso, claro, não foi totalmente idéia dele, mas a Alcoa já estava disposta a fazer um grande investimento no Brasil, que Nemércio (?) acompanhou, uma boa parte do tempo, as dificuldades enormes que teve. Acho que uma das coisas também importantes da Alcoa é sua responsabilidade junto à população. Primeiro, o local de onde opera e, também, assim, atualmente, tem um grande desenvolvimento tecnológico, não só pelo fato que, agregado, ainda é a maior empresa de alumínio do mundo. Mas de algumas inovações, muita atuação das pessoas aqui e, dentro desse ambiente, sustentabilidade do negócio. E, realmente, tentar pensar além, prever algumas coisas que podem acontecer e a companhia pode também dar uns pulos pra frente de agregar valor pra si, para os seus empregados e, aquilo que falei, para a comunidade onde opera. P1- E, na sua opinião, quais foram os maiores aprendizados de vida enquanto esteve atuando na Alcoa? R- Bom, era uma pessoa muito acanhada, sabe? Tinha medo de falar. Isso quebrou. Talvez precisasse só de alguns empurrões, não sei bem quê que era, era muito tímido. Isso foi uma coisa importante para mim. Tive que atuar dentro da comunidade, cheguei em 1962 que, claro, a população cresceu muito, ando hoje na rua. Até, às vezes, é muito difícil, alguns já morreram. Mas também é difícil reconhecer pessoas, mas sei que muitas sabem quem sou. E isso é bom. Quer dizer, nunca me meti em Política, que já é uma coisa boa, porque não gera... tive poucos inimigos. Tive, mas acho que poucos. E isso é uma sensação boa. Pra um ou outro lado, é um pouco diferente e sei que nunca foi falado, mas imagina que nunca fui muito agressivo, assim, dentro da empresa. Tantos anos... Podia chegar um diretor, tal… [pausa]. P1- O que é ser Alcoa? R- Ser Alcoa… [risos]. São aquelas perguntinhas chatinhas que sempre... Marília Gabriela [risos]. Bom, acho mais difícil pra responder. É uma empresa importante que hoje opera [risos] nas localidades e, realmente, na vanguarda nacional. Respeitado, importante [risos]. P1- Como vê a atuação da Alcoa no Brasil, hoje? R- Ah, bastante avanço. Agora, a maior novidade é essa mina de bauxita entre Santarém e Parintins, no Amazonas. Isso vai dar uma liberdade importante para a empresa crescer, em algumas áreas, muito grande. P1- Na sua opinião, o que acha de estar resgatando sua memória através desse projeto? R- Quê que eu o quê? P1- Quê que acha da Alcoa estar registrando? R- É, acho que a memória é aquilo... muitas pessoas não dão muita bola, não. Claro, isso faz parte da natureza humana, mas é importante ter esse registro, sem dúvida, das pessoas que atuaram, que deram muito das suas vidas e que, em muitos casos, são bons exemplos pras pessoas que estão aí e vêm vindo. P1- E os colegas de trabalho? Citaria alguém, em especial, da sua trajetória? R- Ah, tem uma porção, tem o Fernando Lana (?) que teve a idéia desse primeiro livro. Tem uma porção de colegas. A maior parte, dentro da mineração: o Paulo Roberto Zanatto, o Danza. O Danza é um caso bem interessante. Ele é poçoscaldense, como você viu, e tem várias histórias do Danza [risos]. P2- Então, conte-as. R- Deixa só terminar os outros. Teve... Aí tem uma meninada nova também. Tem o engenheiro de Minas lá, espetacular, acho que tá indo pra Austrália. Tem um engenheiro florestal, que talvez é o melhor que teve, na companhia, de trabalho que está fazendo. Isso é bom. Algumas coisas vão prosseguir e melhorar, né? Teve colegas de outras áreas. Nestor Andrade, que foi gerente, colega durante a fábrica de alumina. A refinaria, foi colega muitos anos. Zé __________________, que aposentou agora. Tem Paulo Fernando Pereira que ainda tá na mocidade, engenheiro eletricista. Têm pessoas de diversos níveis. Sebastião Gonçalves. Muita gente que empreguei, vai acabar conhecendo, talvez a Terezinha Couto, da fábrica de pó, que trabalhou em vários instantes. Pessoa muito importante para a empresa, eu que a empreguei. Isso dá uma satisfação muito grande. E teve uma pessoa nesse livro maior, acho que deveria fazer parte, a Marília de Gonzaga Lima e Silva, não sei se o nome dela está nessa lista. Tem um capítulo sobre ela. Foi minha secretária e... Então, ela fez um capítulo sobre secretárias, lembra? Porque não existe mais o cargo de secretária. Consegui levantar todos os nomes, todas secretárias que passaram pela Alcoa e fazer uma homenagem à ela. Agora, a Marília foi a minha e a primeira mulher gerente da Alcoa no mundo. Foi de Relações Humanas, aqui em Poços. Mora na cidade, é professora na PUC, foi da PUC São Paulo, agora só aqui, na PUC Minas em Poços. Pessoa muito marcante. Dediquei um pedaço pra ela. P1- O que achou de ter participado dessa entrevista? R- Ah, é gostoso. Falar do passado, sobre si, a pessoa sempre gosta [risos]. Acha que é um assunto que domina facilmente. Gostei, foi bom. P1- Tem algum fato que não comentou que...? R- É, falei um pouco sobre Danza. O Danza, foi estagiário comigo na mineração, depois o empreguei. Ele tinha uns problemas bem sérios. Já viu... Casou com uma menina daqui, já começou a trabalhar, casado. Mas Danza, sempre teve um problema muito grande com o pai dele. O pai dele era advogado, pessoa muito falante, discursava bem. O Danza nunca teve essa facilidade, não é uma pessoa carismática. Tem que conhecer ele um tanto pra ir chegando lá. Uma vez que se chega, abre umas portas que são incríveis. Ele é quase um super dotado, quase. Muito inteligente, muito. Mas tinha uns problemas, por exemplo, gaguejava e tinha dado aulas lá em Ouro Preto. Então, uma das primeiras coisas, mandei ele para, não sei se Pólito ou Polito, lá em… P1- É Polito. R- Mandei ele pra Polito (Instituto Reinaldo Polito) fazer umas aulas lá, de falar. E era, falava tudo de cabeça pra baixo, assim, tímido. Quase não escutava. Então, isso têm que mudar. Têm que olhar nas pessoas e ter uma firmeza, essas coisas. Outro, que logo que empreguei, pintou uma oportunidade de ir para os Estados Unidos e ele era bem ruim em inglês. Porque o problema é que ele é muito preciso nas coisas, então, isso dificulta. Para aprender uma língua tem que ser meio sem vergonha, pra soltar. Tiveram vários aqui. Um chegou a ser diretor internacional na Monsanto, começou aqui. Mas era sem vergonha, de ir atrás, falar errado, errar e falar besteira, bobagem e foi. Agora o Danza, não. Mandei-o para um curso, em São Paulo, que quase morreu. Eram duas semanas de imersão e ele com um rapaz, um, não sei se americano ou britânico, só. Desde o acordar, até deitar de noite. E, inclusive, fim de semana e só inglês. Deixou-o quase louco. Hoje em dia, não. Isso; a dificuldade continuava um tanto, mas isso ajudou a ter a primeira quebra. Hoje em dia, ele até vai bem em inglês e tudo. Não é lá uma Brastemp, mas é melhor que muita gente, devido à essa dificuldade. É uma pessoa muito interessante, o Danza. R- Você não falou nada… P2- Perguntei sim! R- [risos] P2- Vou fazer uma pergunta. Gostou de morar aqui em Poços, continua...? R- Bom, tô aqui. Naturalizei brasileiro em 1979 e perdi a cidadania americana. Sabia, na época, que ia perder. Hoje em dia, não perdi mais. Inclusive, as minhas filhas que tinha registrado, ficaram sabendo depois que teriam direito e pegaram passaporte. Era só pedir que tinha registrado elas. E, durante um período, não poderia, mas mudou a legislação americana. Então, hoje em dia, americano pode ter dupla nacionalidade. Naquela época, não. Poços é, basicamente, fui bem em muitos lugares, acho, acomodo bem. Agora, vai ficando mais velho e, claro, as cidades têm mil problemas como em todo lugar, não só aqui, como nos Estados Unidos, onde for. E não me vejo morando em outro lugar. E a esposa, é de Aguaí, aqui perto, terras bem mais quentes, perto de Mogi-Guaçu, naquela região lá, e ela também não aguenta mais o calor de lá. Aqui, vê, uma temperatura agradável, as noites de verão de Poços são um negócio! Maravilhoso. Pode ser um pouco frio demais no inverno e, essa casa, por causa disso, é o piso frio. Mas fizemos essa casa gostosa, tem dias, agora não posso sair de casa [risos], mas mesmo estando bom, tinham dias que: “Vamos sair pra quê? Tá tão gostoso aqui...” [risos]. P1- Bom, então, em nome da Alcoa e do Museu da Pessoa, agradecemos a sua entrevista. R- Muito obrigado.
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