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História

Um sueco na indústria de celulose do Brasil

História de: Klaus Güsta Hall
Autor:
Publicado em: 23/07/2020

Sinopse

Infância entre Suécia e França. Segunda Guerra Mundial. De pai para filho. Faculdade de engenharia. Casamento. Brasil e Aracruz Celulose. Rio de Janeiro. Desafios na área comercial. Conflitos com o Banco Mundial. Setor industrial no Espírito Santo. Vantagens do Eucalipto. Programa de educação. Construção do Portocel. Acionistas. Participação na Eco-92. Importância da Aracruz para o Brasil. Aprendizado da língua portuguesa. Política. Paixão por jardins. Sonhos e desejos.

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História completa

P1 - Carla Vidal

P2 - Stela Tredice

R - Klaus Güsta Hall



P1 - Senhor Klaus, a gente começa o trabalho sempre perguntando para as pessoas a data de nascimento, o local de origem e o nome completo. O senhor poderia se apresentar?

 

R - Sim. Klaus Güsta Hall, G, U com dois pontos, S, T, A. Nato da Suécia, dia 28 de Fevereiro [de] 1930.

 

P1 - Como se chamam ou chamavam seus pais?

 

R - O meu pai se chamava Güsta, então eu tenho este nome através dele.

 

P1 - E a sua mãe?

 

R - Elza.

 

P1 - Qual era a profissão de seus pais, Klaus?

 

R - Igual ao meu.

 

P1 - Trabalhava?

 

R - Na indústria florestal.

 

P1 - Mas era muito diferente, como que era o trabalho dele, né?

 

R - Não, naquela época, as coisas eram, não, outra coisa. Ele começou nos Estados Unidos, depois voltou para a Suécia. Depois foi para Paris para fazer um laboratório de embalagem, que ainda existe em Paris. Era a indústria nórdica que estava financiando isso, para desenvolver o uso de sacos de papel e de cartão ondulado na Europa. - Tinha uma coisa semelhante nos Estados Unidos antes. - Mas, por isso, eu comecei a escola em Paris. Isto me ajudou a aprender português mais tarde, porque o francês e português tem muitas coisas em paralelo: expressões, pensamentos e gramática.

 

P1 - Quantos anos o senhor tinha quando foi à Paris?

 

R - Quatro.

 

P1 - Quatro?

 

R - Deixei a [cidade de Paris com a] idade de oito anos, para voltar para a Suécia, porque os alemães estavam começando de agredir na Europa. Nós, foi fim de 38 que nós voltamos. E isso foi alguns meses antes da 2ª Guerra Mundial.

 

P1 - E senhor Klaus, o senhor tem irmãos?

 

R - Eu tenho uma irmã e um irmão.

 

P1 - E eles são mais novos, mais velhos?

 

R - Eu sou o mais velho.

 

P1 - Como que era a relação do senhor com seu pai, com sua mãe, seus irmãos?

 

R - Sempre muito boa. Sempre. E também, durante a vida, a minha mãe faleceu na idade de 69 anos, mas o meu pai chegou a 94, então nós estávamos visitando um ao outro muitas vezes, mas eles nunca foram ao Brasil.

 

P1 - Tinham curiosidade? O senhor falava muito do Brasil para eles?

 

R - Claro, claro.

 

P1 - Como foi a sua infância, o senhor tinha brincadeiras? Quais eram essas brincadeiras de menino?

 

R - Ah, é futebol.

 

P1 - Futebol?

 

R - É, nós estávamos, três etapas, várias equipes de futebol.

 

P1 - E a cidade que o senhor cresceu, que dizer, boa parte de sua infância o senhor passou em Paris?

 

R - Sim.

 

P1 - O que é que o senhor lembra de Paris?

 

R - Bom, eu me lembro muito bem.

 

P1 - Não lembra?

 

R - Me lembro muito bem.

 

P1 - Fala um pouquinho para a gente.

 

R - Porque, eu sei [que] nós morávamos perto da Torre Eiffel, e eu, na idade de quatro, fui em um jardim de criança perto da Torre Eiffel. Então eu me lembro muito bem disto. Também me lembro de, tem coisas na “Bois de Boulogne” [parque público], estas coisas.

 

P1 - Paris era uma cidade mais tranquila, mais...?

 

R - Até 39. Depois, foi terrível.

 

P1 - Depois. E a cidade, a sua cidade de origem, o senhor voltou para lá depois?

 

R - É uma pequena cidade no norte da Suécia, que se chama Gävle.

 

P1 - Como? 

 

R - Gävle. G, A com dois pontos, V, L, E.

 

P1 - Gävle.

 

R - Uhum. É uma cidade onde a família da minha mãe tem história, perto de Gävle, porque a mãe da minha mãe foi nascida perto de lá. E foi de uma família de aços, eles tinham uma fábrica de ferro, aços.

 

P1 - E o senhor estudou então uma parte em Paris, [e] depois dos oito anos?

 

R - Depois, em parte, nós voltamos para Estocolmo e, depois, quando eu era 16 [anos], o meu pai voltou para Gävle, para uma empresa florestal lá. Então eu fiz... Como chama em português?

 

P1 - O ginásio?

 

R - Ginásio.

 

P1 - Colegial.

 

R - Nos últimos dois anos em Gävle.

 

P1 - Colegial.

 

R - E depois voltei para Estocolmo, onde eu fiz os estudos no instituto de tecnologia, no Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo.

 

P1 - Antes de a gente entrar na sua formação, senhor Klaus, o senhor [acabou] saindo de Paris em 1938?

 

R - Uhum.

 

P1 - E indo para Estocolmo, a gente está vivendo o período da 2ª Guerra? 

 

R - Uhum.

 

P1 - O senhor lembra da guerra?

 

R - Claro.

 

P1 - Como que ela influenciou a vida do senhor, da sua família?

 

R - Não, foi, a comida foi bem diferente, porque houve, não houve frutas, não houve coisas importadas e também as coisas de; carne, por exemplo, não houve muita carne não, era mais peixe. E também, naquela época, não, [em] certos períodos, não houve aquecimento por falta de combustível. E na frente do nosso apartamento, houve grandes pilhas de madeira para o aquecimento porque, durante a guerra, se tomou muita madeira das florestas para aquecimento [e também] não deu para importar carvão e petróleo.

 

P1 - De que forma essa guerra influenciou a indústria de papel? Como o senhor trabalhava?

 

R - Eu não estava trabalhando naquela época.

 

P1 - O senhor não, o pai do senhor.

 

R - Sim, o problema é que muitas fábricas fecharam, porque não houve como exportar toda a produção. E o que eles fizeram: mudaram certas coisas para fazer mais álcool, e a pasta de celulose que, normalmente, era para papel, em vez, foi feita pasta para comida para (cavalos?). E no licor da pasta, foi feito álcool. Então, mas a indústria trabalhava talvez, um terço do normal.

 

P1 - E como o senhor vê a guerra do lado, tirando estas questões, essas... (pausa)

 

P1 - Senhor Klaus, além das questões de, da necessidade que a guerra trouxe com a falta de energia, com a redução do alimento, como foi que o senhor viveu, vivenciou esse período no que tange a parte do que hoje a gente fala dos horrores da guerra? O senhor via coisas, chegou a ver, conhecer situações?

 

R - Não, muito não. O que houve era que na escola houve uma parte dos alunos que eram nazistas e eu era muito contra nazista, então tivemos brigas na escola, etc. Muitas coisas disto. Eu acompanhei a guerra muito pela BBC. “BBC Overseas”, porque escutava informações que não se deu sempre nos outros lugares. Porque a imprensa não era exatamente censurada, mas quase, um pouco. Então foi, isto para mim sempre é uma coisa que nunca entendi, que um país como a Alemanha, com muitas universidades, muita alta educação poderia cair em uma coisa dessas, numa ditadura tão ruim.

 

P1 - A sua casa, o senhor...

 

R - Isto sempre para mim foi uma coisa de criança.

 

P1 - E na sua casa, os seus pais comentavam, falavam de guerra?

 

R - Ah, sim, nós discutíamos isso. Discuti muito com meu pai.

 

P1 - Como era a sua relação com seu pai, já que o senhor acabou que seguindo a profissão dele?

 

R - A relação sempre foi muito boa, nós discutimos a indústria, discutimos as coisas. Chegamos a conhecer muitas pessoas, nós dois, então também poderíamos trocar ideias, como funcionam as outras pessoas e porque acontecem as coisas.

 

P1 - O seu pai influenciou a sua escolha por engenharia?

 

R - Provavelmente sim, mas isto não sei.

 

P1 - Como é que foi...

 

R - Porque nós fizemos quase a mesma educação, mas quando ele ficou pronto da educação dele, em 1923, era uma época meio difícil de empregos. Então ele, a primeira coisa que ele fez foi [ir] para Washington, para a “National Biological of _________”, fazendo pesquisa e método sobre a estabilidade do papel. É muito interessante. É, no ano passado, em um jantar em Estocolmo, um homem chegou para mim dizendo que um dos chefes da “National Biological of _________” falou com eles, dois anos atrás, que o trabalho que o meu pai fez foi um trabalho básico de como julgar a estabilidade do papel. Porque se você faz papel (engano?), cai em pedaços depois de cinco anos. Então para arquivos, etc., tem que ser feito de uma maneira especial.

 

P1 - Seu pai era um apaixonado pelo papel, pelo...?

 

R - Sim, mas a educação dele foi [em] álcool. Ele foi especialista em álcool, e depois entrou nos assuntos do papel.

 

P1 - Como foi o curso de tecnologia que o senhor fez na faculdade?

 

R - Não, foi muito bom. Aquela época era muito difícil entrar, então eles testaram os alunos que iam entrar, faziam teste de inteligência, essas coisas. Então foi um grupo muito escolhido, todo mundo foi procurado. Eu fiquei contratado um ano antes que acabar os estudos. Hoje é completamente diferente. Porque nós éramos 28 alunos no curso de engenharia química, [e] hoje são 90. Então é muito diferente, porque um grupo pequeno você fica amigo [de] muitas pessoas.

 

P1 - Como é que era esse ambiente universitário?

 

R - Foi muito interessante também porque, naquela época, eu fui ativo nas reuniões de estudantes, e uma coisa que nós conseguimos da universidade foi de fazer cursos para engenheiros sobre assuntos de cultura e assuntos sociais. Eu fiquei encarregado de fazer isto. Então eu convidei muitas pessoas, autores, pessoas do parlamento e outros [para] falar com os estudantes. Isto foi muito educativo.

 

P1 - Tem alguma dessas ações que o senhor tenha gostado mais de fazer? Algum escritor, algum...?

 

R - Não, só umas pessoas na Suécia que você não conhece. Mas foi muito interessante isso. E depois eu entrei na União Nacional de Estudantes da Suécia, fiquei [como] primeiro secretário para [o] Ulof Palmer no comitê de relações exteriores da Associação Sueca de Estudantes.

 

P1 - Que ano foi isso?

 

R - Isto foi em 52, eu [e] Ulof Palmer ficamos muito amigos naquela época. Ele virou o “chairman” da associação dos estudantes e eu sucedi ele como “chairman” do comitê internacional da associação. Isto deu muitos contatos com outras associações de estudantes e também de uma coisa bastante interessante, porque, naquela época, houve na Tchecoslováquia... Em Viena, [na Áustria], uma organização comunista de estudantes que era subsidiada pelos russos para tentar invadir as várias associações de estudantes. Então eu e Ulof Palmer, nós fizemos muito trabalho contra esta associação. E foi interessante também porque Ulof Palmer, no primeiro golpe em Viena, quando os russos pegaram a Áustria, Ulof Palmer tirou uma moça de lá, casando com ela para poder tirar ela [de lá]. Isto ele fez muito bem. Depois ele se casou com uma amiga que eu conhecia já aos, [desde os] 14 anos de idade. Então nós tivemos uma relação, naquela época, boa, mas depois ele sumiu, que eu digo, quando os políticos vão para o poder. Então ele virou mais esquerdista. Foi durante a época dele, no governo de planejamento, que os impostos aumentaram para níveis muitos altos na Suécia. Então eu me lembro numa discussão política, ele chegou para mim, fez um grande abraço [e] depois ele disse: “Klaus, aquele homem é louco!”. Então eu falei: “Eu acho que você é que está louco, porque esse homem, eu acredito mais nele!”. Então, estas coisas mudam.

 

P1 - E o senhor se sentiu desapontado?

 

R - Muito, muito. Ele, tenho visto em outras situações também. Eu chamo isto, que as pessoas viram reais e não usam de todo mundo. Só estão tentando de...

 

P1 - Ter uma brecha?

 

R - É, ele, eu tenho, tinha um amigo muito bom na universidade também. Nós fizemos o, tem que se fazer um trabalho de diploma, nós fizemos isso juntos, fizemos o serviço militar juntos e nós ficamos amigos. Depois, na idade de 36, ele virou presidente, naquela época, da Astora, na Suécia, que era uma empresa muito grande. O maior na indústria de celulose e papel, naquela época, na Suécia. E ele perdeu o contato com a realidade., queria ser o presidente do conselho e os acionistas não quiseram isto, então ele se matou. Isto foi primeiro ano que eu cheguei no Brasil, em 79. Então, as pessoas mudam.

 

P1 - O senhor acha que o poder seduz?

 

R - Eu acho. Tem pessoas que são equilibradas nisto. Eu respeito muito, porque ele sempre perguntava [as] opiniões, ele usa... Eu acho que isso, uma das coisas tanto dentro das empresas como na área política, é importante que as pessoas tenham contato com a verdade.

 

P1 - E ele é uma pessoa que vive um universo que poderia propiciar a vaidade, não é?

 

R - Ah, sim, poderia, mas ele é muito interessante.

 

P1 - Senhor Klaus, o senhor estava na universidade, além de estar engajado nestas questões culturais e políticas, tinha outra atividade que gostava de fazer?

 

R - Eu encontrei a minha esposa. (risos) Agora, dia 21 de novembro, temos 50 anos de casamento.

 

P1 - Puxa! Como ela se chama?

 

R - Cecília.

 

P1 - Cecília? Um nome bem latino.

 

R - Sim, mas é comum na Suécia também. É comum na Dinamarca, em países nórdicos.

 

P1 - Ela estudava na universidade também?

 

R - Não, ela estava estudando para ser... Como chama isso? Engenheira têxtil, para fazer roupas, desenhos de roupas, mas, depois, tivemos rapidamente três filhos e ela deixou de fazer...

 

P1 - Como foi que o senhor a conheceu?

 

R - Foi através da minha irmã, porque a minha irmã estava na mesma educação que ela. Acontece que, naquela época, o homem que virou, que casou com minha irmã era um dos meus amigos da universidade. Então assim, mas a minha irmã é divorciada já há 19 anos. Este homem, ele morreu dez anos atrás, então não tem mais aquela coisa. Então, os [meus] dois amigos [que eram] mais perto [de mim] durante a universidade estão mortos.

 

P1 - E o senhor encontrou com Cecília e foi amor à primeira vista?

 

R - Não, levou uns seis meses para ser mais intenso.

 

P1 - Como que ela é? Como que ela é como pessoa?

 

R - Uma pessoa alegre que gosta muito da família. Agora ela, nós saímos do Brasil, fomos para Londres primeiro, que era uma maneira de continuar a Aracruz, uma base assim central. E depois fomos para a Suécia, com certeza. São as netinhas e o neto que tirou, nos [levou] para lá. Ela está muita amiga com todo aquele... Ela é uma boa mãe, eu acho que isto também ajudou para nossos filhos e muito a mim, porque noutras famílias, se vê de vez em quando que tem brigas dentro de família [e] conosco não tem.

 

P1 - O senhor tem quatro filhos?

 

R - Quatro.

 

P1 - Dois meninos e duas meninas?

 

R - Primeiro meninas e depois meninos.

 

P1 - O que fazem seus filhos?

 

R - Perdão?

 

P1 - Eles trabalham com o quê?

 

R - A filha mais velha se chama Aneken, ela é, trabalha no ramo financeiro. A segunda filha se chama Caroline; Aneken mora em Londres, Caroline mora em Gotemburgo. Caroline é enfermeira e terapeuta. Depois, é um filho que era engenheiro de informática, mas agora é presidente de uma companhia de papel na Suécia. Ele sempre disse que nunca iria para o mesmo rumo que os pais, mas, mesmo assim - eu nunca influenciei a escolha dele ser.

 

P- Será?

 

R - Não, não, mas, porque ele disse: “o meu pai trabalha demais naquela indústria, então eu nunca vou para lá”.

 

P- O seu avô, o pai do seu pai, tinha alguma coisa a ver com o papel?

 

R - Não.

 

P- Tudo começou com seu pai.

 

R - Ele era do mercado financeiro. Ele era... Como chama isso? Ele tinha uma pequena firma vendendo e comprando ações para pessoas. Antes do meu pai, não tinha nada de tradição não.

 

P1 - O seu filho mais novo?

 

R - Ele é analista chefe de um banco no Estocolmo. Ele e a namorada dele, eles vão ter o sexto netinho agora em fevereiro. Ela tem 41 anos, vai ter 42 quando chegar esse netinho. Então, nós sempre pensamos que não iriam ter filhos lá, porque eles têm dois gatos.

 

P1 - Mas o senhor só tem netos...

 

R - Não tenho, o filho mais velho, ele tem duas filhas e a mais velha se chama Cecília. Então tem duas Cecília Hall na família, e depois tem uma filha, Ana, e depois tem [um] filho, Henrik.

 

P1 - Nomes bonitos.

 

R - Sim.

 

P1 - Nomes muito parecidos com os do Brasil.    

  

R - Sim, eu acho que é.

 

P1 - O senhor estava dizendo que logo antes de se formar o senhor já estava empregado?

 

R - Sim.

 

P1 - Aonde o senhor foi trabalhar?

 

R - Isto foi na Companhia _________ na Suécia, no Norte da Suécia, esta cidade [se] chama _____, onde eu entrei na pesquisa sobre fibra e propriedade de fibras. E depois mudei de trabalho para trabalhar com serviços técnicos de cliente, a respeito de celulose. Depois fiquei encarregado do lado do mercado do novo projeto de cartão, para cartão ondulado. Depois, um financeiro muito conhecido na Suécia, o Marcus Wallenberg, um dia me telefonou e disse: “Você tem que vir para Estocolmo, quero encontrar com você”. Então eu saí daquela empresa porque ele não oferecia condições, naquela época, para alguém da idade de 30 anos.

 

P1 - O senhor já estava casado?

 

R - Sim.

 

P1 - E já tinha filhos?

 

R - Já, três filhos.

 

P1 - Foi rápido.

 

R -  Não; esta era a diferença daquela época e de hoje, porque quando nasceu a primeira netinha, nossa, na idade da mãe dele, nós já tivemos três filhos. Porque agora as pessoas trabalham, a filha Caroline, em Gotemburgo, ela tem duas filhas: uma na idade de 39, outra na idade de 42; então, muito mais tarde. A minha esposa estava com 22 quando a primeira filha, Aneken, nasceu. E o mundo muda.

 

P1 - Muito.

 

R - Muito, e isto acontece no Brasil também. E eu me lembro quando eu cheguei no Brasil, 78, que aqui falava-se que tinha três milhões de crianças cada ano, agora é 1,2. Sobrou uma população bem maior. Então muda muito.

 

P1 - Muito.

 

R - As mulheres estão tendo os filhos mais tarde por causa do trabalho, e também se culpam por ter os filhos mais tarde.

 

P1 - Sim.

 

R - Você tem filhos?

 

P1 - Não.

 

R - Ainda não?

 

P1 - Ainda não. E a Stela, né, está lá.

 

P2 - Eu tenho dois gatos. (risos) Dois branquinhos. (risos)

 

R - Não porque nós pensávamos que aqueles gatos eram substituição de filhos.

 

P1 - É muito comum aqui no Brasil, inclusive, entre amigos nossos, terem gatos, cachorros.

 

R - Sim. Uhum.

 

P1 - E aí você pergunta: “E o bebê, já chegou?”, aí você vai ver [e] é um gato novo. (risos)

 

R - Não, cachorros, nós sempre tivemos cachorros, até que nós mudamos para o Rio, em 79. Então nós estávamos viajando muito mais, não deu mais para ter cachorro. Quando você viaja, não...

 

P1 - E a chegada? Como foi que deu essa vinda do senhor no Brasil? O senhor estava nessa companhia?

 

R - Não, eu mudei para outra companhia, que era uma cooperativa de proprietários florestais. Lá, participei de dois projetos de fábrica de celulose nova, também de venda e "marketing" daqueles. E depois chegou um homem lá de novo... Eu estava muito amigo do presidente da empresa, mas ele morreu, faleceu de câncer linfático. Isto foi muito difícil. E depois chegou um outro presidente que comprou muitas fábricas pequenas. Ele queimou o grupo. Então eu decidi de fazer alguma coisa outra, e a minha esposa também concordou e viemos [para] fora da Suécia para ter mais experiência noutros lugares. E um dia foi, um "headhunting" que [eu] estava... A Aracruz estava procurando alguém com experiência internacional na celulose e papel, o "headhunting" me localizou e fui convidado para visitar o Brasil. Para visitar ________, a Lorentzen, Souza Cruz. Depois falei com minha esposa e disse que talvez vamos morar no Brasil. Então ela disse: “Sempre fui contigo para mudar para fora, no Brasil”. Ela estava muito questionando, mas nós fomos juntos aqui. Ela achou interessante, ficamos.

 

P1 - Mas o senhor já tinha ouvido falar do Brasil?

 

R - Ah sim, não porque já tinha visitado o Brasil duas vezes, em 1957 [e] 1964, que era baseado em negócios da Suécia.

 

P1 - Que negócios?

 

R - Celulose e papel. Então eu conhecia um pouco do Brasil.

 

P1 - Mas o senhor fazia negócios com quem aqui no Brasil, em 1957, 64?

 

R - Nossa gente no Brasil, e, como chama? Tem um que ainda está vivo aqui, que chama Eric ______, que era nosso agente aqui. Ele ainda está ativo, vendendo papel jornal de fora para o Brasil. É uma pessoa fantástica, na idade de 92. Então foi através dele que eu visitei aqui. Eu visitei São Paulo porque nós estávamos vendendo um pouco de papel jornal para, eu acho que, Folha de São Paulo [e] também, como chama o outro?

 

P1 - Estado.

 

R - Estado de...

 

P1 - Estado de São Paulo.

 

R -  É.

 

P1 - E o senhor chegou em São Paulo em 1952. Veio primeiro para São Paulo?

 

R - Sim, e depois eu fui, [fiquei] quase um mês na Argentina.

 

P1 - O que o senhor achou do Brasil?

 

R - Porque a empresa achou que a Argentina, naquela época, era um mercado que ia crescer bastante. Não, eu nunca tenho confiança na Argentina. Está tão corrupta, tão complicada. Eu acho que vai levar muito tempo para a Argentina voltar a ser um país sério.

 

P1 - O problema da Argentina são os argentinos?

 

R - (risos)

 

P1 - É que no Brasil se faz muitas piadas a respeito dos argentinos.

 

R - Não, eu sei, mas os argentinos fazem a mesma coisa sobre o Brasil.

 

P1 - Nessa época, na década de 50, tinham empresas da Suécia, empresas suecas, "Suécias", vindo para o Brasil, como a...

 

R - Tinha sim.

 

P1 - O senhor conhecia essas empresas? Elas não forneciam equipamentos?

 

R - Eu não conhecia, naquela época não. Tinha conhecido depois, mas não naquela época.

 

P1 - Qual foi a impressão que o senhor teve quando chegou a São Paulo?

 

R - Não... Foi uma cidade vibrante, muito ativa, sempre [foi] a minha impressão de São Paulo.

 

P1 - O senhor acha que São Paulo mudou muito?

 

R - Cresceu. É o dobro hoje do que era, não?

 

P1 - Muito bem, o senhor vem em 57, 64, volta para sua terra e aceita o convite para vir ao Brasil?

 

R - Uhum.

 

P1 - Como que é essa chegada?

 

R - Foi o seguinte: eu estava olhando o que estava sendo feito de florestas de eucalipto aqui [e] achei que aquele trabalho que estava sendo feito com o eucalipto era uma coisa muito interessante, porque era um trabalho de fazer coisas melhores de que qualquer outro lugar no mundo. Encontrei com o Lorentzen, e eu achei o Lorentzen uma pessoa muito direta e honesta. E, também, nós temos um amigo finlandês que se chama Jacques _____, que era, a firma existe, mas ele não é ativo na firma, que estava a maior firma de projetos de celulose e papel do mundo. Então eu falei bastante com ele. Ele disse que achou este projeto bastante interessante da Aracruz, então eu achei um desafio de, [para] começar já cedo. E foi muito interessante.

 

P1 - E o senhor foi para o Rio de Janeiro.

 

R - Sim, mas fui muito para Aracruz também.

 

P1 - No Espírito Santo.

 

R - Sim, porque eu era então diretor comercial da Aracruz, mas eu sempre, como eu sou um técnico, então eu sempre pensei que é muito importante ter integração com os técnicos dentro da empresa, tanto em pesquisa como em produção, como em fábrica, estas coisas. E também, uma coisa que me fascinou na Aracruz era que, em uma empresa, floresta e produção de fábrica estavam ligadas diretamente, porque isto existe em poucas empresas. Sempre floresta é alguma coisa, [em] outro lugar.

 

P1 - Que é que nessa época, que o senhor disse, que lhe chamou atenção estava fazendo plantio de eucalipto aqui no Brasil.

 

R - Não. Era Vale do Rio Doce, era Suzano, Champion, Aracruz e também a Riocell.

 

P1 - Riocell.

 

R - É... E Klabin um pouco também, mas era mais pinho.

 

P1 - E o senhor veio com a família? E com os filhos?

 

R - É engraçado, porque a nossa filha mais velha ela foi para São Paulo um ano depois que nós fomos para o Rio. Mas isso foi através do BankBoston. Na hora que nós fizemos, [ela] foi entrando no BankBoston, em Boston, [e] depois foi para cá. Depois ela saiu, cinco anos mais tarde, e foi para o BankBoston em Londres. Mas nosso filho mais jovem, o Cristian, ele veio conosco. Ele estudou na escola americana no Rio. Isto foi muito bom para ele, porque ele depois foi na Escola de Estocolmo de comércio e eles tiveram uma cota para estudante de fora, pois estavam querendo ter um "input" de pessoas com experiências de outros países. Então, é uma escola muito difícil de entrar, mas ele entrou logo.

 

P1 - Como que era o Rio quando você chegou no Rio de Janeiro? O senhor ficou morando no Rio de Janeiro?

 

R - Sim.

 

P1 - Qual foi a impressão que o senhor teve da cidade?

 

R - Ah, eu sempre falo do Brasil com uma mistura de 1500 e 2000, porque tinha coisas muito boas [e] muito ruins, mas é uma cidade fascinante de música. O ambiente do mar, comidas, muitas coisas. Ao mesmo tempo, tem miséria, não? Por acaso, eu encontrei uma empregada que nos serviu durante 14 anos, e ainda estou em contato com ela. Isto é muito interessante.

 

P1 - E o senhor foi morar aonde no Rio?

 

R - Nós fomos no Leblon e depois, mais tarde, para Ipanema. Mas tinha tanta coisa, por exemplo, houve aqueles problemas dos telefones porque cada [vez] que chovia, e chovia bastante, os telefones não funcionavam. Então, os telefones do escritório não funcionavam. Eu tive que ir na cidade e achar orelhão onde a linha funcionava. E como tinha aquela coisa [de] você ligar 107, você pode ligar para o mundo inteiro, então eu fiz vários negócios através do orelhão. (risos)

 

P1 - Funcionava.

 

R - Muitas coisas assim. Também, na Aracruz, a coisa era muito precária, não do lado industrial porque isto era bem planejado, mas do lado de navios e carregamento de navios. Não tinha ninguém na empresa de, [com] experiência de carregar navios, então o navio afundou. Então a primeira coisa que eu tive que fazer foi empregar um ex-capitão para tomar conta das coisas no Porto. Isto foi interessante, tantas coisas. Não existia formulários de contratos para vender a pasta. Só era uma fábrica e floresta bem feitas, mas de lá (risos) foi muito interessante.

 

P1 - Mas o senhor morou em bons bairros, morou no Leblon, morou no, em Ipanema. O Leblon ainda é um bom lugar para se viver no Rio de Janeiro.

 

R - Eu acho que é, mas não tenho experiência agora.

 

P1 - Muito bem. Agora a gente pode falar um pouco da Aracruz: o senhor veio com esse convite para, especificamente, fazer o quê?

 

R - Ser diretor comercial. Então, tomar conta do mercado, introduzir a fibra no mercado internacional e também fazer um sistema de transporte para o mundo inteiro. E um problema que era muito complicado, era [que] aquela época também, era o controle do preço no Brasil, porque o Brasil tinha um controle de preço completamente fora da realidade, onde o preço do mercado nacional era metade do preço do mercado internacional. E isto fez como as fábricas de papel no Brasil eram subsidiadas pelos produtos de celulose. Foi muito complicado essa coisa, também porque, naquela época, o Galvêas [Ernane Galvêas] era presidente da Aracruz. Ele é um homem muito político, então quando os políticos dizem que este controle de preços tem que continuar, ele estava lento para realmente forçar uma mudança.

 

P1 - Quando o senhor chegou na Aracruz, a Aracruz já estava implantada? Já era uma indústria ou ela ainda estava...

 

R - Eu cheguei quando era para ter a primeira exportação. Porque a Aracruz tinha começado, a fábrica começou em, eu comecei dia 30 de janeiro em 79. E a produção de pasta branqueada na Aracruz começou em novembro de 78. Então uma das coisas que era importante era que a confiança nos clientes, e uma maneira que nós fizemos isto foi doar pasta para centros de pesquisa em vários lugares do mundo, fazendo com que estes centros fizeram estudos sobre pasta de eucalipto. Isto foi muito bom. E uma coisa que eu me lembro muito também em, vamos ver, abril de 79, [é que] mandamos sete toneladas de pasta para o centro de pesquisa de Procter & Gamble, nos Estados Unidos, para [testar] a qualidade de papéis higiênicos deles. Naquela época, ninguém acreditava que os Estados Unidos poderia ser um mercado para a nossa fibra, mas hoje é o maior mercado de que nós temos, porque 36, 37% da nossa produção vai para os Estados Unidos. É interessante, é uma coisa muito nova.

 

P1 - Poxa, cresceu muito a, né, indústria?

 

R - Uhum.

 

P1 - Apesar de o senhor ter vindo um pouquinho mais adiante, o que o senhor sabe sobre a criação da Fundação Aracruz?

 

R - Ah, sim, não porque eu tenho acompanhado através do que Lorentzen tem contado, também o Eliseu Batista e o Leopoldo Brandão que estava trabalhando. Leopoldo, ele estava fazendo um estudo para o governo sobre os incentivos florestais, em 66, e quando esses incentivos florestais foram feitos como lei no Brasil, ele foi contratado por esse grupo inicial de empreiteiros, como o Lorentzen, o Eliseu Batista. E tinha um grupo de uns seis ou sete empresários que estavam investindo pelos incentivos fiscais florestais no Espírito Santo e, também, eu tenho acompanhado muito o que foi feito lá na pesquisa florestal, porque, no início, nos primeiros cinco, seis anos, a pesquisa foi realmente concentrada em pesquisa florestal. Eu me lembro, o Leopoldo Brandão que comentou que tinha duas coisas importantes no trabalho: uma era para ter dinheiro para selos e outra para ter dinheiro para pesquisa florestal. (risos) Sem estas duas coisas, não funciona.

 

P1 - Interessante isso.

 

R - Eu também conheci as pessoas na, conheço o Marcos Viana, também conheço as pessoas da Souza Cruz, que era época, realmente, foi BNDES e Souza Cruz que resolveram o financiamento industrial.

 

P1 - A Souza Cruz, indústria de tabaco?

 

R - Sim, porque a Souza Cruz tinha um "cash value" muito grande. Estavam cheio de dinheiro e, politicamente, não queriam tirar este dinheiro do Brasil, então estavam olhando muito para ver onde poderia investir. Então o que realmente iniciou o investimento na indústria da Aracruz foi o BNDES, a Souza Cruz e o Lorentzen também. Mas Lorentzen, nesse sentido, na época, era muito menor. Mas eu me lembro também que Lorentzen falou quando a fábrica foi planejada, ele tinha vendido a participação dele na Supergasbras e com este capital, ele investiu em floresta na Aracruz. Eu acho que, na época, isso era 10 ou 12 milhões de dólares, que era muito dinheiro naquela época. E quando a fábrica foi planejada, a empresa não teve recursos, e Lorentzen estava preocupado de comprar a peça mais importante de montar a fábrica, que era a caldeira de recuperação, era peça. Então foi feito um contrato para caldeira de recuperação que ele pessoalmente garantiu - não a empresa, mas ele pessoalmente. E isto tenho perguntado a ele porque ele tomou tal risco, então ele disse que estava convencido que a floresta da Aracruz já tinha mais valor que esta garantia da caldeira, e que isto poderia ser resolvido através da floresta, se a fábrica não for financiada. E o que mais? Tem tantas coisas. Eu me lembro no início também, estava chovendo tanto: aconteceu, eu visitei a fábrica, não deu para sair porque as estradas todas estragadas. Foi uma época, início de 79, muito complicada.

 

P1 - Muitos desafios?

 

R - Muitos desafios. E também eu me lembro - tenho ouvido isto porque eu tenho vários contatos com Banco Mundial -, que os consultores do Banco Mundial consideravam o projeto Aracruz ambicioso demais, o risco grande demais, então não financiaram. Isto eu sei, que o banco agora está muito...

 

P1 - Arrependido?

 

R - Justamente, isso. 

 

[Pausa]

 

P1 - O senhor torce, quando tem jogo da Copa do Mundo, para a seleção brasileira?

 

R -  Na maioria das vezes sim, mas quando estive nos Estados Unidos, entre Suécia e Brasil, torci pela Suécia. Mas isto foi uma das primeiras questões quando eu entrei na diretoria da Aracruz, no Rio, eles me perguntaram qual era o time no Rio que eu estava apostando, mas eu não estava ligando nenhum time no Rio não.

 

P1 - O time da Aracruz.

 

R -  É.

 

P1 - Senhor Klaus, conta então para a gente como é que foi esse seu começo na Aracruz: sobre a sua chegada e quais os desafios que o senhor tinha pela frente na área comercial. 

 

R -  Primeiro, eu conheci um pouco espanhol, mas como era o Brasil, eu tive que aprender português. Então, antes de vir para cá, eu peguei 10,12 aulas de português na Suécia e depois, chegando aqui, tive aulas cada semana para falar português, e também fiz um sistema com pequenos papéis com dez palavras para aprender cada dia. Repeti cada dia aqueles dez. Então isto, comecei para funcionar. Outra coisa era, todo sistema aqui era muito difícil de entender, como, primeiro a moeda, a inflação naquela época era de 40 a 50% e como se tratar com moeda. E também tem muitas coisas culturais. Eu gosto muito de brasileiros, mas tem que entender certas coisas. Tem certas coisas onde brasileiro é como japonês, não quer dizer não em vez, responder, o meu tio, alguma coisa indo por volta do assunto. Então isto tem que entender. Eu fiquei no início muito, por causa dessa coisa do controle de preço no Brasil, eu fiquei muito envolvido com São Paulo, da indústria papeleira aqui em São Paulo para negociar e discutir sobre as nossas vendas no mercado nacional. Isso realmente foi uma escola. E o nosso filho que estava conosco, ele comentou uma coisa, ele disse que o que acontece em 10 anos nos outros países acontece em um no, só no Brasil. Tantas coisas [acontecem] na economia e na política, que não é o mesmo ritmo. Então eu vi um artigo em um jornal econômico outro dia, dizendo que as empresas suecas gostam de ter alguém quem tem trabalhado nas empresas deles no Brasil, porque estas pessoas são acostumadas a surpresas. (risos)

 

P1 -  Muitos desafios.

 

R - É, muitos desafios.

 

P2 - E falando em surpresas, a gente sabe que a gastronomia, né, tem muito a haver com o retrato cultural e social de uma cidade, de um país, de um povo.

 

R - Hum.

 

P2 - Vocês ficaram muito surpresos, tiveram muita dificuldade de se adaptar à alimentação, aos hábitos alimentares? Enfim, é muito diferente? Foi muito diferente?

 

R - É diferente, mas não é difícil de se adaptar a isto não. Porque tem muitas coisas que nós gostamos de imediato, todas frutas, legumes e também estas coisas de farofas, por exemplo, são coisas....

 

P2 - E feijoada?

 

R - Feijoada também. Nós fazemos feijoada de vez em quando, na Suécia agora também, mas não é a mesma coisa como aqui. É, tem coisas, alimentação que são diferentes. Por exemplo, achar um pão que é bom é difícil aqui, porque é muito pão [de] trigo aqui. Mas isso conseguimos...

 

P1 - Conseguiram se adaptar.

 

R - Evidentemente. Também tem uma colônia, tinha uma colônia de suecos no Rio. E isso ajudou também para a minha esposa, para ter pessoas já com experiência aqui explicando como são os costumes etc.

 

P2 - E vocês se sentiram mais integrados graças a essa colônia?

 

R - É, isto tem mudado tanto. Hoje tem poucos, quase todos foram embora. Porque para as empresas era caro de ter “expatrieis” trabalhando. Então muitas destas empresas, isto mudou para ser brasileiros que tomam conta.

 

P2 - E voltando um pouquinho à Aracruz: a gente sabe que o Banco Mundial chegou a elaborar um documento com 16 razões para [a] não instalação da fábrica, né?

 

R - Uhum.

 

P2 - O senhor se lembra de destas razões? Porque que não...?

 

R - Eu me lembro [que] basicamente, quase, várias destas, era que a fábrica era grande demais. Era inseguro de ter um mercado para uma produção tão grande, e que o desenvolvimento das florestas e das árvores eram ambiciosos demais. Muitas das questões eram baseadas em isto ser, porque, na época, quando a Aracruz iniciou, era a maior linha de produção no mundo e eles questionaram se no Brasil era tecnicamente possível fazer uma linha deste tamanho funcionar. Mas funcionou muito bem. Não me lembro em detalhe não. (pausa) Eu me lembro também, quando nós, era para fazer a segunda linha da Aracruz, o Banco Mundial, o Internacional Finance, a, desculpe, FC, mandaram dois consultores para nós, nós ficamos dias e dias explicando para eles onde poderíamos vender etc. A minha impressão do Banco Mundial é que é muito burocrata. Então eu acho que de uma certa maneira, talvez é bom que ele [quis] não entrar.

 

P2 - Uhum. E o que se você... É que ela se tornou viável.

 

R - Ah sim, não e a indústria é hoje seis vezes maior do que era naquela época, então...

 

P2 - E o senhor acha que...

 

R - A visão do pessoal lá era muito estreita.

 

P2 - E o senhor acha que agora, graças a Aracruz, o estado do Espírito Santo pôde se desenvolver? Se não existisse a Aracruz, como poderia estar o estado hoje? Será que teria o mesmo nível de desenvolvimento?

 

R - Não. Eu visitei a Aracruz [pela] primeira vez em junho de 78 e porque tem acontecido no Espírito Santo, nessa parte do Espírito Santo, durante os últimos 25 anos, é uma mudança completa. Realmente, não se podia imaginar como era. Eu me lembro quando Paraíba lá teve que passar a ponte que estava caindo de vez em quando, então essa barcaça lá que afundou. Tinha coisa que a gente só não pode imaginar hoje como era naquela época. Então eu acho que pela economia do Espírito Santo, eu me lembro o Espírito Santo tem crescido mais que o normal do Brasil, bem mais. Eu acho que tanto a Aracruz como também Tubarão têm tido bastante importância nisso.

 

P1 - A Vale do Rio Doce, a presença da Vale do Rio Doce, a própria Aracruz também.

 

R - Uhum. Mas, também, a situação política no Espírito Santo tem variado muito nos anos.

 

P1 - Agora, por exemplo, está em uma fase meio complicada, né?

 

R - É, foi ano passado, início deste ano, foi muito complicado.

 

R - Senhor Klaus, quando o senhor assumiu essa área comercial, quais foram as primeiras ações que o senhor tomou? Quais são as ações para alavancar os negócios que o senhor...

 

R - Primeiro, foi esta coisa de botar nossa fibra nos centros de pesquisa. Tanto de cliente como centro de pesquisa, vários lugares no mundo. E eu descobri, não sabia quando entrei, que o BNDES tinha feito como condição do financiamento que a Aracruz ia mandar quatro pessoas por ano para estudos fora do Brasil. Eu acho que isto foi muito importante para o desenvolvimento da empresa. Porque eu achei, de repente, o Ergílio Cláudio da Silva, que é o gerente de pesquisa e desenvolvimento, achei nos _______ nos Estados Unidos. ____________ é uma universidade que já tinha tido contatos anteriormente. Eu era envolvido numa associação de pesquisa com __________. Então eu botei a Aracruz nesta rede. Nós convidamos pessoas  de outras empresas de pesquisa para conferências aqui. Estas coisas, acho que foram realmente, as pesquisas que o Ergílio fez nos _________ no doutorado dele, foram muito importante para caracterização das fibras de eucalipto. E porque o eucalipto é bom para o papel. Então isto é uma coisa. Outra coisa era de tentar fazer o sistema de logística funcionar, com navios, embarques, tudo aquilo. Isto era precário, mas agora... Então eu fiquei muito envolvido nos assuntos de porto também. Portocel, porque, naquela [época], houve uma briga de quem iria dirigir Portocel, era a cidade de Espírito Santo estava para tomar conta disso e não sabia tomar conta, e fizeram como [que] Portocel seria uma pequena filial do Porto de Vitória. Isto com o tempo conseguimos mudar. Hoje é um dos portos mais eficientes do mundo, eu diria, o mais eficiente do mundo, para carga a carga etc. dos produtos florestais.

 

P1 - Nesta ação que o senhor iniciou de enviar a pasta para os laboratórios para serem analisadas, quais foram os retornos que o senhor teve? E em que tempo?

 

R - Isto já começou depois de dois meses. Foi muito, porque como eu sou técnico de papel, então eu conheço estas coisas do outro lado. Isto deu o contato com os clientes, onde você poderia falar com os diretores de fábricas deles, e pesquisas etc., não só como um comprador. E isto funcionou bem. Nós fomos, por exemplo, muito bem, os primeiros de haver pesquisa com Procter & Gamble e também com a Kimberly-Clark nos Estados Unidos, que eles não deixam nenhum outro ver. E este tipo de coisa, faço bom relacionamento.

 

P1 - Secreto e fechado.

 

R - Mas também arrumamos números de seminários com o cliente, sobre assuntos técnicos.

 

P1 - Porquê que o eucalipto é bom para o papel?

 

R - Há, tem várias razões, mas primeiro devo dizer que tem 600 ou 700 variedades de eucalipto, então vários eucaliptos são bem diferentes. Os eucaliptos que nós estamos trabalhando aqui, vem de eucaliptos grande e de iorofila, e de cruzamentos destes. Estas fibras têm um - isto é um pouco técnico, não? Você sabe da curva de distribuição? Em inglês se chama “bell curve”, isto é, você bota o tamanho da fibra sobre o número de fibras daquele tamanho. Então, o eucalipto tem uma curva muito concentrada, isso significa que têm sulcos finos e poucas fibras longas, e isto faz com que as fibras são, [sejam] muito semelhantes. Se você pega uma árvore dos Estados Unidos, outros, então tem muita variação de fibras naquela madeira, e isto faz... Primeiro, tem menos finos, significa que funciona melhor na máquina de papel, porque finos estão entupindo a tela e também os filtros e faz o teor [de] secagem, o teor de drenagem, etc. Então, por isto, você pode andar mais rápido usando, utilizando fibra de eucalipto. Outra coisa é que o número de fibra por peso, se você compara eucalipto com madeiras, os países nórdicos ou América do Norte, Canadá, o eucalipto tem bem mais números de fibras por grama. Eucalipto tem por volta de 20 milhões de fibras por grama, enquanto outro como a pinhos tem talvez quatro. Então a relação a outras fibras curtas, o eucalipto tem mais fibras. E isto faz com que o papel se forme melhor. Isto, para o papel [é] uma outra grande vantagem.

 

P2 - E senhor poderia descrever de uma forma breve - imagino que seja bastante complexa - como se dá o ciclo de produção do papel desde, né, do corte, enfim, da própria plantação até a entrega final?

 

R - E nosso caso, você começa com plantio de mudas escolhidas. Nós temos um sistema onde nós utilizamos 30 a 40 clones, fazemos isto em um sistema de xadrez para que não seja tudo igual e, depois, o ciclo de crescimento para colheita dessa árvore é, no Espírito Santo, sete anos. Na Bahia, onde tem mais chuva que no Espírito Santo, estamos indo para cinco anos de ciclo. Se eu falo de uma comparação, nossas florestas estão rendendo 43 metros cúbicos por hectare/ano. Mas se você vai nos países nórdicos, a média é mais quatro. Então a floresta aqui está muito mais. Você precisa de muito menos matéria para uma certa produção. Depois do corte, a árvore vai para [a] fábrica de celulose aqui, E nós estamos agora gradativamente indo para, descascando a árvore na floresta e é o tronco limpo que vai para a fábrica. E lá, o tronco está cortado em cavacos e, depois, estes cavacos, são cozidos por um licor e metade, tem um rendimento de metade que é fibra e o resto, 50%, vai no licor. Este licor se queima - é como o petróleo, dá energia para o processo. E com esta queima você recebe os químicos de volta, você usa estes químicos de novo. Então é um ciclo dentro da fábrica. E depois as fibras vão para, primeiro (desliquidificação?), um tratamento com oxigênio, depois com soda cáustica, depois com dióxido de cloro, em duas etapas, e depois você (seva?) e faz uma folha em fardos, e estes fardos é que estão sendo exportados. E em certas fábricas se faz papel diretamente da fibra da fábrica de celulose, mas no caso da Aracruz isto vai no mercado, no mundo inteiro - salvo Rússia, que Rússia não tem qualidade. Eu tenho vendido em quase todos os lugares, salvo Rússia.

 

P2 - E qual é a política da Aracruz para a questão ambiental? Eu vi que o senhor trabalha de...

 

R - Para a questão de?

 

P2 - Para a questão ambiental, para a questão da gestão ambiental.

 

P1 - Só complementando: a gente sabe que historicamente que, em função do Espírito Santo, a Aracruz teve uma série de problemas em relação a impacto ambiental. Mas nessa época específica, quando o senhor, estava-se pensando na questão [da] construção do porto, do porto que viria a dar, contribuir para o escoamento e tinha essa produção, aquisição dos 11 mil hectares depois da Companhia de Ferro e Aço de Vitória, você já tinham uma preocupação com o impacto ambiental?

 

R - Sim porque... Não, não, primeiro eu falo ainda do lado industrial, depois eu volto para o do florestal. No lado industrial, o processo que foi escolhido era baseado nos critérios da Suécia, Finlândia, de Canadá e Estados Unidos, para não ser questionado. Então o nosso processo industrial sempre tem sido muito avançado no sentido ambiental. Depois vamos voltar para a floresta. Lá tem várias questões, primeiro essa questão de ter reservas. Então, a Aracruz tem, um terço das terras são reservas. E nós fomos por certas ONGs acusados de ter tirado mata atlântica. Eu acho que isto pode ser [de] ter acontecido em alguns, mas eu acho que isto tem sido muito pouco. E também foi muito discutido os assuntos de índios, isto foi uma discussão já quando eu entrei na empresa. Eu acho que foi exatamente naquela, então, eu acho que foi em 79, que foi feito uma reserva para os índios de dois mil hectares lá perto de Aracruz.

 

P1 - Barra do Riacho?

 

R - Não [é] Barra do Riacho. Deste lado do coqueiral. E, Barra do Riacho é mais tarde. Depois houve novas discussões sobre índios e lá as questões, segundo do que eu me lembro, eram índios que não estavam ali antes do projeto, mas que entraram na área. Então acho que hoje nós temos, pessoalmente, três ou quatro tribos diferentes. E um deles entrou depois do projeto. Mas eu diria que, naquela época, esta questão que você levantou, não foi discutida - do que eu me lembro. Pode ter sido uma questão, mas eu não me lembro que isto foi discutido. E depois os assuntos dos índios, evidentemente, tem aumentado muito essa discussão nos últimos cinco anos. Então dois anos atrás foram feitos esses acordos, onde nós doamos mais terras para os índios e fizemos também um contrato com eles de ajudar eles de tomar conta desta floresta, mas que os retornos desta floresta vai para uma das tribos lá. Tem outros, vários projetos nos últimos três anos a respeito de índios. Tem, por exemplo, a Funai afundou, né? Então a Aracruz tem tomado muita responsabilidade de Funai. Por exemplo, nós temos agora, isto, no início era 20, agora acho que são 35 bolsas que nós estamos dando para os índios estudar depois do primário. É interessante esta questão, eu acho que é. Por exemplo, o Espírito Santo hoje, por volta de 40% da terra são pastos e o plantio de eucalipto são por volta de 2,5%, então eu acho que olhando tanto do ponto de vista do meio ambiente, como olhando do ponto de vista econômico, o plantio é muito mais, melhor para o estado do que uma arroba de boi [que] vale por volta de 17 dólares. E [se] você olhar as pastagens lá, dá uma arroba por hectare ou alguma coisa desse tipo. Nós temos começado nos anos 80 e 82 com esse programa de fomento florestal e, naquela época, houve muitas discussões sobre o fomento florestal. Também era dividido as opiniões dos agricultores sobre o plantio do eucalipto. E, depois, o sistema de fomento foi tão, tem sido desenvolvido e mudado. O sistema atual que a Aracruz tem começou em 1990, e o interessante, naquele, é que nós temos hoje 2600 pequenos proprietários de plantios no programa de fomento nosso. Mas o que é ainda mais interessante é que nós temos no fomento também 131 municípios, plantios com municípios, e isto significa que eles estão interessados nisso, não é uma coisa que nós estamos forçando, mas é uma coisa que eles estão querendo desenvolver. Eu acho que este desenvolvimento de fomento é cerca de 15% da madeira que vai para nossa indústria, vem de fomento. Nós estamos planejando para aumentar isso para 30%. Eu acho que isto faz uma integração com a sociedade que é muito importante. E isto são tipo de coisas que leva tempo, porque eu me lembro [que], no início, uma das, questionamento dos políticos das várias municipalidades era que o plantio de eucalipto dá emprego no plantio e depois, [por] sete anos, nada. Então, por isso eles estavam no pensamento contra plantio, porque pensavam que não dá emprego. Mas, [por] outro lado, quando você chega a um sistema que é rotativo, você tem emprego e o município tem ganhos, né? Então eu acho que a situação mudou muito nos últimos dez anos. Depois tem uma outra coisa, evidentemente a Aracruz nos anos 70 comprou muita terra e isto é uma coisa que muitas pessoas reagem contra alguém que está comprando muito. E acontece que duas semanas atrás eu estava em Portugal, e em Portugal a questão dos plantios era mais difícil do que aqui, mas os portugueses estão dizendo que agora esta distinção quase acabou. E acham que isto é porque a indústria lá não compra mais terra. Compraram muito nos anos 60 e 70, mas agora...

 

P1 - Mas nem tem mais terras também para comprar?

 

R - Eu acho que tem?

 

P1 - Portugal?

 

R - Portugal tem muita terra.

 

P2 - Braga, Alentejo, né, _________.

 

R - Tem muita terra, mas acontece que as florestas de Portugal são uma coisa engraçada, o tamanho médio de um proprietário florestal em Portugal é 13 hectares. O tamanho dos nossos plantios, no fomento, são 20 hectares. Então é muito diferente.

 

P1 - Voltando um pouco para a questão do...

 

R - Do meio ambiente, da floresta. Tem vários assuntos de meio ambiente em relação à floresta que são importantes, não só a reserva. Tem esta descrição sobre floresta de clones, eu tenho, nossa política tem sido de trocar clones o tempo inteiro para não ser a mesma coisa sempre. Outra coisa [que] nós temos feito, foi dito que a floresta seca a terra, por isto fizermos uma microbacia de metade floresta nativa e metade floresta plantada, um projeto que agora tem 11 anos. Isso foi conjunto com cinco universidades aqui no Brasil. E os resultados deste estudo mostram que o ciclo de água é igual dos plantios e da floresta nativa.  Uma outra coisa que é muito interessante que esse estudo tem mostrado, [é] que tem muita biodiversidade em floresta plantada. Tem muitos pássaros em floresta plantadas. Metade são iguais da floresta nativa, mas metade são pássaros que não vão na floresta nativa. Tem muita vida lá dentro.

 

P1 - É um ecossistema próprio.

 

R - É interessante.

 

P2 - Esse um terço de terras que o senhor, que a Aracruz mantém em reservas naturais...

 

R - Perdão?

 

P2 - Esse um terço das terras onde a Aracruz mantém as reservas naturais, vocês têm feito algum trabalho com a comunidade no sentido de educação ambiental, de levar a comunidade do entorno nessas reservas?

 

R - Oh, sim. A Aracruz tem um programa de educação ambiental com uma comunidade. Isto tem vários, essa é uma das coisas, isso tem sido parte desse programa sim. Também tem um mosteiro lá perto da Aracruz, que está liderado pelo filho do ________, que era o antigo, né?

 

P1 - Mosteiro?

 

R - Não, ninguém, como é, faltou a palavra...

 

P1 - Monge, pastor?

 

R - Não, não ele era, do município?

 

P1 e P2 - Prefeito?

 

R - O prefeito. Teve um prefeito no município de Aracruz, __________, que era uma pessoa muito interessante, mas ele faleceu dois anos atrás. E o filho dele é monge no mosteiro.

 

P1 - De Vargem Grande?

 

R - Uhum. E lá, fazemos cursos de meio ambiente, neste mosteiro. Em conjunto com este “zen” lá. E não, a respeito do meio ambiente, então temos educação tanto para os empregados, mas, isto é para todos os empregados [e] também para a comunidade, na escola.

 

P2 - O senhor foi uma das pessoas... Acredita que o senhor teve uma colaboração nesta, em transformar a empresa em uma empresa...

 

R - Sim. Não, porque tem uma coisa... E isto que é. O Lorentzen e eu também acreditamos muito em educação. Então a Aracruz, no início da fábrica, já antes, no florestal, [fez] um programa de educação, e também na fábrica. E agora, quando nós construímos a terceira, linha C, fizemos o maior programa de educação do Espírito Santo, onde teve 800 pessoas envolvidas. E isto era para aumentar o nível de conhecimento de carpinteiros, de pintores, de toda a comunidade para ter mais. Nós empregávamos destes 880, 80 conosco. Nós sabíamos que uns 300 entraram em outras firmas no Espírito Santo e que isto deu, foi em conjunto... Como se chama? Tem esse programa de...

 

P2 - Sebrae?

 

R - Não. SEMA! SEMA, não.

 

P2 - Um programa de capacitação. 

 

R - Tem um programa de educação...

 

P1 - Ambiental?

 

R - Não, que é, não só ambiental, mas..

 

P1 - Uhum, acho que é (SEEMA?).

 

R - (SEEMA?), sim. Isso tem sido um programa conjunto com eles. Eu acho que isto é muito interessante. E também, uma outra coisa, com a (demora?) que ele... Também, depois, eu me lembro quando iniciei na diretoria da Aracruz, uma das primeiras decisões na diretoria foi pagar os salários dos professores da escola municipal, porque não tinha sido pago por seis meses. E depois a Aracruz iniciou uma nova escola, que eu estou vendo [que] hoje é a melhor escola do Espírito Santo. Tem muitas pessoas de Vitória querendo ir para a escola da Aracruz. É interessante. 

 

P1 - É muito interessante mesmo.

 

R - Porque mostra, nós temos também um programa que eu acho ótimo que nós estamos arrumando um programa para educar professores.

 

P1 - De capacitação, de formação de professores.

 

R - Hum. Este programa é muito popular. Eu acho que a base de tudo é a educação.

 

P1 - Senhor Klaus, eu queria voltar um pouquinho na questão da construção do Portocel: o que é que o senhor... O senhor estava presente no terminal, quando foi criado o terminal de Barra do Riacho?

 

R - Porque naquela época o terminal era dominado pela Docas de Espírito Santo, então nós trabalhamos muito para depois nós podermos - não comprar a terra porque isso não era possível, mas, realmente, nós tomarmos conta do terminal. Eu empreguei um homem, que gosto muito dele, e ele tem feito um muito bom trabalho naquele terminal. Era; no início, as regras do Brasil eram regras estranhas, onde você não podia ter um estiva especializado, você não poderia ter porque as coisas dos portos no Brasil tem sido muito políticas, né, Mário Covas e outros. Mas isso conseguimos finalmente lá, fazer isso profissionalizado. Agora está funcionando muito melhor, foram muitas discussões para chegar lá.

 

P1 - Para a construção do terminal?

 

R - Então hoje, a eficiência, o custo é a nível internacional. Naquela época; hoje o custo é um dólar e pouco, naquela época era sete.

 

P1 - E que é que trouxe de facilidades ou desenvolvimento, a construção do terminal? O que é que alterou o cotidiano da Aracruz?

 

R - Era para poder carregar navio mais rápido, para ter o escoamento nos navios, isso é muito importante. [O] que se faz com [que] os navegadores, porque para eles ter navio parado, é o maior custo que eles têm. E não se você pode... Agora trabalhamos dia e noite. Isto não era possível no início, coisas desse tipo.

 

P1 - Durante a sua gestão como diretor comercial, quais foram os contratos mais importantes que vocês fecharam?

 

R - O contrato mais importante foi um contrato com a Procter & Gamble, nos Estados Unidos. Ia para entre 230 e 25% da nossa produção. E eles ainda hoje são muito, grandes compradores. Mas agora temos concorrentes deles que também, a Kimberly-Clark, eu acho que é essa coisa de abrir o mercado nos Estados Unidos e ir fazendo contratos a longo prazo. Eu acho que essas duas coisas mais importantes...

 

P1 - Bom, a Aracruz, hoje, ela contribuiu para autossuficiência do Brasil em celulose, né? 

 

R - Ah é, nós estamos só vendendo 6, 7% no mercado nacional; 92, 93% são exportados pelo mundo inteiro. No início, era 30% no mercado nacional.

 

P1 - Mas por que é que isso reduziu?

 

R - Não, porque os compradores de celulose no Brasil são mais aqui no sul, São Paulo - mais no sul, não tem ninguém -, são 1000 km da Aracruz.

 

P2 - Qual era o principal diferencial da Aracruz em relação à concorrência? O que é que o senhor destacaria como diferencial?

 

R - Competitividade da floresta, o alto rendimento da floresta. E depois, eficiência na fábrica, o tamanho da fábrica. O que tem sido muito importante é a combinação pesquisa com o processo da fábrica, e com nós com eles. E, agora, a Aracruz é o maior produtor, isso também tem importância.

 

P1 - Mas, no Brasil, não existe uma concorrência, que seja uma concorrência?

 

R - Tem a Cenibra (Celulose Nipo-Brasileira S.A.) que é grande, mas ela, menos. Pertence ao um grupo, consórcio japonês. Maior parte da produção deles vai para o Japão. Tem a Bahia Sol, mas Bahia Sol é dois terços papel, e eu acho que a Bahia Sol vai botar mais uma máquina de papel. E agora tem a Veracel que está sendo construída e que vai ser outra vez a maior linha do mundo, para 900 mil toneladas [ao] ano - eu acho que daqui cinco ano isto vai ser dobrado.

 

P1 - Quem hoje se encontra no controle acionário da Aracruz?

 

R - Ah, isto são os três, ainda o BNDES tem 9, 10% e os outros três principais acionistas são o Grupo Lorentzen, a Votorantim e o (Trust?) Safra. Iguais os três

 

P1 - Há o Safra também está?

 

R - Uhum.

 

P1 - Senhor Klaus...

 

R - Os dois é sempre uma questão, um dia talvez vão vender.

 

P1 - É. São investidores, né?

 

R - É, porque, naquela época, evidentemente era, no início era a Astora, o 

 _____, que estava com 10, 12%, era o BNDES - muito maior - com 40%, naquela época, e Souza Cruz com 30%

 

P1 - Tanto que sempre tem um executivo do BNDES na direção. Agora tem o Isaac Zagury, né, que era vice-presidente do BNDES.

 

R - Sim. Agora tem tido o Armando Vieira Neto que era muito ligado ao presidente do BNDES naquela época.

 

P1 - Se o senhor fosse elencar em uma lista quais os marcos da história da Aracruz, os pontos mais importantes, quais que o senhor colocaria?

 

R - Eu acho que a floresta e o desenvolvimento florestal. Isto primeiro. Segundo, quando foi esta, este sucesso de arrancada da fábrica de maior linha do mundo com grande sucesso. E agora, que não se fala muito aqui, mas o que eu acho que foi fantástico também, a linha C que foi gerada ano passado. Era início de agosto... Arrancou 15 de maio [e] já em outubro estava a produção plena. Isto é recorde mundial, projeto iniciar-se funcionando. Esta linha, já hoje, está 10% acima do planejado. Então eu acho que, o nosso presidente, Carlos Aguiar é um engenheiro muito capaz. Ele tem uma equipe de engenheiros de fábrica muito bons. Eu posso comentar porque eu fui, três semanas atrás na Suécia, eu fui convidado para fazer uma apresentação sobre Brasil e sobre Aracruz para a minha antiga universidade, e depois houve uma discussão muito interessante, porque eles falaram que tanto nos países, como, Canadá, eles estão diminuindo pesquisa florestal, porque não está dando resultados. E segunda coisa, falaram que a pesquisa sobres produção de pasta também está sendo eliminada, porque não estão planejando expansões, não tem matéria-prima, e disseram que hoje em dia se alguém quer falar sobre tecnologia para a produção de pasta, tem que falar com o Brasil e com Chile. Interessante.

 

P1 - Poxa!

 

R - Mostra como as coisas mudaram. Porque quando a Aracruz foi construída nos anos 70, procurou-se os conhecimentos em outros lugares.

 

P1 - É sinal que o desenvolvimento foi positivo.

 

R - Foi um ciclo total, muito interessante. Também tem uma outra coisa: aquele programa que o BNDES insistiu que a Aracruz de mandar pessoas para outros países para educação, isso fez com que várias pessoas da Aracruz trabalham em outras empresas

 

P1 - Sim.

 

R - Tem uma média assim.

 

P1 - É uma das contrapartidas, né, da instituição. 

 

R - O diretor técnico da Bahia Sul vem da Aracruz; (Demont?), da África do Sul, vem da Aracruz etc.

 

P1 - Onde tem o dinheiro, tem que ter a vigilância. Dinheiro do governo. Hoje os principais clientes da Aracruz, a VCP é um, a VCP Papel é um cliente grande nacional, e porque também está ligada ao Grupo Votorantim? Quais são os principais clientes?

 

R - Não, não, porque o VCP eles têm também 600 mil toneladas de pasta no mercado. Então não estamos fornecendo nada para eles.

 

P1 - Não?

 

R - Não.

 

P1 - Seria uma concorrência?

 

R - Isto é uma situação complicada, porque para isto não se pode dizer tudo no conselho, né?

 

P1 - Isso eu não sabia.  

 

R - Mas isto é uma complicação. E até Safra tem certas questões dizendo que tem que ver realmente a situação legal disto.

 

P1 - Porque senão você já virar domínio do mercado.

 

R - É complicado. Nós temos essa empresas nos Estados Unidos que são os  maiores clientes, mas também muitos grandes clientes na Europa, empresas europeias. Tanto, principalmente, finlandesas, mas também empresas na Alemanha - não várias. A nossa estrutura de venda é Estados Unidos entre 35 e 40%; Europa também, 35, 40%; o resto do mundo 10%; e o Brasil 9, 8%. Varia um pouco durante os anos.

 

P1 - Senhor Klaus...

 

R - Eu acho que isto é uma outra coisa que eu sempre falei, isso é um “head” de divisas. Se você vende a duas áreas baseadas em divisas diferentes...

 

P1 - Essa fábrica que foi adquirida agora no sul, qual que é, ela é estratégica?

 

R - Não, é pelo seguinte: é que o Klabin, era necessário para [o] Klabin vender. O grupo Klabin não estava pagando as dívidas deles. Esta fábrica era rentável, houve uma discussão da Aracruz [de] comprar aquela fábrica já em 84, 85, porque o mercado deles é complementar ao mercado da Aracruz. Naquela época, chegamos à conclusão que era melhor expandir na Aracruz do que comprar, então foi Klabin que comprou. É uma coisa estranha que não se fala muito, mas aquela fábrica tem uma pequena máquina de papel, faz 25 mil toneladas de papel que quase só vale no mercado nacional. Evidentemente, eles são mais perto do mercado consumidor no Brasil. Nós estudávamos quando da penúltima expansão da Aracruz de fazer papel na Aracruz. Chegamos a conclusão que se fizermos papel lá, a maioria teria que ser exportado, porque a Aracruz é muito longe do mercado nacional. Porque o centro do mercado nacional é quase ao sul de São Paulo. Outra coisa, quando você faz papel tem, que planejar como (sevai?) a máquina de papel. O tempo de pedidos em carteira então é muito importante para você poder planejar. Como se nós exportaremos papel para a Europa? Só o tempo de transporte são duas semanas. Perdemos contra outros produtores lá, a competitividade, então concentramos sobre celulose.

 

P1 - Na opção do senhor, na opinião não, na sua vivência Aracruz, qual foi o momento mais marcante da história em que o senhor esteve participando?

 

R - Olha eu acho que foi essa coisa de contrato com Procter & Gamble. Foi realmente um grande contrato naquela época, e isto ajudou para firmar a base no mercado, para fazer a segunda linha. Mas tem outras coisas que não falamos, isto é, Aracruz e Lorentzen, nós fomos bastante ativos em, [na] conferência do Rio, em 92.

 

P2 - Na Eco 92?

 

R - É, lá participamos. O Stefan (Schimidstein?), da Suíça, ele convidou o Lorentzen e Eliseu Batista de ser os primeiros de fazer um conselho mundial de desenvolvimento, e isto tem crescido. Agora eu fui para uma conferência com a, que duas semanas atrás... Agora tem 171 empresas naquele conselho mundial. É muito ativo em muitas questões. Questões climáticas e também questões a respeito “corporate responsibility”. E nós temos lá, naquele conselho, também, um grupo de trabalho sobre políticas florestais. Eu estou indo agora para Porto Seguro porque, não sei se o Lorentzen falou sobre o Instituto Bioatlântica (IBIO)? Ele não falou?

 

P1 - Não, a entrevista dele parou porque era muita coisa.

 

R - Uhum. Porque o Lorentzen tem trabalhado já há uns sete anos para criar um instituto de meio-ambiente no Espírito Santo, e finalmente foi criado ano passado.

 

P1 - Sim, com a participação de pessoas do meio-ambiente, cientistas.

 

R - E este instituto foi financiado por Petrobras, Aracruz e vários, mais a “Conservation Internacional”, de Estados Unidos, que é uma grande ONG do meio ambiente. E nós vamos ter nos próximos três dias um seminário em, como chama? Cabrálias? Ao norte?

 

P1 - Cabrália.

 

R - Sobre biodiversidade e proteção de reservas. Lá, vai vir pessoas do mundo inteiro para discutir isto. Nós vamos também visitar plantios de Veracel e reservas. Isto é para tentar, é um diálogo onde participam pessoas de ONGs, de Banco Mundial, de vários, e de empresas. Isto é para discutir os princípios, quais são os princípios importantes para proteger o que resta de biodiversidade.

 

P2 - Isso vem de encontro às discussões sobre reserva de carbono, dentro dessa _________ internacionais, né?

 

R - Isto também está lá dentro, mas não só. O “Conservation International” pediu e Ibio (Instituto BioAtlântica) aqui no Brasil de coordenar esta conferência, e isto é porque Ibio tem dois projetos que cabem nesta: um projeto é de como proteger reservas que existem; outro projeto é de como criar corredores entre as reservas que existem, para melhorar a vida de...

 

P2 - O bioma, né?

 

R - Isto lá dentro. Uma das bases, essas são assuntos de crédito de carbono, para tentar de financiar isto - isso está ligado.

 

P1 - Que mais o senhor acha que extremamente importante ficar registrado a respeito da história da Aracruz?

 

R - Evidentemente... Tem uma coisa que eu não tenho mencionado, isto é, que a BillerudKorsnäs era sócia no início com Aracruz.

 

P1 - Quem?

 

R - Uma empresa Sueca, BillerudKorsnäs. Eles eram “technical advances”,  porque já tinham uma fábrica em Portugal que fazia pasta de eucalipto. Então foram feitos ensaios lá, e também a Aracruz empregou, ou no projeto, engenheiros de lá.

 

P1 - E por que saíram?

 

R - É uma questão interessante, porque eles chegaram, aquela empresa BillerudKorsnäs foi convidada a aumentar a participação para 20%, isto foi em 78, 77, mas a empresa era mal, então não tinha dinheiro pra aumentar a participação deles. E depois, a empresa BillerudKorsnäs foi comprada pela empresa Astora, cinco anos mais tarde. E o presidente da Astora achou que uma participação de 12% era pequena demais, então ele disse: ”Quero ter 25%, não 12%. Então se vocês vendem para Souza Cruz, Lorentzen, eu vou ficar”, mas eles não queriam vender. Então ele disse: “Então eu vendo”, ele vendeu 4% para cada um destes casos [e] eles aumentaram a participação de 24% para 28%. E agora, depois, Astora foi fusionada com a empresa finlandesa (Aswer?) - chama agora (Astora-Aswer?). Então isto, agora é parceiro da Veracel. Astora chegou lá, mas de uma outra maneira.

 

P1 - De um outro jeito. senhor Klaus, qual, na opinião do senhor, que é a importância da Aracruz para o Brasil?

 

R - Eu acho que para o Brasil, o fato da, Aracruz significa no balanço comercial 1 bilhão de dólares por anos agora, que é muito importante para o Brasil. Eu acho também que se você falar com a indústria internacionalmente, acho que a Aracruz tem uma reputação lá fora [que é] boa para o país.

 

P1 - Além de estar fomentando, tem a questão financeira, mas tem o fomento para o estudo do meio ambiente de novas tecnologias.

 

R - Sim, a Aracruz faz inúmeras outras coisas também, que não dá para, nessa altura...

 

P2 - A senhor acha que é uma empresa que exporta “expertise”? Também exporta “know how” - como o senhor diz?

 

R - Eu acho que vai, no futuro vai fazer isso sim. Acho que este fluxo mudou.

 

P1 - E para o senhor, o que é que a Aracruz representa na sua história, na sua vida? 

 

[Pausa]

 

P1 - O senhor sofreu bastante para se adaptar à língua, as reuniões?

 

R - Sim, porque a minha primeira língua, depois do sueco, era francês, então ainda é uma língua que conheço bem.

 

P1 - Que é que representa a Aracruz para o senhor, na sua trajetória profissional?

 

R - Para mim representa que eu tenho vivido uma coisa no início até, realmente, uma coisa bem sucedida. Isto é em janeiro, eu tenho trabalhado para a Aracruz [há] 25 anos. Eu nunca trabalhei tanto tempo para nenhuma empresa. E também eu acho também que eu gosto muito do Brasil, tenho muitos amigos aqui, então.

 

P1 - E como que é hoje o cotidiano do senhor? O senhor faz exatamente o que para a Aracruz, é um consultor, tem uma atividade regular?

 

R - Eu tenho um contrato de cinco dias por mês, mas na média virá dez dias por mês. Isto em relação assuntos de meio ambiente, política florestal, mas também sobra e a estrutura da indústria mundialmente, porque eu tenho muitos contatos em vários lugares. Especificamente para Lorentzen, Carlos Aguiar e Carlos Alberto Rocha.

 

P1 - E o senhor tem um “hobby”? Além de trabalhar, o senhor tem alguma atividade extraprofissional que goste de fazer?

 

R - Tenho. Não, não, eu tenho, eu sou muito interessado de política no mundo. Eu leio muito sobre isso, estou tentando entender o que vai acontecer. Pode acontecer muitas coisas ruins nos próximos anos, porque tem vários problemas mundiais. Por exemplo, eu acho que daqui, depois [de alguns] anos, a China vai ter 300 milhões de desempregados, e [é] por isto que a China puxa tanto de ficar na mesma cotação do dólar, que os americanos não gostam. Estados Unidos tem um buraco no ________ deles e isso vai acontecer alguma... Estou muito interessado. E também, a Europa está tentando se desinformar. Tem problemas políticos lá. É interessante.

 

P1 - E o Brasil, que é que o senhor acha do Brasil?

 

R - Eu acho que o Brasil tem um potencial enorme, mas tem muitos problemas também. Eu acho que a educação no Brasil está demais nas universidades [e] não suficiente para o público em geral. Isto [é] uma [das] coisas. Outra coisa, eu acho que o fato do Lula ter sido eleito poderia ser uma coisa boa para o Brasil, mudar o pensamento. Do outro lado, ele tem uma situação difícil, ele foi eleito apoiado pelo MST, vários grupos muito radicais. Então eu estou muito curioso para ver nos próximos doze meses como ele vai equilibrar [a] política dele. E também não entendo porque ele vai para Castro, em Cuba, mas isto talvez também seja uma questão [da] ala esquerdista do PT. Mas, às vezes, um político tem que fazer coisas que são mais, digamos, teatro, do que realidade.

 

P1 - Muitos estão dizendo que ele está mais à direita que o próprio Fernando Henrique Cardoso.

 

R - É possível. Mas então, evidentemente, tem muitos problemas com... Um dos problemas que eu vejo para o Brasil é a falta de capital e financiamento a longo prazo. Porque a construção de casas é tudo financiamento estatal, não tem um mercado como tem outros países, para ______ etc. Isto tem que acontecer para pessoas pouparem e criarem coisas a longo prazo. Para a indústria, [a] maior fonte de financiamento é BNDES. Isto também é política estatal. Eu digo que entre vários bancos de fomentos, eu acho que o BNDES tem sido muito melhor que os outros. Eu não tenho muito respeito para o Banco Mundial não.

 

P1 - O BNDES tem um papel importantíssimo nos últimos 50 anos no Brasil, no desenvolvimento de várias indústrias e setores.

 

R - Então, mas estes, um grande problema é [as] drogas, é crescente.

 

P1 - Consequência da violência.

 

R - Uhum. Estou ligado.

 

P1 - Além desse “hobby” de estudar política, o senhor tem algum autor ou alguma leitura que o senhor goste demais? Lê Eric Hobsbawn, como que é esse estudo? Ou é só jornal?

 

R - Não, não. Se você vem na minha casa, eu tenho quase de tudo.

 

P1 - Tudo?

 

R - Uhum. Tem muita literatura sobre jardins, me interessa.

 

P1 - Jardins?

 

R - Jardins. Eu gosto de ir para jardins botânicos do mundo para ver plantas que eu não tenho visto antes.

 

P1 - O senhor conhece o Jardim Botânico de São Paulo?

 

R - Não. 

 

P1 - Foi restaurado. Vale a pena, é um bom passeio.

 

R - Não conheço, não. No Rio, eu conheço bem, mas aqui não.

 

P2 - O senhor acha que essa paixão, pode, deve-se ao fato de ter morado talvez no Brasil, de ter conhecido a fauna?

 

R - Assim; sim, isto também. Mas é engraçado, porque, na minha época, na escola primária na Suécia, isso por causa do Lineus, o estudo de plantas sempre foi muito importante no currículo na escola da Suécia. E hoje em dia isto desapareceu, os netos não sabem nada. É estranho.

 

P2 - É uma perda, né, uma perda para gerações futuras.

 

R - Uhum.

 

P1 - Quais são os sonhos que senhor...

 

R - Perdão?

 

P1 - Os sonhos que o senhor tenha, os desejos ainda a serem realizados?

 

R - Que estamos muito... Baseado que as netinhas e o neto teriam um futuro bom e seguro. Isto eu acho muito importante.

 

P1 - O senhor está trabalhando para isso, não é?

 

P1 - Senhor Klaus, o que é que o senhor acha desse trabalho da Aracruz de estar recuperando a sua história, de estar tentando preservar a memória?

 

R - Acontece que eu sempre pensei que era importante fazer isto, porque a história é diferente de outras, e isso aí é relativamente recente também. Mas daqui cinco anos, as pessoas não vão estar mais lá. Então eu acho que o momento é muito oportuno agora; Teve um sueco que era da BillerudKorsnäs, que era do conselho da Aracruz, que ele queria escrever um livro sobre a Aracruz. Me perguntou se eu iria participar com ele sobre isto, eu disse: “Se você faz, eu participo, mas eu não acho que é bom você escrever um livro, porque eu acho que é uma empresa brasileira, então que isto tem que ser feito por pessoas no Brasil”.

 

P1 - O senhor gostou de conversar com a gente, de contar a sua história?

 

R - Ah sim, muito. Você tem o meu cartão?

 

P1 - Eu vou lhe dar...

 

R - Não, fica com ele.

 

P1 - Não, eu vou lhe dar o meu.

 

R - Ah, sim.

 

P1 - Eu queria agradecer em nome da Aracruz e do Museu do a Pessoa a sua presença aqui hoje.

 

R - Muito obrigado.

 

[Fim do depoimento]

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