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História

Um ser que transborda

História de: Luiz Fernando Lopes Marques (Lubi)
Autor: Grupo XIX de Teatro
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

Nascer e crescer em Santos trouxe a Lubi muito mais que a praia. Ofereceu um horizonte: e, nessa infinitude, encontra o mundo das possibilidades. Foi assim desde o começo, quando ainda criança inventava um mundo paralelo com outra língua, inclusive. Construir castelos de areia e ficar esperando a maré encher era sua ioga. O quanto de si era (des)construído na invasão do mar na areia? Mais tarde, muda-se para São Paulo para cursar Rádio e TV. Este ponto inicial é a construção de um novo castelo na sua vida. As torres se formam quando entra na EAD/ USP e cava novas oportunidades para se profissionalizar como diretor. Hoje, tem seu castelo construído, mas sabe que a maré pode encher novamente. Por isso, está sempre pronto para partir em busca de outros horizontes.

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História completa

O meu nome é Luiz Fernando Lopes Marques, mas desde muito pequeno, me chamam de Lubi. Eu demorei pra falar português, falava uma língua meio própria, e Luiz Fernando saía meio confuso! Uma vez falei Lubi e ficou. Lembro da fonoaudióloga gritando com a minha mãe: “Ele fala assim porque você responde a ele. A hora que você parar, ele vai falar português!”, só quem não me entendia era o meu pai. Então eu falava e minha mãe traduzia para ele. Mas teve um episódio que foi determinante! Minha mãe enfartou na minha frente e pediu pra eu ligar para o meu pai. Falei o que estava acontecendo em português. Era muito outro mundo! A mesma coisa era no meu quarto, nas minhas coisas, eu mentia, omitia, inventava... Eu me perdia nos lugares e minha mãe me encontrava, mas eu já tinha inventado um outro nome, uma outra família! Uma época eu andei de crachá para poder me devolver, então eu nunca estava nesse mundo. Minha mãe me levou em vários médicos, aí o médico falava: “Mas é normal ter um amigo imaginário”, minha mãe respondia: “Amigo é uma coisa, uma turma é outra, né, doutor?”.

 

Nasci numa casa muito cheia, sou o terceiro filho e a lembrança que eu tenho é de um mundo de muita imaginação. Meus irmãos acabaram tendo as profissões do meu pai, como advogado e contador e eu sempre vivi um mundo paralelo. Minha avó era professora de piano e a minha mãe professora de pintura, mas as duas nunca gostaram de se apresentar como artistas, elas sempre diziam: “Eu sou professora, eu ensino, o artista é aquele que cria”, então a minha vó fala: “Eu dou aula de piano, então eu toco o que o artista escreveu!”

 

Aprendi a tocar piano e eu tenho uma imagem muito bonita da minha vó: um dia, no meio da aula, eu devia ter uns 11 anos, ela parou, fechou o piano e falou: “Você é um artista, mas não dessa arte, vai procurar a sua!” Nessa altura do campeonato, eu já tinha um foco jogado para o piano, só que tocava piano com a luz apagada, queria virar para trás para mostrar, eu não queria seguir a partitura, eu queria criar a minha música. Eu nunca quis ser ator, eu sempre quis inventar mundos e universos.

 

Eu nasci em Santos e vejo lá como uma praia de contemplação. Claro que tem a turma dos surfistas, mas não é aquela praia carioca, é uma praia de caminhada. Você vai na praia, fica andando sete quilômetros,  cruzando com as pessoas, encontrando, falando e tal. Eu ia muito com o meu irmão no final da tarde, quando a gente voltava da escola, principalmente no horário de verão, e ele ia jogar futebol e eu ficava fazendo já minhas loucurinhas. Ia para perto do mar, cavava bem fundo e ia fazendo um monte de areia, um castelo, até que ficava todo circundado e aí eu esperava a maré encher e ficava ali como uma ilha e esperava aquilo inundar e me afogava… E eu fazia isso quase como uma ioga, todo dia eu ia… E depois eu fui com a câmera, o vídeo, eu ia fazendo fotos, imagens… Quando eu me mudei para São Paulo, percebi que eu achei que eu gostava era do horizonte. Percebo isso até as minhas escolhas de teatro. Não suporto sala fechada, tenho que ter claridade! O que ficou da praia é isso: é um ambiente de luz e também um ambiente muito democrático e que pode ser com intervenção, nem um pouco protegido.

 

Nunca fui em um curso de teatro, era tudo muito autodidata, eu nem entendia muito essa questão de aprender a arte. Eu pensava em fazer Direito pra ganhar dinheiro como advogado pra poder bancar meus filmes. Eu era muito bom aluno, achavam um desperdício eu ir para artes: “Você tem notas para Medicina, você tem notas para Direito, você vai gastar as suas notas fazendo Audiovisual?” Eu tive uma adolescência muito livre, fui muito pouco reprimido em todos os ambientes que eu vivi, tanto ativamente como sexualmente.

 

Fui estudar Rádio e TV na Metodista em São Paulo. Eu queria ser repórter do Globo Repórter, mas descobri que o repórter não era quem comandava, era o diretor, então eu queria ser o diretor do Globo Repórter. Por isso que eu fui fazer Rádio e TV. Depois eu vim saber que quem dirigiu por muito o Globo Repórter quando eu era adolescente era o Coutinho, que virou meu ídolo e que fez programas incríveis! Eu queria muito aquele mundo porque por mais que eu gostasse desse mundo meio fantasioso, ele sempre tinha um viés do real, a realidade me interessava, então eu nunca fazia cenografia, eu gostava de gravar dentro do mar, com vestido de noiva… O vestido de noiva tinha que ser um vestido de noiva real, tanto que a gente foi buscar um com uma tia que tinha acabado de se divorciar: “Leva daqui!” Não queria comprar uma vela, tinha que pegar uma vela da igreja. Sempre tive uma pira na base no real. Então comecei a pirar nessa coisa do documentário. Aí eu descobri o documentário cênico, que podia ter ficção.

 

Eu já tinha 21 anos e resolvi prestar, num primeiro momento, o CAC, que é o Curso de Artes Cênicas da USP. Mas fui assistir uma peça do CAC e aí, nossa, me deu um sono, me deu uma tristeza! Achei uma chatice aquilo! Saí da peça e entrei numa do EAD [Escola de Arte Dramática] e foi um brilho. Falei: “Eu quero fazer isso! Se eu quero aprender a dirigir ator, é melhor que eu faça uma escola de atuação”, e resolvi prestar EAD. Prestei junto Letras e a EAD, porque não era Fuvest. Por sorte, passei nas duas e foi quando realmente eu tive que fazer um pouco essa escolha, porque enquanto isso, na faculdade, eu fiz o meu primeiro documentário, que inclusiva ganhou um prêmio da Editora Abril, na época, de melhor vídeo de formatura em audiovisual.

 

Quando eu entrei na EAD, falei: “Agora tenho que me dedicar a isso”, era muito forte, eram cinco dias por semana, todas as noites, e aí foi quando eu acho que eu optei num primeiro momento ao teatro, mesmo. Eu fiquei de olho na aula de direção do CAC, que quem dava era o Antônio Araújo, o diretor mais incrível! Ele convidada os alunos da EAD e lá fui eu todo feliz fazer um ano como ator. Era assim: o diretor dirigia e você só atuava e tinha alguém que escrevia. Só que depois que você apresentava a cena de 15 minutos, você discutia a cena e aí, nas discussões, o Tó começou a perceber que eu me empolgava e ele, muito querido, um dia perguntou assim: “Você não quer vir na aula teórica também?” Aí, pensei: “Se eu ficar como dramaturgo, eu acho que tenho mais chance de poder mexer, ficar mais perto da direção”. Tinha levado um texto e o dramaturgo não tinha levado, eu tinha ganhado um poema de um namoradinho, tirei o poema, li como se fosse meu e passei na vaga de dramaturgo. Só que aí teve uma coisa que foi a mágica da coisa que é por eu ter optado ser dramaturgo, ficamos em oito dramaturgos e sete diretores e aí faltava um diretor para um dramaturgo, foi quando o Tó virou e falou: “Você quer dirigir o coletivo?”, ele mudou minha vida nesse dia.

 

No coletivo, eu fiquei como diretor e juntou as meninas que eu já tinha conhecido no curso do Latão, que tinha sido na Oswald, então nós éramos em quatro meninas: Raissa, Sara, Daniela e Marina e um dramaturgo. A gente começou um processo que, no primeiro momento, o dramaturgo queria falar das relações de trabalho no final do século 19, a gente fez esse primeiro mês com esse tema, só que eu tinha uma aflição que eu só tinha atrizes e eu falei: “Não, eu quero olhar como é que é o trabalho pelas mulheres!”, aí a gente começou a estudar e caiu na nossa mão um livro que é A história das mulheres no Brasil, da Mary Del Priore, e Psiquiatria e Feminilidade, sobre as mulheres que eram trancadas em hospícios no final do século 19. A gente gamou nesse ensaio, todos e todas e aí eu resolvi fazer a partir disso.

 

E um pouco que nasceu o embrião de Hysteria e a gente começou a fazer esse exercício e a gente fez, fez… A gente fez uma cena, foi para a segunda e, de cara, já tinha uma reação muito legal com a peça. Eu brinco que explicar Hysteria ou qualquer peça, na verdade, é você escolher uma das mentiras possíveis e tudo você justifica e, no fundo, é tudo isso porque tem tantas leituras possíveis essa divisão, né?

 

A gente foi percebendo que estar num lugar era potente. E, logo depois, a gente percebeu que essa potência também era potência politica e pública e a nossa escolha do próximo espetáculo, que foi Hygiene. A gente começou a estudar as vilas operárias, descobrimos que tinha a Vila Maria Zélia em São Paulo e fomos conhecer. Como a gente era jovem, bem louco, resolveu trazer tudo pra cá, isso aqui tudo era lixo, era muito sujo. A gente quebrou o cadeado, limpamos junto com alguns moradores, empurramos algumas coisas para o fundo, fomos de casa em casa tocando campainha por campainha convidando as pessoas e o mais legal foi: nem lembro que horas que a gente marcou, se foi quatro, algumas chegaram às quatro, outras chegaram às quatro e meia, outras levantavam no meio e falavam: “Tá lindo, mas eu deixei o meu feijão em casa”, e aquele dia eu entendi que a arte que eu fosse fazer tinha que ser uma arte de porta aberta, tinha que ser uma peça que permitisse esse trânsito. Era muito prepotente, muito arrogante você chegar e dizer: “Isso aqui é um teatro, a partir de agora, eu vou pintar essa parede de preto, eu vou trancar essa porta, eu vou vedar!”

 

Logo que a gente chegou, a gente fez muitas ações, a Vila já era um pouco usada para filme, como em O Corintiano, a Denise Fraga tinha feito uma série do Fantástico aqui dentro e o Marco Rica vinha muito também. Um dos moradores ficou amigo do Marco Rica, então, toda vez que a gente passava, ele falava: “Vocês precisam conhecer o Marco Rica, viu? Vocês fazem teatro, você tem que conhecer o Marco Rica, o Marco Rica é um ator maravilhoso”, e a gente: “Claro, claro...” Ele foi assistindo todos os ensaios de Hygiene e toda vez que ele passava: “Vocês têm que conhecer o Marco Rica e tal”, e aí, depois de um ano dos trabalhos, a peça pronta, quando ele assistiu a peça, ele parou e falou: “Marco Rica precisa conhecer vocês”

 

Pra quem era criança quando a gente chegou, foi muito mágico. Imagina você com seis, sete anos e chega uma trupe, parece um filme, né? Então essa geração tem um encantamento por nós que é gigante, porque eles nunca tinham entrado aqui. Os muito mais velhos têm uma relação melancólica, porque “que bom que você tá abrindo de novo”. Quando a gente foi para a escola a primeira vez, que estava fechada há 50 anos, a gente achou os boletins dos moradores, e entregou para alguns deles. Então você imagina o que é isso? Já a faixa do meio, a juventude e os adultos e, sobretudo, os homens, tiveram muita dificuldade por diversas questões, o preconceito, que “é tudo bicha e tudo puta, são de esquerda”, mas, depois de um tempo, eles foram entendendo. Até porque todo mundo, um pouco, ganhou com isso, no sentido de que a Vila entrou no cultural, isso aqui era um espaço que juntava lixo e rato, e hoje não junta mais. A Vila começou a ser conhecida, algumas coisas caminharam. A Vila vai fazer cem anos e a gente tá aqui há 15, não dá muito mais para contar a história da Vila sem falar da gente.

 

Nossa primeira peça que é interativa, a gente ficou muito tempo pensando como que a gente vai falar com a plateia, como que a gente vai abordar alguém? A gente organizou a ordem dela pensando em interatividade e a primeira pergunta que a gente faz é: “Que horas são?”, que a gente chama de uma interatividade universal, quem não responde essa pergunta? E a última pergunta que a gente faz é se a senhora se masturba, que é uma pergunta profundamente íntima. E para fazer esse arco, a gente vai caminhando por várias perguntas: seu nome, se casou, a gente convida para rezar, a gente convida para dançar, a gente convida para ler um poema, a gente diz da gente também, para que o outro diga dele. Esse arco também é o arco que a gente pensa em toda a nossa relação com isso daqui, é quase como se fosse um “posso entrar?”, ou “posso tomar um copo de água?” E, de repente, a gente tá aqui, fecundando, férteis, parindo, gerando. Essa é uma imagem que me vem: um grupo muito preocupado e muito atencioso em como receber esse público e saber da responsabilidade disso. Nesses anos todos, diversas vezes, as pessoas se abriram muito aqui nesse espaço. E esse espaço guarda todas essas histórias.

 

Para tudo que a gente fez, a gente segurou muito bem as pontas, a gente conseguiu conversar, mesmo que em alguns momentos gritando, a gente ainda conversou. Acho que todo mundo aqui tem essa capacidade de se rever, de voltar, de olhar. Tudo aqui se impõe de maneira muito pra além de nós, sabe? O que eu acho bonito é que, em todos os momentos, a gente sempre se perguntava da nossa ética. No começo, era uma heresia ter um funcionário, essa era a verdade, eu achava lindo ter um espaço onde eu varria o chão. Mas você não segura essa onda, mesmo por tanto tempo, ou talvez por incapacidade nossa.

 

Nesse momento, o nosso sentimento é de estar em risco, de estar conversando com o poder público que, de fato, vai ter muita dificuldade de nos entender, né? Ou que vai nos ver como inimigos, então, dá muito medo, né? Mas eu acho que aí, voltando para o começo, eu acho que é construir sabendo que o mar vai vir para desmontar. Acho que todas essas construções minhas sempre foram de areia e eu tenho um certo prazer nisso, até. Vejo uma certa beleza. Porque se eu tiver que sair daqui amanhã, valeu. É como se a minha mochila tivesse sempre pronta para ir embora. Eu sempre faço as peças aqui com essa sensação de que vai ser o último dia. Se a gente for embora, quem for entrar aqui vai entrar a partir da onde a gente deixou. Então, a ética que a gente construiu, as histórias que a gente viveu aqui, elas estarão aqui.

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