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História

Um punk da periferia

História de: Cleber Morgado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/06/2020

Sinopse

Cleber conta sobre sua infância e sobre as condições precárias do Jardim Sônia Maria, em Mauá, onde mora. Fala sobre sua participação no movimento punk nos anos 80. Conta como se tornou tatuador e sobre seu estúdio. É casado e tem filhos. 

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História completa

 

P/1 – Cleber, primeiramente a gente agradece por você tirar um tempinho para conversar com a gente. Para deixar registrado, queria que você falasse o seu nome completo, onde e quando você nasceu.

 

R – Certo. Meu nome é Cleber Morgado. Eu nasci no dia primeiro de abril de 1974. Tenho 38 anos de idade. Nasci em São Bernardo do Campo e moro no [Jardim] Sônia Maria há 38 anos.

 

P/1 – Cleber, qual é o nome dos seus pais?

 

R – É Osvaldo e Maria.

 

P/1 – E dos seus avós?

 

R – Meus avós João, Maria (risos) e Júlia.

 

P/1 – Como é a história dessa família? Como eles vieram parar aqui no Sônia?

 

R – Bom, a historia da minha família: meu pai é morador aqui desde 60. Foi um dos primeiros moradores do bairro. Viemos do interior de São Paulo. Meu pai é de Urupês, interior de São Paulo, próximo a São José do Rio Preto, região de Catanduva. Minha mãe veio do Nordeste, mas até então morou no interior de São Paulo também, em Diamantina, próximo a Tupã, essa região. 

 

P/1 – E você sabe por que eles escolheram aqui? Como foi essa história?

 

R – [Escolheram] a região do ABC pelo… Até mesmo pelo polo industrial, as empresas que tinha lá na época. Vieram para cá geralmente… Dei uma engasgada. (risos) 

 

P/1 – Pode falar.

 

R – Eles vieram para cá devido a isso mesmo, à facilidade de emprego na época. A situação era mais precária no interior naquela época, então vieram pela tentativa de sustento, de um futuro melhor. 

 

P/1 – E qual é a atividade deles?

 

R – Meu pai era operário. Na verdade, ele trabalhava… Ele trabalhou muito tempo na indústria têxtil, que era o ROD, na época. Ele trabalhou nessa indústria na época. E a minha mãe era doméstica, a minha mãe trabalhava em casa.

 

P/1 – E você tem irmãos, Cleber?

 

R – Tenho irmãos, sim.

 

P/1 – Quantos irmãos?

 

R – Eu tenho dois irmãos. Tenho uma irmã que hoje está com 45 anos e tenho um irmão de 42. Meu irmão, inclusive, é tatuador também. Minha irmã tem algumas profissões, é patologista clínica e hoje ela não exerce mais a função, mas é formada nisso.

 

P/1 – Você sabe como os seus pais se conheceram? Qual é a história deles, [como foi] o casamento deles?

 

R – Putz, cara, eu acho que eles se conheceram no mato, porque era interior na época. Eas eu não nunca tive muito contato assim, meu, em relação a esse assunto, mas creio eu que foi comum, como a gente mesmo. Vizinho, próximo, né? Bailes da época, como eles diziam. 

A gente nunca teve muito assunto relacionado à esse tipo de coisa, até mesmo porque na época a gente não se conversava muito a respeito disso. Tinha certo respeito, certo limite para se perguntar a respeito disso. Não tinha liberdade para isso. 

 

P/1 – Você chegou a conhecer seus avós?

 

R – Na verdade, eu conheci só a minha avó, a mãe da minha mãe. Os avós do lado paterno eu não conheci nenhum. Não tive contato com eles. 

 

P/1 – E como era a sua avó?

 

R – Super gente boa. Até a parte que eu lembro - eu era bem novo na época, quando ela veio a falecer - mas a gente lembra. Eu consigo lembrar até do gosto da comida, saca assim? Mas a gente não teve tanto tempo de contato, porque já na minha adolescência, quando eu comecei a crescer, que comecei a entender algumas coisas, ela veio a falecer, então não tive tanto contato, tanta aproximação. Naquela época, o pessoal do Nordeste tinha muito filho, então, pô, tinha uma porrada de neto. Não dava para dar atenção para todos, era meio complicado.

 

P/1 – E tinha alguma comida que era a sua preferida?

 

R – Putz, cara, tem uma porrada dessas.

 

P/1 – Que ela fazia...

 

R – Não, meu básico é arroz e feijão, saca? Não tenho muito lance de frescura, não. Eu não gosto de coisa muito cheia de frescura. Mas eu sinto o gosto do frango que ela fazia. Embora eu não goste muito de frango, curtia o frango da coroa. (risos) Achava à pampa.

 

P/1 – E agora, Cleber, conte para a gente um pouquinho da sua infância aqui no bairro. Do que você gostava de brincar?

 

R – Meu, minha infância foi muito louca, cara, principalmente na época. Porque aqui no bairro a gente era… Até hoje é bem precária a situação. A gente está bem, bem [no] subúrbio mesmo. Falta muita oportunidade para a criançada, até hoje; aqui a gente não tem uma infraestrutura legal. 

A gente está cercado pelo polo petroquímico e acho que eles estão em débito com o bairro. Não só eles, a prefeitura de Mauá também deixa a desejar bastante. A gente ficou muito tempo sem asfalto, sem iluminação pública, sem rede de esgoto. 

Na época, a gente tinha o que de diversão? A gente tinha os circos que vinham para cá, que a gente se divertia na época, porque era o único meio que a gente tinha de pagar barato - era custo baixo, na verdade. Ou então, às vezes, a gente roubava até gato dos vizinhos para vender para os caras darem para o leão comer e entrava de graça, ia vender pirulito no circo. Para a gente, era a forma de cultura que a gente tinha. 

O futebol de rua, a travinha de pedra que a gente colocava para jogar bola, o estilingue, pega-pega, polícia e ladrão, essas coisas assim. Não tinha uma quadra para a gente poder jogar bola. A gente ficou uma boa época sem asfalto também, então a gente jogava no terrão. E tinha os campinhos, os terrenos baldios que a gente fazia de campo. 

Uma vez, a gente criou até uma piscina num terreno baldio que tinha. Só que aí, infelizmente, o pai de um brother nosso… Cara, a gente ficou uns dez dia cavando a cova pra fazer a piscina...

 

P/1 – Como vocês fizeram a piscina?

 

R – Cavando, cara, assim, tipo: “Ah, vamos fazer uma piscina?” “Vamos.” Era vontade de ter um clube. A gente nunca tinha ido num clube, aí a gente cavou esse buraco e ficou a quase um metro e meio de profundidade: “Pô, na hora que chover vai encher esse buraco e a gente faz a piscina.” 

O pai desse brother nosso veio, achou esse buraco que a gente tinha feito e jogou entulho dentro. Ficou superfeliz que tinha um buraco para ele poder jogar entulho. Aí acabou a piscina, nem rolou essa piscina, saca? Tesourou tudo. 

Mas o circo para a gente sempre foi… Ah, meu, putz, era muito louco, cara. A gente pirava, porque ali a gente se encontrava. Os amigos, entendeu? Era uma forma de você camuflar aquela infelicidade que você tinha de não ter uma estrutura legal. Ali você encontrava um monte de coisa legal, meu, até pelas piadas, aqueles bodes fedidos do circo, cachorro punk. Foi muito louco, cara.

 

P/1 – O que você mais gostava no circo, assim, qual era o seu número preferido?

 

R – Olha, o que eu mais gostava no circo, na verdade, era o cheiro do circo. Putz, era muito louco. O barato era legal, cara, é marcante o negócio. Parece loucura, mas eu achava legal a parte do palhaço também, porque é um trabalho. Eu penso assim: como tatuador, acho que um dos trabalhos mais difíceis hoje é você tentar fazer uma pessoa sorrir. Isso é difícil pra caramba, então, eu valorizo pra caramba essa área do palhaço, saca? Eu acho muito louco, porque o cara chega num ambiente e ele traz todos os problemas dele de casa, todos os problemas sociais que ele vê, as dificuldades; ele tem que esquecer todos os problemas dele e passar para você felicidade, independente do que ele sinta. Ele tem que tentar fazer você sorrir, de qualquer forma. Eu acho muito louco. Eu gostava disso, porque através disso eu também me via ali naquele papel, era aquilo que eu achava legal.

 

P/1 – E das brincadeiras na rua, como o futebol, essas coisas, qual era a que você mais gostava?

 

R – Meu, meu forte sempre foi carrinho de rolimã, cara. Eu pirava, meu. O bicho pirava. Tanto que eu andei de carrinho de rolimã até meus 28 anos de idade, praticamente. Não ando mais porque não tenho mais condições de fazer isso, mas eu andei até meus 28 anos de idade. Já tinha puxado por moto e tudo. Começou com carrinho de rolimã normal, mas depois a gente foi ficando mais radical, mais velho e, meu, era loucura total, cara, isso era muito louco. Até hoje eu sinto vontade disso. Acho bem legal.

 

P/1 – Voltando ao circo um pouquinho, como é essa história do palhaço que avisou que ia chover?

 

R – Putz, cara, foi muito louco isso aí. (risos) A gente foi pro circo e deu mó temporal. Estava legal o espetáculo, meu pai do lado, a gente dando risada; de repente, cara, do nada tinha umas bailarinas feias pra caramba. As minas usavam aqueles maiozão da época, feias pra caramba, mas a gente achava as minas gostosonas. 

O que aconteceu? Tem outra história também de uma bailarina do circo… Mas aí, saca só, o palhaço chegou no palco e anunciou para todo mundo evacuar a área, porque ia vir um tremendo temporal. O palhaço deu a notícia, todo mundo continuou rachando o bico, dando risada. E o cara: “Não, meu, é sério, sai fora todo mundo.”  E aí deu temporal, porque era descampado; na época, não tinha tantas casas. A lona do circo voou longe, chuva de pedra… Putz, foi louco o negócio. 

E a bailarina, cara, foi o seguinte: tinha uma bailarina que era a mina mais gostosa do circo. Todo mundo queria namorar essa mina e a gente chegava no circo só para ver essa bailarina. Um dia, nós descobrimos que essa mina tomava banho num busão do circo, daí a gente foi. Moleques, fomos para ver a mina tomar um banho, cara, só que essa mina não tinha uma perna. 

Na época, para a gente foi muito louco, foi uma decepção até, mas depois de certo tempo comecei a pensar: “Porra, o esforço daquela pessoa.” A gente imaginava que era bailarina e ela tinha um problema que através do circo… O circo [foi] o único ponto de ajuda que ela teve, que acolheu ela para poder mostrar o trabalho que ela gostava. Isso marcou bastante também, na época. Até por uma brincadeira de criança, uma bobeira, mas até nisso o circo influenciou, pra você ver como era.

 

P/1 – E Cleber, você fazia os seus carrinhos de rolimã?

 

R – Fazia meus carrinhos de rolimã. Fabricava meus carrinhos todinhos. Eu tenho o meu carrinho até hoje, cara, está guardado.

 

P/1 – Teve algum que você fez que era especial?

 

R – Meu, tenho esse especial até hoje. Eu guardei ele de recordação. Não vendo, não troco, não dou.

 

P/1 – E outras coisas - andar de skate, bike?

 

R – Meu, eu andei até de skate, de bicicleta também. Bastante. Era o básico também, né, cara? Bicicleta era meio difícil, porque a gente só ganhava bicicleta se passasse de ano. Eu já não gostava muito de escola, então geralmente demorava para ganhar uma bicicleta. 

Eu nunca gostei muito de escola. Nunca achei que fosse me influenciar em muita coisa, tanto que hoje eu tenho a minha profissão. Achava algumas coisas da escola meio erradas, não curtia muito, muita coisa. Achava muita coisa errada, sendo que tinha muitas coisas para serem passadas na escola. 

Não foi por falta de conhecimento nem nada, não, era porque eu não gostava mesmo. Achava que era uma prisão aquilo e acho que escola não deve ser isso. Eles te obrigam a fazer qualquer coisa, e qualquer coisa que você é obrigado [a] fazer eu não aceito, eu não gosto, saca? Tanto que eu fiz parte do movimento punk por muito tempo, cara. 

Eu comecei a andar no movimento com doze anos de idade, praticamente. Hoje eu não ando mais de visual, até mesmo porque tem muita coisa que é meio mentirosa também, que influencia para o outro lado, mas eu gostava bastante. Eu andei bastante tempo no movimento punk, lance de política, de anarquismo, essas coisas. Mas depois você vai descobrindo que tem muita coisa errada também, que não é bem explicado.

 

P/1 – Eu vou querer saber bastante mais dessa parte do movimento punk, mas antes eu queria pedir para você contar mais uma história de uma dessas molecagens de vocês, quando vocês eram pequenos.

 

R – Putz, cara, aqui do Sônia Maria. Oh, o Sônia Maria foi celeiro. Sem estrutura tinha muita cultura, entendeu? A escola de samba, mesmo; eu não gosto de samba, sabe? Tem minha parte eclética também de algumas sonoridades, de música, mas eu vejo o trabalho da escola de samba um puta trabalho legal. Hoje está bem mais estruturado. 

O pessoal do Sônia Maria teve mais aceitação da escola de samba porque trouxe vários prêmios para o bairro. O bairro ficou falado fora, então isso para a gente é importante porque a gente não tem esse acesso à mídia, não tem nada, mas através disso a gente conseguiu ser mais aparente na mídia, nos jornais. Essa parte ajudou bastante a escola de samba. 

A gente tem a Sociedade Amigo de Bairro aqui, mas nunca funcionou. Funcionou numa certa época, mas depois a gente não teve a felicidade disso funcionar. O posto de saúde que a gente tem aqui também não funciona até por interesse pessoal de política e por falta de peito dos próprios moradores. Eu acho que se a gente brigasse mais, se a gente se unisse mais, conseguiria; a gente conseguiria reformular toda essa estrutura que a gente tem, porque a gente tem uma estrutura legal do posto de saúde, mas não consegue botar para funcionar porque o interesse pessoal vem na frente. As pessoas que entram para trabalhar não são formadas e a gente fica a desejar na área da saúde aqui, tendo e não podendo usar. Isso é o principal problema hoje aqui no bairro. 

Não temos um caixa eletrônico, não temos uma agência bancária, temos um comércio fraco aqui no bairro. O comércio daqui não é legal, tanto que a gente tem que pegar ônibus daqui para ir para Santo André ou ir para São Paulo, ou então a gente atravessa aqui o bairro vizinho para ir ao Parque São Rafael. Hoje o Parque São Rafael tem uma puta estrutura legal, tem um puta comércio legal. Mas por quê? A união dos próprios comerciantes também é importante. Se você se une, você consegue alguma coisa; se você não tem a união, você não vai conseguir nada. Cada um por si e Deus contra todos, não é verdade? A gente trabalha assim aqui.

Falta uma creche legal aqui no bairro. Uma sociedade [de] amigos de bairro que não funciona poderia dar espaço para uma creche, porque tem muitas mães que trabalham aqui no bairro, e a gente tem uma estrutura ferrada na Sociedade Amigos de Bairro, que não funciona para nada. Na verdade, ninguém consegue manter. Nem a parte cultural, nem a parte de trabalho social, ela não funciona para nada. Ela simplesmente tem um prédio que está abandonado e as pessoas usufruem disso para uso próprio. 

Tem pessoas que moram na Sociedade Amigos de Bairro. Eu sou contra, cara, porque é o espaço que está fechado e que poderia estar sendo usando para poder tirar essa molecada da rua, tirar da droga. Não que a gente vá solucionar todo o problema, a gente não é capaz de fazer isso. O governo não é capaz de fazer isso. Mas [com] o povo unido, a força é bem maior que qualquer tipo de governo. O povo fazer a própria política, isso é bem importante, principalmente no bairro que você mora. E hoje, se você não consegue… 

Hoje eu vejo os candidatos que passam aqui no bairro, por exemplo; são candidatos que foram presidentes da Sociedade Amigos de Bairro e hoje são candidatos a vereador. Eu penso assim: se o cara não conseguiu ser presidente de uma Sociedade Amigos de Bairro, jamais ele vai conseguir ser um vereador. Ele jamais vai conseguir buscar algo de benefício para o povo do bairro. Ele não vai, cara, o interesse dele é um cargo na prefeitura. Isso é óbvio hoje em dia. E a gente vê porque eu sou morador antigo, conheço todo mundo. 

Os candidatos hoje no bairro, saca… Não gosto de política, eu voto nulo porque é uma forma de protesto, de protestar que eu sou contra tudo isso que está aí. Acho que se o povo se unisse, mas o cara quer votar no Tiririca, o cara quer votar no Batoré. Pô, que benefício que o Batoré fez? Nenhum. Falar de Mauá na Praça é Nossa só de vez em quando? Pô, não vejo benefício nisso. Enquanto isso, Zaira está destruído, os bairros vizinhos aqui estão todos acabados. Nova Mauá, Jardim Oratório, isso aqui é fácil de você ver. Qualquer cego vê isso. Se você pegar o seu carro e der um rolê de meia hora aqui no bairro você vai ver todas as coisas que falta aqui. 

Aí o que acontece? Tem uma data do ano que muda toda a percepção do cidadão aqui do Sônia Maria, que é a data do dia 25 de dezembro, o Natal, que é onde as pessoas hoje se encontram, tanto de bairros vizinhos como do Sônia Maria também. Todos se encontram numa casa toda iluminada que fica nessa rua, a Zequinha de Abreu. Todo ano é feito uma decoração naquela casa. Tem a ajuda de algumas indústrias - não sei se o polo ajuda, não tenho essa informação, mas eu sei que tem de alguns políticos e muita gente tem vontade de decorar a sua casa no Natal. Eu não gosto de Natal, nunca acreditei em Papai Noel, nunca gostei disso. Eu acho que isso é uma forma de comércio total, mas muita gente tem vontade. Por que só aquela casa tem o direito de ser decorada? Por que não a casa do fulano de tal, do Seu Zé, do Seu Mané, da Dona Maria? Por que não? Por que o polo não investe nisso também?

 

P/1 – E quando começou essa história da casa?

 

R – Ah, isso já vem de certo tempo.

 

P/1 – É antigo...

 

R – É, já vem de certo tempo. E aí o que acontece? Vem uma mídia, o Gugu vem na casa do Papai Noel, a Ana Hickmann vem na casa do Papai Noel. Isso camufla a outra parte do Sônia Maria. Só que o Papai Noel não vem trazer a cesta básica para o morador do Sônia Maria, o Papai Noel não vem trazer o brinquedo para a criança, nem fazer um carrinho de rolimã para a criança do Sônia Maria brincar. Ele não vem pegar a criança da mãe que vai trabalhar cedo para levar para a creche. E se viesse buscar também não ia ter uma creche para levar, então é complicada essa situação.

No dia 25 de dezembro está tudo iluminado, tudo bonito, tudo legal, só que hoje você passa naquela rua do polo petroquímico, a que desce e que dá acesso à Zequinha de Abreu, está tudo escuro. E é do lado da casa. A casa tem uma puta iluminação, mas a rua está escura. Aí você é assaltado, você corre o risco de um monte de coisa. De estupro mesmo, [principalmente] a mulherada que vai trabalhar de manhã. 

É bem complicado, porque hoje a gente tem acesso a vários bairros vizinhos, hoje a gente está praticamente dentro de uma bifurcação. O que existe? Tem uma saída para a Zona Leste, que é o Parque São Rafael, São Mateus. Uma saída para Santo André e Mauá. Nós estamos aqui, nesse miolo, e isso gera também o esquecimento. “Por que eu vou ajudar esse bairro se ele faz divisa com vários outros?” O terminal do Sônia Maria, algumas partes ali não podem ser ajudadas. Por quê? Porque tem a prefeitura de São Paulo do lado, tem a prefeitura de Santo André do outro, então fica aquele lance de briga. 

E a riqueza que a gente tem aqui, que é do polo petroquímico, que deve muito para a gente? O maior índice de câncer hoje, se você procurar aqui, de pessoas aqui do bairro, de família, está aqui no Sônia Maria. Problemas de tireoide, caramba a quatro, muita gente morreu de câncer aqui, cara. A gente não pode acusar que é devido a isso, eu não estou fazendo uma acusação, mas é muito estranho muita gente, de repente, morrer. De cada família, se você procurar aqui no Sônia Maria, pelo menos uma ou duas teve problema de câncer. E é legal até essa pesquisa, só que as pessoas, às vezes, moralizam isso. 

Ontem, aqui na região parecia dia. Era a poluição. A gente sofre com isso. O cheiro de… A gente sempre falava quando a gente era pivete: “Meu, o Sônia Maria é um esgoto do planeta”, porque a gente sentia o cheiro de enxofre no ar. 

 

P/1 – E como é que funcionava, vocês falaram que sabiam que ia chover. Conte para gente essa história.

 

R – Então, estava sol, de repente, saía aquele cheiro horrível. O Rio Tietê perde feio, cara. E aí o que acontecia? A molecada já ficava triste, porque já sabia que ia chover, porque soltava aquela química no ar. Falava: “, meu, vai chover para poder soltar aquele produto químico, ?” Soltavam na época de chuva. Como deu esse calor todo agora, ontem foi loucura total. A gente sofre bastante com isso,  bastante mesmo.

 

P/1 – Cleber, você falou um pouquinho da questão dos moradores. Na sua infância você lembra o envolvimento dos moradores, os vizinhos. Como era essa relação entre as pessoas aqui?

 

R – Meu, o Sônia Maria era um bairro… É um bairro rodeado, feito de moradores antigos. A maioria das famílias aqui tem certo tempo de moradia, é bem antiga mesmo. Depois veio uma divisão de Sônia e Silvia Maria, dois bairros dentro de um só, mas existe essa união de família, de conhecidos. Só que é bem precário, por quê? Por serem moradores mais antigos, as pessoas já estão com certa idade, geralmente já não estão mais na condição de correr atrás disso. A parte mais jovem, alguns se preocupam com outras coisas. 

Hoje o jovem, infelizmente, não se preocupa mais com essa parte social. Hoje se você tem, vai trocar o social pela diversão. As mínimas coisas, hoje… Por exemplo, a criança não vai mais ao circo. Você não vê uma criança jogar bolinha de gude, não vê um moleque rodar peão. Hoje você vê com um radinho. Nada contra funk, nem nada disso, cara, mas você vê o moleque com o radinho, mais preocupado com o funk, com a pornografia, do que com alguma coisa, algum benefício próprio para ele mesmo. Ele prefere ter um celular de última geração do que comer bem na casa dele. Se tiver só feijão na casa dele, ele come só feijão, mas ele tem que ter o celular de última geração. Ele tem que ter um tênis legal, entendeu? Ele tem. Mas eu não o culpo por isso, porque se a gente tivesse uma estrutura legal, se a gente tivesse um apoio, a gente poderia ter tudo isso, inclusive as coisas de mais benefício; seria uma boa alimentação, uma boa escola, uma creche legal, pelo menos um caixa eletrônico decente para poder usar, uma agência dos Correios que funcionasse - [temos], mas funciona meia boca. Você vai pagar a conta, não consegue; vai fazer alguma… Não consegue, entendeu? Você obtém informações através da internet, da televisão, mas quando você vai tentar fazer qualquer coisa tem aquela burocracia que você não consegue, é meio complicadão. É meio precário. 

 

P/1 – Cleber, você lembra [de] algum momento que os moradores organizavam festas, eventos, aqui no bairro?

 

R – Cara, tinha. Na época, existiam os bailes na Sociedade Amigos de Bairro, mas isso foi há certo tempo, bem antigamente mesmo, nos anos 80, mais ou menos. [No] final dos anos 70 para os anos 80 teve essa parte de baile na sede, vinham as equipes de som daquela época, então rolava os bailes na própria Sociedade Amigos de Bairro. Os bailes de carnaval que existiam eram as matinês, na própria Sociedade. Depois vieram as quermesses da Igreja Católica, mas nunca teve uma festa de rua, cara. Nunca existiu. Tinha as procissões que era a Semana Santa, quando os moradores se juntavam, faziam as procissões. Tinha um pessoal que se vestia de Cristo, tinha essas coisas. 

Pra gente tudo era festa, cara, qualquer tipo de coisa. Se você soltasse um rojão, a molecada saía pulando na rua, porque não tinha nada disso. Chegava época de Copa do Mundo a molecada ficava louca. Ficava loucona, porque eram as únicas diversões que tinha. 

Eu não me lembro mais de muita coisa para te falar. Nunca teve um trabalho social da prefeitura com a gente ou cultural, de trazer alguma coisa boa, animação para a gente. Artistas mesmo a gente via no circo. Porra, mas era artista da época, Waldick Soriano, tosco, Luiz Ricardo. Porra, meu, eu ia ao circo para ver o Luiz Ricardo. É brincadeira, cara? Ele é o cara que está vendendo Jequiti, saca? O Bozo, cara, era fã do Bozo. (risos) Eu sei o telefone do Bozo até hoje: 236-0803. Liguei várias vezes para o Bozo, mas a gente nunca conseguia falar com ele. 

Deixa [eu] ver o que mais tinha de legal. Não tinha muita coisa. Era isso mesmo que estou te falando do circo. Parquinho, de vez em quando, mas era precário, cara. Funcionava uma semana, na outra não funcionava mais, porque os brinquedos quebravam e tinha que ficar uma semana esperando para voltarem os brinquedos, então o que os caras faziam? Os caras colocavam os brinquedos mais legais - aquele Dang, que tinha uma pá de cadeirinhas que girava com as correntes podronas, enferrujadas, e a gente ia pro rio direto, porque os caras montavam do lado do rio. Aquilo, se estava girando, de repente, a corrente quebrava e mandava neguinho dentro do rio. Isso aconteceu uma porrada de vezes. 

E tinha os bares. Teve um bar aqui no Sônia que foi legal, chamava Bigatos Bar na época. Era onde rolava rock’n’roll, rolava as bandas, tinha show. Era bem legal. Isso também marcou bastante o bairro. A gente viu várias bandas na época através desse bar, sem cachê nem nada, era até pelo lance do cultural, da história do movimento punk. As bandas vinham tocar por vontade de vir tocar mesmo, aqui na região do ABC, nessa época. Até pela história do polo industrial e tudo mais, da estrutura que tinha, então rolava aquele lance. A gente viu o Golpe de Estado tocar aqui, Garotos Podres, que era a banda que estava já mais avançada na época. Deixa eu ver o que mais tocou. Tocou banda pra caramba, cara.

Ah, e aqui no ABC, fora do bairro, a gente viu Ramones, que foi aqui no Aramaçan (Clube Atlético Aramaçan), em Santo André. Isso aí marcou pra cacete a nossa vida, porque a gente aqui no Sônia Maria falava que aqui era ‘Ramoneslândia’, cara. Meu, aqui se você catar moleque de dois anos de idade o moleque está com a camisa do Ramones, aqui é rock and roll total, saca? O pessoal gosta pra caramba, então é muito louco.

 

P/1 – Cleber, você contou sobre a escola, que você não era muito fã. Você se lembra dos seus primeiros dias na escola?

 

R – Cara, eu lembro que eu chorei pra cacete no primeiro dia. Na hora que a minha mãe me deixou na porta da escola para mim foi a minha morte. Eu falei: “E agora, meu? Vou ficar trancado nesse lugar aqui.” Eu não sabia o que eu iria encontrar depois. Aquele portãozão, cara, aquilo dava pânico no primeiro dia que você vai. Aquelas tiazinhas todas meio esquisitas, na época, meia de marronzão, que era a roupa que elas usavam na escola. A diretora era mó… Meu, a mina parecia uma carrasca, era bem regime militarzão mesmo na época que eu entrei na escola. Era regime militar mesmo. Era a época do Figueiredo ainda, ele era o presidente. 

Você entrava em choque. Você não podia ter liberdade de fazer uma pergunta para a professora, porque ela não te dava esse espaço. Você tinha que abaixar sua orelha e ouvir o que ela queria falar. Num ponto era bom, ela queria te passar aprendizado, mas você tinha muitas coisas para perguntar e não podia, porque você tinha o respeito e aquele respeito te deixava tímido. Você ficava ali, encurralado naquele canto, esperando a hora de você abrir aquela lancheirinha para você comer seu pão com manteiga, pão com mortadela, ou então trocar o lanche com o camarada, depois voltar para a sala de novo e, em choque, sentar ali. 

A professora falava uma de coisa. Você pedia para ir ao banheiro: “Não, você não pode ir ao banheiro.” Porra, você vai proibir a pessoa de ir ao banheiro? “Não, só vai na hora que eu quero.” Eu não achava legal essa parada assim, cara. 

Eu gostava de desenho pra caramba, desde moleque. Eu chegava na escola e queria desenhar, queria mostrar que eu sabia, que tinha vocação para alguma coisa, mas não podia fazer isso. Eu tinha que estudar Ciências, tinha que estudar… Na época não era nem História, era Estudos Sociais. Porra, meu, uma puta de uma história chata, cara, do Brasil. Uma história mentirosa, que hoje eu vejo que tem muita coisa que é enganosa. Depois que você vai descobrindo, que você vai lendo através de outros livros, de outros conhecimentos que você tem hoje, até mesmo pela internet. Então você vai, acaba estudando mais e vai vendo que muita coisa era… Você fala: “Puta, meu, isso aí não existiu. Não tem porque existir. É muito contraditória a história.” 

Eu não queria saber nada de história do Brasil, não queria saber que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Para mim não interessava isso, cara. Para mim interessava chegar na minha casa, ver minha família bem, ver meus amigos bem, ver todo mundo estruturado, ver todo mundo morando numa casa. Eu não queria saber se o índio morou lá não sei onde, se o cara viveu, onde ele viveu, se o padre Anchieta foi isso, foi aquilo. Eu não queria. Para mim não me interessava isso, para mim me interessava o que eu vivia na época, o que eu observava. Isso para mim era importante, eu não queria saber de outras coisas. 

A escola para mim nunca foi um meio de aprendizagem de verdade. A rua para mim foi mais aprendizagem que a escola. Aprendi muito mais coisa na rua, vivenciei muito mais coisas na rua do que na própria escola, porque ali, [quando] eu entrava, era a mesma coisa de você entrar numa empresa para trabalhar: você bate seu cartão, você é carimbado, você é rotulado, você é obrigado a fazer aquilo para você ter um mísero salário por mês. Eu era obrigado a fazer aquilo e na hora que saía, tinha que chegar na minha casa e fazer um monte de lição. 

Minha mãe, na época, era analfabeta. Como eu ia fazer uma lição de casa com o pouco conhecimento daquilo que a professora me passava em poucas horas? Chegar na minha casa e perguntar para quem, cara? Meu pai trabalhava o dia inteiro. Ia perguntar para quem? Minha mãe? Minha mãe não ia saber me ensinar, cara, então aquilo te desmotivava. Não tinha um acompanhamento, você não tinha acompanhamento de TV, de internet, de nada. 

Hoje o acesso é fácil. A única coisa que a gente tinha na época era o Telecurso Segundo Grau, que passava na Rede Globo, mas aí eram coisas já mais avançadas, que não eram da nossa época. A TV Cultura também passava algumas coisas, mas era bem pouco também, porque ainda tinha a época da censura. Quando os programas eram legais, os caras, censuravam. 

Sala Especial de sexta-feira. A gente era louco para assistir. Era tipo aqueles filmes meio pornozinho, na época da pré-adolescência que a gente começou a… Tinha um programa, Sala Especial, na Record. Era aquela pornochanchada, era tosco o negócio. Rita Cadillac, a Gretchen, os bagulho mó feio, cara. Nojento mesmo. Mas a gente queria ver aquilo, cara, a gente tinha curiosidade. Por quê? Na escola não se passava nada sobre sexo, dentro de casa você não falava nada sobre sexo porque se falasse isso se tomava murrão na cara ou ficava de castigo uma porrada de tempo, então o que acontecia? As pessoas iam descobrindo através delas mesmas. Não tinha informação de camisinha, não tinha informação. Por isso que na época surgiu muita gente com HIV. 

As drogas mesmo, não tinha esse acesso. Se fosse falar de maconha dentro de casa se apanhava. Era porrada na certa, porque era uma palavra feia. Você não podia falar isso, não podia falar um palavrão. Se você falasse porra dentro de casa, você tomava porrada, cara. Você saía para a rua, [se] falasse um palavrão na escola, Deus me livre. 

Eu já era meio radicalzão, já era meio rebelde, sempre fui rebelde, sempre me achei assim. Não que eu fosse isso, mas eu sempre me coloquei assim. Eu nasci para não ter regras e nem leis, cara. Eu não consigo ter esse tipo de coisa. Não consigo ter, não consigo ser assim, mas eu acho que tem que ser tudo bem certinho. 

 

P/2 – Mas durante essa fase da escola, teve algum evento que você mostrou essa rebeldia com a professora?

 

R – Cara, você diz evento de cultura alguma coisa assim, ou músicas, essas coisas?

 

P/1 – Não. Uma advertência que você tomou, alguma molecagem.

 

R – Tomei varias, cara, porque eu batia de frente com a professora. Se eu tivesse que falar alguma coisa eu tomava chapuletada, porque naquele tempo lá tinha aquele negócio: você era tão discriminado que se você fizesse qualquer tipo de bagunça - meu, eu achava errado isso - você ia para trás da porta e tinha que ficar de cara para o lixo. Porra, meu, um ser humano ficar de cara para o lixo. Isso é errado, cara. Você vai ficar com a cara dentro da lata de lixo? Não vira isso, né? Eu achava errado isso. 

Mas eu fiz bastante coisa assim, para mostrar a rebeldia mesmo. Até pichação. Começava a pichar frases da época, que eram proibidas. A gente escrevia no banheiro, fazia esses lances assim. A rebeldia nossa era através disso, das frases que a gente falava.

 

P/1 – Cleber, teve algum professor que foi importante para você, que tenha te marcado?

 

R – Teve sim. Isso em 87, eu acho que foi. Teve uma professora chamada Dona Neire, que era uma professora de Educação Artística. Isso foi na quinta série. Eu tinha vindo de outra escola e sempre gostei de desenho, mas, eu nunca fui… Não gostava muito da aula de educação artística porque tinha muita coisa de régua: “Vamos fazer marcações, desenhos quadriculados”, essas coisas. Eu não gostava desse tipo de coisa. Não tinha muito ensinamento; eram coisas básicas, medidas, então não gostava muito. 

Quando eu entrei nessa, quando comecei a ter aula com essa professora, a primeira aula que eu tive com ela já fez um desenho na lousa e falou assim: “Vocês vão ter que copiar esse desenho aqui e não pode ter nenhum erro. Tem que ficar perfeito igual está aqui.” Aquilo ali para mim, falei: “Meu, tô na aula que eu gosto, cara. É o desenho, é isso que eu amo, cara, é isso que eu curto, entendeu? Eu quero ser… Eu quero trabalhar com desenho.” 

Eu sempre quis trabalhar com desenho desde pequeno, saca, desde pivete mesmo eu sempre gostei disso. Eu pintava mesa, pichava camiseta, pintava camiseta. Tudo, cara. Catava um lápis e eu já: . [Se] tivesse uma mesa aqui eu saía rabiscando, tanto que eu tomei várias advertências na escola porque minha carteira era toda desenhada, porque eu catava a carteira e não podia. Naquele tempo, você tinha que vir com um treco de plástico, um paninho com álcool, você tinha que limpar a carteira. E a minha era toda desenhadona, meu. Aquilo não saía, porque era [desenhado com] aquelas canetinhas Sylvapen, que eram pequenininhas. Nossa, cara, aquilo era da hora. Você catava, fazia vários desenhos. Eu fazia vários desenhos daquilo lá, meu. Saca?

 

P/1 – Cleber, você falou que começou a se envolver no movimento anarquista. Conte para a gente um pouquinho. O que te motivou, como foi isso?

 

R – Ah, a própria rebeldia da época. Na verdade, a gente não tinha muita informação a respeito de anarquismo. A gente não tinha muita informação de nada. Aí começou o movimento punk na década de 80, foi em São Paulo que começou. Na região do ABC já existiam, na época, algumas gangues de punk. E como já tinha esse lado mais rebelde, comecei a me influenciar. Comecei a gostar porque eu via os caras batendo de frente com o militarismo, aquelas paradas todas, protestando. A forma de protesto, a forma de visual que os caras usavam. Aquilo ali era uma afronta contra a sociedade. Eu falava: “Mano, é isso que eu quero, saca? É isso aí que eu vou querer ser. Eu sou isso aí; não é o que eu quero ser, que eu tenho esse sonho de ser, mas eu sou isso aí, cara. Eu sou essa escória que a sociedade tá vendo, cara.” 

Comecei a fazer parte do movimento punk. Comecei me aprofundar e cortei o cabelo espetadão. Primeira coisa, tomei pau do meu pai na época. Ele não aceitava esse tipo de coisa. E o piercing. A gente fala hoje do piercing. Meu primeiro piercing foi um alfinete, saca? Em 87, 88 já tinha alfinete na cara, tá ligada? Era muito mais louco que você pôr um piercing, um brinco, entendeu? Você cortar o seu cabelo, espetar seu cabelo. 

Naquela época você não tinha, mas hoje você vai na Galeria do Rock e encontra tinta de tudo quanto é cor para pintar o cabelo. Naquele tempo eu pintava o cabelo com guache, cara, que era muito mais louco. Já deixava o cabelo duro, todo espetado, sacou? Rebite na… Rebite nem tanto porque os sapateiros da época tinham medo, porque era época do militarismo; os caras nem queriam colocar rebite devido ao visual dos punks na época. E o que a gente fazia? A gente colocava prego, parafuso. Puta, ficava visualzão. Roupa rasgada para protestar, coturno para protestar contra o militarismo. 

Para mim foi muito importante. Eu aprendi muito com o movimento punk, saca? Tenho banda punk, toco em banda de punk rock até hoje. Gosto de ouvir o som. 

Tem muitas coisas erradas no movimento punk? Tem. Tem muitas coisas erradas no movimento punk, mas como tem em qualquer outro lugar, mas para mim foi muito importante. Fez parte da minha vida.

 

P/1 – E teve alguém do movimento que tenha te marcado?

 

R – Em briga, assim?

 

P/1 – Não, não.

 

R – Ah, em história?

 

P/1 – É.

 

R – Meu, teve várias, várias mesmo. Um que me marcou bastante, que eu tenho um puta respeito dentro do movimento punk… Infelizmente ele faleceu ano passado. A gente estava fazendo um trabalho de um show aqui no Sônia Maria, um evento que a gente ia fazer. Tinha até convidado a banda deles para tocar, eles estavam para vir; a gente estava em negociação. Uma duas semanas antes do evento ele veio a falecer. É o Redson Pozzi, da banda Cólera, de São Paulo. Esse cara me marcou muito no movimento punk, teve um puta conhecimento, passou muita coisa legal para a gente. Estive muito influenciado pela história de vida dele e pelo próprio conhecimento que ele tinha, pelo próprio conhecimento mesmo.

 

P/1 – E quando você começou a se interessar por música para querer tocar mesmo?

 

R – Música eu comecei a tocar com oito anos de idade, cara, [com o] violão. A influência veio do meu irmão, porque o meu irmão era punk mais antigo. Meu irmão já era punk desde 77, então eu já tinha aquela vocação, o espelho. Você olhava e falava: “Puta, meu, quero ser o meu irmão.” Eu sempre tive carinho por ele - pelos dois irmãos, mas meu irmão já é da parte masculina, o camarada, lado a lado. Eu me espelhava muito e isso me influenciou bastante, ele tinha muito conhecimento de música. Até por ser precário na época do vinil, o pessoal saía muito atrás, tinha muita coisa importada. O acesso ao punk rock na época era muito devagar, então tinha o pessoal que viajava. 

Tinha um cara aqui no Parque São Rafael [que] tinha o apelido de Gordo. Ele trabalhava dentro do polo petroquímico na época, então ele viajava muito pra fora. Ele ia para a Inglaterra, para os Estados Unidos. Os primeiros discos do Ramones que a gente viu e do The Clash foram através dele. Ele que trazia tudo, aqueles vinis importadões. Aquilo para a gente era muito louco. A gente catava aquelas vitrolinhas vermelhinhas, ligava aqueles vinilzão e era muito louco. Aí a gente começou a conhecer o pós-punk da época, que eram as bandas The Cure, The Smiths, Bauhaus, essas bandas que vinham influenciadas do punk. O Joy Division... E aí veio o psychobilly, rockabilly, Stray Cats. Fui até num show dos Stray Cats na época, em 86, no Projeto SP. Fui no show [do] Toy Dolls. Uma porrada de show de banda louca. 

Conheci uma banda chamada The Cramps, que era uma banda de psychobilly, cara, e a gente conseguiu um vinil. Só que naquele tempo tinha os vinis que eram [de] rotação 75 e 45. Aí a gente foi ouvir: “Porra, The Cramps, vamos ouvir.” Nunca tinha escutado, cara. Colocamos o vinilzão lá e o som ficava mó ‘uouuou’. Falei: “Puta, que banda ruim. Mó banda chata, né, cara.” A gente ficou acho que uns três anos ouvindo esse disco nesse barato, só que a gente levava o disco não porque a gente gostava de ouvir, mas porque impressionava: “, você tem esse disco. Que louco!” Um dia a gente estava chapadão, tomando cerveja e cachaça na casa de um brother nosso e não tinha nada para a gente comer, era precária a situação. Tinha um pacotão de Bonzo, aquelas rações de cachorro. Falei: “Porra, velho, vamos experimentar essa parada aí pra ver se é legal.” Fizemos uma porção de Bonzo e colocamos esse disco. Na hora, sem querer, a gente bateu o braço no negócio e o disco começou a rodar na rotação 75, aí que a gente foi descobrir o som como era. “Que som louco, cara.” Ficamos três anos ouvindo essa merda aqui, não sabia que era só mudar o botão. Não sabia nada em inglês, cara, isso foi a escola que fez falta. (risos) Ficamos atoladões, mas era muito louco, era legal pra caramba. 

O visual também era show de bola, era podre mesmo. A gente era os punks mais podres que existiam, cara. Ttinha aquela rixa de ABC com São Paulo. Os punks de São Paulo já eram mais bonitinhos, os cara já tinham as minas; bem vestidinhos, as roupinhas mais engomadinhas, jaquetinha de couro. E os punks do ABC sempre foram podrões, quanto mais podre era mais punk, saca? Para a gente era isso. A gente mostrava mesmo qual era a realidade do ser humano, a podridão que o mundo vivia na época, cara. Tudo era forma de protestar contra o governo, contra os militares, era muito louco [protestar] contra a sociedade, o preconceito que existia. Naquela época, a gente já brigava contra isso, o preconceito. 

Depois vieram as gangues de skinheads; na época, os Carecas do ABC surgiram através de alguns punks que se desmotivaram. Não sei o porquê, até hoje não consigo entender, mas foram algumas pessoas que se desmotivaram e montaram as gangues de Carecas do ABC na época. Tinha muita rixa de punks - porque era um movimento anarquista - com o movimento dos carecas, que era um movimento nacionalista. Tinha esse lance de rixa de informações, então era louco também. Era muita doideira, cara. Era muita porrada, muita treta na época.

 

P/1 – Como eram as brigas?

 

R – Meu, era porrada mesmo porque não tinha… Não era lance de você catar uma arma e matar alguém, mas era porrada mesmo. Era ganguismo, cara. Você ia num show e se você encontrasse uma gangue rival sua era pancada na certa, cara, mas era por uma causa que você estava lutando, por aquilo que você acreditava. E a outra gangue também, cara, os caras eram nacionalistas, ficavam lutando por aquilo que eles acreditavam. 

 

P/1 – Mas o som, todo mundo curtia os mesmos shows?

 

R – Os sons eram bem parecidos, mas as ideologias das letras são diferentes. É que nem eu estou te falando, o movimento dos carecas. Não estou dizendo skinhead [como] White Power hoje, que é um lance mais neonazista, mas [entre] os carecas e os punks o que existiu? Existiam as letras que falavam do nacionalismo. O ritmo de música era o mesmo; os punks falavam de anarquismo, protestavam mais, e os carecas defendiam mais a pátria, o nacionalismo. A gente era contra isso. Depois vieram os neonazistas, algumas gangues. Poucas gangues da época, pequenas até, mas existiu, cara, existem até hoje e a gente batia de frente. E o som já era totalmente diferente, saca? 

As informações que vinham para a gente aqui no Brasil eram bem distorcidonas, não tinha muita informação. Eu cheguei até a usar camisa do Rod Stewart, vi o cabelo do cara espetado e achava que o cara era punk; não tinha nada a ver, meu. Eu ouvi Kiss pra caramba, na época, porque você não tinha tantas informações de banda. Você ouvia um barulho de guitarra, você falava: “Caramba, isso é punk.” Made in Brasil, cara, a primeira banda nacional que ouvi e achava que era punk. Depois Joelho de Porco, Língua de Trapo. Tinha uma banda também que era bem desconhecidona, Banda do Lixo, que era ruim pra cacete, mas acho que ouvia pouca coisa. Patrulha do Espaço... Essas coisas que existiam, cara. Não tinha banda punk mesmo, depois vieram surgindo. 

No ABC mesmo surgiu o Hino Mortal, DZK, Condutores de Cadáver, que eram as bandas… Eram feios os nomes, cara. Era até de assombrar mesmo. Se eu chegasse com um disco desses em casa, meu pai pirava. Já pensou você com um disco Condutores de Cadáver? Seu pai ia falar: “Que é isso, cara?” E as bandas internacionais, que eram Ramones, The Clash, Sex Pistols, foram as primeiras que a aparecer; eu nunca gostei muito de Sex Pistols, porque já via que era meio uma farsa. Os caras tocavam mal pra caramba e eu já gostava de uma sonoridade melhor. Gostava mais de Ramones do que de Sex Pistols, e The Clash também. Para mim foi uma das bandas mais punks, atuais mesmo. Dentro do movimento punk para mim foi o Clash. Foi parte do movimento. 

 

P/2 – Nessa época, você sempre morou em casa com os pais ou morou fora com amigos?

 

R – Não, eu morei sempre com os meus pais, cara. Independente da minha rebeldia, a gente sempre foi meio família, sempre fomos bem unidos. Independente de fazer alguma coisa errada que eles não gostavam, os meus pais sempre foram acolhedores. Eles nunca abandonaram ninguém, filho nenhum. 

Na época, meus amigos também eram assim. A maioria tudo morava com a família, até por isso que crescia uma certa rebeldia a mais. Ficava aquele negócio mais turbulento, porque se chegava em casa naquele puta visual cabuloso e seu pai ia... você enfrentava o preconceito fora e dentro de casa você também sofria o preconceito, você sofria aquela repressão. Você tinha repressão fora e dentro de casa. Mas era da hora, cara, porque era contra isso que você estava lutando, era importante que você sofresse isso, até.

 

P/1 – Cleber, como é que era o envolvimento da mulherada do bairro na cena punk?

 

R – Não tinha ninguém, cara. Tinha duas minas só e eram toscas ainda, bem feias mesmo. É por isso que os punks de São Paulo ganhavam da gente, porque os caras já eram mais bem arrumadinhos, jaquetinha de couro e tal. Lá tinha mais minas, então os caras já namoravam mais; se você queria namorar alguém, tinha que ser fora do movimento punk. As minas não iam querer um cara tudo sujo, todo punkzão, podrão, fedendo. As minas não queriam, assombrava, cara. Como é que você ia chegar na casa de uma mina e falar para o pai dela: “Meu, tô namorando a sua filha.” O cara ia te pôr para fora de casa, cara. Você todo toscão, todo zoado, cabelo colorido. 

Hoje em dia virou moda, você vê como é que é são as coisas. A filha chega em casa e fala: “Pai, tô namorando com esse moleque.” Você olha e é um emo, cabelo todo colorido, calça agarrada. 

O emo é a escória do punk, cara. Catou tudo aquilo ali que era do punk, foi misturando e fez um visual pra ele. Mas isso aí já existia bem antigamente. O emo, na verdade, é a ressurreição do New Wave da época, e as músicas são bem chatas também, cara, muito iguais.

 

P/1 – Cleber, teve algum livro que marcou nessa fase? Alguma coisa que você leu?

 

R – Cara, de livro que eu li? Eu li bastante coisa, cara. Li bastante livro de Chico Xavier, li bastantes livros; li a Bíblia, mas não consegui terminar porque teve algumas coisas que achei contraditória também, então não tenho muito esse lance de religião. Não acredito em religião nenhuma, saca. Eu acredito que existe um ser superior e que pode transformar alguma coisa na sua vida. Existem dois lados, o bem e o mal. 

Um livro que me marcou mais, na época, se for para falar da época do movimento punk, é aquele um livrinho que era… Acho que era, não me lembro se era da Coleção Vagalume, que chamava O que é punk? Foi o primeiro livro que saiu na época, que era do Antônio Bivar. Isso marcou bastante, porque foi a primeira informação que a gente teve, até de fotos. Ele contava um trecho da história do ABC, que foi o celeiro de tudo isso aí, porque sempre existiu preconceito. Até porque o pessoal de São Paulo já tinha informação na mídia, o pessoal já estava mais poser do que lutando por uma causa política ou social, entendeu? Os caras queriam mais aparecer porque lá já tinha umas bandas, o pessoal já estava mais para o lado da mídia do que aqui no ABC, tanto é que a gente estava protestando contra uma porrada de coisa, greve de metalúrgico… Isso gerou muita coisa boa para o movimento punk e muito mais história para o movimento do ABC do que pelo próprio movimento de São Paulo. Lá era mais voltado para a parte musical do que para a parte social. Aqui sempre foi mais o lado político mesmo, sempre foi mais o lado de protesto. 

Esse livro me marcou na época, mas teve outros também, que agora eu não vou lembrar. Vixe, eu li tanto livro, cara. Zezinho, dono da porquinha preta, Xisto no espaço. Nossa, tosco isso, mas era legal. 

Eu gostava mais de coisas relacionadas a HQ, li muito gibi, cara. Gibi eu li mesmo, porque era uma das únicas diversões que a gente tinha e [dava] acesso a algumas coisas também, porque ali você conseguia, querendo ou não… Vinha camuflado. Você comprava um gibi, na época - hoje não tem isso, mas no meio das páginas vinham aqueles tênis que você você falava: “Que legal, cara.” E eram coisas camufladas ali que até incentivavam a ler porque você comprava o gibi, às vezes, para você ver figurinha do Ping-pong que vinha. Na época, tinha um chicletão grandão que vinha com um negócio de futebol e ali naquele gibi vinha propaganda, aquelas chapinhas de ouro, não me lembro o nome. Você comprava aquilo junto com os gibis, com as revistas. Era barato aquilo, meu. 

A gente lia pra cacete. Fazia troca de gibi com o camarada. Tinha muito disso na época, de história em quadrinhos. 

 

P/1 – Você se lembra do primeiro show maior, que você tenha tocado para mais gente?

 

R – Isso foi na Argentina, cara, com a banda que eu toquei em 2005. Acho que foi. É, 2005. A gente tocou no Estádio de Ferro Carril, na Argentina. Tinha quarenta mil pessoas no estádio que a gente tocou nesse dia. Foi um festival anti-Bush na época, com uma banda de cada país da América Latina. Na época, essa banda foi convidada a tocar. 

Esse festival me marcou bastante, cara. Tinha muita gente. O pessoal estava bem focado naquilo, no assunto da época, que era o Bush, então foi bem legal, foi uma forma de protesto bem legal que fizeram. Foi uma puta estrutura mesmo. 

 

P/1 – Cleber, qual foi o seu primeiro trabalho, o primeiro trampo?

 

R – Meu primeiro trampo foi na feira, cara. Na verdade, eu mesmo fui o meu patrão no meu primeiro trampo. Eu queria ter uma renda para mim, então o que eu fazia? Se fosse vender quadro não teria tanta estrutura financeira para poder bancar os materiais, então o que comecei a fazer? Eu comprava bolava de gude e durepox, fazia bonequinho de durepox, pintava e vendia na feira no domingo. Botava um pano no chão e vendia os bonequinhos na feira. 

 

P/1 – Qual feira?

 

R – Feira livre mesmo, que tinha aqui no bairro. Eu vendia os bonequinhos, mas não durou muito essa empresa, faliu rápido. (risos) Depois comecei a trabalhar como metalúrgico, o emprego que eu tive. Trabalhei na Ultragaz. Me formei em solda pelo SENAI, era soldador pelo SENAI, na época, porque todo mundo tinha aquele sonho de ser metalúrgico. 

Todo pai queria que o filho fosse metalúrgico na época. Era esse sonho que o pai tinha. Ninguém sonhava em que o filho fosse doutor, que o filho fosse alguma coisa. Todo mundo sonhava que o filho fosse metalúrgico. Se você tivesse um sonho de ser que nem eu, pois sempre tive a vontade de trabalhar com desenho, não poderia fazer isso, porque o desenhista ganha mal. Se fosse tatuador então, meu Deus do céu, na época, era preconceito total. E o que acontecia? Você tinha que ser metalúrgico, porque todo mundo era metalúrgico e metalúrgico ganhava bem. Você tinha que ser metalúrgico, entendeu? Você tinha uma estrutura de sindicato, você tinha convênio médico, você tinha aquilo, entendeu? 

Era legal você trabalhar numa empresa, registrado, mas eu trabalhei muito pouco tempo em firma assim. Eu nunca aceitei. É como eu falei, nunca aceitei muito esse lance de ser mandado, saca, de: “Ah, você tem que ter regra, você tem que ter horário.” Nunca gostei desse lance de patrão. Eu sempre segui o lema: “Nem pátria e nem patrão.” Nunca gostei desse tipo de coisa. 

Nunca cantei Hino Nacional, nem sei a letra do Hino Nacional. Algumas palavras que eu vejo no Hino Nacional são palavras mentirosas. Se você for acompanhar alguma coisa, você vai ver que não existe nada daquilo que está escrito, não foi feito, entendeu? A Ordem e Progresso não existem, então, não tem por que eu aceitar a pátria, nem o patrão. 

Eu sempre trabalhei por conta, a maioria das vezes. Eu já tive empresas de comunicação visual, mas na época ficou precário porque muita gente fazia. Ocara ficava desempregado e ia fazer letreiro, o cara ia pintar muro, então isso banalizou muito a profissão. Até por falta de estrutura mesmo, o cara tinha que correr atrás de alguma coisa, né? Ele tinha que buscar um sustento para a família dele. Só que atrapalhava algumas outras áreas, porque ele não era formado, ele não estava preparado para aquilo; era só a forma de escape da época para poder dar um sustento para a própria família.

 

P/1 – Cleber, você chegou a soldar coisas menores quando trabalhou de soldador?

 

R – Meu, já soldei de tudo, cara. Na empresa que eu trabalhava, trabalhava em caldeiraria, na verdade, então eu soldava muita peça grande - tanques, essas coisas assim. Peça pequena era difícil.

 

P/1 – E como era o trabalho, era insalubre? É muito difícil?

 

R – Meu, é bem brusco, cara. É bem pesadão, mesmo.  Eu creio que todo esse trabalho braçal, tanto de pessoal de metalúrgica, soldador, caldeireiro, pedreiro, é bem mal remunerado no Brasil. Bem mal pago. A área da saúde também, acho que deixa a desejar. 

Meu, eu acho que o salário no Brasil hoje é vergonhoso. Você estuda, estuda e com o seu primeiro trabalho não consegue nem pagar os livros que você estudou na faculdade, entendeu? Se vai se formar hoje, o seu primeiro salário não paga o que você gastou para estudar. Eu acho que é errado também esse lance de se cobrar para estudar, cara. Pagar uma faculdade, pagar para ser alguém, cara. Se você está pagando para ser alguém, sendo que você já é alguém, então você não precisa pagar para aquilo. Eu acho meio… Sei lá, cara, eu não consigo aceitar essas coisas. Sou meio radical para essas coisas.

 

P/1 – Cleber, qual foi a sua primeira tatuagem?

 

R – Cara, isso aí foi na década de 80 mesmo. A primeira tatuagem que eu fiz foi num amigo nosso que estava num churrasco. A gente estava num churrasco na casa dele. Naquele tempo a gente bebia, tinha um pessoal que usava droga e estava todo mundo muito louco. Na época, apareceram com uma maquininha caseira, feita toda de motorzinho de carrinho, e daquele pessoal que estava ali eu era o único que desenhava. O pessoal chegou e falou: “Pô, meu, vamos fazer tatuagem. Você desenha, você vai tatuar.”  Eu falei: “Eu nunca peguei numa maquininha, mas vamos aí.” 

Era nanquim que a gente usava, tinta xadrez, aquela de parede, aquela bisnaguinha de misturar em tinta látex. A gente fez as misturas e usou agulha de costura enrolada com a linha num arame. Montamos a maquininha e eu fui fazer uma águia.

Eu lembro que o cara me pediu uma águia num castelo. Fiz o desenho na caneta, até ficou razoável. Só que no primeiro risco que eu fiz, quando eu fui limpar saiu todo o desenho. Depois não tinha mais como eu voltar no traço, aí eu falei: “Porra, meu. Agora ferrou, cara. Como eu vou fazer essa parada?” O cara falou: “Não, meu, você desenha, faz aí.”  Eu fiz e ficou uma galinha em cima de uma garagem, saca? (risos) Ficou tosco mesmo o barato, ficou punk, véio. Mas foi a primeira tatuagem que eu fiz. 

Eu falei: “Puta, meu, é isso que eu quero. Eu sou um tatuador, velho, entendeu? Mesmo fazendo tosqueira.” E aí comecei a tatuar. Foi indo, foi indo. Fiz uma porrada de cagada, cara. Um monte mesmo.

 

P/1 – E como foi esse processo de ir aprendendo?

 

R – O processo de aprender foi assim. Quem tatuava não te passava informação, porque tem aquele lance de: “Pô, será que esse cara vai me atrapalhar um dia? Será que esse cara vai virar meu concorrente?” Eu pedi informações para alguns tatuadores que eu nem vou citar nomes, cara, porque hoje [são] uns mais antigos aí da região. Ele me disse uma frase que me marcou bastante e que me deu um impulso. Foi assim: “Pra que você vai começar a tatuar agora se a tatuagem tá bem além do que você tá imaginando?” Eu parei, pensei e falei: “Mas por que eu não posso ter essa oportunidade de começar a tatuar agora? Será que eu teria que ser velho? Será que eu teria que ser mais novo? Ou será que eu não sei fazer esse tipo de trabalho?” Eu me perguntei. 

Através dessa frase eu comecei a me aperfeiçoar no lance de desenhar, de criar, de buscar informação. Eu falei: “Vou mostrar pra esse cara que eu sou capaz de fazer esse tipo de trabalho”, porque eu já gostava desse tipo de coisa, então fui buscar minha formação. Fui buscando, fui buscando. 

Fui premiado em várias convenções de tatuagem. Hoje, graças a Deus, eu tenho uma estrutura legal de profissionais, estou reconhecido na área. Hoje tem várias revistas com os meus trabalhos, com matérias, entrevistas. Falam bastante da cidade onde eu moro. 

Eu acho muito importante isso: falar do bairro onde eu moro, da cidade onde eu moro. Não onde eu nasci, porque eu nasci num hospital em São Bernardo, mas eu acho bem importante a gente lembrar o seu berço porque foi daqui, cara, que surgiu tudo isso. Foi aqui que tatuei o primeiro cara, no bairro onde eu moro. Foi aqui que eu aprendi a tatuagem. Foi aqui que eu montei a minha loja. Eu não fui buscar uma loja no centro da cidade, eu não preciso. Eu, graças a Deus, não preciso disso. 

Acho que o que importa é o meu trabalho ser bem feito e meu cliente vir até mim. Isso é bem importante: trazer pessoas de outros lugares. É importante para mim e para o próprio bairro. Hoje tatuo pessoas do Rio de Janeiro, tatuo pessoas de Santos, pessoas do interior de São Paulo, da região dele mesmo, de Campinas. Tatuo a região de Sorocaba, entendeu? E o pessoal vem até mim, cara. Tem hora que até me pergunto: “Meu, que louco isso, cara. Imaginava que iria tatuar pessoas só do bairro. Hoje estou tatuando pessoas de fora, mas dentro do bairro.” 

Não precisei sair daqui para buscar o que eu queria. Realizar aquele… Aquele sonho que eu tinha, eu consegui realizar aqui mesmo, no bairro. Isso pra mim é importante, cara, muito importante mesmo.

 

P/1 – Cleber, você chegou a trabalhar em algum outro estúdio?

 

R – Cara, já trabalhei sim, mas não me adaptei. Eu não consegui me adaptar. Eu sempre fui assim, meio chato para essas coisas. Sou chato até hoje. Sou meio chatão mesmo. Até com os meus trabalhos mesmo sou bem chato. Sou o tipo do cara que se eu não gostar do que vou fazer eu não faço. Se você vier aqui com um desenho para eu tatuar e achar que não devo tatuar esse desenho em você, eu não vou te tatuar. Pela grana eu não tatuo, tatuo pela arte, saca? 

Está certo que eu vivo e sobrevivo disso. Infelizmente, a gente sobrevive do dinheiro, mas a arte para mim está em primeiro lugar. Nunca vou te tatuar qualquer coisa, Vou sempre buscar alguma coisa, vou procurar o porquê que você quer fazer isso, se você está realmente preparada para ter uma tatuagem, se você não está. Eu acho isso muito importante. 

Isso eu fui descobrindo através do tempo, porque antigamente a gente fazia tatuagem, mas não existia uma tatuagem grande. Ninguém tinha tatuagem grande e hoje em dia o pessoal faz de corpo inteiro. Pra isso, cara, você tem que ter certa postura, você tem que ter certa atitude; você tem que estar bem preparado para uma carreira de trabalho. Se você vai poder trabalhar naquele lugar, se você não vai poder, se você vai sofrer preconceito, se você não vai sofrer preconceito. Eu vou ser hipócrita de chegar aqui e te tatuar sem te perguntar nada, por quê? De repente, você está se formando para alguma área administrativa, para alguma coisa assim, onde existe certo preconceito da tatuagem, e você vem tatuar um antebraço comigo, um pulso ou pescoço. Pela grana vou pegar e vou fazer, [mas] vou te prejudicar. Mesmo tendo essa informação, vou te prejudicar. Vou camuflar isso, vou mentir para você. 

Eu não vou ser o cara que você vai lembrar o resto da vida com bons olhos. Você não vai lembrar com bons olhos, porque depois você vai falar: “O cara podia ter me orientado. Que merda que eu fiz na minha vida.” Através disso você vai me carregar com coisas negativas. Eu tenho que te passar sempre coisas positivas, tenho que estar bem preparado para poder te atender. 

A gente estuda bastante isso, eu estudo muito. A parte da escola deixei um pouco de lado, mas a minha parte profissional, aquilo que eu iria seguir, estudo bastante. Procuro todo dia melhorar, procuro todo dia obter informações, pesquisar, ver o trabalho de outros tatuadores. Eu busco muito isso. 

 

P/1 – Teve alguma que você fez que seja mais especial, que tenha marcado muito?

 

R – Tem, cara. Eu fiz uma tatuagem numa senhora de 74 anos, na convenção de Sorocaba. Eu até postei ontem no meu Facebook a foto. Aquilo me marcou bastante porque me passou um videotape todinho da minha vida, da época que eu comecei, que eu tatuei um cara de dezesseis na época. Eu tinha a mesma idade, tinha quatorze, dezesseis anos. 

De repente, estava tatuando uma pessoa de 74 anos. Pessoas que a gente sempre... Uma idade que as pessoas sempre foram mais preconceituosas, vamos colocar assim. Não sei se preconceituosas ou preconceituosas por falta de informação. Creio eu que mais por falta de informação, porque sempre se passa uma imagem distorcida da tatuagem, sempre teve. 

A tatuagem só foi bem aceita quando entrou na mídia. Isso é muito chato, cara, porque quando ela entrou na mídia o pessoal começou a ver a mina gostosa do Big Brother com uma tatuagem nas costas, o cara bonitão da Fazenda com a tatuagem. Isso começou a motivar muita gente, muita família. Teve mais acesso pra família, porque antigamente não tinha pessoas tatuadas na televisão, então não tinha esse lance, não tinha muita aparição na mídia. Depois que começou a aparecer na mídia, se derrubou bastante o preconceito, até por ter mais informações. Num ponto foi bom, noutro ponto foi ruim. 

Essa pessoa me motivou muito, cara, me emocionou bastante na época, porque eu falei: “Putz, meu, as pessoas que geralmente têm mais preconceito por ser de idade, hoje eu estou tatuando uma pessoa de 74 anos.” É muito louco, cara, você tatuar uma pessoa de 74 anos. Aquela pele mais rígida, mais sofridona do tempo. Você tem que tatuar com mais cautela, com mais cuidado, mó da hora. E a satisfação daquela pessoa depois de ser tatuada; esperar 74 anos de vida praticamente, meu. Vamos colocar aí vinte, vai, 54 anos. Vamos colocar que ela teve essa vontade com vinte anos de idade, mas elas esperou 54 anos para fazer a primeira tatuagem. É muito louco isso, cara. Foi um puta desenho simples, mas que para mim foi o mais em tudo. 

Já tatuei várias coisas, desde Fênix gigante nas costas, desenho de realismo, desenho de comics, de tudo quanto foi coisa. Mas um gatinho preto que eu fiz deste tamanho foi o que marcou minha vida toda, saca? Foi o barato mais louco que eu já fiz até hoje dentro da tattoo.

 

P/1 – Cleber, como é a receptividade do bairro em relação à tatuagem? Você tem clientes aqui da região?

 

R – Tenho, cara, tenho bastantes clientes do bairro, amigos mesmo de infância, caras que eu fiz muita cagada que hoje estou cobrindo, mas eu tenho bastante cliente do bairro mesmo. (risos) O pessoal se tratou bastante com a gente aqui, até pela amizade que a gente tem, pelo jeito da gente atender. Acho muito importante você atender as pessoas sendo verdadeiro; no ato de atender as pessoas, você [tem que] mostrar aquilo que você é. Não adianta chegar aqui, me camuflar duma coisa que eu não sou e depois, no dia a dia, a pessoa ver que sou diferente; aqui dentro sou uma pessoa e fora sou outra. 

Eu sou o mesmo cara em qualquer lugar. Sou o mesmo cara humilde, não me deixo influenciar por qualquer coisa. Que nem estava dizendo, tenho matérias em revistas várias, prêmios e comissões; isso aí não me influencia em nada, para mim só é uma recompensa do trabalho que estou fazendo. Isso nada mais é do que uma gratificação que tenho, porque não tenho um décimo terceiro salário no ano, então eu tenho a recompensa do prêmio, que para mim é um décimo terceiro salário que ganhei - uma bonificação, uma PLR [participação nos lucros e resultados], que nem dizem nas indústrias. Eu não deixo isso subir a minha mente, não.

 

P/1 – Como foi a história de montar o estúdio, essa conquista?

 

R – Na época, eu fui motivado pelo lance de estar trabalhando em um estúdio, até mesmo pelas pessoas serem um pouco arrogantes, saca? Eu via muita arrogância. “Eu sou um artista e você é o cliente; eu falo o que quiser para você, você me ouve e vai ficar aqui me esperando. Eu sou o dono de tudo, entendeu?”

Eu não gostava desse tipo de arrogância e falei: “Um dia eu vou montar uma loja para mim, onde vou atender meus clientes todos iguais e todos os meus clientes vão ser meus amigos. As pessoas vão vir me procurar. Independente de estar tatuando ela ou não, ele vai me procurar para vir aqui no estúdio tomar um café, um suco, um refrigerante, para trocar uma ideia.” É isso que eu quero, não quero o cara vindo me procurar só pelo profissional. Eu quero que o cara venha me procurar porque eu fiz alguma coisa legal nele e me tornei amigo dele; aquele lance da aproximação, porque eu vou marcar você, você vai se lembrar de mim pelo resto da sua vida. Toda hora que você olhar no espelho você vai se lembrar de mim, você vai ver a sua tatuagem ali e vai se lembrar de quem fez. 

Hoje eu vejo clientes que vem aqui, às vezes, com tatuagens de outros tatuadores e você fala: “Pô, meu, quem fez?” O cara fala: “Nem lembro mais o nome do cara”. Por que ele não lembra mais o nome do cara? Porque aquilo não foi marcante para ele, não teve importância. Ele fez por impulso. O cara não fez por onde marcar aquilo, a presença que ele teve no estúdio, o momento em que ele estava tatuando, as brincadeiras que poderia fazer com esse cliente para poder marcar, para ele se lembrar o resto da vida com bons olhos da pessoa. Só assim você consegue atingir um objetivo na sua vida. 

E outra coisa: você consegue espiritualmente benefícios também, porque aquela pessoa vai sempre falar bem de você. Espiritualmente você vai estar tranquilo, porque a partir do momento em que a pessoa começa a falar mal de você, você tem uma sobrecarga violenta, pois a gente troca energias. É uma troca de energia, cara. Estou te furando, é contato direto, contato com o sangue. Vou marcar você ali, cara, é uma parada muito louca. É um negócio, uma responsabilidade muito grande. 

Eu digo assim não tem preço que pague essa profissão, eu piro mesmo. Hoje, para mim, uma das coisas que mais amo na minha vida é tatuar, entendeu?

 

P/1 – Cleber, tem alguma história peculiar, engraçada, que você tenha passado nesse tempo de estúdio?

 

R – Vixe, tem várias, cara, todo dia tem uma. (risos) Se você olhar para trás, você vai ver uma história engraçada olhando para você. (risos) 

Uma história engraçada, vivenciada, foi um dia que a gente estava na convenção de Rio Claro. Essa história foi muito louca. A gente não arrumava lugar para almoçar, estava num hotel e em todo lugar que a gente ia não tinha arroz e feijão para comer. Você perguntava para o cara do hotel: “Meu, tem um restaurante aqui?” O cara falava para você: “Tem um restaurante árabe ali, um restaurante italiano.” Parecia que a gente não estava no Brasil porque não tinha comida brasileira, só tinha comida de outros país. E meu, a gente com a maior fome, na porta do hotel. 

Estava o Wood lá com os dreads dele, a gente de regata, e nessa convenção tocava a banda Planta e Raiz. Na cidade do interior de Rio Claro ninguém conhecia os caras do Planta e Raiz; a gente estava na porta do hotel e os caras confundiram a gente com o Planta e Raiz, porque a gente estava na maior galera, o Wood de dread e tal, meio rasta. Foi muito louco a gente se fazendo para os caras mesmo, entendeu? (risos) Para ver se a gente conseguia pelo menos descolar um rango na casa de alguém. 

Fora isso, tem várias outras histórias muito loucas, até mesmo de trabalho. Na hora do trabalho mesmo tem várias histórias. Se eu contar um monte é doideira, mas essa do Planta e Raiz aí foi legal, porque a gente viveu lance de artista mesmo, saca? (risos)

 

P/1 – Teve algum cliente que chegou aqui e que tenha tido uma história também peculiar, marcante?

 

R – De marcante tenho, mas essa eu não vou poder contar não. (risos) Velho, essa daí foi louca. Nossa, eu não vou poder contar não porque foi cabulosa, e essa não foi nem eu que fiz, cara, foi o Wood que fez, que trabalha comigo. Foi ele que fez a tatuagem, mas foi bem doida mesmo. (risos) Isso aí marcou porque até hoje a gente alopra, meu. Vocês já podem até imaginar o que era, era uma tatuagem num local bem louco, então marcou para gente. A gente lembra da situação, da história, do jeito engraçado que o cara chegou falando e do jeito que a gente imaginou que a tatuagem seria nesse local. Foi bem da hora. (risos)

 

P/1 – Cleber, como foi para você ver esse espaço aos pouquinhos? Você...

 

R – Como eu enxerguei o local do estúdio?

 

P/1 – É, construiu o local do estúdio.

 

R – Na verdade, foi por necessidade de encontrar um ponto para montar o estúdio. Precisava de um lugar montar o estúdio, porque até aí estava trabalhando na minha casa, na época. Aquilo para mim não estava sendo legal porque estava confundindo, eu não estava tendo tempo para mim nem para a minha filha, então atrapalhava um pouco. O pessoal chegava na sua casa e você não tinha mais liberdade, então eu falei: “Eu tenho que procurar um lugar para montar.”

Comecei a dar rolê em Santo André, em São Bernardo, qualquer lugar. Vi um salão, falei: “Pô, mas por que eu vou sair da onde eu estou, do bairro onde eu estou, onde conheço todo mundo? Lá também não tem um estúdio de tatuagem. Por que vou montar um estúdio de tatuagem no centro, sendo que tem um monte de estúdio de tatuagem? Eu não preciso mostrar meu trabalho para o pessoal do centro da cidade! Eu posso, através do meu bairro, buscar informações através de panfletos, de cartão… Sei lá o que eu vou fazer, meu, mandar mala direta, mas vou montar um estúdio no bairro, cara. Vou montar lá mesmo porque o custo é até menor, então se torna um negócio legal. Vou fazer uma estrutura.” 

Aí eu resolvi. Passei na rua, vi o salão, conversei com a pessoa, a pessoa me cedeu o espaço. Acreditou em mim, porque é difícil, o dono do prédio também era de idade. É difícil, meu, a pessoa já vai imaginar, falar: “Esse cara vai montar um estúdio de tatuagem?” A pessoa já vê com outros olhos: “Será que isso aqui não vai encher de maloqueiro?” Sei que pensam dessa forma, só que eles acreditaram em mim. “Vou alugar pra você.” 

Acreditaram e até hoje acreditam. Eu devo muito para eles, porque eles me ajudaram bastante mesmo, me deram uma força, acreditaram que eu poderia crescer. Independente de ser locatário do espaço deles aqui, eu tenho eles como pessoas da minha família sim, porque eu acho que nem um parente meu ia fazer o que eles fizeram por mim. Eu tenho muito o que agradecer a eles, sim.

 

P/1 – Agora vou só encaminhar a entrevista para uma parte mais final. Você quer fazer mais alguma pergunta?

 

P/2 – Queria saber quantos anos tem o estúdio.

 

R – O estúdio está com dez anos de idade. (risos) A gente fica até feliz por isso, porque para você sobreviver hoje dentro do comércio, sem mudar de endereço, sem pular daqui para lá… A gente sempre manteve a loja aqui, porque eu penso: muita gente monta estúdio num lugar, aí você faz uma tatuagem com o cara; você vai procurar o cara, [quando] chega lá o cara já não está mais naquele lugar. 

Eu acho bem legal esse lance da gente estar aqui há dez anos no mesmo lugar. A equipe é a mesma, a gente tem irmandade mesmo, é total. A gente não briga por nada, saca? A gente nunca teve discussão, lógico que a gente discute, mas não tem brigas; a gente discute em para melhorar as coisas, um aconselhando o outro. Essa irmandade existe aqui dentro, a gente não se desfaz de nenhum; ninguém aqui é melhor do que ninguém, todos aqui são iguais. 

O cliente procura o Wood para tatuar porque gosta do trabalho dele, procura o meu porque gosta do meu trabalho, procura o Luiz que também trabalha com a gente aqui,porque gosta do atendimento dele, do Xari porque gosta do trabalho. É bem legal. 

Quando eu comecei, comecei sozinho; depois de alguns meses, o Wood veio trabalhar comigo, então praticamente está desde o começão mesmo, saca? Ele já começou junto comigo depois de uns dois, três meses e a gente está nessa batalha até hoje. Hoje a gente está numa equipe maior, em quatro pessoas, contando com nós dois mais dois, e sobrevivendo disso, através do nosso trabalho, daquilo que eu te falei do atendimento, que é muito mais importante, porque a gente consegue cativar os clientes. Isso para gente é muito importante, os clientes acabam virando nossos amigos mesmo e é isso que a gente quer, a aproximação com o cliente. Se você faz um trabalho com a gente e precisa de qualquer tipo de informação ou tipo de ajuda para cuidados, temos que estar próximos do cliente. Não adianta fazer uma tatuagem em você e se esquecer de você para o resto da vida, não adianta. Isso é bem legal, por isso que a gente está sobrevivendo nesses dez anos de existência, que é a idade que tem o The Drunk Tattoo, aqui em Mauá, no Sônia Maria.

 

P/1 – Cleber, e as suas tatuagens? (risos) Você tem alguma que tem uma história? Qual foi a primeira que fizeram em você?

 

R – A primeira que eu fiz foi com quatorze para quinze anos, acho. É bem feia mesmo, mas eu tenho até hoje. Eu desencano de querer cobrir, porque foi uma tatuagem que marcou uma parte da minha vida, então eu tenho até hoje. Ela é na perna, uma tatuagem que eu nem sei o que é direito. É tipo um dragão, quer que eu mostre? (risos)

 

P/1 – Pode mostrar.

 

R – É tosca, saca? Olha, é muito punk mesmo. (risos) É tipo uma japonesinha... Ah, nem sei se é uma japonesa. (risos) Era muito mal feita, cara, porque é tudo no nanquim com agulha de costura, mas eu gosto dela. E tem as outras, tô com algumas aí.

 

P/1 – E quem faz, você tem um tatuador?

 

R – Não, cara, a gente vai fazendo. Um vai fazendo tatuagem no outro, não tem aquele tatuador assim: “Ah não, eu quero tatuar com a Kat Von D.” Não, não tem esse negócio. Eu quero tatuar com o cara que me passe uma confiança, o cara que está do meu lado ali, é isso que eu quero fazer. 

Não adianta nada eu querer tatuar com um cara, mesmo eu sendo tatuador chegar no estúdio e o cara me tratar com arrogância, não vou fazer meu trabalho com ele nunca. Eu conheço vários que são assim, isso em qualquer profissão e na nossa ainda muito mais. Para a gente é complicado isso, porque a gente não consegue lidar com essa situação. Até pelo fato da gente ser bem humilde mesmo, a gente não consegue estar do lado de pessoas arrogantes, então a gente acaba se afastando um pouco. Esse lance da gente estar no bairro mesmo é até legal, porque a gente está bem afastado de algumas pessoas arrogantes, que para gente não fazem diferença, nem somam nem multiplicam em nada, tá ligado?

 

P/1 – E quando chega alguém novo aqui tem alguma especialidade de cada um,  alguma coisa que um gosta mais de fazer do que o outro?

 

R – Tem, velho, isso aí tem sim. 

 

P/1 – Conte para gente.

 

R – Isso aí é barato também, porque é bem importante no estúdio. Tem o Wood que gosta de fazer um lance mais psicodélico, uns trampos mais diferentões, umas art nouveau. Uns negócios que eu acho legais também, um puta trampo diferente, só que o pessoal ainda não tem tanta informação a respeito desse trabalho. É até legal, porque a gente também vai começar a passar bastante informação disso para os clientes. É bem legal, bem diferenciado, um trabalho bem louco. 

A parte de bodyart também é ele que faz, de modificação corporal, essas coisas todas. Eu acho bem legal, e pela região aqui, hoje eu acredito que não tenha… Eu sei que não tem o trabalho de bodyart feito como a gente faz aqui no estúdio, através do profissionalismo dele, tanto de modificação corporal de piercing, dessas coisas. Não existe, hoje aqui na região do ABC não tem, cara. A gente tem e dou até graças a Deus que o estúdio está à frente disso. 

Eu mesmo já sou mais focado no comics, no desenho animado, no 3D. Nessas paradas assim eu sou mais fissuradão, já gosto mais dessas coisas assim, desenho animado, até mesmo pelo lance mais de infância, da época de Hanna- Barbera. Essas coisas me influenciaram bastante nos desenhos. Gosto muito de coisa coloridona, saca? Gosto bastante mesmo, é o que mais me foca. 

Não sou focado no lance oriental, não sou muito fanático no trabalho oriental; acho bonitas algumas coisas, mas acho que falta muita informação ainda para o pessoal tatuar um lance oriental. Você tem que ter um conhecimento legal para poder tatuar a coisa, não adianta nada chegar e tatuar um dragão porque você acha bonito um dragão. Não é assim, a tatuagem não é você achar bonito. Se fosse assim, iria encher meu corpo com o rosto da Marilyn Monroe, com um monte de mulher bonita. Tem um monte de coisa bonita, cara, de carro bonito, você tatuar um monte de carro bonito em você só porque é bonito? Não. A mesma coisa [é] você tatuar um dragão. “Vou tatuar porque eu acho bonito.” Não, você tem que tatuar porque você tem que ter um conhecimento daquilo, se é aquilo mesmo que você quer para você, se é isso que importa para você - a tatuagem, né? - mas não fazer por impulso, não é legal.

Tem o Xari, que já é voltado mais para o lado oriental. Ele gosta mais, já tem um conhecimento maior, estuda mais a respeito disso. 

Todos os trabalhos que a gente faz aqui são estudados. O Wood, com o trabalho que ele faz, ele estuda aquilo que vai fazer. O trabalho que eu faço, também estudo o que vou fazer. É aquilo que eu estava te falando, a gente não tatua qualquer coisa, e o Xari é a mesma coisa. 

Tem o gerenciamento, que é do Luiz. Faz a parte do gerenciamento para a gente da parte da vendagem, dos acessórios, a parte de contabilidade do estúdio, tudo ele que faz para gente. O atendimento é ele que faz. E a gente está com algumas reformas na loja também, que é bem importante para gente: a parte do café que a gente está querendo montar para atender melhor os clientes, fazendo um ambiente mais aconchegante também. Nesses dez anos a gente tem que oferecer alguma coisa para a galera, cara, senão o pessoal bate na gente. (risos)

 

P/1 – Cleber, agora fale um pouquinho da sua família, da sua rotina fora do estúdio.

 

R – Meu, minha rotina fora do estúdio vou te falar que é bem cansativa. Ultimamente, estou sem tempo para nada, estou consumido um pouco pelo trabalho. Estou vivendo bem mais para o estúdio, mais para o meu trabalho do que para a minha própria família. Isso até é um pouco prejudicial, porque está me consumindo bastante. Mas é que nem eu te falei, é aquilo que eu gosto e o tempo da gente é bem curto, porque além dos trabalhos que a gente faz de tatuar, ainda temos o trabalho de criação, tem que criar desenhos. O cliente te liga, te pede um desenho, você tem que fazer. 

E tem as desistências de trabalho. Às vezes, você se programa para fazer um trabalho [e] a pessoa te liga desistindo: “Ah, não vou fazer mais.” Você perdeu aquele certo tempo criando ou procurando informações e isso te consome bastante.

O lance da família é também bem complicado.

 

P/1 – E você é casado, tem filhos?

 

R – Sou, tenho filho sim.

 

P/1 – E como você conheceu a sua esposa?

 

R – Putz, cara, nem lembro. Vou falar a verdade para você, porque eu estava bêbado no dia. (risos) Mas a conheci dando um rolê. A gente começou a namorar e está casado. 

 

P/1 – Cleber, eu posso só fazer uma parte mais avaliativa?

 

R – Certo.

 

P/1 – O que significa para você o Sônia Maria, morar aqui, ter o seu trabalho aqui?

 

R – O Sônia Maria significa a minha história de vida. A minha história de vida está toda aqui. A cada esquina que eu viro, cada viela que eu desço vejo a minha história de vida, porque eu andei isso aqui tudo, rua por rua. Qualquer parede que eu olhar aqui no Sônia Maria vou lembrar de alguma coisa da minha infância ou da minha adolescência, de uma namorada que eu tive, de alguma coisa. 

Não que isso para mim seja: “Ah, o cara ainda pensa na namorada.” Não é, é porque eu estou passando naquele lugar, você vai lembrar daquilo, cara. Eu acho muito louco isso, para mim é bem importante mesmo.

 

P/1 – E se você pudesse demarcar para a gente algum divisor de águas do bairro, alguma coisa que tenha acontecido que tenha mudado o curso, que tenha ajudado muito o bairro, o que seria?

 

R – A coisa que mais ajudou o bairro foi, eu creio, a parte de transporte, embora precária. Hoje a gente tem acesso a dois ônibus, que são a linha de Mauá e para Santo André. A gente tem esse acesso e [com] as vias de acesso que foram abertas você tem acesso a Santo André, tem acesso a São Paulo, então para a gente foi bem importante. Mas na parte cultural deixa a desejar totalmente. A parte de infraestrutura e de saúde, de tudo, meu, não existe; isso aqui não tem, não tem mesmo, infelizmente. A parte de comércio também é bem precária porque são poucos comércios aqui. A gente tem duas padarias para dois bairros - na verdade, duas padarias que são bem precárias. 

Mercado a gente não tem nenhum. Nossa, “tem uma mercadoria para mim”, “eu vou ali comprar no mercadinho de fulano”... No, você não vai conseguir, você vai no Wal-mart, você vai no Carrefour, você vai em outros; nunca vai no mercadinho do seu Zé, nunca. É difícil, só se for alguma coisa que você precisa de imediato, mas para você fazer uma despesa, alguma coisa, você não vai, entendeu? A gente não tem essa estrutura, fica bem fora.

O caixa eletrônico que a gente precisa bastante, o lugar para poder pagar as contas...  Tem a subprefeitura que você não consegue quase nada, bem pouco. As pessoas que estão na área são mal informadas, as que estão trabalhando. Eu creio que hoje você trabalha para um candidato e amanhã ele te arruma um cargo em algum lugar, independente desse cargo, onde quer que seja. De repente, você estudou para ser… Estudou música e está desempregado. Você trabalhou para um candidato nessa eleição, o que ele vai fazer? Ele vai te jogar lá na vigilância sanitária, você vai vir fazer uma inspeção aqui no meu estúdio e você não tem conhecimento nenhum da área, que nem aconteceu com a gente aqui. 

A gente teve esse problema. A pessoa não conhecia nada sobre vigilância sanitária, dos procedimentos que eram para ser tomados na área da saúde aqui no estúdio. Você vai ao posto de saúde, a mesma coisa: o atendimento das pessoas que estão lá… É cargo público, de pessoas que te prometeram o cargo, então a pessoa vai te atender mal porque ali não é a profissão dela, cara. Ela não gosta do que está fazendo, entendeu? 

Se você assumir prefeitura aqui… [Se] você vai obter uma informação de uma caçamba de entulho ou de onde você tem que pagar a conta, a conta de luz, alguma coisa, eles não vão saber te informar; vão te dar uma informação totalmente distorcida, até para poder sair daquele assunto, porque ele não tem uma informação. Se você prolongar o assunto com ele, ele já vai ficar perdido, então ele já te dá um não porque ele não sabe onde você tem que resolver. Ele te manda para algum lugar bem longe, não é o local correto, para poder sair daquele assunto. Ele fala: “Meu, se eu prolongar aqui vou me dar mal. Eu venho aqui para obter meu salário por mês e depois tenho que ir embora para casa, mas eu não sei o que eu tô fazendo aqui, saca, eu não sei.” 

Se você aparecer com um monte de papel para ele e falar: “Meu, onde eu procuro isso aqui? Onde eu encontro um médico ginecologista, um ortopedista que possa me atender agora, porque no posto não tem médico. Onde eu consigo fazer isso?” Ele vai olhar e falar: “Meu, não sei, vá lá no Nardini.” Ele não vai saber ou vai pegar um telefone para obter uma informação. 

São muito mal preparadas as pessoas para trabalhar nos cargos públicos hoje em dia. Vocês sabem disso. É bem complicado e para a gente aqui é muito mais ainda.

Hoje no Sônia Maria você vê mais catadores de [material] reciclável do que as próprias pessoas que estão estruturadas em alguma empresa, em algum lugar. Isso aí tem bastante. A gente vê porque aqui na avenida do estúdio passa bastante, hoje o maior meio de sobrevivência aqui é esse. Você tem uma renda, mas você tem que juntar latinha para obter uma renda maior no final do mês, ou você tem que vender alguma coisa paralela para obter alguma renda maior. Você tem que obrigar o seu filho a fazer alguma coisa, senão ele não vai ter uma bicicleta no final do ano. 

Isso gera a vontade de ter alguma coisa e quando você não consegue, não possui essa coisa, algumas pessoas te obrigam a buscar de outra forma; entram para a criminalidade ou para as drogas para tentar esquecer o problema que sofrem dentro de casa, do pai bêbado batendo na mãe, a mãe tendo que sair para trabalhar e deixando eles sozinhos em casa, então são obrigados a fazer isso, cara. 

Tem um monte de mãe solteira que cuida dos filhos. Aquele lance da creche que eu estava falando, isso é meio… É triste mesmo, a situação. Hoje a gente vê os carros de campanha eleitoral fazendo campanha para a gente, achando que a gente é idiota, saca, e que não tem o conhecimento do bairro. Às vezes, as pessoas olham para a gente e fala: “Pô, esse moleque aí não tem conhecimento nenhum.” Eu sou nascido aqui cara, conheço rua por rua. Conheço guia, sarjeta, vi muita coisa acontecer aqui, e hoje eu vejo esses carros de políticos andando para lá e para cá, prometendo um monte de coisa ou colocando papelzinho na sua porta com o mesmo plano de governo. 

Não existe plano de governo. Como é que você pode ter um plano de governo se você nunca conseguiu ser presidente da Sociedade Amigos de Bairro? Isso não é um plano de governo. Falar que você trabalhou na ação não é plano de governo, falar que você ajudou uma senhorinha a subir no ônibus, isso é dever de qualquer cidadão, saca? O Wood fazia um trabalho social em uns hospitais, de palhaço; [isso] é muito mais importante do que o trabalho desses candidatos a vereadores hoje aqui do bairro. Eu não conheço nenhum que tenha feito alguma coisa pelo bairro, nem tampar um buraco aqui, porque a gente ficou quase um ano com um buraco aqui na frente e não foi tapado esse buraco - um buraco feito pela ação, na época, da rede de esgoto. Então não venha o cara prometer uma coisa que ele não pode cumprir e nem vai cumprir, porque a gente sabe que ninguém é capaz de cumprir isso. 

Falam coisas absurdas, cara, e aí o que acontece? O povo analfabeto é bem mais fácil de ser manipulado. As pessoas procuram sempre a classe mais baixa, as pessoas de baixa renda, buscar essas pessoas para ele, porque ele promete uma cesta básica, promete onde morar, sua casa, de pintar seu muro. Eu me lembro que tinha época de política aqui que os caras pintavam o muro da casa do cara a troco do cal. Mano… “Puta, velho, pintar a frente da minha casa.” “Vou colocar a propaganda política hoje, mas quando acabar eu venho e passo cal.” O cara ficava todo contente, porque ele não tinha dinheiro para comprar tinta para o muro da casa dele e fala: “Pô, o cara vai pintar meu muro depois, meu, então vou deixar o cara pintar.” poluição visual, hoje você anda na cidade aqui dá nojo dá nojo de ver, porque o que adianta jogar meu papel de bala no lixo, colocar o meu lixo na rua, e o político jogar todo o lixo dele aí nos portões das nossas casas? E você ter que ficar limpando depois a sujeira dos caras? Os caras já fazem sujeira a vida inteira deles, ainda tem que ficar limpando sujeirinha de papel e um monte de coisa aqui, com o plano de governo. 

Você tem algum papel aqui? Eu queria até mostrar, cara. Se você pegar o plano de governo de dois vereadores, dois papéis, está escrita a mesma coisa em um e no outro. Só muda algumas palavras, o plano é o mesmo. Pega uma gráfica e fala: “Imprime esse monteiro de panfleto aqui, cara.” É o mesmo plano de governo do Batoré, do Tiririca, do Palhaço Carequinha, vai ser o mesmo. Por quê? Porque se a gente entrar lá a gente vai tentar fazer só isso aqui, mas não vai fazer também porque o povo não cobra. 

É muito mais fácil você votar na Vanessa Damo, que é bonitona, do que você votar em uma pessoa do bairro aqui que poderia fazer alguma coisa. Lá ela tem uma estrutura legal, ela é deputada. Mas o que ela fez para Mauá? O que ela fez aqui pelo Sônia Maria? O pai dela, na época aqui no Sônia Maria, só fez rodeio; acabou com o campo que a molecada tinha para jogar bola, veio com um monte de boi e colocou no campo. Para que, cara? O cara traz um monte de boi para o rodeio sendo que o pessoal daqui estava passando fome na época, com vontade de comer comida, carne, e o cara trazer um monte de boi para ficar pulando ali? Por que não dividiu, não deu, falou: “Ah, vou fazer um churrasco ali no campo para todo mundo.”  Não, veio trazer o rodeio. Era forma de cultura. 

Essa era a cultura que o prefeito de Mauá tinha. Um rodeio num bairro que a gente precisava de um monte de coisa mais importante. O posto de saúde estava fechando sem médico. Eu não sei se vocês conhecem ali, tem uma puta estrutura legal, e o cara preocupado com o rodeio na cidade, no bairro. Achava que ia camuflar qualquer tipo de coisa - em certa parte ele camufla, de algumas pessoas sem informação ele camufla, mas de outras não; tampar o sol com a peneira não adianta, não tem por que ele querer fazer isso. 

Hoje em dia, os candidatos que estão aí, que a gente vê por aí também são todos a mesma corja. Vai saindo um e entrando outro. Você vai acreditar em quem? Você tem que acreditar no ser humano, e quem é o ser humano que você pode acreditar? Nas pessoas que moram no seu bairro, velho, nas pessoas que estão aí no dia a dia, na luta, que você vê pegando o busão de manhã para ir trabalhar, saindo tardão, passando aqui cansadão do trampo. Esses são as verdadeiras pessoas que a gente deve acreditar, não na pessoa que vem aqui, que se lembra de você…

Meu, estou até com nojo de ficar aqui na frente do estúdio às vezes, porque fico olhando esses carros de campanha. Você o cara passar aqui uma vez por ano, o cara era morador do bairro mesmo e passa aqui falando besteira, saca? 

Eu acredito que o povo ainda vai se conscientizar e vai começar a cobrar mais. Eu pretendo, eu gostaria que as pessoas que vissem essas matérias que a gente está passando aí, falando, [se] lembrassem um pouco do que eu falei, das coisas que a gente tinha e hoje não tem mais, das coisas que a gente necessita - e são várias as coisas que a gente necessita - e cobrassem mais. Não só de: “Vou cobrar do cara que vai vir aqui na minha porta entregar o panfleto.” Isso não adianta, eu vou cobrar do cara que tá trabalhando para o candidato ou eu vou cobrar do candidato que nem tá eleito? Não, tem que cobrar mesmo, não só da prefeitura, do polo aqui. De um monte de coisa a gente tem que correr atrás, enquanto tiver vida e tiver pulsando um coração a gente tem que lutar, meu. 

Falei pra caramba. (risos)

 

P/1 – Cleber, só mais duas perguntinhas e a gente encerra.

 

R – Pergunta aí, mulher.

 

P/1 – O que você acha dessa ideia da gente fazer a exposição tentando resgatar a galera do bairro? As pessoas, perfis diferentes, com pensamentos diferentes, mas que moram todas aqui?

 

R – Eu acho muito louco ver o perfil, esses perfis que vocês estão fazendo aí. Na verdade, é como um projeto social, então eu acho muito louco. 

Eu acho que deveria ter mais iniciativas de outras ONGs ou que seja da prefeitura, até do próprio polo mesmo, de fazer mais trabalhos assim. Para você isso é uma forma de reivindicar, de falar o que você pensa, e as pessoas ouvirem e verem realmente o que é necessário para o bairro ou para qualquer tipo de estrutura que você esteja focado ali. Tem uma pessoa aqui no bairro que é bem legal vocês entrevistarem, se chama seu Dito.

 

P/1 – Seu Dito.

 

R – É um dos moradores bem antigos. Ele mora aqui na Rua Carmem Miranda. Eu acho muito legal também porque ele tem muito conhecimento do Sônia Maria. Ele é conhecido como Dito Mazzaropi, vocês vão encontrar ele aqui do lado do restaurante, nessa própria rua. Ele tem muita história, bem mais do que eu para contar.

 

P/1 – Ah, bacana.

 

R – Bem mais, até de prefeitos que passaram aqui. Eu tenho certeza que ele vai saber o nome de todos. E a gente já teve prefeitos bons aqui no Sônia Maria, para Mauá. A gente já teve prefeitos bons, que trouxeram a rede de esgoto para a gente, que trouxeram a parte de iluminação pública - foi o Amaury Fioravante, na época, que trouxe isso para a gente. 

Infelizmente, eu não sou muito a favor de política, não gosto de política, na verdade, tanto que eu voto nulo, mas quando o trabalho é feito tem que ser reconhecido e tem que ser falado. Ele fez alguma coisa pelo bairro sim - a parte do asfalto, a parte do esgoto, da iluminação pública, foi ele que trouxe isso para a gente. O posto de saúde foi ele que trouxe para o Sônia Maria, com ambulância 24 horas na época. Essa ambulância, depois, apodreceu na biblioteca do bairro; ninguém nem sabe onde tem uma biblioteca aqui no bairro, mas essa biblioteca fica na Rua Carlos Espera, na antiga igreja católica do Sônia Maria.

 

P/1 – Fica algum bibliotecário lá?

 

R – Eu não tenho esse conhecimento, porque não se obtém informações a respeito da biblioteca. Não se tem muita informação e deveria ter bastante. Fica na antiga igreja católica. Foi a primeira igreja católica do Brasil que eu conheci… Não que eu tenha muito conhecimento sobre igrejas, mas eu achava estranho quando eu era criança, porque era a única igreja que você descia. Você não subia escada, a igreja era tipo um porão, você tinha que descer para entrar na igreja. Era estranho isso, porque em todo lugar a igreja vai para cima, então a gente brincava e falava: “Até a igreja aqui pra nós é pra baixo, né, cara? Era onde a gente ia nas quermesses. 

Biblioteca tem, porém é como eu estava te dizendo, funciona da forma que tem que funcionar, é aquele negócio bem precário mesmo.

 

P/1 – E para gente encerrar, como é que foi para você, Cleber, voltar lá atrás?

 

R – Legal, cara, isso aí...

 

P/1 – Contar a sua história para a gente.

 

R – Eu achei legal porque a gente vivencia muito isso todo dia. Até mesmo por a gente estar sempre aqui no bairro, a gente sempre está revendo pessoas antigas, daí você começa a lembrar: “ Pô, o Fulano de tal, cara, fazia tempo que eu não via esse cara.” Você começa a contar a história para um outro cara e começa a relembrar. 

É muito importante você relembrar as coisas do passado. Só assim você pode, relembrando as coisas do passado que você progride mais para o futuro. Você vai ver onde você errou lá atrás, as coisas que ficaram sem fazer, vai tentar fazer isso no futuro. Você vai falar: “Eu não fiz isso antigamente, mas hoje vou tentar buscar isso aqui. Eu sempre tive o sonho disso mas não tinha condições, hoje vou obter condições pra isso.”

Eu acho bem legal o trabalho de vocês também. Fico agradecido por vocês terem me procurado, fico feliz mesmo. Achei bem legal a entrevista, legais as perguntas de vocês e espero ter respondido à altura do que vocês precisavam. (risos)

 

P/1 – Então, Cleber, a gente agradece a sua ajuda no nosso projeto. Muito obrigada mesmo.

 

R – Valeu mesmo, demorou.

 

P/1 – E a gente continua em contato.

 

R – Obrigado a vocês.





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