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História

Um sonho de educação

História de: Lucinei Maria Bergami
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

Sinopse

Nesta entrevista Lucinei nos conta sobre sua infância e educação nos municípios de Cachoeiro do Itapemirim e Colatina, Espírito Santo. Filha caçula entre sete irmãos, passou sua infância ajudando os pais na lavoura e perseguindo o sonho de conseguir estudar e ter uma profissão. Através de um curso de magistério de três anos, Lucinei começou dar aulas em uma escola rural. Depois de se casar e ter o primeiro filho, começou sua faculdade de Letras, Português - Francês, concluída em 1984. Seguiu sua carreira de professora pelo Estado e pelo Município passando pela educação infantil e fundamental. Casou-se novamente e ganhou sua segunda filha.

E por meio do convite da Secretária de Assistência Social, Júlia Deptulski, Lucinei foi trabalhar com o projeto AABB Comunidade, que atende 80 crianças e adolescentes com atividades educativas complementares, como computação, música, esporte, saúde e higiene. Através do projeto Lucinei conheceu os programas da Fundação Banco do Brasil e passou a coordenar todas as atividades do AABB Comunidade.

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História completa

P/1 – Lucinei, bom dia.

R – Bom dia.

P/1 – Obrigada por estar participando da entrevista, né? Ter vindo até aqui.

R – Eu é que agradeço.

P/1 – Lucinei, qual o seu nome completo e o local e a data de nascimento?

R – Lucinei Maria Bérgami, eu nasci em 19 do 9 de 65, em Domingos Martins.

P/1 – Espírito Santo?

R – Espírito Santo.

P/1 – Ah! Qual o nome dos seus pais?

R – Anacleto Bérgami e Antonieta Gagno Bérgami.

P/1 – Lucinei, qual era a atividade profissional deles?

R – Eles eram lavradores.

P/1 – Todos dois?

R – Todos dois, ela trabalhava em casa, né, trabalhadora do lar e também da lavoura.

P/1 – Esse nome Bérgami, tem uma origem, assim,a família de vocês? Assim, italiano, você sabe?

R – É, nós somos descendentes de italianos, né?

P/1 – E vocês têm essa... essa trajetória familiar de vocês, assim, essa consciência?

R – A questão da cultura italiana, é isso que você quer saber?

P/1 – É, assim, é do avô, quem é assim que é italiano?

R – É o avô, os avós eram italianos, isso.

P/1 – Ah, tá. Você sabe de qual região, assim?

R – Não, não saberia te informar.

P/1 – E, você tem irmãos?

R – Oito, é, minto, perdão, sete, nós somos em oito, né, um já falecido, tá, e os demais.

P/1 – Você gostaria de registrar o nome deles?

R – Sim.

P/1 – Pode falar.

R – É Hamilton Bérgami, é Alzira Bérgami, o falecido é Antonio José Bérgami, Armindo José Bérgami, Valentim José Bérgami, Penha das Graças Bérgami, Vera Lúcia Bérgami e eu, Lucinei Maria Bérgami.

P/1 – Você é a mais nova?

R – Sou a mais nova, a caçula.

P/1 – Ah! E como que foi a infância, assim, lá em Domingos Martins?

R – É, na verdade eu não, eu nasci em Domingos Martins apenas, mas com três meses de idade nós nos mudamos pra Cachoeiro do Itapemirim, né, pra Soturno, onde eu, nós moramos até a minha idade dos sete anos e fomos, nos mudamos pro Espírito Santo, pra Colatina onde, né, nós, a família permaneceu. Então, eu não tenho, assim, muita, muita lembrança da minha infância lá em Cachoeiro, não, muito vagamente algumas lembranças. Eu recordo bem da minha infância já no Espírito Santo, né, que quando nós mudamos pra lá eu tinha na faixa de uns sete anos mais ou menos.

P/1 – E como que foi a sua infância lá?

R – Ah, foi uma infância bem legal, né, não que a gente não tivesse problemas familiares, a gente tinha problemas familiares, né, uma vida com dificuldade, porque o meu pai, ele não era proprietário, ele era meeiro, né, trabalho duro, trabalho da lavoura, mas eu cresci em contato com a terra, né, em contato com o verde e eu tive oportunidade de brincar, né, brinquei muito de boneca eu e a minha irmã, acima de mim brincava de boneca e subia nas árvores e mexia com a terra, ajudávamos também, né, dentro do possível, porque os irmãos trabalhavam na lavoura, o meu pai e a minha mãe já, né, com uma certa idade já não tinham tanta força pra trabalhar na lavoura, mas os irmãos trabalhavam e a gente fazia, né, o trabalho que a gente podia fazer pra ajudar, né, levar o almoço na roça, levar o café pra roça, ajudava a plantar o milho, ajudava a plantar um feijão, né, limpava o terreiro, essas coisinhas assim, né, ajudava a cuidar da casa e nesse, nesse meio tempo, nesse leva almoço e retorna era as brincadeiras, né, bem saudáveis, muito saudáveis.

P/1 – E como que foi a escola, assim, vocês chegaram a estudar por lá, como que era isso trabalhando e na lavoura ajudando os pais vocês estudaram por lá?

R – É, eu recordo que eu comecei a estudar em Soturno, eu recordo da escolinha, se foi a imagem que eu consegui guardar, né, mas eu acredito não ter ido muitas vezes à escola, eu penso que eu comecei lá, então, a minha família se mudou, então eu parei. E eu acredito que naquele ano, eu não recordo, mas eu devo ter ficado parada, porque a nossa casa ficava há três quilômetros do patrimônio onde tinha a escola e eu como era pequena, não tinha como ir sozinha porque era perigoso, né? Então, eu acredito que aquele ano eu não estudei e no ano seguinte, então, tinha uma família, naquela localidade, né, que me acolheu, onde eu, eu ficava a semana fora de casa, eu ficava na casa daquela família pra eu poder estudar e nos finais de semana a minha mãe ia me buscar e me leva lá pra casa.

P/1 – Isso era em qual cidade?

R – Era em Paú, Graça Aranha.

P/1 – Ah, tá. E os seus irmãos, ficaram lá na lavoura? Você foi estudar, você foi a única que estudou, assim, que saiu?

R – [pausa]

P/1 – Quer parar um pouquinho? Vamos parar. Continuando, então.

R – É, na verdade, os meus irmãos, eles não tiveram muita oportunidade de estudar, né? Dos oito eu fui a única que conseguiu concluir um curso superior e mais, é, os dois acima de mim conseguiram concluir o Ensino Médio, até porque, como eu disse, a gente, nós morávamos longe da escola e durante a época que eu estudei de primeira a quarta série, né, eu ficava na casa dessa família que me acolheu e depois pra eu terminar, né, o Ensino Fundamental, a minha irmã e o meu irmão acima de mim, eles retornaram pra escola pra poder então me acompanhar pra que eu não precisasse mais ficar fora, né, pra que eu pudesse, aí, a gente ia e voltava todos os dias, né. Teve um período em que eu e a minha irmã, nós íamos quando nós passamos a estudar à noite, a gente ficava durante o dia em casa, a gente ajudava em casa, né, ajudava na lavoura quando necessário, à noite nós íamos, estudávamos, dormia na casa de uma senhora e pela manhã nós retornávamos pra casa.

P/1 – Qual era o nome da cidade?

R – É um patrimoniozinho, né, é Paú de Graça Aranha.

P/1 – Ah, tá, e você fez o Ensino Médio de lá, Lucinei?

R – Isso, eu estudei o Ensino Médio lá.

P/1 – Até o Ensino Médio você estudava à noite?

R – Isso.

P/1 – Como era estudar à noite e ter que trabalhar também na lavoura, como que era esse cotidiano?

R – É, é, era cansativo, né, mas a gente, nós gostávamos é porque, né, é uma idade em que, que, eu acredito, a gente conduz legal, né, essa questão, porque o trabalho também não era um trabalho pesado, nós não éramos explorados no trabalho, nós colaborávamos, né, então, “qué dizê”, porque os nossos pais, eles sempre tiveram a preocupação que a gente estudasse, então, eles sabiam da necessidade de nós estudarmos, né, então, nós ajudávamos, mas nós tínhamos também o tempo do estudo, então, era agradável, era penoso em determinadas situações, porque quando chovia nós tínhamos dificuldade porque nós íamos de bicicleta, aí, eram três quilômetros, um e meio subindo, um e meio descendo, né? Então, pra subir a bicicleta não, não andava e enchia de barro, aí, nós tínhamos que, às vezes, carregar a bicicleta, essas coisas, né, que, mas nós procurávamos tornar aqueles momentos, é, é, tranqüilos e eu me lembro com alegria e com saudade.

P/1 – Legal. Lucinei, e depois da escola, você ficou, você continuou a estudar, você foi trabalhar, como que foi isso?

R – É, eu não podia parar, né, porque eu penso que é próprio da minha personalidade, parar jamais, né, só quando Deus quiser, achar que tiver na hora. Então, eu queria continuar e, assim, era difícil continuar, porque nós morávamos no Interior e, na época, o magistério só tinha na cidade, onde eu moro hoje, mas a minha irmã, a nossa mãezona, né, ela se casou, foi morar na cidade e me deu a oportunidade de continuar estudando, né? Foi onde eu saí da roça, do Interior e fui pra cidade, aí, estudei três anos, formei professora, né, então começou a minha trajetória profissional como educadora.

P/2 – Você já tinha quando criança o sonho de ter alguma profissão?

R – Ah, eu sempre fui muito sonhadora, eu sempre fui muito sonhadora, eu recordo que eu ficava, às vezes, porque tinha os momentos, né, que a gente não tinha muito o quê fazer, quando chovia principalmente, né, em determinadas situações não dava pra plantar, não dava pra sair de dentro de casa, então, nós ficávamos todos dentro de casa e, aí, eu recordo que eu ficava deitada e eu ficava sonhando que eu ia estudar, que eu ia crescer, que eu ia ter uma profissão, né, aí, às vezes, eu brinco muito, eu falo que hoje eu sou exatamente o que eu sonhei quando menina, eu brinco que eu só esqueci de sonhar que eu era rica, né, uma brincadeira que eu faço, mas, assim, não reclamando, eu sou, eu sou muito grata a Deus, né, pelo que eu conquistei.

P/2 – Durante o magistério, curso de magistério, você teve alguma professora marcante, alguma, alguém que você se recorde?

R – Ah, eu recordo assim, eu recordo de uma professora, não que eu tenha esquecido os demais, mas uma especial que eu lembro o primeiro dia que ela entrou na sala de aula e ela entrou cantando, né, no momento, agora, é, fugiu o nome dela, mas eu tenho a imagem dela, ela entrou cantando, ela entrou com um violão, ela entrou cantando e, nossa, aquilo foi, foi muito lindo sabe e aí eu acho que eu comecei a perceber, né, o diferencial da educação prazerosa, né, como a gente pode tornar a educação mais prazerosa através da música, através do esporte, do teatro, da dança. Eu recordo com bastante carinho daquele momento, em que aquela minha professora entrou com aquele violão cantando e alegrando, uma lembrança gostosa que eu guardo.

P/1 – Lucinei, então, depois do magistério você já foi dar aula? Como que aconteceu?

R – Já, porque veja só, se eu dissesse que eu sonhei em ser professora quando menina, eu não sonhei em ser professora exatamente, né, eu desejava estudar, eu queria, eu queria uma profissão, até porque eu queria muito ajudar a minha família, né, até porque a gente convivia com a dificuldade do dia a dia, né? Então, eu queria, eu tinha o sonho de, de crescer, de estudar, me tornar uma profissional, de ter uma renda legal pra eu poder ajudar meus pais e, agora, a profissão de professora era o que eu conseguiria com mais rapidez um retorno, né, porque, eu lembro inclusive, eu até recordo a fala da minha irmã, ela convencendo meu pai a me deixar estudar, né, eu lembro que ela falava assim “Ô pai, olha só, ela vai morar comigo, ela estuda três anos, depois ela já se forma professora, ela já pode trabalhar e começar a receber um salário”. Então, “qué dizê”, não que eu não goste, eu amo o que eu faço, mas foi assim, o caminho que eu encontrei naquela, naquela época da minha vida, né, mas permaneci e permaneci por que? Porque eu aprendi a amar, né.

P/1 – E onde você deu aula, Lucinei, você lembra a primeira escola que você?

R – A primeira escola foi em Aldo Moacir, Governador Lindenberg.

P/1 – E como que foi, assim, o primeiro dia de aula, você lembra?

R – É, o primeiro dia exatamente eu não vou dizer que eu recordo, mas eu recordo de momentos, né, tudo novidade, porque o quê que acontece? Nós percebemos, né, conforme nós vamos evoluindo que a escola não nos prepara pra vida, né, ela, então quando eu fui dar aula, mas eu não tinha muita noção de como eu ia ter fazer isso. Por mais que eu tivesse aprendido, por mais que eu tivesse é, é, tido, né, ensinamento relacionado à didática, confeccionar material. Agora, o relacionamento interpessoal, aquilo que é indispensável, no relacionamento, né, educador – educando, aquilo eu não tinha noção do que era e foi um aprendizado, mas eu acredito que eu não devo ter traumatizado muito meus alunos, não.  Eu aprendi com eles, eu acredito que muito mais eles me ensinaram do que eu a eles.

P/1 – Legal. Você ficou muito tempo nessa escola?

R – Por três anos. Eu trabalhava com duas séries, né, porque era a escola muito seriada, né, então eu trabalhava com duas séries e a outra professora trabalhava com duas.

P/2 – Lucinei, você começou estudando numa escola rural.

R – Sim.

P/2 – E começou depois dando aula numa escola rural.

R – Sim.

P/2 – Você sentiu alguma identidade quando você voltou, você se reconheceu naqueles alunos, como que, você teve algum sentimento nesse sentido?

R – Ah, eu não saberia te responder com certeza, não, até porque eu recordar de um sentimento que eu tive, né, há quase, quase 20 anos é meio complexo. Não saberia te dizer se eu consegui, é, relacionar a minha, a minha infância na escola rural com o meu trabalho na escola rural. Com certeza identificação houve, mesmo que a gente não recorde, mas, sem dúvida, porque é história, né, história de vida da gente. Sem dúvida a identificação acontece mesmo que a gente não consiga recordar com o passar do tempo.

P/2 – Mas a questão estrutural, assim, as condições que a sua escola tinha quando você estudava e as condições da escola quando você foi dar aula depois?

R – Ah, tá, porque, é, é, quando eu estudei tinha aquela situação, né, do recreio, as brincadeiras de roda, né, o preparo da merenda. Quando eu comecei a trabalhar era eu que preparava a merenda, tá, a gente passava as atividades pros alunos, aí, enquanto eles faziam, nós íamos pra cozinha, preparávamos a merenda, né, dava o recreio, enquanto eles brincavam, eu me responsabilizava em lavar, né, as vasilhas e tudo, deixar tudo arrumadinho pra que no outro dia, ou no, é no outro dia, porque eu trabalhava no turno é, vespertinho, a professora, se a outra professora encontrasse tudo limpinho pra ela fazer a parte dela. Então, essa identificação, né, porque quando eu estudei também, né, era assim, né, era o recreio, o momento do lazer, do recreio, era, era aquelas brincadeiras que hoje quase não se vê mais, né, as cantigas de roda, pular amarelinha, bolinha de gude, essas, essas, lembranças.

P/1 – Você trabalhou com crianças de qual idade, assim, qual série? Você falou que seriam três séries?

R – No início?

P/1 – É, isso, aí nessa escola.

R – No início eu trabalhei, se eu bem me recordo, com segunda e quarta, a segunda e a quarta, e a outra professora trabalhava com a primeira e a terceira, se eu bem me lembro.

P/1 – Lucinei, depois você ficou três anos nessa escola, que era uma escola rural, né?

R – Isso.

P/1 – E depois você saiu de lá, o que aconteceu, você mudou de escola, você foi pra cidade?

R – É, é, veja só, nessa escola não tinha muitos alunos, né, eram poucos alunos e quando chegou um determinado, um determinado tempo nesses três anos, diminuíram os números de, de alunos e a outra professora que ela efetiva no Estado e eu era contratada pelo Estado, ela assumiu e coincidiu também porque, nesse período em que eu me formei professora e fui trabalhar nessa localidade, lá, né, eu conheci o meu ex-marido com quem eu me casei, mas nesse período de três anos nós nos separamos, então coincidiu de eu não, de eu me separar e também de eu não poder continuar trabalhando lá, porque eu não tinha número de alunos suficiente. Foi então que eu retornei pra casa dos meus pais em Paú de Graça Aranha, permaneci lá por, acredito, um mês, até porque eu não poderia parar, porque quando eu me separei eu estava grávida, né, e eu precisava continuar trabalhando e lá não tinha, não tinha como trabalhar. Foi onde que eu fui pra Colatina, fiquei na casa dessa minha irmã que me acolheu, morei com ela uns três meses, nesse meio tempo eu fui procurando, né, uma escola pra trabalhar, consegui, aí, meu filho nasceu, eu aluguei um apartamentinho e fui morar com ele, né, aí fui tocando a vida.

P/2 – O curso superior, em que momento que você resolve fazer vestibular pra Letras?

R – É o curso superior eu demorei, porque, como eu disse, o meu filho nasceu e eu precisava sustentá-lo, né, meu... meu ex-marido me deixou e não me deu nenhuma, nenhum, nenhum apoio, nem uma assistência e eu me vi, né, com os meus 21 anos, com um filho e precisava correr atrás, né, então o curso superior ele, ele ficou, ficou no sonho, ficou no sonho, e acredito eu, que, quando eu comecei, quando eu prestei vestibular e ingressei na faculdade, meu filho, ele já "tava" com dois pra três aninhos já, né, então eu...

P/2 – Ah, então não demorou tanto assim.

R – Demorou, demorou.

P/2 – "Tava" novinha ainda.

R – Demorou, demorou sim, demorou um pouquinho sim.

P/1 – Vamos voltar aí no tempo, você chegou em Colatina e você já conhecia a cidade ou foi, como que?

R – É, porque eu estudei em Colatina, né, eu estudei, eu, é, o curso de Magistério eu fiz em Colatina, então, é, eu me formei 2003, então 2001, 2 e 3 eu estudei em Colatina, me formei, 2004 eu fui trabalhar, né, e trabalhei por três anos aí, né, considerando os acontecimentos que eu já citei, eu retornei pra Colatina, onde eu busquei...

P/1 – Somente em 2004?

R – Hein?

P/1 – Em 2004?
R – O que?

P/1 - Que você se formou?

R – Não querida, eu falei 2004? Se eu falei 2004...

P/1 – Falou.

R – Eu me enganei, 1984, perdão, perdão, eu me formei, eu terminei em 83 e em 84 eu já comecei a trabalhar.

P/1 – Ah, tá. E como que foi essa experiência de tá dando aula lá em Colatina depois que você tinha passado por uma experiência lá da, de escola rural, né?

R – É, é outro desafio, né, é outro desafio, porque...

P/1 – E quais eram esses desafios, Lucinei? Conta pra gente.

R – Bom, além dos desafios pessoais, né, eu ainda estava começando, porque, é, a gente, como eu disse, né, nós aprendemos mais do que ensinamos nessa, nessa nossa trajetória. E era muito instável também a minha situação profissional, porque eu dependia da necessidade da escola. De repente tinha uma, um... um profissional, né, estabilizado, ele tirava licença, então aquela escola dependia de, então, eles me chamavam eu ia e substituía. Então, eu ficava um ano, de repente, quando eu ficava muito era um ano em uma escola, dois meses em outra, né, quatro em outra, então, era assim, era bem instável. Eu, eu permanecia trabalhando, porém não no mesmo local. Então, eu trabalhei desde a educação infantil até o ensino médio, né, eu... Quando eu estava trabalhando pelo Estado, eu trabalhava mais com o ensino fundamental e cheguei a trabalhar com ensino médio, a educação infantil mesmo foi quando eu assumi a Prefeitura Municipal.

P/1 – No Estado, no Estado contrato sempre?

R – Contrato, era um contrato, mas eu consegui a estabilidade, né, tanto é que quando eu aceitei a demissão incentivada que o Estado ofereceu na época eu já tinha 13 anos de contrato, praticamente estabilizada, né, estabilizada pode se dizer.

P/1 – E contrato era só você assinar ou você tinha que fazer alguma prova, alguma seleção ou não?

R – Não, eu não recordo, eu já era, era um regime que já era automático, né, eu continuava, né, diferente de agora, agora existem as provas, né, as seleções.

P/1 – Lucinei, então o curso superior, você fez qual curso?

R – Eu fiz Letras, Português – Francês.

P/1 – Ah, e por que o curso de Letras?

R – É, bem, eu vou falar porque – é, o primeiro vestibular que eu tentei foi História, sempre gostei muito de História, né, só que eu não consegui passar, aí, então, né, assim, é lógico que a gente gostaria de fazer, né, o, até, fazer aquilo que a gente realmente se identifica, mas a necessidade às vezes fala mais alto e a gente acaba fazendo aquilo que é mais fácil, a gente vai pegando caminhos que são mais fáceis, então eu recordo que uma pessoa disse o seguinte: “Lucinei, tenta o curso de Letras, porque você consegue passar, porque são muitas vagas”. Na hora eu não entendi por que, depois eu descobri, né, porque era o curso mais difícil que tinha, não se conseguia passar, né, então eu comecei a fazer Letras, mas amei, me identifiquei, amo, tá, e tem tudo a ver com a história, até porque Letras, né, a literatura, a língua portuguesa, você precisa, precisa conhecer história, né, precisa ler muito. Então, então, de uma certa maneira eu acabei fazendo aquilo que eu queria, porque a história, né, ela já tá aí inserida nesse contexto.

P/2 – E a universidade era na mesma cidade que você morava?

R – Colatina.

P/2 – Em Colatina mesmo?

R – Sim, isso.

P/2 – Era particular ou?

R – Era particular, particular.

P/1 – E como que você fez?

R – Pois é, e como é que eu fiz, né? Eu não tinha como pagar, não tinha jeito, se eu não me engano, eu penso que, eu recordo que, acho que eu recebia na faixa de 170, não me recordo se era cruzeiro, não me recordo e eu lembro que a faculdade custava alguma coisa de 135. Então, eu não tinha como, então, chegou um momento que eu não tinha, tinha filho, tinha casa, eu queria estudar, mas eu trabalhava só pro Estado e o salário não me permitia, aí foi onde eu, eu, fiz, né, entrei pro, pra aquele programa do Governo, né, e financiou, né, a minha faculdade, o crédito educativo, né, na época e financiou, foi onde eu consegui terminar a faculdade, aí, depois, então, depois que eu terminei que as coisas foram melhorando um pouquinho foi, então, que eu consegui pagar a minha faculdade, né, que eu paguei o empréstimo feito.

P/2 – Com o curso superior findado, com o diploma na mão, o quê que muda na sua vida profissional?

R – Ah, as possibilidades, né, você, além de mudar a própria pratica, porque quanto mais a gente estuda, quanto mais a gente lê, a nossa, a nossa pratica ela vai melhorando, né, lendo, isso aí, foi mudando, porque a gente, a gente também tinha a questão, né, do plano de cargo e salário, então a gente fez faculdade, “qué dizê”, automaticamente já melhorava o salário, né, então tudo foi melhorando, né, devagarinho as coisas foram se ajeitando.

P/1 – Lucinei, você falou que ficou trabalhando contratada pelo Estado, né?

R – Isso.

P/1 – Você chegou a fazer prova pro Município pra ser professora?

R – Foi, foi sim, na época.

P/1 – Isso foi logo depois que você terminou o curso superior?

R – Eu recordo que eu fiz prova, eu entrei no Município foi em 93, eu sou efetivada no Município desde 93 e eu trabalhei ainda no Estado, eu permaneci nos dois até 99, 98, 99, então, desde 93 que eu sou concursada pelo Município e teve prova, né, concurso de ingresso, tudo direitinho.

P/1 – E você fez pra quê, pra nível, pra dá aula no ensino médio ou no ensino fundamental como professora já de português?

R – É eu fiz como professora, né, na época, porque na época que eu fiz o concurso não era delimitado, hoje é, ou a gente faz para educação infantil ou a gente faz pro ensino médio, né? Eu fiz concurso pra professora, então, na época não, não...

P/1 – Não tinha essa especificação?

R – Não, não tinha especificação.

P/1 – Mas efetivamente você deu aula o que, pra ensino médio ou ensino fundamental?

R – Mais infantil, trabalhei nas, trabalhei nas creches, trabalhei bastante tempo em creche, só depois, acho que foi quando, foi em, por volta de 80 e... eu sempre confundo as datas, 98, 99, 2000, aí, então, eu já comecei então a trabalhar com o ensino médio, ensino médio não, perdão, ensino fundamental, ensino médio eu trabalhava também, mas pelo Estado. Eu tive uma época em que eu trabalhava pela Prefeitura, eu trabalhava pelo Estado e eu fazia faculdade. Então, bastante corrido, né, eu tinha que, o salário não permitia pagar alguém pra ajudar em casa, pra tomar conta do filho, né, e o filho ficava, assim, hora com a minha irmã, hora com a, com a sogra, né, e eu tinha que me revezar, né, pra dá conta, né, de trabalhar pelo Estado, trabalhar pela Prefeitura, fazer faculdade e foi onde chegou o momento que eu vi que não "tava" dando mais e foi onde eu aceitei a demissão incentivada do Estado, porque eu deixei o Estado e fiquei então só com a Prefeitura.

P/2 – Nesse meio tempo você se casa de novo?

R – Olha, a história é bem, é bem interessante, é uma história bonita, até, né, é uma história bonita.

P/1 – Ah, conta pra gente, então.

R – Tá, vou contar. É, quando, quando eu fui estudar em Colatina, né, eu conheci o meu atual marido hoje, né, nós namoramos, durante os três anos que eu fiquei estudando a gente namorou, só que quando eu fui trabalhar no Interior eu conheci o meu ex-marido, daí eu terminei, né, com ele e namorei, noivei e casei com esse outro que não durou muito, foi, eu recordo que nós nos casamos em fevereiro, em junho eu engravidei, eu fiz exames, "tava" grávida, quando foi em novembro ele chegou pra mim, o meu ex-marido disse que ele queria se separar, porque ele queria a liberdade dele de volta, ele estava se sentindo preso, né, e queria se separar. Hoje eu falo disso com mais tranqüilidade, é, mas assim, é um choque, né, é um choque, mas eu sempre fui assim também muito, não, beleza, não quer? A gente também não tem que forçar, né, um relacionamento que não vai dar certo. Sofri muito, sem dúvida, né, as incertezas, os medos, né, grávida e marido, assim, abandonando, né, porque foi o que aconteceu, né, não foi um abandono, mas aceitei tranqüila e aí foi onde eu saí de lá e vim pra cidade, retornei pra cidade, né? Ainda grávida, retornei grávida, meu filho nasceu, 17 de fevereiro, eu saí de lá acho que foi em finalzinho de novembro, meados de dezembro quando se encerram as aulas, né, em fevereiro ele nasceu, 17 de fevereiro e, aí, eu fiquei convivendo, na verdade, junto com a família do meu atual marido, né? Convivia também com ele, convivia, assim, né, eu via sempre porque eu fui morar no bairro onde ele morava que é o que a minha irmã mora, onde eu moro hoje, né, então.

P/2 – Se reencontraram...

R – É, o reencontro e, assim, depois de um ano ele veio morar comigo e nós estamos juntos até hoje, meu filho, ele vai completar 20 anos, né, em fevereiro do ano seguinte e quando ele tinha um aninho, meu filho tinha um aninho, ele foi morar comigo e nós estamos juntos até hoje.

P/2 – Aí você teve outro filho com ele?

R – Tive uma menina com ele.

P/1 – Ah, legal.

P/2 – Ela tá com quantos anos?

R – 17 anos. Linda.

P/2 – Ela é bonita mesmo.

R – Muito bonita, eu gosto, eu gosto da minha história, é uma história triste, né, a gente, não vamos negar que é, né, mas eu falo que nós precisamos aprender a conviver com essas coisas, né, porque na vida, né, as coisas não são só flores e nós evoluímos, nós vamos crescendo, e vamos enquanto pessoa, enquanto ser humano, né?

P/1 – Legal. Lucinei, vamos voltar um pouquinho, você, assim, você sentia diferenças trabalhando no, na rede estadual e na rede municipal?

R – A diferença em quê sentido?

P/1 – Estrutural, assim, de valorização do profissional, do professor, salário, quais as diferenças, assim?

R – É, eu não vou, eu não vou de repente nem fazer uma comparação, porque são épocas diferentes, né, a gente não pode negar que tem a influência, né, dos governantes, mas eu recordo, assim, eu não sei se por devido à minha situação instável no Estado, não na época em que eu fui professora do Estado não tinha boa remuneração não, sabe, sempre com muita dificuldade, os colegas todos tendo que trabalhar três turnos pra poder, né, trabalhava de manhã, trabalhava à tarde, trabalhava à noite pra poder, né, conseguir um salário significativo, né, que suprisse as necessidades e, assim, o que eu posso dizer hoje é que o Estado hoje tá muito bom, né, no Espírito Santo hoje os professores tão tendo, assim, uma, uma valorização a nível salarial, a gente observa, eu não estou mais no Estado não, mas o atual governador tem, tem, é, valorizado bastante os profissionais da área de educação na questão, né, financeira e o município de Colatina nós não podemos reclamar não, nós somos bem remunerados, o profissional da educação de Colatina, ele é bem remunerado.

P/2 – Qual a atividade econômica de Colatina?

R – É mais é o café, né, tem um pouquinho de tudo, mas o destaque é o café, é assim, do café no Interior, agora, no centro, na cidade, né, na zona urbana são muitas fábricas, né, indústria, indústria de confecção também.

P/1 – Lucinei, você entra então na rede municipal em 93, né?

R – 93.

P/1 – Nesse período, até antes mesmo, você já tinha ouvido falar da Fundação Banco do Brasil, você tinha ouvido falar, não sei, de algumas ações do Banco?

R – Não, não, inclusive, inclusive eu conhecia o Banco do Brasil, agência Banco do Brasil, agência Banco do Brasil, mas também não tinha contato, até porque o meu relacionamento era com o Banerj, né, o Banco do Estado do Espírito Santo, então, não, não, desconhecia, não tinha nenhum.

P/1 – E a Fundação Banco do Brasil, quando que você tem contato, assim, quando você começou a ouvir falar da Fundação?

R – É, foi quando eu comecei a trabalhar no programa AABB Comunidade.

P/1 – E como que aconteceu?

R – É, bom, o programa AABB Comunidade no município de Colatina, ele... ele foi é [pausa] ele foi implementado no momento em que o atual prefeito hoje, ele estava assumindo, né? Então, era assim, era um desejo dele, ainda é, né, porque tem um compromisso muito grande com, não só com a educação, né, com todas as questões, mas com a educação também, era escola de tempo integral, né, oferecer pras nossas crianças e adolescentes um, uma escola de tempo integral. Então, o AABB Comunidade, ele veio somar, né, essa, essa, porque lá no município tem os Cejas, né, que são os Centros de Jornada Ampliada que atendem também crianças e adolescentes, é, dentro também dessa proposta que é o AABB Comunidade.

P/2 – Eu não entendi, “Cejos”?

R – Cejas, isso é Cejas - Centros de Jornada Ampliada. Então, o AABB Comunidade, ele foi implementado em Colatina, eu fui convidada na época pela atual Secretária de Assistência Social, a Júlia Deptulski, que me convidou pra fazer um trabalho com o programa AABB Comunidade, que eu ainda não sabia, né, que era, eu sabia que era um trabalho diferenciado, tá, mas ainda não sabia exatamente o quê fazer e, aí, nós tivemos, né, o curso de formação inicial com os educadores da PUC São Paulo e, aí, nós começamos a nos engajar nessa tarefa e passamos então a ter acesso às informações, né, que, que nos permitiram conhecer os trabalhos da Fundação Banco do Brasil.

P/1 – Lucinei, você era professora quando você foi convidada, ou você trabalhava em alguma parte de diretoria da escola ou pedagógica?

R – Não, eu trabalhava como professora, na época eu estava trabalhando em Boapaba, na zona rural, trabalhando com Ensino Fundamental de quinta à oitava série, né, e fui convidada, então, a fazer parte do, do grupo de educadores que trabalhariam no programa AABB Comunidade.

P/2 – E a AABB funcionava em Colatina mesmo?

R – Em Colatina, no clube, o clube lá, ele fica no Centro.

P/2 – Você sabe se foi uma reivindicação do Prefeito ou foi a Fundação que chegou ao Prefeito? Você sabe como foi esse caminho?

R – Olha, eu não saberia dizer com certeza quem deu o primeiro passo não, mas eu posso te dizer, sem dúvida, que foi uma soma, uma soma de... de desejos, né, o sonho, digamos o sonho é, é coletivo, tanto por parte do Prefeito que tinha esse desejo de implementar a escola de tempo integral e o programa AABB Comunidade vinha somando, né, também da parte da assistência social e também da... da Presidente Administrativa da AABB na época, a Sandra Balarini que era administrativa na AABB.

P/1 – E como que era o programa, assim, como que funcionou o programa lá em Colatina?

R – Como funcionou assim, como?

P/1 – O programa AABB Comunidade, era o quê, escola em tempo integral, quais crianças que atingiam, como que era isso?

R – Ah, tá. É... lá não funciona a escola de tempo integral lá, as crianças e adolescentes que estão no programa AABB Comunidade, eles estão em tempo integral, né, com atividades direcionadas, na escola formal ou no programa, né? Na AABB Comunidade de Colatina são atendidas 80 crianças e adolescentes e as atividades, as oficinas são diversas, né, na área de esporte, música, capoeira, o complemento educacional, arte e terapia nós temos uma educadora que ela também é arte-terapeuta, ela faz um trabalho muito bonito, né, um trabalho com arte. Antes do trabalho manual, né, tem todo um processo, né, que é terapêutico.

P/2 – Lucinei, o quê que significa 80 crianças no universo de alunos de Colatina?

R – Olha, sim, a visão que eu tenho, pra mim é pouco, né, a gente queria muito, a gente queria mais, mas é o que nos é permitido. Por que? Tô falando assim, AABB Comunidade tá, porque o município, acredito, ele tem pretensão e podendo ele vai ampliando esse universo, né, porque no município são aproximadamente 1600 crianças que são atendidas nesse regime de tempo integral, no município, daí a AABB Comunidade ela soma, ela se soma a esse número, tá? Agora, na AABB não é possível aumentar o número, até porque nós temos que nos adaptar ao clube, o nosso clube, ele é pequenininho, né, não comportaria mais de 80 crianças e o nosso objetivo é atender com qualidade, né? Não adianta também a gente querer colocar muitas crianças e não ter um atendimento de qualidade. O objetivo é que aquelas 80 crianças e adolescentes que estejam aí, tenha significado pra eles esse trabalho.

[FIM DO ARQUIVO]

P/2 – Então Lucinei, no processo de implementação do programa, você falou que o primeiro passo foi formação dos professores, né, numa parceria com a PUC de São Paulo, né? E depois, qual que foi o próximo passo?

R – É, a própria Secretaria Municipal, é, sempre ministra, né, cursos de formação, a Assistência Social, porque tem também lá no município, né, as oficinas de capoeira, né, tem os outros centros de atendimento também, tem os programas sociais, tá, outros além do AABB Comunidade, então em parceria, sempre ministrando cursos de formação a gente em constante, né, além da formação continuada, né, que nós fazemos, os educadores do programa AABB Comunidade fazem educação continuada também que faz parte da nossa formação.

P/2 – A escolha dos alunos, como é que isso se deu?

R – No início?

P/2 – No início, no início.

R – Ah, tá. No início, no início foi através da assistente social com a escola, né? Então, assim, duas escolas, né, não que a gente tenha alunos só daquela escola, temos de várias escolas, porém, no início, né, foram, os assistentes sociais foram nessas escolas e junto com os diretores fizeram, né, um levantamento das crianças e adolescentes que participariam desse, desse programa.

P/1 – E qual era o perfil desses alunos?

R – Como, em que sentido?

P/1 – Eles trabalharam com algum perfil específico de crianças para serem atendidas?

R – Os critérios você quer dizer?

P/1 – Isso.

R – Quais os critérios pra seleção?

P/1 – Isso.

R – É, são crianças que pertencem à famílias de baixa renda, né, que estão em risco social, pessoal.

P/1 – E uma criança atendida pelo programa ela fica, ela tem uma, ela tem um tempo de permanecer no programa do AABB Comunidade, assim, um ano ou é indeterminado?

R – Dos sete aos 18 incompletos.

P/1 – Ah, então ela pode ficar dos 7...

R – Depende, depende, né, da afinidade dela, do gostar, ou de repente a criança gosta, mas por várias situações ela precisa ser desligada do programa, ou por mudança de endereço, ou porque a escola não, não oferece pra ela a série no horário em que ela possa estar no programa, a gente, acontece muito de nós perdermos aluno, perdermos, assim, que são desligados porque eles estão conosco pela manhã e à tarde estão na escola, quando eles, eles mudam de série, a escola não tem mais pra oferecer à tarde aquela série, então, eles têm que sair do programa, né, pra poder continuar estudando. Dentre outros fatores, né, mas fora isso, a criança, o adolescente, ele permanece até completar 18 anos.

P/2 – Através do AABB Comunidade você teve contato com outros programas da, teve conhecimento, contato com os programas da Fundação Banco do Brasil?

R – Olha, assim, conhecimento específico não, mas a gente ouve falar, né, o BB Educar, tá – o BB Educar, inclusive, é assim, tá guardadinho lá no cantinho, né, um sonho meu, quem sabe um dia, né, poder abraçar também essa causa e levar um pedacinho lá pro meu município. Eu lembro que eu cheguei a conversar inclusive com a Secretária de Educação de lá, aí, ela falou assim: “Ai, Lucinei, me ajuda nisso, então vamos fazer, tal...”, mas assim, são muitas, muitas ações, né, e a gente acaba não dando conta de tudo, né? Assim, do BB Educar que eu sei um pouquinho mais.

P/2 – Colatina não recebeu alguma exposição do projeto Memória, algum material?

R – Ainda não, mas já tá lá na minha pauta, na minha agenda, porque eu já vou, a gente quer sim levar, né, porque nesse último encontro que nós tivemos em Porto Alegre, né que foi falado, aí eu já falei, “não, nós precisamos também levar, né, esse trabalho pra lá”.

P/1 – Legal. Lucinei, você consegue observar desse, desse período, né, de 2001 até agora, né, 2000 que iniciou, né, o AABB Comunidade lá?

R – Isso.

P/1 – Algum impacto social do programa em relação a essas crianças, por mais que o número seja 80 crianças, né, dentro do universo muito maior.

R – O impacto social, você fala, na comunidade ou pra criança.

P/1 – Na comunidade e nas crianças também que participam do programa.

R – Você fala os avanços?

P/1 – É isso, mudanças, transformações que você tenha observado, assim.

R – Olha, veja só, o impacto na comunidade específico, dizer que houve assim um grande impacto, eu não observei não, mas o programa AABB Comunidade lá no nosso município, ele é uma referência, tá, devido à qualidade, não tô querendo dizer que nos outros não tenha, assim, porque eu tô falando do nosso município, né? É assim, é bem visto, tá, nós somos convidados pra participar de eventos, a gente sempre está junto quando tem a festa de emancipação política do município, nós participamos, é, do Fórum das Águas que aconteceu lá no nosso município, tá. E, com a criança e o adolescente, a gente percebe assim, é um trabalho lento, né, porque é um trabalho de adaptação, onde nós já estamos caminhando, né, fizemos cinco anos de funcionamento, já estamos caminhando pro sexto ano, é o comportamento, né, é a mudança de atitude da criança adolescente. É, porque quando eles chegaram, era tudo assim, né, como é que eu diria? É, é até compreensivo, né, porque um espaço diferente que eles desconheciam, né, é a piscina, é a quadra, que, que é tudo lindo, né, tudo de bom, então, assim, querendo tudo de uma vez, né, correndo e mesmo o relacionamento deles, o relacionamento interpessoal, sabe, muita briga, muita desavença, muito conflito, né, hoje, assim, já é bem tranqüilo. Então, eu, assim, o impacto maior que eu percebo é no próprio desenvolvimento da criança e do adolescente, ele compreender, né, que ele tem aquilo lá, porque aquilo é um direito dele, mas que ele tem também a responsabilidade de cuidar daquilo, porque ele, porque pertence a ele, né, então é o cuidado, né, é o cuidado de estar com o educador, de estar com o colega, de estar consigo mesmo, a gente percebe.

P/2 – Lucinei, você ficou um ano como professora, né?

R – Hum, hum.

P/2 – O quê que é especificamente a professora do AABB Comunidade, ela faz o reforço escolar ou existe realmente aula, série, dentro do programa?

R – Não, porque a proposta do programa AABB Comunidade não é, não é fazer o trabalho que a escola faz, né, o objetivo do nosso trabalho é a completariedade escolar, é fazer um complemento, mas não tem que ir lá se fazer necessariamente aquilo que já se faz na escola, né? Por exemplo, como, como complementar o trabalho da escola? Através de jogos, através de brincadeiras, através das oficinas, né, pode se aprender a matemática jogando, né, não tem que ser usando os critérios que a escola usa, né, até porque precisa ser mais prazeroso, não que a escola não seja prazeroso, quando eu digo que precisa ser um momento prazeroso, um momento de aprendizado e lazer ao mesmo tempo por que? Porque depois ele já vai pra escola e querendo ou não ele vai ficar um tempo maior, né, mais sentadinho, né, porque depende disso também, né, pra que ele se concentre, então, o nosso objetivo lá é... é apoiar sim o trabalho da escola, mas de uma forma diferenciada, através da ludicidade, né, das brincadeiras, dos jogos e é nesse momento, como é que o professor atua? O professor ele atua aí, né, como um mediador, né, como um companheiro, né, que está aí, que esteja, na oficina de capoeira, por exemplo, né, ele tá aí junto, né, ele passa as técnicas da capoeira e, nesse momento, esse trabalho é com ele, né, com os valores, né, que são fundamentais.

P/2 – Eles ficam divididos por idade?

R – Olha, é complicado, né, a gente fazer esse trabalho se a gente não tiver alguma, algumas, como é que eu chamaria? Algumas, se a gente não encontrar maneiras, porque um trabalho que é feito, por exemplo, com adolescente, nem sempre ele pode ser feito com a criança, né, porque a própria, a própria linguagem é diferente. Então, lá, nós... nós fazemos assim, turminhas, nós temos por exemplo, a turminha dos sete, oito, mais ou menos nove, né, aí depois uma turminha, dez, 11, 12, então a gente separa mais ou menos assim pra poder facilitar também o trabalho do educador, né, e até mesmo o diálogo entre eles, né, que estão na mesma faixa etária, de repente tem aí os mesmos interesses, né, tudo isso aí.

P/2 – Eles fazem o dever de casa no AABB Comunidade?

R – Alguns sim, outros não. Nós deixamos um tempinho pra fazer, nós temos um tempinho pra eles fazerem, porque é necessário que tenha. Na verdade a proposta não seria bem essa, mas por outro lado nós pensamos o seguinte – se ele passa a semana toda,né, um horário ele está no programa e um horário ele está na escola, ele precisa também de um tempo pra fazer as atividades escolares e nem sempre ele consegue fazer isso em casa, porque em casa ele não dispõe de material pra isso. Uma pesquisa, por exemplo, né, precisa de um livro pra fazer uma pesquisa, então a gente colabora nesse sentido, então, tem um educador que acompanha. Ele tem uma tarefa pra fazer, tem um trabalho? Então tem um educador que, que acompanha nesse sentido.

P/2 – Quantas horas eles ficam na AABB?

R – Eles ficam das sete às 11 e 30.

P/2 – E saem de lá direto pra escola?

R – Alguns sim, outros passam em casa.

P/2 – Eles almoçam lá?

R – Almoçam, eles chegam sete horas e recebem, né, o desjejum e nove horas eles tem o lanchinho, onze horas eles almoçam, aí, tem o momento, né, do banho, tomam banho, almoçam e depois eles vão pra escola.

P/2 – Então não funciona na parte da tarde?

R – Não, lá no nosso município não.

P/1 – E vocês, não sei, vocês elaboram as oficinas ou existe já uma proposta do programa vindo lá da Fundação? Por exemplo, de uma oficina de dança ou oficina de capoeira, ou vocês também pensam também isso, elaboram também?

R – Pensamos, pensamos sim, pensamos muito. Nós fazemos na verdade, é nós desenvolvemos os projetos, né, que a Fundação, que também são projetos da Fundação, igual por exemplo, olhos n’água, alimentação sustentável e também nós temos também os nossos projetos, né, que nós trabalhamos, assim, bem em parceria com a, com a Secretaria Municipal de Educação, então, os projetos que são do município também são projetos nossos, né? Projetos relacionados aí à paz, né, enfim, e nós temos, é, antes de nós começarmos o nosso trabalho, no início do ano nós temos a nossa semana de planejamento, inclusive nós temos toda segunda-feira, a segunda-feira pra nós ela é dedicada ao planejamento e nesse momento nós fazemos os nossos projetos, nós nos reunimos pra discutir, né, as questões relacionadas às crianças, aos adolescentes, ao desenvolvimento do programa, às questões administrativas.

P/1 – Legal. Hoje o programa lá em Colatina, AABB Comunidade, já tem, assim, quais são as oficinas que vocês estão oferecendo?

R – Nós temos é esporte, né, que aí engloba, né, uma variedade de jogos, temos a natação, a computação tá assim, porque ainda, nós recebemos os computadores, ainda estão, né, pra terminar de ajeitar o laboratório de informática, temos uma, artes, que é acompanhado pela educadora e arte-terapeuta, né, a oficina de arte-terapia, temos a capoeira, música, né, o coral, eles tocam, tem uns alunos que tocam instrumentos também, poucos, mas tem alguns que se identificam, né, temos o momento de saúde e higiene, que é uma oficina também e o complemento educacional, é onde o aluno, quando ele tem, se ele tem alguma atividade que ele traz de casa, ele faz, se ele não tem, tem o educador que já tem um planejamento pra desenvolver com ele alguma atividade que complemente o trabalho da escola, né, através de jogos, de dança, de música, de teatro.

P/2 – São quantos profissionais?

R – Nós somos em nove.

P/2 – Nove. Tem alguma atividade no fim-de-semana?

R – Não, não, nós não fazemos, só mesmo durante a semana. Existem, não vou dizer que não tem não, é, quando acontece de nós sermos convidados pra uma apresentação, então, nós saímos, agora, com a criança que a gente desenvolve aí, não porque tem a questão, né, de disponibilidade de pessoas pra trabalhar, né, os educadores já trabalham, né, a sua carga horária, agora, nós saímos pra apresentações sim.

P/2 – Em 2002 você passa a coordenadora, né?

R – Isso.

P/2 – O quê que muda aí?

R – Tudo [risos], muda tudo, né, e foi mais um desafio pra minha vida, né, eu gosto muito de desafios, a gente cresce muito, né? E foi realmente, tá, e não foi fácil não, hoje já tá mais tranqüilo, mais difícil.

P/2 – Mas cuida desses desafios Lucinei [risos].

P/1 – O quê que é isso, né?

R – É porque, veja só, porque na coordenação pedagógica, na verdade nós, nós “tamo” aí na ponta, né? Nós sabemos que o programa AABB Comunidade é um programa de parcerias, né? Tem o Conselho Deliberativo, tem o Administrativo do AABB, tem né, lá a Prefeitura, tem, mas nós é que “tamo” aí, nós é que “temo” que movimentar, então é muita coisa pra gente poder dá conta e dá conta com qualidade, que é indispensável, né, porque também não adianta a gente fazer por fazer, é preciso fazer e fazer com qualidade, então eu sou uma pessoa que eu me cobro muito isso, né, eu sou muito exigente comigo mesma com as coisas que eu faço. Então, quando eu falo que foi um grande desafio é porque mexeu em toda a minha vida pessoal, né, porque eu precisei me dedicar muito mais, não que eu não me dedicasse antes, mas eu precisei me dedicar quando eu passei a coordenar, porque aí eu já não tinha mais final de semana, né, eu já "tava" cortando direto, né? Então foi um dos desafios, eu fui, com o tempo eu fui começando a aprender também a administrar isso, né, porque a gente precisa ter um equilíbrio, né, nós sabemos que o profissional é importante, mas o pessoal ele não pode ficar esquecido, né, até porque nós dependemos de, de estar bem pra poder fazer bem o nosso trabalho.

P/2 – Equilíbrio, né?

R – Equilíbrio.

P/1 – Lucinei, você trabalha só no AABB Comunidade?

R – Agora só.

P/1 – Ah....

R – [risos] Só no AABB.

P/1 – Só, né?

R – Só me dedico totalmente ao programa AABB Comunidade.

P/1 – Lucinei, eu tenho uma curiosidade, vocês trabalham com critério de avaliação nessas crianças, assim, e freqüência também, se vocês acompanham a freqüência dessas crianças...

R – Acompanhamos sim.

P/1 – E se acontece um, por exemplo, um fato de uma criança, sei lá, faltar uma semana, vocês entram em contato com os pais ou com a escola deles?

R – Não, lá é o seguinte, nem precisa entrar em contato, porque a criança quando ela falta a família já precisa justificar, nós já fazemos reuniões, né, com os pais no início do ano e já faz parte já do, né, do, dos critérios lá dos combinados que nós chamamos, combinados que nós temos com as crianças e adolescentes e combinados que nós temos com a família também, né? O aluno faltou, a criança faltou? Tem que ter uma justificativa, né, se foi ao médico, ou se tá passando mal, tá passando mal? Não foi ao médico? Faz um bilhetinho, ou telefona, né, quando não avisa, aí, nós entramos em contato, ou com a escola ou com a própria família, mas nós acompanhamos constantemente a presença.

P/2 – Há algum programa, alguma coisa que seja ligada, que seja direcionada especificamente pra família? Algum acompanhamento assim...

R – Na AABB Comunidade?

P/2 – Na AABB Comunidade?

R – O que nós fazemos são as reuniões, né, de início e nós fazemos, assim, nós estamos inclusive um pouco ainda, né, limitados nessa questão, é, mas nós fazemos um encontro com as famílias todo ano, né, um momento em que a gente reúne e sempre temos um palestrante, né, que vai pra falar um pouquinho, fazemos uma, tipo uma festinha, né, agradecemos, falamos da importância deles, né, no desenvolvimento da criança, temos esses momentos e as visitas domiciliares, né, que nós fazemos, é, é muito importante, porque aí você trabalha baseado naquilo que você conhece, né, geralmente...

P/2 – Isso é no início?

R – Início do ano.

P/2 – Início do ano? Vocês vão às casas?

R – Isso.

P/2 – Como que é isso?

R – Esse ano, inclusive, esse ano foi assim, foi não, está sendo um ano com muitas coisas pra se fazer ao mesmo tempo. Então, a nossa visita domiciliar este ano, ela foi planejada, porém ela não aconteceu, em virtude de, de terem surgido outras situações, né, que não deu pra gente fazer, mas nos anos anteriores a gente sempre fez, não fizemos este ano ainda, né, porque não tem que ser necessariamente no começo do ano, né, nós fazemos de acordo com as possibilidades, né, de desenvolvimento das atividades e, ano passado que nós fomos, nós começamos o trabalho, aí, depois nós avisamos a família que faríamos, daríamos uma paradinha, porque nós estaremos visitando. E, aí, nós temos a Secretaria de Educação que é bem parceira, eles fornecem um carro e nós vamos, nos carros fazer as visitas.

P/2 – Há algum aluno, alguma criança mais mar..., que tenha marcado a história desses seis anos do AABB Comunidade de Colatina?

R – Que permanece conosco?

P/2 – Ou que já tenha saído.

R – Marcado em que sentido, no sentido de superação?

P/2 – De superação, pode ser.

R – Temos [pausa].

P/2 – Então, continuando...

R – Exemplos de superação.

P/2 – É, exato.

R – É, sim, tivemos vários, né, mas assim, acho que específico uma, uma criança, uma adolescente, né, que inclusive ela, ela acabou de nos deixar [pausa] e, a gente atendeu, né, ela esteve conosco desde 2001 e, assim, quando eu falo em superação [pausa].

P/2 – Continuando.

R – É, é, a pergunta, você poderia refazer, por favor?

P/2 – Aquela menina que "tava" com vocês desde o início, a adolescente que desligou agora do programa.

R – É, “qué dizê”, ela é só um dos exemplos que nós temos, né, considerando o histórico de vida, né, os problemas familiares, é, uma criança que, uma adolescente que consegue com todos, é, como é que eu diria? Com todos os conflitos familiares que convive ela consegue superar, né, e consegue tranqüilidade, consegue, consegue transformar-se, ela consegue se transformar, né, questão de comportamento, principalmente, uma, uma criança que era extremamente revoltada, né, agressiva, tá, hoje, saiu, né, também por problemas familiares, a família precisou deixar o município e ela teve que acompanhar. Então, pra nós, assim, é uma perda, né, é uma perda e a gente espera que as sementinhas que foram plantadas no coraçãozinho dela é [pausa], que ela tenha adquirido, né, o quê que é importante pra que ela consiga seguir o caminho, o caminho do bem, né, o caminho legal, que ela consiga, que ela tenha força pra transformar, né, essa, essa realidade dela, aí. A gente, o que nós podemos fazer hoje é torcer por ela, mas ela foi um grande exemplo de superação.

P/2 – Há muita diferença do programa pra 2001 quando ele começou para o que ele é agora? Houve alguma mudança marcante, alguma ruptura ou alguma coisa?

R – É, eu vejo assim, eu atribuo a diferença à própria questão da identificação com o programa. Porque veja só, todo início em qualquer situação é muito difícil, até porque os educadores mesmo que estavam começando o trabalho eles não tinham muito claro qual era a proposta, né? Nós tivemos sim o curso de formação inicial, mas que não foi suficiente, porque nós sabemos que o aprendizado ele acontece, né, à medida que a gente vai convivendo. As crianças, também elas estavam vindo pra um mundo que era totalmente diferente do delas e, e, então a questão dos conflitos muito constantes, tá, muita, muita violência, né, então, hoje, tá tranqüilo, nós não vemos mais as crianças se agredindo fisicamente ou verbalmente, uma vez ou outra sempre acontece, né, mas o relacionamento, a calma, a tranqüilidade, às vezes eu paro e olho, eu falo “gente, eu não acredito que aqui dentro desse clube tem 80 crianças!”. Não que as crianças é, é, sejam más, não, mas elas são crianças, elas têm por natureza a vitalidade, a alegria de viver e se a gente não direcionar também isso aí, né, eles acabam levando, dando uma dimensão que atrapalha, então, é preciso sim brincar, cantar, sorrir, é preciso ser feliz, mas é preciso também algumas, alguns combinados, né, algumas coisas que não podem ser feitas, o respeito ao outro, né, o respeito às diferenças. Então, isso é mais, isso é mais vivenciado, o que não acontecia antes, mas, até porque, acredito eu, o próprio histórico, né, de vida de cada, de cada participante, não só das crianças e adolescentes, mas também da equipe que estava aí coordenando esse trabalho que foi evoluindo com o passar do tempo.

P/2 – Lucinei, há alguma espécie de feedback das escolas de onde eles são originais pra vocês, assim, alguma reunião periódica, alguma coisa assim?

R – Olha, nós, nós temos, né, inclusive agora o nosso Conselho Deliberativo, ele vai ter que, inclusive a gente vai ter que fazer reunião, porque alguns membros saíram, mas nós temos um representante da escola, né, que faz parte do Conselho e, assim, o nosso contato é mais, assim, por telefone, né, é... é bem constante eu diria até. Quando surge um probleminha a gente liga pra saber, mesmo quando a criança tá faltando, né, porque que tá faltando, se a escola tá sabendo, a escola também liga pra gente, né, é um contato assim.

P/1 – Lucinei, e a receptividade dos pais, assim, você nesses encontros aí anuais, né, com os familiares dessas crianças você observa alguma receptividade deles, assim...

R – Ah, eles adoram. Nós tivemos um encontro da família no dia 13 de setembro foi lindo, é muita gente, foi muito bom e as crianças fazem apresentação, né, eles dançam e os pais choram, eles choram, chora todo mundo, é legal, eles gostam bastante.

P/2 – Como que é o contato seu com a Fundação? Tem alguma pessoa aqui de Brasília que é diretamente ligado, com quem que é o contato aqui?

R – Ah, eu agora tô assim, bastante contato, né, mas assim, tem, né, a Vanilza, tem o Edgar, tem a Zilda, né, que geralmente eu ligo e eles me atendem, são geralmente os contatos que eu tenho.

P/2 – Mas assim, no alto da implementação do programa, como é que é, eles foram lá, você "tava" desde o início?

R – Como assim?

P/2 – Quando o programa foi ser implementado em Colatina, foi alguém da Fundação lá em Colatina pra poder fazer esse primeiro contato, pra poder?

R – Olha, eu acredito sinceramente que tenham ido, agora, não vou afirmar porque, né, como eu disse, né, eu "tava" chegando, eu não conhecia ainda, de repente, se estavam foi falado, mas, né, mas provavelmente tenham ido sim, porque eles vão, né, sempre que... E assim, são muito parceiros, né, são, no apoio, o apoio é muito grande, o apoio que a gente recebe pra trabalhar, é assim, é indiscutível.

P/1 – Lucinei, o que significa AABB Comunidade pra sua vida profissional e pessoal também?

R – Eu vou chorar... [risos] você não devia ter perguntado isso, mas eu não vou chorar.

P/1 – A gente pára.

R – Não, não vou chorar, até porque eu choro, mas eu não choro de tristeza, né, é assim, porque é emocionante, né, porque como eu disse, mexeu com toda minha vida, né, e é assim, é um trabalho diferenciado, é, de tudo aquilo que eu já fiz na escola, não que eu não amasse o trabalho que eu fazia na escola formal, mas é um trabalho diferente. Eu acredito que de repente porque a gente, a gente está mais próximo, essa proximidade que deveria acontecer também na escola e que infelizmente ainda não acontece em determinadas escolas, em determinadas situações, nós sabemos que nós estamos caminhando pra isso, tá, pra essa aproximação, né, mais do educador educando, mas é diferente. Quando eu trabalhava na escola formal não tinha essa proximidade, né, era assim, o professor, o aluno, né, o aluno o receptor e o educador aquele que só depositava, né, é foi a minha realidade, eu acredito que em muitas situações ainda é assim. E o trabalho no AABB Comunidade é um trabalho diferente, é um trabalho de olho no olho, né, você senta com a criança, você senta no chão e nós temos sim propostas pedagógicas, nós temos o nosso planejamento, mas o mais importante é o contato com a criança, é estar com ela, é olhar no olho dela e permitir que ela se manifeste e deixar que ela fale, né, das suas aflições, das suas angústias, das suas tristezas, das suas alegrias, porque não são só tristezas e angústias, né, tem muita alegria, né, então é um trabalho bem, eu diria que, eu sempre falo, não sei nem se eu deveria usar essa expressão, mas eu sempre falo que o AABB Comunidade ele me humanizou, ele me transformou.

P/2 – Você tem contato com um programa apenas da Fundação Banco do Brasil, né, mas você tem um certo conhecimento sobre a atuação dela no país todo. O quê que você acha que significa ter uma Fundação Banco do Brasil atuando nessas áreas específicas?

R – Olha, eu, significa tudo, né, significa um exemplo, né, eu falo que é um exemplo, outras, outras empresas, outras fundações, outras instituições poderiam tomar como exemplo a Fundação Banco do Brasil que além dos 53 mil aproximadamente, né, crianças e adolescentes são atendidos no programa AABB Comunidade tem os outros, né, os outros programas também que recebem atendimento. Então, “qué dizê”, se todos se derem a mão é possível transformar, né, essa, essa realidade cruel que nós vemos.

P/1 – Bom, Lucinei, o quê que você aprendeu com a Fundação Banco do Brasil e com a sua experiência aí no AABB Comunidade?

R – Nossa amiga, eu aprendi tanta coisa, é difícil até a gente falar, né, porque, nossa, quanto aprendizado! Quanta, quanta partilha, quanto aprendizado, quanta solidariedade! Eu acho que eu fecharia com a palavra solidariedade, amor.

P/2 – Bom, a Fundação tá registrando aí a memória dos seus 20 anos, né, quê que você acha, assim, de ter vindo, ter contribuído com a sua experiência num programa específico pra memória desses 20 anos?

R – Olha, eu, eu, quando eu recebi o convite, eu achei inclusive que eles tinham feito uma confusão e que não seria pra mim, até porque, né, eu pensei, não, não sou funcionária da agência, não sou funcionária da Fundação Banco do Brasil, eles devem ter se enganado. Aí depois eu procurei saber, aí, eu fui entender, né, que devido à minha participação no... no programa AABB Comunidade. Bom, eu me sinto lisonjeada, tá, fazer parte dessa família, porque, como vocês disseram, né, eu faço parte da história, pra mim, assim, é um orgulho fazer parte dessa família, essa família que tem, né, por objetivo ajudar, né, ser solidário, ser amoroso, cuidar, que tem como propostas situações tão, coisas tão importantes, né, que são os projetos desenvolvidos no meio ambiente, cidadania, né, então e, assim, a Fundação Banco do Brasil tá de parabéns e eu sinto muito orgulho de poder fazer parte dessa família.

P/2 – Tem alguma coisa que a gente não tenha te perguntado que você acha importante registrar ou da sua equipe lá em Colatina?

R – Nossa, porque, assim, né, tem muita coisa, né, da equipe, da equipe de Colatina eu só tenho que, só tenho que parabenizar, tá, nós somos bastante parceiros, uns ajudam os outros, é uma equipe bem tranqüila pra trabalhar, é, a AABB Comunidade em Colatina recebe muito apoio, tá, não foi apenas implementado, né, e ficou lá, não, ele é ativo, ele faz parte da vida educacional do município, né. Então, é a parceria com a Prefeitura, com a Secretaria Municipal de Educação, com a Assistência Social, é, com a própria AABB, nós temos assim, eu falo que, eu costumo falar, eu sou meio metida, eu costumo dizer o seguinte que, que o clube da AABB não pode mais existir sem a AABB Comunidade, porque a AABB dá uma vida, dá uma alegria pra aquilo, né, então, as pessoas, assim, vêem com muito carinho o programa lá e eu só tenho a agradecer a oportunidade, né, que foi me dada de, de vim falar um pouquinho disso aí.

P/2 – Eu esqueci de te perguntar uma coisa, há algum intercâmbio entre os AABBs Comunidade do Brasil, vocês têm algum encontro, seminário, vocês trocam algum tipo de correspondência?

R – Temos, temos sim, nós temos, é, de dois em dois anos, nós temos o encontro de educadores, inclusive o último aconteceu em Porto Alegre, de 18, de 19 a 23, né, e nós temos agora a rede nacional de correspondência, né, e temos também o portal AABB Comunidade que é mais uma ferramenta pra gente ficar bem, né, bem ligadinhos e trocar o máximo de experiência possível, que as experiências nos ajudam bastante, né, a troca de experiência nos ajudam a crescer bastante.

P/2 – E no geral, a avaliação é positiva?

R – Muito positiva, muito positiva.

P/1 – Lucinei, o quê que você achou de ter dado a sua entrevista aqui pra gente?

R – Olha, tirando as lágrimas [risos] que já fazem parte da minha vida, quem me conhece sabe, né.

P/2 – Então não foi culpa nossa?

R – Mas, assim, eu sempre falo que eu não tenho vergonha, não, a gente não tem que ter vergonha, né, de... de manifestar, né, os nossos sentimentos. Eu penso que nós estamos caminhando pra, pra isso, né? É preciso começar a trabalhar mais o humano, né, e tirando as lágrimas que atrapalhou aí um pouquinho eu achei que foi ótimo e agradeço a compreensão de vocês.

P/2 – A gente é que agradece, obrigada.

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