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História de: Luiz Gomes de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/06/2016

Sinopse

Luiz Gomes de Lima nasceu em Arcoverde, em Pernambuco. Seu pai era ferroviário e cresceu morando nas casas que a ferrovia construía para seus funcionários. Quando cresceu, seguiu o mesmo caminho: trabalhou em várias estações em cidades diferentes, morando nas casas da ferrovia. Nesta entrevista, ele nos conta um pouco de sua vida e por onde passou, trabalhando nas estações de trem pernambucanas. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Luiz. Primeiro eu gostaria de agradecer a presença do senhor e queria começar pedindo pro senhor repetir o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Luiz Gomes de Lima. Nasci no dia sete de outubro de 1938, na cidade de Arcoverde, Pernambuco.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meus pais: Antonio Gomes de Lima, nascido em Bezerros, também em Pernambuco, e minha mãe, Sebastiana Gomes de Lima, nascida na cidade de Belo Jardim, Pernambuco.

 

P/1 – O que faziam os seus pais?

 

R – Meu pai era ferroviário, trabalhava na via permanente. Era encarregado de turma da Rede Ferroviária do Nordeste.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Sebastiana Gomes de Lima era dona de casa, só cuidava dos filhos.

 

P/1 – Como era o trabalho do seu pai?

 

R – O meu pai trabalhava na via permanente cuidando da manutenção da linha, trocando trilhos, dormente e deixando a linha em ordem para trafegar os trens.

 

P/1 – E o senhor sabe quando o seu pai entrou na Rede?

 

R – Eu não tenho certeza, não. Sei que meu pai entrou na Rede na cidade de Bezerros, mas o ano eu não tenho certeza. Ele nasceu em 1901, deve ter entrado na Rede lá para 1920, mais ou menos.

 

P/2 – E ele entrou já direto como encarregado ou não?

 

R – Entrou já na via permanente e permaneceu até se aposentar.

 

P/2 – Mas primeiro como operário ou já foi direto para ser encarregado?

 

R – Não, entrou como operário. Levou uns dez ou quinze anos, depois ele passou, foi corredor de linha. Antigamente tinha corredor de linha aí; às quatro horas da manhã, ele saía de casa para percorrer um trecho de uns quinze quilômetros a pé, olhando onde tinha um defeito na linha. Geralmente tinha um animal morto, uma vaca, um burro, e ele tinha que ficar ali sinalizando que os trens que vinham - trem de passageiro, trem de carga - para evitar acidentes. Muitas vezes estourava o açude que levava a parte dos trilhos e dos dormentes e muitas vezes ele ficou para sinalizar; ele sabia a hora que o trem de passageiros estava se aproximando e ficava ali para sinalizar, dizendo que tinha um acidente na frente. Acontecia daqui de Recife até Salgueiro, todo trecho tinha um corredor [de] dia; ele andava dez ou doze quilômetros a partir dali, tinha outro que fazia tantos quilômetros a pé e assim ia até o terminal da linha. Era para ter segurança total mesmo.

 

P/2 – O que usavam para sinalizar, o senhor sabe? Era uma lanterna ou alguma coisa...

 

R – Era um tipo de lanterna. Como naquele tempo era atrasado, não tinha lanterna mesmo. Era um farol com candeeirozinho a gás que dava vermelho, verde, Quando ele ia pela manhã ou à noite e madrugada, aparecia um trem e ele sinalizava o verde para o trem passar e saber que estava tudo em ordem. O maquinista tinha confiança mesmo: “Pronto, olha o corredor de linha aí, vamos seguir porque está tudo em ordem.” Na frente, mais outro sinal verde, aí seguia. Só quando via o sinal vermelho, freava, procurava saber o que estava acontecendo e dizia: “Na frente tem um trilho partido, vamos com cuidado que eu vou indicar o local.” E assim era a segurança total no tráfego da Rede Ferroviária.

 

P/1 – Seu pai chegou a contar histórias para o senhor de coisas que aconteciam no trabalho?

 

R – Chegou a contar que, certa vez, em Afogados da Ingazeira, [quando] ele vinha chegando próximo da cidade, uma chuva muito grande arrombou os açudes que tinha lá e levou uma parte do aterro, uns cinquenta metros de aterro. Dos trilhos ficaram só as gaiolas, os dormentes com os trilhos. Se o trem de passageiro, na velocidade que vinha, chegasse naquele local ia ser fatal, ia cair a composição completa, então ele ficou ali aguardando o trem se aproximar. Ele sinalizou o vermelho, [o motorista] parou: “O que está acontecendo?” “A ponte ruiu e os trilhos estão soltos.” Ele fez o sinal e foi feito o reparo; levou dias para concluir esse trabalho e o trilho ficar normal.

 

P/1 – O que acontecia com aquele trem de passageiros que ficou ali parado, voltava? Por que ele não podia atravessar a ponte...

 

R – Não podia atravessar a ponte, aí aquele trem de passageiros fica ali e era próximo da cidade um quilômetro, então o chefe da estação tomou conhecimento e foi para lá com um carro fretado pela Rede Ferroviária. Naquele tempo [era um] ônibus pequeno:  o pessoal que era de Afogados levava para a cidade e os que eram das cidades seguintes, Serra Talhada ou Salgueiro mesmo, providenciava o transporte para deixar todo mundo no seu lugar de origem. Tudo pago pela Rede Ferroviária.

 

P/1 – Quando o seu pai entrou na Rede, ela ainda estava em expansão, foram construídas outras estações. E quem fazia, era o pessoal da linha que ia desbravando território para fazer...

 

P/2 – Para construir novas linhas.

 

R – Para construir tinham os engenheiros que se deslocavam por esse sertão, conhecidos, Doutor José Joaquim Dias Fernandes e outros doutores por aí, doutor Antonio Mendes Gomes Barbosa que, digamos, ia até Afogados da Ingazeira, mas a previsão era ir até Serra Talhada, então ele ia ali por dentro do mato, verificando o local melhor de passar a via e fazer aquele traçado. Depois de lançado, o projeto era aprovado e ia partir para a construção. Era serviço de topógrafo tirando, nivelando, procurando o terreno mais nivelado, onde tinha um riacho - tinha que procurar onde o riacho fosse menor para evitar a construção de ponte e só onde tinha o rio, como o Rio Pajeú, que era necessário uma ponte, aí tinha que construir a ponte.

Muitas vezes, a linha fazia uma volta muito grande. A senhora ia de trem, passava aqui e daqui a dez minutos passava pertinho e estava vendo a linha do outro lado, por que? Para evitar a construção de ponte, evitar subir serra; naquele tempo já se fazia túnel, mas ficava muito caro. Entre Recife e Gravatá nós tínhamos quatorze túneis, tem a Serra das Russas e para descer esse trecho teve que fazer túneis. Serras enormes, aí furava de um lado e saía do outro. Temos quatorzer túneis e lá em cima tem uma placa de mármore dizendo: “Túnel número um, 234 metros de extensão.” O número dois, 143; o número tal, aí até 416 metros... Tem túnel por aí afora com 416 metros de extensão e a serra está por cima.

 

P/1 – Agora vamos voltar um pouquinho. O senhor estava falando o nome dos seus pais, falou a profissão deles, e como foi a sua infância? Como era a casa onde o senhor morava?

 

R – Minha infância foi boa, apesar de eu ter nascido em 1938. Era um tempo atrasado, mas papai, como já era ferroviário, morava em Arcoverde, lá tinha a casa da Rede Ferroviária. A Rede Ferroviária construía as casas principalmente para esse pessoal da via permanente, que tinha que todos os dias estar na garagem às seis horas para sair para o trecho, então eles reuniam aquele pessoal todo em uma vila, Arcoverde. Hoje é dentro da cidade mesmo, tem doze casas dos funcionários, papai morava lá. Eram casas de alvenaria, muito boas, construídas todas na pedra, casa de primeira mesmo.

Moramos em Arcoverde uma temporada, eu nasci e, com dez, onze anos, a gente se mudou para Afogados da Ingazeira. Em Afogados da Ingazeira foi inaugurada uma estação, a 200 quilômetros de Arcoverde. Como eu tinha meus irmãos doentes, o médico, que era o prefeito, aconselhou a mudar de clima; como iam inaugurar uma estação em Afogados da Ingazeira, papai pediu transferência de Arcoverde para lá.

Ficamos em Afogados da Ingazeira. Também tinham construído muitas casas, na margem da linha mesmo, pertinho da estação. Papai e outros funcionários que foram naquela época tiveram o privilégio de escolher: “Eu quero essa casa, eu quero essa.” Papai escolheu uma casa também da Rede Ferroviária. Lá tinha luz elétrica, água encanada e todo conforto. A luz era do motor da cidade, mas a água era fornecida pela Rede, tinha bombeiro que tocava água para as caixas. Naquele tempo, tinha as locomotivas a vapor que consumiam muita água; em uma estação ou outra tinha que ter uma caixa de água para abastecer a locomotiva a vapor. Aproveitavam e encanavam a água para as residências, quer dizer que os funcionários tinham todo o conforto.

 

P/2 – Porque o médico recomendou a mudança de clima, em Arcoverde era o que? Era muito frio ou muito quente? Como era o clima?

 

R – O de Arcoverde era um clima quente em uma época do ano, quando chega a outra época do ano, no inverno, é um clima muito frio. É uma cidade entre as serras. O meu irmão era asmático; o Doutor Freire, que era médico e prefeito da cidade de Arcoverde, recomendou: “Olhe, esse menino tem esse negócio e o bom seria mudar de clima.” Em Afogados da Ingazeira ele ficou bom e não precisou mais nem ir ao médico. Ficou bom ainda. Ele está aposentado, trabalhou em outras repartições, na Brasilgás. Hoje a gente se encontra, é uma festa, e ele ficou bom com isso, com a mudança de clima. Porque lá é um clima do sertão, um clima melhor, sem poluição;  Arcoverde era uma cidade grande. Ele ficou bom lá [em Afogados da Ingazeira] sem problemas, sem medicação, sem nada.

 

P/2– Eu só queria… Para completar a história do seu pai: ele estava em Bezerros e ele entrou na Rede em Bezerros? Depois, ele foi transferido?

 

R – Foi. Depois ele foi transferido, foi para Arcoverde, em Arcoverde trabalhou uma temporada. Depois de Arcoverde, por esse motivo do meu irmão ser doente, ele pediu transferência para Afogados da Ingazeira e ficou lá uns vinte anos. Depois, veio para Gravatá e se aposentou.

 

P/1 – Quando teve a mudança para Gravatá foram todos juntos, foi a família inteira até Gravatá?

 

R – Toda a família morou uma temporada em Gravatá. Eu fui lá visitá-lo várias vezes. Em Gravatá eu tenho uma irmã professora, outra irmã professora, [que] veio aqui para Recife e trouxe-o para cá porque elas eram professoras aqui em Recife. Aqui ele morou até o fim da vida, em Jaboatão mesmo.

 

P/1 – O senhor contou dos seus irmãos. Quantos irmãos o senhor tem?

 

R – Cinco irmãos e três irmãs, oito ao todo.

 

P/1 – E o senhor está em que lugar nessa...

 

R – Que eles nasceram?

 

P/2 – Qual é a ordem sua, onde o senhor está?

 

R – Eu sou o mais velho deles. Esse que eu digo que esteve muito doente e foi por ele que meu pai foi transferido para Afogados da Ingazeira é o José, o segundo; depois, tem o Aluísio, trabalha na Alcoa, em Paulista; tem o outro que se aposentou do Brasilgás; tem um que é pintor e mora em Jaboatão, é Paulo, e tenho esses irmãos. Minhas irmãs, uma é professora e a outra é de casa porque ela não fala, é muda, então toma conta dos sobrinhos. Uma das irmãs, que eram três, morreu, a mais velha morreu e tenho duas irmãs e cinco irmãos vivos.

 

P/1 – E conta um pouquinho, o senhor se lembra da sua primeira escola, como é que ela era?

 

R – Eu me lembro da primeira escola quando morava em Arcoverde. Eu, com uns oito anos, fui matriculado em uma escola que era pertinho da estação da Rede Ferroviária, era o Grupo Escolar Cardeal Arcoverde. Lá eu não terminei o primeiro grau. A gente foi transferido para Afogados e lá eu continuei estudando no grupo, era Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, terminei. Passei para o ginásio, Ginásio Monsenhor Pinto de Campos, e o concluí. Depois, quando já trabalhando, vim para Pesqueira. Em Pesqueira tem um professor que era telegrafista comigo: “Lula, vamos estudar.” No Ginásio Cristo Rei, eu fiz o segundo grau.

 

P/1 – Como era essa sua primeira escola em Arcoverde? Era perto da sua casa?

 

R – Não, ficava bem distante, cerca de um quilômetro. Todos os dias íamos, eu e minha irmã, essa mais velha, lá para o grupo. A gente estudava das oito às doze. Era bom porque era uma caminhada que a gente fazia pela manhã, passava sempre na feira. Arcoverde tinha feira umas três vezes por semana, para a gente era a maior alegria. Mamãe dizia: “Tome cuidado, vá pela calçada.” Tudo bem, íamos pela calçada e voltávamos sem problemas.

 

P/1 – E como era essa feira em Arcoverde?

 

R – Feira livre, no meio da rua mesmo. Era feijão, farinha, frutas, verduras, tudo que se tem na feira. Era no meio da rua e a gente passava mesmo no meio da rua, um burro, aí comprava um cacho de pitomba e levava para o lanche, e era bom. Minha infância foi boa.

 

P/1 – Essa feira ficava perto da estação, no caminho da escola?

 

R – É, no caminho da escola. Na Igreja, que ainda hoje existe, lá de Arcoverde, da Igreja até a estação, na rua mesmo. Era saco de feijão, saco de farinha, mesa com banana, com verduras, com frutas, no meio da rua. Hoje não existe mais, hoje tem os mercados, mas antigamente existia no meio da rua mesmo.

 

P/2 – Morava muita gente em Arcoverde, Lula? O seu apelido é Lula?

 

R – É, Lula.

 

P/2 – Podemos chamá-lo de Lula também?

 

R – Pode.

 

P/2 – Então está bom. Tinha muita gente, muitos moradores em Arcoverde, para ter uma feira dessas?

 

R – Arcoverde é uma cidade grande e tinha feira sábado e quarta-feira. Era feira, feira à vontade mesmo. Depois a cidade se desenvolveu e aí começou supermercado, começou mercado mesmo de frutas e verduras, Já não existe mais no meio da rua, mas antigamente a tradicional feira era no meio da rua mesmo.

P/2 – Ia gente de outras cidades ali para fazer compras ou só o pessoal de Arcoverde?

 

R – Não, ia todo o pessoal daquelas cidades vizinhas no dia de feira. Uns iam para vender, outros iam para comprar e formavam uma feira grande mesmo.

 

P/1 – E na escola que o senhor ia o senhor se lembra de algum professor que ficou marcante?

 

R – Lá em Arcoverde foi minha primeira professora... Terezinha Valadares já foi em Afogados de Ingazeira, a de Arcoverde eu me lembro da diretora, Dona Lourdes. A minha primeira professora não tenho lembrança dela, não. Eu me lembro dela, mas o nome eu esqueço.

 

P/1 – Não tem problema. O senhor ia para escola de manhã, passando pela feira. Na hora do almoço, o senhor voltava para casa?

 

R – É, na hora do almoço eu já estava em casa.

 

P/1 – O que tinha de almoço na sua casa?

 

R – Aí era o normal: arroz, feijão e carne. Não era esse negócio de comida de primeira, não. Era arroz, feijão e carne, com fartura. Papai trabalhava, sempre foi organizado. Meu pai plantava roça - tinha um campo lá que era do Estado, agropecuária de plantar e fornecia terreno para quem quisesse plantar. Papai plantava sempre e em casa era estoque de milho, feijão, tinha fartura mesmo. Mamãe fazia feira todos os sábados, tinha o dia da feira. Aí ela preparava almoço e quando a gente chegava tinha almoço com fartura mesmo. Nunca aconteceu de chegar e ficar sem almoço, não. Papai sempre foi organizado e manteve a gente bem, tudo de primeira qualidade mesmo.

 

P/1 – No período da tarde, o que o senhor costumava fazer com os seus irmãos?

 

R – No período da tarde a gente ficava só brincando mesmo. Papai ainda estava no trabalho, mamãe em casa cuidando das coisas, a gente ficava em casa. Ela colocava a gente para estudar: “Vai estudar, cadê a lição? Qual foi o dever de casa? Venha fazer a sua tarefa.” A gente fazia e ficava em casa brincando até anoitecer. Naquela época não tinha televisão para ninguém se entreter até tarde. Quando era mais tarde, sete horas, já estava todo mundo na cama para dormir.

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras?

 

R – As brincadeiras quase que não existiam em Arcoverde porque a linha do trem era cinco metros antes de casa. Era a minha casa aqui e com cinco ou seis metros era a linha do trem, passava trem com frequência. Mamãe mantinha a porta sempre fechada, aí a gente ficava em casa. Como minha irmã tinha mania de ser professora, ela ficava lá: fazia banquinho, colocava umas bonecas, dizendo que era professora, [que] era para eu assistir aula. A gente ficava lá brincando, mas dentro de casa. Mamãe passando ou lavando a nossa roupa e ela lá, dizendo que era professora. A gente trancado, não saía, não. Só saía se fosse com ela porque o trem, de meia em meia hora, passava na porta de casa mesmo e não tinha nenhum obstáculo, era livre na terra plana.

 

P/1 – Tinha muito barulho por causa desses trens?

 

R – É, na hora que o trem passava tinha muito barulho, mas era um barulho que dava para suportar.

 

P/2 – Seu pai almoçava em casa, Lula? Seu pai voltava pra almoçar em casa?

 

R – Não, não.

 

P/2 – Almoçava por lá mesmo?

 

R – Ele saía pela manhã, trabalhava, não tinha local certo de trabalho porque era de acordo com a necessidade do serviço. Um dia, ele e outros, eram dez ou doze, num troller a motor, no reboque, aí diziam: “Vamos trabalhar hoje em tal parte.” E iam. Lá tinha um cozinheiro, cada um levava o feijão, arroz, o seu pedaço de carne. O cozinheiro tomava conta do arroz, feijão e da carne e quando era na hora do almoço estava tudo pronto, aí almoçavam lá no campo mesmo.

Quando era à tarde, [às] quatro e meia, eles largavam. Estava o troller ali e pediam licença - pediam o telefone manual, que ele botava lá no fio, o fio sempre passava na beira da linha, aí chamavam: “Alô? Estou no quilômetro 216, quero licença.” Aí o comandante: “Aguarde aí que vai passar um trem, quando o trem passar pode vir, está autorizado.” Chegava em casa e só no dia seguinte que partia para o trabalho.

 

P/2 – Mas vocês jantavam juntos?

 

R – Aí pronto: na parte da tarde era, jantava todo mundo junto.

 

P/1 – E a ceia era diferente, tinha alguma coisa?

 

R – Não, mesma coisa. O que era do almoço já deixava lá no fogão que era para a noite.

 

P/1 – E depois de Arcoverde o senhor foi...

 

R – Fomos pra Afogados da Ingazeira.

 

P/1 – Afogados da Ingazeira. E como era essa outra escola? Era maior, era menor?

 

R – Era um colégio estadual. Tudo a mesma coisa, grande -  começo de Arcoverde parecia um colégio particular, muito grande, [o] Colégio Cardeal Arcoverde. O de Afogados da Ingazeira era o Padre Carlos Cottart, também grande o colégio, com umas oito salas de aula. Lecionava pela manhã, tarde - noite não, só manhã e tarde. E era bom, professores bons. O de Afogados da Ingazeira, eu me recordo dos professores. A minha professora era Terezinha Valadares, depois teve Dona Ginadir e outros professores. Esse era pertinho de casa, uns trezentos metros de casa, quando saía já estava chegando no Grupo.

 

P/1 – E nesse colégio o senhor também ia com os seus irmãos? O senhor estudava de manhã ou de tarde? Ou ficava o dia inteiro?

 

R – Não, estudava só pela manhã. Das oito às doze.

 

P/1 – Como era sua casa? Não era assim tão perto da linha do trem como em Arcoverde?

 

R – Não, era próximo, mas já um pouco distante. Tinha uma barreira, a casa ficava longe. A gente já brincava à noite, juntavam todos os meninos para brincar. Outra coisa, em Afogados da Ingazeira só tinha um trem chegando à noite e voltando para Recife de manhã. Durante o dia não tinha trem, a linha era deserta.

 

P/1 – E dava já para o senhor brincar com seus irmãos?

 

R – Brincava com todo mundo, com os meninos lá. As casas eram todas conjugadas, aí a gente conhecia todo mundo e não existia restrição. A gente brincava mesmo, todo mundo; a gente era amigo, estudava junto, brincava junto.

 

P/2 – Todos filhos de ferroviários?

 

R – Todos. A vila era ferroviária, todo mundo era. Meu pai morava nessa casa ferroviária, o vizinho nessa casa ferroviária, os outros, todo mundo ali era da Rede Ferroviária.

 

P/1 – E como eram as casas, eram iguais?

 

R – Era de um lado 24 casas, todas iguais. Só tinha diferente a do chefe da estação, que não era conjugada. Era um grupo de duas em duas, duas casas: área, sala, cozinha, dois quartos, área de serviço lá atrás, sanitário. Agora era cimentada, cimento mesmo, polido, mas casa boa, de primeira mesmo. Alvenaria, todo o conforto.

 

P/1 – Do que o senhor brincava? O senhor falou que reunia o grupo dos filhos dos ferroviários e vocês brincavam do que?

 

R – Brincávamos de jogar bola. As meninas tinham outras brincadeiras, barra-bandeira, elas colocavam uma bandeira lá para ver quem alcançava. Quando era a noite era a brincadeira da aliança, passava a mão e deixava o anel pra saber onde estava o anel, quem acertava aí ficava, sempre era assim. Passava aliança e depois “Onde está?” “Está na mão de fulano.” Aí já vinha outro.

Tinha uma esplanada da Rede Ferroviária, tinha a estação. Os armazéns ficavam uma esplanada muito ampla, era campo de futebol e a gente ia jogar futebol.

 

P/1 – Ia jogar futebol na esplanada da estação?

 

R – Era.

 

P/2 – E o chefe da estação deixava?

 

R – Deixava tranquilo porque sabia que ali era tudo filho de ferroviário e a gente não fazia trela, era tranquilo.

 

P/1 – O senhor chegou a ir algum dia trabalhar com seu pai, ver como era o trabalho dele?

 

R – Não. Eu sabia por que depois eu comecei a trabalhar na Rede Ferroviária, aí todos os dias chegava aquele pessoal, pedia licença para trabalhar em local, dormentes - os trilhos são fixados sobre dormentes, umas toras de madeira, eu já sabia o serviço dele qual era.

 

P/1 – Então o senhor ficou em Afogados da Ingazeira e terminou o primário?

 

R – Foi. Como eu morava pertinho da estação, eu sempre ficava lá na estação durante o dia. Chegava o pessoal para pesar mercadoria para despachar, o rapaz: “Lula, pesa aí.” Eu já sabia pesar: “Pesa aí. Quanto?” “Oitenta e dois quilos, quatro sacos de carne.” Ia lá para o despachante, ele despachava, eu fui me infiltrando na estação e o pessoal gostava de mim. Aí eu vi o telégrafo, o telegrafista lá sentado no telégrafo: “Pá pá pá pá...” E ele: “Pshiuuu.” Era Reginaldo Mendes. Eu olhava e dizia: “Mas Reginaldo, como é isso?” “Vou copiar o alfabeto Morse e você vai entender. “A”, linha ponto; “B”, linha dois pontos; “C”, linha ponto, linha ponto.” Ele copiou o alfabeto Morse. Eu decorei, nas horas vagas, eu aprendi telegrafia.

 

P/1 – Mas isso foi quando o senhor tinha quantos anos, mais ou menos?

 

R – Eu devia ter 15 ou 16 anos. Aprendi telegrafia: “Pin pin pin pin pin.” Porque antigamente telegrafia era importante. Hoje tem o computador, mas antes, o avião tinha o telegrafista de bordo. Era uma comunicação sigilosa. O navio tinha o telegrafista de bordo porque o avião, para aterrissar e pousar, o telegrafista que pedia autorização. Tinha que ser assim, uma comunicação sigilosa para ninguém interferir, só quem fosse telegrafista mesmo. Aí telégrafo, era telegrama, se passasse um telegrama daqui para Salgueiro, que são seiscentos quilômetros, com vinte minutos ele estava em Salgueiro porque tinha o horário telegráfico. Das oito e meia às nove horas falar com Arcoverde, das nove e meia às dez falar com Sertânia, das dez e meia a tantas falar com Serra Talhada, aí naquela hora eu já estava falando direto com Salgueiro. Ou então por telefone, quando o telégrafo dava defeito, por telefone: “Alô, Pesqueira? Coloca Arcoverde, coloca Sertânia. Sertânia coloca Afogados da Ingazeira.” Aí falava e o pessoal ficava de boca aberta: “Olha, ele está falando com Arcoverde.” Porque naquele tempo era difícil mesmo.

 

P/2 – Não tinha telefone, né?

 

R – Não tinha telefone, somente a Rede Ferroviária que tinha telefone.

 

P/2 – Interessante. Quer dizer que a comunicação, fora o momento de trens, isso o telegrafista tinha que fazer toda hora, né?

 

R – A comunicação fora da Rede Ferroviária tinha os correios e telégrafos, mas os correios eram muito precários porque era telefone, telégrafo também, mas os fios subiam a serra, desciam a serra e não tinha a prioridade que a Rede Ferroviária tinha, porque a Rede Ferroviária tinha os trens circulando e precisava de comunicação para os trens. Como tinha trem, tinha os guarda-fios, que andavam do jeito que meu pai andava como corredor de linha, olhando a linha; todos os dias andava o pessoal do telégrafo, telefone e telégrafo, procurando se tinha um defeito. Toda dia, às seis horas da manhã, tinha o horário que eles chamavam: “Vamos fazer o horário telegráfico.” “Alô Sertânia, o que tem por aí?” “Não, está tudo em ordem. Tem um defeito em tal parte.” Sempre tinha isso. Então, de Recife a Salgueiro era constantemente vigiado. Onde tinha um fio quebrado era imediatamente consertado, por isso que a comunicação da Rede Ferroviária era precisa mesmo, de precisão.

 

P/2 – Então tinha uma escala de horário, Lula, para você poder fazer a transmissão do telegrama paras outras cidades? Não era uma coisa imediata - por exemplo, você tinha um horário para falar com Salgueiro? Era só naquele horário?

 

R – Só naquele horário.

 

P/2 – Quer dizer, se tivesse um telegrama você passava naquele horário?

 

R – Na hora, se a senhora chega agora: “Quero um telegrama urgente.” Os telegramas são para Salgueiro, mas terminou o horário: “Olhe, agora, para Salgueiro, eu só vou passar daqui a uma hora e meia porque vai ser o outro horário. Eu fiz horário das oito e meia às nove; terminou o horário, já vou fazer horário com outro. Aí, só das dez e meia ao meio-dia, que é outro horário.” Era com precisão mesmo, todo mundo corria para estação telefonar: “Seguirei em trem hoje, espero estação.” Quando era à tarde, o telegrama já estava na casa do cliente e à noite ele já estava na estação, esperando o passageiro.

 

P/2 – Então, com quinze anos você começou, mas você já entrou para Rede?

 

R – Não, com quinze anos eu comecei na estação. Aprendi telegrafia, fiquei por ali e vim para o Exército. No Exército eu passei um ano. Servi o Exército em 1957, saí em 1958 e em 1959 entrei na Rede Ferroviária.

 

P/1 – E como foi esse período da espera? O senhor ainda não falou um pouquinho para gente como foi o seu estudo secundário, do segundo grau. O senhor terminou o primário lá em Afogados da Ingazeira e aí entrou no...

 

R – Não, lá em Afogados da Ingazeira mesmo eu fiz o ginásio, aí...

 

P/1 – Isso, e enquanto fazia o ginásio o senhor ia para a estação praticar?

 

R – Era. Nesse tempo eu já trabalhava, era solteiro. Trabalhava na parte da manhã, largava às seis horas da noite, aí às sete ia para o ginásio. Era o Ginásio Monsenhor Pinto de Campos.

 

P/2 – Mas o senhor trabalhava na Rede?

 

R – Trabalhava na Rede.

 

P/2 – Antes do Exército?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como foi no Exército?

 

R – Eu vim para o Exército em 1957. Fiz curso de cabo-telegrafista, passei, fiquei um ano. Quando eu fui licenciado já sabia telegrafia. Voltei para a estação, vim aqui para Recife e fiz o curso de telegrafista.

O importante era telegrafia, tinha que saber todos os serviços da estação; quando vinha para Recife fazer o curso, tinha que já ter praticado durante um ano ou mais. Tinha que saber despachar mercadoria, tinha que saber vender passagens, fazer mapas, a Rede permitia mesmo que você ingressasse como praticante. Pedia a autorização, o chefe autorizava, mandava uma carta para Recife dizendo que tinha um praticante na estação e aquele praticante tinha acesso ao telégrafo na hora que não tinha nenhum movimento. Aprendia tranquilamente. Quando precisava do funcionário, chamava e fazia o curso, passava.

Eu saí do Exército em 1958. Em 1959 eu vim para Recife, fiz o curso. No mesmo dia já tive a carteira assinada. Quando eu fui para sala, o professor: “Ditado. Matemática. Conhecimentos Gerais.”

O último teste era telegrafia; ia para a bancada telegráfica mesmo, receber e transmitir telegramas: “Pá pá pá pá pá.” Naquele tempo eu tinha uma [boa] caligrafia, o instrutor disse: “Pelo menos caligrafia ele tem, viu.” Quando eu voltei para o escritório, chegou o resultado: aprovado. O inspetor perguntou: “Você está pronto para trabalhar a partir de amanhã?” “Estou.” “Vá para São Lourenço da Mata.” É uma cidade que tem aqui pertinho. Aí eu fui para São Lourenço, era tempo de safra. Safra é a safra das usinas, as estações trabalhavam a noite inteira porque era trem saindo para as usinas, chegando...

Eu fui para São Lourenço. Tinha a estação Pirassirica, trabalhei seis meses. Na carteira profissional foi assinado 15 de setembro de 1959, no dia que eu fiz o curso, “ficando contratado por 180 dias, findos os quais será dispensados sem indenização e nem aviso prévio.” Mas se você fosse um funcionário exemplar mesmo e desse conta do trabalho, terminava os 180 dias, renovava por mais 180, até que com uns três contratos de 180 dias permanecia efetivo.

 

P/1 – Deixa eu só entender uma coisa: esse curso que o senhor fez em Recife, quanto tempo ele durou? Foi curtinho?

 

R – Não, era o sistema de uma prova. Chegou: “Eu sou o candidato Luiz Gomes de Lima.” O professor: “Luis Gomes, um ditado.” Começava a fazer o ditado, depois as operações de conta, você somar, dividir, multiplicar, dividir, tantas operações de conta, depois umas perguntas de conhecimentos gerais, aí numa sala assim, com professor, quadro negro. Depois fazia uma avaliação da sua média e aprovava. E depois no telégrafo, o telégrafo que era eliminatório mesmo.

 

P/2 – Lula, deixa eu retomar uma coisa. Você veio servir o Exército em Recife?

 

R – Foi, aqui em Recife.

 

P/2 – Porque era mais, era o Batalhão, como era isso?

 

R – Vim servir aqui em Recife era o 14º Regimento de Infantaria, 14º RI, ainda hoje existe.

 

P/2 – Por que você não morava aqui, não é?

 

R – Não.

 

P/2 – Você morava lá em Afogados da Ingazeira.

 

R – Em Afogados da Ingazeira, mas lá a gente se apresentava na repartição do Exército que a gente ia, que todo mundo que completou dezoito anos tinha que se apresentar. Aqueles que eram escolhidos eram para servir vinham pra cá.

Na época que eu vim vieram umas sessenta pessoas. A Rede Ferroviária disponibiliza um carro de trem exclusivamente para aquele pessoal que são os reservistas, que vinham para cá  e, quando chegavam, o carro do Exército, o ônibus, já estava na estação esperando aquele pessoal, levava lá para o quartel. A gente recebia logo cama, tudo, e ia partir para exame de saúde. Aqueles que fossem aprovados em saúde, conhecimentos e não sei o que ficavam, os outros eram dispensados.

 

P/2 – Você já tinha vindo a Recife, Lula?

 

R – Já tinha vindo algumas vezes porque papai tinha uns parentes aqui em Recife e quando ele saía de férias [dizia]: “Vamos para Recife.” Tinha um tio de mamãe, que era meu tio também, em Coqueiral, pertinho. A gente vinha nas férias, passava uns oito dias por aqui. Já conhecia Recife assim, mas de verdade eu só vim conhecer quando eu vim para o Exército.

 

P/2 – E vocês vinham de trem sempre?

 

R – É, de trem.

 

P/2 – Você gostava de andar de trem?

 

R – Gostava, era uma farra. O pessoal aqui pagava não. Papai, quando queria viajar, solicitava uns passes: “Solicito um passe de Recife a Afogados da Ingazeira com minha mãe, Sebastiana de tal, Luiz, filho de tantos anos.” O condutor, quando chegava procurando as passagens, já sabia que era funcionário, tinha passagem livre.

 

P/2 – Depois do Exército, você foi procurar a Rede porque queria voltar para a Rede Ferroviária, não é isso?

 

R – É, eu estava no Exército, quando se aproximou o tempo de ser licenciado. Alguns sargentos, tenentes [perguntaram]: “Lima, você quer...” O meu nome de guerra no quartel era Lima: “Lima, você quer se engajar?” “Quero não. Quero não porque eu já tenho emprego quase certo na Rede Ferroviária e quero voltar.”

Eu pedi para sair na primeira turma. Não consegui sair na primeira, saí na segunda. Na segunda turma fui licenciado e fui para Afogados, lá me aprimorei mais um pouco na estação e depois eu vim, fiz esse curso, passei e entrei na Rede Ferroviária. Quando já estava na Rede há um ano e meio, dois anos, começou a chegar carta do Exército: “Luiz Gomes de Lima, você está sendo transferido para o batalhão em Salgueiro.” Aí eu digo: “Oxe, não vou, não.” Entoquei as cartas para lá, aí foi chegando mais cartas, mais cartas: “Compareça no batalhão em Salgueiro, como telegrafista você está transferido para Salgueiro.”

O Exército tinha o serviço de inteligência dele, onde tinha comunicações e aqueles que tinham especialidades: eu, como tenho telegrafia, e outros, com outras especialidades que precisavam, eram designados. Eu falei com o chefe da estação, aí ele [disse]: “Não, vamos falar com o Washington.” O Tenente Washington, encarregado desse serviço de recrutamento, ele disse: “É, você não está querendo.” “Não, não estou querendo ir porque eu já trabalho na Rede.” “Mas o senhor vai ser beneficiado porque o senhor já fez curso.” “Não, mas não quero, não. Prefiro ficar na Rede Ferroviária, sou de origem ferroviária.” “Está certo, então vou ficar com o senhor como reservista e comunicar que vai ficar, que não vai querer porque já é funcionário da Rede.” Aí ficou por isso mesmo, fiquei como reservista e permaneci na Rede Ferroviária.

 

P – E como foi pro senhor ir para São Lourenço?

 

R – São Lourenço foi o meu primeiro trabalho. Eu fui pra lá e já sabia de tudo de estação, quando chegou o chefe: “Você vai para estação Pirassirica.” É uma estação entre São Lourenço e Carpina, onde tem uma entrada para a Usina Mussurepe. Eu trabalhava à noite; esse pessoal que é novato não fica durante o dia porque durante o dia tem trem de passageiro e muitas coisas e durante a noite, só trem de carga para as usinas. Eu trabalhei seis meses, que era do contrato. O chefe se agradou de mim porque eu trabalhava direitinho, não faltava e era cuidadoso. Quando terminou o contrato ele falou: “Cardoso, não dispensa esse rapaz, não. Um rapaz desse a gente precisa dele, eu vou precisar dele aqui.” Aí eu fiquei mais, depois saí e fui para Pesqueira, trabalhei uns tempos até que passei a efetivo.

 

P/1 – Quando foi que o senhor passou a efetivo?

 

R – Eu entrei na Rede Ferroviária em 1959. Com um ano e meio ou dois anos eu passei a efetivo, porque foram três contratos de 180 dias, que são seis meses. Com dois anos eu fui efetivado.

 

P/1 – Lá em Pesqueira mesmo?

 

R – É.

 

P/1 – O trabalho do senhor em Pesqueira era o que?

 

R – Lá em Pesqueira, quando você assume o serviço de estação, o seu serviço é geral. Vamos dizer, chega uma pessoa querendo passar um telegrama para Recife. Você pega, dá o formulário e a pessoa redige ou, se já trouxer redigido, você vai contar as palavras, multiplicar por quanto é o valor da palavra e vai passar um recibo para o cliente: “Dezoito reais.” Você vai ficar na obrigação de juntar aqueles telegramas na hora do horário telegráfico, transmitir e receber os que tivessem para você.

Daqui a pouco chega uma pessoa: “Quero despachar uma mercadoria para Recife.” Você vai para o outro bloco e despacha, pesa, é por peso: 150 quilos, cinco sacos de carne, dez caixas de frutas - essas frutas eram pinhas, mangas, essas coisas. Despachava, colocava a etiqueta do destino, o número do conhecimento. Na hora que o trem chegava tinha um pessoal que fazia o embarque, aí trazia com precisão mesmo que vinham verduras, frutas, carne, queijo, ovos, tudo do sertão vinha de trem e era despachado pelas estações. Quer dizer que o funcionário, na hora do telégrafo era telegrafista, na hora em que o trem chegava era despachante, recebia e expedia mercadoria. Assim era o dia inteiro.

 

P/1 – O senhor também chegou a trabalhar na venda de bilhetes?

 

R – Na venda de bilhete, muito. Quando se aproximava a hora do trem partir - o trem leva trinta minutos entre uma estação e outra - você vai para a bilheteria. Tem uns bilhetezinhos, tem um carimbador que é a data do dia, já tem aquela fila e quando você abre já está aquela fila: “Duas passagens para Recife, duas de primeira.” Porque tem primeira e segunda: “Duas de primeira para Recife.” “Uma e meia.” Você cortava a passagem na transversal, é a meia passagem.

 

P/1 – O que era meia passagem, quando pagava para criança?

 

R – O adulto pagava uma passagem inteira, a criança de seis a doze anos pagava meia. De treze em diante já era uma passagem completa.

 

P/1 – E o que fazia com a outra parte do bilhete?

 

R – Aquela outra parte do bilhete, na hora que eu fosse confeccionar o mapa [de] Pesqueira a Recife… Eu vendi dez primeiras inteiras e duas meias; pra eu mostrar que eu tinha vendido aquelas duas meias, que eu só ia enviar 50% do dinheiro, eu tinha que provar. Colava no mapa aquele que eu vendi meia. Uma meia o passageiro levou e a outra meia eu colava no mapa.

 

P/1 – Tinha diferença o bilhete de primeira classe para o de segunda?

 

R – Tem, o bilhete de Pesqueira a Recife de primeira classe ia doze reais, o bilhete branco. Primeira classe é o lugar mais reservado, poltronas, doze reais. O bilhete de segunda classe é azul, com o nome de segunda classe e o valor de seis reais à passagem inteira. Quer dizer, aquele pessoal mais importante comprava de primeira, aquele pessoal pobre ou que vinha para vender mercadoria ia na segunda classe, pagava 50% do preço da primeira classe.

 

P/1 – O senhor, na estação, tinha que usar algum tipo de farda?

 

R – Trabalhava com farda, sapato preto, calça azul, camisa branca, gravata preta e boné.

 

P/1 – E isso para todas as funções?

 

R – Não, só na função de Telegrafista, Despachante e Agente de Estação, esses eram de calça azul, calça branca, gravata preta, um quepe. Quando chegava a administração, os doutores iam no trem, aí tinha que estar de paletó e, na hora dos trens dos passageiros, a gente tinha que botar o paletó. Durante o dia não, você tirava o paletó, botava no cabide e ficava lá, mas assim que o trem partiu a administração, o Doutor Fulano ia chegar e ia ver, tinha que ser de paletó. A Rede fornecia.

 

P/2 – Tinha diferença de cor do quepe, do boné, ou era uma cor para todo mundo? Do quepe, não tinha um quepe vermelho?

 

R – Não. Tinha um quepe vermelho; o quepe vermelho era para o agente especial, mas os outros eram azul - quepe azul, uma pala preta. Tinha umas fitas: chefe de primeira, uma fita; chefe de segunda, duas fitas; chefe de terceira, três fitas. Umas fitas amarelas, você quando olhava já sabia: “Esse chefe é de primeira.” É como se fosse na polícia, no exército, uma fita é… Duas fitas é cabo, três sargento, também se distinguia o agente de estação pelas fitas no boné.

 

P/1 – Tinha algum tipo de dificuldade em Pesqueira por ser distante do centro, de Recife, de manutenção dos trens ou da venda?

 

R – Não, não. Nenhuma dificuldade, era tranquilo, a mesma coisa. O trabalho era o mesmo, você tinha as mesmas funções, tinha telégrafo, telefone... Era tudo a mesma coisa.

 

P/1 – Mas tinha aqueles pequenos, aqueles diques de manutenção?

 

R – Era tudo o mesmo. O negócio de linha permanente, de tudo era o mesmo, o pessoal que trabalhava partindo cedo para fazer manutenção das linhas, todas as estações tinham isso.

 

P/1 – E o senhor ficou quanto tempo trabalhando em Pesqueira?

 

R – Eu fui para Pesqueira quando o agente de estação de lá entrou na política, [foi] candidato a prefeito da cidade, aí eu fui chamado. O inspetor me disse: “Luiz, você vai para Pesqueira porque o chefe lá é candidato a prefeito, mas ele não vai ser eleito porque o candidato de lá é de uma família muito importante, dos Brittos, então você vai passar só noventa dias, que é durante a campanha.” Eu fui e ele foi eleito; era para eu ficar por noventa dias, fiquei por quatro anos e tanto. (risos)

O agente era José Valderique Tenório e o adversário dele era o pessoal parente dos Brittos, da Fábrica Peixe (Indústria Alimentícia Carlos de Britto S/A) de Pesqueira. Valderique, já vereador várias vezes, fez amizade, foi eleito prefeito de Pesqueira. E eu, que ia passar noventa dias, passei quatro ou cinco anos em Pesqueira.

 

P/1 – Em Pesqueira o senhor morou onde? O senhor era agente de estação?

 

R – Era a mesma rotina: passar telegrama, vender passagens, despachar mercadoria, receber mercadoria e entregar mercadoria para o público. A Rede Ferroviária despachava muita mercadoria, antigamente, para o comércio. Medicamentos, todo o tipo de mercadoria vinha pela Rede Ferroviária porque era segurança total, sem violação, sem nada. Você podia despachar sua mercadoria e chegava com o maior cuidado porque a Rede era rigorosa. Você despachava sua mudança, cada objeto tinha uma etiqueta dizendo o número do conhecimento, do destino, no maior cuidado, então o pessoal dava toda a preferência pra despachar pela Rede Ferroviária.

 

P/2 – Lula, deixa eu entender uma coisa. Tinha estações que tinham telegrafistas. Nessa de Pesqueira, por exemplo, você era o agente de estação, mas também fazia função de telegrafista por que era menor a estação?

 

R – Só estação grande mesmo, como Recife e outras que tem dez, doze funcionários, aí o agente fica lá na sala para ser agente, só para distribuir bilhetes, receber as rendas e faturar para entregar para um banco. Numa estação do interior, onde só tem dois funcionários, ele faz tudo.

 

P/1 – E qual era o outro funcionário? Um era o agente de estação e o outro era o que?

 

R – Era também telegrafista. Quando eu estava na bilheteria vendendo bilhetes, o outro estava despachando mercadoria. Quando o trem chegava, ele já ia levar aquela mercadoria, fazer a conferência para entregar, já tinha o pessoal que fazia o embarque no próprio trem, já tinha o pessoal que arrumava dentro do trem, fechava e na hora de dar partida no trem cada um tinha o seu setor.

 

P/1 – Quem era esse pessoal que fazia esse embarque da mercadoria da plataforma para o trem? Eles ficavam ali na redondeza?

 

R – Não, eram funcionários da Rede Ferroviária mesmo. Tinha o pessoal que fazia a burocracia, mas tinha também o pessoal que pesava mercadoria, colocava as etiquetas e levava no ponto para fazer o embarque, se chamavam serventes. Tinha os auxiliares de estação, tinha o chefe de estação e tinha os serventes, que eram os que faziam limpeza e embarque de mercadoria.

 

P/1 – O senhor em Pesqueira morou onde?

 

R – Eu, em Pesqueira, morava no primeiro andar da estação. Uma estação ampla. Em cima era o primeiro andar da Rede Ferroviária. Só subia uns degraus e já estava em casa, quando descia os degraus já estava na estação.

 

P/1 – E como era essa casa? Como era morar em estação?

 

R – Ah, a casa... Outro dia eu passei por lá. Eu, minha família somos de Afogados da Ingazeira. Lá em Afogados da Ingazeira eu casei e ficou minha família toda lá. Sempre vamos: todo ano, em dezembro, julho, a gente vai para Afogados. Quando passa em Pesqueira: “Vamos passar lá no centro da cidade para ver a estação?” Estação bonita, toda ampla, primeiro andar e a minha esposa e o meu genro: “Vamos passar...” As minhas meninas, que se criaram, que moraram esse tempo lá: “Vamos para estação já para gente ver...”

Quando chegou lá na porta, que minha menina olhou assim e disse: “Eita papai, olha aqui, a gente subiu muito nessa escada...” Tinha umas moças: “Vocês querem entrar?” Eu disse: “Não, eu só estou olhando porque aqui a gente morou uns quatro, cinco anos aí.” “Ah, vocês moraram?” “Moramos.” Uma disse até isso: “A gente vai fazer uma história da Estação de Pesqueira e queremos pessoas que tenham convivido nessa época”. Tomou meu nome, meu endereço e disse que ia passar para fazer uma entrevista, para fazer um levantamento. Subiu com a gente, mostrou lá. Uma casa ampla lá em cima. O piso é de madeira, mas de madeira porque era casa antiga de mil novecentos e pouco. Foram construídos mais dois quartos, duas salas, cozinha, banheiro com água, com tudo. Uma casa muito boa lá em cima, era a casa do agente da estação, primeiro andar.

 

P/1 – Se acontecia alguma coisa, algum acidente, o senhor era logo chamado para descer ali e resolver?

 

R – Ah, era. E acontecia com frequência, muitas vezes os trens alcançavam as pessoas na linha, trazia para a estação. Acontecia do trem bater num carro, ferir alguém, o mesmo trem trazia. Quando chegava o trem e o condutor dizia: “Lula, na bagagem tem uma encomenda aí.” Quando eu olhava, muitas vezes, era uma pessoa que tinha sido atropelada. Ficava ali para o agente entregar à polícia, chamava a polícia e eles iam lá; se estivesse viva levavam para o hospital, se não estivesse levavam para o necrotério, para fazer os procedimentos de praxe, mas era com toda segurança mesmo.

 

P/1 –De Pesqueira o senhor passou para onde? O senhor ficou lá quatro anos, cinco?

 

R – De Pesqueira eu voltei para Afogados da Ingazeira para trabalhar. Em Afogados me casei e passei uma temporada. Depois, fui transferido para Recife e aqui me aposentei.

 

P/2 – Também como chefe de estação em Recife?

 

R – Foi, como chefe de estação.

 

P/2 – E foi da Estação Central?

 

R – Não, quando eu vim de Afogados trabalhei em Coqueiral, depois trabalhei na estação Central, onde hoje é a estação do metrô. Ali era a estação da Rede Ferroviária: os trens que iam para Salgueiro, Fortaleza, Maceió, todos partiam e chegavam em Recife. Era a estação Central.

 

P/1 – E qual era o seu trabalho na estação Central?

 

R – Era serviço de rotina mesmo, conceder licença. No tempo que eu era chefe de estação tinha que organizar o quadro do pessoal: “Você vai ficar na bilheteria, vender bilhete pela parte da manhã. Vocês fazem a escala. Você vai trabalhar na parte da tarde, você vai trabalhar na noite.” Era rodízio: um pessoal trabalhava na parte da manhã, das seis às 14, outra equipe trabalhava de 14 às 22 e outra equipe de 22 às 6. O chefe que tinha que escalar, “Fulano e Beltrano das 6 às 14, Fulano de 14 às 22, outros de 22 às 6. Você folga no domingo, você folga na terça.” Tinha que fazer escala e a escala tinha que ser cumprida porque não podia faltar. Só justificava se levasse o atestado de óbito. Se dissesse: “Não, porque não pude ir” não justificava, não, era suspenso e tinha que haver uma pesquisa para ver se ele faltou por relaxamento; era uma suspensão de três, quatro dias mesmo. Quer dizer que o funcionário não podia faltar, era necessário.

 

P/1 – Teve muita diferença para o senhor a mudança para estação de Recife, por conta do movimento, da quantidade de funcionários?

 

R – Não, não teve porque era a mesma coisa. Só que aqui tinha que trabalhar com mais cuidado porque aqui eram os trens de subúrbio, de cinco em cinco minutos; lá eram dois, três trens por dia. Aqui era o tempo integral, toda hora: trem de passageiro, trem de carga, trem automotriz.

Tem os engenheiros que fiscalizavam, saíam pelas estações para ver se estava tudo em ordem e é um acompanhamento perfeito. O trem partia; na época, quando o trem parte dessa estação e chega na seguinte, a estação seguinte tem que informar: “Alô, movimento, controle de movimento de trens, tal trem chegou aqui às 7:30 e partiu 7:32.” Na outra estação: “Chegou 7:50 e partiu 7:53.” Fica acompanhando a vida inteira. O trem sai daqui até Salgueiro, tinha uma pessoa que ficava controlando o trem o tempo todo. Se o trem leva dezoito minutos entre uma estação e outra e levou, em vez de dezoito, 25 minutos, tem que dizer qual foi o excesso, porque o maquinista ia dizer: “Animal na linha no quilômetro tal.” Quer dizer que ele teve que parar o trem porque tinha animais na linha ou atropelou animais. Tinha que dizer tudo, era um negócio muito perfeito.

 

P/2 – Lula, por que você veio para Recife? Alguém convidou você ou você quis? Você estava com a sua família, lá em Afogados de Ingazeiros você estava em casa.

 

R – É, estava em casa, mas é por necessidade do serviço. Quando você menos espera, chega uma carta dizendo que: “A partir do dia primeiro de tal, você está sendo transferido por conveniência do serviço.” Não pode recusar, é conveniência do serviço. Muitas vezes a pessoa pede. Vamos dizer, peço para ser transferido de Pesqueira para Recife, a chefia analisa e, se tiver necessidade, ela autoriza, mas quando é por necessidade de serviço chega uma carta certificando que a partir do dia primeiro está transferido por conveniência do serviço. Já manda passe, manda a ordem de bagagem. Você tem direito a transportar suas bagagens, tem direito a trazer seus filhos e tem mais um mês de ajuda de custo, mas você não pode dizer que não vem. Tem que vir porque é por necessidade de serviço.

 

P/2 – Você já tinha quantos filhos quando você estava lá? Você já tinha casado?

 

R – Já tinha casado, já estava com quatro filhos.

 

P/2 – E quando você veio, veio com a turma toda?

 

R – Quando eu vim para cá... Lá eu morava em uma casa da Rede, eu vim morar em casa de aluguel, mas me disseram: “A Rede tem umas casas no Ipiranga que é de funcionários. Você pede uma casa: se você tiver sorte, você consegue uma.” Aí eu fui falar com o doutor que me transferiu: “Doutor, olha, eu vim para cá, o senhor está sabendo, é conveniência do serviço. Minha mulher não conhece aqui, nunca veio. Se adoecer um filho, ela não tem nem coragem de abrir a porta... E eu não tenho condição de pagar aluguel de casa, não.” Ele disse: “Certo, faça um requerimento que eu arranjo uma casa para você em Ipiranga.” Eu fiz o requerimento e a casa saiu.

Tempos depois, uns trinta, sessenta dias, ele disse: “Vá na rua tal, [na] rua tal tem uma casa.” Eu passei a morar nessa casa. Era da Rede Ferroviária, pagava nada. Depois, quando se aproximou da Rede ser extinta, as casas foram vendidas de preferência para quem morava, aí eu comprei essa casa, ainda hoje moro.

 

P/1 – E essa casa era numa vila de ferroviário?

 

R – É, lá era conhecido como a vila dos ferroviários. São quatro ruas: Rua Bezerra da Palma, Rua Amaro Duarte, onde eu moro, Rua Justino Dital e outra rua. São quatro ruas com umas 80, 100 casas, todas da Rede Ferroviária. Quando estava perto de ser extinta, a Rede Ferroviária vendeu aos moradores, umas em dois anos, outras em dez anos, por um preçozinho simbólico, todo mundo ficou com as casas.

 

P/1 – E como foi pro senhor essa mudança, pro senhor e pra sua família, foi tranquila?

 

R – Tranquila, tranquilo mesmo.

 

P/2 – Por que você fica como chefe da estação Central em Recife, primeiro Coqueiral, mas aí você vai para a Central?

 

R – É. Em Recife eu não era o agente, eu era auxiliar, porque agente de primeira tinha que ser os mais antigos.

 

P/2 – Auxiliar de estação? Você ajudava o chefe?

 

R – O Chefe.

 

P/2 – Mas fazia o quê?

 

R – As mesmas coisas que eu fazia nas outras como chefe de estação, a mesma coisa. Distribuir bilhetes pro rapaz que ia vender bilhetes, recolher rendas, designar pessoas para trabalhar, a mesma rotina das outras estações.

 

P/2 – E você ficou, Lula, até se aposentar?

 

R – Foi, até me aposentar.

 

P/2 – E você se aposentou em que ano, Lula?

 

R – Eu me aposentei dia trinta de agosto de 1990.

 

P/2 – Já tinha uma conversa sobre a concessão da linha, a privatização da Rede, já havia essa conversa?

 

R – Já, já.

 

P/2 – Comovocê ficou sabendo, Lula?

 

R – Eu fiquei sabendo porque trabalhava aqui na estação central, aí começou o pessoal fazendo o levantamento, medindo e vendo que ia fazer as construções. “O que é que está acontecendo?” “Os trens de passageiros vão sair daqui para Cinco Pontas” - que é outra estação que era estação de cargas. “É porque aqui vai ser o metrô.”

Começou a construção da linha do metrô, a gente passou os trens que eram da Rede pra Cinco Pontas. Quando a construção da linha do metrô mesmo ficou pronta, que o metrô inaugurou, foi a época que a Rede foi extinta. Como eu não tinha tempo de me aposentar, eu e vários, centenas, fomos transferidos para o metrô. Trabalhei nessa estação do metrô, aí trabalhava com a carteira assinada pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Fomos transferidos da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) para a CBTU.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – Quando eu me aposentei, já foi pela CBTU, passou a minha carteira.

 

P/2 – Mas que ano que vocês foram transferidos para o metrô?

 

R – Aí, não tenho certeza do tempo, não.

 

P/1 – 1980, mais ou menos?

 

P/2 – É porque se você se aposentou em 1990, foi para trás um pouco.

 

R – Foi em 1982, 1983, por aí, que eu fui transferido da Rede Ferroviária para a CBTU.

 

P/2 – CBTU?

 

R – É, Companhia Brasileira de Trens Urbanos.

 

P/2 – Eles encerraram o contrato de vocês ou só fizeram uma passagem?

 

R – Sem indenização, sem nada. Encerrou, fechou o tempo da Rede Ferroviária e abriu...

 

P/2 – O tempo da CBTU.

 

R – É.

 

P/2 – Esse período então, esses sete, oito anos, você ficou trabalhando para o metrô, para a CBTU?

 

R – Para o metrô, por sinal, eu até estou com a carteira profissional.

 

P/1 – Depois, lá fora, a gente dá uma olhadinha com mais calma.

 

R – Tem por aqui que eu trabalhei na Rede Ferroviária e depois abriu CBTU.

 

P/2 – Deixa eu lhe ajudar a enxergar. É bom porque a gente já vê.

 

R – Aqui é Rede Ferroviária, né?

 

P/2 – É, da Rede abriu a CBTU, em agosto de 1990 é a sua aposentadoria. A CBTU não tem aqui, Lula.

 

R – Tem, tem que ter.

 

P/2 – Essa Renata Paula Cavalcante já é outra.

 

R – É, eu trabalho nessa firma agora, mas por aqui tem.

 

P/2 – Vamos continuar, Lula, a gente vê lá depois. Ah, está aqui CBTU, 1988. Em 1987 a Rede; em 1988 passou para a CBTU, sem rompimento de contrato nem nada. Você ficou fazendo o quê na CBTU, Lula?

 

R – Eu fiquei subordinado à CBTU, mas fiquei na mesma coisa dos trens da Rede Ferroviária, a CBTU tomou conta dos trens da Rede Ferroviária. Nessa estação da CTBU, no metrô, é trem elétrico e lá em Cinco Pontas eram trens máquina a diesel.

 

P/2 – Diesel e só de passageiros que foram pra lá?

 

R – De passageiros. Fazia Recife-Cabo, Jaboatão-Cabo, ficou trafegando trem de passageiro, mas com máquina diesel.

 

P/2 – Que eram da Rede?

 

R – É, da Rede Ferroviária que entregou para a CBTU.

 

P/2 – E você ficou cuidando disso?

 

R – Fiquei.

 

P/2 – Fazia aquele trabalho.

 

R – Aí eu já passei a ser chefe de esplanada. Era eu ficar encarregado do abastecimento das locomotivas, a locomotiva pega 2220 litros no tanque dela, a capacidade. Tinha seis, oito locomotivas trafegando e eu ficava de olho. Quando chegava uma que estava com óleo baixo - 400 litros de óleo já é considerado baixo - eu colocava para o abastecimento: “Essa máquina, quando chegar, abastece. A 2002, abastece na segunda viagem.” E ficava controlando porque se numa daquelas locomotivas faltasse óleo durante a viagem, era para o cara pegar dez dias de suspensão e tinha que controlar os trens de passageiro, transporte de pessoal para o trabalho. O trem dá bronca, o pessoal perdeu o horário e era considerado grave.

 

P/2 – Era um trem de subúrbio?

 

R – Esse trem é de subúrbio, Recife a Cabo ou então Cabo a Jaboatão. Eram esses trens de subúrbio; eram quinze, vinte trens durante o dia. Abria a estação às cinco horas, cinco e dez partia o primeiro, às cinco e quarenta, seis e vinte... De meia em meia hora tinha trens de passageiro, aí eu tinha que controlar o abastecimento das locomotivas, a troca das locomotivas e troca de vagões. O maquinista falava: “Essa composição não está prestando, está ruim de freio.” Eu tinha que tirar aquela composição do tráfego, colocar outra e aquela mandar para a oficina. A oficina era bem pertinho, entrava numa linha e estava na oficina: “Olha essa composição aí.” Ele fazia a revisão dos freios e mais tarde entregava. Ficava sempre uma composição de prontidão. Quando o maquinista dizia qualquer coisa, a gente trocava e o abastecimento de máquina era com frequência. Máquina chegou a 400 litros de óleo já tinha que abastecer, e era isso.

 

P/2 – E isso foi de 1988 a 1990, quer dizer, durante dois anos você ficou fazendo isso. Aí em 1990 você se aposentou?

 

R – Mas eu já fazia isso há cinco, seis, oito anos. É porque nesse tempo eu passei para a CBTU, mas o trabalho já era esse há oito, dez anos já. Só que eu passei, desvinculou [da] RFFSA e passou só a burocracia de documentos.

 

P/2 – Em 1990 você tinha tempo e por isso decidiu se aposentar?

 

R – É, tinha tempo. Eu, como telegrafista, tinha direito a me aposentar com 25 anos de serviço e com 50 de idade, aí completei os 25 de serviço, mas não tinha os 50 de idade. Quando fui para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o rapaz disse: “Agora, seu Luiz, o senhor pode dar entrada na permanência.” Na permanência o INSS ficava pagando um salário extra, parece que era 20% do meu salário e aí deu entrada e pronto. Todo mês eu recebia o meu da CBTU e tal dia recebia o do INSS, era uma complementação. Quando Collor assumiu, queria tomar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), queria tomar não sei o que. Eu disse: “Eu vou dar entrada.” Pedi meu tempo de serviço, estava com 32 anos, dez meses e quatorze dias. Como a CBTU queria ficar livre do pessoal que era antigo da RFFSA, encaminhou minha aposentadoria no mesmo mês, saiu.

 

P/1 – E aí o que o senhor foi fazer?

 

R – Quando eu me aposentei abri uma loja de móveis em Beberibe, minha e do sobrinho da minha mulher que tem fábrica de móveis. Não tinha muita prática no comércio, tinha medo da fiscalização porque tinha muita mercadoria irregular. Eu vendi para um pessoal que era conhecido aqui no comércio, Vismael. Fiquei com eles uma temporada, depois: “Seu Luiz, quer ficar com a gente?” “Fico, o que é que eu vou fazer em casa? Eu vou ficar com vocês.”

Até hoje eu trabalho com eles, depois assinei carteira com eles. Nos dias que eu saí da CBTU, me aposentei e fiquei em casa era só da mesa para cadeira, da cadeira para a cama; dormia à tarde, quando era à noite estava sem sono, aí eu disse: “Sabe de uma coisa? Vou fazer uma atividade.” Hoje passo o dia na loja e quando chego em caso durmo que me perco.

 

P/1 – Então, senhor Luiz, a gente vai retomar um pouquinho o que o senhor falou. O senhor se casou, quando foi o seu casamento?

 

R – Ah, o meu casamento. (risos) Eu, em Afogados da Ingazeira, conhecia a família da minha futura esposa. Por sinal, achava a mãe dela a mulher mais bonita de Afogados. Era professora, diretora de colégio, eu sempre via aquela mulher quando vinha do colégio com os livros assim: “Mas que mulher bonita.” Aí ficava...

Entrei na Rede, vim trabalhar aqui. Quando foi final de ano, Marlene e a mãe dela vieram comprar tecido aqui, comprar roupa de fim de ano, aí passei numa dessas ruas de Recife e: “Eu conheço essa moça, é de Afogados.” Eu fiquei olhando, passando. Eu olhava para ela, ela olhava para mim e eu disse: “Essa moça é de Afogados.”

Foi se aproximando o final de ano, estavam marcadas minhas férias para o final de ano e fui para Afogados da Ingazeira. Papai e mamãe moravam lá, meus irmãos. Fui e quando cheguei lá encontrei a mesma moça. Eu disse: “Olha, não disse que essa moça...” “Vem cá, eu encontrei vocês lá em Recife, não foi?” “Foi  e não sei o que...” E aí ficou.

Eu quase que nasci em Afogados, me criei em Afogados, ela é de lá; a gente terminou namorando porque se encontrou por aqui. Lá começamos a namorar, mas o pai, esse pessoal de sertão, sabia que eu tinha namorado já com uma moça lá uns dois, três anos e acabou o namoro, aí disse: “Esse rapaz é da estação.” O pai dela, meio bravo, disse: “Não, vamos acabar com esse negócio, eu quero falar com ele.”

Ainda como namorado, a gente lá no banco, Marlene meio medrosa, disse: “Lula, afaste um pouquinho que lá vem mamãe.” Quando eu olho, era aquela mulher que eu achava bonitona, Dona Zezinha, diretora da Escola Reunida. Soltei a mão dela, afastei mais um pouquinho no banco, aí passou, a casa dela em frente, aí ela: “Você vai ver, papai vai mandar me chamar.” Só foi chegar em casa: “Oh José, Marlene está com o namorado ali no banco.” Aí lá vem Adelmo: “Marlene, papai disse para você ir para a casa.” Eu disse: “Marlene, quem é essa mulher?” “Minha mãe.” “Ah, é tua mãe?” “É.” “Ah, eu conheço há muito tempo, só não sabia que era sua mãe.”

Aí pronto, comecei a namorar e começou aquele negócio: “Lula, José quer falar contigo.” “O que José quer?” “Lula, José quer falar contigo...” Como minha irmã era professora, Dona Zezinha era diretora do colégio, conhecia muito minha irmã, José de Brito, que era o pai de Marlene: “Oh Zezinha, quem é esse rapaz?” “Conheço, é um rapaz que trabalha na Rede e a irmã dele é a Carminha, é uma professora aí.” Ele disse: “Na Rede? Não conheço ninguém na Rede não, na Rede só tem negro.” (risos) Porque tinha uns moreninhos lá. Aí ela falou: “Não, mas Lula eu conheço, a irmã dele é professora.” “Ah, diga a ele que depois ele apareça aqui por que eu quero falar com ele.” Deram o recado: “Lula, papai quer falar contigo.” “Não, você namora. Como é? Vamos noivar?” Aí noivei e casei.

 

P/2 – Lula, me conta, quer dizer que o seu Zé de Brito era bravo, bem de vida, queria...

 

R – Seu Zé de Brito era: “Esse rapaz já teve uma namorada, três ou quatro anos...” Eu já namorava com ela há quase um ano. Quando eu fui falar, encomendei as alianças: “Seu José, como o senhor sabe, eu namoro com sua filha e já está completando um ano, gostaria de casar com ela. Queria a sua permissão. Eu tenho ela para casar, não tenho dúvida.” Vamos dizer que tinha sido em julho o pedido de casamento para noivar, ele disse: “Não tenha dúvida, permito você casar. Quando?” “Nesse dezembro não, dezembro seguinte, porque o senhor sabe, vamos evitar...” “Não, vocês já namoram um ano. Oh, Zezinha...” Que era a esposa dele: “Entre namoro, noivado e casamento que tempo eu levei com você?” “Seis meses.” “Está vendo, Lula? Você já namora com a menina aí um ano, ainda quer um ano e meio para casar? Não precisa, para conhecer não precisa desse tempo todo, não.” Começou pressionando: “Vamos fazer isso nesse final de ano agora, no outro ano não, está muito longe.” “Tudo bem, eu vou pensar.” Cheguei em casa e disse à mamãe: “Mamãe, fui pedir Marlene em casamento e Seu Zé de Brito está pressionando para agora, em dezembro, nós estamos no mês de julho.” Ela disse: “Não, Lula.” Ela tinha medo de eu, solteiro, trabalhando em Flores - eu já estava trabalhando em Flores que era uma cidade meio violenta, política: “Não acabe o namoro com Marlene, não. Você vai para Arcoverde, compra tudo que quiser, eu dou o número da minha poupança e depois você me paga aos poucos, mas compra o que você precisar que dá para casar em dezembro.” Aí eu vim para Arcoverde, comprei tudo, tudo mesmo. Nunca paguei um centavo a ela, quando eu ia pagar ela dizia: “Não, deixe para depois que você está apertado.” (risos)

Pronto, casei e foi minha felicidade. Casei, tenho seis filhos, são três homens e três mulheres, todos casaram e vivem bem. Só tem dois solteiros em casa, as duas casadas, o outro casado. A família que eu tenho em Afogados da Ingazeira são meu sogro que morreu, mas tem os filhos dele, são os cunhados, são o mesmo que meus irmãos. Tem minha sogra que é viva; todo ano, três vezes por ano, eu vou para lá, eu e meus genros, que são bem de vida aqui: um é dentista, o pai dele é dono de fábrica de espuma, o outro é dono dessas casas Figueiras Calçado, filho do dono da Figueiras Calçado, é meu genro.

 

P/2 – Então deu certo, está todo mundo feliz?

 

R – Estão todos em Afogados da Ingazeira. A gente vai pra Afogados da Ingazeira duas ou três vezes por ano. Chegamos lá, eles vão para a pousada, eu vou para a casa da mãe de Marlene, todo dia a gente se encontra e vai para um canto e vai para outro, é amizade. Já os meus irmãos que nasceram em Afogados da Ingazeira, quando querem ir para lá pedem arrego a mim: “Lula, quando é que tu vai? Quero ir contigo.” Porque eles não têm mais ninguém. Nasceram lá, se criaram, estudaram,  vieram para cá e se casaram por aqui.

 

P/2 – Só você manteve família lá?

 

R – Eu me casei por lá e fiquei com uma família lá. Quando chego lá é o mesmo que ser um filho. Pronto, a minha felicidade foi ter casado com essa menina de Afogados da Ingazeira porque senão eu tinha encerrado, feito os meus irmãos que só vão para lá quando eu vou.

 

P/1 – E depois do seu casamento, senhor Lula, o senhor voltou a trabalhar em Flores ou não?

 

R – Eu trabalhava em Flores. Depois do meu casamento pedi transferência para Afogados da Ingazeira, que é a terra dela e é a terra que eu também vivi uma temporada. Fui para Afogados da Ingazeira até ser transferido para cá e aposentei.

 

P/1 – Então o que significou para o senhor ter trabalhado na Rede Ferroviária?

 

R – Ah foi muito bom porque lá no sertão não tinha outra fonte de emprego. Se por acaso eu não tivesse ficado na Rede Ferroviária eu ia ser agricultor. Eu tive a sorte de aprender telegrafia, estudar um pouquinho, aprender o serviço das estações. Entrei na Rede Ferroviária e me aposentei; hoje estou tranquilo, tenho minha família, tenho minha casa própria, os filhos todos criados, todos bem de vida, e eu com saúde total.

 

P/1 – E o que o senhor mais aprendeu durante todo esse tempo de ferrovia?

 

R – O que eu mais aprendi foi fazer amizade, cultivar amizade que já tenho. Hoje eu conheço muita gente, não tenho inimizade nenhuma, nunca fiz confusão, nunca agredi ninguém, nunca fui agredido, todos os vizinhos gostam de mim e eu dos vizinhos, foi uma boa. A Rede Ferroviária, para mim, já é antepassado dos meus pais. Meu pai trabalhou na Rede Ferroviária; dos meus cinco irmãos, seis comigo, somente eu entrei na Rede Ferroviária, os outros seguiram outros destinos, mas eu achei maravilhoso. Foi bom.

 

P/1 – E o senhor tem alguma história, algum causo que aconteceu na estação que seja engraçado? Na casa da estação? Alguma história que tenha sido engraçada, diferente e que o senhor se lembre?

 

R – Não tenho, não.

 

P/1 – E faltou alguma coisa que o senhor gostaria de comentar que a gente não tenha perguntado?

 

R – Não, foi um trabalho normal. A vida inteira sem confusão, tudo numa rotina normal, cheguei até a época de se aposentar sem problema.

 

P/1 – Para o senhor, qual a importância de um trabalho como esse, que a gente está fazendo de registrar a memória da Rede Ferroviária através das pessoas que viveram o cotidiano da Rede?

 

R – Olhe, a coisa da Rede Ferroviária é que contribuiu muito para o engrandecimento de cidades. Quando a Rede Ferroviária inaugurava uma estação, ali era geralmente um povoado; como tinha transporte para Recife, transporte de passageiro, transporte de mercadoria, aquelas cidades evoluíram. Hoje Pernambuco pode agradecer: a maioria das cidades que se desenvolveram foi através do desenvolvimento da Rede Ferroviária. Antes não tinha transporte, toda mercadoria que era produzida naquelas cidades ou era consumida ali ou não ia para lugar nenhum. Com o advento da Rede Ferroviária, todos os dias passando trem para Recife, o pessoal podia plantar e colher porque já tinha comércio certo. Era pinha, feijão, algodão. Algodão teve um tempo que era a mercadoria mais valiosa do Nordeste. Tinha a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro (Sambra), que comprava todo o algodão da região, quer dizer que o pessoal se expandia mesmo a plantar algodão, sabia porque tinha transporte certo. O transporte da Rede Ferroviária era pago no ato, quando você chegava lá podia despachar, tinha um vagão com quatrocentos sacos, tinha outro vagão com seiscentos sacos que podia ser de milho, feijão. Podia ser pago no ato ou a pagar no destino, quer dizer que facilitava, você tinha mercadoria para lotar dez vagões, não tinha dinheiro para pagar o frete na hora, mas sabia: levava para Recife, entregava a Sambra e na hora que a Sambra lhe pagava você pagava para a Rede Ferroviária. Então tinha esse movimento, o frete a pagar no destino. As cidades por aí evoluíram com esse sistema de trem e transporte, transporte de passageiro e transporte de carga.

 

P/2 – Quer dizer que o estado de Pernambuco deve muito à Rede, não é?

 

R – O estado de Pernambuco deve muito à Rede Ferroviária. Foi uma coisa que evoluiu muitas cidades por aí. Pesqueira, mesmo: Pesqueira era uma cidade, aí tinha as fábricas de doce, que eram… A indústria doceira aqui do Nordeste era em Pesqueira, que é a Fábrica Peixe, Fábrica Tigre, Fábrica Rosas. Todos esses produtos eram transportados pela Rede Ferroviária, como a mercadoria que ela recebia também era transportada pela Rede Ferroviária: açúcar, todo tipo de mercadoria. Assim Pesqueira, Arcoverde, Sertânia, Afogados da Ingazeira, Serra Talhada, Salgueiro, todos esses lugares se desenvolveram depois da passagem dos trens.

 

P/2 – Lula, o que o senhor acha de contar essas histórias da Rede por meio de vocês que foram os ferroviária que fizeram essa força, esse trabalho todo?

 

R – Essa história da Rede Ferroviária é uma história bonita porque foi o povo mesmo que fez. O governo deu a chance, trouxe para cá a Rede Ferroviária e o povo que, com abnegação mesmo, com carinho e muito trabalho fez evoluir muitas cidades por aí. Hoje foi extinta, mas vai ser reativada. Tem a Transnordestina que está sendo implantada e vai substituir a Rede Ferroviária, porque enquanto os países de primeiro mundo investem em trem, aqui extinguiu os trens, mas eles estão vendo nas cidades e já estão implantando a Transnordestina para transportar mercadorias porque é uma vantagem muito grande. Um trem pode ser com seiscentas, oitocentas toneladas, menos combustível, desafoga o tráfego nas estradas, menos acidentes e o frete barato. Quer dizer, se o frete da mercadoria é barato, todo o produto que é daquela matéria-prima também; o preço não vai ser alto, quer dizer, ganha todo mundo com isso.

 

P/1 – O que o senhor achou de ter participado dessa entrevista? Ter vindo aqui e contado a sua história?

 

R – Eu achei bom porque é uma coisa que a gente vai relembrar e outra coisa, outras pessoas vão tomar conhecimento do que foi a Rede Ferroviária no passado e que ela fez muito pelos nordestinos, como tem muitos dirigentes, engenheiros, que levaram a vida trabalhando e sabem que essa história é verdadeira. A Rede Ferroviária contribuiu muito para Pernambuco e os pernambucanos sabem disso.

 

P/2 – Lula, e você? Gostou de dar a entrevista?

 

R – Gostei, ótimo.

 

P/2 – É? Achou bom?

 

R – Achei bom porque está se vendo que é uma história que não morreu, ainda permanece alguém que tem sempre uma lembrança e quer saber o que aconteceu, como aconteceu e com a participação daquelas pessoas que contribuíram. Eu fui uma delas, passei a minha vida trabalhando na Rede Ferroviária e não me arrependo, foi com alegria total que eu trabalhei na Rede Ferroviária.

 

P/1 – Então está certo, senhor Luiz, muito obrigada.

 

R – Nada.

 

P/1 – Em nome do Museu da Pessoa e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a gente agradece a sua participação.

 

R – Às suas ordens, quando precisar, estou a inteiro dispor.

 

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