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História

Um Rio e muitas histórias

História de: José Heitor Cony
Autor: Érika
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Nesta entrevista, José Heitor Cony contou um pouco de sua história. Relatando desde a sua infância ,passada no Rio com seus irmãos e seus pais. Chegando ao contexto atual, em que apresenta experiências profissionais acumuladas , grande parte na UNIMED Rio. Além disso, relatou vivencias familiares, envolvendo filhos e netos.

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História completa

Memória Unimed Rio

Depoimento de José Heitor Cony

Entrevistado por Aparecida Mota e Gustavo Alves  

Rio de Janeiro, 16 de setembro de 2004

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista HV004

Transcrito por Rogéria Nunes Henriques

 

Revisado por:Isadora Oliveira Gondim

 

P/1 – Boa tarde, Doutor Cony! R – Boa tarde. P/1 – Eu queria primeiro agradecer em nome do Museu da Pessoa, o senhor está aqui hoje dando essa entrevista para o projeto Memória Unimed Rio. E queria começar pedindo para o senhor falar o seu nome completo, a data, e o local do seu nascimento. R – José Heitor Cony, nascido 12 de abril de 1922, Rio, RJ. P/1 – Doutor Cony, agora eu queria que o senhor falasse o nome dos seus pais e qual era a principal atividade deles. R – Meu pai jornalista, professor e jornalista, e mamãe prenda domésticas. P/1 – Doutor Cony, qual é a origem desse nome de família Cony? R – No ocidente a história toda torna muito difícil precisar as origens desse nome, há várias versões, uns dizem que tem origem francesa, Cony com gny, outros dizem marroquino, Adolfo Bloch numa ocasião, numa reunião virou-se para mim e disse: “Você e seu irmão, vocês são judeus, a mim não engana”. Não, mas eu não tenho não, eu sou católico, até praticante, eu sou greco-romano-judaico, eu sou ocidental de quatro costados, não tenho vocações orientais, a não ser um pequeno período em que eu pensei muito em Buda e nas religiões do oriente. P/1 – Muito bem Doutor Cony, eu queria que o senhor falasse dos seus irmãos, se o senhor tem mais de um irmão, porque um a gente sabe que o senhor tem. R – Um irmão falecido, professor de história natural, recentemente falecido e outro irmão é Carlos Heitor Cony, escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, é um homem super ocupado, é o meu clone, meu ídolo, minha paixão, e quem me hospeda quando eu venho passar ao Rio, me hospedo na casa dele, faz uma excelente comida. P/1 – Muito bem Doutor Cony, agora eu quero que o senhor comece a contar para a gente coisa de quando o senhor era muito pequeno, por exemplo, a rua e o bairro onde o senhor morava quando o senhor era pequeno. R – Morava na Rua Lins de Vasconcelos, e à tardinha vinha um homem, ligava uma lampadazinha e iluminava a calçada, tinha guarda noturno, festejos eram juninos, batalhas de vender fogos de artifícios, comprar fogos de artifícios e pelada. P/1 – E o senhor era muito bagunceiro? R – Não, não, o primeiro irmão mesmo faleceu, eu nasci em meio uma expectativa ansiosa de meus pais, quando a perda sofrida, e fui recebido com muito carinho, de pais, tios, tias, avós, até meu bisavô, foi com muito carinho, muito carinho, qualquer coisa naquele tempo, os remédios eram ruins, a medicina não tinha o desenvolvimento de hoje, qualquer doença mobilizavam-se as tias, e fui muito acarinhado demais, e uma das recordações que eu tenho, de que eu tive uma gripe qualquer, complicou um pouco, e rotularam na época de catarro sufocante, uma coisa terrível, então uma das tias muito devota em Nossa Senhora da Glória, prometeu e a família cumpriu, e eu também a contra gosto cumpri, não podia ter outra opção, que eu até os 7 anos só usaria vermelho e branco, o que me botou numa situação extremamente constrangedora, não pelo vermelho, mas pelo seguinte fato: é que os meninos na época usavam marinheira, uma marinheira com boné, e as festas domingo iam todos aqueles meninos, mas a marinha é azul e branco, e o meu marinheiro inclusive o sapato era vermelho e branco, então se juntavam a mim e perguntavam porque é que o seu é vermelho, foi um constrangimento muito grande, mas passou os 8 anos e foi embora. P/1 – Doutor Cony, o senhor morava em casa não era? R – Casa sim. P/1 – Então fala um pouco dessa casa e como que era o cotidiano dela, se a sua família era muito grande? Se morava todo mundo lá? R – Sim morava a família, familiares, e papai era um homem muito expansivo, de muitos amigos, de receber amigos, de promover reuniões, e era um foco de atração, e eu... A minha mãe, com a gravidez da minha mãe, nasceu esse meu segundo irmão, hoje escritor Carlos Heitor Cony, fui criado talvez com muita ansiedade, muita ansiedade com medo que eu não vingasse, os remédios eram fracos, era uma farmácia da esquina, a medicina não estava adiantada, então eram muitas orações e promessas, não tive outra alternativa senão tomar os purgantes da época, é iniqüidade e outras coisas, chás de bico, não tinha escapatória, injeções também, a medicina bastante rudimentar, xaropes de gosto detestável. P/1 – Doutor Cony, o que é que é chá de bico? R – Chá de bico é um enema tecnicamente, purgantes também, purgante para purificar os excretos, o purgante você tomava e evacuava abundantemente, era uma coisa desagradabilíssima, mas de vez quando vinha aquele purgante, dieta, uma medicina muito precária. P/1 – Doutor Cony, mas na sua casa o senhor teve assim uma educação religiosa, uma educação política, como é que era isso? R – Religiosa sim, minha mãe me levava à igreja eu ia sempre a igreja, as ladainhas, e meu pai era um homem mais aberto, como jornalista e tinha amigos, já naquela época de esquerda, e discutiam, homem de esquerda, o Manoel Franco, ele era comunista, não existia bem essa palavra comunismo, mas ele era um homem muito aberto e de muitos amigos, muitos amigos. P/1 – Qual era o jornal que o seu pai trabalhava? R – Trabalhava no País, que foi... Pagamos um tributo pesado, na Revolução de 30 o Getúlio vitorioso, e o País era o jornal que apoiava o governo de Washington Luís, então morava na ocasião em Icaraí, então os vitoriosos foram lá no País e incendiaram o País, e meu pai perdeu o lugar de jornalista, um cargo público que ele tinha na prefeitura ele perdeu as gratificações que tinha, e teve que se precaver de vendetas, por ter sido do ex-governo. No colégio a brincadeira, primário, a brincadeira era quem era legalista, e quem era do governo, quem era a favor da revolução, eu não era a favor da revolução, eu era legalista, porque o papai era legalista, era correria, mas não havia maiores contratempos, pancadarias e nem discussões, o qual aos oito anos não há muito o que discutir. P/1 – Então agora eu quero que o senhor fale exatamente sobre esse período da escola, onde o senhor fez os primeiros estudos, e como é que era esse ambiente da escola primária, uma professora que tivesse marcado muito o senhor. R – A primeira professora, como sempre, foi ensinado por ela Dona Delza, eu ficava embasbacado com a Dona Delza, muito boazinha, dava nota boa para mim, nota sete, professora primária em Icaraí, posteriormente então tive que me preparar, e como filho primogênito, eu escolhi o mesmo colégio do meu pai, tinha estudado no Pedro II Internato, que tinha sido colégio do imperador, tinha a carteira do imperador, a biblioteca, então estudei com muito afinco, e consegui uma boa classificação, papai inclusive, eu tinha direito a gratuidade pela classificação, não quis, na altivez dele, para não receber favores do governo, que tinha bulido com as coisas dele lá, então ele pagava religiosamente, um belo colégio, mesmo colégio em que ele estudou, e as palavras dele foram as seguintes: “Meu filho” era um colégio interno, entrava segunda feira de manhã e saía sábado às duas horas da tarde, ele me deixa na porta do colégio imenso, despropositado, nem era habitual espaços reduzidos, [PAUSA] “Meu filho, você vai estudar no mesmo colégio que o seu pai estudou, eu confio em você, seja um homem certo, e faça tudo o melhor possível, você está tendo o privilégio de estudar num grande colégio.” E realmente era o colégio menino dos olhos do presidente da república na época, exames rigorosos, nível de ensino muito bom. P/1 – Mas Doutor Cony, eu queria que o senhor voltasse um pouco a escola de Icaraí, como é que era o nome da escola? R – Grupo Escolar Artur Bernardes. P/1 – E o senhor fez do primeiro ano ao quarto, quinto? R – Eu não tenho lembrança não. P/1 – Mas então o senhor foi para o Pedro II já para o ginásio? R – O explicador, o meu pai esse colega dele Pedro II também, e me preparou... Tive um professor também que usava uma flecha, quando respondia capital, se errava vinha aquela flechada na cabeça, flechada suave, tinha um nome engraçadíssimo Mirstaitides Simões dos Reis, professor Mirstaitides era no Lins esse professor, era recrutado como excelente professor, e era mesmo. Aí eu comecei a me preparar para o exame, obter uma boa nota, e a coisa funcionou bem. P/1 – Aí o senhor foi para o Pedro II? R – Pedro II, cinco anos. P/1 – Agora me fala do Pedro II. Com é que era lá, o senhor estava muito? E como é que era essa vida de internato? R – A vida de internato era uma disciplina liberal, uma alimentação de primeira ordem, o governo nos tratava a pão-de-ló, com muita variedade, não havia alternativa tinha que jogar, ser um homem mesmo, não é verdade? Ser um homem mesmo. Se deixasse de ser um homem sério, de palavra, essa coisa toda, os demais colegas policiavam. Eventuais desavenças no recreio, um ponta-pé desajeitado, na saída havia uma norma, muito interessante, os briguentos apartavam a briga, não havia briga no colégio porque todo mundo ficava ruim, então quando saíamos, íamos para a Quinta da Boa Vista, aí fazia um círculo na Quinta da Boa Vista, e o mais velho do grupo: “começa a briga então” aí saíam uns bofetões, tapas, não sei o que, quando as coisas, o sangue não jorrava não, mas quando pancada mesmo, interrompiam, e depois de interrompida eles tinham que um cumprimentar o outro, e acabar com a briga e não mencionar mais nada. P/1 – E o senhor se meteu em alguma briga? R – Meti, meti em algumas brigas. P/1 – Por que? R – Apanhei numa, dei na outra. P/1 – Legal. R – Aquele que eu apanhei, não sei uma vocação reprimida de ser punido, tornou-se meu melhor amigo, e o outro foi uma... Não foi uma briga de colégio, foi uma briga de garoto de rua, velocípede, andando de velocípede e namorando uma menina, assim volta, dando voltas olhando para a menina, a menina nem olhava, de repente as bicicletas, velocípedes se esbarram um no outro, e esbarram um no outro e aí partimos para briga, eu de repente dou um soco, quando dou o soco o menino berrava como trem da central, meu Deus do céu eu não tenho tanta força assim, o que é que aconteceu? É que o menino estava com uma caxumba, caxumba era um caroço que dava assim, um desastre, um desastre completo, a vizinhança toda veio à volta, e mamãe: “O que é que está havendo com o meu filho?” Aí eu virei e dei uma de... “Ah! Mamãe o menino veio provocar.” “Passa para dentro já.” E passou para dentro, eu me senti um herói, a mocinha não namorou nem a mim nem a ele, mas foi uma façanha digamos de luta, eu nunca fui tão poderoso, [RISOS]criou um efeito de um, talvez equivalente ao japonês que na ocasião da bomba atômica ao cair ele estava dando descarga na privada, e ele está até agora procurando saber o que é que houve, que barulho foi esse. [RISOS] São os fatos, as boas memórias do Pedro II internato para o externato e posteriormente para medicina. P/1 – Doutor Cony, que matérias o senhor gostava no Pedro II? Professores cuja as aulas o senhor gostava? R – Eram professores catedráticos, e alguns deles conheciam papai, que já tinha sido jornalista, ex-aluno do colégio também, eu gostava muito de Júlio César, professor de história, o professor Thiré dava notas rigorosíssimas, eu hoje não estou de bom humor, vai ser um colar de zeros, no boletim dava zero, zero, zero, todo mundo, era terrível, gostava basicamente de geografia e de história, mas excelente mestres, todos mediante concurso. P/1 – Doutor Cony, quando o senhor estava no Pedro II ainda no ginásio, seu pai estava trabalhando em que jornal? R – Papai ficou, a tal história, fica marginalizado, mas depois... Aí a sobrevivência da família dependeria dos ganhos dele, e nós perdemos, então era muito, papai é objeto de um livro que é um best seller está na 26o edição, Matéria de Memória, escrito pelo filho dele também jornalista, e ele então fez o seguinte, vamos sair da nossa casa boa, fomos para o Lins de Vasconcelos de novo, onde ele fez criação de galinhas, horta e bichinhos, teve até um jacaré, um jacaré no rio, corria no fundo da casa, corria no fundo jacaré, mas foi uma chácara que ele teve, quando foi em 1933 ele voltou ao jornalismo, amainou aquele furor da revolução, ele voltou a ser jornalista, aí nos mudamos para a Rua Cabuçu e posteriormente para o Rio Comprido, já aí para acompanhar meu irmão, que tinha no ambiente familiar, que tínhamos e tudo, aí tudo e na amizade, irmãos mesmos, ele quis ser padre, e ficou no Seminário de São José até 19 anos uma coisa assim, até quase tonsura, depois saiu. P/1 – Mas Doutor Cony, quando o senhor estava no Pedro II, o senhor já pensava em ser médico? R – Não pensava, mas tinha eventuais dores de dente, e dirá você o que é que tem uma coisa com a outra? Tem muita coisa, a medicina progrediu muito, nos recursos, as tecnologias que vocês estão usando aí, os botões, as máquinas, e não havia dentistas e os recursos de papai, jornalista, um funcionário, poucos dentistas que existiam, era aqueles dentistas que tinham à manivelas, tocava a manivela, e aquele negócio arrancava os dentes, doía muito, e uma das ocasiões eu cheguei até a sair correndo para não sofrer, depois então peguei bons dentistas, mas está muito ligado a minha escolha da minha especialidade, a dor dos tratamentos dentários primitivos, sem recursos e com maus profissionais, e quando já na faculdade, eu fui fazer... O meu cirurgião me chamava no segundo ano já, fiz estágio no pronto socorro também, mas ele me chamava para auxiliar as operações, para me familiarizar com o ambiente cirúrgico, então ele me ajudou muito, me orientou muito, mas como não tinha operações todos os dias, no terceiro ano eu pedi para fazer estágio no hospital São Francisco de Assis, aí no Mangue, e lá a praxe era o seguinte, isso é importante porque o tema já que é Unimed sociedade de anestesia, não havia anestesista no termo como hoje se configura, o anestesista não, o calouro no serviço havia uma escala, auxiliar as operações, mas os novatos iam fazer anestesia, e a anestesia era uma coisa bárbara, porque se medicava uma botija, não peguei clorofórmio não, eu peguei éter ao qual adicionava balsoformio, os cientistas da época apregoando que usando com balsoformio a incidência de pneumonias seria menor, porque o balsoformio preveniria essa coisa toda, aquilo constava do seguinte, colocar o metal no rosto do doente, “respire fundo, respire fundo,” e era comum os delírios, alguns saíam correndo, os delírios e as sufocações, e você firme ali, “respira fundo” incentivando para respirar aquilo fundo, era uma coisa bárbara, mas eu achava, me levava do meu dentista lá de trás, meu Deus do Céu, que sofrimento, que medicina atrasada, que coisa, aquele dentista era: “segura, amarra,” amarra para ele pode arrancar o dente, ou tratar o dente, e aquilo numa enfermaria de cirurgia, professor Jorge Gouveia, era a mesma barbaridade, até que um dia um cirurgião de grande prestígio, um figuraça da política da época, quis se operar com ele, e lá mesmo, fez questão que fosse lá na enfermaria dele, então convidou um anestesista de fora, que tinha estado na Itália na Força Expedicionária, onde também cru em anestesia, ele aprendeu a usar a anestesia com aparelhos modernos, e agente anestésicos mais seguros, mais confortáveis, e ele adquiriu uma certa experiência nesse troço, inclusive aparelhagem, então um belo dia eu estava na enfermaria, fui ver o homem que fazia anestesia, que diziam, anestesia americana, essa anestesia americana melhor, aí quando eu vi aquelas aparelhagem assim, aqueles botões, oxigênio, botões, parafusos mexendo, ele botou o doente lá na mesa, uma anestesia de pequeno porte, num instante o homem sem agitação, sem delírio, esse homem dormiu suavemente e acordou suavemente, taí é isso que eu quero fazer, vou querer ser anestesista, não senti o que outras pessoas não sinta, isso é bem fundo dentro de mim, que as outras pessoa não citam a dor, o medo, e o pavor diante da emergência, da possibilidade de uma cirurgia, eu vou querer fazer anestesia, onde aprender? Era outra pergunta, existiam pouquíssimos anestesistas, uns tinham estudado na Inglaterra, outros nos Estados Unidos, e já tinha um nível bom de ilustre anestesistas, mas para uma reduzida parcela de pessoas, o professor de urologia me inquiriu, está certo inquiriu? Notei o seguinte, eu faço rodízio de escala de anestesia, e eu escalei você para me auxiliar na minha operação, e você quis trocar com o outro colega, que estava escalado para isso, “Doutor Jorge, é porque eu acho esse negócio de anestesia formidável, treinar, pelo menos desenvolver uma certa habilidade em adormecer as pessoas da melhor maneira possível.” “Você não gosta de mim.” “Não, gosto professor eu até te agradeço a oportunidade de eu escolher fazer uma coisa que eu gosto.” Então basicamente a minha escolha de anestesia foi motivado por exclusivamente pela possibilidade de evitar que eu ou a humanidade tivesse melhor anestesia. Então como começou, existiam quatro, cinco, seis o Rio de Janeiro inteiro existiam 10 anestesistas, já fazendo anestesia americana, com gases, com oxigênio, os hospitais eram tão toscos, que a maioria dos hospitais se quer oxigênio eles tinham na sala de operações, não tinha, se passa mal tinha que ser coranina, injeções uma coisa sem sentido nenhum, mas então quero aprender, fui para o Veiga Filho e um homem já falecido disse: “você pode vir, vem peruar o serviço,” eu fui peruar o serviço dele já com máquinas, as máquinas, comecei no primeiro dia na anestesia, li os livros, tinha que ler os livros, sabia na ponta da língua, então no primeiro dia que eu fui usar as máquinas, nada do doente dormir, o doente não dormia, aumentava a dose como eu tinha visto nos livros mandavam, aumentava a dose, nada, todo mundo: “o que há Cony, você vai terminar essa anestesia, o cirurgião já está vestido, paramentado, e você não começou anestesia ainda, não está em condições,” “não, não já vai ficar em condições, deixe eu pegar do meu jeito,” e fui apanhar a maquineta antiga de éter para botar na cara, aí os colegas, aquilo era uma periélia, tinha uma periélia comigo, ou invés de colocar agentes anestésicos nas máquinas que eu tanto prezava, ele tinham posto oxigênio puro, então poderia ficar um século dando oxigênio puro e não conseguiria, [RISOS] fiquei meio chateado tal, mas essa foi o início, e a sensação da anestesia, mesmo com todas as máquinas americanas, cursos fora no exterior, aqui também, visitante, a gente aprimorando conhecimento, mas sem uma formação acadêmica normatizada, certinha, hoje em dia, antigamente o médico formava, estudava seis anos já podia exercer a profissão, o que acontecia com todas, hoje em dia tem as residências médicas, aprimoramentos, e uma das grandes pioneiras nesse sentido foi a anestesia, pelo extremo risco que tem, agora dirá você, uma certa fase da minha vida eu fiz análise, Valderez Ismael de Oliveira, a quem eu muito devo, então sonha com o que? Qual é a história? A história toda é que eu cheguei a uma conclusão, de que a anestesia me dava uma sensação de poder, mas tarde como uma simples injeção na veia eu derrubava o Mike Tayson, aí o fortão de lá respira aqui, adormecia, esse doente dormia, poder de dominar a situação, passou a usar o curário, que é relaxante muscular também, e esse relaxante muscular ficava sem respirar, você abolia respiração, sem respirar, fazia anestesia, passava o tubo na traquéia, então ligava as máquinas, então os doentes ficavam inertes a minha vontade, eu era o senhor daquela vida, e era o responsável por aquela vida, os meus conhecimentos na época era reduzidíssimo, porque não tinha tido uma formação acadêmica, como hoje existe, mas naquele tem fui um dos pioneiros, um certo tom de pioneiro das coisas, buscando caminhos por si só, por engenhos, por observar. Mas aí voltando a análise, eu cheguei a sensação, a volúpia, o gostar de fazer anestesia, é que talvez, é uma suposição, o analista não ratificou a coisa, eu reprimi esses extintos homicidas, ou seja, eu tinha um poder tamanho que eu adormecia a pessoa, “dorme” com uma injeção, e ficava com ele duas, três, quatro, cinco horas detentor daquela vida humana, e tomando muito cuidado que o doente não morre, porque se não ia me prejudicar muito, o doente morreu na minha mão o anestesista já na época com cartão de visita, então eu tinha o cuidado que o doente acordasse, para ver a finalidade, para me pagar à conta, [RISOS] e para ganhar o reconhecimento da sociedade, dos doentes, “Doutor, não senti nada,” da família, as filhas das minhas doentes, “Ah! Doutor, que coisa formidável.” Eu sentia aquilo, eu era um cara dominador, estou num depoimento muito sincero, dominador, sem bobagem de bondade, nada disso não. P/1 – O senhor não acha contraditória instinto homicida e cuidado com o paciente? R – Sei lá, cuidado não, medo inclusive por vias das dúvidas eu não creio em bruxas, mas todo os dias um bom “pelo sinal” e quando o doente de risco, e quantos doentes de riscos, quanta coisa não passei, milhares de vezes, o medo de que o meu doente morresse, então inclusive não conseguia, tinha uma poltrona confortável para mim que eu mandei fazer e tudo, eu ficava em pé tomando nota do povo, não tinha monitor, hoje em dia é monitor, tudo monitorado, um dedinho vê tudo, hoje em dia a anestesia é um brinquedo, é muito segura, diz para aquele seu colega, muito segura, e nesse particular o Brasil é o terceiro país em anestesia e número de anestesista, ou quarto, terceiro ou quarto, e em padrão é o segundo ou terceiro lugar, terceiro ou quarto lugar também em padrão de anestesia, tivemos um cuidado muito grande, os americanos abriram essa questão da enfermeira anestesista sem formação universitária, foi um desastre, eu fui secretário da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, fui editor do boletim Anestesia nas férias do titular, em suma eu me senti muito realizado, fiquei enjoado em universidade de ter muito “poropopó” e não ter anestesia para fazer, eu queria fazer anestesia, mas eu gosto.... Vamos animar, trás o doente, eu gostava e ganhava dinheiro também, não muito, nunca soube cobrar, e organizar equipe, uma equipe com cinco colegas, ilustres colegas, quatro colegas ilustres tudo e mais, não explorar o colega, ter comportamento ético, já que eu era um sujeito tão dominador, tão cruel, tão homicida, eu tinha que ser um bom sujeito, eu acho que talvez por isso eu tenha me rotule um bom sujeito, e se houver paraíso, eu não vou ser recebido pelas 20 mil virgens lá dos caras não, [RISOS] mas vai ser: “Oh, Cony vem cá velho, vamos animar, entra aqui.” Eu me sinto reconciliado e perdoado por todas as coisas erradas que fiz. P/1 – Explica outra vez por que é que os americanos inventaram a enfermeira anestesiologista sem diploma. R – Você sabe desse fato? P/1 – Não. R – Foi o seguinte, naquela ocasião o Rio havia uma grande carência de anestesistas, porque eram poucos os anestesistas na época, e o prefeito... O secretário de saúde era amigo do papai... Papai era um homem de múltiplos amigos, ele resolveu convocar um anestesista para fazer um cursinho para as enfermeiras auxiliares de anestesia, acontece eu tive um papel relevante, está publicado na revista da faculdade, na faculdade não, revista de anestesia, eu era o secretário geral para o Brasil dos problemas ligados à anestesia, e essa jogada que o prefeito ia abrir, o prefeito iria abrir inscrições para formação e treinamento de enfermeiras anestesistas, dada a carência de pessoas não-capazes, pelo menos com um treinamento, ter uma meia anestesia vai dar valsa, não por profissionais capazes e competentes, meu presidente _____ Pires morava em Porto Alegre, e ligações telefônicas difíceis, mas eu resolvi como secretário, cabia a mim articular no Brasil, contato com americano por carta, com inglês, o inglês botou a mão na cabeça: “não faça essa loucura” e um americano infelizmente, nós não tivemos essa visão, então reunia aqui os anestesistas mais expressivos, os pamparras, Pamparras existe? P/1 – Existe. R – Os pamparras reunimos no Flamengo, o que é que eu vou fazer, eu estou sozinho aqui, as comunicações estão difíceis, o presidente do sul: “faça como você quiser, Cony, mexa-se” então o nome que me ajudou muito Zair Vieira, Oscar Vasconcelos Ribeiro, Mário de Almeida, então realmente era sério, é perigoso porque por esse negócio de formação de enfermeira anestesista, vai acabar as meninas fazendo, porque nada tem mistério, nenhum mistério, um dom divino, ser anestesista, mas já havia nomeações políticas, então foi o secretário de saúde amigo de papai: “Cony, gosto muito do seu pai, e você sabe que eu sou Flamengo,” “sei sim” agora não me lembro o nome dele, “eu lhe dou a minha palavra que você está vendo fantasias, essas enfermeiras serão somente para auxiliares, ficar segurando as máscaras, ficar segurando as coisas, preparar as seringas, uma espécie de instrumentadoras da cirurgia, essas enfermeiras anestesista.” Mas na verdade a demanda de anestesistas não era para isso, hoje em dia nós temos um só não faz anestesia, um outro auxiliar, e se possível uma enfermeira também, para coçar as costas, coisas assim, [RISOS] mas “minha palavra de honra” eu tive essa frase, “Doutor a sua palavra de honra, o ponta esquerda do Flamengo e a amizade de meu pai merece confiança, mas acontece que o senhor não é eterno,” então redigi, não havia conselho regional de medicina, disciplinado o exercício da especialidade, não existia conselho, você se formava médico e tinha uma repartição, uma simples repartição para registrar o diploma, e receber os talões para receitar entorpecentes essa coisa, mas não existia um normativo ético ou técnico para exercício da profissão, não existia, então eu formulei uma pergunta, submeti aos colegas, eles acharam ótimo, esse troço não vai funcionar e formulei a pergunta, peguei um código, nos livros, é facultada a outro profissional que não o médico a prática da anestesia, não era, não dava esse direito, então cinco ou seis perguntas, então, quando... Rua Santa Luzia entreguei a repartição 40 anos atrás, o colega disse: “eu estou percebendo a sua intenção, você acertou no caminho” porque eu coloquei as perguntas de uma tal forma que terminava, terminantemente proibido a prática da anestesia por quem não seja efetivamente médico diplomado faculdade reconhecida no país, uma coisa desse tipo, fui apanhar, levei o papel uma folha só, sucinta terminantemente proibido a prática da anestesia por qualquer pessoa que não seja médico, devidamente habilitado e formado por uma faculdade de medicina, quando eu peguei aquilo, ali defronte ao Teatro Municipal minhas pernas tremiam, tinha um bar ali, eu fui: “vira aí uma bebida aí forte,” “vodka” “vodka está bem” enchi a cara de vodka, e passei a madrugada tentando falar para o Rio Grande do Sul, “pegamos os bichos” o colega que ia ser o chefe geral o conselheiro do secretário de saúde e assistência, falou: “eu não estou nessa jogada, eu não tenho nada com isso não” aliás ficou meio estremecido comigo, porque eu tirei a fonte, não isso é uma injustiça, não eu abortei o projeto, o projeto da prefeitura, agora sempre advertindo no que eu escrevi, no que publicava, que essa vitória basicamente, procurando encurtar, nossa esplendorosa vitória implica numa pesada responsabilidade, porque diante da demanda de profissionais qualificados ela pode voltar, então a nós caberá imprimir centro de treinamentos de médicos, estímulo na formação de novos médicos anestesistas, cursos, facilidades, bolsas, o caminho, porque diante de uma demanda crucial, demanda importante, os princípios vão embora, então princípio que eu tinha a norma legal, vai qualquer um, isso foi uma das... Eu vi as carreiras ontem, não pude trazer, mas gostaria até de trazer acoplar esse trecho acentuando esse papel que eu tive nessa questão da enfermeira anestesista, destacado papel de evitar, simplifica mas aparentemente, mas seria uma bagunça, você imagina a prefeitura naquela época, uma eleição como essa que está aqui, quantas milhares de anestesistas, auxiliares de anestesistas nós teríamos, e não ia trazer nenhum avanço para a medicina. P/1 – Doutor Cony, vamos dar agora um pequeno intervalo para trocar a fita, ok? (FIM DO CD 1) P/1 – Doutor Cony, eu queria voltar ao tempo que o senhor era da faculdade de medicina, ou melhor, da Escola Nacional de Medicina, eu queria saber se o senhor era muito namorador naquela época? R – Não, não era não, não misturava as coisas não, eu procurava aprender o melhor possível, agora sempre uma posição de ligação, de compromisso, de flamenguismo com a minha profissão e com as colegas também, e com colegas homens também, bons amigos também, mas sempre uma postura que eu diria que a libido é uma coisa fundamental, nós somos conseqüência da libido paterna e materna, e todos nós inserimos na vida, prosperamos, fazemos quadros, pinturas, gols para Flamengo, movidos por razões libidinosas, no fundo, no fundo espremendo, a libido era muito importante, mas não era questão de namoricos não, um pouco, além disso, não nessa parte não, ali era aprender a fazer o serviço para poder então exercer libidinosamente e amorosamente a minha especialidade, apaixonadamente a minha similar. P/2 – Doutor Cony, o senhor mencionou a prefeitura, o secretário de saúde, qual era o prefeito da época nesse momento, das enfermeiras, e eu gostaria que o senhor falasse um pouquinho de como era o Rio de Janeiro nesse momento. O senhor já mencionou três bairros e ruas, eu queria então que o senhor falasse um pouco como era o cotidiano, o seu cotidiano naquele Rio de Janeiro. R – Eu trabalhava muito na minha profissão para ganhar a minha vida, que eu nunca fui, eu nunca tive posses assim, sempre vivi do meu trabalho, e tenho um profundo orgulho do atestado de óbito do meu pai consta deixa três filhos, não deixa herdeiros três filhos, não deixa bens atestado, testamento, acho que a vida de um homem, o pintor nesse ponto é feliz, o escultor, o escritor fica por alguns 70, mas quem lê os livros de mil anos atrás, ninguém mais lê, não vai não, eu acho o Papa libidinoso nesse sentido. P/1 – Por que? R – Libidinoso porque ele ama, aquele lugar dele, ele vai andando, vai arrastando, vai atolando, ele tem paixão, paixão e libido são coisas estimulantes. P/1 – E o senhor gostava da cidade do Rio de Janeiro nessa época? R – Gostava sim. P/1 – Por que? R – Gostava porque primeiro, imagina nascido aqui, minha família aqui, e o Rio é a cidade mais bonita dentro das que eu conheço, mais bonita, os problemas nossos, eu acho os latinos de um modo geral são muito simpáticos, italianos, espanhóis, franceses, eu não entendo muito, embora minha filha seja, fui convidada para trabalho num hospital americano também, mas não quis ir não, eles são muito duros, difíceis, nunca um anestesista faria um depoimento, mesmo com a finalidade tão nobre, tão ética, como o que vocês vão fazer, e se abriria tanto, não eles são fechados, são fechados, e o que eu acredito que eu lidando aqui com vocês sorrindo para mim e eu para vocês, eu estou feliz, eu gosto de ser feliz, e a felicidade é essa, e a propósito não estou com isso despachando, a cozinheira lá de meu irmão, que está viajando, preparou tripas a moda do Porto, eu estou pensando na tripa a moda do Porto. P/1 – Mas Doutor Cony, o senhor ainda vai falar com a gente. R – Não estou com muita fome não. P/1 – Ah! Bom. Doutor Cony, olha só quando o senhor se formou na Escola Nacional de Medicina, o senhor logo começou a trabalhar? R – Foi assim, eu fui para a Candelária, Missa de formatura, já tinha namorada, atrasada para me casar com ela, já tinha namorada, a formatura era em dezembro, casei-me em 29 de dezembro, eu tinha namorada, mas o outro colega meu vira-se e diz: “Cony, eu estou com um recado de você hospital, professor Pitanga Santos não virá a sua formatura na missa, mas ele mandou convidar você para estar no hospital às 11 horas para fazer uma anestesia numa cirurgia de câncer de reto” “Puxa vida!” “E ele disse mais ainda, que é uma pena que as tias estarão em casa, os pudins, festejando o novo doutor da família, mas não você vai para lá.” “Vou sim” O professor Pitanga Santos no dia da formatura fez questão de me designar anestesia de todos os doentes dele. P/1 – Doutor Cony, o senhor já falou duas vezes das suas tias, qual é a importância delas assim na formação do que o senhor é? R – Primeiro porque eu fui seguramente, uma cambada de tias, algumas delas muito religiosas outras não tanto, o primeiro sobrinho não vingou, aí veio eu, me botaram de marinheiro vermelho, e moravam nas cidades vizinhas aqui ao estado do Rio, e qualquer coisa que acontecesse comigo elas vinham ver, e me acarinhavam, eu era o queridinho, agora atualmente eu e meu irmão nas nossas... Eu estou sendo informal, eu acho essas coisas, essa entrevista não vai ser boa não, para vocês, sei lá... P/1 – A entrevista está sendo excelente. R – Eu não sei o que possa dizer, meu irmão e eu nunca, nós fomos fraternos, clones, mas ele disse: “eu ocupei os espaços, você era o queridinho do papai, você é meu substituto, na minha ausência você me substitui aqui,” isso o pai, me levou para o colégio Pedro II, a primeira noite que eu fiquei lá dormindo, quando chego no dormitório olho assim no bonde, está meu paizinho lá, dando adeus para mim, eu fui o ídolo de meu pai também, o ídolo de meu pai, eu tinha um pai, a mãe eu tive problemas, a mãe por força ansiedade não tinha leite, então o leite, eu fui amamentado por uma vaca chamada Mulata, num lugar ao lado, a vaca Mulata, de vez em quando tinha piriris homéricos, a vaca mulata, agora as tias todas, agora José, somente José, de todas... Ah! O mesmo colégio de papai, mesmo colégio de papai, papai ficou inchado, inflado, meu representante, papai ia ser ia as sessões dos grandes literários do Pedro II, e assistir, participava como ex-aluno, como tem ex-aluno aí bacana, importante, mas uma única tia, o meu irmão, o imortal Carlos Heitor Cony, eu estou falando de coisas pessoais e de terceiros, é horrível, mas a única tia que era justa, era tia Zulmira, mas por que você diz isso Heitor? Era tão boa para mim, quanto era para você, mas o pudim de pão que ela fazia, o melhor pedaço era sempre meu, e as outras tias, sempre o melhor pedaço era para você, os quindins das tias todas. P/1 – Mas Doutor Cony, aquela namorada que estava na igreja na formatura, com quem o senhor estava apalavrado foi com quem o senhor se casou? R – Me casei, me casei sim, me deu uma filha, e foi uma boa companheira, eu me apaixonei, sempre paixão, me apaixonei pela a minha atual mulher, e quando a minha filha ia se formar, ia se formar psicóloga na Puc, então era hora de eu então sair das minhas... Fazer aquilo que eu queria, ficar com a mulher que eu queria ficar, ficar com aquela mulher, então eu aluguei um apartamento, montei o apartamento, então finalizei o meu primeiro casamento, eu sou reconhecido, grato, pela filha que ela me deu, uma excelente companheira, mas acontece que a minha paixão, a minha libido, não estava na cirurgia, estava na anestesia, era essa que estava, com quem graças a Deus, eu brigo bastante e briga comigo e tudo mais, paixão. Você é Fluminense? P/2 – Não sou flamenguista. R – Flamenguista mesmo? Tem bandeira? Uma flamulazinha? É beleza Flamengo é uma coisa. P/1 – Doutor Cony, eu gostaria de dizer que eu sou Vasco da Gama e continuar a lhe perguntar. [RISOS] R – E sobre o Vasco, eu fui sócio do Vasco também, e houve um vexame pessoal, não interessa fatos pessoais... P/1 – Interessa sim. R – Não porque o melhor campo era do Vasco, e o Vasco um belo dia, eu estou lá assistindo, aí o Zizinho faz um gol do Flamengo, eu estava na social do Vasco eu gritei: “Flamengo!” Aí veio um bando de pessoas lá: “afinal de contas o senhor está na nossa social” “é vocês tem razão” pedi demissão de sócio do Vasco, mas o Vasco... Agora o Fluminense eu tenho paixão, eu acho que eu tenho certas traições, porque eu gosto do Fluminense, eu gosto muito do Fluminense, e nessa altura todo mundo é vascaíno, dei muito com os portugueses, e o Vasco é uma glória. P/1 – Doutor Cony, o senhor jogava futebol? R – Não, pé rapado. P/1 – Agora Doutor Cony, antes de a gente entrar no assunto Unimed Rio, eu queria que o senhor contasse assim brevemente que hospitais o senhor trabalhou depois que o senhor se formou, que aquele professor veio lhe chamar, para ser anestesiologista. R – O negócio é o seguinte, não existiam celulares e nem bips na época, mas o telefone, a primeira semana depois de casado eu fiquei esperando o telefone tocar para vir um chamado para eu ganhar dinheiro, que eu tinha que pagar o aluguel, a sua pergunta foi? P/1 – Os hospitais... R – Onde havia chamados, e eu comecei a fazer, ficar sendo conhecido, porque eu fazia anestesia, que eu me esforçava, eu fazia direitinho, que eu me esforçava, que eu era carinhoso, não namorador, [RISOS] carinhoso com o doente homem e mulher, e um episódio da minha vida foi engraçado, como eu tive um doente, foi até do Pitanga Santos, esse doente fez uma operação delicadíssima e tudo mais, aquele negócio de não dar muita água, o jejum, e esse homem estava meio solitário, e eu gostando muito dele, então ele ia beber água eu pegava, corria direto, pegava o copo e dava água de beber, então no dia seguinte na visita você tem que beber líquido, deixa eu ver líquidos, isso é bom, bebia a minha água, aí eu apresentei a minha conta dentro do normal, aí no fim o alemão, esse alemão me chamou e disse: “olha doutor, não quero ser nenhuma descortesia, já deixei os seus honorários lá na secretaria do hospital, agora eu faço questão de lhe pagar em dobro” “mas porque razão? Não há necessidade” “não eu fui soldado na Primeira Guerra, passei sede e jurei para mim que esse negócio de sede é muito importante, e o senhor me deu água para beber, do jeito que lá na Alemanha ferido, deitado no chão, os colegas passavam e me davam água” é engraçado, sempre a vida é paixão, as razões mais estapafúrdias mas é isso. Ia a onde me chamava, mas depois ficou impossível, porque o Rio, eu não tinha vocação, na época, atualmente eu adoro, mas eu não podia cobrir todo o Rio de Janeiro, eu tinha serviço além da conta, então eu tive que organizar uma equipe, por exemplo, eu tinha um chamado em Copacabana, Vieira de Moraes, Santa Lúcia, Evangélico, então não dava para tomar conta de todos os cantos, então eu fui semeando pessoas que eu indicava, para fazer as anestesias, mas onde me chamava, era médico da Casa de Portugal e do Evangélico, e foi o núcleo básico da minha expansão, mas nunca deixando de lado, mas ia a qualquer canto, onde me chamasse. P/1 – Doutor Cony, quando é que o senhor ouviu falar assim pela primeira vez dessa cooperativa de médicos, que se chamava Comeg [Cooperativa Médica do Estado da Guanabara.] e depois passou a se chamar Unimed Rio? R – É sempre a paixão, no bom sentido, sempre a libido, em Santos um libidinoso criou a Unimed de São Paulo, em Niterói, em São Gonçalo, vejam só como são as coisas, não foi do Rio a primeira Unimed, em São Gonçalo Unimed São Gonçalo e Niterói já na segunda Unimed, e aqui foi o inspirador da Unimed foi o Chastinet Contreiras. P/1 – Eu queria que o senhor falasse sobre ele. R – Ele foi meu companheiro também no período da guerra, foi para a Itália, era um baiano, olhinho azul, apaixonado, tinha uma paixão este homem, tinha paixão, ouviu falar em cooperativa, já se falava, mesmo em outras situações com o Carlos Lacerda e um outro entendido, antes de medicina, eu ouvi falar em cooperativa, mas o fato é que o apóstolo da anestesiologia nessa cidade, deve-se basicamente ao seu fundador que juntou-se de um grupo de abnegados, eu não quero cometer esquecimentos, Celso Ramos, Ferreira Ramos, Arnaldo do Bonfim, e uns três ou quatro, mas basicamente, porque a grande batalha, um jogo não são todos que jogam iguais, mas esses três, esse homem foi apaixonado, a vida dele foi Unimed, foi um apóstolo, ele freqüentava hospitais, pedia para a gente: “Você que vai tanto ao hospital, Cony vê se me ajeita um acesso, uma noite eu vou aí explicar o que é Unimed” então eu fui lá, ouvi o que era Unimed, já sabia como é que era, e ele me explicou então mais detalhes, eu achei aquilo, aquela coisa , meu Deus do Céu, o trabalhador fazer jus ao seu trabalho, ganhar pelo seu trabalho sem intermediação do patrão, e ele mesmo administrar o seu empreendimento, basicamente isso, tire as despesas, o rateio, tanto que na Unimed existem tabelas, não esquece isso que pode confundir a compreensão de vocês, divide, apurou quanto? Dez, gastamos quanto? Tanto, então vai caber por cabeça, por operação tanto, isto é de uma dignidade, o homem é dono, tanto que para ser sócio, cooperado da Unimed, tem que pagar uma importância, começou na Inglaterra, inglês é tinhoso, é um povo terrível, muito elegante e tal, uma comida horrível, mas foi na Inglaterra, os tecelões fizeram uma economia lá com a moeda deles, no fim de algum tempo fizeram a primeira cooperativa de trabalho na Inglaterra, a idéia foi um sucesso em vários países, de formas diferentes, e hoje em dia nos Estados Unidos, todos os lugares existem cooperativas, no Rio cooperativa de tudo, de tudo que é cooperativa, é uma forma muito interessante que precisa ser explorado pelo patrão, agora isso tem implicações políticas, lutas políticas e deslizes, o primeiro presidente da época... Safado, pilantragem, existe, existiam isso, mas de modo geral, os princípios éticos, questões éticas a Unimed não é uma vendedora de serviço, é um profissional que se associa a outros profissionais para servir pessoas, não é demagogia, mas é verdade sim, tanto que a Unimed paga mais que os outros convênios, devido as economias que se fazem, agora tem muito coisa a se fazer ainda, na América também cooperativa é muito comum, é uma idéia de sucesso, é uma saída. P/1 – O senhor alguma vez fez parte da diretoria da Unimed Rio? R – Sim. P/1 – Então me conta, como é que era, que diretoria? R – Eu fui convidado pelo... Primeiro eu fui eleito sabendo das contas, discutindo e brigando também, brigando, libido, brigando também pelo negócio, me fizeram membro de uma chapa do conselho fiscal, eleito a cada ano, eu fui terceiro fiscal, percebi o camarada esquisito fiquei de birra com ele, que estava realmente se aproveitando da história, aí repeti de novo, no segundo ano também fui de novo, mas aí por onde eu podia eu procurava fazer as coisas certas e corretas, e aí o Chastinet Contreiras me telefona, marca um juntar com o Bonfim, e convida para ser diretor de relações médicas e comunicação social, “eu não entendo isso” “não, Cony mas você é um homem apaixonado, você tem fibra, você vai enfrentar as batalhas que tiver que enfrentar, os questionamentos as assembléias, assembléia é uma pauleira e você sabe, é ou não é pauleira? As más notícias é porta-voz que tem que dar, é ou não é?” e era eu o porta-voz para enfrentar um auditório cheio de gente ali, nos momentos difíceis, e briga intestina, congenes não, quer dizer não era cooperativa, mas fui durante quatro anos, quatro anos. P/1 – Doutor Cony, o senhor participou daquelas tratativas para o contrato com o Bando Denasa, do qual era presidente Juscelino Kubistschek já caçado? R – Não, não. P/1 – O senhor ainda não era da Unimed nesse período, que foi 1973. R – Não, já era sim, mas não participei, porque não ocupava cargo diretivo, era fazedor de anestesia, depois conselheiro fiscal, mas sem interferir nisso. P/1 – E Doutor Cony, digamos assim, o público entendia que aquela nova empresa médica, digamos assim, era uma cooperativa, diferente das outras? R – Não, não entendia e era até subestimado, queria só o doutor de sucesso social, porque cooperativa? A cooperativa era feita para o médico ter o local de trabalho, isento se exploração e dentro de padrões éticos rigorosos e controlados eu, por exemplo, representava a Unimed diante conselho de medicina, diante dos organismos públicos oficiais, até privados, associações de hospitais, e eu enfrentava situações difíceis, atrasava os pagamentos, a grande dificuldade é que essa direção do Bonfim, do Bonfim não, nós chegamos à conclusão, eu no conselho dizia o seguinte, nós não entendemos de administração de empresas, a nossa sede era modesta em Benfica, nós estamos em Benfica simmer, nós sabemos fazer anestesia, você opera crânio, você opera ortopedia, nós precisamos de quem entenda disso, uma consultoria que nos ajude, que nos dê indicações, um gerentão, que mostra a gente como é que se faz, contratei pessoas para fazer, o Sócrates inclusive, aí o Sócrates quebra a perna, em suma não tínhamos noção nenhuma, éramos analfabetos de pai e mãe, mas aí quando eu fui... Não bem antes, antes eu fui conselheiro da administração com o Chastinet, no conselho de administração com o Chastinet o pau comeu. P/1 – Por que? R – Porque o velho inimigo, o facínora de lá de trás era um dos diretores, e aí eu não dei guarida para ele, aí o Bonfim foi fazer uma chapa, e nessa chapa colocou o meu nome, aí então como o Bonfim, como o Bonfim é que houve... Conseguimos dar um pulo para a frente, houve uma feliz indicação de um colega, o camarada então mostrou que era uma empresa, como é que continua uma empresa, funciona, o que é marketing, o que é empresa, então a partir daí nós começamos, tinha só um computador, ou dois, ou três, foi por aí, a parte da profissão, de homem de empresa, “Doutor Cony entende de empresa?” eu não sei se é empresa, pelo contrário nada de empresa, mas não sei, passamos muitas lutas, houve episódios desagradáveis, o governo proibiu de empresas governamentais fizesse convênio com a Unimed. P/1 – Por que? R – Porque, achando que o cooperado tinha que pagar imposto sobre o que ganhava, quando pelo estatuto da Unimed, que é universal, ele para ser cooperado ele paga para entrar, como autônomo, ele é um autônomo, ele está quites, propuseram até, fato desagradável, propuseram até a gente esquece tratatadas Brasil, são tantas aí, a gente esquece a marcação, e nós nos desvencilhamos e tivemos a humilde aceitação das entidades governamentais, e estamos graças a Deus de vento em popa, numa expansão de clientes muito grande, até ando preocupado com esse crescimento desmesurado, porque o atual presidente é um homem dinâmico também, e com uma mentalidade empresarial a toda a prova. P/1 – Doutor Cony, desde quando tem essa tendência da Unimed patrocinar eventos esportivos, esportistas, eventos culturais, de quando é isso? R – O cultural foi o que me antecedeu no cargo que eu ocupei como diretor, ele fazia exposições de pintura, pintava bem, Argueres, ficamos cheios de quadros ali e tudo mais, e premiado, estimulado essa parte, foi a partir dessa época. P/1 – E isso de patrocinar esportistas que vão para as olimpíadas, eu acho isso tão importante. R – Isso está sendo, no meu entender, um pouco perigoso, mas dizem os que estão lá no poder que estão entendendo da coisa, que isso é importante para a empresa estar aparecendo, o nome da empresa. P/1 – Por que o senhor acha perigoso? R – Por essas interpretações, por exemplo, estão patrocinando a parte do salário do Fluminense, do Romário, mas o presidente escolheu, e o presidente tem sido de um dinamismo, os nossos índices de crescimentos são espetaculares, nada mais... Tudo em dia na hora, uma política de funcionários, ser um empregado da Unimed é um privilégio, curso de aperfeiçoamento, estudo, estudo, o camarada tem aptidão é tratado a pão-de-ló, é um grande patrão a Unimed. P/1 – O senhor ainda exerce alguma função dentro da Unimed Rio? R – Não, não, quando eu me aposentei meu cargo foi extinto, porque a comunicação social tinha que editar um boletim, representar a Unimed nos entreveros, com a categoria, com os prestadores de serviços, associações e hospitais, mais aí... Repita a pergunta, por favor. P/1 – Se o senhor ainda exerce alguma função na Unimed Rio? R – Mas aí eu cheguei a conclusão no seguinte, anestesia está muito penosa para mim, são operações de quatro horas, cinco horas, seis horas, sete horas, então aconteceu um fenômeno em que o velho soldado guerreiro, não tinha mais resistência física para enfrentar essas touradas, então empurrava as prebendas para os colegas mais jovens, com mais resistência física, então o brigador tinha que se aposentar, tinha que se aposentar porque enfiar... Ficar só com apendicites, herniasinhas, cesariana, não, ou eu sou integridade, ou eu não sou, então pedi minha demissão. P/1 – Quando que foi isso? R – Foi 1980 e pouco, o fato é que então vou ver com quanto, como é que vai ficar a minha pensão, aí o Inss me paga atualmente mil e 800 reais por mês, não daria para eu viver, como eu não soube ter senso, apaixonado como fui pela vida, de ver a vida, passear, viajar, estar nos lugares, estar em todas, eu não administrei financeiramente bem a minha vida, tenho reservas é lógico, o desquite dividiu, eu fiquei com um terço, ela justamente com dois terços, mas mesmo assim comprei um apartamento, e ampliei agora a minha casa, mas antes inclusive eu fiquei como, pedi, me interessei de ficar como auditor médico, porque uma das minhas funções era ver o procedimento irregular de funcionários que faziam tratatadas por fora, coisas do arco da velha, o homem se desquitava da mulher e cobrava em nome da mulher, e considerava aquilo pensão, um outro o hospital cobrava fortunas para uma operação de fimose num bebê, fimose é um trocinho desse tamanho no bebê, eu quando no conselho, eu estava no conselho na época, meu Deus do Céu, decididamente essa operação de fimose, esse pirulito, deve ser de um filho de gigante Adamastor, [RISOS] pilantragem de doutor, então eu fazia essa coisa quase que policial, já não mais como diretor, como funcionário, fiquei dois anos só. P/1 – Como auditor? R – Como auditor. Mas também não me satisfazia porque não me atendia, eu não tinha a parte policial bem desenvolvida não, eu gostava do risco mesmo, da outra coisa que tinha ficado lá atrás, certo Aparecida? P/1 – Doutor Cony, o que é que é para o senhor ser médico? R – É servir, estar à disposição das pessoas, que mediante acerto prévio ou sem acerto prévio, precise, ser médico é aquele camarada em que eu vou subindo essa escada aqui, com a bengala, vem uma mulher, é tão comum, é tão gratificante, a mulher que é apoiar, ser médico é servir, servir, grande perigo da nossa profissão é a vaidade que nos assoma e a importância que nós nos damos, o meu trabalho eu dava muito importância ao meu trabalho, não pelo trabalho em si, que eu soubesse mais coisas que os outros não, porque eu dava bem, ou para ganhar muito, ou ganhar pouco, dava bem. P/1 – Mas o médico na sociedade ocidental não se sente assim poderoso? R – Depende, no Brasil está uma confusão danada, porque o Brasil está vivendo uma fase transitória, que eu espero que seja mais uns 30 anos por aí a fora, mas na América o médico vive no medo do processo, é rico, minhas netas quando souberam que o avô era médico disseram o seguinte: “Mas Cony, você é rico Cony” “mas como minha filha?” “na América todo mundo é rico” fazem uma medicina de máquina, só de exame, exame, e quanto exames vocês já fizeram e que nem foram apanhar o resultado? Alguma vez? Você já fez algum exame de laboratório, de qualquer coisa e que não foi nem apanhar o resultado? P/2 – Todos eu fui apanhar, deixei de fazer uns. R – E você? Você já fez exames e desinteressou do resultado? Então isso é uma coisa que atrapalha a cooperativa, porque aumenta os custos, o próprio cooperado não aprende, tem que ser educado, eu era o homem que batia nessa tecla, educado no sentido de que o exame, o médico se esqueceu de que você entra num médico, a primeira coisa que ele faz é pegar um papel e pedir exames, e não toca você, e Cristo ungiu esse termo tocar, importante tocar, tocar o médico tem que ouvir o doente, eles querem, como não ganham bem, eles querem fazer muitas consultas para poderem ganhar muito dinheiro, e eles se esquecem de examinar o doente, ouvir o que é que o doente tem, ouvir o que o doente tem é verdade, na América a medicina eu acho muito triste o melhor padrão médico para mim na América é Suécia, Inglaterra, excelente padrão médico, e algumas cidades dos Estados Unidos, outras cidades tem a picaretagem desenfreada. P/1 – O senhor foi fazer alguma especialização fora do Brasil? R – Não, mas sempre freqüentei hospitais, muitas coisas, eles ficam perplexos você não elegia para você, ficam perplexos como é que o homem brasileiro, não eu, eu também, o chileno, o indiano é um sucesso na América, porque o indiano é um povo inteligente, minha filha morava num palacete enorme e quatro andares, é um atroz, e certa ocasião ela resolveu: “meu pai, está ficando vazio tudo isso aí” “aluga minha filhinha” “isso aqui é muito comum papai é anual” o camarada era um russo, que alugou um carro, o carro não pegava bem, o carro já usado, ele corria, corria e pulava no carro e aí ligava o carro, então eu falei: “está vendo” trabalhava com esse negócio de computador, dessas famosas, referências do senhor fulano de tal, “a senhora pode ficar certa, fique tranqüila e a situação dele na nossa empresa além de estável é vital, essa pessoa é um gênio,” o americano compra o Pelé, compra os cracaços da gente, então eu olhos nos teus olhinhos aí jovens, cheios de vida pela frente, eu digo para você uma palavra, acredite em você, acredite no Brasil, precisa ver como eles ficavam embasbacados com a habilidade manual que eu, as vezes, eles: “faz, faz” eu levava um susto, a minha filha fez duas cesáreas, não uma cesárea fez aqui a outra cesárea foi lá, o médico disse: “eu quero falar com o seu pai” “mas por que?” “não pelo seguinte a sua incisão na cesariana são quatro dedinhos, impossível fazer e tirar a criança com esses quatro dedinhos, tem que fazer uma incisão bem maior” “não, faz sim, qual a sua nacionalidade?” “Eu americano, mas sou naturalizado, eu sou cubano,” “cubano corta essa, lógico que você vai fazer, vocês são latinos, você vai fazer sim, vamos para a sala de operações,” eu tinha bons relacionamentos lá fora, estou na sala de operação e ele está fazendo a incisão, a menorzinha possível, aí de repente para tirar a cabeça, puxar a cabeça fora, ele vira e se diz assim: “fórceps please!” veja a confusão que eu armei, “moment please doutor” por favor, um momento, eu não podia abrir a boca, Deus me livre, um momento por favor, a moça que estava dando anestesia na minha filha era uma coreana ou japonesa, pegou na minha mão, aí eu peguei para ela, vamos pegar aqui esse fundo da barriga e vamos fazer pressão, a coreana apertou um pouquinho assim, a gente faz assim, mas sem machucar, traumatizar, sem nada, aí cospe a cabeça da criança, deu problema esse, deu problema porque a doutora reclamou, porque a função do fórceps seria, para ela passara o fórceps, para fazer o fórceps, com margem de trauma muito maior, muito maior, mas ficou por isso mesmo, e eles ficaram assim, bobos, bobos, o brasileiro não inferior a ninguém, ninguém nós somos um povo de talento, as muitas gerações racial, as nossas frutas, sei lá, agora a nossa desorganização e o caráter também está muito deteriorado. P/1 – Doutor Cony, agora eu queria que o senhor falasse das suas netas. O nome delas, que idade que elas têm. R – Adriana eu acho que nasceu em 1973, 32 anos,fez universidade sobre controle de folha de pagamento e de firma, departamento pessoal, essa é a neta mais velha, mas a neta querida é a Adriana, vulgo Pimpim, porque fez o curso na área de Nova Iorque, na formatura dela, que presidia ao ar livre, com só ia acontecer em toda a formatura desde antes: “eu vou chamar em primeiro lugar Adriana Cony Souza, não que ela tenha sido a primeira aluna do curso não, é porque se eu não chamar agora ela vai inventar de sair por perto para fazer qualquer coisa.” agitada que ela era aí todo mundo caiu na gargalhada, menina querida. P/1 – E que curso ela fez lá? R – Relações internacionais e política internacional, ela fez curso ao lado do curso da universidade ela fez um curso para super-dotados, então puseram ela para a área de relações e política internacional externa, fez curso em Praga um ano e meio em Praga, e viajamos pela Europa e outros lugares, mas isso não tem mercado de trabalho, e ela tem paixão também, menina superdotada, super inteligente, é a minha paixão. P/1 – Elas vem sempre ao Brasil? R – Elas vem sempre ao Brasil, tem paixão, adoram Cabo Frio, vem sempre ao Brasil, a outra não, a outra é americana, americana mesmo, mas todas as duas são encanto, são paixões, e eu não tive mais filhos para poder amar bastante a minha filha única, minha única filha, não quis, “vamos ter outro filho?” “não, não eu tenho uma filha” filha é minha paixão, e é assim as coisas no prático é que você prova isso. P/1 – Mas a sua filha seguiu sua carreira não? Doutor Cony. R – Não seguiu não, minha filha é psicologia Puc, não seguiu não, não seguiu não, casou-se pouco depois, charmosa, uma menina bonita, charmosa, casou-se com engenheiro em computadores, o que é que faz o gringo? Ele formou-se suponhamos em janeiro, quando foi em março já estava apalavrado para ir para uma grande empresa nos Estados Unidos, apalavrado para ir para a grande empresa, e ficou até lá. P/1 – Doutor Cony, o senhor está morando em Cabo Frio? R – Pelo seguinte, a taxa condominial é bem mais baixa, os custos são menores, e as nossas brigas com a mulher, minha paixão, poder ser em tom bem alto às vezes, e os “ais” cabíveis também são permitidos, porque a casa do caseiro é distante, é um belo gramado, tem passarinho de tudo que é jeito, agora não tenho vocação pastoral, eu estou falando pessoal, coisa horrível falar de mim, não tenho vocação pastoral e nem agrícola, plantações, minha mulher planta, adora isso aqui, planta as plantas, a grama, ela gosta dessas coisas, eu não ligo, agora tenho duas cachorras, tenho paixões pelas minha cachorras, e chorei muito já por causa das minhas cachorras, estão todas lá as minhas cachorras, a minha favorita é a hound, mini huond, e o que eu gosto muito é de ler, leio quatro, cinco livros por vez assim. P/1 – Qual é os últimos que o senhor está lendo? R – Cita, um sobre eleições no Papa, com esse Cita é um romance de grande sucesso, já está saindo a segunda edição, uma seqüência, a busca do Santo Graal, já ouviu falar? Eu estou fascinado, e leio tudo, tudo, devoro livro, livro, tenho muito livro, compro muito livro. O do meu irmão não consigo ler todos não, [RISOS] as crônicas eu gosto de ler, livro você pode dizer que sou leitor. Agora depoimento sobre aposentadoria, a libido física diminui um pouco, porque a freqüência se espaça, a resistência espaça, mas agora eu tenho feito essa cirurgia no coração, estou respirando melhor, está vendo que eu estou com bom fôlego, então eu não sei aonde vai agora, é tanta riqueza a gente... Você ia perguntar o que? P/1 – O senhor ia falar sobre aposentadoria. R – Aposentadoria, não tenho tempo, eu sou um homem sem tempo. P/1 – Então me diga como é que o senhor se ocupa tanto assim. R – Ocupo tanto fazendo as contas da casa, fazendo correspondência para as minhas netas, trabalhos pessoais, sem competir com o meu irmão, mexendo com coisas nesse sentido. P/1 – Escrevendo? R – Escrevendo, mas quem tem um irmão, é impressionante, como eu faço anestesia, o meu irmão ele tem uma vida super ocupada, foi na Bahia agora você soube? P/1 – O senhor contou. R – Pois é, o hotel vai pagar, mas ele tem 16, 18 romances vários prêmios, a academia francesa está traduzindo agora também em francês, traduzido no espanhol, e ele senta, é engraçado, ele é engraçadíssimo, é outra paixão da minha vida meu irmão, tem que fazer uma crônica diária que saiu na Folha de São Paulo segunda página, sai no Jornal do Comércio, em Cabo Frio não encontra esse jornal, e sai em mais dois jornais por afora no Brasil, e ele faz uma vez por semana uma crônica maior, e toma palestra, e toma isso, universidades, no interior, aqui essas cidades de interior, São Paulo principalmente, Porto Alegre, os estudantes, as gerações de vocês, outra cabeça, vocês vão fazer um grande país, tenho certeza disso, esses estudantes convocam, vêem que ele tem cabeça, se você visse ele, ele está ganhando bem mesmo, está ganhando bem mesmo, e teve atuação política também, foi preso seis vez, nunca foi torturado, era cobra graúda, ele é o meu ídolo meu irmão. P/1 – E vocês tem um bom relacionamento? R – Não temos muito o que falar, porque só falamos o seguinte, as comidas que nós gostamos, a sopa da mamãe, “que o papai não sei o que...” “porque aquela prima...” “você hein!” nós acusamos e tal, só falamos coisas das tias, da tia que gostava mais, sintetizando, da tia que gostava mais, nada de filosofia, política de jeito nenhum, meu irmão é apolítico, é contra política, ele se diz um anarquista, agora segredo isso você apaga, deleta depois, ele acredita muito em Santo Antônio, em todos os lances da vida dele: “José acende a vela aí no nosso Santo Antônio” os santos da família estão comigo, meus pais estão comigo na minha guarda, eu roubei tudo para mim, [RISOS]ele ganhou o mundo. P/1 – O senhor construiu o mundo. R – Construir o mundo é fascinante, porque não dá tempo, mesmo os jornais de Brasília, aqui do Rio, o que sai, vão imprimindo livro demais, muito porcaria, mas não dá para ler tudo, minha filha, nem aprender tudo, não dá, não dá, tem que reler coisas, estou procurando catar releituras, releituras, e não tenho tempo, se eu consigo tempo para ler O Globo à noite, outra coisa hábito, não sei se pelas longas noitadas trabalhando, eu só consigo dormir, apagar a tocha, uma hora, uma e meia, duas horas, três horas, quatro horas, e meu irmão Heitor, é engraçado, ele acorda cedo, que tem um programa de rádio, é tão engraçado aquilo, faz barulho na casa, ele sabe as perguntas na hora, mas ele escreve por dia, “tenho que fazer quatro laudas, tenho que entregar dois romances” cobram o romance dele, ele é um máquina, sabe, ele é uma máquina de produzir, ele produz, produz, e gostamos das mesmas comidas, a sopa de mamãe, ontem comi: “José esse apressado está no capricho, José esse apressado está no capricho da mamãe” e vai por aí afora. P/1 – Doutor Cony, eu vou começar, infelizmente, encaminhar para as perguntas finais. R – Ótimo. P/1 – Eu queria saber hoje qual é o seu maior sonho. R – Continuar apaixonado pela vida e acreditando na vida, a vida maravilhosa, é um privilégio estar vivo, [EMOÇÃO] Júpiter... O problema é esse Júpiter tem aqueles anéis, eu não estou sabendo os nomes dos anéis, meu Deus do Céu, quando é o próximo cometa, eu perdi o antecedente, a vida é uma paixão, até um time cirúrgico operando é uma beleza, o que fizeram comigo na minha cirurgia aqui no peito um cateter vai no coração, veja você, descrever sucintamente, tal operação que eu fiz, não dói nada, espetam agulhinhas, cada picadinha, vai com o cateter até o miocárdio, vai lá, e aí ele está vendo tudo, verifica que é minha artéria coronária esquerda, uma das artérias estava entupida 90%, daí o cirurgião ter mandado com urgência a fazer essa cirurgia, eu fui tranqüilo, tranqüilo, mas tranqüilo mesmo porque eu amo muito a vida e vivi simplesmente, agora ele chega lá faz, ele põe, ele introduz um troço lá dentro, o tamanho era esse, introduz um negócio assim ali, com um líquido qualquer, depois puxa para fora, andando, que beleza, impressionante a mulher que vai fazer a coisa, que fascinante é doce que ela fazer, a tripa que eu vou comer. P/1 – Está bem, já vou deixar você comer a tripa, mas antes eu quero saber a última pergunta, o que senhor achou de ter dado essa entrevista para o Projeto Memória Unimed Rio? R – Acredito que tudo que você possa fazer para fazer um bom trabalho, eu devo ter perturbado mais que ajudado, a Unimed é uma coisa extremamente positiva, porque duas pessoas é melhor que uma só, você tendo um médico, você não tem nenhum, se você tiver 10 é melhor, se você estiver 1000 é melhor, então a cooperativa, cooperar, no fundo é amar, trocar, estabelecer, em vez de haver a guerra de passar o colega para trás, é competir amigavelmente, fazer bem feito, trocar,é isso sim, foi a pergunta? Eu respondi a pergunta? O que é que eu respondi? P/1 – Eu sei, o senhor ao fim gostou de ter dado essa entrevista para o Projeto Memória Unimed. R – Gostei de ter colaborado, agora também na certeza que eu fiz uma bagunça muito grande, muito grande, eu não dei uma boa entrevista, porque eu fui eu somente eu. P/1 – Mas eu queria que fosse o senhor mesmo imagem e mente. R – De um modo em geral o médico que for mal, ele fica pensando na imagem que aquilo que vão dizer de mim, eu estou meio bobo, eu quando enfrentar o Padre Eterno: “Olá é você?” “sou eu sim” “olha eu tenho muitas coisas” São Pedro vai dizer: “você passa para lá, não chateia, você entra sem pedir licença” como o poeta, está entendendo, essa a coisa. Outra coisa também a competição é necessária, mas a competição olímpica, essa coisa, é bom competir porque você não fica para trás, você se aprimora, e que você estude bastante, eu só lamento ter dado uma péssima, péssima, porque eu estou certo de quem você chamar não vai abrir tanto o bico quanto eu abri. P/1 – Mas é por isso que foi uma excelente entrevista, Gustavo você tem alguma pergunta para fazer para o Doutor Cony? P/2 – Eu gostaria de agradecer. P/1 – Então nós muito em nome do Museu da Pessoa agradecemos sua excelente entrevista Doutor Cony. R – Posso retificar? Aceito os seus agradecimentos, seu Doutor Cony, agradeço bicho. ---- FIM DA ENTREVISTA----

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