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História

Um príncipe brasileiro

História de: João Henrique de Orléans e Bragança (Dom)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/03/2014

Sinopse

Em seu depoimento o príncipe Dom João de Orléans e Bragança fala sobre a origem de sua família. Bisneto da princesa Isabel, Dom João nasceu e passou sua infância no Rio de Janeiro. Seu pai levava-o em suas viagens, despertando-lhe o gosto por viajar e pela fotografia. Dom João narra as dificuldades financeiras que o pai passou e como que aos 23 anos teve que assumir os negócios da família para ajudar o pai.

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História completa

Meu nome é Príncipe Dom João de Orléans e Bragança. Nasci no Rio de Janeiro, no dia 25 de abril de 1954. Meu pai, Dom João de Orléans e Bragança, nasceu no exílio, mas é brasileiro e nasceu na França. Minha mãe Dona Fátima Chirine nasceu no Egito. Papai era piloto da Força Aérea Brasileira e ele foi abrir uma linha comercial da Pan Air na época, que era uma companhia muito querida por todos que viveram nos anos 50, e era uma linha Rio–Cairo. E papai conheceu mamãe no Cairo nesse momento, se casaram e mamãe veio morar no Brasil. Meus avós maternos são também egípcios, mas de origem turca, ou seja, uma misturada, eu tenho bastante mistura de continentes e de raças, como o Brasil. O meu avô foi vice-governador do Cairo no Egito, eram muçulmanos. E do lado paterno, o meu avô era filho da Princesa Isabel, então, nasceu no Brasil e foram exilados, foi o maior exílio político da história brasileira, foram exilados no golpe da República. Foi um exílio de 32 anos, que a família pôde voltar para o Brasil. O meu avô veio para o Brasil, o meu pai veio também, e meu pai veio servir ao país, ele foi servir às Forças Armadas, no caso a Aeronáutica. Meus pais moravam no Flamengo, papai ainda era piloto, ele se aposentou como piloto da Força Aérea Brasileira. Ele nunca entendia a aposentadoria dele. Se aposentou com salário inclusive de Tenente Coronel, que não era dos cargos mais altos, não era um brigadeiro nem nada. Ele tinha muito orgulho da vida na Aeronáutica e os amigos que ele fez na Aeronáutica e tendo servido ao Brasil Eu sou filho único, mamãe tentou ter outros filhos, mas não conseguiu. Eu lembro que a gente morava no Flamengo antes de ter o Aterro do Flamengo, então a praia era logo em frente. Lembro das obras para fazer o Aterro do Flamengo, foi em 62, três,quatro; tanques passando no aterro recém inaugurado; os tanques no Golpe Militar de 64 eu tinha dez anos. Então, é incrível como as mudanças no século XX, 1900, como as mudanças no mundo inteiro, foram muito rápidas e muito fortes. Era um apartamento na Rua Tucumã, num apartamento com muitas peças de família, tinha quadros de Dom Pedro II, tinha retratos da Princesa Isabel, então, eu cresci muito no meio de retratos de família. Mesmo eu sendo jovem, papai gostava de escutar minha opinião sobre tudo e a gente discutia, quando ele me pedia ou falava para fazer uma coisa não era uma ordem, enfim, era um pai falando para um filho, mas que o filho, antes de tudo, tinha que entender aquilo que o pai falava. Então, eu acho que eu fui educado muito com esses valores, de que você pode ter um nome importante, mas você é igual a todo mundo e todos nós somos iguais, nascemos iguais e morremos iguais. A gente gostava de uma bola, subir numa árvore, brincar de esconder, de esconde-esconde, ou seja, um clássico de todas as crianças ao longo dos séculos, menos esse agora que nós estamos que tem uma variedade tão grande. Eu entrei na escola com cinco anos, seis anos. Era um colégio muito interessante, o São Vicente de Paula, era um colégio religioso, mas era um colégio com muita gente, uma educação boa e até me lembro, engraçado, era coisa do governo militar, mas eu acho que precisávamos hoje em dia, talvez, uma educação dessa, enfim, na época era uma coisa meio forçada pelo governo militar, que era a Educação Moral e Cívica. Lembro da Dona Luci, Dona Claudina, naquela época eram quase que mães as professoras para gente, porque era uma turma, a gente passava o ano inteiro, o meu colégio era semi-interno, então a gente almoçava no colégio, então era um convívio bastante longo, diário e longo. Eu gostei sempre dos esportes, gostava muito das aulas de Educação Física e gostava algumas aulas sempre na área de Ciências Humana. Ano novo a gente ia para Cabo Frio. No natal nunca entendia muito que o Papai Noel vinha sempre com roupas muito frias, eu sempre achava que ele tinha que vir com roupas tropicais, eu nunca gostei muito de abraçar costumes de outros países sem nada, do nada. Eu acho que a nosso cultura é tão rica e tão bonita, sempre achei muito estranho os papais Noel sempre muito cheios de roupa e pelos e cabelos grandes, mas tínhamos natal sempre em casa e geralmente era em Cabo Frio. Meu pai era muito religioso, minha mãe, que era muçulmana, se converteu ao catolicismo quando casou com papai. Mas nunca fui praticante, sempre foram mais os valores, os valores que as religiões, a maior parte delas têm, valores muito bonitos, valores humanos, valores de solidariedade, valores de ajuda ao próximo, que eu acho que se resume muito bem no budismo. O budismo tem uma postura muito bonita de ajuda e de não acúmulo, de não dar tanto valor. Alguns objetos em casa, quadros que pertenceram ao Dom Pedro II, pertenceram a Princesa Isabel, que era filha dele, passaram para o meu avô e papai, hoje estão comigo. Tem uma parte de arquivo, de cartas, que a gente doou para o Museu Imperial de Petrópolis, que eles conseguem conservar muito melhor uma quantidade grande de arquivos e documentos. A maior parte delas, a parte mais importante desses documentos hoje em dia está digitalizada e reproduzida em livros. E Dom Pedro II escrevia tudo o que fazia, tudo o que pensava, quase tudo, então os historiadores hoje agradecem muito e acham que aquilo foi muito importante para história do Brasil ele ter registrado com as próprias mãos as reuniões do Conselho Ministerial, os conselhos que ele dava à própria filha, as posturas. As cartas ficaram sempre com o meu tio e ele doou esse arquivo inteiro para o Museu Imperial. Quando eu era jovem eu não tinha dinheiro para viajar e queria fazer uma viagem de conhecimento, fui de cargueiro do Rio até o Japão e voltei pela Ásia, pela Indonésia, larguei o cargueiro e voltei, cruzei a Indonésia toda. E naquela época a gente tinha telex ou cartas, então eu tenho cartas até hoje guardadas, que papai e eu, a gente trocava por telex ou por carta, com desenhos nas cartas inclusive. Nós tínhamos casa em Cabo Frio quando Búzios não era nem conhecido ainda. Então, nós íamos para Cabo Frio numa época que faltava luz de noite, a gente ficava com luz de velas, mas era muito gostoso. Então, a gente passava as férias de verão todas lá e eram férias muito maiores do que hoje, mas eu tenho muito boas lembranças desses verões em Cabo Frio, 1961,dois, três, até seis, então eu passava todos os verões, então era muito bonito, muito bonito. Eu sou muito fácil de fazer amizade e gosto muito de me comunicar, então, logo que a gente chegou na casa, em 1961 e eu tinha sete anos, fiz amizade com todos os vizinhos. E eu lembro do nome deles até hoje e volta e meia eu passo ainda de carro e eu encontro com um deles, que foram meus amigos há 50 anos atrás, e a gente se abraça, se lembra, parece que essas amizades quando a gente é muito pequeno, parece que para mim foi ontem. As minhas amizades, justamente, foram esse grupo: era o Renato, o Oswald, o Valtinho, o Heleno, eram todos os filhos da comunidade local, e eu passava o verão inteiro com eles. Nessa mesma época eram férias em Cabo Frio, o Rio era colégio e praia. Como eu gostei de pegar surf na minha vida inteira, sempre foi um esporte que me fascinou. Comecei a pegar onda e surf em 68. Comecei a pegar onda no Arpoador, que era um lugar também que não era de elite, que era um lugar de classe média média. O meu apelido era João Príncipe. Comecei a usar cabelo comprido também numa época que as pessoas olhava a gente na rua, em 72, exatamente 71 eu já tinha cabelo comprido, quer dizer, 42 anos atrás, no Rio de Janeiro. Nessa época, 17, 18 anos, foi a invasão do rock, não tinha como você não gostar do rock, que era a música da contestação, e tinha MPB aqui no Brasil também, que era uma música de contestação, mas já era para uma turma mais velha e mais intelectual, eram duas tribos diferentes que contestavam e que queriam mudar o mundo, mas a nossa turma 17 anos, era uma turma que gostava mais nessa época do rock, e era o rock também que contestava o mundo inteiro, era contra a Guerra do Vietnã, era contra a poluição. Ouvia todos os músicos, por exemplo, que foram ao Woodstock, como Crosby, Stills & Nash, The Who, Ten Years After. Então, todos esses conjuntos, repito não só pela música, mas pelo acontecimento de um festival que reuniu 500 mil pessoas. Nunca fui de dançar muito, eu gosto muito de carnaval, eu toco tamborim num bloco do carnaval do Rio há muitos anos. Não gosto dos bailes de carnaval, gosto é de carnaval de rua, mas era uma época muito bonita, começo dos anos 70 que eu peguei. Eu fui estudar Zootecnia, na Universidade Rural, no Rio de Janeiro. Sempre ainda ligado ao campo, papai sempre gostou muito do campo. Meu filho se forma daqui a 30 dias, em pós-graduação e vai morar em Cingapura. Eu fui estudar Zootecnia, mas eu não pude me formar. Papai tinha uma pequena propriedade em Paraty, ele teve problemas com negócios dele e eu tive que ajudar ele a resolver. Eu fui obrigado com 23 anos a me debruçar e resolver problemas de burocracia, de problemas que ele tinha se enrolado todo, nada de mega empresa, não era um banco, não era nada, simplesmente ele foi se meter, fazer negócio pequeno. Ele tinha umas terras, ele pegou um pouco de dinheiro emprestado no banco para fazer uma pequena indústria, uma indústria para industrialização para fazer creme de banana. Os sócios dele saíram no meio e papai quebrou. Quebrou em 1966, eu era pequeno ainda, eu tinha 12 anos, mas se enrolou muito. Até em 76, dez anos depois, ele continuava enrolado, sem resolver todos os problemas, e foram piorando os problemas, eu tive que parar de estudar para ir lá e gastei uns dois, três anos resolvendo tudo isso e só pensava em trabalhar e resolver isso, e consegui. Depois disso eu tive uma aula muito boa de vida, com 23 anos tendo que resolver problemas e discutindo com advogados. Foi um aprendizado ótimo, realmente, e daí eu acreditei na região. Em Paraty, eu vi que o turismo seria um bom caminho e que se conseguissem proteger aquele paraíso, tanto a floresta quanto o mar e quanto a cidade histórica, que aquilo não tinha como dar errado, tinha que dar certo em matéria de turismo planejado. Então, a vida inteira eu lutei muito praquilo, para aquela região toda se preservasse. Quando eu podia eu fazia um negócio, eu comprava um sitiozinho, então, e fui fazendo empreendimentos imobiliários também nesses anos. Nos últimos 35 anos eu devo ter metade do meu tempo em Paraty, metade no Rio, fim de semana no Rio e semana útil trabalhando fora do Rio. Eu já queria registrar tudo o que eu via, eu sempre digo que, enquanto os meus amigos iam para Disneylândia, meu pai me levava para conhecer as florestas, me levava para conhecer um museu. A gente viajou muito pelo Brasil todo, então o meu interesse pela fotografia não era pela estética da fotografia, mas sim em registrar as viagens que eu fazia. Fui sempre autodidata, e sempre muito interessado, mas sempre em registrar nossa gente. Cruzamos a Austrália também toda, o deserto da Austrália, terra de cowboys e tudo. Viajei para a Ásia, queria uma cultura diferente, eu sempre quis o novo e sempre admirei a cultura asiática. Foi uma experiência interessante ir do Rio ao Japão, parando pela China, em Cingapura, em Macau, do lado de Hong Kong, uma experiência muito interessante, colônia portuguesa Macau. Fui com dois amigos, que a gente é super amigo até hoje. Fiquei um ano viajando, fiz isso com 22 anos. Eu tenho dois filhos, João Felipe e Maria Cristina. Maria Cristina nasceu em 90, tem síndrome de down, foi um desafio muito bonito que nós passamos, ela está com 23 anos, está escrevendo um livro agora, o segundo livro dela, vai ser lançado na FLIP em Paraty. O primeiro chama João Felipe. Ele nasceu em 86 e hoje em dia ele formado, trabalhando do outro lado do mundo. Fiquei casado 24 anos. Conheci ela num réveillon, com amigos em comum, e somos super amigos até hoje, claro, não podia deixar de ser. O meu maior sonho hoje é ver, continuar vendo o Brasil melhorando, mas sem a corrupção e sem a roubalheira que temos hoje no país, descarada, aberta e impune. O meu país vem em primeiro lugar, talvez o meu sonho seja o sonho do meu país. Eu acho interessante o trabalho de vocês, principalmente, porque eu sou um antropólogo frustrado, sem diploma, eu acho que a ideia do Museu da Pessoa é muito interessante, de registro de histórias de vida e muito interessante, parabéns.

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