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História

Um símbolo para o país: Antárctica

História de: Orleans Leli Celadon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/04/2006

Sinopse

Nesta entrevista, Orleans nos conta sobre sua vivência paulista, relembrando dos tempos em que se dedicava aos estudos como priori. Perpassa pelos empregos que já obtivera até a estabilização como advogada na Antarctica. Contou também sobre o processo decisório que teve que definir em sua vida; escolhendo entre um contrato seguro ou uma empresa completamente nova.

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História completa

P1 – Bom dia, Dona Orleans. 

 

R – Bom dia. 

 

P1 – Obrigado por a senhora estar aqui com a gente. 

 

R – É um prazer. 

 

P1 – Nós poderíamos começar com a senhora falando o seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R – Meu nome é Orleans Leli Celadon. Eu nasci no dia 11 de junho de 1934 em Campinas, estado de São Paulo.

 

P1 – Dona Orleans, qual o nome dos seus pais? Eles eram de São Paulo?

 

R – Meu pai, Bruno Luis Celadon, ele era de procedência italiana e veio a falecer em 1950 quando contava 43 anos de idade. E minha mãe, Adelisa Celadon, natural de Campinas, estado de São Paulo, e veio a falecer no ano passado, precisamente no dia 11 de outubro. 

 

P1 – Qual era a atividade dos seus pais?

 

R – Meu pai trabalhava na área de mecânica, eletrônica, no lanifício aqui da Cidade de São Paulo e minha mãe sempre se dedicou ao lar. 

 

P1 – E ele nasceu fora e veio pro Brasil?

 

R – Meu pai veio para o Brasil jovem por ocasião de problemas políticos da Itália. Consta que meu avô chefiava uma estação de trem e ele, não se adaptando ao novo regime da Itália ele resolveu vir com a família para o Brasil e aqui se radicaram.

 

P1 – E a senhora morou em Campinas até que idade?

 

R – Eu não morei em Campinas, eu apenas nasci porque minha mãe casou-se em Campinas com o meu pai e vieram morar em São Paulo. E quando eu estava para nascer minha mãe foi pra casa da minha avó em Campinas pra que eu pudesse, pra ela ter aquela assistência, aquela ajuda da mãe dela. E eu nasci e logo depois vim pra cá, quer dizer, eu sou campineira apenas de nascença porque na realidade eu sou paulistana. 

 

P1 – E quando eles vieram, ficaram aqui em São Paulo, eles foram morar aonde?

 

R – Eles moraram algum tempo na Mooca. Eles comentavam que moraram na Mooca, depois, lembranças que eu tenho da minha infância, nós moramos uns tempos no Cambuci, depois voltamos a morar na Mooca. E depois, mais tarde, eu já estava atuando no Tribunal Regional Eleitoral na Rua Francisca Miquelina e eu resolvi me mudar ali pra Bela Vista pra não ter que enfrentar problemas de trânsito e tal. Eu passei a residir bem próximo ao Tribunal Regional Eleitoral. Depois eu me mudei um pouco mais pra cima, mais próximo da Avenida Paulista, e onde estou até hoje.

 

P1 – E a sua família era uma família grande?

 

R – Veja bem, do lado de meu pai eu tinha uma tia que já é falecida e por parte da minha mãe eu tinha cinco tios, quatro tias e um tio. Hoje apenas uma sobrevive. Quanto à minha família, minha mesmo, eu tenho três irmãos, vamos dizer assim, um irmão, uma irmã e uma que meus pais adotaram quando ela estava com 40 dias de vida. Meu irmão se casou muito cedo, posteriormente a minha irmã se casou. Eu fiquei em casa com minha mãe já viúva e com essa minha irmã adotiva, por adoção. Ela adotou uma profissão de Pedagoga e foi trabalhar numa escola do SESI [Serviço Social da Indústria] em Interlagos. Então, devido à distância, ela resolveu alugar um imóvel em Interlagos pra não ter que fazer a travessia da cidade diariamente e depois, posteriormente, ela comprou um imóvel pra ela. Então praticamente ela passou a residir sozinha e eu fiquei com minha mãe. Quando, por volta de 1978, a minha irmã veio a se separar, ela já contava com uma filha com sete anos de idade e ela veio morar comigo. Ela está até hoje comigo. Minha sobrinha veio a se casar, tem a casa própria dela, e nós ficamos praticamente com essa minha sobrinha morando perto de casa. Hoje ela tem uma filhinha que vai fazer cinco anos de idade e esteve em casa ontem. Como toda criança, bagunçou até dizer chega, né? E assim a gente vai vivendo. 

 

P1 – E, Dona Orleans, como foi a sua escolha profissional? Gostaria que a senhora falasse no que a senhora se formou e o que a senhora fez. 

 

R – Bom, eu iniciei meus estudos na escola primária, numa escola pública. Posteriormente, naquela época, admissão ao ginásio. Depois o curso ginasial eu fiz no Colégio Santa Catarina, na Mooca. Eu morava na Mooca e passei a estudar no Colégio Santa Catarina. Depois eu me formei no ginásio, eu fui pra Escola Normal do Colégio São José na Rua da Glória. Durante o meu período de Curso Normal eu tinha perdido o meu pai recentemente, então aquelas coisas de jovem: “Ah, eu preciso arrumar um dinheiro pras minhas coisas pessoais.” O meu pai trabalhava numa empresa que era um tipo assim Companhia Antarctica Paulista. Os donos da empresa deram sempre muito valor pro meu pai, muita consideração. Eu perdi o meu pai praticamente repentinamente e os proprietários dessa empresa, era um lanifício, eles jamais deixaram de prestar uma assistência pra minha família. Mas mesmo assim eu me via no dever de fazer alguma coisa pra poder colaborar até com as minhas despesas pessoais. E eu me lembro que eu fui procurar emprego num banco ali na Rua 15 de Novembro. Eu trabalhei algum tempo só. Eu na realidade não me adaptei. Adolescente, sabe, trabalhar com pessoas mais adultas, eu não me sentia muito tranquila. Então minha irmã nessa altura já era formada Professora, ela trabalhava num ginásio estadual, escola estadual, e o Diretor da escola vez por outra me chamava pra fazer uma substituição na ausência de uma das professoras. Eu comecei a fazer serviços assim esporádicos. Eu terminei meu curso normal, eu entrei na Faculdade de Filosofia Sede Sapientiae. Eu fiz um ano de línguas neolatinas, mas eu resolvi trancar a matrícula porque não era bem o que eu queria. Nessa altura, abrindo a página dos jornais, eu me deparei com uma notícia de que a Secretaria de Segurança Pública estava convocando jovens, moças já com curso secundário completo, pra ingressar no corpo de Policiamento Especial Feminino, a atual Polícia Feminina. E eu me interessei porque nós íamos ter primeiro um curso de seis meses com diversas aulas teóricas no período da manhã, aulas práticas à tarde, ginástica, defesa pessoal, e tudo isso me encantou, me chamou a atenção. Nós éramos umas 20 e poucas moças e eu fiz o curso durante seis meses, um curso remunerado, que pra mim foi muito bom, a remuneração era boa. E depois eu me formei. Eu comecei trabalhando em postos, porque naquela época a Polícia Feminina se desenvolvia mais pra uma assistência social. Então eu comecei trabalhando em postos de atendimento Estação da Luz, a antiga Estação Sorocabana, Aeroporto, algumas delegacias. E era muito comum pessoas chegarem do interior com problemas de doença procurando uma assistência melhor aqui em São Paulo, e nós fazíamos os encaminhamentos de indigentes, de crianças desaparecidas, perdidas vamos dizer, de pessoas doentes. Nós tínhamos um acesso muito bom na Santa Casa de Misericórdia, pra onde nós encaminhávamos, os prontos socorros municipais também quando era o caso. Até que houve um concurso na época do Governador Jânio Quadros. Houve não propriamente um concurso, mas ele ia fazer uma escolha de seis integrantes da Polícia Feminina, três pra serem assistentes da própria Comandante e três pra funcionar como chefe de grupo. Ele escolheu as três da primeira turma, eu já tinha sido da segunda turma, ele escolheu três da primeira turma pra ingressar como assistente e as outras três como chefe de grupo. E dentre as policiais da segunda turma eu fui a escolhida, então eu passei a atuar numa área mais administrativa, mais interna, fazendo escalas de plantão pras novas policiais e tal. Até que surgiu um concurso pro Tribunal Regional Eleitoral e eu resolvi prestar o concurso, fui aprovada. Então eu tive que me desligar da polícia e passei a trabalhar no Tribunal Eleitoral. Nessa altura, como eu já dispunha de mais algum tempo, até um pouco antes, quando eu passei a atuar como Chefe de Grupo, que eu tinha um horário mais estável, sem necessidade daqueles plantões de 12 horas, plantões intercalados, diurno, noturno. Quando eu passei a ter uma atividade mais certa, vamos dizer, em termos de período de trabalho, eu resolvi entrar pra Faculdade de Direito. Eu tinha um amigo que queria muito ingressar pra faculdade, e como eu tinha feito um ano de Filosofia na Faculdade de Filosofia, ele me pediu pra estudar com ele. E eu comecei a estudar um pouco latim, a língua latina, a língua francesa, passei a estudar com ele, pra ele se ver na obrigação de sentar-se à frente de uma mesa e realmente estudar, não ir pra rua pra fazer outra coisa. E pra minha surpresa ele foi fazer a inscrição dele na Faculdade de Direito e fez a minha também. Então eu fui prestar concurso, o vestibular. 

 

P1 – A senhora tinha quantos anos nessa época?

 

R – Eu estava com 25 anos, por aí. Eu passei, eu entrei pra faculdade. Ele não, ele ficou muito decepcionado. Mas enfim, e eu passei a cursar a Faculdade de Direito. Me dei muito bem. Curso noturno porque eu trabalhava durante o dia. Logo que terminei o curso noturno, eu tinha uma pessoa que me queria muito bem e a quem eu queria muito bem também, que era Diretor do escritório da Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] aqui em São Paulo, e ele me convidou pra fazer um estágio lá. Antes eu tinha feito um estágio num escritório de advocacia de um Procurador da Prefeitura aposentado. Ele tinha escritório ali na Avenida da Liberdade e eu passei a frequentar o escritório dele, mas ele não tinha muita atividade porque ele estava aposentado. Então eu ficava parada lá praticamente, lendo revistas de jurisprudência. Eu não tive aquele acesso ao Fórum que todo estudante anseia, entrar no Fórum, ver como é que funciona e tal. E nessa época o Diretor do escritório da Sudene em São Paulo me convidou pra fazer um estágio lá pra eu poder tomar conhecimento de todas aquelas leis de incentivos do imposto de renda pra aplicação no Nordeste, em áreas do Nordeste, e eu comecei a tomar conhecimento desses assuntos. E numa determinada época a Companhia Antarctica tinha terminado um empreendimento em Pernambuco, na Cidade de Olinda e estava às voltas com um empreendimento na Bahia, mas ela tinha outros dois concorrentes também que queriam ingressar na fabricação de cervejas no Estado da Bahia se utilizando dos incentivos fiscais. E com aquela preocupação de querer ter o seu projeto aprovado, a Antarctica esteve no escritório da Sudene aqui em São Paulo e, em conversa com o Diretor, o Diretor me indicou pra ingressar na Antarctica, pra colaborar com a Antarctica nesse projeto de instalação de uma cervejaria que veio depois a ser instalada em Camaçarí. Então eu trabalhava no Tribunal Eleitoral, nessa altura eu tinha praticamente 13 anos de funcionalismo. Eu trabalhava meio período no Tribunal Eleitoral e passei a trabalhar, com contrato de autônoma, meio período na Companhia Antarctica. Então me arrumaram uma saleta onde eu exercia a minha função lá. Sempre que solicitada eu dava um parecer, uma manifestação a respeito do problema específico ligado à Sudene. Depois de algum tempo o projeto foi aprovado e tal e eu já estava praticamente com o meu trabalho encerrado, mas o Dr. Walter Belian, que na época era Diretor Presidente da Companhia Antarctica, ele me chamou e disse: “Eu queria que a senhora trabalhasse aqui conosco em período integral.” Eu fiquei assim, consultei uns amigos: “O quê que eu faço?”, porque também eu não queria largar os meus 13, 14 anos de funcionalismo. E eu resolvi pedir uma licença sem vencimentos no Tribunal Eleitoral pra poder fazer uma experiência dentro da Antarctica porque até então eu já ia mudar de atividade e eu não sabia, não tinha noção de como seria a minha aproximação com colegas, aquela convivência toda com novos colegas. Aí eu pedi uma licença sem vencimentos por dois anos no Tribunal Eleitoral. Mas justamente naquele ano foi época de eleições e eu fui reconvocada pra poder trabalhar nas eleições. Então eu tive que optar, ou eu volto pro Tribunal e largo a Antarctica ou fico na Antarctica e largo o Tribunal. E foi o que eu fiz, porque nessa altura eu já tinha sido convidada, eu já estava com o contrato de trabalho assinado na Antarctica e eu passei a trabalhar diretamente com o Presidente da empresa porque ele entendeu que os assuntos todos que iam até ele, passando por mim pra eu dar uma lida pelo menos naqueles expedientes todos, eu vim a tomar conhecimento de toda a empresa, a empresa como um todo, e não ficar especificamente  nos problemas ligados à Sudene. E assim foi. Eu tive ocasião de participar de alguns regulamentos, regulamento da garagem de passeio, o regulamento de pessoal que estava sendo transformado, renovado. Com isso eu fui me entrosando com certos empregados da Antarctica, empregados já até graduados e tal, e fui me tornando assim “antarcticana”, vamos dizer. Comecei a ter muito amor pela empresa porque, como dizia o Dr. Walter Belian, e ele fazia questão de repisar isso em todas as petições da Companhia Antarctica. A Antarctica sempre foi uma empresa eminentemente social e não egoisticamente capitalista. Em qualquer empresa que age dessa maneira, em prol dos empregados, eu nunca vi, nos meus 30 e tantos anos de Antarctica eu nunca vi ninguém reclamar de falta de pagamento de salário, sabe? Que, vamos dizer, pagamento de salário era o mínimo que a Companhia Antarctica podia fazer. Mas e os outros benefícios todos que os empregados recebiam? Em termos de fundação eu me lembro, o Dr. Walter Belian faleceu por volta de 1982. Assumiu o posto dele a irmã dele, Dona Erna Belian Wernsdorf Rappa. Dona Erna era uma senhora que tinha um coração sem tamanho. Muitas vezes, as portas da sala dela estavam sempre abertas pra receber qualquer empregado, e muitas vezes eu presenciei um operário, um motorista ir até a sala dela, muitas vezes com lágrimas nos olhos porque morava na periferia de São Paulo e de repente, num estado de temporal, qualquer coisa, a casa tinha vindo abaixo. E ela muitas vezes tirava do bolso o dinheiro pra colaborar com a pessoa pra reconstrução da casa, sabe? Então a Antarctica sempre foi uma empresa muito voltada para o social. E isso fez com que eu realmente fincasse o pé cada vez mais e procurasse exercer o melhor do meu trabalho, dar o melhor que eu tinha de mim pra poder permanecer na Antarctica. E de fato eu continuei lá durante muito tempo, sempre fui muito respeitada. Eu tenho assim um carinho muito grande para com todos aqueles que integraram o Conselho de Administração da Antarctica, Diretoria da Antarctica, porque eu sempre fui muito bem atendida por todos, muito respeitada. Eu só tenho a agradecer à Companhia Antarctica. O que eu tenho hoje, em termos de bens materiais, eu posso dizer, eu moro em casa própria, eu tenho o meu automóvel, eu devo à Antarctica tudo isso. 

 

P1 – E, Dona Orleans, eu queria que a senhora falasse um pouquinho do Seu Walter Belian  e da Dona Erna, como eles eram, como eles trabalhavam na companhia e se houve uma diferença, uma mudança quando ele faleceu e ela assumiu. 

 

R – Dr. Walter Belian era um cidadão muito admirado, era um líder. Ele tinha uma visão de assuntos que poderiam ocorrer no futuro. A impressão que eu tinha é que ele tinha uma premonição de tudo que poderia acontecer. Eu me lembro do embargo do petróleo. E ele já, em função de ter determinadas notícias internacionais, ele já visualizava o que poderia acontecer no Brasil e principalmente naquilo que pudesse afetar a própria Companhia Antarctica. Então ele já tomava as decisões antes mesmo de acontecer qualquer coisa aqui no país. Dr. Belian era um cidadão firme, exigente, ele exigia o cumprimento do trabalho, mas também nunca deixou de proporcionar o bem estar pra todos os seus empregados. Ouvia-se muito falar, em tempos atrás, em greves. Eu não me lembro da Companhia Antarctica Paulista, dos empregados da Antarctica terem iniciado um movimento grevista, porque não havia necessidade realmente. E era assim, era um homem justo, firme nas decisões, exigia o cumprimento do trabalho, sem deixar de lado aquela vocação social, até porque o Dr. Walter Belian foi o que conduziu, vamos dizer, os destinos da Fundação Antonio e Helena Zerrenner. Ele, como testamenteiro do casal Zerrenner, ele fundou a Fundação Antonio e Helena Zerrenner e presidiu, durante muitos anos, o Conselho Orientador da Fundação Zerrenner e, por força da própria fundação que era o maior acionista da Companhia Antarctica e cujos rendimentos, vamos dizer assim, os dividendos da Companhia Antarctica revertiam em prol da fundação pra ser revertida em benefício dos seus empregados que se tornavam beneficiários da fundação. Então isso tudo já revela o ambiente social, vamos dizer, da Companhia Antarctica e da própria fundação. 

 

P1 – E a Dona Erna, como era?

 

R – A Dona Erna sempre trabalhou ao lado do Dr. Belian mas enquanto ele vivo ela se dedicava mais aos assuntos da fundação. E trabalhava também, atuava também em assuntos da Companhia Antarctica, mas não com toda aquela expressão do Dr. Belian, até porque ela estava sempre mais voltada pros assuntos da fundação. Com o falecimento do Dr. Belian a Dona Erna assumiu o posto de Presidente, mas ela tinha um assessoramento muito bom dos diretores da Antarctica. E logo três, quatro anos depois Dona Erna veio também a falecer. Então a Companhia Antarctica resolveu adotar, pelo novo regimento da Antarctica, um Conselho Colegiado em que os integrantes do conselho se revezavam semanalmente. Em cada sessão de reuniões um deles era o Presidente da sessão, mas eles passaram a trabalhar como colegiado, não tinha mais um presidente efetivo. E cada um voltado pra sua atuação específica, um voltado pra área industrial, outro pra área comercial, outro pra área administrativa, a área jurídica. 

 

P1 – A companhia não sentiu, não teve um baque com essa mudança? Não houve...

 

R – Eu nunca percebi isso porque todos os que integraram o Conselho de Administração, ou eles já vinham de uma época anterior, daquela mesma escola implantada pelo Dr. Belian , ou então os novos que ingressaram já eram empregados da Antarctica e também imbuídos desse mesmo pensamento, dessa mesma ideia de um conceito maior de Antarctica. 

 

P1 – Só voltando um pouquinho. Quando a senhora foi pra Antarctica, foi trabalhar lá, qual foi a primeira impressão que a senhora teve? A senhora acha que foi muito diferente da onde a senhora estava?

 

R – Ah, fiquei assustada. Realmente fiquei assustada porque era uma empresa nova, uma empresa privada, e eu estava habituada com o funcionalismo público onde, eu posso dizer isso, os trabalhos são todos eles mais ou menos esquematizados, tem uma sequência, uma rotina de trabalho que você não precisa pensar um pouco sobre aquilo que vai fazer. Na Companhia Antarctica pra mim tudo foi novidade, a forma de trabalho, o próprio trabalho em si. Pra mim tudo era novidade. Até que eu prestava aquela assessoria, vamos dizer, em termos de assuntos da Sudene. Eu tinha toda a legislação da Sudene, então pra mim não exigia um trabalho pra puxar muito pela cabeça, vamos dizer assim. Mas depois que eu passei a trabalhar eu fiquei quase um ano trabalhando diretamente com o Diretor Presidente. Aqueles assuntos mais diversos da Companhia Antarctica pra mim eram novidade. Os problemas de área industrial, de administração, os problemas de área comercial, pra mim tudo era novidade. Mas era muito interessante porque eu estava aprendendo. Depois de um certo tempo, eu me lembro que uma ocasião o Dr. Belian, eu trabalhava ao lado dele, ele tinha uma secretária e eu trabalhava ao lado dele na mesma mesa de trabalho. Passado esse estágio que eu fiz com ele de nove meses, quase dez meses, ele um dia disse pra mim: “Eu faço assim com as pessoas, eu costumo jogar as pessoas na piscina. Se ela souber nadar, ela sobrevive. Caso contrário, ela afunda.” Então ele achou com isso que eu já estava preparada pra iniciar uma atividade na companhia e me colocou na Consultoria Jurídica onde, pra minha surpresa, quem estava na Consultoria Jurídica como ápice da Consultoria Jurídica era o Professor Celso Neves que tinha sido o meu professor na Faculdade de Direito, de Direito Processual Civil. Eu não sabia que ele estava ligado à Antarctica, pra mim foi uma surpresa. E além da surpresa, uma agradável surpresa porque eu passei a trabalhar diretamente com um dos professores. Não preciso dizer quem é o Professor Celso Neves, vocês devem ter conhecimento da expressão dele como jurista no país e até internacionalmente, com livros publicados. Hoje ele é Professor Emérito da Faculdade de Direito porque, por força da idade, ele veio a se aposentar. E hoje ele já está com uma idade avançada, mas não perdeu ainda aquela figura de um eminente Mestre de Direito. Com ele eu aprendi muito também, até dentro da profissão, porque a gente sai da faculdade com muita teoria e a prática vai ficando um pouquinho de lado. E com o Professor Celso Neves nós tivemos chance de, até colaborando com ele nos trabalhos dele de maior envergadura da Companhia Antarctica, os problemas mais difíceis de serem enfrentados, nós colaborávamos com ele e com isso a gente foi aprendendo cada vez mais. Isso foi muito agradável. Eu tive a grata satisfação de receber, por isso que eu disse que eu tenho uma enorme gratidão para com a Companhia Antarctica, eu tive ocasião... Eu entrei pra Antarctica como autônoma em 1967. Já em 1970 eu fui agraciada com o cargo de Diretora de uma empresa que a Antarctica tinha em Campinas, a Cervejaria Columbia. É verdade que nós tínhamos lá gerente que atuava no dia-a-dia, mas eu tinha um título que pra mim foi recebido com muita honra. Uns tempos depois a Companhia Antarctica resolveu aglutinar as três filiais dela. Ela transformou a Cervejaria Columbia na Indústria de Bebidas Antarctica Bandeirantes, aglutinando as três unidades que ela tinha em Campinas, em Bauru e em Marília, e eu fui agraciada com o título de Diretora Presidente desse grupo. Mais uma vez pra mim gratificante. Posteriormente, logo que encerrou a minha função na Indústria de Bebidas Antarctica Bandeirantes, Dona Erna era Presidente da Companhia Antarctica e a Presidente do Conselho Orientador da fundação, ela resolveu me conduzir para a fundação e eu assumi o cargo lá primeiramente de... eu integrei uma comissão, Comissão Especial de Beneficência e Sindicância. O quê que consistia isso? A fundação tinha o corpo de beneficiários e muitos deles solicitavam às vezes um auxílio da fundação. Então essa comissão examinava o pedido e deferia ou não dependendo do pedido em si. E nós tínhamos por função também, essa comissão, de visitar os diversos estabelecimentos da fundação pra ver se eles estavam se conduzindo a contento em termos de assistência aos nossos beneficiários. Eu costumo dizer, toda vez que nós recebíamos uma visita na Companhia Antarctica eu fazia questão de levar a visita pra conhecer principalmente a nossa creche. Nós tivemos, nós Antarctica, eu estou dizendo nós me referindo à Companhia Antarctica, ela mantinha uma creche para os filhos de empregados que era considerada modelo. E como a creche funcionava próximo, num prédio próximo ao empreendimento industrial, administrativo e industrial, era o local mais fácil para conduzir uma visita. E realmente todos se encantavam. E eu costumava contar pra essas visitas o histórico de uma pessoa dentro da Antarctica. Então o empregado da Antarctica que tinha os direitos de assistência médica da própria fundação, ou a empregada grávida, ela dava à luz no Hospital Santa Helena que era mantido pela fundação. A criança nascia às expensas da fundação e posteriormente as filhas de empregadas, elas voltavam depois daquele período de amamentação, o período legal da gestante, a empregada voltava a trabalhar e deixava a criança na nossa creche, creche modelo. Eu não vou nem dizer pra vocês o que tinha dentro dessa creche em termos de aparelhagem. Era realmente uma creche modelo. Posteriormente a criança ficava lá até quatro, cinco anos de idade, cinco anos, seis, ela era transferida pra nossa escola no Cambuci. Nossa escola, escola da fundação, mantida pela fundação, com o nome hoje Escola Técnica Walter Belian, que foi o patrono da escola. A Dona Erna passou a ser a madrinha e ele o patrono da escola. Nessa escola nós mantínhamos o curso primário na época, depois passou a curso fundamental onde a criança ficava até terminar aquele ciclo de oito anos e depois passava pra Escola Técnica. Na Escola Técnica nós tínhamos os cursos de Eletrotécnica, Química, Secretariado, mais voltado pras moças, Artes Gráficas. E o interessante é que muitos desses alunos depois se firmavam como empregados da própria Antarctica. E muitos deles, era comum nós verificarmos, ao final de cada ano, os laboratórios principalmente, irem até as portas da nossa escola pra chamar candidatos, os nossos alunos que estavam se formando, pra trabalhar nos próprios laboratórios deles, esses laboratórios de nome. E o ciclo se renovava, quer dizer, o aluno saia da escola, ia pra Antarctica e aí se renovava. Vinha a se casar, de repente vinha a ter filhos e a história continua. Nós sempre tivemos a Antarctica, sempre consideramos, eu particularmente, a Antarctica como uma grande família em função disso, dessa renovação, vamos dizer, das pessoas sempre vindas de um mesmo tronco. 

 

P1 – E essa forma de administração, essa forma de entrosamento, de benefícios, isso também ia pras filiais ou era uma coisa que se concentrava mais em São Paulo?

 

R – Veja bem, em termos de assistência da própria fundação, ela podia estender-se a outros estados. Que o Brasil, a Antarctica era, em termos de país vamos dizer, continental. Ela tinha empresas do Sul até o Norte, abrangendo todo o Nordeste, Centro-Sul. Obviamente que poderia até se estender, mas era muito difícil. Por que? A creche, ninguém vinha do Estado da Bahia ou do Piauí pra trazer uma criança pra nossa creche. Então, cada unidade mantinha esses mesmos serviços na sua região. Era muito difícil trazer uma criança pra nossa escola, isso estava mais restrito ao pessoal da própria capital. Mas a Companhia nunca se furtou a atender alguém. Por exemplo, no hospital alguém que estivesse com um problema sério de saúde, que não pudesse ser tratado no seu local de trabalho, na sua região de moradia, muitas vezes. Um beneficiário da companhia, das antigas empresas da Antarctica, não das mais novas, vamos dizer, mas daquelas mais antigas que era o pessoal de Campinas, de Bauru, que eram filiais da Antarctica muito antigas, e de repente um empregado vinha a envelhecer, a se aposentar, não tinha ninguém da família pra cuidar dele. Pra ele não ficar totalmente só, abandonado na via pública, ele era recebido pela fundação sim. Nós mantínhamos, nós da fundação mantinha o Lar dos Idosos, uma casa muito bem instalada no Tremembé, onde estavam os nossos beneficiários idosos, quer dizer, aqueles empregados que estavam impossibilitados de trabalhar, ou por moléstia ou por velhice. O empregado mais novo que tivesse se acidentado e que não tivesse possibilidade de um deficiente que não tivesse mais campo de trabalho, as portas do nosso lar estavam sempre abertas pra abrigá-lo. 

 

P1 – A senhora estava falando, voltando um pouquinho pra Antarctica, a gente estava falando de fundação agora, a senhora tem conhecimento de como era a relação aqui da Antarctica com o pessoal de Maués, do guaraná? Como que...

 

R – Eu viajei muito pela Antarctica e eu nunca tive ocasião de chegar até Maués, até porque, me parece, pelos comentários que nós ouvíamos, a chegada até Maués era um tanto quanto difícil, por barco, pelos rios e tal. A lembrança que eu tenho de Maués é que a Antarctica comprou lá uma fazenda, Fazenda Santa Helena, pra plantação de guaranazeiros que depois eram aproveitados pra própria fabricação do Guaraná Antarctica. 

 

P2 – E com relação a... a gente estava falando da Antarctica e da fundação mescladas, né?

 

R – É. 

 

P2 – O que representava, a senhora já explicou bastante do trabalho da fundação junto com os funcionários, mas o que representava na vida desses funcionários a fundação também?

 

R – A fundação sempre foi mãe pra todos esses funcionários. Veja bem. É comum, até nos dias de hoje, pedir é muito fácil, tá certo? Até nos dias de hoje, qualquer assunto que se levante hoje aqui na cidade de São Paulo, seja lá onde for, quem se vê no direito de merecer alguma coisa, pede. Às vezes nem sempre tem os seus méritos pra receber aquilo que está pedindo. Mas em termos de fundação e Antarctica, eu acredito que, sendo beneficiário da fundação, jamais a fundação deixou de proporcionar aquilo que o beneficiário precisasse. É claro que um pedido abusivo de alguém que muitas vezes nem era beneficiário e que não precisava de determinado benefício, muitas vezes era negado porque nós não podemos deixar de dizer que em toda coletividade sempre tem um grupo de aproveitadores, certo? Então isso tudo sempre foi muito bem analisado. Uma coisa eu posso dizer, os que mereciam algum benefício, os empregados da Antarctica, aqueles que mereciam algum benefício que se enquadrasse no regulamento da fundação, jamais deixou de receber. 

 

P2 – E com a formação do Grupo Antarctica na década de 1980 que ampliou a atuação, as atividades do grupo, na área jurídica, que é a de atuação da senhora, o quê que mais se modificou nesse período?

 

R – Olha, modificação propriamente nenhuma porque os códigos são nacionais, eles alcançam todo o território nacional. A Antarctica tinha unidades, ela como Antarctica tem ainda hoje já com uma nova nomenclatura, mas tinha unidades do Rio Grande do Sul até Manaus, pegando toda a área do Nordeste, Centro-Sul, litoral, Rio de Janeiro, Espírito Santo, diversas unidades fabris. É claro que quando uma dessas unidades viesse a ter um problema de ordem jurídica, cada unidade contava com o seu grupo de advogados ou escritório de advogados contratados pra poder atuar, até porque o pessoal de São Paulo não tinha como estar viajando pra uma audiência, pra um acompanhamento de processo. Mas muitos deles se baseavam naquela estrutura ditada pela Companhia Antarctica. Num determinado assunto, por exemplo, um assunto de ordem fiscal, eu me lembro de um deles numa determinada época que a Receita Federal, a Antarctica tinha contrato com distribuidores de bebidas, certo? Ela tinha, as diversas unidades fabris mantinham contratos de distribuição com alguns distribuidores, porque a Antarctica não fazia distribuição direta. Então ela tinha um contrato com o distribuidor, de cotas, de retiradas e tal, embora tudo fosse supervisionado pela Antarctica em termos, por exemplo, de comercialização de marketing, tudo isso a Antarctica, é claro, fiscalizava porque o nome dela é que estava em jogo. E eu me lembro que uma ocasião a Companhia Antarctica entendeu que as próprias distribuidoras que eram beneficiadas com o lucro que obtinham na venda de bebidas, elas deveriam contribuir com uma parcela do custo da promoção, da publicidade, do marketing da própria marca. Então foi feito um contrato com as distribuidoras, um contrato de propaganda pra elas colaborarem nas despesas de propaganda. E a Receita Federal entendeu que aquilo era um sobre-preço do produto que era vendido e entendeu de taxar a companhia com um IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] maior, não só sobre aquele preço que a Antarctica declarava sobre a saída da mercadoria mas sim entendendo que aquele valor que era cobrado pras despesas de  propaganda era uma sobretaxa. E com isso nós Antarctica sofremos uma série de autuações em leque. Pegou o Estado de São Paulo, as unidades do Estado de São Paulo, depois Rio de Janeiro e todas as outras unidades porque esses assuntos de ordem fiscal se abrem como leque. Pegou um problema numa das empresas, seja ela qual for, eles avançam em todas as demais unidades do país. E nós tivemos um trabalho muito intenso. Esse trabalho foi desenvolvido no âmbito da Antarctica, a Antarctica mãe, vamos chamar. Nós desenvolvemos um trabalho, eu colaborei bastante com esse trabalho. Eu me lembro que eu fui buscar os primórdios do Imposto de Propriedade, o IPI, que vinha lá da Inglaterra, tal, e citamos todos esses fatos. Quer dizer, nós tínhamos praticamente uma base pra poder, contra impugnar aquela exigência do fisco. E isso servia pra todos os outros escritórios. Então, pra cada um, cada unidade promover a sua defesa, eles se valiam dos argumentos que eram remetidos pela própria Antarctica. Que nós atuávamos lá na Antarctica em termos jurídicos dando uma diretriz pra que todas as outras unidades seguissem os mesmos passos. 

 

P2 – E a Antarctica, todo esse trâmite jurídico ficava centrado na empresa ou ela tinha contrato com escritórios?

 

R – Então, foi o que eu falei. Tinha escritórios, sim, de advocacia, mas mais naquele sentido do escritório poder fazer uma petição. Às vezes nós temos prazos de cinco dias, pelo código, pra você entrar com determinadas medidas judiciais. Então, se tivesse que atuar, por exemplo, em Manaus. Alguém sair de São Paulo pra ir até Manaus pra levar uma petição assinada e depois voltar, não valia a pena. Então nós tínhamos advogados lá que, sob uma orientação maior da Companhia Antarctica, preparava a petição, já assinava e entregava lá mesmo. Os escritórios regionais funcionavam mais no sentido de dar aquele acompanhamento processual pras controladas da Companhia Antarctica no próprio local, quer dizer, acompanhar o processo no dia-a-dia, entrar com uma medida, uma petição na hora que exigia, estar presente numa assentada, numa... toda vez que tinha assim uma assentada pra colher provas do processo, com oitiva de testemunhas, tudo isso. Então nós tínhamos os advogados locais pra isso. Quando uma questão às vezes ficava um pouco mais complicada, então um dos advogados da Antarctica era deslocado pra ir na própria unidade pra entrar num entendimento lá com, pra trabalhar em conjunto, vamos dizer, com os escritórios locais, dar um suporte. 

 

P2 – E existiam outras advogadas também atuando junto com a senhora?

 

R – Ah, sim. A Companhia Antarctica tinha diversos setores. Veja bem, nós tínhamos a área trabalhista que atuava exclusivamente com processos do trabalho. Nós tínhamos uma área tributária. Além da tributária nós tínhamos departamento de ações onde, veja bem, a maior parte das atividades eram os processos administrativos, as questões de ordem administrativa, sem prejuízo de atuar numa medida ou de um processo administrativo ou até de um processo judicial também. Cada setor que demandava, vamos dizer, a necessidade de ter um advogado pra acompanhamento dessas causas levantadas tanto pelo administrativo, administrativo que eu digo é Receita Federal, Ministério do Trabalho, esses órgãos governamentais. Além de nós termos, de a Antarctica manter advogados especializados nessas áreas, ela mantinha também a consultoria jurídica que praticamente abraçava tudo isso, que estava sob a égide do Professor Celso Neves. 

 

P1 – Indo na carona da pergunta do Rodrigo, todas essas áreas, assim, existiam muitas mulheres trabalhando? 

 

R – Não muitas, algumas. Algumas, algumas. A Antarctica, não me lembro da Antarctica ter alguma discriminação, vamos dizer, quanto às mulheres, ao setor feminino, quanto, até em termos de salário. Lá não tinha esse negócio de, porque é mulher, ganhar menos que o homem, não. Ela jamais teve algum problema, algum preconceito quanto a pessoas de cor. Nós tínhamos pessoas de cor trabalhando na companhia, e excelentes profissionais. Nós tínhamos alguns deficientes, aqueles que podiam exercer determinadas atividades independentemente da sua deficiência. Nós tínhamos um garoto, por exemplo, que teve a infelicidade de perder uma perna. Ele já era empregado da Antarctica e ele teve a infelicidade de perder uma perna num acidente de trem. Muitos deles vinham de São Caetano, Santo André, e vinham pela estrada de ferro que tinha uma estação ali na Mooca. Então praticamente era atravessar a rua e estava na companhia. Esse rapaz teve a infelicidade de perder uma perna, mas depois, com o tratamento todo que ele recebeu, com a perna mecânica e tal. Ele trabalhava num setor... Por sinal ele foi muito meu amigo, gostava muito dele, gosto muito dele. Ele trabalhava num setor, que a Antarctica mantinha lá um salão com produtos dela que ela vendia pros empregados, só para os empregados. Era um centrinho de distribuição, vamos dizer. Então tinha lá os produtos da Antarctica de modo geral, cervejas, refrigerantes, os produtos Dubar, porque a Dubar era uma controlada da Antarctica. Então você precisava de um licor em casa, entrava lá e comprava, evitava de ir buscar em supermercado e tal. E esse rapaz é que tomava conta. A deficiência dele não o impedia de, entre aspas, gerenciar esse minimercado. 

 

P1 – Dona Orleans, a Antarctica teve muitas aquisições, né?

 

E – Sim. 

 

P1 – Ela se expandiu muito. Ela nunca teve problema com isso?

 

R – Com as aquisições em si?

 

P1 – A compra de outras companhias. 

 

R – Sabe, eu acredito que não porque, veja bem, como é que ela adquiria certas... muitas das empresas ela mesma levantou, construiu. Essas do Nordeste e mesmo as da Amazônia que fez até com a ajuda dos incentivos fiscais. Agora, outras, quando ela se via na iminência de uma empresa estar numa situação tal querendo, os donos, os proprietários querendo vender, e eles certamente, acredito, deviam procurar as maiores empresas, as empresas que poderiam ter eventual interesse, então se acertava preço e tudo bem. O que podia haver, eventualmente, numa ou outra circunstância, era o problema da competitividade. Então de repente vem lá uma outra empresa do mesmo ramo querendo botar uma peninha no meio do negócio, tal. Mas não tinha porque atrapalhar, porque a partir do momento que você elabora um contrato de compra e venda das ações daquela determinada empresa, muitas vezes dependendo da estrutura da empresa, é submetida aos conselhos monetários, e com a aprovação deles não tem mais o que. Depois é brigar só pela marca. Isso sempre existiu, a guerra de cervejas, e vai continuar existindo. Já não existe mais hoje a briga entre a Antarctica e Brahma porque as duas pertencem a uma empresa só, mas nós temos outras empresas aí cervejeiras que de vez em quando, a gente vê até pela própria publicidade na televisão, que uma procura machucar a outra. 

 

P1 – E essa coisa da competição, competitividade. Era acompanhado de perto esses, existia lá uma área que era específica?

 

R – Sim, a área nossa de comercialização sempre atenta a tudo isso. Nós tínhamos uma área específica. Nós tivemos um gerente, o Sr. Bertonssini. Ele era uma piada, sabe, porque ele era uma pessoa, vamos dizer assim, ele não tinha talvez um estudo maior, um estudo superior e tal, e ele, no seu linguajar do dia-a-dia muitas vezes, como eu agora também, porque às vezes depende muito da situação, você tropeça numa palavra. Então ele tropeçava em algumas palavras às vezes, e isso numa coletividade de amigos, de colegas de trabalho, muitas vezes serve de piada, de brincadeira. Mas ele era um cidadão muito estimado pela empresa pela sua atividade. O quê que ele fazia? Ele fazia aquilo que se chama de propaganda boca a boca. Ele ia nos bares, sabe, ele ia nos restaurantes, e ele vendia Antarctica com o papo dele, sabe? Então ele era um empregado, sempre foi um empregado muito importante pra Antarctica. E assim como ele, outros também. Não uma maioria, mas nós tínhamos uma minoria, a Antarctica tinha uma minoria de empregados ligados à área comercial que fazia isso, aquela chamada propaganda boca a boca. E com isso a Antarctica sempre esteve num dos ápices, sempre lutou por isso, pra estar no topo. Vocês gostam de ouvir histórias da Antarctica, né? E eu tenho uma história muito interessante pra contar pra vocês, uma das que eu me lembre. Porque claro que, não tanto nos horários de trabalho, que o pessoal realmente se dedicava ao trabalho, mas nas horas de almoço nós tínhamos um refeitório dentro da própria companhia onde nós fazíamos refeições. Comida muito boa, sempre. E nós nos reuníamos ali, naquela conversa de colegas, conversa de mesa de trabalho. Fora isso, era ambiente de trabalho. E os empregados da Antarctica, principalmente os de determinadas áreas, a área comercial, a área industrial, a área técnica, muitas vezes a auditoria, porque a Antarctica anualmente procedia a auditorias nas unidades dela pra fazer um levantamento e pra ver se todo mundo estava se comportando bonitinho, direitinho. Então o pessoal de vez em quando tinha que viajar, um ia pro Sul, outro ia pro Norte, de vez em quando outro pro Nordeste, enfim, pras diversas unidades da Companhia Antarctica. Então de repente tinha um problema lá, digamos, em Belém do Pará: “Ah, tem que mandar um técnico daqui de São Paulo.” Tudo bem. Ele saia com as instruções e saia com um determinado pacote bem embrulhado, bem fechado. E o chefe dele chegava até ele: “Olha, isso aqui é uma máquina de alta precisão. Você não vai despachar, você toma muito cuidado durante o voo, não vai deixar em cima pra não cair. Você carrega possivelmente sempre no colo com o maior cuidado. Cuidado quando entrar num táxi e tal. Chegando lá na unidade você entrega pra fulano de tal.” E tudo bem, o camarada ia com aquilo como se fosse uma joia, levava lá. Entregava, exercia as funções dele e vinha embora. Posteriormente aquele que tinha recebido o tal pacote recebia um outro funcionário lá, ou alguém da própria unidade que devesse ir pra um outro local. Não se alguém já contou isso pra vocês. Devesse ir pra um outro local. Então o cidadão de lá de Belém do Pará: “Olha, nós temos uma encomenda aqui pra você levar lá em tal unidade    . Leve com o maior cuidado, com o maior carinho, muito bem embrulhado. Cuidado no voo, não vai despachar. Isso é precioso, é uma máquina de alta precisão, um instrumento de alta precisão e tal.” E tudo bem, e o camarada levava. Olha, esse pacote viajou o Brasil inteiro e no final, eu não me lembro bem quem foi que resolveu um dia abrir o tal pacote, era um tijolo. Sabe esses monoblocos? Ele viajou o Brasil inteiro com essa história. 

 

P1 – Com todo o cuidado. 

 

R – É. Então a companhia tinha dessas coisas, sabe, essa amizade que muitas vezes evolvia até pra certas brincadeiras, essas pegadinhas que faziam. Eram muito bom trabalhar na Antarctica, sabe? Foi muito bom, foi uma experiência muito boa da minha vida. 

 

P2 – E quando começou o processo de fusão, no final da década de 1990, 1999?

 

R – 1999. Nós tivemos notícias em julho de 1999. O problema da fusão foi tratado com o maior sigilo e de repente, num dia de julho de 1999, a Companhia Antarctica fez um comunicado e colocou nas portas dos elevadores, nos corredores e tal. Por que? Porque a imprensa já vinha divulgando o fato da fusão. Pra mim particularmente isso foi tido como uma surpresa muito grande. Eu jamais poderia imaginar que a Antarctica viria um dia a se associar à Brahma, que a gente sempre teve assim a Brahma como uma empresa concorrente, competitiva, uma empresa pra gente brigar e não se aliar, certo? E de repente, foi tida como uma surpresa muito grande. Aí vieram aqueles primeiros trabalhos de Antarctica. O pessoal da Brahma adentrando a Antarctica pra se assenhorear dos procedimentos administrativos da Antarctica. A Antarctica, por sua vez, já procurando arrumar o seu pessoal. Alguns queriam trabalhar na própria AmBev, outros que já estavam com tempo pra se aposentar. Eu, por exemplo, eu fui chamada pra ver se eu queria entrar no plano de aposentadoria complementar. Eu já estava aposentada pelo INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], mas eu continuei trabalhando ainda na Antarctica. Então de repente eu fui chamada pelo Departamento Pessoal: “Porque a situação é essa. Hoje as duas estão juntas, o quê que você quer fazer?” E eu optei então pra entrar no plano de aposentadoria complementar, muito embora eu tivesse ficado ainda até por mais um ano como empregada da AmBev. Empregada não, como autônoma, porque eles firmaram um contrato de autônoma comigo porque nessa época a Antarctica estava às voltas com processo, com distribuidor, na área da Flórida, lá nos Estados Unidos, e eu tinha sido indicada pra acompanhar o processo, como sempre. A Antarctica tinha advogados lá pra atuação do processo, mas eles precisavam de documentação e de informações a respeito do problema em si. E eu fui indicada pela Companhia Antarctica pra poder centralizar todo esse assunto, centralizar informações e pra ser um meio de contato com os advogados lá de Miami. E o processo estava ainda se desenvolvendo quando houve a fusão da Brahma com a Antarctica. Então fizeram um contrato comigo, um contrato de autônoma por um ano. Mas no final do ano, quer dizer, seis meses depois, o pessoal da AmBev já nessa altura foi numa audiência lá de Miami e resolveram fazer um acordo pra acabar com a discussão. Fizeram um acordo lá com o distribuidor e encerrou o processo. Então com isso eu fiquei praticamente isenta de qualquer trabalho tanto em termos de Antarctica como em termos de contrato com a AmBev. Mas, em meados de 1999, como todo povo da Antarctica foi chamado pra acertar a situação, rescisão de contrato de trabalho, um ou outro que foi aproveitado ainda pra trabalhar na própria AmBev e aqueles que já tinham tempo pra se aposentar e que optaram realmente pela aposentadoria. Um deles foi o primeiro provedor da fundação. Ele resolveu se aposentar e ele ficou até dezembro de 1999. Em dezembro de 1999 ele pegou o chapéu e foi embora, e eu tive que assumir a fundação porque eu era a segunda provedora nessa altura. Então eu tive que assumir os trabalhos do primeiro provedor numa fase de transição da fundação. Por que? A fundação já não tinha mais necessidade de administrar a creche que era mantida pela Antarctica porque a creche, o centro de puericultura era mantido pela Antarctica, mas era administrado pela fundação. O pessoal era da fundação, as refeições todas por nutricionistas da fundação. Nós não tínhamos mais o centro de puericultura. Por que? Porque as empregadas já tinham ido embora e não tinha mais criança. Cada uma carregou seu filho. Nós não tínhamos mais necessidade de manter o Lar dos Idosos. Nós fizemos contato com diversas instituições e optamos depois por uma casa em Cotia. Como é que chama lá? Esqueci o nome agora. Uma casa de repouso lá em Cotia. Entramos em entendimento com os diretores da casa, firmamos um contrato e removemos todos os nossos anciãos para essa casa, e foi fechado, obviamente, o nosso Lar dos Idosos. Em termos de hospital, o hospital sempre foi administrado por empregados da fundação e de repente se resolveu que a fundação podia manter um contrato de administração com uma outra entidade qualquer também. Entrou-se em contato com diversas entidades e por força, depois, de negociações e tal, se resolveu passar a administração pra Unimed Paulistana, que está lá até hoje. Obviamente, como o hospital estava em atividade, muitos dos próprios empregados e dos médicos empregados e dos médicos contratados, muitos deles continuaram, com exceção de alguns poucos que resolveram se retirar do Hospital Santa Helena e a Unimed supriu as falhas com outros profissionais. E a fundação passou a rever os seus estatutos. Por que? Porque por força da fusão da Brahma com a Antarctica, e a Brahma mantinha também uma fundação em termos um pouco diferentes daqueles da Antarctica porque enquanto os empregados da Antarctica eram considerados beneficiários da fundação em determinadas situações, aqueles que vinham a se aposentar ou por trabalho ou por moléstia, por uma deficiência física, em termos de Brahma, a Brahma tinha uma fundação. Eu não estou muito bem a par de todos os termos da Fundação Brahma, mas ela se dedicava mais a dar complementação pra cursos profissionalizantes, eu acredito que até pra uma complementação médica. Quer dizer, era voltada pra um outro benefício. Mas com a fusão da Brahma com a Antarctica resolveram fazer também um novo estatuto pra Fundação Zerrenner onde foi eliminada a mesa administrativa da qual eu fazia parte com outros integrantes, e ficou como cúpula o Conselho Orientador e uma gerência técnica e administrativa. Então com isso se acabou com a mesa administrativa. Estavam em estudos os novos estatutos da fundação, a nova administração do hospital, a nova administração da escola porque a escola passou a manter uma aproximação com o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] pra efeito da Escola Técnica. Foi feito um contrato de cooperação com o Senai, o Senai cooperando com a fundação. Quer dizer, ela ficou praticamente enxuta em algumas áreas, no da escola também, porque também já não tinha mais empregados da Antarctica. É claro, os ex-empregados da Antarctica, aqueles da AmBev hoje que estão trabalhando, que querem se utilizar da nossa escola pros filhos deles, a escola está de portas abertas. Mas não era mais como era antigamente que era restrita a filhos de empregados da Antarctica. Então, com essas inovações todas, esse trabalho todo, vamos dizer, de novas contratações, esse período todo e até que o curador de fundações viesse a aprovar os novos estatutos da fundação, eu permaneci ainda lá. Permaneci lá até final de 2000. No início de 2001 eu andei ainda por lá sem ter qualquer ligação ou com a Antarctica ou com a fundação ou com a AmBev, mas eu resolvi dar uma certa organizada em determinados papéis de mais de 30 anos de trabalho que se acumulavam. Eu resolvi armazenar um pouquinho aqueles assuntos mais importantes e que teriam ainda uma utilidade futura pra poder expurgar os demais. Fiquei lá ainda uns dois meses até que eu tive problemas de ordem familiar e um dia eu pensei: “O que é que eu estou fazendo aqui, com alguns assuntos que eu tenho que resolver dentro da minha própria casa em prol dos meus familiares?” Eu fechei a gaveta e fui-me embora pra casa, e estou até hoje lá. Eu mantenho um contato ainda com a fundação sim porque eu fui agraciada ainda com um cargo de Suplente do Conselho Fiscal da fundação. Isso pra mim é muito bom porque embora não dependa da minha atividade, da minha presença física diária, eu estou lá certamente duas, três vezes por ano onde eu tenho a oportunidade de entrar nos assuntos da fundação, me atualizar com os assuntos da fundação, e pra rever os amigos, tomar um café com os meus amigos. 

 

P1 – Dona Orleans, só voltando um pouquinho agora pra Antarctica, nesses anos todos que a senhora trabalhou, nessa ligação que a senhora tem com a Antarctica, qual foi, pra senhora qual é o produto símbolo da Antarctica?

 

R – Ah, o guaraná, até porque eu sempre fui mais ligada a refrigerantes do que a cerveja. Então pra mim o guaraná, aliás eu não precisaria nem trabalhar na Antarctica pra falar do guaraná porque eu me lembro dos meus tempos de criança quando a Antarctica fazia distribuição própria e fazia nas carrocinhas. Em casa eu tinha o meu pai ainda, eu era criança. Meus pais frequentemente ligavam pra Companhia Antarctica pedindo refrigerantes e o guaraná estava sempre presente. 

 

P1 – Entregavam em casa ainda?

 

R – Entregavam em casa ainda, muitas vezes com aquele carrinho de burro, sabe, carrocinha puxada por burros. Eu sempre convivi, em termos de refrigerantes, eu sempre convivi com o Guaraná Antarctica desde a minha infância.

 

P1 – E qual foi a publicidade ou propaganda que mais marcou a senhora? A senhora lembra de alguma?

 

R – Olha, as propagandas da Antarctica sempre foram muito interessantes. Eu me lembro, uma que marcou a época foi a do bocomoco, que houve uma inovação em termos de propaganda. Lembrança que eu tenho mais pra tempos passados? A Antarctica sempre foi uma empresa conservadora, ela nunca foi assim de inovar em termos de propaganda. Inovar que eu digo naquele sentido de avançar em termos de, como é que eu vou dizer pra vocês, de costumes, dos costumes de modo geral, vestimenta, atuação dos jovens hoje em dia, certo? Ela sempre foi mais conservadora, sempre ligada pra família. Depois, mais tarde é que, por diversas influências de outras propagandas, eu tenho a impressão que mais na época em que a Alcântara Machado começou a trabalhar com propaganda da Antarctica e que a administração da Antarctica passou a adotar aquela campanha um pouco mais avançada. 

 

P1 – Então era mais conservadora, mais família. E nesses anos, não só que a senhora esteve na Antarctica como na fundação também, a senhora lembra de algum momento que foi muito crítico pra companhia?

 

R – Não tenho lembrança assim de um momento crítico não. Talvez, eu disse pra vocês que a Antarctica nunca esteve envolvida em greves. Isso a anos anteriores, né? Mas mais recentemente, na década de 1980 talvez, de 1990, ela sofreu sim uma ou duas greves que foram momentos críticos porque, na época na CUT [Central Única dos Trabalhadores] que eles botavam aqueles caminhões nas portas da fábrica, ninguém podia entrar, e mesmo quem quisesse adentrar a companhia era impedido. Foram momentos críticos esses sim, eu acredito, pra Antarctica, porque ela teve paralisada a fabricação. Isso tudo sempre traz um transtorno pra uma empresa produtiva. Além daqueles próprios problemas pessoais de cada um, de se ver às voltas com um grupo impedindo você de entrar na fábrica e ter que dar meia volta e voltar pra casa ou se alojar num outro setor pra poder fazer alguma coisa. Eu acredito que o problema das greves. Assim outro, tirando esses problemas assim que não teriam afetação, vamos dizer, pessoal, individual das pessoas, mas sim num contexto geral, vamos dizer, de perturbar um pouco o andamento das coisas, nessas investidas às vezes do Governo de repente vir com uma notícia, com uma autuação esdrúxula e pegar todo mundo de surpresa, a empresa toda de surpresa, com uma aberração que eu poderia dizer, muitas vezes uma aberração jurídica. E isso então transtornava todo mundo porque, tudo bem, a Antarctica sempre foi uma empresa que jamais deixou de cumprir as obrigações dela, fiscais, tributárias, trabalhistas, jamais deixou de cumprir as obrigações. Mas era uma empresa que lutava, que brigava por um centavo que quisessem tomar dos cofres dela. Não vem pegar o meu dinheiro abusivamente, porque aí ela se defendia como uma leoa. Então uma notícia dessas, muitas vezes uma fiscalização que vinha. Tudo bem, falhas todos têm, certo? Mas muitas vezes é uma falha que você tem como consertar, você tem como assumir e consertar. Mas quando vinham com uma aberração jurídica de levantar os cabelos, é claro que trazia um transtorno pra toda a empresa. 

 

[Pausa]

 

P2 – E o momento marcante positivo da companhia? Qual seria o ponto alto, na sua opinião, da Companhia Antarctica nesse período todo que a senhora acompanhou o desenvolvimento dela?

 

R – A companhia teve diversos pontos altos. Quando ela ganhou uma concorrência pra uma empresa lá que ela queria instalar na Bahia. As vitórias que a Antarctica tinha no desenrolar dos trabalhos dela sempre foram motivo de empolgação. Pesquisas públicas sobre a preferência por determinados produtos top mind, ela sempre esteve no topo de preferência, e acredito que até a própria fusão com a Brahma. Porque se num primeiro momento trouxe aquele impacto, foi uma surpresa pra todos porque o assunto vinha sendo desenvolvido sob o maior sigilo, e foi um impacto pra todo mundo. Então como eu disse, foi uma surpresa voltada até pra um ponto, vamos dizer assim, pessimista: “Como? A Brahma com a Antarctica, duas empresas rivais e tal?” Mas depois, com o passar dos tempos, com o entrosamento entre ambas as empresas e com essas notícias todas que vêm aflorando até hoje sobre a globalização, eu acho que foi benéfico pra Antarctica ter se associado, vamos dizer assim, à Brahma. Porque? Hoje é sabido, a Antarctica está internacionalmente. Ela está com produtos hoje nos Estados Unidos. Antes estava também, mas com muita dificuldade por causa da concorrência local e tal. Hoje não. Por força até da própria AmBev, os mercados se abriram para a Antarctica. Com isso ela tem, acredito, maior passividade nos negócios. Com isso, uma maior lucratividade que fatalmente vai se reverter em prol da própria fundação, que é uma entidade eminentemente social. Eu acho que é isso que o país precisa, certo?

 

P2 – E o quê que a senhora acha dessa preocupação da AmBev em resgatar a história das companhias?

 

R – Ah, eu acho ótimo, eu acho formidável. Sabe porquê? Porque a Antarctica é um símbolo pro país em termos de empresa, em termos de condução de empresa, como ela sempre se comportou dentro do país. Porque é muito fácil hoje em dia, e a gente acompanha pela imprensa, determinadas atividades econômicas iniciam, têm uma certa expansividade, mas de repente, ou por falha de administração ou por falha de condutas, elas acabam no ________. Vocês estão acompanhando pela imprensa o que se passa hoje, infelizmente até a nível de entidades governamentais. Bom, esse é um outro problema. A Antarctica é uma empresa que nasceu vinda do casal Zerrenner, casal alemão que se juntou com família Von Bülow. Começaram com uma fabriqueta aqui, se não me engano, na Água Branca, e foram expandindo os seus negócios. Quer dizer, a Antarctica foi uma empresa que criou nome, criou, fincou alicerces no país. Foi uma empresa centenária. E sempre subindo, seja no conceito de lealdade, seja no conceito de produtividade, no conceito de trazer divisas para o país, recursos para o próprio país. Então é uma empresa que cumpre ser preservada, pra servir até de modelo pras outras. Quer dizer, todo o sucesso da Antarctica, que começou com uma “fabriquinha” pequena aqui na Água Branca e de repente ela cresceu pelo Brasil todo, ela se expandiu até internacionalmente. Ela teve exportações pra Estados Unidos, Portugal, França, os países que eu me lembro assim, dos primeiros né? Atualmente já está numa área muito maior. Eu acho que tudo isso tem que ser preservado. A própria história dos seus mantenedores, dos seus idealizadores, vamos dizer, da Antarctica, o casal Zerrenner, um casal sem filhos, com um altruísmo fora do comum. Nessa época, na época do falecimento deles, na década de 1930, a Antarctica já tinha uma certa expressão no país. E o quê que eles resolveram? Doar, deixar todos os bens deles, inclusive as ações da Antarctica, em prol dos próprios empregados da Antarctica. Daí é que foi instituída a fundação. Então eu acho que o altruísmo desse casal, em termos de Brasil, de desenvolvimento das atividades brasileiras, eu acho que tem que servir de exemplo. Não seria bom se todos os empresários fizessem isso? Esses que não têm como, não digo nem de deixar pros seus descendentes, porque muitos deles têm uma descendência capaz, à altura de dar prosseguimento pra uma atividade de um seu antecessor, mas muitos deles não. A gente conhece aí determinadas empresas, lá na Mooca mesmo, que eu digo que é minha a região porque foi onde eu trabalhei durante tantos anos. Nós temos lá empreendimentos fabris que deram nome pra São Paulo e que hoje um deles foi transformado recentemente num supermercado ali na Rua Taquari. E tem um outro que está praticamente com uma carcaça só, já não existe mais como empresa. Acompanhando a história desses empreendimentos, a gente sabe que os familiares, os descendentes dos seus empreendedores, não tiveram condições de dar continuidade praquilo. Então, certo? E assim outras empresas que não vale a pena citar o nome mas que a gente tem conhecimento. Eu estive, ontem foi dia de finados, eu estive no cemitério, o Cemitério do Brás, ali da Quarta Parada, e ao lado do cemitério está em andamento uma estrutura do Sesc [Serviço Social do Comércio]. Vão implantar um novo Sesc ali, uma estrutura enorme. Mas só tem os pilares e as janelas todas sem vidro. Ali era também de um empreendimento industrial que acabou-se, ficou na memória só das pessoas. Não dá pra fazer história. A da Antarctica é um pouquinho diferente porque a Antarctica se expandiu. O casal Zerrenner não deixou herdeiros, mas deixou uma fundação pela qual o Dr. Walter Belian, que foi o testamenteiro, lutou a vida toda. Dr. Walter Belian foi Diretor Presidente da Companhia Antarctica Paulista, Diretor Presidente, foi o Presidente do conselho orientador da fundação durante algumas décadas e morreu pobre, sabe, morreu pobre. Então só por aí eu não preciso citar mais nada, o idealismo dele em querer dar continuidade a uma obra que nem era dele. Por isso que a história da Antarctica é muito bonita e tem que servir de exemplo pra toda a coletividade brasileira. Eu acho muito importante o trabalho de vocês. Certamente eu estou dando uma contribuição mínima pra vocês do que foi a Antarctica. Eu acredito que vocês vão entrevistar outras pessoas que tiveram uma experiência maior com os assuntos da Antarctica, com outras áreas, porque a minha atividade sempre foi muito restrita praticamente à área jurídica. Mas outros que conviveram mais de perto com outros profissionais da Antarctica, eu acredito que todos eles devem deixar depoimentos muito bons pra história da Antarctica e pra servir de exemplo pro país. 

 

P1 – Dona Orleans, como a senhora se sente participando desse projeto?

 

R – Ah, muito feliz, muito feliz porque eu sou muito grata à Antarctica, a tudo que eu recebi dela e ao que eu venho recebendo. Eu sempre fui muito bem tratada, muito respeitada. É verdade que eu me impus também, né, é claro, porque eu entrei jovem pra Antarctica. Hoje tudo bem. Mas eu entrei jovem, mas eu sempre mantive o meu posicionamento dentro da Antarctica. Sempre tive ótimos amigos, tenho até hoje amizades excepcionais. E o quê que eu poderia dizer mais? Estou feliz até em poder prestar esse depoimento. Eu sempre fui muito feliz trabalhando pra Antarctica. Pra mim, eu nunca me importei com feriados, com sábados, domingos. Se eu tinha possibilidade de sair, até com férias, se eu tinha possibilidade de sair, de fazer uma viagem curta ou de eu poder ficar em casa descansando um sábado ou um domingo, tudo bem. Se fosse chamada para o trabalho, com a maior boa vontade, de peito aberto. 

 

P1 – Dona Orleans, a senhora gostaria de falar alguma coisa que nós não perguntamos, que nós não fomos ____?

 

R – Ah, eu acho que tudo que vocês perguntaram eu tenho impressão que eu respondi, e acho que até me excedi nas minhas manifestações, sabe? Eu não teria mais algum outro fato assim. Eu me importei, agora no caminho quando eu vinha vindo, da história do tijolo porque foi muito comentado na época, e aquilo o país todo, em termos de Antarctica, tomou conhecimento, e todo mundo brincou muito. Eu tive oportunidade de conhecer praticamente todas as controladas, porque muitas vezes, como eu falei, a Antarctica sempre procurou seguir uma linha de atuação, de honestidade, de princípios, mas como qualquer outra empresa e qualquer setor de atividade, você trabalha com pessoas. E apesar de todas as iniciativas tomadas no sentido de selecionar um bom profissional, muitas vezes você trabalhando com uma coletividade muito grande tem um ou outro que às vezes se desvia do seu caminho. E a companhia Antarctica mantinha auditorias. Pelo menos uma vez por ano auditores iam fazer um levantamento de cada empresa e às vezes deparavam com um senão. A Antarctica nunca puniu alguém injustamente, mas ela queria tomar conhecimento da razão de um tal fato, e eu algumas vezes fui indicada pra presidir uma comissão de sindicância. Nós ouvíamos certos empregados, o próprio empregado sobre aquilo, e às vezes chegávamos à conclusão de que realmente tinha sido um lapso e tal. Outras vezes chegava-se à conclusão de que realmente o empregado tinha agido de má fé e então ele era, a minha companhia tomava as medidas necessárias pra que ele fosse afastado do meio. E com isso eu conheci diversas empresas. Sempre fui muito bem tratada, sempre me senti uma rainha nessas unidades todas, pelos diretores locais, pelos empregados. Eu sempre tive além daquilo que eu mereci. Eu só tenho é que ser grata à empresa. É claro que muitas vezes, não sei ultimamente, mas mais na época do Dr. Belian, eu cheguei até a presenciar telefonemas dele pra determinados locais: “Olha, está seguindo aí uma funcionária nossa, fulana de tal. Você prepare pra ela um bom hotel, senão o melhor, um bom hotel. Você peça pra alguém ir buscá-la no aeroporto e preste toda assistência pra ela. Onde é que está sua senhora?” Uma vez ele falou pra um dos gerentes lá de Recife: “Onde é que está a sua senhora?” “A minha senhora, está lá em João Pessoa.” “Então vai lá e busca a sua senhora pra fazer companhia pra ela.” E o empregado ia até João Pessoa, trazia a senhora dele e iam me esperar no aeroporto numa época que você descia do avião e o povo estava na própria pista te recebendo. Era uma comitiva, só faltava a banda de música. Eu tenho que agradecer a uma empresa dessas, eu não tenho por onde. Eu só recebi, recebi, recebi. Talvez eu tenha recebido muito mais do que aquilo que eu tenha fornecido pra empresa, mas eu sempre procurei dar o melhor de mim, sempre defendi a empresa, sempre vesti a camisa. E até hoje, em reuniões que eu de vez em quando sou convidada pra uma festividade de um casamento. Eu tenho saído muito pouco, mas às vezes um aniversário, uma reunião de amigos e tal. Sempre que eu tenho oportunidade, que sai assunto de empresa, de trabalho, eu só tenho que elogiar a Antarctica. Não tenho por onde fugir. 

 

P – Dona Orleans, então nós agradecemos a senhora. 

 

R – Eu que agradeço.

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