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História

Um poeta oculto

História de: Carlos Henrique Rivaben Marotti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Depois de diversas mudanças de casa, a família do paulista Carlos Henrique resolveu, enfim, se estabelecer em uma residência própria, numa vila do bairro do Jaçanã, em São Paulo. Ali, ele jogava bola e brincava na rua até não poder mais – ou até a mãe ficar brava e contar suas travessuras para o pai. Não foram poucas as surras pesadas que o menino levou. Apesar da violência caseira, comum a tantas crianças de sua época, Carlos Henrique cresceu com a sensibilidade aflorada. Sentiu-se deprimido quando o irmão deixou a casa em que moravam, para se casar, e foi resgatar o equilíbrio entre o corpo e a mente na meditação zen-budista e nos exercícios de ioga. Foi em uma dessas aulas que conheceu Sônia, sua futura companheira, com quem teria uma filha. Tocado pelas histórias da vida, este emotivo funcionário publico ainda se desenvolveu como poeta, embora prefira deixar suas poesias guardadas – quem sabe, um dia, alguém resolve publicá-las?

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História completa

Meu nome é Carlos Henrique Rivabem Marotti. Eu nasci no interior de São Paulo, na cidade de Rio Claro, em 14 de setembro de 1956. Minha mãe era dona de casa, como era naquela época. O meu pai, uma pessoa que sempre trabalhou muito e em vários tipos de emprego. Ele trabalhou o resto da vida como vendedor, para empresas de Rio Claro. Ele era o representante comercial, aqui em São Paulo, dessas empresas, e trabalhava no ramo, atendendo açougues. E ele trabalhou muitos anos com isso e acabou se dando bem.

 

Nós nos mudamos muito pela cidade de São Paulo, muito, muito, muito. Moramos na Zona Norte, na Zona Leste, moramos no interior de São Paulo, moramos na Zona Oeste também, em vários lugares. Era sempre um transtorno, era uma coisa que a gente não gostava. Era um local novo e tinha que se enturmar por ali. Nova escola e tudo.

 

Tive várias casas de infância. Tive uma, um pouquinho mais importante, que foi quando meu pai finalmente comprou uma casa. Foi no bairro do Jaçanã. Era dentro de uma vila, e minha vivência ali foi muito rica. Eu devia ter uns 14, 15 anos. Convivi com várias pessoas que moravam dentro dessa vila. Crianças, né? E a gente tinha um hábito muito bom de jogar bola na rua. Fizemos campeonatos, chegamos a construir trave com rede, andamos de bicicleta, de patinete, carrinho de rolimã! Fizemos tudo o que uma criança saudável podia fazer na época: empinar pipa, jogar taco, brincar de queimada, vôlei, tudo, tudo, tudo. Amizades muito boas.

 

Eu era meio levado, no sentido de esquecer da vida na rua. E, aí, a minha mãe falava: “Olha, vou contar para o seu pai quando ele chegar em casa”. E ela contava mesmo. E meu pai chegava em casa, sabia da história e, para não perder a autoridade, ele tinha que me bater. Estando bem ou não, nervoso ou calmo, ele tinha que me bater. Então, a diferença das surras estava aí, em como ele estava no momento. Se ele estivesse muito nervoso, ele descontava em mim. Se ele estivesse mais calmo, era uma surra de leve. E raramente não tinha surra, ele só dava uma bronca. E era assim, muitos amigos meus passaram por isso.

 

Era uma coisa horrível, era uma violência. Era uma coisa que doía, aquela tensão de saber que vai passar por isso daqui a uma, duas horas. E depois você até torcer pra não acontecer ou, se acontecer, que aconteça logo pra encerrar o assunto. Era uma coisa lamentável. Eu não faria nunca com uma filha ou filho meu. Hoje em dia, é até absurdo, embora eu saiba que aconteça pelo Brasilzão afora.

 

Foi na década de 80 que eu acabei, até por dificuldade em arrumar emprego, prestando um concurso publico no Ministério da Fazenda. E eu passei. E, aí, quando meu contrato estava pra terminar, eu prestei outro concurso. Prestei vários concursos. E prestei e entrei. Lembro que era um concurso pra Previdência. Eu passei, e eles me chamaram, não pra trabalhar na Previdência, mas sim no Ministério do Trabalho. E eu aceitei, entrei e estou lá até hoje. Faço o que eu gosto, descobri uma outra profissão, muito técnica, e em que eu me encontrei também. E espero me aposentar nisso.

 

A única dificuldade foi quando meu irmão saiu de casa, que eu morava com ele. Porque meu irmão se casou e foi pra Santos. E eu sempre fui muito ligado a ele e ele a mim. Eu comecei a ficar muito mal, fiquei deprimido e comecei a ter a ideia que era pela ausência dele que eu estava deprimido. Foi aí que eu conheci a Sônia, com quem eu tive essa filha, tivemos um relacionamento. E, a partir daí, nós estamos juntos. Foi graças a isso que eu nasci pra vida de novo, pra uma outra vida. É como se tivesse virado uma página. E foi aí que minha vida mudou.

 

Foi numa escola de ioga que a gente se conheceu. Eu sempre estive muito ligado nessa parte de filosofia oriental, fiz muita meditação zen-budista num templo da Liberdade. E hoje eu faço numa academia de ioga perto de casa essa mesma meditação. Você vai praticar a meditação zen-budista, normalmente, em conjunto com outras pessoas. Você faz sentado, geralmente numa almofada, que eles chamam de zafu, e voltado pra uma parede branca. E fica todo mundo em silêncio e você tem que aquietar a mente. As sensações vêm e você deixa passar. E você tem que buscar o vazio. A mente tende a encher de pensamentos e você não tem que lutar com esses pensamentos. Tem que deixar eles virem, e eles naturalmente vão embora. Até que chega uma hora que sua mente aquieta. Sua mente fica calma, e, aí, você sente. Se tiver que sentir alguma coisa, seria uma paz muito profunda. É um prazer muito bom.

 

Eu sempre gostei muito de escrever e eu fiz várias oficinas literárias e participei de vários grupos literários, que se reuniam pra escrever. Ganhei vários concursos literários também. Aquilo funcionou no início pra mim como uma terapia. Era uma maneira de pôr pra fora tudo aquilo que eu estava vivendo e sentindo. E era um desabafo. Uma poesia, essa deve ser daqui de São Paulo, chamada “Solidão”:

 

A noite era um frio metal,

toda ela cheia de alfinetes de chuva

a umedecer as luzes dos postes da rua,

e onde o tempo não passava,

de um cachorro seguindo o seu bêbado.

Um farol de carro luzia bem ao longe,

feito uma vela para a noite.

Vindo, vindo, vindo, mas nunca, nunca chegando.

 

E eu não compartilho essas poesias, eu guardo. Já tentei mostrar pra minha filha, não se interessou muito. Então, eu guardo, quem sabe um dia isso será mostrado. Eu já falei pra ela: “Tá tudo guardado aqui, se um dia você se interessar e quiser publicar, fique à vontade”.

 

Não tive histórias tão grandiosas, mas foram histórias que me levaram de um ponto ao outro. E eu percebi evolução do começo até hoje, percebo isso ainda hoje. E isso me dá satisfação, eu gosto muito. Eu acho que uma palavra resume bem isso: “transformações”. Essa coisa de você perceber que a vida vai se transformando e que você, ao mesmo tempo, tem que perceber esse tipo de coisa pra se ajudar, procurar um autoconhecimento também. Não é uma coisa fácil, mas eu acho que essa palavra diz muito.



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