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História

Um relato de casos e causos

História de: Antônio Carlos de Lima Venâncio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Antônio Carlos Venâncio nasceu em Belém do Pará em 1949. Era como se tivesse nascido em uma cidade do interior na época, teve uma infância muito saudável. E talvez isso tenha influenciado para fazer Biologia. Gostava de mato, por isso também se identificou bastante com Carajás. Venâncio depois de ser soldado, foi indicado para ser assessor de segurança empresarial da Docegeo e esteve envlolvido nas redondezas de Carajás, Paraupebas, Serra Pelada, Eldorado, onde chegou a fazer levantamento dos garimpos. Conta muitos causos e casos sobre os indígenas e personagens ligados a exploração mineral que acontecia na região em meados da década de 1970. Atualmente é responsável pela áera do meio ambiente e relações externas pela Vale.

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História completa

P/1 – Tudo de novo, seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

 

R – Antônio Carlos de Lima Venâncio, eu nasci em 5 de junho de 1949, em Belém do Pará. O nome do meu pai é Augusto José Venâncio, falecido em 1972 e a minha mãe é Alice de Lima Venâncio, tem 82 anos e mora em Belém do Pará.

 

P/1 – Conta pra gente aqui a coincidência da...

 

R – Coincidência? Tá! Então, 5 de junho, por coincidência, não foi nem por... Primeiro que, quando eu fui fazer biologia ainda não tinha muito de festejar o Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas eu acabei fazendo biologia e coincidiu de criarem o Dia Mundial do Meio Ambiente no dia 5 de junho. Aí, eu consigo festejar o meu aniversário de graça, porque como festeja a Semana do Meio Ambiente, festeja o meu aniversário também e todo mundo se lembra, pelo menos as pessoas que trabalham comigo se lembram.

 

P/1 – Conhece um pouco a origem da sua família? De onde ela veio?

 

R – Olha, eu até tive um tempo que me deu vontade de fazer... Quando saiu aquele filme, aquela novela, “Raízes”, não sei se foi novela ou foi um filme, “Raízes”, um seriado, deu vontade de fazer esse levantamento, mas acabei não tendo tempo nem muita paciência. Mas a minha mãe, minha mãe e meu pai, eles falam que os meus avós vieram do Nordeste. A família do meu pai veio do Ceará e a família da minha mãe veio da Paraíba. Os avós vieram de lá e sempre que eu ia a Brasília me dava vontade de ir lá bater um papo com aquele Venâncio, tem aquele prédio Venâncio 2000, Venâncio 3000. Pô, esse cara deve ser meu parente, ele também era nordestino, que ele morreu, né? E o nome dele, por coincidência, era Antônio Venâncio. Eu falei: “Esse cara deve ser parente.” Eu queria ir lá, não era interessado na herança não. Eu queria pra saber, de repente, realmente o meu pai nasceu na Paraíba ou no Ceará, no caso seria na Paraíba. E, aí, eu pra ver se tinha algum laço de parentesco. E, aí, eu ia perguntar pra minha mãe, ia perguntar pra irmã do meu pai. Mas eles vieram do Nordeste, então esse paraense com cabelo assim, não tem nada a ver com paraense, né? A origem deve ser origem portuguesa misturado com espanhol. A minha origem é afro-portuguesa, eu acho. Porque a família do meu pai ele é mais afro. Eu tenho um irmão que é bem escuro, cabelo negro, cabelo “fogoió” assim mas bem preto. E a família da minha mãe é toda branca, bem branca mesmo. O irmão dela que já faleceu, todos eles eram bem brancos. Então, deve ser a origem portuguesa, ou então espanhola. E, aí, deu essa mistura: branco com olho azul, com o cabelo “ruim”, como nego fala, cabelo enfezado, tem o rebelde e tem o enfezado.

 

P/1 – Você sabe como os seus pais se conheceram, Venâncio? Você conhece alguma história?

 

R – Eu sei que eles... Tem uma parte da história que eu conheço. O meu pai estudou num colégio interno, lá em Belém, Lauro Sodré, era o Instituto Lauro Sodré, e o irmão da minha mãe, o pai da minha mãe morreu e ela ficou morando com o irmão. Esse irmão dela trabalhava no Lauro Sodré e moravam numa vila que ficava bem atrás do colégio. Então, ele, aluno do colégio e tal, acabou conhecendo a minha mãe. E, engraçado, ele entrou tipo assim adolescente e saiu de lá, do Lauro Sodré, depois passou a trabalhar. Saiu casado de lá.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai? Da sua mãe, sua mãe trabalhava?

 

R – O meu pai ele fez tipo o colegial, o ginásio industrial e, aí, de lá ele saiu pra trabalhar no Instituto Agronômico do Norte, que é hoje a atual Embrapa. Ele trabalhava lá e depois conseguiu uma vaga no banco da Amazônia, antigamente era o “Banco da Borracha”. Trabalhou no “Banco da Borracha”, aí ficou com contínuo no “Banco da Borracha” que depois foi transformado em Banco da Amazônia, e se aposentou lá. E, por coincidência ou não, todo concurso que tinha ele colocava os filhos pra fazer, então eu tenho três irmãos que trabalham no BASA, e mais um que acabou adotando a nossa família como a família dele.

 

P/1 – Vocês são em cinco?

 

R – Nós somos, irmãos, nós somos em seis. E mais três mulheres, sendo que um já faleceu, então, hoje são oito no total. Aí, tem um que trabalhou na Docegeo, teve um outro que foi reformado do exército, mora em Marapanim, por coincidência também: ele é casado com a irmã da minha mulher. Foi tipo sarampo, deu na família toda, ele casou com uma, eu casei com outra. E tem um que trabalhava na Docegeo, o escritório da Docegeo acabou em Belém, ele montou uma fábrica de gelo lá em Marapanim e está trabalhando pra lá. E eu que entrei pra Docegeo e acabei estando aqui, entrei na Docegeo em 1978, e estou aqui.

 

P/1 – E a infância em Belém Venâncio? Como é que foi?

 

R – Belém, eu nasci numa casa que até hoje está lá em Belém, atrás de uma mangueira. É a única mangueira secular que tem em Belém porque a gente não deixou derrubar. Tiraram todas as mangueiras grandes que tinham na frente das casas e plantaram mangueira no canteiro central da avenida. Uma avenida grande que tem lá, bem larga. Só que essa nós não deixamos derrubar, porque essa mangueira nos alimentou de vitamina C durante muito tempo. Então no tempo de manga era o tempo que a gente estava melhor de vitamina C.

 

P/1 – Como é que vocês não deixaram derrubar? Como vocês mobilizaram?

 

R – Era um vizinho, porque o galho da mangueira estava encostando na casa dele. Eu falei: “Não, você pode podar. Agora, cortar não.” Levei pelo menos uma queda dessa mangueira, que eu me lembre. Que a mangueira servia de fonte de vitamina C, de alimento, acabava sendo alimento porque o paraense come manga com farinha. Manga madura, tira a casca, e passa na farinha d’água e come. Então, era um alimento mesmo. E servia como lazer também, porque a gente ficava brincando, subia na mangueira, descia. Aquela música de carimbó que fala: “Subi pelo tronco, desci pelo galho, morena me apara senão eu caio.” A gente fazia isso, subia pelo tronco, descia pela escada, brincando ali. E tinha uns que subiam pra ficar lendo. Aí, eu me lembro dessa queda que eu peguei, tinha o tronco da mangueira aqui, tinha um galho pra cá e nesse galho tinha um outro pra cima. Então, nesse dia tinha um colega que estava nesse galho aqui, sentado, lendo, e a gente... Esse galho quebrou com uns três ou quatro em cima. Parecia um bando de macaco, brincando. Eu dei de azar porque eu caí por baixo do galho, fiquei querendo dizer “mamãe” e não conseguia. Me levaram pra casa, deram água. Eu sei que essa é uma das... Então, essa mangueira tem toda uma história. A vida da gente foi também relacionada com essa mangueira. E ela está bem, ela está bem até hoje. Ainda dá bastante fruto. Eu falei: “Não, não vai derrubar não. Deixa aí.”

 

P/1 – Mas a casa ainda é da sua família?

 

R – A casa é. Minha mãe ainda mora lá. Mora a minha mãe, mora a minha irmã. Eu nasci nessa casa, não nasci em hospital. Foi no tempo da parteira. Eu nasci lá e me criei nessa casa. E no tempo que a gente era moleque, moleque menor, era como se fosse interior mesmo do Pará, tanto que nessa rua não passava carro. E cada quarteirão tinha um campo de pelada, então nosso lazer era brincando nessa mangueira, brincando... A nossa casa, o terreno era tipo assim, de uns seis mais ou menos de frente, por cem de fundo. E as casas todas eram assim. Então o quintal era um verdadeiro sítio. Então a gente se criou com espaço, a gente se criou feito índio, tinha área de perambulação. A gente perambulava por lá tudinho. E, assim, foi minha infância. Aí, quando eu cheguei na adolescência essa rua já era uma rua aberta, já passava carro, com bastante poeira. Eu me lembro quando eu era garoto a energia elétrica era assim: era um poste pra atender várias casas e aquela energia fraca, então, quando começaram a comprar geladeira que um ligava a geladeira faltava energia para o outro. A minha infância foi bem saudável, foi como se tivesse nascido no interior e sempre que saía de férias ia para o interior.

 

P/1 – O interior era onde?

 

R – Perto de Belém, eu ia muito pra Igarapé-Açu, que fica há uns 150 km, mais ou menos, de Belém. E depois ia pra Vigía ou então para Marapanim. Ia para Marapanim, acabei conhecendo a minha esposa lá e acabei casando.

 

P/1 – Mas o que tinha em Igarapé-Açu era programa de família?

 

R – Igarapé-Açu, não. Era um sítio de uma madrinha minha. Aí, sempre que saía de férias eu ia pra lá. Então, essa minha vida de onde nasci e essa minha ida para o interior, fez com que eu me identificasse bastante com Carajás, com mato. Na verdade eu gostava de mato e talvez isso tenha influenciado pra eu fazer biologia.

 

P/2 – Seu Venâncio, e o convívio na família com tantos irmãos, como era?

 

R – Olha, era aquela vida de família que o pai não ganhava lá essas coisa e tinha nove pra criar. E, aí eu tiro o chapéu para o velho porque com nove... Nessa época não eram nove, mas com sete filhos a gente ia passar as férias em Salvaterra. Salvaterra é ali pra Soure na ilha do Marajó. Então, ele, quando chegava nas férias, ele pegava toda a bagagem, botava num barco que ia na frente, aí o cara do barco deixava lá na casa que ele tinha alugado, e depois a gente ia no navio, no Presidente Vargas. Esse navio afundou no porto de Soure, teve um problema, afundou bem no porto mesmo. O que eu me lembro dessa época, eu tinha o maior medo, que a gente chegava ali no Ver-o-Peso, e chegava ali, via aquela baía com aquelas ondas altas, na minha cabeça de menino eu achava que a gente ia naquela água, e a gente ia no navio. Então, eu tinha o maior medo. Depois perdi o medo de água. Também, fui aprender a nadar depois de velho, eu acho por causa desse medo de água. Eu fui aprender a nadar com 30 anos, mais ou menos. Quase que eu morri afogado lá, em Salvaterra.

 

P/1 – E seu pai, na sua casa, quem exercia a autoridade? Tinha um pouco isso?

 

R – A minha família era bem patriarcal mesmo. Era o velho que... Mas o velho era gente fina. O velho era boa praça. Acabou morrendo de cirrose, mas ele não era alcoólatra de beber todo dia, ele bebia fim de semana como eu faço também. Não sei se a cirrose foi porque ele teve uma trombose. Dizem que quando tem trombose tem alguma complicação hepática também. E, aí não sei se em função da trombose, muito medicamento que ele teve que tomar misturou com o álcool e ele acabou tendo cirrose. Mas o velho ele, quando já adolescente, eu cheguei a encontrar com ele na farra. A gente saía, eu e meu irmão, e de repente encontrava com ele. E entrava na farra junto. Ele era...Ele gostava de uma festa. Isso que eu tiro o chapéu. Meu pai era o farofeiro típico. E eu tiro o chapéu para o farofeiro. A gente tem carro, tem dinheiro, e fica aqui em cima: “Ah, não vou, estou cansado.” Ele, com todo esse monte de moleque, eu me lembro esse lance de passar as férias em Salvaterra, e outra, a gente fazer pic-nic em Marudá. Fica há 140 km de Belém, de caminhão. Todo mundo na carroceria do caminhão com uma coberta, colocava aquele encerado, e ia, pra fazer pic-nic. Pra ir assim, ir no sábado pra voltar no domingo. Então, esse era o velho.

 

P/1 – E o caminhão nem era dele?

 

R – Não, alugava. Fretava o caminhão. Pic-nic de caminhão, 140 km de Belém, na beira da praia. E a gente ia e ele, alegre pra caramba. Ele era muito alegre. Acho que ele transferiu muito isso pra gente.

 

P/1 – Você teve alguma educação religiosa? Política?

 

R – Eu fiz a pré-escola num colégio de freira. Eu me lembro muito bem, era a Escola da Providência, ficava há umas cinco quadras de lá de casa. A gente ia andando pra escola. É aquele negócio, por isso que hoje eu não sou fervoroso, porque a gente era obrigado a rezar. Então, chegava, aí, a professora ou a freira, tinha que rezar, aí tinha aula, terminava a aula tinha que rezar, e saía. Aí, as freiras, elas diziam pra gente que qualquer coisa que a gente fizesse errado ia para o quarto escuro. Tinha o maior medo do quarto escuro e dar de cara com o diabo lá dentro, né? O religioso fala muito no diabo, o inferno e vai para o quarto escuro vai dar de cara com o diabo lá. Hoje eu tenho a minha religião própria, minha religião é viver e deixar viver, se eu não posso ajudar pelo menos que eu não atrapalhe a vida de ninguém. Tenho o maior cuidado pra não prejudicar ninguém. Essa é minha religião.

 

P/1 – Na sua casa tinha alguma religião, sua mãe, seu pai?

 

R – Tem, a minha mãe é beata. A minha mulher, a mãe da minha mulher, é beata, minha mulher hoje, antes de dormir pega lá o Novo Testamento, lê, vai pra Igreja, pra missa todo sábado. Eu, depois de adulto, a gente ia pra igreja ontem, dia 27 de maio, que é o aniversário de falecimento do meu pai. Então, quando eu estava em Belém, todo ano, ia toda a família pra missa de anos, são 28 anos. A minha criação, mesmo tendo estudado em colégio de freira, mesmo a família toda sendo católica, hoje eu tenho essa religião. Eu não acredito nessa religião da igreja, aquele negócio de pegar o troço ficar lendo, falando aquele monte de... Eu acho que tem alguma força maior que existe que guia o caminho da gente. Alguma coisa. Porque já aconteceu tanta coisa na minha vida que você fica... Tem alguma coisa que interfere. Eu não sei o que é, aí eu prefiro chamar de Deus. Eu fiz biologia, então, eu aprendi a origem da vida pela teoria dos coacervados, aí, fica complicado. Aí fica complicado você acreditar que Deus pegou o barro, soprou e criou Adão, depois da costela do Adão... Aí, não dá pra, né? E é isso, é isso que pregam. Então, se tiver um local que se encontre pra conversar sobre isso, o que eu posso fazer, sem paternalismo, né? O que eu poso fazer pra ajudar as pessoas. Primeiro a gente tem que ajudar a gente, ajudar a família da gente, e aí, sempre que possível, você podendo ajudar outras pessoas, isso é que é religião. Pra mim, inferno e céu está na cabeça da gente. Se você está de bem com você mesmo, você está no céu, se você está de mal com você e com os outros, você está no inferno. Não faz nada errado porque é a consciência, né? Quem tem, porque tem uns que conseguem ficar no céu o tempo todo. Bandido. Mas eu acho que não, eles não dormem tranquilos não, chega em casa e não consegue dormir legal. Pelo menos na hora que ele ouve tiro lá fora, ele pensa que a polícia que está chegando.

 

P/1 – O Venâncio, depois dessa escola de freiras qual sua trajetória escolar?

 

R – Aí, eu saí, eu fiz a pré escola e saí, daí fui para o grupo escolar. Sempre a minha vida toda sempre foi escola pública. Aí fui para o grupo escolar, fiz o primário, aí naquele tempo tinha que fazer admissão ao ginásio. Você chegava tinha que fazer um vestibular pra passar da quinta série para o primeiro ano do ginásio. A admissão eu fiz num colégio de freiras, não, num colégio adventista, que tinha lá perto de casa também, que era ligado ao hospital adventista. Então, tinha o Grão Pará, que era essa escola e tinha o hospital. Aí eu fui, fiz o admissão lá, ia todo dia, tinha aula à noite. Aí, eu fazia, fiz admissão, passei, e fui fazer o ginásio no Lauro Sodré, no colégio Lauro Sodré. Aí, fiz o ginásio todo no colégio Lauro Sodré. Coincidência, muita coincidência, eu fui fazer lá. E, ainda tinha contemporâneo do meu pai, que era o inspetor. Era o pessoal que cuidava da disciplina. Então, eu era peixe lá do... E aí tem muita, tem história lá, história interessante. A molecada, só nó cego, né? Uma que eu me lembro, tinha o inspetor Álvaro, que foi do tempo do papai. Era tipo quartel esse colégio, era tipo quartel, tinha formatura, tinha que marchar. Enquanto no de freira tinha que rezar, nesse tinha que marchar. E esse colégio era famoso. No desfile de 7 de Setembro era o único colégio que tinha uma banda de música. Então, quando desfilava, o Lauro Sodré abafava. Então, num aniversário deste mestre Álvaro, ele falava meio caboclo paraense, ele falava “Téossado”, né? Ele falava assim. A molecada pegou um rato morto, botou numa caixa de sapato embalaram bonitinho e colocaram ao lado da cama do mestre Álvaro. Quando ele acordou, que viu aquele presente, ficou todo empolgado, né? “Os alunos se lembraram de mim!” Quando ele abriu era um rato morto que tinha dentro. Meu irmão, esse cara queria a morte. Queria saber quem. Se vai dizer quem que fez!

 

P/1 – Você estava na história?

 

R – Não, eu não estava. Eu não era um deles. Eu só soube da história.

 

P/1 – Como é que era esse “pic” na escola? Você era bom aluno?

 

R – O Lauro Sodré ele tinha o ensino fundamental e tinha o ensino profissionalizante e muito esporte. Então, eu fiz o fundamental e fiz como industrial, eu fiz torno de madeira. Antigamente as pernas de móveis era tudo roliça, né? Umas farinheiras de madeira, aquelas bandejas, aquilo tudo eu aprendi a fazer. E, aí, quando eu estava terminando o ginásio eu fui trabalhar numa fábrica de móveis. Tinha um colega meu que teve que viajar, viajar para o exterior, se não me engano, ele falou: “Venâncio, tu não queres ficar no meu lugar lá?” Aí, eu peguei e, doido por dinheiro, moleque querendo dinheiro, porque o velho não tinha grana pra dar pra todo mundo, então eu queria ter meu dinheiro. Aí, fui, trabalhei três semanas, e aí depois hoje que a gente vem trabalhar que a gente se preocupa com prevenção de acidente, o cara lá era... Você trabalhando com torno sem óculos de proteção, sem máscara contra pó de madeira, sem nada. Passava o dia, oito horas, tinha o intervalo para o almoço, as oito horas fazendo perna. O torno não para. Você pega a peça de madeira, que já estão cortadas no padrão, aí você prende na parte do torno que é só uma ponta assim, aí você vem e prende numa garra aqui. Então, rapidinho faz uma perna de móvel. Aí, lixa e passa o polimento. Aí, na primeira semana eu fui trabalhar, na segunda semana, essa de fazer poeira no olho não tinha tanto problema. O problema é que tinha que polir e a mão, já viu as índias, aí? Já viu alguma índia que pinta, não? A mão ficava um crosta de polimento que não saía. Aí, você já pensou? Eu, com 17 anos ia sair pra namorar, namorava com a mão escondida pra namorada não ver. Aí eu olhava, chegou na terceira semana eu falei: “Olha parceiro, isso aqui não é vida pra mim não.” Tinha o velho, pelo menos a comida o velho garantia, eu falei: “Não, tô fora, eu vou estudar.” Aí, cheguei com o cara que era o encarregado, falei: “Parceiro, inclui o sábado que eu não venho mais.” “Não, mas...” “Não, não venho mais, muito obrigado, estou fora.” Aí, saí.

 

P/1 – Foi seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro emprego, foi. E nem era carteira assinada.

 

P/1 – Como é que você se divertia, com esse dinheirinho que você ia juntando?

 

R – Essa grana, era moleque ainda, essa grana era pra comprar picolé, pra lanche, era mais pra isso. Eu fui beber cerveja com 24 anos. Quando eu fui pra Altamira, eu fui em 1975 pra Altamira e, aí, oficial do exército, o quartel chegando lá, era autoridade, né? Os caras faziam a maior média com a gente,  achando que a gente ia pra lá... Devia ter muito corrupto, aquela época, logo depois da implantação da Transamazônica, quando nós chegamos lá a primeira coisa que o pessoal do Incra fez foi convidar pra gente passar o carnaval, há 46 km de Altamira, hotel onde o presidente da República ficava, o Médici. Fomos pra lá, a maior mordomia. Então, eu era do exército, jogava futebol, então eu era da seleção de futebol de lá, jogava nos outros times, eu era professor de biologia num colégio, que eu tinha feito o básico de biologia, então, lá, deficiência de professor, eu fui ser professor de biologia. Fui até paraninfo de turma lá. Era professor de educação física no outro colégio e era diretor animador do Lions Clube. Então, era mais conhecido, era mais conhecido lá. Tinha eu e um colega meu que a gente fez o NPOR junto e foi pra lá. Era muito amigo, era como irmão. E, aí saía. Só que ele enchia a cara e eu não bebia, ficava tomando só suco de laranja. Aí, depois de seis meses eu comecei a tomar cerpa com guaraná cerpa, logo quando saiu o guaraná cerpa. Então, eu colocava guaraná e colocava um pouco de cerveja e achava bom pra caramba. Hoje se botar guaraná na minha cerveja, vai dar briga.

 

P/1 – Como é que surgiu essa história do exército, Venâncio?

 

R – O exército foi o seguinte: em 1969 eu servi como soldado, eu servi, como não tinha naquele tempo, a gente tinha a oportunidade que tem a molecada de hoje de conseguir direto terminar o segundo grau com 17 anos e já fazer vestibular. Eu fiz o primeiro grau, terminei o primeiro grau, aí fui servir como soldado, fui soldado, fui cabo. Fiz o curso, e passei. Quando chegou no fim o ano, eu saí e aí fui... Como soldado pra estudar era meio complicado. Aí, fui fazer o segundo grau, quando estava terminando o segundo grau, aí veio um colega meu e falou comigo: “Olha, reservista de primeira categoria pode fazer NPOR.” Aí, eu estava de bobeira mesmo, aí, peguei e fui. Foi 1972, 1972 foi o ano que meu pai morreu, fiquei meio desorientado, foi no ano que eu fiz vestibular. Meu pai morreu em maio aí deu uma degringolada, aí, eu não passei esse ano. Aí, como o colega falou isso, aí eu fui, fiz os testes, passei e aí, quando foi em 1973, eu fiz, fazia o NPOR, e fazia o vestibular. Com a grana do NPOR eu pagava o cursinho de vestibular. Aí, fui e passei no vestibular e também consegui passar no NPOR, acabei sendo primeiro da minha turma. No ano seguinte, porque você faz um ano de NPOR, no ano seguinte faz 45 dias de estágio de instrução. Que aí você sai como aspirante, você fica como aspirante. Aí, nesse ano, em 1974, que eu fiz o estágio, eu aproveitei e concluí o básico de biologia. Só que, lá pelo segundo semestre, um capitão que era amigo nosso falou: “Olha, estou indo pra Altamira implantar o batalhão lá. Vocês querem ir comigo?” Aí, eu e um colega meu, eu estava fazendo biologia, esse colega meu fazendo arquitetura, aí eu pensei, falei: “eu vou me formar, sei lá quando eu vou ganhar dinheiro, vou pra lá como segundo tenente.” Ganhava uma grana legal, naquele tempo milico ganhava bem, né? Aí, o pessoal: “Vai largar tua faculdade, tal?” “Não, eu vou, passo dois anos e volto.” Aí, acabei indo, fui pra Altamira, fiquei lá 1975, 1976, fim de 1976 eu ia pedir as contas e vinha embora pra Belém pra continuar estudando. Aí, pintou uma transferência pra Belém. “Beleza, pelo menos eu vou empregado, né?” Aí, servi em 1976, na Quinta Companhia de Guardas, que ficava lá no Forte do Castelo, fiquei um ano morando ali. É bem do lado do Forte do Castelo. E, aí, quando chegou no fim de 1977 a gente transferiu a Companhia, a Companhia perdeu a autonomia administrativa e foi transferida para o Segundo BIS, onde é o Quartel do 2º Batalhão de Infantaria de Selva. E, aí, nós ficamos subordinados ao comando do Segundo BIS. E, tipo assim, novembro, sei lá, eu fui no gabinete do comandante, despachar com ele, que eu era o comandante da Companhia, aí tinha um coronel, um coronel da reserva do exército que estava lá procurando um tenente pra ser contratado pela Docegeo pra ser o assessor – aí é onde começa a minha história na Vale – pra ser o assessor de segurança empresarial da Docegeo, por isso, da Amazônia toda. Aí, eu falei, e, nessa época, o oficial R2 podia ficar até quatro anos e tinha uma perspectiva de ficar até nove. Depois que criaram isso, que podia ficar até nove. Aí, eu digo: “Bem, vou completar três anos, ficar mais um ano, depois vou sair desempregado, pintou essa oportunidade, eu já vou.” Aí, falei: “Olha, coronel, se o senhor me indicar eu não vou me aborrecer.” Aí ele indicou a mim e a outro colega meu. Aí, fomos, fizemos os teste e eu fui o escolhido. Engraçado que eu entrei na Docegeo e ainda não tinham dado baixa no meu vínculo com o exército. Eu fui contratado pela Docegeo em dois de janeiro e só fui ser licenciado do exército lá pelo fim de janeiro. Sei que, não sei que jeito que os caras deram porque eu não poderia estar empregado aqui, até porque era uma estatal, eu empregado da Docegeo e ainda vinculado. Aí, foi no dia dois de janeiro. Antes de eu... Eu entrei de férias no fim do ano, aí já fui fazer um estágio pela Docegeo lá na mineração do Norte, quando eles estavam implantando o Projeto Bauxita lá da mineração. Aí no dia dois de janeiro eu fiz a minha primeira viagem pra cá. E a viagem pra cá era o seguinte: a gente descia de avião até Marabá, aí pegava um carro pela estrada de terra, essa PA-275 ainda era de terra, tinham aberto pra cá. A gente vinha passava por aqui, isso aqui era passagem, e a gente ia lá pra beira do Itacaiúnas, lá do outro lado da Serra. Tem o Parauapebas, tem a Serra aqui no meio, tem o Itacaiúnas. Pra lá que era o acampamento. Do tempo que no Salobo só descia de helicóptero. Mas nesse primeiro dia, a gente veio, já tinha o acampamento do N1, aí, como eu vim como convidado, recém contratado, ex-tenente do exército, chefe da segurança, aí nós ficamos hospedados na casa de hóspedes lá. Naquela que tinha aqueles livros que o Vanderlei deu uma olhada. Fiquei hospedado lá. Aí, começou a história. Só que eu ficava um tempo aqui, era pra onde tinha rolo de garimpo, foi na época do ciclo da cassiterita e do ouro. No ciclo do garimpo nas áreas do Docegeo, aí foi que eu comecei a ir primeiro lá pra Rio Maria. Rio Maria tinha uns garimpos de ouro por ali, que a gente tentava controlar esse garimpo. Até porque a Docegeo achava que tinha descoberto a maior mina, a maior reserva de ouro nessa região, que era a Serra das Andorinhas. Na época, falava em Serra das Andorinhas era o tempo Guerrilha do Araguaia. Serra das Andorinhas era um dos focos dos guerrilheiros. Se fosse realmente a reserva que o pessoal estava imaginando seria um problemão. Felizmente ou infelizmente não era. Tinha uma reserva lá, a Docegeo chegou até a implantar uma usina de beneficiamento, essa usina, que seria uma usina piloto, ficou superdimensionada para quantidade de ouro que tinha. E, até hoje tem nego tirando ouro lá. Não em grande quantidade, mas até hoje tem. Só que, já no final de 1978, houve o aquecimento do garimpo de cassiterita de São Félix do Xingu. E a gente, a Docegeo foi incumbida de comprar a cassiterita, como não tinha como tirar os garimpeiros de imediato, pelo menos pra evitar o desvio da cassiterita, a Docegeo foi incumbida de comprar. Aí, eu comecei a ir pra lá, são aquelas histórias do avião que arrancou a cabeça do cara com um motor, um cara que vinha atravessando a pista com um motor no ombro e o avião estava decolando e o trem de pouso do avião levou o motor e a cabeça do cara. Isso aí eu vi num monóculo que os caras vendiam no garimpo. Vendiam. Fotógrafo de garimpo é monóculo. Então, tira fotografia do garimpeiro e tal, depois vai e vende o monóculo. Não em papel. Papel, muita água, acaba... Então era monóculo. Aí, o cara estava: “Que ver essa foto?” Quando eu olhei, era um cara sem cabeça. Aí o cara me contou como é que foi. Um avião arrancou a cabeça do cara.

 

P/2 – Deixa eu te perguntar, antes de vir pra cá você fez um estágio. Como foi esse estágio? Qual era a preparação necessária pra vir fazer segurança?

 

R – No caso da segurança eles estavam procurando um oficial do exército para ser. E, como ia tomar conta de uma segurança empresarial eu fui conhecer a segurança lá da Mineração Rio do Norte. Estava implantando o Projeto de exploração de Bauxita que fornece a bauxita pra Alunorte, que fica lá em Barcarena, que produz alumina, que passa pra ALBRAS, que produz alumínio. Então, eu fui lá pra conhecer, conhecer, pelo menos, como não deveria ser uma segurança para tomar conta de peão. Lá teve um incidente. Ali tinha muito paraense, lá, pelo contrário, lá não tinha muito maranhense, lá tinha muito paraense, e paraense na refeição se não tiver farinha é um problema. Então, faltou farinha! E, ao invés do cara que era o gerente administrativo, um coronel também, ele era o gerente administrativo e era o responsável pela segurança também, ao invés de ele ir com a empresa – se não me engano era a Andrade Gutierrez que estava implantando lá – ao invés de ele dizer: “Olha, parceiro, te vira e arranja farinha.” Não, colocou a segurança, porque começou a ter burburinho. Começou nego a querer reagir no restaurante, fazer barulho, aí, ele mandou a segurança pra coibir isso aí. Conclusão, ele coibiu o primeiro dia, o segundo, teve uma hora que peãozada se rebelou, tocou fogo no restaurante, quebrou tudo, tocou fogo em carro, foi o maior desastre lá. Aí, depois disso é que os caras foram passar a se preocupar com o peão. Então, o meu estágio foi pra ver como que se estrutura uma área de segurança empresarial, ver como os caras trabalhavam pra tentar montar algo parecido com isso. Obedecendo uma certa diferença, uma certa peculiaridade, né? Porque a nossa segurança era mais... era para andar pelos garimpos, se tivesse alguém garimpando, era pra convidar a sair porque aquela área era área de pesquisa. Não era muito segurança de instalação, era mais segurança de área. E, aí, fiz isso durante o ciclo do ouro quase todo e, aí, foi quando tem a... Quando foi em 1979, início de 1979, o DNPM desativou o garimpo. E coincidiu, só desativou porque coincidiu que o preço do estanho e o preço do ouro subiu. Quer dizer, o preço do ouro nessa época, 1979, 1980, chegou a U$27,5 por grama. Então, 27, quase 50 mil reais um quilo de ouro naquela época. Hoje está 16 mil. Então, foi um inferno. Quando iniciou mesmo o ciclo do ouro virou a febre do garimpo, a febre do ouro. Aí, os caras saíram da cassiterita e foram pra área de garimpo. E, as áreas de garimpo já conhecidas que eram lá no Rio Maria, aquela área entre Rio Maria, Xinguara. Os caras foram e começaram a entrar naqueles locais e não estava dando pra tirar mais, né? O Maranhão começou a vir pra cá, para o Pará. Quer dizer, miséria lá no Maranhão, aquele personagem meu, do livro lá. Aí começaram a vir, aí, começa a vir como se fosse uma bomba atômica, né? Criou aquele, o epicentro lá. Aí começa, eles vão procurando, procurando, descobriram ouro no quilômetro 30, aqui, onde hoje é Curionópolis, aí descobriram, aí virou um outro epicentro. Aí, eles começaram a... Aí, foram, descobriram Serra Pelada, quer dizer, no início do segundo semestre de 1979 descobriram o quilômetro 30, aí, quando foi em dezembro de 1979, descobriram Serra Pelada. Como foi a descoberta de Serra Pelada? Era a fazenda de senhor Genésio, o senhor Genésio naquela época já era difícil contratar peão pra fazer a limpeza em fazenda, todo mundo era garimpeiro, mas ele conseguiu contratar um pessoal, aí, os caras foram tirar, fazer limpeza de juquira, que aquelas são as pioneiras que nascem no meio do capim. Foram fazer aquela limpeza, eles fizeram o barraco, claro, na beira do igarapé, até pra tomar banho. A água seria do igarapé. E, aí, no meio desse pessoal, tinha um garimpeiro que tinha uma certa habilidade, desceu nessa gruta, pegou um prato daqueles de esmalte, pegou um pouco daquele cascalho, deu uma batida no prato e encontrou um pedaço de ouro. Aí, foi, chegou lá: "Olha, eu encontrei isso." Aí, o Seu Genésio ainda tentou, aí, o Seu Genésio chamou um geólogo, o Valfredo, que morava em Marabá, aí falou com Valfredo pra tentarem requerer essa área como área, criar uma micro empresa e requerer essa área como área de pesquisa para que eles pudessem ficar com a área. Eles foram ao DNPM mas quando chegaram lá viram que a área já era da Docegeo e da Vale. Quer dizer, se não estivesse em área de lavra, porque a Serra Pelada ficou conhecida como Serra Pelada porque os pilotos usavam como referência o afloramento de ferro que tem lá, que é a Serra Leste. Então: "Olha, tu vai na direção da Serra Pelada e aí o pessoal está fazendo a pista lá." Então, rumo de Serra Pelada, Serra Pelada, acabou ficando, né? Aí, né? Não conseguiram, né? E, garimpeiro não consegue ficar quieto. Nego que descobriu. É até questão de princípio dele. Se ele ficar só pra ele, ele acha que não vai conseguir pegar ouro lá na frente, tá? Aí, acabou vazando a informação e começou aí garimpeiro a ir pra lá. Os garimpeiros iam por uma estrada de uma fazenda do Pernambuco, e da fazenda do Pernambuco pra fazenda do Seu Genésio que só dava pra ir andando, então, eles andavam 16 quilômetros a pé, com rancho nas costas, pra poder ir pra lá. E, ficaram fazendo essa exploração com uma quantidade pequena, aí, quando foi em março, início de março... Em 1979, ainda no segundo semestre de 1979, quando surgiu o garimpo lá do quilômetro 30, a mesma coisa, como é área de pesquisa da Docegeo vamos comprar o ouro. O governo autorizou a Docegeo a comprar o ouro. Não só autorizou, como determinou que a Docegeo fosse a empresa do governo a fazer a compra do ouro. Aí, tinha um colega nosso, o Decínio, a gente incumbiu o Decínio, a Docegeo incumbiu o Decínio de montar um posto de compra volante. Ele ficava baseado na portaria, lá no alojamento da segurança que tinha lá na portaria. Todo dia ele iria lá para o quilômetro 30 comprar o ouro e voltaria. Só naquela época pra fazer isso mesmo, de carro comum. E, aí, ele estava fazendo isso. E, aí, foi ele que ouviu o bizu de que o pessoal estava saindo do 30 pra ir pra tal de uma Serra Pelada, né? Aí, no início de 1980, nós fomos incumbidos, eu junto com um geólogo do DNPM, de fazer um levantamento dos garimpos na região. Aí nós fomos, fomos lá pra Rio Maria, levantamos todos os garimpos. Aí, saímos de lá pra vir para o quilômetro 30, né? Pra fazer o levantamento aqui.

 

P/1 – Levantar garimpo o que é exatamente?

 

R – É ver onde tinha garimpo. Onde tinha garimpo, quantidade de garimpeiros, que era área da Docegeo. E a Docegeo, quando aparecia o garimpo, comunicava ao DNPM, denunciava ao DNPM, que tinha garimpeiro na área de pesquisa, que era proibido, era garimpo clandestino.

 

P/2 – Com quantas pessoas você trabalhava, qual era o contingente?

 

R – Olha, cheguei a ter cinquenta pessoas, porque tinham vários locais. Aí, nós viemos fazer esse levantamento e foi quando nós fizemos o primeiro pouso na Serra Pelada, quando os caras estavam finalizando a pista de pouso. Coincidência, nós pousamos num dia, no dia seguinte, o pessoal estava ainda fazendo a pista na enxada, uma pista de uns 400 metros, foi quando eu vi o caso da pepita. Nós fomos no local, o dono da fazenda já estava como dono do garimpo e quem ia garimpar, tinha que dar 30% de tudo o que pegasse e, além disso, todo o rancho, ele vendia e trocava por ouro. Como não tinha dinheiro a moeda era ouro. E, aí nós fomos lá no barraco do cara, aquele barraco tipo MST, só madeira e coberto com aquele plástico preto. Aí fomos lá e olhamos, tal, os caras trocando. Aí, teve um cara que mostrou uma pepitazinha desse tamanho assim, nós ficamos admirados, porque no Rio Maria a gente comprava três gramas por semana, o cara ia levar, pouquinho. Aí, quando a gente viu aquela pepita, gente fotografando, aí teve um garimpeiro que viu a gente com cara de abestado, né? Aí, pegou e abriu a tiracolo dele, que eles chamam de boroca, tirou um vidro daqueles e álcool de um litro, cheio desses pedaços de ouro. Aí, tocou o horror, que eu falei: "Olha..." Aí, conversamos: "Vai fechar o garimpo? Não vai?" Eu falei: "Não sei ainda, eu vou, nós vamos lá, entrar em contato com a nossa chefia e aí eu venho dar um retorno pra vocês." Mas eu já sabia que não tinha como desativar aquele garimpo. Nessa época já tinham três mil garimpeiros já. Três mil. A gente pousou foi aquele círculo em volta do helicóptero, né?

 

P/2 – Foi um clima tenso quando vocês chegaram?

 

R – Não tenso, mas apreensivo. Eles já, né? Se vier fechar.... Se eu chegasse lá e dissesse: "Olha, tem que sair todo mundo daqui", não saíram de lá. Aí eu falei: "Vou ver, tal, e venho dar um retorno pra vocês." Aí, pegamos o helicóptero, fomos lá para o acampamento lá do Itacaiúnas, que era o caldeirão, aí, entrei em contato pela fonia com o Breno, o Breno era o chefe do distrito nessa época, aí liguei: "Olha Breno, lá tem ouro pra caramba." Aí, contei essa história pra ele. Falei: "Nós vamos voltar lá amanhã, vamos montar um barraco, eu já pedi para o cara que era o dono da fazenda: 'Faz um barraco pra gente desse aí.'" O cara fez aquele barraco, quatro paus, coloca uns paus em cima, colocou um plástico preto e aí foi que virou o setor de compras de ouro nosso. Tem fotografia desse setor de compra de ouro lá na... Não sei onde é que está agora, não sei se está em Belém ainda ou se foi lá para o Minas Gerais, lá para o quilômetro 14. Eu sei que quando nós voltamos no dia seguinte o cara já tinha feito o barraco. Aí, eu levei uma placa que tinha lá de Projeto Aquiri, da Docegeo, quer dizer, tem que fincar a bandeira da Docegeo. Aí, fui, colocamos a placa, bem do lado do escritório, levamos um rádio. Aí, peguei o rádio, montamos a antena, tal, botamos lá, isso estava eu e os dois geólogos. Isso já tipo 18 horas que a gente conseguiu ligar o rádio, foi falar, quem disse que falava? E, nessa época, todo garimpeiro tinha, no mínimo, um 32, no mínimo, tá? Lá era assim, quando eles iam ‘despescar’, eles chamam ‘despescar’ a máquina, que é a cobra fumando, porque é tipo uma cobra fumando. Eles pegam um pau oco, coloca aqui assim e bem aqui eles colocam uma calha de concentração, que é igualzinho um cachimbo, né? Um negócio assim, aí, faz isso assim. Igualzinho um cachimbo. Então, esse troço roliço aqui assim, com esse troço tipo um cachimbo, chamam de cobra fumando. E, aqui em cima dessa parte, eles colocam tipo um grelha, pega um pedaço de lata, fura, para as pedras maiores não passarem, passar só areia com ouro e nessa calha aqui eles colocam um saco de estopa, e saco de aninhagem, coloca e coloca uns pedacinhos de pau, que eles chamam de talisca. Que água vem, o ouro vai ficando retido, né? Nesse saco de estopa, e como essa taliscazinha quebra a velocidade da água, vai ficando aqui assim e, nessa época, eles não usavam mercúrio, era concentração só no saco. Aí, eles colocam um balde lá em baixo da calha, né? E, de vez em quando, eles vão e tiram um pouco dessa areia e concentra na bateia. Quando pinta alguma coisa de ouro eles param de lavar porque está na hora de despescar a máquina. Aí, para, tira aquele saco de estopa todo, lava tudo pra dentro do balde, né? E, aí, pega aquele concentrado e vai fazer a concentração mais fina na bateia. Então, no caso, quando eles paravam, que eles iam ver a primeira parte, porque já tem aqui, desce pra cá, a gente olhava, tinha caso que aquilo estava amarelo de ouro. Aí, ele pegava o 38 dele e dava um tiro pra cima, e todo mundo atirava pra cima. O foguete deles era revólver 38. Tanto que um dos comércios mais promissores lá era munição 38. Um tiroteio. Foi tipo assim, abril, março, quem levou o Curió primeiro lá fui eu. Só que ele foi como repórter, era o jornalista Marcos Luchini, ele foi disfarçado de jornalista. Ele fez o levantamento e voltou lá pra Brasília pra mostrar, na época o presidente era o Figueiredo. 

 

P/2 – Você sabia quem era ele?

 

R – Eu sabia. Aí ele foi levou para o Figueiredo, falou o que tinha, aí, o Figueiredo autorizou... O Figueiredo não acreditou, né? Aí, ele veio depois, numa outra operação, que deu um rolo. Ele fez o seguinte: fechou a pista, não podia sair nem entrar ninguém. Aí, começou a faltar comida, o que é que ele fez, prendeu o que tinha de ouro por lá, foi pra Marabá, prendeu quem tinha ouro, estava com ouro clandestino. Que era justamente pra levar pra Brasília e colocar na mesa do Figueiredo. Só que ele fez tudo isso, levou pra Brasília e fechou a pista lá pra não entrar nem sair ninguém, né? Só que o pessoal da segurança nosso tinha ficado lá, sabe? Aí, o pessoal: "Olha, a coisa está complicada aqui." E para azar nosso, deu um pequeno surto de meningite lá. E, tinha um cara passando mal e o pessoal dizendo: "Olha, tem um cara aqui passando mal, o pessoal acha que é meningite." Aí, o pessoal aqui: "Não, o Curió falou que não é pra ir." Eu falei: "Olha, está complicado, pela forma como o pessoal está colocando, está um problema sério isso, viu? O pessoal da segurança está correndo risco de vida lá. Nem que seja pra desencargo de consciência eu tenho que ir lá." Aí, o pessoal: "Não, tudo bem, vai." Aí, eu fui. Quando eu cheguei lá o cara ruim pra caramba. O pessoal já querendo tocar fogo na segurança. Tinha um cara... Porque, tipo assim, uma semana antes, anunciaram que o César Cals, que era Ministro da Minas e Energia, anunciaram que o César Cals iria lá. Esse cara, ele falava o César "Kalis", e foi aí que eu consegui segurar o cara, porque o cara estava agitando: "Não, porque eu tenho..." Ele queria ir porque ele queria falar com o general do exército, lá em Marabá. Eu falei: "Não. Não dá, não cabe, vai só o doente e tal." "Não, mas eu quero ir porque vocês..." Aí, eu me lembrei disso, falei: "Olha, você pode estar falando muito porque você falou para os garimpeiros aí que o ministro estava vindo aqui na Serra e não está vindo ninguém. Então, pô, você enganou o pessoal, então você não tem o direito de estar agora querendo dizer que é representante de garimpeiro. Eu vou, vou conversar com o general e trago alguma resposta pra vocês." Aí fomos, deixamos o cara no hospital, na semana seguinte eu fiquei sabendo que o cara morreu de meningite, e eu fui com o cara. Já pensou se esse cara morre lá dentro? O rolo que ia dar? Quer dizer: "Morreu porque a Docegeo não prestou socorro." Era um garimpeiro. Aí, fui lá com o general, falei com ele: "A coisa está complicada lá, está faltando comida. Não tem comida lá. E vai ter problema." Aí, autorizaram liberar a pista, só pra levar comida. O pessoal passou a levar comida. Aí, o general foi lá fazer uma visita. Me lembro que o general foi e falou: "Olha, não vamos atirar. Isso aí pode dar problema, alguém pode morrer, não sei o quê." Aí, o general foi embora. Nesse dia os caras, sem ‘despesca’, passaram a noite dando tiro pra cima. E um colega nosso, que era o supervisor de segurança lá, trabalhava comigo, ele botou o gravador e gravou vinte minutos de tiroteio seguido. Tipo foguetório, mas só que era tudo de revólver 38, 32, cartucheira. Ele gravou vinte minutos. Impressionante. O pessoal morava tudo beira da Grota Rica, em 1980, no início de 1980, era só a Grota Rica que tinha. Para o lado onde teve a cava da Babilônia, dava ouro mas um ouro muito fraco, né? Tanto que pra lá o barranco não valia muita coisa. Só valia era pra cá onde o ouro já tinha rolado e estava amarelinho, né? E, o pessoal morava era na beira, lá imperava a lei do garimpo, ou seja, 18 horas, quando o cara não conseguia mais estar enxergando o ouro, eles deixavam a máquina como estava lá - chama de máquina mas é a cobra fumando, não tem nada de mecanizado, era na mão - aí subiam e ficavam no barraco. Se, algum maluco resolvesse ir lá focar com uma lanterna em alguma daquelas, todo mundo atirava lá de cima. Então, ninguém ia. Nego sabia que era assim. Se fosse alguém, se aparecesse alguma lanterna lá embaixo era isso o que todo mundo fazia. Todo mundo ia atirar naquela direção.

 

P/2 – Aconteceu alguma vez?

 

R – Não, não porque ninguém foi.

 

P/2 – E algum caso de morte, teve?

 

R – Nenhum caso de morte. Nessa época, teve um caso de um cara que nunca tinha pegado num revólver, aí, foi dar um tiro acabou atirando na batata da perna dele mesmo. E o outro, também um cara, deu bobeira atirou no chão a bala resvalou e pegou aqui do lado. Mas nenhum caso de...

 

P/2 – Tinha as regras próprias?

 

R – A regra do garimpo, regra do garimpo. E, na regra do garimpo tinha o seguinte, tinha os requeiros. Requeiro era aquele cara que não tinha barranco e ia de barranco em barranco com uma bateia de baixo do braço, né? Aí, chegava lá e pedia o reque e o garimpeiro dava o reque porque eles têm como mito que quem negar um reque o barranco dele vai cegar. Barranco cego é aquele que não dá ouro. Então ele dava. Tem uma história de um cara que num dia de reque pegou quase um quilo de ouro, dizendo: "Não, porque estou com a família doente, não sei o que e tal." Aí, nego, pô! 

 

P/2 – E cobra o quê?

 

R – Nada. Dava. Os barrancos eram tão ricos, o cara pegava: "Tá, tudo bem.'" Pegava a pá, botava na bateia do cara e vinha embora. Aí, o cara numa dessa pegou quase um quilo de ouro. Um outro fato interessante lá, além desse do tiroteio, né? Lá não tinha sanitário, então nego, era tudo na... Esse colega nosso, esse Gonzaga, passou uma semana sem defecar porque não tinha sanitário mesmo. A gente ficava naquele barracozinho. Aí, nego ia lá. Quando dava vontade ele ia lá na beira da, quando ele chegava lá nego começava a atirar, passava a vontade ele voltava. Engraçado isso aí.

 

P/2 – Vocês moravam lá?

 

R – É, ficava, passava tipo, no caso, eu ia periodicamente, mas esse pessoal da segurança passava 30 dias lá, acampados. Tomava banho no Igarapé, né? Comida era feita lá, e era assim. A gente passou a comprar o ouro, né? Aí, no dia que a gente desceu lá, que a gente colocou a placa, eu falei: "Olha, tem ouro pra caramba aqui." E, naquela época era assim, daria pra comprar uns 20 quilos de ouro. Aí, fui na fonia e falei: "Manda pra cá esse valor." Eu não me lembro hoje qual era o valor. Aí, o Breno foi na fonia e falou: "Vem cá - tipo assim, era 200 mil - tu estás maluco!" Nessa época eles mandavam pra lá, tipo assim, a moeda, nem me lembro que moeda era... Tipo assim, “Me manda dois milhões, não, me manda seis milhões. “Aí ele falou: “Não estás enganado, dois milhões não dá?” Porque lá, no Rio Maria, mandava 300 mil por mês e sobrava dinheiro. Aí falei: “Não, e não vai dar.” Ai eles mandaram um valor, não sei quanto foi que eles mandaram. Só deu de um dia para o outro, o dinheiro.

 

P/2 – E não podia faltar?

 

R – Não, porque aí o negócio é o seguinte, a partir do momento que chegou o dinheiro eu falei: “Olha, não pode mais vender comida, trocar por ouro.” A pessoa vem aqui, vende o ouro e aí ele pega o dinheiro e vai comprar comida, né? No dia seguinte não tinha mais dinheiro. Aí, o cara falou: “O pessoal está querendo comprar comida, e aí?” Eu falei: “Olha, faz de conta que eu não estou aqui.” Aí, ele voltou a trocar. E, nessa época, você vê como é que era a lei do garimpo, a gente ficava nesse barraco, tinha uns três cofres desses pequenos enchia de dinheiro que vinha da Caixa Econômica, porque vem numas caixas o dinheiro, enchia, que não cabia, então ficava aquele monte de caixa. Eu cansei de passar a noite sentado em monte de caixa de dinheiro. A segurança do dinheiro era assim. Não aparecia ninguém nem pra conversar com a gente, muito menos pra roubar.

 

P/1 – Se não, também vinha tiro?

 

R – Não, isso era lá em cima não era lá em baixo. Então, era um risco violento. Mas não aparecia ninguém. Eu sei que a gente ficou... Depois, foi quando o Curió veio, né? Em março eram três mil, em fim de março, abril, quando o Curió veio, já eram aí uns 20 mil. Foi em maio. Dia 20 de maio foi a inauguração da coordenação da Presidência da República. Aí, eles implantaram um armazém da Cobal, já tinha um posto de compra já melhor da Docegeo, tinha a Caixa Econômica, correio, tinha tudo, toda a estrutura lá. A partir daí a gente passou a comprar e já era uma quantidade maior e, nessa época, já tinha quase oitenta mil garimpeiros lá dentro. Oitenta mil trabalhando quase só naquele buraco. Era um formigueiro humano. O Breno mostrou as fotografias que ele tirou? Tem muita fotografia. Era muita gente ali.

 

P/2 – E aumentava esse número de pessoas e o clima continuava o mesmo?

 

R – É, é. Aí, depois, começou, o único problema que tinha nessa época, era furão. Furão era o cara... Só podia ficar lá - que o governo tentou limitar o número de garimpeiros, até porque não cabia mais gente, limitar – então, quem tinha carteirinha, o pessoal que já estava lá recebia uma carteirinha de garimpeiro, né? Quem não tinha carteirinha não podia estar lá. Porque pra passar, na entrada de Serra Pelada tinha uma barreira, um local de controle da Polícia Federal, então, se não tivesse carteira o pessoal não passava. Foi por isso que nasceu o Eldorado de Carajás. Os furões vinham, desciam lá em Eldorado, que era o quilômetro dois na época, era logo depois da PA-150 era o quilômetro dois, eles desciam lá, aí se organizavam, vinham até próximo da entrada do quilômetro 16, que era a entrada pra Serra Pelada, de lá entravam pelo mato e iam pra lá. Então, a Polícia Federal andava era atrás de furão, não era de ladrão. Era atrás de furão e de alguém que estivesse desviando ouro, porque eles eram obrigados a vender pra Docegeo. Era preço de mercado mas era obrigado a vender. Foi a única forma que o governo encontrou de concorrer com o comprador clandestino, pagando preço de mercado. Mas mesmo assim, é claro, tem sempre nego que conseguia pagar um pouco mais e alguns saíram. Tanto que a Docegeo deve ter comprado por volta de 40 toneladas de ouro mas a gente imagina que lá produziram em torno de cem toneladas. Muita coisa...

 

P/2 – Tinha bebida no garimpo?

 

R – Não, foi bom você ter dado esse toque que a gente lembra: bebida, mulher e bala de revólver. Uma das preocupações da segurança era impedir a entrada de bebida, mulher não passava lá na portaria e se aparecesse lá era convidada a ir para o quilômetro 30 e bala também não. E a gente proibia jogo de azar também. Aí, bebida, como é que eles faziam pra se abastecer? Podia ter farmácia e farmácia tinha Biotônico Fontoura, então, nego acabava o estoque de Biotônico, tinha gosto de Cinzano, né? Eles acabavam com o estoque de biotônico de lá. E, mulher não tinha. Mas eles conseguiam entrar com cachaça. Então, quando a gente encontrava cachaça a gente ia lá no local, pegava a cachaça na frente do cara, aquele monte de garrafa de cachaça, aquele monte de garimpeiro em volta, a gente quebrava, derramava, quebrava. Tinha garimpeiro que só faltava chorar olhando aquela cachaça. Doido pra tomar uma.

 

P/2 – E eles não reagiam?

 

R –Não, não. Eles respeitavam a segurança porque naquela época, época do governo militar, eles sabiam que a barra pesava. O nosso respaldo era a Polícia Federal. Então eles não reagiam porque eles achavam que podia dar problema. E aí, foi por isso que o quilômetro 30 cresceu. Por quê? O cara pegava ouro, lá dentro não tinha nada de diversão, a não ser um cinema que tinha lá, que passava só filme de bang-bang, karaokê e pornochanchada, era o famoso Cine Raio de Lua. Ao relento. Fizeram aqueles bancos, colocava a tela lá e, então, todo dia passava aqueles filmes. Era a diversão que tinha. Então, os caras pegavam ouro, pegava grana, o peão, porque a diária era alta, tanto que ninguém conseguia peão nas fazendas, porque os caras pagavam tipo cinco reais a diária na fazenda lá era cinquenta reais, então, quem ia trabalhar na fazenda? A diária, o dia, a diária. Porque tinha o peão que carregava, que cavava, que carregava o saco, esse era o formiguinha. Então, esse era o diarista.

 

P/2 – E quem era o dono do barranco?

 

R – O barranco era uma verdadeira bolsa de valores. Tinha barranco que tinha milhares de acionistas. Tinha nego que tinha 1%, 0,1%, 2%, então o cara fez uma bolsa de valores lá pra poder pegar a grana pra poder tocar o barranco.

 

P/2 – Mas como é que funcionava? O formiguinha tirava, carregava, vendia?

 

R – Não, não, não. Tinham os donos do barranco.

 

P/2 – Ficavam ali no local?

 

R – Ficavam. O dono do barranco que não ficasse lá estava ferrado. Pelo menos no início. Aí, depois quando começou a ter um monte de acionista, aí, tinha acionista que não ficava lá só mandava grana. Essa grana era pra pagar combustível, manutenção dos britadores, pagar os formiguinhas. Então o formiguinha era diarista. Todo o pessoal que trabalhava. Aí, eles transportavam, beneficiavam, e o que dava de ouro, depois que tirava todo o custo, isso era dividido para os acionistas. E ação era assim: um pedaço de papel, assinava, o dono ficava com esse pedaço de papel. Não tinha reconhecimento em cartório, não tinha nada, não era um contrato, era um papel. Você pegava um papel e fazia: “Fulano de tal comprou do Fulano tanto por cento do barranco tal.” 

 

P/1 – O formiguinha ganhava alguma coisa se ele bamburrasse?

 

R – Não, o formiguinha era formiguinha, ganhava a diária. A não ser que ele, se tivesse alguma grana... Ou então, tinha barranco que o cara fazia o seguinte, o formiguinha tinha porcentagem no barranco, então, ele entrava tipo como sócio. Ele entrava com  força de trabalho e o cara entrava com a grana. Aí o que dava tinha um percentual: “Formiguinha, você vai ter 2%.” Então, quando apurava eles separavam tudo: “Toma os teus 2%.” E, antes a gente pagava em dinheiro. O cara chegava lá, vendia. Tinha cara que saía assim ó, de dinheiro, pra levar. Aí, quando a gente começou a pagar com cheque foi um sacrifício convencer os caras: “Doutor, isso aqui vale?” “Vale, é só você chegar no banco e depositar esse cheque. Abre uma conta e coloca que isso é dinheiro.” Porque eles queriam é sair com dinheiro.

 

P/2 – Qual o banco mais próximo?

 

R – Era em Marabá.

 

R – Aí, depois, quando a gente passou a pagar com cheque foi que a Caixa Econômica foi pra lá. Então, a Caixa Econômica que pagava. Mas nego não acreditava. Depois de muito tempo que nego passou a acreditar. O garimpeiro queria estar com o dinheiro na mão pra chegar lá no barraco dele e dizer: “Toma!” Distribuir aquele dinheiro. Só naquele tempo mesmo. Tem uma parada que eu vi, eu estava indo pra pegar o avião. Pra pegar o avião a gente chegava em Marabá de carro, chegava no aeroporto, porque já ia de Serra Pelada pra Marabá de avião, descia no aeroporto atravessava de barco pra ir pra cidade velha de Marabá pra poder pegar... ir para o Hotel, né? Aí, um garimpeiro do meu lado, sentado no banco, pra mostrar que estava bamburrado, pegou a boroca dele abriu, tirou aquele monte de dinheiro, botou desse lado aqui do banco, aí começou a contar, contava e botava ali, aquele monte de dinheiro. Se fosse agora, nego não teria saído nem do barco. Aí, tem outra parada, essa aí apareceu inclusive na televisão. O cara, no cabaré, pegou um bocado de nota, não me lembro qual era a nota, sei que era uma das maiores, não sei quanto é que era, eu sei que o cara amarrou um monte  de nota e fez um rabo, botou, aí saiu andando com aquele negócio. Ele disse que até aquele dia ele tinha andado atrás do dinheiro, agora o dinheiro é que ia ter que andar atrás dele. Teve um caso também que o pessoal contava, lá em Marabá, o cara lá no cabaré, com um monte de ouro, pra mostrar para as quengas que ele tinha dinheiro, pediu um penico, né? Aí o pessoal trouxe, ele pegou, tirou o ouro, botou no penico, pediu pra moça urinar dentro, lá, só pra ela dizer: “agora você vai dizer que um dia você urinou em tantos quilos de ouro.” Outra parada: deu um banho de cerveja na mulher. Mandou ela tirar a roupa, deu um banho de cerveja e colou as notas, as maiores notas que tinham naquela época e falou: “O que ficar colado é seu.” Então, tem um monte de paradas dessas aí.”

 

P/2 – Eu queria saber se tem história... se você viu gente que enriqueceu, bamburrou, perdeu tudo e voltou?

 

R – Tem, tem uma, tem uma do Renzo. É médico. É uma história do início.

R – Eu ia contar um fato interessante que aconteceu em Cumaru, logo que descobriram Serra Pelada que a coordenação veio, aí surgiu o garimpo no Cumaru. Aí, nós fomos lá, também incumbidos de montar um estrutura lá pra comprar ouro. Eu me lembro que nós fomos, tinha um cara que tinha um quilo e meio de ouro, outro tinha dois quilos e meio, e, aí, esse cara foi orientado a ir conosco pra vender lá na Serra Pelada. Eu fiquei incumbido de levar os caras pra vender o ouro depois trazer de volta lá para o Cumaru. Aí, levei os caras, venderam o ouro, pegaram a grana, voltamos lá para o Cumaru, deixamos lá, aí, tipo assim, uns dois meses depois eu voltei lá no Cumaru. Foi numa das pistas, a pista da Macedônia, cada local, eram vários garimpos, tinha Macedônia, tinha Maria Bonita, Maria Bonita já era na reserva indígena, Cumaruzinho, aí eu fui nessa Macedônia, olhei, tinha uma cara sentado lá e eu reconheci, foi o cara que eu tinha levado. “E aí rapaz? Cadê o dinheiro, tal?” “Acabou tudo.” “Mas como que acabou? Era dinheiro pra caramba. Como tu conseguiste gastar esse dinheiro todo? Tu deverias ter investido.” Ele disse que ele tinha comprado dois carros, no tempo em que Brasília era carro. Ele comprou uma Brasília, comprou um outro carro. Eu falei: “E o resto rapaz? Tu deverias ter investido, ter colocado na poupança.” “Eu investi, eu coloquei no banco.” “Que banco?” “Eu coloquei no banco rachado.” Quer dizer, gastou tudo no cabaré, bicho! Ele tinha vendido já um carro e não tinha dinheiro nem pra colocar gasolina no outro.

 

P/1 – Tinha perdido já tudo na farra?

 

R – Tudo, tudo. O garimpeiro é o seguinte: ele tem com ele que garimpeiro que pega o dinheiro e não gasta no cabaré, ele nunca mais pega ouro nenhum. 

 

P/1 – Tem esse mito entre os garimpeiros?

 

R – Tem vários, um deles é esse aí. Ele tem que gastar no cabaré. É aquele negócio, é um mito até, uma crendice deles até pra justificar, né? “Eu perdi todo o meu dinheiro.” Ele chega com a mulher dele: “Eu perdi todo o meu dinheiro porque se eu não gastasse lá eu não ia pegar mais ouro. Viu como eu peguei de novo?” E como ele sempre pega, gasta, pega, gasta. Aí, volta lá pra Serra Pelada... E tem mais um “causo” interessante. Isso aí é “causo” mesmo. O pessoal diz que aqui para o Pará vem tanto maranhense que o pessoal dizia que no Maranhão não tinha homem, estava tudo no Pará. Aí, o pessoal contava uma história que é o seguinte: tem besouro, sabe aquele besourão que tem aqui? Um que tem um chifre aqui, um besouro desse tamanho? Diz que esse besouro vinha voando, quando ele batia na porta da casa a mulher dizia: “Entra que meu marido está para o garimpo.” Porque não tinha, os homens do Maranhão estavam todos no garimpo no Pará. Aí, vou contar o caso do Renzo. Isso foi início também, tipo abril, março, abril de 1980. A gente precisou de um médico lá e convidou, se o cara não queria ir pra lá pra atender. O garimpeiro ia pagar pelo atendimento médico. Aí, ele foi, mas garimpeiro só vai no médico quando está morrendo, né? Então, ele ficava lá no consultório dele que era do lado do nosso barraco, do mesmo jeito o barraco, era consultório sem terra. Aquele consultório de plástico preto. Aí, ele decidiu entrar para o garimpo também. Ele foi a São Paulo, comprou um equipamento, uma maquinazinha concentradora de ouro e trouxe, colocou lá no Igarapé Sereno, né? Tem a Grota Rica, que deságua no Igarapé Sereno, o único local que ele conseguiu foi lá. Comprou, acho, um espaço e colocou lá. E não estava dando lá essas coisas. Aí, tinha um outro garimpeiro lá chamado Cearazinho, né? Que já estava trabalhando lá na Babilônia, o que virou Babilônia, o que é que aconteceu? Eles garimparam na Grota Rica foram subindo, aí, pra chegar nas grotas, no início de duas grotas que drenavam pra Grota Rica tinha que passar por cima do morro. Eles tinham feito a pista de pouso aqui e tinha o morro bem aqui. Então, o pessoal saía daqui dos barracos, passava por cima do morro e ia lá para essas grotas. Aí, um garimpeiro passando por lá viu uma árvore caída, resolveu pegar um pouco daquela terra e concentrou, encontrou uma pepitazinha. Encontrou essa pepitazinha de manhã de um dia, no dia seguinte quando eu cheguei lá, que eu fui acionado e fui lá que era para interditar o garimpo lá no Ouro Primário. Quando eu cheguei lá o morro parecia um queijo suíço de tanto buraco. Eu consegui interditar o garimpo. Eu fiquei em cima do barranco onde eles estavam tirando. Dizendo para os caras que eles não podiam, o cara cavando em volta do meu pé. Eu dizendo pra ele: “Pô parceiro, não pode. Lá na Grota Rica tudo bem, mas aqui não pode, tal.” “Não, só um pouquinho, tal.” O cara foi, parou. Aí eu fui na fonia, entrei em contato com Belém, com o escritório, quem estava respondendo pelo distrito era o Hirata, um geólogo japonês, aí eu falei: “Olha Hirata, nós conseguimos fechar, parar o garimpo, agora nós vamos ter que ocupar. Tem que colocar uma sonda ali, tal, cercar.” Ele falou: “Não, não se preocupa que os garimpeiros vão cavar uns três metros vão dar naquela laterita que tem na beira da Grota Rica e vão parar.” A gente gozava com ele que dizia que até – quando ele estava lá – até hoje o pessoal está procurando a laje do Hirata e só encontrou ouro. E nesse local que era um morro, que acabou virando um buraco, o pessoal inverteu o morro. Era um morro mais ou menos de uns 50 metros de altura, virou um buraco de 80 metros de profundidade. Inverteram. E, nesse buraco, no início, eles pegaram a camada superficial, porque aí não deu pra segurar. Eles continuaram cavando, a gente falou que tudo bem, não tinha problema. Continuaram cavando. E, tinha um garimpeiro, que era o que eu falei a pouco, o Cearazinho, o Cearazinho pegou um barranco e pegou cerca de 20 quilos de ouro. E como o ouro lá dava por camada, tinha a camada rica, a camada pobre, a camada cega, que é quando não tem ouro, né? E, já estava preocupado, achando que iam roubar o ouro dele, tal, resolveu ir embora, vender o ouro, ir embora e vendeu para o que na época a gente achava que era o Renzo, né? Vendeu para o Renzo. Na realidade, depois eu fiquei sabendo, através de um deputado do Maranhão, Rubão, chamado de Rubão, que participou da CPI que prendeu um dos deputados lá do Maranhão, esqueci o nome dele. Pois é, esse Rubão, ele, em visita aqui em Carajás, aí foi me contar a história que não deixaram ele pousar na pista, aí eu falei: “olha, quem não te deixou pousar na pista fui eu, eu que era responsável.” Quer dizer, ficamos sabendo que um era inimigo do outro, que naquela época a gente não sabia. Mas é que ele entrou por terra, como o Zé Arara não podia aparecer, eles colocaram o Renzo, o Zé Maria e, se não me engano, o Capota, como testa de ferro. Então, esse barranco tinha sido comprado pelo Renzo. Eles baixaram o barranco, né? Começaram naquele material meio cego e de repente deram em cima do ouro bom-bril, que era um ouro dendrítico, rico em paládio. Deram em cima daquilo, a Docegeo no início não estava comprando aquele ouro. Aí, fizeram uma análise e viram que era ouro com paládio e passaram a comprar. Esses caras tiraram mais de uma tonelada de ouro. Só para o Renzo deu quase uma tonelada de ouro. Só pra ele. Ele, o Zé Maria também pegou uma quantidade. Tanto que o barranco a gente achava que era do Zé Maria também, era desse grupo do Zé Arara. Num dia, eu me lembro, esses caras venderam 245 quilos de ouro. Ouro em balde. Os formiguinhas deles, ficavam carregando balde pra ir vender lá no posto de compra da Docegeo. Esse Renzo, quando ele estava com essa maquinetazinha dele de concentrar, eu, quando a gente começou a pensar em pagar o garimpeiro com cheque, porque a tendência era ter problema, né? Daqui a pouco ia começar a aparecer bandido lá e a gente com aquele monte de ouro sem muita segurança. Aí, eu fui no Bradesco e encontrei com o Renzo. Ele estava lá com um papagaio vencido e o gerente do banco, como era amigo dele, falou: “Olha, vou te dar um outro financiamento, você paga o anterior e fica devendo esse.” “Tudo bem e tal, eu estou num cascalho lá e vou pegar.” E, de repente ele deu em cima desse corpo mineralizado, lá, que a gente chama “deu em cima da carne seca”, né? E pegou essa quantidade de ouro. A última vez que eu encontrei com ele lá na Serra Pelada eu perguntei se, com aquele dinheiro ele ia montar um hospital, ele falou que não, que ele ia trabalhar um pouco mais ali pra deixar toda a família numa boa e depois ia viver de renda. Só que nessa de deixar a família numa boa ele começou a devolver o dinheiro para o buraco, né, porque chegou numa ocasião que pegou uma camada grande de solo não mineralizado e começou, e foi, foi, foi... jogou todo o dinheiro dele de volta, lá no buraco. Vendeu, começou a vender as propriedades que ele tinha comprado, né? Gastou tudo. Hoje, só pra encurtar a história, ele chegou a ser médico da Vale lá em Marabá, médico do trabalho, foi pra São Paulo fazer um curso, deu nó, foi demitido. Hoje eu não sei como ele está, a última notícia que eu tive dele foi que ele estava como médico em um dos hospitais públicos da PA-150, num desses municípios da PA-150. Esse foi dos bamburrados que... e teve outros. Teve o Capota, que hoje mora aqui em Parauapebas, ele quando percebeu que ia perder tudo ele parou. A última vez que eu falei com ele sobre isso aí ele tinha duas fazendas, eu não sei se ele vendeu. Eu sei que ele tem uma fazenda aí que tem gado, já tem uma fabriqueta. Ele tem um matadouro. Hoje tem uma fábrica de laticínios e esse ano ele vai ser candidato a vereador. Foi o que conseguiu sair a tempo. Teve um, o Marlom, esse cara pegou muito ouro e teve um problema, acabou mandando matar um cara que parece que estava roubando ele na fazenda ou lá em Serra Pelada. Ele foi denunciado, aí teve que sair daqui, foi embora, foi pra Roraima. Ele chegou a ir lá para os Ianomâmis. A última notícia que eu tive dele foi que ele estava lá para os lados do Tapajós, na miséria. E, dos garimpeiros, todos que pegaram ouro lá, considerando a quantidade, cerca de 200 mil garimpeiros passaram por ali, um por cento talvez tenha alguma coisa hoje. O resto, 99%, muitos morreram lá mesmo, outros morreram depois, o cara pega malária, pega um monte de doença. É uma doença mesmo, o garimpo é uma doença. O cara, a maioria, não consegue parar. Ele ganha, gasta tudo, ou gasta lá no próprio garimpo, reinvestindo, ele num garimpo aí pra outro, blefa no outro. Blefar é perder tudo. Blefa, gasta tudo em farra. Teve garimpeiro aí que fretou. Teve um tal de índio, parece até que ele está em Serra Pelada, é mendigo lá, ele pegou ouro, tinha uma namorada que foi para o Rio, ele fretou um Boeing, em Belém, pra ir ver a namorada dele lá no Rio de Janeiro. Fretou um Boeing. Não tinha vaga, ele falou: “Mas não tem nenhum avião?” O cara falou: “Só se você fretar.” “Tudo bem, quanto é?” Fretou um Boeing e foi para o Rio ver a namorada dele. Teve muitas aberrações. Tem muita lenda mas tem muita coisa que é verídico mesmo.

 

P/1 – Como começou a ascensão do Curió dentro de Serra Pelada? Como é que foi essa...?

 

R – O Curió foi o chefe da informação na época da Guerrilha do Araguaia. E aí a Guerrilha do Araguaia acabou, eles conseguiram praticamente eliminar, mas aí eles ficaram com a informação da região. Então, essa questão de garimpo, quando aconteceu, foi na época do governo militar, então, o SNI era informado também. Então, quando surgiu esse garimpo de Serra Pelada, o SNI foi informado. Aí, o Curió veio pra levantar, pra ver, porque na época a tensão fundiária ainda era grande. Então, ele veio pra ver, era mais um foco de tensão, na região. Aí, ele veio ver e como, além de não dar pra acabar com o garimpo, porque a Docegeo entrou no DNPM e pediu para acabar com o garimpo porque era área de pesquisa. Aí, o DNPM deve ter comunicado o SNI, Polícia Federal e tal. Aí, ele veio ver e viu que não dava. E viu como uma alternativa de diminuir a tensão no campo. Porque o pessoal que estava querendo invadir fazenda e tal, acabou correndo para ali. Quer dizer, foi uma fonte de emprego. Aí, o governo decidiu, quando viu, né? Que ele veio com aquela operação dele, pegou uma quantidade de ouro, não sei quantos quilos, chegou lá botou na mesa do Figueiredo: “Olha, é isso aqui que tem lá.” Aí, o Figueiredo autorizou a montar a coordenação com toda estrutura. Então, ele era o homem forte do Figueiredo na região e passou a ser... E, lá em Serra Pelada tinha muito peão que trabalhou com o Curió, como informante do Curió, na época da guerrilha. Tanto que esses eram os peixes do Curió, lá. Que conhecia e espalhava: “Olha, o Curió...” Tanto que quando ele foi pra lá que ele montou a coordenação ele falou: “Não quero ninguém armado aqui. Se aparecer alguém armado aqui que acha que tem um revólver bom, o meu atira mais alto.” Ele tinha um Magnum 357. Pegou o dele e deu um tiro pra cima, “o meu é mais potente.” Então, como ele defendia o garimpeiro ele passou a ser o deus dos garimpeiros. Era Deus no céu e o Curió na terra.

 

P/1 – A relação de vocês com ele?

 

R – Eles davam a segurança pra gente. A segurança em volta do nosso prédio, na época era a coordenação de Brasília, que era o pessoal do SNI que agia como força. Era o pessoal do exército na realidade. Eles é que tomavam conta. E lá nem gay, na época, gay não podia entrar lá. O gay que era apanhado era levado lá para o palanque. Tinha um palanque que todo dia tinha o hino nacional, hasteamento da bandeira. Todo dia tinha isso. E tinha a alvorada musical. A alvorada musical era um disco do Luiz Gonzaga. Todo dia. O pessoal falava: “Tinha o melô do retirante.” Quer dizer, “eu vim pra São Paulo...” todo dia tocava isso. Se tivesse um filho naquela época ia nascer a cara do Luiz Gonzaga. Eu estava de saco cheio de Luiz Gonzaga. Só que chegou aí e começou a ter muito furão, muito furão, né? Aí, foi em 1982, acho, o Figueiredo foi lá, aí ele liberou o furão. Quando eles viram que não dava pra segurar liberou o furão lá dentro. Aí pronto. Aí que ficou, virou Deus dos garimpeiros. Aí, quando foi 1984, eles viram que eles estavam perdendo o controle, aí jogaram a bomba na mão da DNPM e da Caixa Econômica. Então, ficou e saiu a coordenação. Ficou tudo na mão da Caixa Econômica e do DNPM. Com alguns agentes da Polícia Federal.

 

P/1 – Como uma massa... Foi o momento que mais inflou Serra Pelada?

 

R – Foi, foi. Foi nessa época que começou a ter roubo lá dentro, começou a ter assassinato, latrocínio, né? Roubar e... Teve latrocínio lá, esse eu não cheguei a ver mas o pessoal da segurança viu e me passou. Para o morto não ser identificado eles tiravam a cara do cara todinha e tirava todas as impressões digitais do cara. Não sabia nem quem era. Não dava pra identificar o cara sem impressão digital e sem face. Você vê esse tipo de latrocínio lá.

 

P/1 – Você estava contando o que eles faziam com os gays.

 

R – Os gays levavam lá para o palanque, o cara passava aquele vexame e aí era expulso do garimpo. Qualquer cara que alguém dissesse ou suspeitasse que ele estava praticando algum roubo ou fazendo qualquer besteira, bebendo, era expulso do garimpo. E se voltasse era como furão, a polícia não podia ver. Nego corria atrás de furão. A polícia ficava andando no percurso Serra Pelada, 35 quilômetros, Serra Pelada até a PA-275. Quando encontrava furão saía correndo atrás e dando tiro de metralhadora pra cima. Aí, de vez em quando pegava aquele monte de furão. Aí, botava lá no palanque e expulsava os caras.

 

P/1 – E essas cidades tipo Eldorado, Serra Pelada, essas cidades, elas inchavam, à noite...?

 

R – Eldorado era o local dos furões. Eldorado nessa época tinha só um amontoado de barraco que vendia comida tal mas para blefado, pra furão, não tinha nada, só pra quem tinha uma graninha que dava pra chegar lá. Aí, Curionópolis era o local dos bamburrados. Curionópolis era um cabaré só. E tinha garimpeiro que também trazia, a família pra morar lá no quilômetro 30. Então, os caras saíam, todo fim de semana quem estava com grana saía, ia lá pra Curionópolis, para o quilômetro 30, que o pessoal dizia que era 30 de dia e 38 à noite. Era barra pesada. E, foi assim. Eldorado surgiu principalmente por causa dos furões. Virou o ponto de embarque e desembarque de furão e de venda de comida, coisas pra furão. Curionópolis era local de venda de tudo, inclusive, lazer para o garimpeiro. E, aí, no início de 1980, como já começou a ficar difícil vaga no quilômetro 30, em Serra Pelada, os garimpeiros descobriram ouro pra cá pra dentro dessa área da Vale, lá para o Salobo, para o lado do Pojuca. São jazidas de cobre que têm ouro associado. Então, esse ouro acabou batendo na drenagem e ficou ouro de aluvião. E, aí, eles saíam lá do quilômetro 30, vinham pra lá para o Salobo, desciam na portaria de Parauapebas, andavam 115 quilômetros, à pé, com o jamanchim, que eles chamam – que é um tipo de mochila que eles fazem de cipó – pra lá, garimpavam escondido lá, né? Garimpavam à noite, principalmente, aí saíam e iam para o quilômetro 30 gastar o dinheiro. Aí, o pessoal comerciante do 30 falou “Ôpa, tem um potencial comércio aqui pra cabaré, principalmente.” Aí, eles vieram e colocaram o primeiro cabaré ali na margem da PA-275, onde o Igarapé Ilha do Coco corta a estrada, tem uma ponte lá. Aí, eles colocaram o primeiro cabaré, o segundo cabaré... O garimpeiro saía e já ficava ali. O garimpeiro quando sai está doido – até a gente né?  doido pra tomar uma cerveja, né? E se tiver uma mulher já está completo, né? Aí, os caras começaram a ficar por alí, aí surgiu uma rua de comércio que os garimpeiros colocaram... a rua do comércio era Rua Curió, em homenagem ao Curió, também. Então, tinha aqui corruptela do cabaré e aqui a Rua Curió, que era o comércio. Então, nego comprava as coisas aqui e... de dia, era 24 horas quase que o cabaré funcionava, principalmente à noite, mas de dia também. E foi assim que Parauapebas surgiu. A Vale estava fazendo a infra-estrutura para as pessoas que vieram atraídas pelo projeto, mas ela começou a implantar isso, tipo, em 1981. 1981, 1982 que começou a fazer. Mas, aí, já tinha aquele povoado lá, onde hoje é o Bairro do Rio Verde. Só depois é que algumas pessoas ocuparam essa área que estava urbanizada. Até porque tinha toda uma regra. Pra você fazer casa aqui tinha que comprar o lote, no início tinha que comprar o lote e fazer dentro das regras. Se tinha lá que não precisava comprar lote, eles invadiram uma fazenda. Não me lembro de quem era essa fazenda, parece que era do Valdir Flausino. Aí começaram a fazer barraco de qualquer jeito e não vinham pra cá. Aí, depois liberaram isso aqui. Liberaram essa área e o pessoal começou a ocupar. Então, aqui hoje é o Bairro de Cidade Nova e lá é o Bairro Rio Verde que é mais antigo. Quem olha já percebe que ele é mais antigo porque a vegetação de quintal, do quintal das casas é bem maior do que a vegetação daqui da Cidade Nova. Então, em função disso, em função do ciclo do ouro que surgiu Eldorado, por causa dos furões, Curionópolis, que era o ponto de apoio do garimpo, porque lá não podia ter nem bebida nem mulher, e Parauapebas acabou ficando maior do que deveria por causa dos garimpeiros que entravam pra cá, pra área da Vale, para vir garimpar para cá, para o Salobo e outros garimpos, e os caras colocaram um cabaré ali, no Rio Verde. Antes era inferninho, né? Era um currutela mesmo que se chama no garimpo. E, além desse, tinha esse cabaré mesmo e tinha o cabaré social que a Vale, quando começou a implantar o Projeto fez, onde hoje é a sede do sindicato, fizeram uma casa de chá. Foram em Belém, procuraram uma casa de chá daquelas que tivesse uma dona de casa de chá que quisesse tomar conta desse local, agora me lembrei o nome dela, a Verônica. Contrataram a Verônica. Ela tinha lá as primas, né? Com ‘Sif’, usando o exemplo que eu coloquei, tinha que ter carteira de saúde, tinha que e ter tudo quanto era exame, porque eram os engenheiros daqui, o pessoal que estava implantando o projeto e que tinha que ter uma área de lazer. Porque aqui não tinha praticamente nada. Aí o pessoal descia. Não podia ter cabaré lá no N5, então, eles fizeram lá em Parauapebas. Então, o pessoal descia, ia pra lá tomar cerveja, tal e namorar um pouquinho também.

 

P/1 – Quando é que a Docegeo saía de Serra Pelada e por quê?

 

R – Serra Pelada saiu já estava implantando uma usina para fazer a exploração do ouro. Aí, em 1984, os garimpeiros que não aceitaram, porque em 1984 já teria acabado o garimpo, ninguém ia fazer mais porque, todo ano depois do inverno era feita a drenagem da água da cava e feito um rebaixamento para poder dar condição de segurança pra garimpar. Em 1984 já estava definido que o governo não ia mais fazer rebaixamento e o garimpo ia fechar. Aí, os garimpeiros vieram e fizeram pressão na Vale, aqui. Chegaram aí na portaria de Parauapebas, vieram desde Curionópolis, tocaram fogo na agência do Bamerindus que não tinha nada a ver com o peixe. E, em Parauapebas tocaram fogo na portaria, onde tinha o alojamento da segurança, tocaram fogo. Tocaram fogo onde seria a delegacia lá do núcleo, do núcleo que a Vale tinha feito a infra-estrutura. Tocaram o maior horror. Ficou assim por um fio. A polícia militar do lado daqui da ponte sobre o Parauapebas pra impedir de eles invadirem. Porque eles queriam invadir, queriam ir lá para o N5, ia tomar aeroporto, ia ser um horror. Então, os garimpeiros do lado de lá, insuflados pelo Curió, né? E a polícia do lado daqui. Aí, conseguiram, quando perceberam, o Curió quando percebeu que ia dar problema deve ter falado lá com as lideranças: “Olha, vamos...” E, o governo também abriu, o governo prorrogou mais o garimpo.

 

P/1 – O Curió estava pessoalmente?

 

R – Estava, estava na área.

 

P/1 – Como é que você atuou nesses momentos, Venâncio? Os momentos que você estava?

 

R – Eu atuei no início, quando nós pousamos lá, no início de março de 1980. Aí eu fiquei tomando conta mesmo da segurança. Fiquei como o delegado, o juiz de paz, eu que era responsável por tudo lá dentro inclusive para fazer acordo. Psicólogo. Teve uma ocasião, eu me lembro bem, teve dois caras que vieram, os caras estavam pra se matar lá. Mas aí vieram comigo, né? Chegaram lá disseram “Olha.” Me chamavam de tenente Venâncio, eu tinha saído do exército, e até pra dar aquela, o tenente Venâncio, aí os caras já respeitavam. Aí o cara veio disse “Olha, o negócio é o seguinte, nós fizemos uma sociedade pra baixar o barranco lá, enquanto o barranco não estava dando nada a gente estava como sócio, agora que o barranco começou ele está dizendo que eu não sou mais sócio dele.” Eles estavam com uma quantidade de ouro lá. “Eles está dizendo que eu tenho direito só a dez por cento.” Eu falei: “Olha, se vocês são sócios – aí entrei na minha de juiz de paz – o negócio é o seguinte, vocês são sócios?” Aí um cara falou: “Não, porque sou eu que gasto com...” “Mas vocês não fizeram sociedade? Então é 50% pra um e 50% pra outro. Daqui pra frente, tudo bem, agora tu ficas, né? Mas até agora o que vocês conseguiram apurar é metade, metade, tá ok?” O cara meio, o outro, meio, mas concordou. Aí, dividiu metade pra cada um, pesou, vendeu. E o cara estava pra dar um tiro no outro. Outra ocasião que eu me lembro, é que eu tinha proibido jogo de azar, por quê? Jogo de azar ia acabar dando morte lá dentro. Podia jogar, mas não a dinheiro. Um dia eu cheguei lá o pessoal da segurança veio, o pessoal da segurança não, chega um cara, tinham fechado um cassino lá, aí o cara veio, sabia que eu estava lá: “Vocês fecharam minha casa de jogo, lá na frente da minha casa tem um bingo lá.” Caramba, eu não tinha autonomia nenhuma pra fechar nada. Eu não era polícia, eu era responsável ali pra tomar conta da segurança do nosso acampamento. Mas eu não vou dizer, porque se eu disser para o cara que eu não tenho nada a ver pronto, desmoraliza. E eu não sabia quando é que ia ter segurança, a segurança era nossa. Aí, peguei fui lá, fomos lá por trás. Aí, fomos lá, chamamos o cara: “Tenente Venâncio.” O cara já fica meio... Falei: “Olha, sua casa de jogo é clandestina, você sabe que é proibido, porque isso vai acabar dando morte, tal.” Aí, o cara chiou, tal, mas tudo bem, fechei a casa de jogo. Parou, peguei tudo, botei numa caixa. Aí, eu crente, não, mas tem ali... Bicho, eles saíam. Um monte, cheguei no local tinha um cara que era daqueles barra pesada lá do tempo do garimpo de cassiterita de São Félix do Xingu. Cheguei lá que eu vi o cara: “Caramba!” “Pô, você veio fechar o jogo. Agora que eu estava começando a ganhar.” Eu falei: “Não, mas não pode o jogo é clandestino e não pode, é proibido o jogo de azar.” O cara chiou. Fechou. Ainda bem que não tinha outro. Voltei lá para o acampamento com uma caixa cheia de baralho. Fechei. Aí, depois que o Curió chegou aliviou minha barra porque aí a gente tomava conta só do acampamento.

 

P/1 – Em relação a Carajás, você tinha alguma relação com isso também, com a segurança?

 

R – Eu fazia segurança principalmente das áreas da Docegeo. Quando começaram a implantar o Projeto Ferro, aí a Vale tinha sua segurança. Eu fazia a segurança das áreas de pesquisa e tinha um pessoal que fazia a segurança das instalações aqui de Carajás.

 

P/2 – Como é que era fazer a segurança das áreas de pesquisa?

 

R – Era esse pessoal que ficava andando nas áreas onde tinha indício de garimpeiro, andando pra impedir que o pessoal garimpasse. Lá no Salobo chegou a ter três mil garimpeiros. E eu chegava lá no meio dos caras e dizer: “Olha, o garimpo aqui é fechado, vocês vão ter que sair, tal e tal.” Aí, a polícia Federal estava dando apoio. Botamos um monte de caminhão lá, enchia os caminhões de garimpeiro e despejava lá em Curionópolis. Fechamos o garimpo lá. Conseguimos preservar o que hoje é o Salobo, se não teria virado uma outra Serra Pelada. O Baía, que é a maior mina de ouro, também a gente segurou, com essa estrutura de segurança. E a gente trabalhava linkado com a segurança da Vale, nessa época. E eu fiquei, até 1986, na segurança do Docegeo, aí, foi quando o ciclo do ouro também começou a cair. Como eu tinha feito biologia e entrosei com o pessoal do Museu Paraense Emílio Goeldi, porque a partir de 1982 até 1986, o Museu Emílio Goeldi fez o levantamento, o estudo ambiental, que era o levantamento de fauna, flora, sítios arqueológicos, recursos hídricos. Fazer a medida de background da água, como é que era a água aqui, pra depois, no monitoramento dizer: “essa água naturalmente já tinha ferro, não tinha ferro...” Aí, quando foi em 1987, criaram a superintendência de meio ambiente, aí eu fui convidado pra ser o assistente regional. Eu ficava em Belém mas vindo aqui, a Carajás, acompanhando pesquisadores. Quando foi em 1990, com o Plano Collor, aí acabaram com o escritório da Vale lá em Belém, aí eu vim transferido pra Carajás. Aqui em Carajás eu fiquei na área de meio ambiente e relações externas, fazendo contato com o pessoal de Parauapebas. Já tinha, o município já tinha emancipado, em 1988 emancipou. E, aí, eu vim e comecei a fazer esse trabalho de relação com Parauapebas e com os índios. E, além disso, a área de meio ambiente também. Aí, fiquei. Em, por volta de 1995, 1996, até parte de 1997, eu fiquei na área de, fui convidado pra ir pra área de segurança. Como eu tinha trabalhado como segurança e um colega nosso, até que voltou agora, ele estava indo transferido pra Itabira, aí me convidaram pra assumir essa área, segurança e aviação. Fui pra segurança, aí quando foi 1997 reestruturaram e a área de segurança ficou subordinada. Foi criada só uma gerência administrativa e a segurança ficou subordinada a essa gerência. Aí eu voltei pra área de meio ambiente e relações externas, onde estou até hoje.

 

P/1 – Venâncio, voltando um pouquinho lá, ainda no período como segurança da Docegeo, você ficava sediado onde exatamente? 

 

R – Eu ficava sediado em Belém. No escritório, em Belém.

 

P/1 – Você tinha quantos homens, mais ou menos?

 

R – Por volta de cinquenta. Era o pessoal que fazia segurança em Serra Pelada, Rio Maria, aqui na área do Salobo, pra onde tinha garimpeiro. Principalmente Rio Maria, Serra Pelada, Cumaru tinha segurança também, e nessa área de Carajás.

 

P/1 – Segurança pra própria equipe de pesquisa da Docegeo, para o pessoal, tinha isso também?

 

R – Sim, sim. Tinha, tanto que a história da suçuarana foi com um segurança, porque o pessoal estava fazendo sondagem, tinha o acampamento base e tinha uma sonda. O nosso pessoal fazia segurança da sonda. O pessoal trabalhava durante o dia e ia embora para o acampamento, ficava a segurança tomando conta se não garimpeiro ia acabar desmontando a sonda. Foi nessa hora que num belo dia lá um dos seguranças foi ao acampamento base e ficou o outro segurança tomando conta que era o Paulão, que era o lutador de boxe. Lutador de boxe peso pesado, o cara era um armário de quatro portas. Ele ficou. Ele dormia em rede, então, ele pegou um cobertor, uma manta daquelas, botou aqui em baixo da cabeça e estava na rede se embalando. Durante o dia. Felizmente foi durante o dia senão teria sido mais complicado pra ele. Aí, ele de repente levou uma pancada que ele não sabia o que era e derrubou da rede. Caiu. Quando ele caiu que ele viu a suçuarana tentando em cima dele tentando pegar na cabeça dele. Aí, ele ficava rodando no chão e ela rodando atrás dele. Numa hora que ela deu uma folgazinha, ele levantou. Quando ele levantou ela veio com a mão direita pra dar patada nele pra segurar, porque ela segura primeiro. Ela fica em pezinha, vem e segura. Na hora que ela foi ele conseguiu, como ele tinha muita agilidade, um cara lutador de boxe, tem muita agilidade, ele conseguiu segurar a pata dela. Quando ele segurou a para dela ela veio com a boca, porque ela pega e já vem morder. Ela veio com a boca na cara dele. Segundo ele, ele falou que sentiu o bafo da onça. Aí, ele conseguiu sair, lutador de boxe o que ele faz mais é isso, né? Ficar fazendo esquiva, então ele saiu e deu um socão na cara dela. Agora, imagina a força que ele colocou no braço dele. Aí, bateu, ela ficou, assustou, ficou por ali, foi quando ele pegou a espingarda, deu um tiro pra cima, ela entrou no mato. Aí, ele saiu, foi lá para o acampamento, todo agatanhado, levaram ele pra enfermaria do N1, fizeram os curativos. Até hoje me chamam de mentiroso. Sou eu e ele como mentirosos. Mas tem o outro segurança que só não presenciou mas... O pessoal da Docegeo que estava nesse acampamento viu ele chegar lá. Eu, no início, quando ele contava essa história eu achava que ele tinha dado um tiro, tinha caçado um felino qualquer, né? E na hora de pegar o felino, o felino ainda não estava morto e agatanhou. Mas aí, depois que ele saiu da Docegeo encontrei com ele, falei: “Vem cá. Me conta essa história, bicho. Que estão me chamando de mentiroso.” Ele contou a mesma coisa. Foi isso aí. E, realmente não é “causo”, isso aí é caso mesmo.

 

P/2 – Venâncio, seu envolvimento com área de meio ambiente é em função do seu curso de biologia ou nesse meio tempo aí na segurança, você já?

 

R – Na segurança, eu estava na segurança, mas aí como eu vinha muito pra Carajás, eu aproveitava e acompanhava a equipe de pesquisa do museu. Depois quando passei a assistente regional de meio ambiente eu passei a ficar mais acompanhando os pesquisadores. Em função disso foi que em 1987, quando criaram a superintendência, por coincidência também, o cara que foi ser superintendente é o cara que era presidente da Docegeo, que me conhecia. Conhecia minha integridade também, o caso daquela pepita em torno de 600 gramas. A gente tinha uma balança que pesava só até 200 gramas e aí apareceu um cara com uma pepita de 600, em Serra Pelada. Aí, eu falei para o cara: “Olha, nós não temos dessa balança, eu vou levar tua pepita e vamos comprar  uma balança maior, vamos trazer, a gente pesa e te paga.” “Tudo bem.” Pegou a pepita e me entregou. Aí fui lá para o N1 e coincidiu de nesse dia ter uns visitantes, pessoal que vinha para o N1, comprador, potencial comprador de minério e tal. Aí, os caras ficaram abismados, como é que o cara, a 27 mil dólares o quilo do ouro, o cara me entrega uma pepita de 600 gramas, sabe? Ficou todo mundo abismado. E, em função de tudo isso, esse tempo de segurança a minha arma era uma máquina fotográfica. Por isso que tem mais de mil fotos minhas nesse acervo que era da Docegeo. Serra Pelada foi mais fotografada do que a Bruna Lombardi (risos). 

 

P/2 – Esse acervo da Docegeo, está aonde?

 

R – Eu acho que ele está em Belém. É só falar com Ana Margarida, ela tem isso. Tem foto minha desde quando o buraco era morro. Tem quando ele virou queijo suíço e tem quando ele tinha um monte de formiguinha, tem toda a sequência de fotos. E, em função disso, que sabia que eu tinha acompanhado o trabalho do Museu Goeldi. Que eu tinha esse trabalho todo pela Docegeo. Aí, ele me convidou pra ser assistente regional. 

 

P/2 – O nome dele, qual é?

 

R – Francisco Fonseca. Deve ter muita história pra contar também. O nome dele completo é Francisco Franco de Assis Fonseca. Gente finíssima. Se vocês forem conversar com ele dêem um abraço nele. Escreve, também é bom, escreve pra caramba. Ele é meio estilo do Breno, só não é fotógrafo, que o Breno era viciado em fotografia também. E a minha mania também era fazer fotografia. Tanto que eu ia para o garimpo com a máquina pendurada, não usava arma nenhuma. A minha arma era a máquina fotográfica e o meu argumento. Chegava: “Olha, não pode garimpar.” O garimpeiro: “Mas doutor, eu estou aqui porque eu tenho tantos filhos, eu estou aqui pra conseguir a comida dos meus filhos.” Eu dizia: “Olha, eu entendo toda a parte de vocês. Se vocês não fossem exercer.” “Se a gente fosse bandido, a gente estaria lá na cidade roubando, mas não, a gente está aqui trabalhando, honestamente.” “Pois é, mas só que essa atividade de vocês prejudica a atividade da Docegeo, porque a partir do momento que vocês cavam aqui fica difícil saber o que tem. Vocês bagunçam o ambiente geológico. E se eu deixar vocês aqui, vocês ganham o pirão das crianças e quem perde o pirão das crianças sou eu. Então, infelizmente, vocês vão ter que sair.” “Eu vou sair mas eu volto.” “É um direito que vocês têm. Mas vocês vão voltar sabendo que podem sair.” E ficava nisso. Ficou Tom e Jerry. Eles entravam, a gente encontrava e tirava e foi, foi até que eles tiraram o filé, aquilo que era viável tirar à noite, tira rápido e aí quando começou a ficar difícil eles pararam. Hoje tem um ou outro teimoso que ainda entra. Já teve caso de garimpeiro que morreu soterrado. Teve caso de assassinato aí dentro por causa de seis gramas de ouro. Teve um caso. Isso eu conversei com um dos assassinos. Os caras foram para o acampamento com seis gramas de ouro, era metade de cada um. O cara falou que não, ficaram naquele negócio, né? Aí, um dos caras foi deitou na rede. Aí, o outro deitou, mas ficou: “Metade desse ouro é meu.” E ficou naquela de: “Como é que vai ser, senão vai ter briga.” Aí, o cara foi pegou uma cartucheira e deu um tiro no cara, na rede. Aí tinha esse negão, um negão forte pra caramba, ele contando pra gente: “Eu estava, ele atirou no nosso colega, aí a gente ia sair de lá, depois iam saber. E, no final ia acabar sobrando pra gente porque iam pensar que a gente. Aí eu pensei, eu vou ter que pegar esse cara.” Aí, o cara pegou, depois que atirou no cara, abriu a espingarda, pegou outro cartucho botou: “Olha, não mexa comigo, eu vou embora e tal.” Aí, o negão ficou meio próximo do cara, na hora que o cara se descuidou ele segurou na espingarda. Brigaram tanto por essa espingarda – eu vi a espingarda - que ela ficou com o cano torto assim de tanta força. Aí, o cara conseguiu disparar, quando disparou, ele era mais forte do que o cara, pegou no pescoço do cara e enforcou o cara até o cara parar de tremer. É macabro mesmo. Quando o cara parou de mexer, morreu. Aí, quando ele ia saindo, o cara teve um reflexo nervoso ainda, mexeu com o pé, aí ele foi já pegou uma faca velha que tinha e pegou no pescoço do cara e cortou até quase separar a garganta do cara. Aí, foi embora, saiu, aí quando chegou lá portaria de Parauapebas, os outros colegas também com medo: “O dia que descobrirem, olha, aquele negão matou um cara lá dentro...” Foram. Ele nem reagiu. Trouxeram. Foi um dos dias que eu estava aqui. Fui conversar com o cara. Ele contava que parecia que ele tinha morto uma cobra, uma onça. Como ele contava a coisa. E esses corpos, eles ficaram lá mesmo. A polícia foi acionada. Como ele já estava em adiantado estado de decomposição botaram um saco plástico preto em cima, botaram terra e ficaram lá mesmo. Tanto lá ficou chamado como Grota dos Mortos. Ficou: “O Garimpo dos Mortos”. Como tem esse tem outros, tem a Grota da Cruz também, tem um monte de caso desses barra pesada de nego que matou o outro por besteira. 

 

P/1 – Além do garimpeiro tinha problema de segurança com madeireiro, caçador?

 

R – Tinha. Nesse tempo de Docegeo era garimpo, e aí, depois, na segurança da Vale tem a segurança dessa área como um todo. A Vale estabeleceu como essa área sendo área da Vale, tendo Parauapebas como limite. Então, de lá de Parauapebas pra cá não podia passar. Mas aí tinha caçador, tinha garimpeiro que entrava, então, a segurança, a nossa, que ficava atrás de garimpeiro, e a da Vale ficava atrás de madeireiro, outro tipo de invasor. E, a partir de 1985, essa área passou a ser alvo do MST. Então, o MST invadiu algumas vezes essa área daqui. Eles invadiam a gente entrava com ação na justiça e entrava com reintegração de posse e conseguimos ir tirando, todas as vezes que eles invadiram foram retirados. E, felizmente, essa área, em 1998, foi transformada em Floresta Nacional, e aí deixou abjeto de assentamento. É uma unidade de conservação, e aí foi que o pessoal passou a ter uma folga maior. Mas é um orgulho que a gente tem, o trabalho positivo da área de segurança foi ter conseguido segurar isso até hoje. E hoje, se você olha na imagem de satélite, você vê que é uma das últimas ilhas de floresta contínua nessa região. A região sudeste do Pará é uma das poucas ilhas de floresta contínua, um milhão cento e sessenta e cinco mil hectares de floresta. Não foi fácil. Só quem conhece essa história. Foi muita briga com MST. E, engraçado, um mérito que eu considero meu, que é a capacidade de negociação, eu e outros colegas, mas é que eu fiquei durante esse tempo, então, foi o tempo crítico de invasão, foi a pior época. E eu fui xingado lá na portaria pelo MST, saí em jornal, né? E, depois que parou esse rolo, eu fui inclusive convidado pra participar do aniversário de quarto ou quinto ano do assentamento Palmares. Fui convidado pra ir lá como Vale do Rio Doce, com direito a dar discurso no palanque e dizer que a Vale era importante também pra eles. E realmente é né, a Vale é uma parceira aqui. Já conseguiram entender que agora não tem mais essa de estar em lados opostos. Estamos do mesmo lado, né? Eles produzem, têm a ferrovia pra escoar e a Vale tem condições de ajudá-los nisso aí. 

 

P/1 – Venâncio, quando você comentou do seu trabalho como assistente de meio ambiente, o que isso quer dizer na prática, o que foi feito, em termos de meio ambiente aqui, nesse período que você trabalhou com isso especificamente? 

 

R – A Vale, quando o Projeto Carajás foi idealizado, o Dr. Eliezer Batista, tomando como exemplo as minas de lá do sul, que tem a mina e a população em volta, ele entendeu que Carajás teria que ser diferente. E, para evitar o que ocorreu lá em Minas a primeira coisa que ele pensou foi manter essa área como área de preservação, né? E outra coisa, desde o início de implantação do projeto já tinha uma área de meio ambiente, tinha uma coordenação de meio ambiente. A coordenadora era a Maria de (Lourdes David Fritz?), que era da Vale, hoje está como consultora do Banco Mundial. Tinha um colega nosso aqui que foi o Eduardo Porto, foi o primeiro encarregado da parte de meio ambiente. Depois foi o Luiz Carlos Nepomuceno, que é agrônomo. Então, o projeto começou certo. Essa coordenação de meio ambiente era pra segurar os engenheiros. Porque engenheiro quer saber de meter trator e limpar a área que ele vai trabalhar, então, já tinha uma norma de fauna e flora. As empresas que vinham pra cá já tinham que seguir essa orientação, essa normativa de fauna e flora. E mesmo não sendo necessário fazer, a Vale contratou do Museu Goeldi um estudo. E, foi feito todo esse levantamento que serviu de base pra depois do estudo, estudos ambientais na área de Carajás. Como se fosse o EIA. Carajás não teve o RIMA, porque o RIMA é um relatório mais pra audiência pública, mais pra ser analisado pela população. A obrigatoriedade EIA e RIMA foi a partir de 1986 e o projeto já estava tocando. A ferrovia foi inaugurado em 1985 e o projeto foi, a exploração mesmo começou em 1986.

 

P/1 – Essa pesquisa do Museu Goeldi mostrou que fauna e flora?

 

R – Mostrou o que a gente vê hoje, ave e fauna. Mais de 300 espécies de aves. É uma flora muito diversificada, com espécie endêmica daqui como Ipomoea cavalcantei, uma florzinha que tem uma cor vermelha bonita. Tem a Ipomoea marabaensis, a Ipomoea carajasense, tem algumas orquídeas que foram descritas pra Carajás. Tem uma espécie de quelônia que foi descrito aqui pra Carajás. Tem espécie de cobra, ofídia, que foi descrito pra Carajás também. Tem algumas espécies que foram descritas aqui, em Carajás, e tem espécies que só ocorrem aqui em Carajás. E, em função desse trabalho, dessa visão do Eliezer Batista, foi criado um grupo de assessoramento em meio ambiente, que era o GEAMAM. Esse grupo, eles fizeram mais de duzentas proposições. Uma delas foi que a Vale continuasse investindo na proteção dessas áreas. Em 1986 essa área da Vale foi transformada em área de direito irreal de uso, concedida pelo Senado Federal, e aí, em 1989, foram criadas mais três unidades de conservação, foi a Apa do Gelado, a reserva biológica do Tapirapé e a Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri. E mais esse trabalho de apoio aos índios Xikrin do Cateté e a Vale, por força de convênio, atua também no apoio à proteção dessas áreas, aí criou esse bloco de um milhão cento e setenta e cinco mil hectares. A Vale, além de fazer o trabalho ambiental específico, tem um trabalho também de apoio às comunidades vizinhas. São as comunidades não índias e a comunidade indígena. No caso aqui de Carajás são os índios Xikrin do Cateté, que a Vale dá apoio, desde 1982. Dá apoio em saúde, educação, atividade produtiva, proteção. A educação é bilíngue. O ensino fundamental em português e em jê. Foi criada uma grafia, os Xikrin não tinham grafia. Era só falado. O idioma deles é o jê, o tronco linguístico jê. São caiapós, grupo linguístico jê. A maioria só fala jê, não escreve. E tem os que já frequentaram a escola, já conseguem escrever em jê também. 

 

P/2 – Você sabe alguma palavrinha?

 

R – Tem muitas, por exemplo, cubenira, que é mulher branca. Cubem, que é homem branco. Cubem na realidade é estranho. Qualquer índio que não fosse xikrin, caiapó, era chamado de Cubem. Esse Cubem ficou pra homem branco. Aí tem neprire que é menino, menire que é menina, meni é mulher, memu é homem, preocaprim é dinheiro, pidiô cangô que é refrigerante, cadiô ati cangô que é birita, méi comerem que é bom, méi teré que é muito bom, tem punure que é ruim, feio, e punuti que é muito ruim, muito feio, então chamar alguém de punuti está xingando. Aí tem várias palavras, necunim que é todo mundo.

 

P/2 – Como você iniciou esse contato?

 

R – O contato com eles eu tive desde 1978, quando a gente ficava acampado lá na beira do Itacaiúnas, e quando eles vêm da aldeia eles vêm pelo Rio Itacaiúnas, aí desciam lá. Aí a gente passou a ter contato. Tem aquela foto do Bemoti, quando ele era um pouco mais novo, magro, ainda era guerreiro. Agora está gordo. Bemoti, é o cacique da aldeia Cateté. E tem o Botiê, da aldeia Djudjêkô, é o cacique mais velho da aldeia Djudjêkô. O cacique atual da aldeia Djudjêkô que é o Karangré, parece que ele tem 45 anos, eu estou há 22, então, nessa época ele tinha 23 anos, ele era jovem ainda. Tem o outro irmão dele que é o (Deguro?), que traçou uma liderança por fora, ele tinha seis anos. Hoje está casado já, tem filhos. Que eles casam cedo, né? Eles casam com 14 anos.

 

P/2 – Eles casam com uma só?

 

R – O Xikrin é monogâmico, eles casam com uma só, apesar de que o adultério é permitido, é consentido desde que o marido esteja sabendo. Se houver um adultério sem o marido saber aí dá rolo. Mas se ele estiver sabendo. Viaja, tal, passa muito tempo fora, a mulher acaba se engraçando com um, tudo bem.

 

P/2 – Todo índio é guerreiro?

 

R – O caiapó é. Todo índio é guerreiro, o caiapó é mais ainda. É guerreiro por excelência. Quando eles vêm pra reunião anual, eles sempre vêm em situação de guerra. E aí, quando tem alguma coisa que contraria... Esse plano de manejo, a Vale, na busca da auto-suficiência deles tem o projeto agrícola e tem o plano de manejo. Ano passado, a FUNAI não queria dar autorização pra iniciar o manejo. Eles vieram pra cá e interditaram a estrada. A gente foi pra lá, eu fui pra negociar pra falar com eles, para desinterditar a estrada e tal, e fiquei como intermediário entre eles e a FUNAI. Falava com o presidente da FUNAI, aquele Sullivam que morreu num acidente. Eu, lá do meio da estrada com um celular falando com o presidente da FUNAI, botando em contato com o Karangré. Falar, tal, até que... E, nessa hora, a estrada ficou interditada, gente daqui, gente daqui, nego se aproximando, eu pedi pra um colega, eu estava na segurança essa época também. Eu peguei, chamei o Vlademir, um colega nosso, falei: “Vai para o lado de lá pra evitar do pessoal se aproximar senão vai ter problema.” Aí o Vladimir foi, tranqüilo, mas eles acharam que o Vlademir estava furando o bloqueio deles. Aí, quando eu olhei os índios com a borduna cutucando e o Vlademir pulando para trás, eu disse: “Calma, calma, ele foi só pra impedir o pessoal de...” 

 

P/2 – Como era esse plano de manejo?

 

R – Deixa eu contar fatos, não são causos não, são fatos interessantes. Um deles foi 1986, eu acho. Foi em dezembro, dezembro e janeiro, principalmente em dezembro que começa a cair a castanha-do-pará, e o pessoal aproveita que vai sair de folga e vai coletar castanha pra levar, né? Aí, nesse dezembro de 1986, uns colegas desceram lá para o lado de Itacaiúnas pra coletar castanha que era pra levar. E, aí, um colega nosso, o apelido dele era ‘Pilha fraca’, não estou lembrado do nome, mas o apelido era ‘Pilha fraca’, ele foi, já tinha colhido um monte de castanha, o pessoal entrou todo mundo junto, aí ele veio, deixou e disse: “Olha, eu vou ali, tem um bocado de castanha graúda ali.” Graúda aqui é grande. Aí, ele foi pra lá coletar. Conclusão: o pessoal espera, cadê o Pilha Fraca? Sumiu. Aí, botaram o exército pra procurar esse cara, botaram os mateiros lá da Docegeo pra procurar e não acharam. Aí, foram chamar os xikrin, deram rancho para os xikrin e botaram eles pra procurar, os índios comeram o rancho todo e depois: “Ah, coben já morreu, né?” Esse cara passou dez dias perdido. Aí, aquele negócio, quando o cara não tem que morrer, são coisas que fazem a gente acabar acreditando um pouco em destino, esse cara se perdeu nesse dia. Ele estava com um facão, estava de capacete. No primeiro dia, quando ele começou a andar, ele perdeu o facão. No segundo dia, que ele pegava a água com o capacete pra tomar, ele deixou o capacete em algum local. Até o terceiro dia ele subia numa árvore pra dormir. No terceiro dia, com tanto sono, ele cochilou quase que ele cai. Aí ele passou a dormir no chão mesmo. E aí foi, né? Quando foi no décimo dia que a família do cara estava achando que a Docegeo sabia que ele tinha morrido e estava enganando e tal. Aí, me falaram, eu falei: “Eu vou lá, né?” No nono dia. Aí no décimo dia, eu cheguei, era pra eu fazer um sobrevôo. Eu falei: “Vou fazer o sobrevôo por onde o pessoal acha que ele não foi.” Aí, vim, de manhã não deu pra fazer o vôo. Aí, vai, vai, vai, quando chegou cinco horas da tarde, o cara que era o administrador do acampamento chegou comigo e disse: “Venâncio, tu acha que precisa fazer esse sobrevôo? Esse cara já deve ter morrido, o helicóptero amanhã ainda vai pra Rio Maria. Ainda tem mais uma perna – perna é uma viagem – que tem que fazer.” Eu falei: “Rapaz, eu vim pra cá só pra isso. Então, nem que seja só pra desencargo de consciência...” Eu fui e fiz o sobrevôo. “Nós vamos fazer.” Aí foi que entrou eu, ele, entraram mais dois colegas. Aí, fomos: “Vamos fazer o seguinte, se isso aqui fosse a área de Carajás, Parauapebas está aqui, Itacaiúnas está aqui.” N1 bem aqui, assim. E, tem uma estrada que faz isso daqui. Eu falei: “Olha, vamos fazer o seguinte, segue a direção de Itacaiúnas pela estrada.” Porque aí, de repente, ele poderia ter saído do mato, na estrada a gente já... Aí, fomos, nada. Aí, subimos o Itacaiúnas, aí viemos. Chegou logo depois do Caldeirão, vi uma fumaça: “Deve ser ele.” Aí, desci, eram uns garimpeiros, ainda estavam querendo carona no helicóptero. Fomos, subimos, viemos mais, fomos até o Águas Claras. Chegamos em Águas Claras falei: “Agora sobe o Águas Claras.” Aí, viemos embora. N1 bem aqui. Aí eu vim, ele entrou, ele tinha se perdido por aqui, assim. Aí, quando chegou aqui, já próximo do manganês, nada, nem sinal de fumaça. Aí falei “Vamos na direção do Pojuca.” Aí ele veio na direção do Ipojuca, bem aqui assim. Isso 18 horas. Aí falei “Pô, tira o rumo da serra que o pessoal acha que ele não subiu.” Aí, ele veio na direção do Águas Claras. Aí, chegamos no Águas Claras, na hora que nós chegamos um pouco antes do Águas Claras, a gente já tinha passado por cima dele. Na hora que nós passamos ele estava na beira do Águas Claras. Aí eu fiz tudo isso e depois vim na direção do cara. Demos em cima do cara. Aí tinha uma fumaça ele falou: “Tem uma fumaça ali.” Aí, fomos lá, o helicóptero pairando e nada. Outro foco de fumaça lá na frente, aí nós fomos pra lá, baixou era onde tinha fogueira. O helicóptero estava na copa praticamente das árvores, atiçou a fogueira, o vento. Aí, nada do cara aparecer. “Isso aí é garimpeiro, não sei o que.” Deu aquela desanimada, 18h20 já. O helicóptero era pra estar no solo, Já estava além do pôr do sol. Aí, já tinha decidido dizer: “Vamos embora.” Aí, quando eu olhei pra esse lado, quando olhei, ele tinha saído da fogueira e tinha ido pra cima de uma árvore caída. Ele estava lá assim com a camisa. Eu falei: “Olha o cara.” Aí, não dava mais pra tirar o cara, não dava mais tempo. Tinha que abrir uma clareira pra tentar descer. No meio da floresta. Aí, nós pegamos uns sacos, nós tínhamos levado uns sacos com conserva e tal, com um bilhete, dizendo pra ele que se a gente encontrasse pra ele fazer fogo que no dia seguinte a gente viria buscar. Aí voltamos para o N1. Fomos dormir, bicho, quem disse que dormia? Depois de a gente ver o cara. Se esse cara morrer eu não vou me conformar, sabe? Eu pensava: “E se a onça acha esse cara hoje? Se ele não entendeu – o cara há dez dias perdido com fome - dá a louca e sai andando? Aí, preparamos tudo. No dia seguinte botamos os mateiros no helicóptero com corda pra poder descer, motosserra. Aí, a gente tinha pedido pra ele fazer fogo. A sorte que ele achou uma das conservas, ele achou a que era ervilha, se ele tivesse achado um bordon daqueles, uma carne em conserva, ia acabar fazendo mal. O cara há onze dias, dez dias sem comer. Ia dar um problema intestinal. Ma só que o piloto tinha gravado o rumo então demos em cima dele de novo. Legal. Aí, afastamos um pouco dele, descemos o pessoal com corda. Nego descia escada de corda. Aí nós voltamos para o acampamento, esperamos umas duas horas que era o tempo que o pessoal abriria uma clareira, aí voltamos lá, o pessoal foi, trouxe ele. Aí, o helicóptero desceu estava perto do vale, o helicóptero só encostou o esqui, né? Aí botamos o cara dentro e trouxemos. Bicho! Esse cara, ele Pilha Fraca, porque ele era magro, tu imagina como é que esse cara estava. Estava só o osso. E não tinha espaço pra mosquito picar. E acredita que esse cara não pegou nenhuma doença, época de garimpo ele não pegou malária.

 

P/2 – Ele não comeu nada?

 

R –Nos três primeiros dias ele comeu uxi, que é um fruto que tem aqui que é rico em proteína. Ele comeu uns três dias. Engraçado, impressionante, ele entregou a alma a Deus, né? Ele tinha consciência de que ele ia ser achado. Aí, ele guardou uns três uxis no bolso pra dar pra esposa de um amigo nosso, administrador, ele trouxe pra dar pra ela. E sabe como foi, porque ele se salvou? Ele estava com uma bota de borracha e estava com chaveiro daqueles que é um isqueiro, uma bolsinha de couro com um isqueiro e umas chaves. Aí, o que ele fez? Ele chegou numa pedra, fez uma lâmina com uma das chave, cortava um pedaço da bota e fazia o fogo com o isqueiro. E, ele só se salvou porque nós, eu não consegui fazer o sobrevôo de manhã. E deu na telha, deu um estalo, que eu tinha que voltar naquele local, já tinha passado por cima dele. E foi justamente na hora que ele passou pra fazer o fogo que a gente achou. O cara no meio da floresta de quarenta, cinquenta metros de altura, não ia achar de jeito nenhum se ele não tivesse feito o fogo. Esse é o Pilha Fraca. Foi uma das maiores emoções que eu tive na minha vida. Uma foi quando eu passei no vestibular e outra foi quando eu achei esse cara. E conseguimos tirar o cara vivo de lá.

 

P/1 – Ele está aonde? Está aqui ainda ou não? 

 

R – Ele está em Belém. Mas não está mais trabalhando. Ficou um tempo depois... O outro cara, fato, foi de índio, né? Nós íamos fazer um vídeo de educação para qualidade. Quando começou esse negócio de qualidade total, então, a gente ia fazer um vídeo mostrando a educação no colégio e tal. E tinha o índio, a gente coloca também a educação indígena. Aí, fomos pra lá. E, eles prepararam a festa da nominação, que é a festa do (Bepi?). E nessa festa do (Bepi?) eles dão uma demonstração de força, eles carregam uma árvore de babaçu inteirinha. Corta no tronco, tira a copa. Uma árvore desse diâmetro, sessenta índios, bota aquele negócio no ombro e carrega. Aí, fomos pra lá. A cerimônia, depois deles dançarem, aí o cacique passa dente de aruanã, que é um peixe, parente do pirarucu, passa na perna deles, o sangue chega escorre. Dançando ainda. Já pensou, o cara suado ainda! Para, aí o cacique levanta, geralmente eles estão de bermuda ou calção, aí passa aquele dente dos dois lados e sangra. Aí, tem uma hora que é a hora de buscar a tora, né? Aí, o cacique, o cacique do cerimonial vem com um machado, com mais um guerreiro ali dançando e tal, aí para na frente dos guerreiro e mostra, apresenta o machado. Aí, saem três guerreiro e vão para o mato pra cortar... Isso todo tempo dançando. Aí, depois eles voltam com uma folha do babaçu, mas só com o pecíolo, eles tiram aquele folhio, fica só aquela parte de cima, fica só isso aqui assim. Aí, ele vem e apresenta o pecíolo. Pela apresentação, pelo tamanho do pecíolo os guerreiros já imaginam o tamanho da... aí, eles dançando “Uhhh!” Aí, sai pra lá, né? Aí, nós fomos: “Bom os índios agora vão buscar a tora.” Nós fomos para lá. Aí fomos lá para a beira do Cateté. Lá na beira do Cateté eu coletei uma orquídea, um epidendrum, que a gente estava montando um orquidário aqui: “Eu vou levar.” Aí, como eles demoraram a gente estava indo embora. Estava a enfermeira e tal, a gente estava indo embora. Aí, lá eles. Quando chegaram perto aí eu peguei a orquídea e dei para a enfermeira porque eu ia voltar pra entrar na festa. Aí, um dos guerreiros antigos falou: “Isso aí atrai mecarom.” Mecarom é mau espírito. Aí eu falei: “Nada, guarda aí, guarda aí, deixa aí que eu vou levar.” A orquídea era minha, eu que coletei. Aí voltamos pra lá. Aí começa. O pajé chega, sopra, pega o cigarro, né? Aí sopra, tal, e benze fala lá e tal, daí os guerreiros começam pra levantar. Aí, levanta, não consegue, baixa... E, aí o, não sei se foi o Bemoti ou o Botiê, pra eu ir lá. Aí eu fui, aí fiquei. Aí, levanta, eles colocaram no ombro. Eu crente que eles iam conseguir levar, de repente eles largaram a tora. Caiu em cima do meu pé. Lá no meio do mato. E foi a minha sorte que foi no meio do mato porque se fosse num local mais firme teria esmigalhado meu pé. Afundou na terra. Aí, quando eu olhei para o pé. O pé estava assim ó. Aquele negócio doendo pra caramba, e o pior é que eu tive que dar uma de macho porque o pessoal estava pra filmar a festa e a parte mais bonita da festa era transportar aquela tora até a aldeia. Aí, eu falei pra ele: "Olha, vou..." Uma índia já veio, já queria passar dente de piranha porque começa a inchar a inchar ela passa dente de piranha pra sair o sangue ruim. O pajé veio e começou a soprar a fumaça. Como tinha uma pick-up, a gente tinha recuperado a estrada, tinha uma pick-up lá. Aí me levou lá pra pista de pouso, tinha um avião que tinha ido pra lá pra levar coisa por causa da festa, tal. Aí, eu ainda fui pra Tucumã para o avião reabastecer pra me trazer pra cá. Aí a gente comunicou o pessoal: "Vai alguém para o aeroporto que está indo alguém machucado." O pessoal crente que era índio, não sei o quê aí chega eu todo pintado no aeroporto. Me botaram na cadeira de roda, me levaram lá pra... Aqui, ó, tem platina aqui, que caiu aqui em cima, tem platina aqui, e como enterrou no chão, fraturou esse maléolo da tíbia também. Aqui tem pino pra todo lado. Agora, engraçado, duas coisas, né? Eu reforcei o mito da orquídea, que orquídea traz mecarom, como é que eu vou dizer pra eles que não tem nada a ver, que quem tira aquela orquídea não tem nada, e outra é introduzir uma forma de prevenção de acidente. Porque antes eles carregavam no ombro, como aquele negócio caiu no meu pé, eles pegaram, amarraram um monte de pau atravessado na tora, e levaram de lado. Um monte de índio uns de um lado outros do outro, levaram a tora até lá, tocaram fogo na tora, se vingaram da tora como se fosse um inimigo que tivesse machucado um amigo. Eles têm uma forma de demonstrar os sentimentos. Elas cortam a cabeça, as índias. É uma forma de auto flagelo, pega o facão e fica cortando a cabeça. Teve índia que se cortou toda, triste porque eu tinha me machucado lá. E é assim, né? Num caso desses eles são meus amigos, mas quando eu nego alguma coisa pra eles eu sou inimigo. E fica essa relação.

 

P/1 – O que eles pedem?

 

R – Pedem tudo. Nessa época eles queriam avião, queriam um monte de coisa. Eles estavam negociando com madeireiro. Já viu! Madeireiro corrompe mesmo, bota dinheiro. Os outros caiapós que estavam com garimpo lá no Cumaru e vendendo madeira diziam para o Xikrin que ele era pobre. Tinha muito mogno na área deles. Ainda tem muito mogno. Aí eles ficavam chamando de pobre que era para o Xikrin vender madeira. Tanto que eles venderam madeira, o madeireiro deu um avião pra eles, esse avião ficou lá, sem andar, porque depois não tinha combustível, não tinha nada, mas ficou como símbolo da riqueza deles: “Agora nós somos ricos. Temos um avião." Porque o Caiapó tinha. A gente vem fazendo esse trabalho em parceria com várias entidades. Uma entidade importante nessa parceria é o Instituto Sócio Ambiental de São Paulo, que vem há dez anos trabalhando os índios pra eles não venderem madeira. E elaboraram esse plano de manejo, com recurso da Vale, recurso que eles conseguiram do Pró-Manejo, de outras entidades. A ideia é deles fazerem a exploração racional da floresta, quer dizer, você pode fazer a exploração da madeira desde que você não tire tudo. Você divide a área a ser manejada, que são 40 mil hectares e você explora um lote a cada ano, né? Você tira só as árvores que estão num diâmetro comercial. As menores você deixa. Então, daqui há vinte anos, trinta anos quando você volta essa que estava num diâmetro subcomercial está no diâmetro comercial, e tem outras já. Aí, você pode fazer a exploração eternamente. Se fizer bem feito você pode fazer isso de forma sustentada. Quer dizer, o tempo você pode explorar, desde que faça a coisa certa. Isso é uma forma de buscar a auto-suficiência deles, né? Montar negócios pra que eles possam ter o dinheiro deles e não fiquem dependendo tanto nem da Vale, nem de ninguém. Esse é o objetivo da Vale, buscar a auto-suficiência deles sem interferir tanto na cultura deles. Pelo menos preservando as manifestações culturais. O resto muda. A alimentação muda, muda um monte de coisa. Mas pelo menos, se conseguir preservar a língua, o idioma deles, as manifestações culturais, o artesanato, as danças. Já conseguimos atingir o objetivo. 

 

P/1 – Como é a relação do povo aqui do núcleo com os índios? Como é essa relação?

 

R – Hoje, uma grande parte da população já vê índio como gente, né? Poucos, só os que chegam recente, ainda vê "índios". Os outros não. Já vê índio como gente. Vai lá pinta, aprecia o artesanato deles. Uma fonte das índias quando vêm aqui é ficar pintando os desenhos delas, aí é um real, dois reais, depende do tamanho do desenho. Elas faturam, o pessoal vê numa boa. Ainda estranham o cheiro deles porque o pessoal fala que o índio fede. E, o índio fala que nós é que fedemos. Que o nosso cheiro é diferente pra eles. Aquele cheiro forte dele é por causa do óleo de babaçu que eles passam. O cosmético deles é óleo de babaçu. Eles passam no cabelo, passam na pele. É um hidratante, sei lá, um protetor contra inseto também. A pintura eles fazem principalmente com o jenipapo. Uma resina, uma nódoa do jenipapo com carvão, eles passam com carvão que é para aparecer na hora. Depois, quando toma banho, quase desaparece, depois, quando pega sol fica preto de novo. O vermelho é urucum que eles usam. O urucum eles misturam com óleo de babaçu. Pra poder colar na pele, não sair com... O urucum sai com água e sabão, o urucum sai. O jenipapo só depois de 15 dias é que vai sair. Então, a relação hoje já é uma relação quase, quase normal. Ainda é uma cultura completamente diferente. Eles vêm aí, ficam dormindo ali na feirinha, ali naqueles boxes da feira de hortifruti, vão e dormem lá. Tem o alojamento. Dorme no chão, pega papelão, dorme numa boa porque eles passaram a vida toda dormindo em cima de uma esteira que eles fazem de palha. Bota no chão e dorme. Então, pra eles dormir ali. Tem água, tem uma pia, tem água pra beber, tem água pra banhar as crianças. É assim. Outra relação nossa nessa área de meio ambiente é com a comunidade não índia. O pessoal chama os "brancos", né? Desde o início da implantação do projeto que foi feito toda aquela parte de infra-estrutura lá de Parauapebas, com a parte de arruamento, eletrificação, sistema de água, sistema de esgoto, hospital, escola, delegacia, quartel da polícia. Foi feito pra ter uma estrutura mínima pra evitar aquela favela sem estrutura nenhuma. A Vale fez isso aí e vem desenvolvendo... Nessa época essa infra estrutura seria pra cinco até pra dez mil pessoas. Só que o ciclo do ouro atropelou, né? E, hoje Parauapebas, na cidade tem 65 mil habitantes. Em função disso a Vale vem continuando o apoio. A Vale depois fez o quartel da Polícia Militar, fez o prédio da Prefeitura, fez mais uma escola lá, fez um prédio que hoje é a sede da Fundação Educacional, intermediou um financiamento junto ao Banco Mundial e implantou um sistema de saneamento. Hoje toda a população de Parauapebas tem condições de ter água tratada. Só ainda não tem quem ainda não se ligou. 35% da população tem esgoto tratado. Tem quatro lagoas de tratamento de esgoto. Ano passado nós concluímos a obra de saneamento. Ano passado iniciou um projeto Escola que Vale, pela Fundação Vale do Rio Doce, que é o braço social da Vale. Por intermédio da Fundação Zoobotânica de Carajás implantaram duas creches em Parauapebas, estão sendo operadas pela Fundação. Atendimento classe A . A Vale disponibilizou ainda pra prefeitura 2 milhões e 900 mil reais pra elaboração do Plano Diretor que foi entregue agora dia 24, custou 400 mil reais e o restante, dois milhões e quinhentos, é para o sistema de drenagem pluvial, que foi feito. Pra poder criar as condições pra ampliar a rede esgoto. Então, a relação, principalmente com Parauapebas, é uma relação... Tanto que, na visita agora do governador, tinha um outdoor lá: "Prefeitura de Parauapebas, Deputado Faisal e Vale do Rio Doce, juntos por Parauapebas." Quer dizer, hoje a população de Parauapebas reconhece que a Vale é importante pra Parauapebas. E realmente é. Cinquenta por cento da população de Parauapebas vive em função da Vale. Nem que seja aquele cara que planta hortaliça pra vender. Mas Parauapebas existe porque o Projeto Carajás existe, então, a maioria vive em função.

 

P/1 – Mas a população de Parauapebas tem demandas em relação a Vale? Ela cobra da Vale? Pede coisas?

 

R – Não. A população, alguns pedem pra visitar, alguns vêm tentar procurar emprego, mas tem a bolsa de emprego, então o cara vai lá. Pedem pra poder passar por aqui pra ir pra área agrícola. E a gente flexibilizou. Aquela portaria era um problema. A gente flexibilizou e como Parauapebas hoje é até como tem o slogan: “Uma cidade gostosa de viver”. Hoje já não tem mais aquela: "Carajás é que é bonito e a nossa cidade não presta." Não, é o contrário. Parauapebas é uma cidade bonita e é onde tem mais festa, onde tem mais lazer, pelo menos em termos de festa, e o pessoal de Carajás desce pra lá. Frequentemente está tendo shows, tal, o pessoal daqui desce pra ir curtir lá, principalmente os solteiros. Vão para o Peba. Mas a Vale deu apoio pra Curionópolis, teve um microssistema de abastecimento de água que a Vale colaborou. A Vale apoiou um centro de educação de criança e adolescente lá, e vários outros. Eldorado, a Vale deu material pra construir uma escola, comprou uma ambulância. Água Azul do Norte, se emancipou de Parauapebas, a Vale fez a sede da prefeitura. Marabá, aquela ponte rodo ferroviária era pra ser só ferroviária, a Vale fez a parte rodo e facilitou o acesso, o trânsito pra Marabá. Fez uma escola, construiu o prédio da APAE, lá. Deu apoio à Casa da Criança Santa Rosa, fez toda a reestruturação física. É um trabalho interessante que trabalha o menor carente de Marabá. Apoiou a implantação de um centro de informática que é ligado à essa Casa da Criança Santa Rosa e várias outras ações que a Vale desenvolveu. Apoio pra construção de ponte. De outras pontes. A Vale doa trilho. Uma das partes mais caras dessas pontes são a ferragem. A Vale dá o trilho então eles fazem toda a estrutura  do trilho e faz o leito de concreto. A ponte sai muito mais barata do que sairia se a Vale não desse esse apoio. 

 

P/1 – Venâncio, eu queria perguntar como é que é o seu cotidiano hoje, como é o seu dia e dia?

 

R – Meu cotidiano é a área de meio ambiente, né? Toda parte de controle ambiental e outros projetos ambientais, como a elaboração do plano diretor da Floresta Nacional de Carajás e da Floresta Nacional de Tapirapé-Aquiri, o Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Agrícola na Apa, também, eu que coordeno. Essa relação com as comunidades, tanto índia como a sociedade envolvente, Parauapebas, Curionópolis, Eldorado. Eu faço essa intermediação. E outros projetos que surjam. A gente está, pra esse ano, a gente deve fazer o projeto do aterro sanitário de Parauapebas e deve fazer um parceria com a prefeitura pra melhorar um centro de produção de mudas que eles têm lá. Deve ser um projeto em parceria com a Universidade do Federal do Pará, Prefeitura e a Cooperativa dos Pequenos produtores. Então, é área de meio ambiente em si, controle ambiental, monitoramento ambiental e outros projetos ligados a área ambiental e social.

 

P/1 – E como é o seu cotidiano em casa? Você é casado? Quantos filhos?

 

R – Em casa, em casa... Tem dois filhos. Quando eu trouxe a família pra cá, em janeiro de 1991, a mais velha estava com nove anos, hoje está com dezenovo. O outro estava com oito anos, está com dezoito, a mais nova estava com cinco anos, está com quinze. Os dois mais velhos já estão morando em Belém, estão estudando, fazendo vestibular. A mais nova está aqui, ela começou o segundo grau esse ano, deve fazer o primeiro ano e o segundo o ano que vem, o terceiro já vai fazer em Belém. Aí, vai ficar só eu e a dona Encrenca, Dona Razão, que vai ficar... Hoje ela passa um tempo aqui, vai, passa uns dias lá com os moleques pra dar apoio e a hora que for a outra vai ser mais pra lá do que pra cá, né? Eu devo ficar quase como um maior abandonado aqui. Mas pedir pra uma mãe pra ela escolher entre os filhos e o marido, certamente ela vai escolher os filhos. Nem que seja agora, depois, né? Eternamente, a mãe vai sempre escolher o filho. Marido, se sobrar tempo, tudo bem, ela fica. Essa é a realidade, eu não vou querer dar uma de machista: "Não, tem que ficar comigo." Eu só me preparo psicologicamente: “Olha, vai ter um dia que você vai ficar sozinha, tá? E, aquele negócio, eu também preciso, então, vamos dar uma dividida aí porque depois vamos ficar só nós dois. Aqui em Carajás, em Belém, sei lá, vai ficar só nós dois. A hora que eles casarem, tal, vão embora e eventualmente vão visitar a gente." Só alertando. Então, hoje ela já entende isso. Isso deu uma crise, né? Então, hoje ela já entende isso. Já aceita mais.

 

P/2 – Qual o nome dela?

 

R – Zizinha Luzia Alves de Venâncio. Prefere que chame de Ziza, por causa do Zizinha. Zizinha era da avó dela. Ela não perdoa a mãe dela por ter colocado o nome da avó. E o pior é que ia colocar assim: Zizinha Procópia. Já pensou se coloca esse nome? Aí que ela ia morrer. E a gente está aí. Eu fico feliz, foi uma passagem boa da minha vida aqui. Quer dizer, consegui praticamente criar os meus filhos aqui, num ambiente sadio, com segurança, um clima legal, em condições de alimentar bem, educar bem. Tanto que agora eles estão lá, estão sentindo essa, a distância, mas o moleque já encara numa boa. A que foi esse ano, a Lélia, apesar de ser mais velha que ele, foi esse ano pra lá, e menina sempre estranha mais a distância da mãe, mas foi. São dez anos de Carajás que fizeram muito bem a mim e à família.

 

P/1 – Eles gostam de Carajás, os filhos?

 

R – Tanto gostam de Carajás que carnaval, semana santa, esses feriados prolongados, vêm pra cá. Mesmo em julho se não tiver aula, eles vêm embora pra cá. Quer dizer, eu quero ir de férias e eles querem vir pra cá porque os outros amigos vêm pra cá também porque o pessoal sempre promove aqui tem o Carna Serra, é o Verão Verde, sempre tem evento em julho pra quem não pode sair, que o pai não pode sair de férias. Aí, fica muito mais animado do que lá em Belém. Aí eles vêm pra cá. Junta a moçada aqui e vira uma festa. A casa lá fica uma bagunça. Eles vão chegam uma da madrugada, duas, vão fazer comida. E aí fica uma zona. Mas é legal, eles continuam curtindo. Quem sai daqui passa a ter muita saudades de Carajás.

 

P/2 – Venâncio, quais são teus sonhos, teus projetos?

 

R – Olha, meu sonho, o principal é ver os filhos encaminhados pelo menos. Passar no vestibular e conseguir fazer um bom curso. Esse é meu sonho. O meu outro sonho é quando terminar o meu tempo de Carajás, eu quero ir lá pra Marapanim, beira da praia, continuar trabalhando, continuar fazendo, mas não ser empregado mais de ninguém, porque ser empregado é sempre um problema. Você depender de emprego, apesar de a Vale ser uma empresa muito boa, mas é empregado. Empregado é empregado em qualquer canto, pode ser a melhor empresa mas você tem que estar preocupado com o orçamento, com o custeio, não sei o que e o dinheiro não é seu você tem que estar prestando conta para os outros. É normal num emprego mas não é uma coisa agradável. A maioria trabalha porque precisa, é empregado porque precisa. Então, pelo menos terminar meu tempo, quando eu tiver dado a minha contribuição aqui, que eu vá e monte o meu negócio lá, em Marapanim, né? Que passa por comércio de pescado, de marisco. Eu tenho um projeto de turismo ecológico na cabeça. Levar nego pra lá pra pesca esportiva, fotografar animais no mangal, levar nego pra passear no mangal, ir ver o caboclo tirar caranguejo. Eu gosto, o caboclo gosta, você imagina o cara que está lá fora ir numa área que o mangal está completamente preservado, que ele possa ir passear, possa pescar. Então, o meu pensamento é montar um negócio ligado a isso, comércio de pescado, tudo do mar. Comércio do mar, turismo do mar. Tudo ligado ao mar. O meu sonho é terminar minha vida lá por Marapanim.

 

P/1 – Venâncio, vou fazer a última pergunta, o que é que você achou de participar do Projeto Memória da Vale, ter dado o seu depoimento?

 

R – Olha, outra também, quando eu for pra Marapanim, eu falo sempre a minha vontade é morrer como professor, então, são as histórias que eu vou contar para os meus alunos e pra mim é um prazer estar relembrando todo esse passado. A história, eu fico feliz em ter participado da história. Eu não li em livros o que aconteceu, eu vivi a história. Então, pra mim eu tenho que escrever um livro porque vai chegar um tempo que eu não vou poder contar essa história. Então, eu tenho que colocar num livro para que os meus filhos, os meus netos e outras pessoas possam saber como é que foi isso aqui. Daqui há cinquenta anos, daqui a cem anos, nego não vai nem imaginar como é que isso aqui foi descoberto, o que aconteceu por aqui. Então, pra mim é um prazer saber que mesmo que eu não consiga escrever meu livro, toda essa história que eu vivi já está registrada aí. E, que as outras pessoas consigam assistir essa fita, né? E, eu espero que eu tenha conseguido transmitir essa história de uma forma agradável, que as pessoas consigam assistir, rir, me chamar de mentiroso, mas que eu consiga fazer a alegria de alguém e levar esse conhecimento porque isso é história do Brasil.

 

P/1 – Muito obrigado, foi ótimo.

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