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História

Um projeto pra lá de cem anos

História de: Ricardo Villar Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/02/2019

Sinopse

Ricardo Villar, arquiteto responsável pelo restauro do Casarão do Morro dos Prazeres. Conta sobre o processo que envolveu a restauração do imóvel a fim de adaptá-lo de seu uso residencial original para o uso público pela comunidade. Fala da mistura de diferentes técnicas arquitetônicas, materiais e dos diversos projetos que foram cogitados para serem abrigados ali.

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História completa

P/1 - Bom Ricardo, nome completo e profissão por favor.

R – Ricardo Villar, arquiteto. [risos] 

P/1 - [risos] 

R – Tentativa de ser arquiteto.

P/1 – Ricardo conta um pouquinho como é que foi o teu trabalho lá no Casarão. Por quê? Quando aconteceu? Como é que foi um pouco dessa obra.

R – Olha, nós fomos chamados pelo Sérgio Magalhães, pelo _____

P/1 – Isso em que ano?

R – Em 1900 e... Estamos em 2002, 1998,1999, é  fácil. Depois eu te digo a data. É fácil porque está aqui no relatório. [risos]  2000. 1999. Em meados de 1999,no início de meados de 1999... Para a princípio fazer uma intervenção no Casarão e na intervenção fazer um estudo para o Casarão,que estava  em muito mau estado, aproveitando  e  fazer um plano de continuidade  aos planos urbanísticos do Morro dos Prazeres e do Escondidinho, que tinham sido interrompidos por uma série de razões que não me lembro. Assim iniciamos  o trabalho paralelo de fazer a urbanização do Morro, que era o Favela-Bairro. Para dar continuidade ao Favela-Bairro,estudamos pontualmente o Casarão, paralelamente para ver se a gente dava um jeito no Casarão. E dessa forma fomos estudando o Casarão, fomos aprofundando o estudo nele . Nos dedicando muito ao Casarão e sua história nos encantou ,a nós e ao pessoal da Secretaria de...

P/1 – Habitação.

R - ...de Habitação. E a história do Casarão foi encantando a todos e tomou um vulto maior. Nós fizemos uma série de estudos de arquitetura, estudos urbanísticos. Estudos de arquitetura para ver a estrutura do Casarão. Quando tinha sido estruturado aquilo e como tinha sido estruturado e se tinha salvação . E só encontramos uma maneira de salvá-lo . Que era fazendo uma intervenção muito forte de arquitetura dentro dele e uma intervenção de engenharia,pois  estava se desmanchando,se encontrava  em um estado crítico já. E esse estudo nós fizemos o primeiro, que foi aprovado pela Prefeitura e pela Secretaria de Habitação. Nós começamos o serviço no Casarão desmontando parafuso a parafuso, peça a peça, madeira...

P/1 – Então, como é que foi isso? Você registrava isso fotograficamente? Como é que aconteceu?

R – É, a primeira coisa que você tem que fazer em um caso desse é a história de restauração. Mas uma restauração direcionada a uso público é diferente, não adianta você só restaurar a construção. Você tem que restaurar e dar nova característica de arquitetura a ele. Quer dizer, ele vai ter um uso público, coisa que ele não tinha.

P/1 – Isso já era um ponto fechado quando você começou a obra?

R – Isso era um ponto fechado quando começamos a obra. 

P/1 – Entendi.

R – Assim: “Vamos dar um uso público a ele. Que uso? Não sabemos. Mas vamos dar um uso público.” E nós começamos a estudar qual era a intervenção de arquitetura. E chegamos a conclusão que tinha que demolir o Casarão quase todo, quer dizer, desmanchar o Casarão quase todo, catalogar todas as peças e remontá-lo. Remontar dando uma outra característica. 

[pausa]

P/1 – Falando do uso público. Quer dizer, era uma restauração voltada para o uso público?

R – É, o trabalho tinha uma outra conotação. Então isso mudou um pouco o trabalho. A característica do trabalho. 

P/1 – E por que é que você acha que o Governo se interessou por esse imóvel? Por esse, por que é que você acha?

R – Eu acho que se interessou primeiro pela localização que é belíssimo. Segundo pela necessidade que tinha a comunidade de ter um ponto  cultural avançado, ali. Não é um ponto cultural avançado, é um micróbio da cultura. Instaurar um micróbio da cultura em um ponto que era degradado, completamente degradado, que ia ser tomado pelo tráfico. Que ia ser, já estava sendo tomado pelo tráfico. Quer dizer, os bandidos já estavam tomando conta daquilo. Então a gente tinha que dar um... plantar uma pedra, não é? Plantar uma pedra cultural no meio da favela. Que eu acho que aliás é a solução, né? É a única solução. Não tem jeito. E começamos a fazer o estudo, vou voltar a falar da arquitetura que a gente fez. Começamos a fazer o estudo, foi aprovado como eu tinha te dito. E começamos a desmanchar o Casarão. Desmanchamos todo o Casarão peça a peça. E no meio desse serviço todo chegamos à conclusão que não dava para remontar com as mesmas características. Fizemos uma estrutura nova dentro do Casarão que permitia o uso público, né? Para você ter uma ideia - porque você não sabe o que, pode não saber o que é isso: Você tem que calcular uma estrutura para uso público com muito mais possibilidades do que uma estrutura para uso normal, para uso residencial.

P/1 – Porque pode ser um número x de pessoas que podem ir, frequentar. Material, o acervo, o livro, o peso, né?

R – É, porque você tem que prever que além de você estar lidando com o público você pode estar lidando com um número de pessoas não calculado. Você pode calcular para 10, irem 100 e cair. Então nós fizemos uma estrutura toda nova no Casarão e o remontamos dentro dessa estrutura. Em volta dessa estrutura,como uma capa.

P/1 – Estrutura é o quê? Estrutura é o, é o quê? Assim…[risos] 

R – [risos] Estrutura é a superestrutura. É o que sustenta as coisas.

P/1 – É o que sustenta. 

R – São os pilares, a laje, as paredes.

P/1 – Isso tudo você fez novo?

R – Tudo novo. Mantendo só a casca, sem desmanchar a casca. Porque se o Casarão se desmancha você não consegue montar nunca mais, porque as pedras vão embora, as pedrinhas vão embora. Então foi um trabalho muito árduo nessa... durante esse período. Fazer uma estrutura.

P/1 – Hum.

R – Muito criticado também. As pessoas criticavam porque achavam que a gente devia restaurar simplesmente. Mas não podia restaurar, porque senão não poderia ser  usado. Se a gente restaurasse o Casarão como ele foi feito, com as mesmas técnicas construtivas você não poderia  usar publicamente.

P/1 – Ah, entendi.

R – Ele não permitia. Ele é muito leve, bate um vento e cai.

P /1– E que técnica construtiva você encontrou lá? Por exemplo, você é capaz de datar, falar talvez a origem desse material? O que é que você pode...

R – Segurança total e absoluta a gente não tem, porque não tem, não conseguiu, não conseguimos nem nós nem ninguém. Ninguém da Secretaria conseguiu falar [pausa]... o pessoal não conseguiu o histórico da casa. ninguém conseguiu com segurança datar a construção dela. Mas estudando a arquitetura, desmanchando a casa e conhecendo um pouco do sistema construtivo – a história da arquitetura – a gente consegue não com exatidão, mas consegue uns 10, 20 anos de erro ou de acerto, né? Mais ou menos datar a construção. Estudando os elementos construtivos da casa. Então o sistema construtivo da casa nos diz que ela é da década de 1920, 1930, tá? Pelo sistema construtivo que são vigas treliçadas, vigas mistas, de técnicas mistas. De madeira e aço. Quer dizer, isso não era comum no Brasil. Nos leva a dizer também que não era uma construção portuguesa, nem ibérica. De maneira geral, não era uma construção ibérica, porque os ibéricos não costumavam fazer isso. E estudando mais ainda nos leva a dizer que aquela construção era uma construção quase germânica. Quer dizer, o sujeito que construiu pela primeira vez aquela casa trouxe essa técnica da Europa e trouxe provavelmente da Alemanha, Suíça, Áustria, por aí. Que a história diz que lá se fazia isso, alguns anos antes. Uma década ou duas décadas antes você encontra exemplos disso na Europa.

P/1 – Mas o material que você encontrou, era nacional por exemplo? Era material nacional? Brasileiro? Ou você tem...

R – Hum, a gente pode dizer que já era o ferro brasileiro e a madeira continuava a madeira importada. Que você tem muito pinho de riga na casa. Tinha muita, muita peroba do campo que já era nacional. E muito pinho de riga que era importado. Então é uma miscelânea. Podemos dizer que é uma miscelânea a casa. 

P/1 – Agora, você pode, por exemplo, afirmar que o que você encontrou é original da casa? 

R – Posso.

P/1 – Você acha que pode ter havido interferências nesses últimos 50 anos?

R – Não, não. Tirando um adendo que a casa tem ,que foi mantido inclusive pelo programa – a gente não falou do programa, né? Nessa história, toda entre constrói, não constrói. Constrói o quê? Constrói de que maneira? Nós montamos um programa para a casa. Isso é importante de se dizer. A casa foi direcionada a ser um centro cultural. A princípio ia ser uma escola de arte, que podia receber também uma escola de música e dança. Então todos aqueles espaços foram reconstruídos tendo isso em mente: em fazer um centro cultural mais aberto o possível, que pudesse permitir, né, um leque grande de, de, coisas.

P/1 – Não, e tem, quer dizer o ____________ tem as salas, né? Hoje é usado para balé.

R – É, hoje as salas são usadas para balé e foram boladas para ser salas de arte, de pintura. E o terceiro andar foi bolado para ser um atelier de desenho e pintura. Que tem tudo a ver, né? ___________

P/1 – Claro. __________

R – E as salas de baixo eram boladas para ser salas de música, inclusive um pequeno auditório. Está tudo preparado para aquela sala grande ser um pequeno auditório. É...o que é que a gente estava falando?

P/1 – Eu estava perguntando se você acha que pode ser original? Que não houve interferências?

R – Não, não houve. Tirando um adendo que foi mantido aquele adendo que foi bolado para ser uma escola de cerâmica...

P/1 – O adendo é do ladinho da cozinha? É um puxadinho ali?

R – O adendo é onde tem os vidros temperados, é um puxadinho. Aquele puxadinho ia ser demolido...

P/1 – Tem uma pia.

R – Tem uma pia. Ia ser demolido porque não era original da casa. Mas o programa da casa, de uso da casa já estava fechado aí nessa época. Nós conseguimos fechar o programa e foi aprovado todo. Quer dizer, todo mundo achou muito legal ter uma escola de arte ali, ter uma escola de cerâmica. 

P/1 – Quem é todo mundo? Quer dizer, quem é que ______

R – Todo mundo é o pessoal, é a Secretaria de Governo e a Prefeitura, né? Os cabeças na época que direcionaram o estudo de arquitetura e acharam que o programa estava fechado e aquilo se prestava muito bem a uma escola de arte para a comunidade. 

P/1 – Mas você, de que forma você como arquiteto intervém nisso ou não intervém? Quer dizer...

R – Intervém porque você conhece muito bem os espaços sabe para que é que eles podem se destinar, ou qual é o melhor destino para eles. É evidente que isso pode ser mudado, né, isso pode ser mexido. Mas a gente mais ou menos nesse caso direcionou o programa. Junto com a Secretaria da Cultura que também deu opiniões na época.

P/1 – E em relação às madeiras, a reconstituição  como é que funcionou?

R – Não, aquilo lá, estou voltando a falar, tirando o adendo que foi mantido por um problema de programa – que já não se podia mexer no programa – não se podia  tirar a escola de cerâmica. Que já estava assim, a escola de cerâmica ia ser um encanto lá. então não se podia mexer no adendo. E se resolveu manter o adendo. Mas tirando aquele adendo, o resto é tudo original. A casa,  todas as madeiras são originais. Todas, todas, todas.

P/1 – Como é que funciona isso, Ricardo? Como é que pode a casa estava caindo aos pedaços e agora estar daquele jeito tão bonita, tão...

R – Ah, foi um trabalho louco.

P/1 – Pois é. Mas como é que se trabalha com a madeira assim? Você tinha técnicos, vinha gente? Como é que...

R – Nós trouxemos uns técnicos até de Minas Gerais. Um pessoal que conhecia muita madeira. Estava difícil na época montar uma equipe grande de marceneiros aqui, por motivos óbvios, né? O dinheiro que a gente tinha também não era tão grande. E trouxemos uma equipe inteira de Minas Gerais, acostumadíssima a mexer em restauração de grandes casas em Minas. Muita madeira, muito ________

P/1 – Que legal.

R – Então trouxemos esse pessoal de lá. Foi uma ótima experiência. Pessoal da maior qualidade. E desmanchamos a casa catalogando peça por peça. Cada pedaço de escada era fotografado, numerado e com esse trabalho todo pudemos restaurar toda a casa como ela era. Peça por peça.

P/1 – Quer dizer, você então chegou, fotografou a casa...

R – Fotografamos, catalogamos...

P/1 - ...depois desmontou a casa e...

R – Desmontamos toda e remontamos a casa.

P/1 - ...a partir dos registros visuais é que você...

R – Dos registros, é. Sem registro é impossível fazer. Se você  não registra tudo você não consegue.

P/1 – Você chegou a fazer uma pesquisa anterior a casa, não?

R – Não. Não.

P/1 -  Você foi no que você encontrou ali. Você trabalhou em cima daquilo.

R – Fomos no que...é, trabalhamos em cima daquilo. Fomos desmanchando com carinho, com cuidado para não perder.

P/1 – E madeira, que madeira é aquela que está lá? Hoje assim... [risos]

R – [risos] 

P/1 – ...vários tipos de madeira?

R – Aquilo é uma miscelânea. 

P/1 – Miscelânea.

R - Aquilo tem basicamente peroba do campo, pinho de riga, né? Porque veio no início dos tempos brasileiros, vinha da Rússia como contrapeso. Então tem muito pinho de riga ainda no Brasil. E peroba. Peroba do campo e pinho de riga. E os adendos que nós fizemos, conseguimos um pouco de peroba do campo para fazer as restaurações, o restauro. E o que não conseguimos, que é quase que impossível você conseguir peroba do campo para tudo. Conseguimos, fizemos em ipê. Que é uma madeira extremamente resistente pra uso pesado.

P/1 – A escada central por exemplo?

R – Peroba do campo.

P/1 – Pois é, como é que foi o trabalho nessa escada que é linda e sensacional?

R – [risos]

P/1 – Como é, eu vi uma foto que a escada ficou, foi toda coberta no período da obra, depois...

R – É, nós tínhamos que usar a escada por um tempo. Enquanto da concretagem para ela não se estragar nós cobrimos ela toda, forramos ela toda com compensado.

P/1 – É, eu vi uma foto.

R – Depois nós fundimos a primeira laje e aí sim desmontamos a escada toda, fizemos uma escada de obra.

P/1 – Mas desmontou?

R – Desmontamos e remontamos. Nós ficamos com medo de usar a escada em obras e estragar a escada. Mas ela se comportou muito bem. Desmontamos parte por parts. Não foi preciso a estrutura dela estava tão boa, nós mantivemos a estrutura básica dela praticamente.

P/1 – Mas quer dizer, nessa escada a gente diz que ela é toda original ou pedaços que você usou...

R – Ela é toda original. O que você vai encontrar são diferentes estilos na casa ,de arquitetura.

P/1 – Quais por exemplo?

R – Mas é a cabeça do cara que fez a casa. Não adianta. Do proprietário. A escada tem um...você não pode falar em estilo porque é eclético total. 

P/1 – Pois é, eu não sei definir estilo nenhum ali.

R – Tem de tudo. Você começa com um portal basic art nouveau, né? Passa por uma escada iniciando art déco e ela volta a ser colonial em cima.

P/1 – Sensacional.

R – Ela passa a ser colonial do segundo para o terceiro andar. Então tem de tudo, né?

P/1 – E aquela escada em caracol? Já estava lá também?

R – A escada em caracol é uma escada toda em peroba do campo. Estava lá. foi toda desmontada. Restaurada também. e ela é interessante. Porque ela liga o primeiro andar ao segundo andar onde pela frente liga a escada art nouveau, art déco. E ela está ligando também os mesmos dois pavimentos e ela tem o estilo do segundo para o terceiro andar da casa.

P/1 – Ah.

R – É uma escada sei lá, do período colonial. Uma escada de estilo colonial, do período não. Porque essa casa a gente imagina que ela seja de 1920 como eu te falei. De 1920, 1930.

P/1 – E aí o que é que você acha: você acha que a pessoa, por exemplo, que construiu a casa mandou fazer essas escadas?

R – Tudo.

P/1 – Ou... Mandou?

R – Com certeza. Mandou fazer tudo. Isso era comum fazer no Brasil daquela época. Mandou fazer tudo.

P/1 – Quer dizer, ele tinha diversos gostos e foi montando e foi...

R – É, tinha diversos gostos, era um sujeito eclético. Você vê pelas esquadrias. Esquadrias mostram muito bem o ecletismo da casa. Você tem de um lado quase um pagode chinês. Do outro lado uma esquadria art nouveau, do outro lado uma esquadria...

P/1 – O que é um pagode chinês?

R – Pagode, uma arquitetura quase chinesa.

P/1 – [risos] De que é que você está falando? De...

R – É, de uma estrutura. Te mostro nas fotos aqui.

P/1 – Ahn. [risos]

R – [risos] Porque você tem, eu estou lembrando da casa agora. Você tem, você entra no segundo andar em frente você tem uma esquadria. Você tem um desenho chinês quase... É aquela redonda.

P/1 – Tem. Sei.

R – Né?

P/1 – Estou entendendo.

R – Do lado direito você tem uma que é art nouveau quase to... Nem art nouveau é quase guadiana. 

P/1 – [risos] Que ótimo. Bacana.

R – É. isso é um negócio que você pode botar aí.

P/1 – É.

R – É quase Gaudí. Um sujeito, você encontra aquele desenho daquela janela...

P/1 – No segundo andar do lado esquerdinho, você está falando ali.

R – É, eu te mostro aqui.

P/1 – É, me mostra.

R – Você encontra elementos...

P/1 – Essa está ótima. Elementos de Gaudí.

R - ...de Gaudi nessa casa, entendeu? Elementos de Gaudí mesmo. Que eram elementos dentro do art nouveau, com a interpretação do Gaudí. O que é que Gaudí fez? Pegou elementos do art nouveau e fazia a arte dele, né?

P/1 – Como é que você acha que era a cabeça de um arquiteto que faz uma casa dessas?

R – Ah, não tinha cabeça.

P/1 – [risos] 

R – Absolutamente sem cabeça [risos]. Não tinha cabeça. Não encontro. Não encontro. Acho que desprovido de qualquer elemento.

P/1 – Não. É, né?

R – Com uma vontade louca de fazer qualquer coisa. 

P/1 – Coisa, né? 

R – Aí saiu. Saiu. Que nada mais é do que uma casa muito divertida em matéria de arquitetura. Muito divertida que encantou as pessoas pelo inusitado, né? É difícil você encontrar em um lugar só, em um exemplo de arquitetura tantos exemplos de tantas coisas variadas. De tantos gostos. De tanto... entendeu?

P/1 – E o terceiro andar? Vocês deixam aparente até um pedacinho da parede, por que isso?

R – Não, deixamos para, para...

P/1 – Isso é...

R - ...só pra mostrar os sistemas construtivos que foram usados na época. Como ela tinha sido feita originalmente.

P/1 – E era pedrinha, era pedra? 

R – Era pedrinha, pedrinha, pedrinha. Quase não tinha cimento. Era pedrinha. Como se fazia quase tudo no Rio de Janeiro.

P/1 – Nesse período que você está pontuando...

R – Nesse período.

P/1 - ...décadas de 1920, 1930 ainda se construía assim?

R – Muito assim. A cidade, Centro da cidade está coalhado de exemplos de arquitetura assim.

P/1 – Alguma peculiaridade que você encontrou, que tenha te chamado muito a atenção? Quer dizer, fora essa questão de estilos diversos e tal? Alguma peculiaridade na obra, na arquitetura ou no material que tenha te chamado mais a atenção ou não?

R – Não, não, o cuidado muito grande com uma engenharia muito forte. Isso foi uma peculiaridade sim, é uma coragem muito grande do sujeito de fazer vãos enormes todos de treliças, todos leves. Era uma arquitetura muito light , muito leve, muito leve. Tirando, se você se abster dos muros da casa, o resto, a arquitetura por dentro ela é muito leve. Muito  leve. Isso me impressionou muito. A coragem do sujeito em fazer, entendeu? Os elementos construtivos mesmo, usar treliças nervuradas. Coisa que não se fazia nesse país. Não se fazia nessa época, né?

P/1 – Você acha que pode ter sido um brasileiro a fazer a casa?

R – Não acredito, eu acredito que era uma cabeça européia.

P/1 – Ou baseada em coisas européias.

R – Não. Acredito que seja uma cabeça européia. 

P/1 – É. 

R – Eu não, não foi, eu quase  100% digo para você que aquilo era a primeira casa que foi feita por um europeu. Trazendo sistemas construtivos dele. Talvez até eu me arrisque a dizer que o dono da casa era um engenheiro.

P/1 – É. [risos] Isso é bacana. Isso é uma...

R – Me arrisco a dizer que era engenheiro. E acredito que ele tenha trazido uma engenharia...

P/1 – Tinha um sotãozinho, tinha alguma parte em baixo que foi aberta eu vi umas fotografias antigas que aparece...

R – Tinha, mas é muito simples. Aquilo é muito simples. É um cuidado muito grande que eles tinham com umidade.

P/1 – Aquilo era o quê? Era um porãozinho?

R – Era um porãozinho não habitável. Não habitável.

P/1 – Porão.

R – Simplesmente era para soltar a casa da umidade. Que é uma coisa muito inteligente, uma situação muito inteligente. Você ao invés de plantar a casa no chão onde você tem o contato direto com o...você faz o embasamento, deixa ele oco e faz uma estrutura e monta a casa dali para cima. Isola, vamos dizer, um isolamento. Mas isso também era muito comum. Toda arquitetura que a gente conhece era feita assim. _______

P/1 – E do ponto de vista, assim, das vistas, né? Porque a casa, todo canto da casa tem vista, né?

R – Pois é, se você olhar bem a localização, quem está em Santa Teresa, você tem vários exemplos em Santa Teresa, até isso colabora para a gente firmar quase que era um gringo, era um suíço, era um alemão ou coisa parecida. Austríaco, tal. Se você for procurar em Santa Teresa nós vamos encontrar diversos exemplos muito parecidos com o Casarão. Pequenos  castelos que os caras...aquele castelinho lá do França. 

P/1 – É, Valentim, né, você está falando?

R – Uma série de casas que têm as características muito parecidas com o Casarão. Talvez não sejam tão ecléticas. Mas você vai encontrar...

P/1 – Porque ela foi construída virada para a Rua Almirante Alexandrino, era a entrada principal, não é isso? 

R – É, aquele edifício não existia.

P/1 – O Edifício Raposo Lopes, né, que eu estou procurando entender de quando é que ele é.

R – Ahn, não existia a favela.

P/1 – Também acho que é final da década de 1930, 1940. 

R – É, 1940.

P/1 – 1940, 1940 e pouco. É, mas quer dizer...

R – 1940 para 1950. Aquilo ali já é algo mais novo. _______ piscinão.

P/1 – Por exemplo o Cristo Redentor também é do final de década de ‘930, não sei. Quer dizer, também não tinha vista para o Cristo e...

R – Não, não. O que tinha era vista maravilhosa. A posição geográfica era muito boa. Em termos de sol, né? Ventos, ar ______________

P/1 – Pois é, você acha que isso foi pensado quando foi construída a casa?

R – Pensado. Aquilo era um deslumbre lá em cima. Imagina. Você vai fazer uma casa no alto do morro, não é? Como um castelo. Cabeça de europeu. Cabeça de europeu. Não tenha dúvida que aquilo era europeu. Aquilo é o cocuruto de um morro onde o cara ficava cavaleiro. 

P/1 – [risos] Que ótimo.

R – Ele vislumbrava todo o Rio de Janeiro, né? Você vê a posição é espetacular você vê do Norte ao Sul. Então você  vê 360...

P/1 – Não, exatamente.

R - ...quase de giro.

P/1 – Você tem 360 quase de giro mesmo.

R – Você vê a Baía de Guanabara inteira.

P/1– Toda, toda.

R – Inteira. Em dia claro você vê Niterói, você vê a entrada da baía, você vê o Pão de Açúcar, você vê... é uma vista linda do Rio de Janeiro. Os caras foram procurar aquele buracão lá para fazer a casa.

P/1 – Pois é, esse era uma coisa bacana de tentar recuperar: como é que se achou aquele lugar, como é que...

R – E aí as cabeças da época que era o Sérgio e o prefeito Conde, ficaram encantados com a posição da casa. E se você une isso a uma necessidade da comunidade de ter uma base cultural ali, é condição ideal.

P/1 – Havia contato de vocês com a comunidade durante a obra? Vocês empregaram pessoas da comunidade? Como é que foi isso? Havia curiosidade da galera durante a obra, como é que foi?

R – Não, havia poucas pessoas da comunidade interessadas na obra. Poucas, mas muito interessadas. Uns senhores  muito interessados, ainda tinha uns que contavam histórias que a gente não pode se firmar muito, se guiar muito por elas. Pessoas muito idosas.

P/1 – Alguma que tenha te chamado mais a atenção?

R – Ah, tinha um senhor lá que devia ter uns 98 anos que vivia contando história da casa. E, às vezes até é um defeito nosso, a gente não tinha muito tempo para escutar eles. 

P/1 –Pois é, é uma pena. [riso] 

R – Mas a comunidade tinha lá a sua direção que também não atrapalhava muito. Nos deu um pouco de apoio na época, porque o tráfico - aí fala mesmo, você tem que falar - dominava aquela área toda. E eles mais ou menos mantinham o tráfico afastado dos trabalhos. Até um ponto que foi possível isso. O tráfico dominou e ficou difícil se trabalhar lá. 

P/1 – Mas você já tinha acabado o seu trabalho?

R – Não, estava acabando. Os últimos meses foram muito duros. De convivência com essa...

P/1 – Mas você acabou seu trabalho?

R – Acabou, acabou o trabalho. Não cheguei a ficar feliz de ver o trabalho ser levado a cabo, né? Só depois que você ocupa, que você acaba o trabalho. Parece que agora está ocupado, né?

P/1 – Não, agora está.

R – Então me deixa muito feliz...

P/1 – Não, você vai lá assistir o trabalho da gente.

R – Me deixa muito feliz...

P/1 – Por favor. [risos] 

R – Me deixa muito feliz...

P/1 – Vou te mandar um convitezinho.

R – Me deixa muito feliz isso, torço por aquilo. A gente lutou tanto para fazer o melhor possível lá.

P/1 – E quanto tempo então que foi de obra, Ricardo?

R – Um ano e meio de obra.

P/1 – E era intenso?

R – Intenso. 

P/1 – Você acompanhou?

R – Dia e noite, sábado e domingo. 

P/1 – Passo a passo a história?

R – Acompanhamos passo a passo.

P/1 – Quer dizer, o teu escritório era o responsável por...

R – Nosso escritório era o responsável pelo Casarão. Nossos calculistas eram responsáveis pelo cálculo do Casarão. Nossos instaladores pelo cálculo e  pela instalação de tudo.

P/1 – Quer dizer, e o...

R – Responsável por aquilo funcionar ou não funcionar.

P/1 – Mas, quer dizer, houve meio carta branca para a obra em relação a Prefeitura? Deu, né?

R – Houve, houve. Nos deram carta branca sim. A turma da Prefeitura era muito reta com as coisas. Sabiam exatamente o que queriam. 

P/1 – Hum, hum.

R – Né? Tenho saudades deles.

P/1 – [risos]

R – É, isso não pode sair aí. Eu tenho saudades deles [risos]. 

P/1 – Um beijo, né, para eles está bom. [riso] 

R – Não, porque eles eram pessoas muito retas mesmo. Eles queriam mesmo. Tinha lá suas ligações políticas, todos têm, né? 

P/1 – Hum, hum. É, mas até do ponto de vista...

R – Mas eu separei, separavam muito bem. 

P/1 – Aham, aham. E no caso do Conti e do Sérgio Magalhães são arquitetos. 

R – É.

P/1 - ____________, né, também.

R – Somos todos arquitetos. Então a gente se deu muito bem, né?

P/1 – E você atribui ao Sérgio Magalhães o...quer dizer no fundo foi ele que teve o olho para o imóvel, que...

R – Atribuo ao Sérgio Magalhães e ao Conde. Os dois.

P/1 – O Conde era prefeito nessa época?

R – O Conde era prefeito. O Conde era o prefeito, o Sérgio era o secretário. E não posso nem te dizer quem viu primeiro a casa. Acho que foram os dois juntos. E eles são os responsáveis por aquilo.

P/1 – Você fez outras obras no Favela-Bairro lá nos Prazeres?

R – Fiz, fiz. Fiz a que também está inacabada que é a creche...

P/1 – Do lado do Casarão.

R - ...e uma parte grande de urbanizações que não foram levadas a cabo, até agora. Pelo menos até agora não foram levadas a cabo. 

P/1 – Hum, hum. Como o quê, por exemplo?

R – Como a Praça Doce Mel. A urbanização do entorno do viaduto. Uma praça grande, triangular que ficava no valão negro da favela. Nós íamos acabar com o valão negro. Íamos canalizar o valão e fazer uma enorme praça ali. Os primeiros trabalhos chegaram a ser feitos e não foi para a frente, pelo que eu saiba. 

P/1 – E por que...

R – E a creche. Que me dá uma pena muito grande. Porque a creche é fundamental para __________

P/1 – E por que é que vocês pensaram a creche ali do lado do Casarão? Tinha um por quê?

R – Tinha, tinha. É melhor você ter uma creche perto de um centro de cultura do que ter nas entranhas da favela. Era mais fácil de controlar. Além do que, aquela posição dali é a saída das mães, da favela. Grande parte das mães dali, saem por ali. Quer dizer, a saída natural do trabalho é o Casarão. Então nós deixamos a creche ali. Achamos a melhor situação.

P/1 - _____________________ pública perto, eles às vezes passam por ali?

R – Então a mãe quando chega do trabalho pega a criança e vai embora para casa. é a entrada. Ela não precisa ir até uma outra ponta da favela para trazer. Então o posicionamento foi por isso só e mais nada.

P/1 – E não tinha construção nenhuma ali? Creche?

R – Não tinha nada. Era um barranco, um mato.

P/1 – Você chegou...

R – Ah, tem uma outra coisa que colaborou também porque era uma parte, era um pedacinho do morro que estava com risco de desabamento. Então nós tínhamos que fazer uma obrinha para segurar. Então já que tínhamos que fazer essa obrinha para segurar. Ali era a entrada da favela, era a saída das mães, né? Era o ponto ideal para o tira e põe na creche. Juntamos isso à necessidade de obra de contenção e fizemos ali. 

P/1 – Você chegou a encontrar ou ver, por exemplo, uma piscina que tinha ali atrás?  Atrás do Casarão tinha uma grande piscina que a comunidade fala muito da piscina. Você chegou a encontrar?

R – Não.

P/1 – Pedaços da piscina, restos, você viu?

R – Não.

P/1 – Entre o Casarão e a creche, na parte de trás, era uma piscina que a comunidade tomava banho ali. Uma piscina grande que tinha.

R – Entre a creche?

P/1 – É, na parte de trás tinha uma piscina. Bem atrás, bem atrás do Casarão. Atrás da cozinha para cerâmica. 

R – Não. 

P/1 – Não?

R – Não tenho registro. 

P/1 – É? Disso, dessa piscina? Pois é eles...

R – Não sabia. Podia ser a piscina do Casarão que eles estavam usando, depois foram...

P/1 – Era a piscina do Casarão. Exatamente e aí também eu queria tentar entender qual foi o momento que aquela piscina deixou de existir ali.

R – Não, não tenho.

P/1 – Você não encontrou isso ali?

R – Não encontrei piscina. Nem vestígios de piscina.

P/1 – É? Exatamente nos fundos da creche com o Casarão era a piscina.

R – Não encontrei vestígio de piscina.

P/1 – É, era uma piscina que a comunidade diz. Até eu brinquei com o pessoal que diz que os padres, de repente, tomavam banho lá também.

R – Não encontrei e te digo mais: não encontrei nenhum vestígio. Porque eu fiz escavações...

 

[Troca de fita]

 

R - ...pronto tal, dinheiro.

P/1 – Você acreditava nesse projeto?

R – Acreditava, acreditava. Você, quando se engaja em um projeto, tem que acreditar. Porque senão, melhor não fazê-lo, não entrar. Em tudo que a gente entra a gente...

P/1 – É. 

R - ...acredita. Se não você não faz com coração. Não faz com... né? Tem que ir com o coração porque senão não faz. Porque a remuneração é horrível. 

P/1 – É?

R – Se fosse só pela remuneração você não entra em projeto nenhum, principalmente social.

P/1 – Ah, quer dizer você acha que tinha um cunho no teu escritório de uma certa forma com esse cunho aí social?

R – Tinha, tinha. A gente criou um vínculo. A gente queria resolver o problema... Alguns problemas, né? Todos não, impossível, mas queria resolver. Queria ajudar a resolver. 

P/1 – E foi uma obra caríssima, como é que é?

R – Não. Eu não considero cara não. Da urbanização eu não posso te assegurar quanto é que foi mas...

P/1 – Não, sim, mas assim dentro...

R - ...o Casarão custou um milhão de reais. Se custou isso. Nada de mais, muito mais dinheiro do que isso se joga fora por aí.

P/1 – Não, e _____

R – Sem cunho nenhum social. Sem...

P/1 – Eu vejo...

R – O importante é ter o resultado, você ter resultado. Aquilo é uma obra que vai durar 100 anos.

P/1 – Pode crer.

R – Ad eternum. Se for bem cuidado é indefinido. Sei lá quantos anos pode durar isso aí. Foi bem feito, foi feito para isso,foi feito para durar. Foi feito para uso público mesmo. Assim como a creche também está sendo, está muito bem feita. Estava muito bem feita.

P/1 – Não, mas eles estão tocando... Tem gente, bom, eu espero que...

R – Sei lá eu acho que...

P/1 – Tá legal. Obrigada.

R – Pega esse material todo aí, leva.

[pausa]

R – Os ladrilhos hidráulicos das varandas foram feitos em São Paulo em uma fábrica antiga de ladrilho hidráulico. Com desenho mais próximo possível do desenho original. 

P/1 – Quer dizer, o piso era de madeira? Dentro da casa era tudo madeira?

R -  O piso era todo de madeira.

P/1 – De madeira.

R – Todo madeira. 

P/1 – Vocês mantiveram madeira dentro?

R – O piso de madeira em baixo e em cima botamos ladrilho hidráulico que era o mesmo material usado na época. Por causa do uso público, o tal do uso público, eu precisava fazer uma estrutura de concreto e resolvi forrar de ladrilho hidráulico que era o piso da época.

P/1 – Não, deu super certo.

R – O piso é ótimo, é fácil de manter e brincar.

P/1 – Até porque aquela criançada brinca, é fácil de manter e o pessoal fica lá.

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