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História

Um pedacinho da Lituânia na Grande São Paulo

História de: Albino Kulnys
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Nesta entrevista, Albino Kulnys nos conta sobre sua carreira, sua relação com a família e as tradições culturais lituanas no Brasil. Também narra os detalhes de sua longa trajetória profissional desde adolescência até aposentadoria na Rhodia, incluindo o grande aprendizado que adquiriu trabalhando em diferentes áreas deste grande grupo empresarial. Albino também relata os melhores momentos de sua vida ao lado de sua esposa, familiares, amigos de trabalho e sua paixão pela música erudita que o levou a ser um dos organizadores da Orquestra Sinfônica de Santo André.

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História completa

P/1: Bom, senhor Albino, como a primeira pergunta, eu pediria para o senhor se apresentasse: o nome completo do senhor, data de nascimento e local de nascimento.

 

R: Então, meu nome completo é Albino Kulnys, nasci em São Paulo, capital, na época meus pais moravam bem no centrão mesmo, não me recordo onde eu nasci, numa maternidade, no dia 03 de junho de 1931.

 

P/1: 1931.

 

R: Então já faz 67 anos, quer dizer vou entrando nos 68.

 

P/1: 68?

 

R: É, já pago meia no cinema, pago meia-entrada.

 

P/1: E os pais dos senhor, qual o nome deles?

 

R: Os meus pais, o meu pai Apolinaras Kulnys e minha mãe na realidade não Ana, mas seria Ona Kulnys, o que seria Ana para nós, eles são lituanos.

 

P/1: Lituanos?

 

R: É, lituanos; eu sou brasileiro - nasci aqui mesmo - e a minha irmã, tenho uma irmã que veio da Lituânia também com seis meses.

 

P/1: Com seis meses?

 

R: É, com seis meses. Saíram da Lituânia em 1929, uma época muito difícil e tal, então eles vieram tentar... a sorte...

 

P/1: Já casados?

 

R: Já casados. Os meus pais casaram com 20 e poucos aninhos, aliás parece que isso é tradição da família, porque eu estou seguindo também - eu casei com 22 anos, ia fazer 23 quando eu casei e... que mais? dos meus pais... os meus pais já são falecidos os dois, meu paizinho foi com 80 anos e minha mãezinha foi com 88 anos.

 

P/1: 88? Eles faziam o quê, senhor Kulnys?

 

R: O meu pai trabalhou na Rhodia também. Ele entrou na Rhodia em 1931, em agosto, no ano que eu nasci ele. Entrou na Rhodia e ficou até 1962.

 

P/2: Nossa!

 

P/1: 1962?

 

R: É, ele trabalhou 31 anos na Rhodia. Isso quer dizer que ele realmente amassou muito barro na Rhodia, porque em 1931 a Rhodia estava na realidade com 10 anos de vida. Ela foi fundada em 1919 na França, em dezembro de 19, então a partir dos anos 20 que começaram os materiais a serem importados aqui no Brasil, exportados da França - porque até as telhas, tijolos, tudo vinha da França naquela época.

 

P/1: Tudo vinha da França?

 

R: Então, e ela começou a atividade fabril mesmo em 1921. Quer dizer, então quando o meu pai entrou na Rhodia, a Rhodia era...

 

P/1: Tinha uns 10 anos.

 

R: ... uma garotinha de dez aninhos.

 

P/1: E ele entrou para trabalhar evidentemente com o quê?

 

R: Meu pai entrou com...

 

P/2: Como que... mas vocês moravam em Santo André?

 

R: É, nessa ocasião já morávamos em Santo André, nós tínhamos saído... saído de São Paulo... olha, meus pais vieram para cá como imigrantes inclusive, foram em fazenda de café, etc. e tal.

 

P/2: Porque que eles vieram para cá?

 

R: Na Lituânia estava muito ruim a situação. Se bem que falava-se também, os pais, não sei do meu pai ou da minha mãe perguntaram inclusive: “o que vocês vão fazer na América, no Brasil, vocês vão comer milho?” Porque não sabiam bem o que era o Brasil e o meu pai na realidade tinha um direcionamento, ele estava com vontade de ir aos Estados Unidos, não sei porque cargas d’água acabou vindo aqui para o Brasil, está vendo? Veio tentar a sorte, sem saber uma palavrinha de português, absolutamente nada. Então foi muito difícil, mas até é interessante... eu posso antecipar com uma...

 

P/2: Claro.

 

R: ... com uma coisinha que eu tenho aqui, quer ver? É uma publicação, é a Rhodia Atualidades, vocês devem conhecer. Então, quando o meu pai saiu da Rhodia em 1962 olha, aqui vai... vai falar um pouquinho do meu pai; olha aí era bonitão o meu pai inclusive está vendo.

 

P/1: Ah, é!

 

R: Vocês permitem que eu leia rapidinho aqui, assim olha.

 

P/2: Claro.

 

R: Então, era novidade na Rhodia. Eu acho que ela começou em 1962 ou 1961 a Rhodia Atualidades que hoje é a revista Rhodia. Ela publicava a galeria dos que se aposentavam, aqui coincidiu que tem ele e uma senhora também. Então, olha, aqui é o resumo da vida do meu pai na Rhodia: “Nossa galeria embandeira-se hoje outra vez para prestar homenagem àquele que recebe o número 27 pela ordem dos que se aposentam pela Rhodia”. Vejam bem, era o 27o...

 

P/2: Ele era o 27o a se aposentar.

 

R: ... que estava se aposentar...

 

P/2: Que interessante.

 

R: .. na Rhodia, porque a Rhodia... “... após o advento da nova lei orgânica da Previdência Social. É ele, como o chamaríamos familiarmente o gringo Apolinaras Kulnys, um bom lituano que aportou nesses Brasis exatamente a 6 de dezembro de 1929. Apolinaras como outros milhares e milhares de alienígenas deixou sua velha (Sheliai?) na longínqua Lituânia para tentar a sorte na cobiçada e jovem América. Em aqui aportando não perdeu tempo, com vontade férrea e a tenacidade daqueles que querem vencer Apolinaras não esperou que a sorte lhe caísse do céu, pôs-se a trabalhar e a trabalhar incansavelmente; a princípio teve algumas dificuldades, ambientes e costumes diferentes, língua difícil de falar e mais difícil ainda de compreender não foram entretanto obstáculos para Apolinaras. Trabalhou em vários lugares, inclusive na Fichet”, era uma fabriquinha perto da Rhodia naquela ocasião também de origem francesa. “E em 24 de agosto de 31 enfileirou-se àqueles que formariam esse colosso que se chama Rhodia iniciando a sua carreira como simples servente em nossa seção de fabricação de acetato de chumbo, junto a fabricação do ácido pirolenhoso”. Então esse “um simples servente”, é o que eles chamam hoje de ajudante geral.

 

P/1: Ajudante geral.

 

R: Você pega o ajudante geral, quer dizer, não tinha profissão não tinha absolutamente nada. Aliás não tinha um curso primário nem na Lituânia, a vida lá tinha sido muito difícil para eles, então nem o curso primário ele fez. “Hábil e correto, sempre pronto a executar as mais árduas tarefas não lhe foi difícil atrair sobre si as vistas de seu chefes que dentro em pouco a 1o de julho de 1937 eis então menos de seis anos, o premiaram com uma chefia na seção de Bicarbonato de Sódio”. Porque não por ser meu pai, mas ele era muito inteligente. Ele não tinha uma cultura de escola, mas ele tinha uma habilidade manual incrível, ele fazia uma instalação elétrica de 220 volts sem desligar, sem nada - porque ele sabia exatamente onde mexer, nunca tomou um choque, fazia um serviço de pedreiro, fazia um serviço de funileiro. Então resultado, ele acabou sendo chefe de uma seção. Nessa época na Rhodia, sem dúvida nenhuma, quem soubesse que um triângulo tem 180o já era um superdotado, porque a maior parte não tinha, não tinha escolaridade. Quer dizer a maior parte não tinha uma profissão definida, então ele foi nomeado chefe em 1937 desta seção Bicarbonato de Sódio, a Bicarbonato que existe até hoje (não ?) fabricado pela Rhodia. “Posteriormente por volta de 1942 com a instalação da fábrica “A”, Apolinaras foi indicado para chefiar um de seus mais importantes setores que ainda hoje é um dos mais importantes da fábrica “A”, é a fabricação do Acetol, o famoso acetato de celulose. É nesse posto que vem ele se aposentar, sua perseverança, seus esforços e sacrifícios foram plenamente recompensados e hoje se não rico, mas despreocupado em relação ao futuro que já tem assegurado, Apolinaras distrai-se em seu apartamento em Santos deliciando-se com as alegrias que lhe proporcionaram os netos que Angela (a minha irmã) e Albino lhe deram. Ao Apolinaras nós que ainda aqui continuamos na luta, enviamos o nosso abraço e a certeza de que a estima e a amizade que lhe dedicamos é a mesma que lhes tributam todos aqueles chefes e subordinados, que com ele labutaram no decorrer desses 30 anos bem vividos nos meios Rodhianos”. Olha, dá uma olhadinha aqui, a figura aí...

 

R: Se bem que essa fotografia sem dúvida não foi do momento que ele se aposentou, aí ele estava... era bem mais jovem.

 

P/1: E nessa época, a família mudou toda para Santo André?

 

R: Aí estávamos todos em Santo André. Quando ele se aposentou eu já estava na Rhodia, quer dizer eu entrei em 1947...

 

P/2: Mas, primeiro a sua família chegou em São Paulo?

 

R: É, em São Paulo. Primeiro eles foram...

 

P/2: Eles tinham algum parente aqui? Tinham parente em São Paulo?

 

R: Não, ninguém, nada. Eles foram trabalhar em fazenda.

 

P/1: Primeiro em fazenda?

 

R: Em fazenda como imigrantes, depois... o negócio não é que saíram da fazenda, o negócio foi meio fugido, fugiram de fazenda, um negócio assim e vieram para cá...

 

P/2: Fugiram de fazenda porque era um trabalho muito escravizado?

 

R: É, fugiram... Exatamente, era um trabalho quase escravo mesmo. Então, e nessa ocasião como eles vieram, vieram no navio Caparcuna... é gozado que essa fotografia está com a minha irmã do naviozão, sabe, um transatlântico luxuosíssimo...

 

P/2: Deve ser lindo...

 

R: Grande assim, só que eles vieram no porão lá embaixo, assim sabe? É no porão, nada de convés esse negócio todo. Foram 12 ou 15 dias de viagem e veio uma leva muito grande. Todos esses lituanos, eles procuraram depois que saíram das fazendas que eles fugiram também, nesta região do centro que é onde hoje é bem a boca do lixo mesmo, sabe? Mas, eu não sei exatamente o local...

 

P/1: Consolação, aquele pedacinho ali.

 

R: É ali perto, mais próximo da Estação da Luz assim, uma travessa.

 

R: ... perto da rua Aurora, por ali assim sabe, por ali. Até já há muitos anos, há muitos anos sem dúvida, hoje acho que nem existe, nós fomos dar um passeio e meu pai mostrou: “olha é aqui”: tinha o portão de ferro e era um tipo de um cortiço também e onde estavam quase todos os lituanos - e alguns lituanos eram de origem judaica, eram lituanos nascidos na Lituânia, porém judeus, que hoje até os descendentes ainda estão muito ricos, porque o meu pai naquela época ficou uns dois, três anos mais ou menos sem emprego fixo no Brasil. Não, em 1929; não, em 1931; foram mais ou menos dois anos sem emprego fixo. Então ele limpava janelas de edifícios, ele fazia uma porção de coisas; enfim, o que aparecesse de trabalho para ganhar alguma coisa... Tudo bem e a minha mãe nessa ocasião trabalhou como empregada doméstica de um francês que era da Rhodia, doutor Vignon.

 

P/1: Em São Paulo isso?

 

R: É, ele morava em São Paulo, mas trabalhava em Santo André. Eu não lembro o primeiro nome do Dr. Vignon, era uma das grandes figuras da Rhodia naquela época, da Rhodia Química. A têxtil que era a Rhodiaceta já existia também, porque ela foi fundada em 1929. Então, e a minha mãe trabalhava como doméstica na casa desse doutor Vignon; o interessante, o doutor... todos os franceses na época, todo mundo chamava de doutor e não adiantava. Era engenheiro ou não sei o quê, mas todos eram doutores. Então, meu pai trabalhava em... enfim, o que aparecesse ele fazia, e algum desses judeus lituanos, mas de origem judaica saíam, pegavam umas malinhas, saíam compravam meias, lenços… Sabiam que os lituanos precisavam de meias, de lenços, camisas e não tinham dinheiro; então vinham lá para os lituanos e não... falei em lituano agora, compra e paga um pouco por mês, etc. e tal e não sei o quê, resultado... 

 

P/1: _____

 

R: E começaram a fazer fortuna, fizeram... Tinha um tal de (Serlinas?), ele tinha uma das grandes fortunas de Santo André, sabe? Mas, era uma grande fortuna mesmo! Veio no mesmo navio que o meu pai também, só que o pai como estava... É, e então... E aí, em função justamente da minha mãe ser empregada doméstica desse francês apareceu, saiu alguma conversa, se vê que os patrões gostavam da minha mãe também como uma serviçal...

 

P/2: Eles não tinham filhos ainda, não tinham?

 

R: Já, já tinham eu. É porque meu pai entrou em 1931, então nessa ocasião...

 

P/2: Foi o ano que o senhor nasceu?

 

R: O ano que eu nasci, já no ano que eu nasci.

 

P/2: Que ele entrou na Rhodia?

 

R: Exatamente. Aí ele foi... 

 

P/2: Já tinha a sua irmã?

 

R: A minha irmã veio da Lituânia com seis meses.

 

P/2: Ah! Ela nasceu lá, isso que o senhor falou.

 

R: Nasceu lá, veio com seis meses. Então, aí nessa ocasião meu pai ingressou na Rhodia, ingressou exatamente como um joão-ninguém... Como hoje seria um...

 

P/2: Foi aí a sua mãe que conseguiu?

 

R: É, que conseguiu através da patroa dela. E depois o velho gringo, como de uma forma simpática chamavam-no, ele mostrou as habilidades porque naquele tempo escolaridade não existia nem para os brasileiros, nem os brasileiros não tinham escola, escola era muito difícil, muito... era um negócio muito sério, mas com a habilidade dele ele galgou uma posição relativamente boa. Quer dizer, quando ele se aposentou, ele era chefe do Acetato de Celulose, quer dizer uma seção, um setor muito importante até hoje na Rhodia. E aí interessante, então depois vem a história do filho, porque com o filho na Rhodia. Eu entrei com 14 aninhos justinho, eu comecei a trabalhar na Laminação Nacional de Metais que era propriedade de um famosíssimo Francisco Pignatari, era um famoso playboy naquela época, muito mais do que hoje o Scarpa. Aquele era playboy mesmo, aquele não trabalhava, o Scarpa trabalha também, ele é de sociedade - mas, o Pignatari aparecia mais nas bandalheiras. Aliás, onde tem o parque Burle Marx... Vocês conhecem?

 

P/2: Sei.

 

R: Então, alí era uma das mansões dele, naquela época.

 

P/2: Era mansão!

 

P/1: _____

 

R: Naquela época...

 

P/2: Tinha casa?

 

R: Exatamente, ele construiu a mansão para viver com a princesa. Era, não sei se era aquela Sara lá...não sei, era uma princesa mesmo.

 

P/1: Era mesmo aqui?

 

R: Aqui.

 

P/1: Olha só!

 

R: Imagina, hoje ainda... é meio mato, imagina naquela época! Porque isso faz muitos anos já. Então, e eu entrei na Laminação Nacional de Metais com 14 aninhos, quer dizer eu tinha que começar trabalhar também, porque na ocasião o meu pai não tinha condições de me manter numa escola superior ou coisa parecida, não tinha condições, então eu já comecei a trabalhar...

 

P/1: Aí o senhor ______

 

R: É, fui trabalhar e nessa ocasião eu estudava à noite. Fazia um curso à noite e um companheirinho de classe, um tal... lembro muito bem, Silvio Ramos - cujo irmão lamentavelmente faleceu agora - fiquei sabendo na festa dos velhos amigos, esse Silvio falou de uma vaga na Rhodia. Eu falei: “Puxa vida, na Rhodia e na Laminação!” … era um pouquinho longe, eu tinha que tomar trem e não sei o quê... puxa, na Rhodia, meu pai trabalha na Rhodia e tal. Sem o meu pai... meu pai não...

 

P/2: Ah! Não foi por intermédio do seu pai?

 

R: Não, meu pai não... não ficou sabendo absolutamente nada. Ele ficou sabendo depois que eu fui na Rhodia e prestei um teste. Naquela época não existia seleção de pessoal, isso aí foi novidade, isso aí apareceu em 1956, depois que eu vim da Rhodia, eu fui fazer um estágio lá no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] e daí que se aprendeu que poderia fazer uma seleção de pessoal. Mas, então cada seção selecionava um indivíduo que estivesse interessado, certo? Eu fui fazer um teste então indicado por esse Silvio Ramos na Secretaria Geral da Rhodia. Interessante, hoje ainda existe isso. Secretaria Geral da Rhodia em 1947, quando eu entrei era uma coisa impressionante, dá até... olha... um arrepio, arrepio a gente não finge, viu? Mas era uma plêiade de intelectuais impressionantes e inclusive alguns falavam até esperanto, grego , latim...

 

P/2: É mesmo?

 

R: É, grego, latim, isso era a coisa mais simples: francês, inglês, espanhol... nossa! Naquela época era muito difícil alguém saber assim uma língua estrangeira. Nossa, mas na Rhodia era impressionante. E eu fui fazer um teste lá para entrar também no pomposo cargo de mensageiro interno, porque ainda não existia esse americanismo de hoje, então o office-boy ainda não tinha sido criado.

 

P/2: O mensageiro interno.

 

R: Era mensageiro interno, o office-boy apareceu bem depois viu.

 

P/1: É, bem depois.

 

R: Aí eu fiz o teste com o senhor Mário da Silva Rodrigues, aquele era um poço de sabedoria, um português de uma cultura impressionante; e ele acabou gostando de mim, inclusive perguntou: “Você escreve bem a máquina? Eu falei: “Escrevo sim… qual é a máquina que você conhece? Eu falei: … “conheço Hermes, Underwood, conheço... “ah! conhece Hermes? Pega a minha máquina.” Mandou eu pegar a máquina dele...

 

P/1: ____ na hora.

 

R: ... eu fiz o testezinho lá... resultado: eu iria trabalhar no lugar. Puxa vida, é interessante que a memória da gente às vezes falha, mas tem coisas que ficam bem marcantes.

 

P/2: Registradas.

 

R: Eu ia trabalhar no lugar do Irineu Banharolli que iria para o exército, eu iria trabalhar no lugar dele na secretaria.

 

P/1: Na Secretaria Geral.

 

R: É, aí talvez a minha carreira tivesse sido totalmente diferente, porque sem dúvida nenhuma eu seria influenciado por aquela turma. Então, o Irineu Banharolli não passou, por problemas pulmonares, ele foi dispensado.

 

P/2: No exército?

 

R: Não passou no exército. Nessa ocasião para a surpresa do senhor Apolinaras Kulnys, o senhor Rodrigues chama o meu pai lá na secretaria, meu pai falou… “olha, o senhor é o pai do Albino e tal... e ele; hã... é, porque ele fez um…” interessante e naquela época rígida e a minha educação foi brava também, mas eu não sei... eu achei que seria super bacana trabalhar na Rhodia e sem indicação do pai. “.. aí, olha seu filho eu gostei muito dele, mas ele não tem lugar porque a pessoa, o cargo que ele ocuparia, essa pessoa retornou. Mas eu falei com uma outra pessoa, o senhor Lourenço, Leonardo Lourenço Franceschi, que está precisando de um mensageiro interno que é o mesmo cargo que o seu filho ocupa hoje na Laminação, se ele estiver de acordo, se o senhor estiver de acordo, então ele vai trabalhar na seção de compras…”

 

P/1: Pedir autorização para o pai...

 

R: É. Aliás não era nem uma seção, “ele vai trabalhar nas compras”, não existiam essas nomenclaturas, não existiam. Gerente para mim, eu conhecia gerente só de cinema onde se via gerência lá; então na Rhodia não tinha cargo de gerente, tinha um diretor gerente que era o doutor Emilé Blanc - ele não era nem francês, era suíço. É de fato, então eu ia trabalhar nas compras, aí meu pai chegou em casa com uma bronca; é porque na empresa que trabalha o pai, o filho não deve trabalhar e não sei o quê, aí eu falei: “não papai acontece o seguinte, está assim lá na Laminação e tal”. Ah! E estavam me judiando um pouco na Laminação. Eu ainda com 14 aninhos, não, aí eu já tinha completado 15 anos. É, quando eu entrei na Rhodia eu já estava com 15 anos.Um capricho de um dos diretores da Laminação, doutor Adamastor Ribeiro Vergueiro, ele andava a cavalo na Laminação sabe, um cavalo branco, sabe?

 

P/2: É mesmo?

 

R: É. Ele queria saber em dados estatísticos quantas pessoas faltavam em cada seção, quantas pessoas atrasavam o horário, todos os dias... Resultado: essa incumbência foi do menininho aqui. Então, eu tinha que entrar, eu entrava às cinco e meia da manhã na Laminação, eu ia na chapeira, que nós chamávamos de chapeira, onde ficavam os cartões e apanhava todos os cartões e levava para o escritório, aí o sujeito tinha que passar no escritório para pegar o cartão e aquele que chegava  tarde ele tinha que justificar e eu tinha que... é, porque que ele chegava tarde e para aquele que não aparecia, eu dava como falta integral.

 

P/2: Você tinha que dar falta?

 

R: É, exatamente. Então essa foi uma das razões, e eu ia muito cedo. Óbvio que eu saía mais cedo também, eu saía acho que as três horas e alguma coisa; mas, então, eu expliquei direito para o meu pai que entendeu porque ele sentia que realmente eu estava sendo judiado com esse trabalho assim. Então ele concordou e tudo o mais, aí eu comecei a trabalhar na Rhodia como mensageiro interno.

 

P/1: O senhor comentou educação rígida, como é que foi essa educação do senhor, como é que era esse ambiente familiar, a casa do pai e a mãe...?

 

R: É, olha era uma família muito bonita, sabe? Nós éramos só os quatro. Aliás, tinham parentes também - veio uma irmã da minha mãe e o meu tio, casado com essa irmã da minha mãe, eles vieram no mesmo navio também. Mas, eles não puderam ter filhos, então a família por parte dos Kulnys ou dos (Parajaoscaiter?) lá que era a minha mãe, ficou resumida só em seis pessoas,mas era um relacionamento muito bom assim.

 

P/2: Mas, moravam na mesma casa?

 

R: Não, não... no mesmo cortiço, sempre no mesmo cortiço em São Paulo e no mesmo cortiço em Santo André, depois compraram à prestação de uma imobiliária vários lituanos, uma rua todinha cheia só de lituanos.

 

P/1: Em Santo André?

 

R: Lá em Santo André.

 

P/1: Onde é isso?

 

R: Só, só lituanos todos... casinhas bem simples, mas bem simplezinhas mesmo.

 

P/2: Que rua que era?

 

R: A Rua Serra do Mar, não era muito longe da Rhodia. 

 

P/1: ______.

 

P/2: Nome lindo.

 

R: Aí tinha uma coisa que era muito bonita, Nossa Senhora, que até hoje eu me lembro tão bem. Então resultado, eles compraram as casinhas, elas não tinham cerca, não tinham absolutamente nada, eram somente as casinhas - bem simples. Chegava no domingo, então a primeira casa era do senhor Apolinaras Kulnys aqui da rua, todos os lituanos logo às sete horas da manhã no domingo, porque sábado todo mundo trabalhava, no domingo ali, um ficava serrando o caibro de peroba, outro serrando a ripa, outro pichando a peroba para... porque ela ia ser fincada no solo para proteção, o piche conserva, e até a hora do almoço tinha a cerca prontinha porque todo mundo trabalhava junto.

 

P/1: Uma espécie de um mutirão?

 

P/2: Um mutirão.

 

R: É, um mutirão, era realmente um mutirão.

 

P/2: Que bacana!

 

P/1: Legal isso.

 

R: Depois tomavam umas cachacinhas, os lituanos gostavam...

 

P/2: Claro, que ninguém é de ferro.

 

R: ... muita cachacinha. Aí tomavam uns banhinho lá debalde, de bacia, porque ninguém tinha água encanada naquela época, aí terminavam de trabalhar, à tarde se reuniam e jogavam baralho...

 

P/1: Baralho?

 

R: É, jogavam, gostavam muito... eu não conheço nenhum jogo, nem conheço as cartas mas eles jogavam, era um jogo chamado Karucia, eu lembro que era Karucia um jogo lituano, talvez equivalente, existe um equivalente a um dos nossos não sei, mas nunca jogavam a dinheiro e os jogos eram sempre intermediados com canções, eles cantavam... mas cantavam, eu que não gosto muito de música, eles cantavam mas... tinha uma facilidade, não é como nós vamos... vamos dizer, um grupinho no almoço, uma confraternização nossa, de repente o sujeito pega pente, pega um garfo, começa a bater na...

 

P/2: Começar a bater...

 

R: ... garrafa, não sei o quê. Os lituanos cantavam bem, dois eram duas vozes, três; três vozes, quatro; quatro vozes e normalmente todo o coral é composto de quatro vozes - dificilmente existem peças para mais de quatro vozes. Mas como eles eram, o grupo era relativamente grande então aquele que passava da quarta voz, ia fazer uníssono com a voz que... _____ e cantavam, mas cantavam muito bonito. 

   

 

P/1: Eram músicas lituanas.

 

R: Músicas lituanas, só músicas lituanas com um saudosismo danado, Nossa Senhora... muitas músicas eu cheguei a aprender e cantava também. Aliás, diga-se de passagem. eu falava fluentemente o lituano.

 

P/2: Falava?

 

R: É, falava. Eu fui numa escola de lituanos inclusive; uma escola de lituanos que eu e minha irmã freqüentamos e eu falava o lituano; depois o meu pai é interessante, meu pai... Então, essa educação rígida, eu cheguei a apanhar um pouco; ele era muito exigente, tudo era para o perfeito, tanto é que eu acabei esquecendo. Hoje eu falo, entendo bem o lituano, falo com mais... com dificuldade sem dúvida nenhuma, porque faz muitos anos que a gente não utiliza; mas, com o meu pai quando nós saíamos à rua, íamos muito ao cinema os quatro, meu pai com a minha mãe e os dois filhotes, assim sabe? Sentávamos na frente deles...

 

P/2: Que bacana.

 

R: ... que não atrapalhavam, eles assistiam...

 

P/1: _____.

 

R: É, exatamente. E meu pai não gostava, não queria que a gente conversasse em lituano na frente de brasileiros, porque ele ficava, ele se sentia um pouco desprestigiado, não reclamava ou depois talvez chegou a reclamar em alguma ocasião, ele se sentia desprestigiado quando os franceses estavam lá do lado dele e ficavam falando em francês e ele não entendia nada; então como ele não gostava dessa dessa situação para ele, ele não queria...

 

P/2: Que fizessem...

 

P/1: Que as pessoas...

 

R: ...que alguém sentisse o mesmo no tocante a ele e a família. Depois eu acabei casando com uma portuguesa, minha irmã casou com um italiano, então a gente foi deixando um pouco do lituano. Mas a educação era assim, era rígida apenas no mais perfeito. Meu pai não admitia, por exemplo, nós jogávamos naquele tempo pião, hoje a criançada não conhece rodar pião, nem você não conhece porque você não tem terra para jogar...

 

P/2: Soltar o cabo...

 

R: É, o pião você...

 

P/2: ...e soltava.

 

R: ... e soltava e tal. E nós jogávamos, tinha um joguinho era muito tradicional na época chamava cela. Você fazia um circulo lá de dois, três metros de diâmetro e você tinha que jogar o pião lá e dar uma puxada para que ele fosse cair fora, porque se ele ficasse lá dentro ele ficava preso, aí com o outro pião você tentava tirar... 

 

P/2: tirar...

 

R: ... aquele e tal. Resultado: às vezes eu chegava com dois peões em casa, porque eu ganhava um, mas meu pai mandava devolver.

 

P/2: Conseguia no...

 

R: Meu pai mandava devolver. Não admitia que eu ganhasse um negócio num jogo de um outro menininho que talvez tivesse comprado o pião com dificuldade como eu tinha comprado o meu. E eram coisas desse tipo assim, era muita honestidade. Aí numa fase bem para frente, só para falar um pouquinho da honestidade... e honestidade eu acho que vem de berço mesmo... eu acho que vem de educação, vem da família. Então nós morávamos nessa ocasião numa casa muito confortável, muito boa da Rhodia, eu já trabalhava na Rhodia também, mas a casa era em função da atividade do meu pai, porque quando ele foi promovido em 1942 para essa chefia do acetato e celulose, deram uma casa bem próxima a Rhodia. Aliás tinham mais algumas, porque era para ele ficar a disposição da Rhodia 24 horas por dia, porque aquela fábrica não poderia parar e realmente ele era chamado com freqüência às duas horas da manhã, tocavam a campainha e ele era obrigado a ir lá para a fábrica para ver...

 

P/1: Como estavam as coisas?

 

R: Porque ele foi, ele fez um curso com um outro francês lá que nem era da divisão têxtil, o sujeito não era, não passou a ser chefe do meu pai; mas ele que deu, administrou umas aulas para o meu pai para ele aprender a produzir o acetato de celulose.

 

P/1: Produzir o acetato?

 

R: É, então ele é que tinha bastante experiência e ele era o único hábil, vamos dizer, se tivesse realmente algum problema sério de resolver, ele que poderia resolver. Então, naquela época, nós não tínhamos também água encanada da rua, mas tinha um poço com uma água muito boa porque era um negócio de pedra, era um solo de pedra dura mesmo. Eu me lembro quando eles cavaram aquele poço foi uma dificuldade; e uma ocasião deu um problema na bomba aí a Rhodia mandou o encanador para arrumar; o encanador lutou e não conseguiu arrumar. Num fim de semana meu pai veio meio arcado, ninguém tinha automóvel naquele tempo, tinham vários chefes que moravam em casas assim de setores importantes ali, ninguém tinha automóvel...

 

P/2: Ninguém tinha carro?

 

R: Ninguém tinha carro. Então meu pai veio até meio capenga assim, carregando um quilo de ferramentas, chaves de tubo, chave inglesa, chave não sei o quê, no sábado e eu servi como ajudante de encanador. Meu pai mesmo começou a trabalhar naquela bomba que o encanador da Rhodia não tinha conseguido arrumar - e como eu mencionei ele tinha realmente muita habilidade - ele começou, desmontou aquele negócio todo...

 

P/2: Ele conseguiu arrumar?

 

R: ... e conseguiu arrumar.

 

P/1: Ficaram boas?

 

R: Na segunda-feira cedo aquele bruta trambolhão outra vez com aquelas ferramentas levando de volta para fábrica, um amigo dele que aliás eles iam juntos, o amigo dele falou: “ô Apolinário... chamavam ele não de Apolinaras, mas Apolinário... “Ô Apolinário você fez o mais difícil, você trouxe a ferramenta para casa, pô mas você está levando de volta, você é bobo é?!” “Não, mas as ferramentas não são minhas, são da Rhodia...ah… porque eu preciso normalmente de um martelo, um alicate, ainda eu tenho, isso aí é só para uso excepcional, isso é da Rhodia.” E levou de volta para Rhodia. Então essa que era a educação rígida, era só no tocante a honestidade, ao respeito, à estima ao semelhante, à auto-estima, esse negócio todo. Um olhar dele dizia tudo, não precisava nem falar nada, se fizesse alguma coisinha que ele desaprovasse ele dava um olharzinho e falava: “Epa!” Ele não gostava...

 

P/2: Já induzia...

 

R: Já, é... já entendia a mensagem direitinho sabe.

 

P/2: O recado.

 

R: É, ele já entendia o recado.

 

P/1: E em termos de costumes lituanos doutor Albino, o que quê o senhor lembra disso de infância?

 

R: Olha, lembro que nós freqüentávamos... tinha aí, já era no município de São Paulo, a Vila Zelina que até hoje é um bairro ainda de muitos lituanos.

 

P/2: Ah, na Zona Leste, Vila Prudente?

 

R: Exatamente.

 

P/2: ...que eu conheço.

 

R: Exatamente, tem ali...

 

P/2: Umas amigas...

 

R: Exatamente. Tem até algumas...

 

P/2: Fica uma colônia... lituana.

 

R: Uma colônia, você passa lá tem umas lojas que tem até umas coisas... tem o padre lá da igreja...

 

P/2: É, verdade... inscrições...

 

R: ... lituana etc e tal. Então, do costume lituano, por exemplo, algumas coisas que eu lembro: quando havia casamentos, um casamento qualquer, ah... era uma coisa, era uma festa assim fora de série, era um negócio diferente. Não era só... era sempre com banquetes sabe... aquele...

 

P/1: Com banquete?

 

R: É, sempre com banquete; muita comida, muita bebida e muita comida; depois dançavam também e sempre acima de tudo cantavam, cantavam muito... os lituanos cantavam muito, um povo realmente... não digo só muito alegre, porque tinham músicas que eram realmente muito tristes até assim sabe, que relembravam a velha Lituânia lá que eles ficavam fazendo... eu estava sentindo, sabe...  sentindo também... 

 

P/2: Estavam...

 

R: Então agora é a pausa para o cafezinho. 

 

[pausa]. 

 

R: Vamos lá, onde que nós vamos retomar? No aspecto honestidade onde nós estávamos, onde é?

 

P/1: O senhor estava comentando tanto... tinha comentado do casamento... ____

 

R: Ah! é, não... já estávamos nos costumes lituanos, nos costumes lituanos...

 

P/2: Nos banquetes...

 

R: É, os banquetes, eram realmente memoráveis. Eu era pequeno quando a gente frequentava essas festas, mas eram realmente...

 

P/2: ______

 

R: Dançávamos, os lituanos... existia inclusive...

 

P/2: Que essa música que o senhor falou, existem grupos de dança... até hoje.

 

R: Existem os grupos, existia uma sociedade inclusive, o nome da sociedade era Ritas. Ritas é manhã, é lituano de manhã; era uma sociedade de lituanos... e como tudo que era estrangeiro, europeu na época da guerra, ela foi fechada. Ela foi fechada porque não só os italianos e alemães, austríacos, mas para todos os europeus não era permitido que eles tivessem sociedades assim, grupos fechados... era uma sociedade muito bonita, nós fazíamos muitos piqueniques também, convescotes à praia sabe, também era uma alegria. Puxa vida, o lituano é realmente um povo...

 

P/1: Eu vou perguntar uma coisa para o senhor: o senhor não lembra de alguma canção, qualquer uma ou não?

 

R: Olha, inclusive existem algumas festas de lituanos de grupos da Rhodia, onde eu tenho pelo menos deixe-me ver... tem o Edmilson que é da Cooperativa, tem o Celso Cini que hoje é aposentado da Rhodia, secretário...

 

P/1: Cini?

 

P/2: Cini.

 

R: É, Cini... secretário geral do (Cinidan?) hoje... quem mais? Sempre nós cantamos uma musiquinha e afinamos, mas tão bem que parecemos todos lituanos; é uma música bem alegre, é uma música de “bebum” inclusive.

 

P/2: De “bebum”?

 

R: É, de “bebum”. Mais ou menos (cantando). E vai assim...

 

P/2: Que bonita, que linda...

 

R: Essa é uma musiquinha...

 

P/2: ... super bonita, o senhor é super afinado.

 

R: Sem dúvida, eu faria uma tradução até não de uma rima assim, então é... “Bebamos de tacinha vamos dizer... bebamos de tacinha, bebamos de tacinha desta pequena garrafinha…”

 

P/2: Sei...

 

R: ... e sempre... e falando, e incentivando a bebida.

 

P/1: A bebida...

 

R: E esse _____ é apenas um...

 

P/2: Simpática.

 

R: É. Mas, o mais agradável e interessante é que esses companheiros cantam comigo...

 

P/1: Eles não são lituanos?

 

R: Não, não.

 

P/2: Mas parecem lituanos cantando _____.

 

R: Aliás, é interessante que esse Celso, ele foi inclusive na Rhodia uma ocasião meu SH. SH é superior hierárquico, eu nunca chamava ninguém de chefe, era sempre SH... todo mundo... meu SH.

 

P/2: SH _____.

 

R: É, superior hierárquico. Então agora recentemente, nós nos encontramos e ele disse que cantou para um lituano e o lituano ficou, diz que... boquiaberto e falou: “Mas como? De onde você aprendeu?... que não lembrava mais a música e ele está cantando direitinho, porque ele tem uma facilidade, ele pronúncia direitinho também o ______ sabe, é interessante. 

 

P/1: O senhor estudou em escola de...

 

R: Estudei, mas isso quando era bem pequeno. Naquele tempo nós... nem sei se existiam assim cursos normais de pré, pré-primário como hoje existem - até os maternos desde pequeninho, naquele tempo existia acho que o jardim da infância, não sei. Mas esse curso, essa escolinha que eu fui porque a minha mãe também trabalhava, ela também passou a trabalhar na Rhodia, ela trabalhou na Rhodia também.

 

P/1: Na Rhodia.

 

R: Na seção de lança-perfumes inclusive.

 

P/2: É mesmo!

 

R: É, aí os dois trabalhavam, então nós íamos para escola lituana lá e ficávamos, ia eu e minha irmã e uma caminhada, eu vejo direitinho da minha casa em Santa Terezinha aquela escola, eu acho que daria uns três quilômetros no mínimo...

 

P/1: Três quilômetros.

 

R: É, uns três quilômetros e eu estava com meus seis aninhos, a minha irmã com oito - ela tinha um pouquinho mais do que eu; nós íamos a pé e voltávamos nunca com nenhum receio de banditismo, de nada sabe, uma maravilha numa época totalmente diferente...

 

P/1: Uma tranqüilidade.

 

R: ... atravessamos assim uns lugares bem ermos, hoje estão totalmente habitados, totalmente construídos assim, mas era um lugar e a gente ia. É interessante que nós tínhamos alguns companheiros, eu lembro de um que era até crioulo e ele ia na escola lituana também e falava já, conversava em lituano também.

 

P/1: Conversava em lituano?

 

R: Porque nós só falávamos em lituano lá.

 

P/2: Na escola?

 

R: Na escola, só em lituano. E aquele criolinho... interessante que eu visualizo assim a carinha dele hoje... como a gente foi envelhecendo junto talvez se ele aparecesse aqui, talvez eu o reconhecesse, porque eu nunca mais vi esse moço, nunca esse moço esse menininho e ele era... 

 

P/1: Falava...

 

R: ... bem, bem escurinho mesmo; não preto retinto. Mas ele falava lituano também, falava lituano.

 

P/1: É, superinteressante isso.

 

P/2: Que ótimo.

 

R: É, interessante. 

 

P/1: E a mãe do senhor trabalhava na Rhodia?

 

R: Trabalhava na Rhodia também, na seção de lança-perfumes. Nessa ocasião meu pai ainda acho que era do...

 

P/2: A sua mãe foi trabalhar lá também por intermédio da (patroa?)?

 

R: É, também. Porque não sei exatamente como foi, ou talvez o meu pai é que tivesse...

 

P/1: Já estava lá.

 

R: É, falado qualquer coisa, enfim... mas ela foi também trabalhar e ainda... você vê que era numa época ainda mais recente assim, porque depois meu pai quando ele era... postos assim de chefia, sem dúvida nenhuma já a situação melhorou um bocado principalmente em 1942 quando ele passou para o acetato, aí já ganhamos até... ganhamos, fomos para casa da Rhodia, uma casa muito confortável, era uma... nossa! Os móveis na época, nossa senhora! Uma construção sólida muito bonita e eram várias casas, acho que umas dez, todas elas ocupadas por chefes assim de setores que eram importantes e que uma parada seria muito prejudicial, porque existem setores onde a produção não pode parar de jeito nenhum, porque há um congelamento... em tubulação sabe, uma condensação, aquele troço todo aí tem que arrebentar tudo, trocar tudo sabe, então têm setores assim.

 

P/1: Tem que ficar sempre alerta...

 

P/2: Por isso que as casas eram lá perto, porque... numa eventualidade...

 

R: É, exatamente. Não tinha só o telefone, hoje sem dúvida nenhuma existiria o telefone, então eles mandavam o mensageiro buscar. Mas, ia de “madrugadinha” lá e... isso era muito comum mesmo...

 

P/2: Iam buscar o pai do senhor?

 

R: Exatamente. Aliás nem ia buscar, ia, chamava e depois ele voltava de bicicleta. Outra vez o meu pai ia a pé, levantava... tirava o pijama, botava a roupa e ia...

 

P/1: Botava a roupa e ia embora trabalhar?

 

R: E às vezes voltava no dia seguinte só. Ficava realmente períodos longos assim, porque dava problema muito sério, então ele ia às duas horas da manhã e não voltava para tomar o café às sete horas, não voltava para almoçar, não voltava para jantar ... passava a noite inteirinha e voltava no dia seguinte. Quer dizer...

 

P/2: É mesmo?

 

R: É. Então...era...

 

P/1: _____

 

R: Era um negócio árduo mesmo, quer dizer era muito importante ele...  mas sem dúvida nenhuma como na própria rede _____ quer dizer, compensou, para ele trabalho todo compensou. Quando ele saiu naquela época não com os privilégios que eu saí, quando eu saí nós...

 

P/2: Porque não tinha aquele... não tinha o Instituto de Previdência ainda?

 

R: De jeito nenhum... não, da...

 

P/2: Da Rhodia.

 

R: Da Rhodia, não. 

 

P/2: Ele saiu com a previdência do governo.

 

R: Exatamente. Ganhou uma “gratificaçãozinha” de um salário.

 

P/2: Ele?

 

R: É, quando ele saiu ganhou uma gratificação um salário.

 

P/1: Só.

 

R: É, só.

 

P/2: Mas, ele aposentou pelo Inps [Instituto Nacional de Previdência Social]?

 

R: Aposentou pelo Inps. Naquela época era Inps mesmo ou era Iapi [O Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários], ainda hein? Nem sei... acho que já era Inps em 1962. Porque vocês sabem que antes tinha...

 

P/2: Sei.

 

R: ... era...

 

P/2: Era o Iapi...

 

R: É, Iapi, Iaptec [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas] e tinha mais ainda... porque um era do comércio, da indústria era outro...

 

P/2: Era por categoria.

 

R: Era por categoria e cada um era autônomo, cada um regia as suas finanças, tudo direitinho...

 

P/1: Mantinha as suas regras.

 

R: É, e a coisa parece que funcionava um pouco melhor. Na Laminação Nacional de Metais, como eu falei, eu trabalhei em departamento pessoal onde eu fazia inclusive aquele controle dos que chegavam atrasados… tinha um controle, nossa senhora, como as coisas eram difíceis naquela época; hoje você não tem mais uma carteira do Instituto de Aposentadoria, do Instituto de Previdência, naquele tempo existia uma carteira além da profissional... tinha uma carteira e a cada mês tinha um sujeito que cuidava disso, ele preenchia uns retângulos que eram destacáveis, numa folha grande tinham vários daqueles, acho que doze, cada folha dava para um ano talvez... porque a carteira dava para praticamente quase para a sua vida toda de trabalho. Então, destacavam um “negocinho desse tamanhinho”, não era autoadesivo, não existia ainda esse... o modernismo também do autoadesivo, então ele passava cola e colava num mapa… que trabalheira para fazer um controle! Mas, talvez a honestidade também fosse maior, talvez não houvesse tanta malandragem como existe hoje, como o desvio das verbas e fajutagem, assim como a gente lê e ouve muito, mas era um controle rigoroso; mas cada categoria tinha...

 

P/1: Tinha o seu próprio sistema de...

 

R: Exatamente.

 

P/1: Aí o senhor entrou na Rhodia então para trabalhar como mensageiro...

 

R: Como mensageiro dentro...

 

P/2: Interno.

 

R: Exatamente, como mensageiro interno na seção de compras.

 

P/2: Com 14 anos.

 

R: Aí eu já tinha 15 anos.

 

P/2: 15 anos.

 

R: Com 14 eu tinha entrado na Laminação, aí eu já estava com os meus 15 anos. É interessante que nós tínhamos mensageiro interno e tinha o mensageiro externo. O mensageiro externo era hierarquicamente um nível superior ao interno.

 

P/2: _____.

 

P/1: Uma espécie de _____.

 

R: É.  E interessante, talvez eu também tivesse herdado alguma coisa do pai, mas eu me lembro... e então parece que para tudo, também além da competência você precisa ter um pouquinho de sorte  - principalmente nos casos assim onde a gente vê as grandes promoções; você fala: “Puxa vida, eu serviria? Talvez servisse para aquele lugar, mas é aquela história da pessoa certa no momento certo com as pessoas…”

 

P/2: Na hora certa.

 

R: ... na hora certa, naquela coisa toda. Então, é a sorte. Eu não queria nunca fugir de nenhum desafio, sabe? Para mim o que acontecesse, o que quer que viesse, uma instrução para mim seria uma ordem e eu iria cumprir. Um belo dia, nossa isso faz muito tempo, mas fica na memória não, é interessante; quem era o mensageiro externo era o Alaôr Guimarães que é amicíssimo meu hoje ainda, nós temos muita amizade, ele por alguma razão qualquer não foi trabalhar e não avisou nada e não sei quê, aí o seu Lourenço Franceschi que era o chefe da seção dele me chamou: “Almino, o Alaôr não veio, você conhece São Paulo?” “Eu, sim senhor!” Nossa, não conhecia... mas absolutamente nada... porque eu sabia o que ele pedir que era para mim ir... e o que esse Alaôr fazia, ele levava os pedidos de compras. Naquela época, hoje nem sei, hoje nem pedido acho que existe mais e naquela época um pedido de compra equivalia a um contrato. Quando o seu fornecedor recebia aquele pedido mediante a assinatura de um protocolo, o pedido era realmente, ele tinha um valor contratual perante qualquer cartório com a assinatura sua, vamos dizer, da Rhodia no pedido e depois mais o protocolo de recebimento desse pedido; o fornecedor tinha obrigação, era um contrato firmado mesmo, por isso que os pedidos eram levados. Então resultado, aí ele me deu: “Você conhece?” “Conheço!” Peguei aquele caderno de protocolo e tal, comecei a registrar todos aqueles...olha, até hoje não digo, mas acho que eu teria voltado ontem... caramba, eu estou no trem eu falei: “Puxa vida, o que quê... como, o que quê eu vou... eu vou perguntar”. Incrível... o Alaôr Guimarães morava em Ribeirão Pires, eu entro num trem de seis vagões, naquele vagão eu vejo quem? O Alaôr e a mãezinha dele, problema de saúde eu não sei, indo ao médico, não sei se era ele ou a mãe, mas ele estava bom para chuchu. Aí ele: “Oi Albino, etc. e tal…” Eu falei: “Olha, vou levar um negócio... “Você conhece e tal?” “Não, não conheço não”. Aí foi a salvação, ele fez pelo menos o itinerário para mim, por isso que eu digo que eu teria, estaria andando até ontem...

 

P/2: _____ fosse encontrar com ele.

 

R: ...porque eu iria, eu iria na Florêncio de Abreu, depois voltaria para Benjamin Constant, depois eu iria para a rua Mauá, depois eu voltaria... eu ficaria... porque eu não sabia, eu não conhecia, então eu peguei todos os pedidos e registrei. Então, ele fez o itinerário, falou: “Olha não, primeiro você vai aqui, quando você descer do trem e tal você vai estar aqui...

 

P/2: Ele_____ o mapa.

 

R: ... “aí depois você vai e tal”. Então ele pôs todos aqueles pedidos em ordem sabe, em ordem de itinerário.

 

P/1: De itinerário é claro... 

 

R: Quer dizer, você vê... como eu digo, precisa ter sorte para tudo...quer dizer não foi muita sorte encontrar o...

 

P/2: Na hora certa, no lugar certo.

 

R: Então, puxa vida. Aí eu sei que eu cumpri a missão.

 

P/1: De seis vagões entrou justamente...

 

R: Não, justamente naquele onde ele já estava...

 

P/2: É ótimo, essa história é ótima.

 

R: ... porque ele vinha vindo de Ribeirão Pires, que coisa não? Interessante mesmo, parece sorte. De sorte, isso bem depois, numa outra ocasião eu tive um chefe que eu admirava muito, aliás admiro ele  - está vivo hoje graças a Deus, está com 84 anos e deixou de freqüentar a nossa festa agora porque perdeu recentemente a esposa e então perdeu um pouquinho o entusiasmo assim - mas, ele sempre freqüentava a festa também. Ele é da Aparecida do Norte, ele era um professor primário mas formado em 1920 e como professor naquela época não era um troço muito sério, ele tinha aquela pronúncia assim da Aparecida do Norte: “Oi “Arbino”, a carta tá pronta…” mas tinha muita cultura sabe, lia demais, é um sujeito assim de muita...

 

P/1: _____

 

R: Isaac Júlio Barreto.

 

P/1: Isaac Júlio...

 

R: É, Isaac Júlio Barreto, é um sujeito extraordinário que admiro muito até hoje. É numa ocasião todo mundo tem documentos, hoje não sei, mas... até ainda no final, quando eu sai da Rhodia todo mundo ainda tinha o famoso “cemitériozinho” que são documentos que você vai pondo num determinado lugar e fala: “Não, eu jogo daqui há dois anos ou no fim do ano, etc. e tal,” … e ele tinha uma gaveta deste tamanho assim... precisou de um determinado documento, eu não lembro o documento: “Arbino vem cá, me ajuda a procura, óia…” é tal assim assim o documento... porque não vou procurar nesse... “cê procura na metade e eu procuro a outra metade”... ele pegou a metade... e incrível: onde ele cortou estava o documento.

 

P/2: Estava lá?

 

R: É. então naquela ocasião o seu Isaac Júlio Barreto com aquela simplicidade e aquela... “óia Arbino”.. o homem precisa de sorte também, não é só a capacidade, “tá aqui o documento ói…” quer dizer... essa foi uma passagem super interessante também. Porque, mas sem exagero nenhum, olha tinha uns... de 30 a 40 cm um maços de papelada, ele cortou pela metade.

 

P/1: _____.

 

P/2: Deu ali.

 

R: Mas, foi ali justinho, em cima.

 

P/2: Em cima.

 

R: Formidável, formidável.

 

P/2: Que ótimo.

 

P/1: E ainda falou assim, tem que ter sorte.

 

R: É, é sim. Então eu sei que... e aí eu continuei realmente como mensageiro...

 

P/1: Interno.

 

R: Interno, continuei como mensageiro interno.

 

P/2: Interno?

 

R: Eu nunca passei a ser mensageiro externo, depois eu passei a ser auxiliar de comprador, sabe? 

 

P/1: Isso foi de toda a Rhodia, era compra..?

 

R: Rhodia Química, só a Química.

 

P/1: Só a Química?

 

R: Só a Química, era Companhia Química Rhodia Brasileira naquela ocasião ainda.

 

P/2: Como que o senhor passou de um cargo para o outro?

 

R: É interessante, quer dizer as coisas naquela época eram muito diferentes mesmo. Primeiro de tudo, nós recebíamos, todo mundo recebia em dinheiro num envelope o salário; existia o setor lá, a seção do pessoal, do departamento pessoal que na época cuidava dos horistas; quem cuidava do registro dos mensalistas era o senhor Bernardino de Lima, que era o caixa, ele tinha o pomposo título de caixa, ele era o caixa da Rhodia; gozado como um caixa de banco, mas ele cuidava daqueles milhões da Rhodia, mas ele cuidava só disso, do dinheiro. Na época do pagamento ele recrutava, iam dois, três companheiros da contabilidade, aí fazia aquela bruta mesa, assim enorme, para ficar empacotando o dinheiro, colocando dinheiro nos envelopes que você recebia... o envelope com o dinheiro...

 

P/2: Envelope com dinheiro?

 

R: ... com o dinheiro, depois não tinha o 13o, não existia, o 13o não sei... quando que começou porque foi... com se diz, foi através de lei...então existia o 13o, hoje é regulamentar mesmo, obrigatório. Então naquele tempo não, existia uma gratificação, inclusive uma casta lá de funcionários recebiam gratificações especiais, eram os funcionários que tinham o pomposo título de pessoal superior; não era pessoal de nível superior, era pessoal superior - não tinha nada com escolaridade, era com o nível de salário. Inclusive esse mesmo senhor Isaac uma ocasião falou: “Arbino, o seu Lourenço, que era o Lourenço Franceschi que eu mencionei, ele falou: “O senhor Lourenço já está ganhando dez mil por mês, porque ele passou a superior”... e o cara tinha que ganhar dez mil por mês para ser pessoal superior.

 

P/1: E aí entrava a gratificação...

 

R: Exatamente, ganhava uma gratificação extra... ele ganhava às vezes até dois, três salários  - e tudo aquilo em dinheiro assim. Meu pai mesmo quando ele passou a trabalhar no Acetol chegava no fim do ano , ele ganhava umas notinhas a mais, ele ficava radiante, esparramava na mesa assim... as notas se mostravam... para minha mãe, sabe? ...porque era um monte de dinheiro, interessante.

 

P/2: Ah, que ótimo!

 

R: Bom, então e nessa ocasião quando você ia receber a gratificação era o chefe que te chamava. Você sentava na frente dele, não era um negócio muito rápido, ele ficava... era o dia inteiro para atender aqueles 10, 15 funcionários ou 20, talvez nós fossemos em 20 na época, se eu fizer um gráfico chego acho que até um número exato... e então aí ele começava e falava, falava um monte de coisa, o que você fez, o que você não fez e nessa ocasião que ele dava um aumento também por mérito.

 

P/1: Ele que decidia?

 

R: Não existia ainda também a força sindical com os dissídios, não. Então você recebia...

 

P/2: Era ele?

 

R: É, ele que dava o aumento, ele que decidia...

 

P/2: Ele sentava lá com aquela...

 

R: Exatamente. Ele que decidia, ele que dava o aumento e tal. E quando... isso aumento por mérito e quando havia alguma promoção também, ou se você ia passar de uma atividade para outra, era a mesma coisa...e normalmente ele aproveitava a mesma situação onde ele já estava quente, você já estava meio eufórico recebendo aquele dinheirinho e recebendo os parabéns, recebendo lá 5,6, ou 10% de aumento e não sei o quê… um grande salário... aí ele comunicava que você estava sendo promovido, que você ia deixar aquele cargo que já tinha uma pessoa no seu lugar que você ia ensiná-lo... Eu me lembro que quem entrou depois no meu lugar foi o Nelson Mariano que fez uma bela carreira dentro da Rhodia também; só que ele passou depois para área de vendas, mas isso bem depois, mas ele entrou como mensageiro interno no meu lugar e eu passei a trabalhar como auxiliar de um comprador; inclusive uma das funções minhas na época... é interessante. Aí às vezes eu fico até pensando, eu não sei o que foi que derrubou, que derrotou totalmente as nossas ferrovias, eu não sei se foi a indústria automobilística ou o petróleo nosso. Porque, nós comprávamos muito de São Paulo que era perto. “Dá o quê? 18 quilômetros pela via férrea?” ...nós recebíamos muita, mas muita coisa através da estrada de ferro.

 

P/1: É, o produto aí... que passava do lado da Rhodia.

 

R: É, passava perto da Rhodia e umas das minhas funções como auxiliar de comprador era ir diariamente a estação, eu ia em dois setores; nós recebíamos... existiam duas modalidades, não sei hoje como que acontece, isso aí ficou um negócio tão avacalhado com transporte de carga através de ferrovia... então haviam duas modalidades: era encomenda e carga. Então, para encomenda eu ia num determinado setor, eu pagava o frete, via tudo que tinha para Rhodia; eu ia normalmente com um veículo, com um motorista a minha disposição também... eu pagava o frete e retirava todas aquelas encomendas, eram coisas relativamente pequenas, eu transportava com o caminhãozinho lá, normalmente uma peruinha e levava para Rhodia… e tinha a outra modalidade que era carga. Então, eram volumes grandes, bem pesados e coisas desse tipo; então eu pagava o frete tudo bonitinho e pegava uma via do conhecimento lá quitado, etc. e tal, eu levava para a Rhodia e ia no setor de expedição e mandava um caminhão mesmo fazer a retirada.

 

P/1: Buscar?

 

R: É. Isso diariamente, todo dia. E todo dia tinha um volume muito bom de mercadoria transportada por ferrovia. Hoje, não se transporta absolutamente nada...

 

P/1: Não tinha atraso?

 

R: Nossa, não tinha. Funcionava que era uma maravilha... e era barato. Não sei hoje, estão... parece com as privatizações, porque a última agora a Fepasa [Ferrovia Paulista S/A], foi o último raminho, quer dizer não existe mais nada, nada que é governo, então pode ser que a coisa volte a funcionar. O próprio transporte de passageiros era uma coisa muito “batuta”, o trem era de madeira naquela época e existia 1a e 2 classe: 1a classe era um luxo, tudo estofado... panos lá.. como é... as coberturas assim branquinhas tudo bonitinho... nossa senhora! Era uma beleza, você ia de trem para São Paulo, uma tranquilidade...

 

P/1: Nesse trajeto mesmo?

 

R: É.

 

P/1: _____.

 

R: Era muito bom mesmo, e hoje... hoje eu não sei, hoje está tudo uma porcaria. Então, essa era uma das minhas funções e eu já fazia também pequenas compras, já tinha contatos com fornecedores também, começava... mas sempre dado pelo vamos dizer, pelo titular da pasta, o comprador mesmo. Então, ele que fazia a concorrência, ele que fazia tudo, depois que estava tudo mastigadinho, aí que ele dava para eu sacramentar.

 

P/1: Quais era os principais produtos comprados?

 

R: Olha, nós comprávamos de tudo, só que existiam compradores assim de setores diferentes, eu no caso era ajudante do Porfírio... Porfírio não... ____ já falecido. Então, este comprava mais equipamentos e material de manutenção, o Bifulco que também já é falecido e foi campeão brasileiro de basquetebol naquela época... aliás nem era basquete, era bola ao cesto mesmo naquela época, também era o tipo Oscar, ele foi grande no Corinthians, foi de seleção brasileira durante muito tempo, mas nunca ficou rico também… tinha... é trabalhava...

 

P/1: Bifulco mesmo?

 

R: É, Bifulco: Ângelo Miguel Bifulco e era famosíssimo, nossa! Saía no jornal, quase todo dia, estava ele lá no jornal... mas, tinha que trabalhar na Rhodia para levar o pãozinho para cá ou pelo menos a manteiga do pão, porque o basquete poderia dar só pão - mas sem manteiga, viu. Então, e o Bifulco era comprador de matérias-primas; então todas as matérias-primas era o Bifulco que comprava e o Porfírio era o comprador de todo o material de manutenção - o que você pensar desde de uma agulhinha até uma prensa, qualquer coisa então passava pelo Porfírio.

 

P/1: E tudo com concorrência ou tinha alguns fornecedores já mais fixos?

 

R: É, existia...

 

P/2: Tinha tomada de preços?

 

R: Já existia, já havia naquele tempo o que hoje estão dando o nome bonito de parceria; mas, já havia alguns fornecedores que eram tradicionais e não adiantava você mudar. Mesmo depois, vamos dizer, um dos fornecedores de material impresso daquela época que a Gráfica La Case (que faliu já há bastante tempo), ele era mas de uma parceria com a Rhodia incrível, ele tinha praticamente até um almoxarifado, um depósito dele  na gráfica da Rhodia. Porque os impressos não mudavam com muita frequência, ficavam durante um bom tempo, você tinha o mesmo tipo de impresso, não mudava, não existiam mudanças da sociedade Rhodia, era sempre a mesma coisa, então ele fazia um monte de envelopes e ficavam lá.

 

P/1: Inclusive embalagem?

 

R: Embalagem era um outro fornecedor, mas também nós tínhamos um fixo. É interessante e como eu era responsável, vamos dizer pela parte de gráfica também, eu fazia tudo bonitinho com ele e vez ou outra não é que eu traía um pouquinho o sujeito, mas eu pegava aquele mesmo material dele etc., e falei; será que está valendo esta parceria? Não chamávamos de parceria, esse nome bonito é recente, então eu pegava esse mesmo material e procurava mais uma ou duas gráficas; olha faz...

 

P/2: Fazia uma tomada de preço.

 

R: Exatamente. E nunca tive uma decepção, nunca ninguém “cotou” mais barato do que ele.

 

P/2: Ele tinha o melhor preço?

 

P/1: Mais barato do que ele, olha só?

 

R: É, então tinha o menor - sem dúvida nenhuma… e naquela época também, isso desde a primeira embalagem do (Depesp?), acho que a primeira Rodínea, a primeira Colifredini quem fez a embalagem era um... tinha um pool de gráficas, mas tinha um representante que era o Cássio de Queiroz que hoje tem o sobrinho dele (não é bem sobrinho é um afilhado porque era padrinho), o Cássio era padrinho do Barbozinha que é fornecedor até hoje), só que hoje ele é da L. Nicollini uma empresa, aliás eles trabalham com a L. Nicollini e parece que como o Gonçalves também hoje e naquela época, nós trabalhávamos só com o Nicollini. Agora, era uma parceria incrível, também é um caso meu, também mais recente; quer dizer a cronologia está pulando um pouco mas...

 

P/2: Não faz mal, não tem problema isso.

 

R: ... um caso veja bem, nessa ocasião eu trabalhava para a Rhodia Merrier o conjunto saúde, mas eu trabalhava na importação também; eu nessa ocasião eu já tinha sob minha responsabilidade a importação e compras nacionais. Acontece o seguinte, quando você fazia importação de um produto acabado que era muito difícil, medicamento por exemplo, você não podia importar... o Ministério da Saúde não deixava você importar mas vez ou outra para alguma finalidade, para testes…

 

P/1: Pequena quantidade?

 

R: É, só que você era obrigado importar em embalagem toda em português; você tinha que mandar as artes finais tudo bonitinho para o seu fornecedor lá fora, para ele que fizesse a embalagem em português lá para exportar para o Brasil, é interessante.

 

P/2: Nossa!

 

R: E numa ocasião nós recebemos um lote de 1000 vacinas, eu não lembro exatamente... vacina veterinária, não lembro que tipo de vacina, aí já seria muita coisa, 1000 vacinas... veio em embalagem francesa e era para teste, não era para revenda de jeito nenhum, era para teste; olha, o fiscal bateu o pé, eu fui com o despachante, fomos lá na alfândega e não saía dali, tinha que ser em português! Eu falei: “E se eu por uma embalagem em português?” “Vocês podem levar”. Eu fui no Nicollini, saí do aeroporto fui no Nicollini, expliquei o problema para ele e no dia seguinte às sete horas da manhã, eu passei lá peguei 1000 cartuchos, 1000 bulas, 1000... aliás não, só os cartuchos, não precisava as bulas... o azul não saiu o azul do padrão Rhodia de jeito nenhum, saiu totalmente diferente, mas eles fizeram a embalagem à noite. Eu fui logo de manhã, fui eu e mais um companheiro...

 

P/2: Vocês foram trocar?

 

R: ... pegamos a embalagem, eu voltei para fábrica e o companheirinho foi para o aeroporto, pegou o despachante e juntos foram lá, reembalaram o negócio todo e tiraram depois no mesmo dia aquela vacina. Quer dizer, é uma parceria ou não? Então, a parceria como eu estou dizendo, é um nome pomposo, muito bonito hoje… mas, naquele tempo o que seria? Seria um companheirismo. Outra, depois mais uma outra que é muito importante; eu falei puxa vida, foi um trabalho fantástico, vocês fantásticos. Quanto... quanto que é, vocês tem... para mim fazer o pedido tinha que regulamentar através de um pedido também, tem que fazer o pedido. Albino; nada, porque se nós formos cobrar o que vale vocês vão xingar a gente porque vocês vão achar que nós somos ladrões e não sei o que etc. e tal, porque para fazer 1.000... quando eles fazem uma embalagem eles gastam 5/10.000 para testar a máquina de corte da embalagem, então 1.000...

 

P/2: Vocês pediram só 1000, não é nada.

 

R: ... não é nada, então ficaria muito caro. Então resultado: não cobrou nenhum centavo. 

P/1: Olha só, _____

 

R: ... é parceria, por isso que esse fornecedor continua na Rhodia até hoje. E é interessante, já faz oito anos que eu estou aposentado, nos últimos anos eu não tinha mais contato profissional com ele porque eu tinha me desligado das compras nacionais, eu tinha ficado com a importação e até hoje inclusive, agora recentemente ainda ele ligou e falou: “Ô Albino e aquele nosso almoço e tal?” A gente mantém essa amizade, essa parceria nós mantemos até hoje.

 

P/1: Esse é o Barbosa?

 

R: É, o Barbozinha.

 

P/1: É?

 

R: Nós...

 

P/1: O nome dele é...

 

R: É José Antonio Lopes Barbosa. 

 

P/1: Lopes Barbosa.

 

R: José Antonio Lopes Barbosa, o famoso Barbozinha, é da empresa L. Nicollini.

 

P/1: L. Nicollini.

 

R: L. Nicollini. Eles são fornecedores até hoje... não sei se são os principais ou não, porque eu sei que esse Gonçalves é gente muito forte também, é gente muito boa, mas então o ______ não sei é fifty-fifty lá ou enfim, mas cada um...

 

P/1: Tinha outros fornecedores do gênero?

 

R: Na época havia também, havia mas o Nicollini, o Barbozinha nunca cobrava... o preço bem lá embaixo nem lá em cima, ele cobrava o médio.

 

P/1: O médio.

 

R: Então era exatamente o que interessava, não atrasava nas encomendas, atendia casos assim as vezes de urgência mesmo.

 

P/2: Tinha qualidade?

 

R: Tinha qualidade, a qualidade dele sempre foi de primeira.

 

P/2: Mas, a embalagem por exemplo, eles faziam uma embalagem e quem passava o design dessa embalagem?

 

R: Eles tinham os desenhistas, tinham tudo lá, faziam as artes gráficas, faziam as matrizes, faziam tudo lá.

 

P/1: Tudo lá.

 

P/2: Tudo lá.

 

R: Faziam tudo lá. Em alguns casos nós trabalhávamos também com um tal de Pedro Gambarotto, em alguns casos especiais ele fazia uma arte final e a gente levava para o Nicollini. Mas, normalmente não - você dava o negócio e ele fazia tudo, tinha uma equipe fantástica depois...

 

P/2: Mas, esse design por exemplo, podia ser uma criação dele ou vinha um padrão da França?

 

R: Ah, não! O padrão Rhodia sempre... era...

 

P/2: Vinha da Rhodia ____ que vinha da França?

 

R: ... vinha da França, era sempre o mesmo padrão, isso ninguém...

 

P/2: De cor, o design...

 

R: ...é de cor, então as cores inclusive. Era até uma cor com absoluta precisão, tanto é que um dia desses com estes problemas de falsificação, nós compramos um produto e era da Hoescht, um produto para minha esposa e eu quase... eu liguei inclusive para o atendimento pessoal da Hoescht, mas mandaram aguardar um pouquinho... esse pouquinho ficou um “poucão”, caiu a ligação, eu liguei mais uma vez e aí não deu certo e eu desisti, porque o cartucho tinha... não sei se era azul também da Hoescht, acho que era azul sim, era um padrão e a bula mas totalmente diferente, um azul totalmente diferente.

 

P/2: Aí você...

 

R: Eu fiquei em dúvida, falei: “Puxa vida, com tanta falsificação que está ocorrendo agora no momento! Será que esse…” 

 

P/1: É possível ____

 

P/2: Não é um indício de falsificação?

 

R: É, porque não pode... porque e é interessante, óbvio para você pode fazer a impressão de um azul num cartão que não é o mesmo azul, não é a mesma tinta que você vai pôr numa bula fininha, quer dizer, a nuance fica diferente mesmo. Se você por aquela tinha num cartão bem acetinado é uma coisa, se você pôr num papelzinho a mais, como se diz, mais poroso, vai dar uma outra tonalidade. Então tem que dar, mas as cores são sempre... é fundamental e você tem que fazer tudo bem direitinho. Então, mas... eu tenho mais alguns fornecedores que eu mantenho relacionamento, sabe? Nós temos um outro fornecedor, não sei se trabalha ainda hoje com a Rhodia, eu sei que ele é cliente da Rhodia também: a famosa Casa da Química. Na primeira vez quando eu entrei em contato com a Casa da Química ao vivo, eu “tomei um baque”, uma surpresa, pois era um fornecedor muito bom mesmo, entregava sempre tudo em ordem, produtos sempre muito de boa qualidade...

 

P/1: Esses seriam produtos químicos?

 

R: Produtos químicos fabricados por eles e alguns importados. Eles eram representantes exclusivos. Então a gente não podia importar direto, quando existe um representante exclusivo você não pode fazer uma importação direta, você tem que comprar do...

 

P/1: Através do representante.

 

R: ... através do representante. E quando eu encontrei o senhor Vítor que é o dono da Casa da Química tive uma surpresa, o homem é totalmente cego.

 

P/1: Totalmente cego?

 

R: Totalmente cego e ele comandava aquele... é uma empresa, não é micro-empresa, é de médio- porte... hoje acho que ela deve ter uns 200 ou 300 funcionários; é uma empresa relativamente grande, eu não sei o que quê é hoje uma média empresa, talvez seja essa - mas, fiquei admirado. E ele comandava, uma memória incrível... e numa ocasião esse senhor Victor ele apareceu até no Fantástico, ele tinha uma maquininha de calcular que falava, então ele digitava isso naquela...

 

P/1: Digitava...

 

R: ... e a máquina, então ele sabia... o som do Perdidos no Espaço lá sabe.

 

P/2: Sei.

 

R: ______ mas, ia então o sujeito sabia, ele queria apertar o dois, ele sabia que estava apertando o dois e depois dava o resultado, número por número tudo bonitinho.

 

P/1: Falava todos os números?

 

R: Falava, quer dizer fazia todas as operações tudo direitinho e ele tinha uma outra máquina, aquela era bastante difícil, ele mesmo disse que tinha um pouco de dificuldade, mas ele lia até textos de jornal.

 

P/2: Que era...

 

R: Por vibração.

 

P/2: Por vibração?

 

R: Você já viu alguma vez?

 

P/2: Já.

 

R: É, ele punha a mão assim e então, nossa! Você colocava a mão lá e você não sentia nada, quer dizer e a vibração, aqueles impulsos lá...

 

P/2: Que começa no dedo.

 

R: ...no dedo que sabia qual era a letra, puxa vida, um negócio fabuloso também. Também é interessante que ele já ligou duas vezes para mim, está me reclamando um almoço; como é vamos tomar o nosso uisquinho e tal.

 

P/2: Que bom.

 

R: É, que coisa... você vê a gente...

 

P/2: Mas qual que era assim a  função específica do senhor, o que quê faz um comprador assim, qual que é o processo de trabalho?

 

R: É, o processo de trabalho veja bem, você recebe...

 

P/2: ______.

 

R: Você recebe uma requisição de um determinado setor, de uma seção, de um material não comum, não de estoque, não de uso normal porque existe...

 

P/2: Que já faz parte do cotidiano da Rhodia.

 

R: Exatamente, porque tem aquelas compras de estoque, etc. e tal. Mas então, o sujeito ele precisa de determinada coisa lá e enfim... a variedade era muito grande, muitas coisas, apareciam coisas incríveis. Eu comprei numa ocasião e pediram com urgência no biotério uma barra de chocolate de um quilo, desse chocolate que eu gostaria de morder assim sabe, eu levei para a bióloga que estava esperando ansiosa e que cortou aquela barra de chocolate para alimentar as baratas ali, quer dizer, até isso você vê.

 

P/2: De tudo?

 

R: É, de tudo. Você recebia requisições de tudo, mas um monte de coisas.

 

P/1: Desde de coisas assim, ____ até...

 

R: Desde é... de tudo que entra dentro da empresa e que é através do setor de compras: desde um papelzinho até a mais complicada matéria-prima. Agora, então coisas de estoque, as matérias- primas por exemplo, mesmo o material de manutenção, de repente se quebra um rolamento, sabe o que é um rolamento? Quebra um rolamento de uma máquina, a empresa não pode a empresa ficar esperando o sujeito sair para comprar... tem que ter à mão, à disposição. Quer dizer, normalmente vamos dizer casos assim em equipamento importante que está trabalhando existe não só o estoque no almoxarifado, mas o próprio chefe do setor. ele também já tem aquele receio, ele tem o rolamento bem lubrificadinho, tudo bonitinho aqui na gaveta, a hora que quebrar ele já “bumba”, substitui na hora e depois faz a requisição lá para o almoxarifado para repor a gavetinha.

 

P/1: A gavetinha dele?

 

R: Eu tive um caso uma ocasião, foi um caso que saiu o doutor Bourré que  era a maior figura da área técnica dentro da Rhodia; ele saiu do escritório foi lá na minha seção e eu fiquei todo orgulhoso, ele foi me parabenizar e agradecer. Quer dizer, eu tinha só cumprido a minha obrigação, mas foi de fato um negócio meio diferente também. Houve um incidente lá na Rhodia e quebrou uma mufla (mufla é um conector de cabos elétricos), mas era uma mufla de alta tensão, sem exagero nenhum, era uma negócio mais ou menos desse tamanho...

 

P/2: Nossa!

 

R: ... na parte central ficava assim, olha o que eu telefonei, o que eu procurei, mas não achava de forma nenhuma, ninguém tinha. Eu falei: “Puxa vida, a única possibilidade, mas eles não vendem direto, é a fábrica da Pirelli”. A Pirelli que fabricava ou importava, enfim ela que tinha. Então liguei para Pirelli: “Não, mas nós não podemos vender diretamente, não vendemos e não abrimos exceção”. Eu falei: “Tudo bem”. Eu tinha um carrinho da Rhodia,  naquela época eu já tinha o carro da Rhodia e era usufruto, levava para casa de férias inclusive; peguei o carro e fui lá na Pirelli e falei: “Olha eu quero falar com o diretor técnico, eu não queria falar nem com ninguém de parte comercial, eu queria falar com o diretor técnico. Passei lá por um monte de italianas lá, secretarias e não sei o quê.. e signore é senhor Albino... da Rhodia e tal, até que cheguei ao sujeito, parecia um mafioso... mas muito simpático, apresentei-me como homem de compras lá: “Eu vim aqui em pedido de uma solidariedade, porque eu sei que os senhores não vendem, mas eu sei que o senhor tem três muflas, eu preciso de duas. Olha, saí com a perua deste… ela ficou assim olha…”

 

P/2: Já colocou no seu carro?

 

R: Coloquei no meu carro, assim. Recebi a nota de um distribuidor da Pirelli 60 dias depois, com pagamento para 30 dias ou 60 dias. Quer dizer, nós fomos pagar isso, nem sei quando foi, mas então eu fui mesmo assim, humilde e falei: “Eu quero uma solidariedade de uma grande empresa para uma outra grande empresa”... “o senhor tem que dar um jeito”... e saí com duas dentro do carro. Nossa! Quando...

 

P/1: _____.

 

R: ... quando eu entrei na Rhodia o senhor Luiz Nori que era o chefão lá da parte elétrica, que festa que ele fez, ficou radiante e foi parar até a diretoria lá - esse doutor Bourré que saiu do escritório dele e foi agradecer. Quer dizer, isso era um papel também das compras, quer dizer você vê...eu tinha que procurar...

 

P/2: Entendi.

 

R: ... tinha que procurar, tinha que resolver..

 

P/2: Batalhar.

 

R: ... batalhar. Olha, tem uma outra parte da seção de compras também: numa ocasião deu um problema na caldeira, eu não sei se era época de muita chuva, mas nós precisávamos de tijolos, esse tijolo comum que eles chamam de tijolinho baiano, tijolo comum de olaria... comprador de era matérias-primas, comprador de ferragem, comprador de não sei o quê, todo mundo estava procurando tijolo porque era uma emergência e ninguém achava, não tinha.

 

P/1: Não achava?

 

R: E como eu estava em Santo André, eu pegava o carro e ia andar nos arrabaldes ali todos procurando, eu ia...

 

P/2: Que ano que foi isso?

 

R: Isso foi na década de 60.

 

P/2: Teve a crise do tijolo.

 

R: Assim é? 

 

P/2: Teve, é.

 

R: Porque eu sei que foi na década de 60, isso eu tenho convicção.

 

P/2: Foi.

 

R: Tenho certeza absoluta que foi em 60.

 

P/2: Teve uma crise.

 

R: E eu andava por todas olarias, Mauá, Ribeirão Pires e mais Utinga, Parque das Nações, aquele lugar todo e não achava; realmente não achávamos, não existiam tijolos e era um negócio muito importante também porque era para caldeira. Eu tinha ido ao cinema com a minha cara metade e nós passávamos na frente da Rhodia, fomos ao cinema e estávamos voltando, eu com o meu carrinho da Rhodia, perto da ponte do rio Tamanduateí e eu vi um caminhão que levava tijolos, isso era umas onze horas, onze e meia da noite por aí e chovia bastante mesmo. Aí eu vi aquele caminhão com tijolos eu falei: “Caramba, o que pode ser esse negócio aí?” Parei o carro, desci, fui lá e perguntei: “Ô companheiro, o que quê o senhor está fazendo aí? O que quê é isso aí?” Ele falou: “É tijolo, pô! Era para eu trazer na Rhodia, mas eu vou embora, eles não querem receber.” Mas, quem queria receber o tijolo a meia noite, não é? Não tinha ninguém para receber.

 

P/1: Ele veio entregar o tijolo...

 

R: É, ele foi entregar aquela hora, mas de onde ele vinha, eu nem sei mais também de onde... era um comprador de São Paulo, esse Porfírio Leoni Filho que tinha comprado os tijolos e acho que o sujeito vinha de muito longe e não aceitaram, o porteiro não ia aceitar e nem estava sabendo que estava em crise, que estávamos precisando de tijolos, quer dizer. Aí ele falou: “Esse cara é louco!” Eu falei: “Companheiro, pelo amor de Deus pára um pouquinho, eu vou levar minha esposa para casa, eu volto e nós vamos descarregar esse tijolo, por favor!” “Não, tá tudo bem, tudo bem. Brrr!” Corri para casa, deixei a Isalina em casa, voltei, peguei ele, passamos na portaria e falei: “Olha nós precisamos entrar e tal…” Normalmente os porteiros fazem revezamento, então aquele que estava à noite evidentemente trabalhava durante o dia também, então eu era conhecidíssimo na Rhodia, aliás bastante conhecido. Então eu falei: “Olha nós vamos descarregar uns tijolos aí.” “Ah, tudo bem!” Óbvio que eu nem contei se tinha 20.000, ou 20.500, ou 19.000...

 

P/2: O senhor descarregou?

 

R: ... ainda mais com aquela bruta chuva, eu fiquei dentro do meu carro até descarregar tudo bonitinho, assinei o canhoto do moço e fui embora. No no dia seguinte foi uma festa também...

 

P/1: Estava o tijolo lá já e...

 

R: Estava o tijolo lá… também, quer dizer...

 

P/1: Como que ia fazer para trabalhar sem tijolo ____

 

R: ... é função também da seção de compras. Quer dizer, foi um outro comprador que tinha comprado mas não iam aceitar na Rhodia o tijolo, iam mandar o sujeito... ia indo embora já, para onde que ele iria eu não sei, mas... Foi uma festa também, então você vê aí eram tijolos, no outro caso era uma mufla e várias vezes com matérias-primas. Nossa, um monte de coisa! Era uma atividade assim, você não tinha rotina - acho que por isso que eu gostei...

 

P/2: É que é tão diverso.

 

R: Exatamente, então eu acabei, eu afinei bastante sabe, eu gostei muito da minha atividade porque eu acho em qualquer ramo, eu acho que é fundamental gostar daquilo que você está fazendo. Porque se você não gostar, não adianta forçar mesmo que você seja inteligente, seja não sei o quê, não adianta... procura uma outra coisa aí - mas eu não, eu afinava com aquilo. Então, eu me relacionava bem com os fornecedores, eu gostava, eu sentia prazer - quer dizer, para mim era uma vitória, esse caso você vê eu lembro também. Lembro de uma outra ocasião quando nós recebemos... a Rhodia fazia, naquele tempo não existia terceirização, então a Rhodia fazia inclusive móveis. Tinham datilógrafos, então a mesa do datilógrafo era uma mesa que você não achava normalmente para comprar por aí, porque essas escrivaninhas que existiam era de uma gaveta aqui onde você punha as pernas e depois eram três ou quatro gavetas aqui... e a escrivaninha que a Rhodia fabricava na própria carpintaria era para datilógrafo, então tinha umas 20 gavetas todas fininhas assim, quer dizer, para você diversificar os tipos de papéis de impressos que você precisava. Puxa vida, interessante não é?! E a Rhodia fabricava o ácido sulfúrico e outros ácidos mais também, então eles eram envasados em botijões de 20 litros, em garrafões de 20 litros os quais por sua vez eram acondicionados em caixas de madeira, caixas bem fortes assim, bem fortes mesmo e essas caixas eram feitas na própria Rhodia também.

 

P/1: Feito na...

 

R: Na carpintaria que fazia, era uma caixa meio assim piramidal, meio diferente que casava direitinho para o garrafão. Uma ocasião veio uma carreta tipo desses ônibus basculantes, articulados agora, uma carreta com um tipo um vagãozinho assim, era uma carreta enorme a parte da frente e mais uma outra vagonete trazendo madeira, tábuas do Paraná. Olha, também naquele tempo não existia um cargo de diretor administrativo ou enfim, eu sei que o senhor Bonan, o senhor Pierre Bonan, esse não era doutor, interessante esse ninguém chamava de doutor, mas era uma figura muito importante da Rhodia e ele que cuidava dessas atividades de almoxarifados e outras coisas mais assim sabe e olha, o motorista dessa carreta um senhor enorme, mas ele me ameaçou de morte inclusive: “Eu vou matar, eu vou te matar e não sei o quê!” Porque não queriam descarregar o caminhão dele, porque achavam que ele deveria ter chapas e ele falou: “Como que eu vou trazer chapa do Paraná, eu estou viajando a três dias aí com essa caminhonete, com esse vagão aí a 30 quilômetros por hora, como eu vou ficar pagando um salário para esse pessoal? De jeito nenhum, a Rhodia tem que descarregar!” E os caras da Rhodia não queriam descarregar. Nossa, eu não tinha força, eu tentei: “Mas vocês tem que descarregar, pelo amor de Deus, vocês tem que descarregar!” Não dava certo, não dava.

 

P/1: Não tinha ninguém...

 

R: E aí no último, nossa senhora! Eu foi aquele francês o senhor Pierre Marie Bonan, puxa vida! Mas foi aqui, mas que você... vai falar comigo... mas saiu correndo e eu correndo atrás dele, nós fomos aí, ele foi justo ao chefe ao senhor Moura que era o chefe do almoxarifado lá, pegou a turma dez minutos, depois tinha uns 50 caras em cima do caminhão e mais 50 embaixo tirando aquelas tábuas.

 

P/2: Essa história é ótima.

 

R: Que coisa viu, puxa vida! São coisas... e algumas dessas coisas ninguém nunca realmente fica sabendo que são coisas bem diferentes e são na realidade o seu quotidiano - porque o seu quotidiano é muito diferente, ele é muito diversificado.

 

P/2: Vivendo situações inesperadas.

 

R: Exatamente, coisas bem diferentes.

 

P/2: E o senhor acabava nesse trabalho se relacionando com os diversos setores da Rhodia?

 

R: Exatamente, sem dúvida nenhuma com todos.

 

P/2: Com todos?

 

R: Com todos, eu me relacionava com todos.

 

P/2: Qual que dava mais trabalho assim para... que eram materiais mais difíceis?

 

R: Normalmente era o setor de manutenção que sempre eram coisas urgentes e tal. É interessante que quando eu galguei o pomposo cargo de subchefe de seção de compras lá em Santo André, então eu era já subchefe, mas ao mesmo tempo eu era comprador - eu fazia compras também. Então me apareceu uma requisição e eu falei: Puxa vida! Era urgente, uns parafusos... então e tal, era parafuso Allen(?) de tanto por tanto não sei, eu lembro só que era parafuso Allen... aí o fornecedor do lado de lá era de Santo André inclusive, nós tínhamos poucas alternativas ainda em Santo André naquela época, mas para coisas desse tipo havia fornecedores. Então eu ligando lá para o fornecedor: “É, senhor Albino, o senhor quer com cabeça ou sem cabeça?” Eu falei: “E agora, esse cara tá me gozando? Um parafuso... com cabeça ou sem cabeça?!” Se ele me perguntasse se é de fenda ou sextavado, tudo bem, eu procuraria uma resposta... mas agora sem cabeça ou com cabeça eu falei: “Isso é gozação”. Aí realmente eu perguntei, insisti, ele falou: “Não, porque tem com cabeça e tem sem cabeça.” Nossa, aí eu perguntei ao requisitante que me deu as informações se era com cabeça ou sem cabeça. Quando eu fiz a compra pedi com urgência, pedi para que entregassem diretamente na minha mesa porque eu queira ver o bandido do parafuso, queria conhecer o parafuso ao vivo.

 

P/1: Que era sem cabeça?

 

R: Era sem cabeça. E você já viu esse parafuso ou não?

 

P/1: É, já vi um parafuso sem cabeça.

 

R: É sem cabeça, porque ele tem um sextavado, é um buraco interno e no lugar de ter a cabeça ele é paralelo, é normal paralelo e o sextavado é interno porque é uma chave onde você enfia ela lá dentro assim. Então nessa ocasião eu olhei, pensei comigo e falei: “Ihh! Caramba eu não estou servindo para essa função”. Falei com quem vocês já conhecem da época, eu gostava muito dele daquele senhor, gosto muito ainda hoje... 

 

P/1: Ah! ____

 

P/2: O Walter?

 

R: O Walter Bevilacquá. Eu falei: “Senhor Walter tive um problema assim…” expliquei tudo direitinho para ele... falei: “Eu sei que a Rhodia sempre está dando cursos aí de várias atividades, o que quê o senhor arranha para mim aqui dentro da Rhodia para eu aprender um pouco dessas coisas, porque eu sou cru e eu quero desempenhar. “Ô Albino, tem um negócio aí, é oportuno, tem um grupo aí... o negócio é voltado só para fábrica, mas eu vou encaixar você”. Então era um curso, foi durante uns bons meses, um curso de tecnologia, um nome bonitinho tecnologia. Então abrangia uma porção de coisas.

 

P/2: Promovido pela Rhodia?

 

R: Pela Rhodia, dentro da própria Rhodia.

 

P/2: Para funcionários?

 

R: É, para funcionários mas nesse caso especificamente a tecnologia era um curso voltado ao pessoal da fábrica, da manutenção ou os próprios setores acho que de produção também  mas que precisassem mexer com máquinas, então a primeira aula, a primeira coisa que você aprendeu mesmo era o sistema métrico e o sistema inglês que era de polegadas. Então você tinha que saber direitinho transportar tantas polegadas para...

 

P/2: Para o metro.

 

R: ... para o sistema métrico e assim por diante, a primeira coisa e depois uma porção de coisas, até cálculos mais ou menos elementares de engrenagem e depois alavancas e uma porção de coisas e parafusos - sem dúvida nenhuma também, uma porção de coisa. E eu fiz esse cursinho dentro da Rhodia e o pessoal que estava fazendo esse curso eles normalmente estavam voltados para a parte mecânica, então eles tinham um pouco mais de facilidade do que eu, mas no fim lá, eu fui assimilando e havia um teste depois, um teste de aptidão - você não fazia só o cursinho e fiz esse testezinho aí, eu fui o primeiro colocado no teste.

 

P/2: É mesmo?

 

R: É, fui o primeiro colocado e a Rhodia depois ficou de patrocinar, era inclusive através do Matheus Romano, não é Romanok que era o superintendente, mas tinha o tal de Matheus Romano que cuidava de um monte de relacionamentos lá, não sei bem a atividade dele, mas eu ganhei com isto uma bolsa de estudos para fazer um curso completo de desenho de mecânica lá fora, mas...

 

P/1: Fora da Rhodia?

 

R: É, fora da Rhodia, mas a Rhodia que ia patrocinar.

 

P/1: Onde que ficava?

 

R: Mas houve lá, não sei algum empecilho, houve algum impedimento que a coisa complicou um pouquinho, só que nesse ínterim me deu um pouquinho de entusiasmo aquela tecnologia sabe, eu fiquei gostando daquilo.

 

P/2: Se animou?

 

R: Animei, aí eu fui fazer o curso completo por minha conta, mas eles pagaram...

 

P/2: O senhor tinha feito até o quê, o colegial?

 

R: Eu tinha feito, é sério... é para contador... na época não era equiparado, nós tínhamos o clássico e o científico.

 

P/2: Era um colegial técnico digamos?

 

R: Exatamente, era. Você se formava um perito contador...

 

P/2: De contador?

 

R: ...mas é um título pomposo também.

 

P/1: O senhor tinha feito enquanto trabalhava na Rhodia?

 

R: Enquanto trabalhava na Rhodia.

 

P/2: É, mas o _____ contadores.

 

R: O Silvio que quando eu saí da Laminação foi justamente em banco de escola lá do ginásio Santo André, só que não existia o curso ginasial a noite e ele que me indicou a vaga na Rhodia. Então, aí eu comecei a fazer esse curso aí e fui muito bem também sabe.

 

P/2: O curso de mecânica?

 

R: No curso de mecânica.

 

P/2: Onde?

 

R: Lá em Santo André mesmo, numa escola era famosíssima: Escola Paulo de Tarso - e um dos diretores da escola era um projetista lá dentro da Rhodia inclusive.

 

P/1: Um dos diretores?

 

R: Tinha o outro... é, um dos diretores da escola era funcionário da Rhodia.

 

P/2: E esse curso era pago?

 

R: Era pago, mas esse...

 

P/2: E a Rhodia pagou para o senhor?

 

R: Não, não pagou. Deu um probleminha, mas aí eu mesmo paguei e eu fui muito bem nesse curso, inclusive o Walter Bevilacquá vez ou outra me pedia assim: “Albino trás um desenho, você já está fazendo algum desenho? Eu falei: “Tá.” “Trás algum desenho, deixa eu dar uma olhadinha”...  e fazia os comentários comigo assim. Aliás, olha só interessante dentro de um museuzinho...

 

P/2: Museuzinho é ótimo!

 

R: Do museuzinho... eu tenho certeza que eu peguei, será que eu perdi? Será que eu perdi? Então, eu sei do primeiro para o segundo ano, eu acho que fui o primeiro colocado; do segundo para o terceiro ano eu fui o segundo colocado, mesmo assim ganhei umas medalhas, tenho umas fotografias também...

 

P/2: Mas era um curso técnico?

 

R: Era curso técnico e inclusive eu sentia alguma dificuldade em relação aos companheiros, aos meus colegas de classe, porque todos eles que estavam lá todos eles estavam familiarizados com a mecânica - mas, eu não. Porque eu me lembro bem uma ocasião, o professor ele deu um desenho, até ele fez um esboço assim e falou:  “Eu quero que vocês façam esse desenho na escala tanto por tanto... e ele tem que ter um furo aqui de tanto por tanto, tá. Vocês acham, dá para fazer?” “Dá! É, não tá muito difícil, tudo bem”... “Agora esse dispositivo vai entrar no automóvel e a Volkswagem vai fabricar 1.000 automóveis por dia, então ela precisa de 1.000 peças por dia, então vocês tem que projetar um dispositivo para furar automaticamente o negócio.” Aí é que era o problema...

 

P/2: Aí a coisa pegou?

 

R: Aí a coisa pegou, nossa senhora! Aí eu fui na biblioteca da Rhodia, peguei um monte de livros de furadeira, porque eu sabia que era furadeira... mas como que trabalha uma furadeira eu não sabia de jeito nenhum, nunca tinha mexido. Então para eu projetar aquele dispositivo...

 

P/2: E na biblioteca da Rhodia tinha esse material?

 

R: ... na biblioteca da Rhodia tinha esse material. Aí eu peguei esse material, o livro lá, alguns livros, eu levei alguns livros para poder me familiarizar com o equipamento para eu bolar depois um dispositivo para segurar aquela bandida daquela peça para furar em série, para furar 1.000 por dia pelo menos, porque se fosse segurar com a mão não ia dar certo - e consegui, e venci. Eu sei que no terceiro, depois no último ano nós desmontamos em vários alunos um torno, aliás só o carro transversal do torno, mas desmontamos ele todinho e isso numa sala de peças que tinha na escola, desmontamos totalmente e cada um mediu tudo direitinho aquele negócio e cada um fez um esboço, isso fizemos em alguns dias até... cada um fez um esboço de todas as peças, de cada pecinha: “Aí tudo bem, agora era o problema, agora vocês vão montar isso, vocês vão fazer um desenho detalhe por detalhe, mas vocês vão fazer um desenho com o conjunto montado.” Então olha, eu do museu, eu peguei esse aqui é o original...

 

P/2: Ah! Que graça de desenho.

 

R: ...é o desenho que eu fiz, esse aqui foi a minha prova que eu levei depois para o senhor Walter dar uma olhada também no papel vegetal, tudo bonitinho... Então, vocês vêem, olha aqui o mais importante é isso aqui, olha a nota a nota do meu desenho.

 

P/2: 10!

 

R: 100, era 100...

 

P/2: 100.

 

R: Então, e tinha...

 

P/2: 100 é a nota.

 

R: E tinha todas essas peças, quer dizer além disso aqui então nós fizemos vários desenhos de cada um desses componentes, de cada dos componentes.

 

P/2: Depois vocês _____

 

R: Exatamente, para depois então montar o conjunto e eu fiz. Eu sei que quando eu levei para o senhor Walter dar uma olhadinha nesse desenho ele falou assim: “Olha Albino, na Rhodia tem desenhista bom como você? Melhor não tem!” Eu nunca exerci, quer dizer eu nunca precisei, quer dizer foi como um complemento...

 

P/2: _____.

 

R: ... de cultura dentro da minha atividade. Depois eu vou contar até uma outra passagenzinha depois bem relacionada...

 

P/1: Graças ao parafuso sem cabeça.

 

R: Graças ao parafuso sem cabeça.

 

P/1: ____ despertou...

 

R: Graças ao parafuso sem cabeça...

 

P/2: Despertou interesse.

 

R: Graças ao parafuso sem cabeça. É interessante e numa outra ocasião era... a cronologia é que não está existindo mesmo.

 

P/1: Mas não se preocupe com isso.

 

R: É, uma outra ocasião...

 

P/2: Mas, ele ____ para gente localizar em termos...

 

P/1: Quando que foi isso?

 

P/2: Que ano que foi isso?

 

R: Isso aqui?

 

P/2: É.

 

R: Isso aqui foi em 66.

 

P/2: E o senhor estava ocupando que cargo exatamente?

 

R: Subchefe da seção...

 

P/2: Subchefe.

 

R: ... subchefe da seção de compras...

 

P/2: O senhor estava como subchefe.

 

R: Subchefe, o pomposo cargo de sub-chefe.

 

P/2: Bonito.

 

R: Já tinha um automóvel da Rhodia, mas usufruto, mesmo...

 

P/2: Já teve um aumento salarial ou não?

 

R: É, já tinha. Interessante que ele demorou um pouquinho, mas depois veio...

 

P/2: Entendi, mas veio.

 

R: ... algum benefício também veio. Quer dizer, aí já o status mudou um pouquinho, já ficou um pouco diferente...

 

P/2: E a sua esposa já trabalhava aí na Rhodia?

 

R: Nessa ocasião não, aí ela saiu, depois ela saiu. Quando nós casamos em 1954, naquela época era o machismo que imperava, era muito chato deixar a mulher trabalhando… mas nós dois apaixonadinhos, não por obrigatoriedade, não tínhamos aprontado nada aí... mas a gente estava querendo casar, mas não dava para gente casar tranquilo. Dentro da educação rígida do meu pai que eu recebi, então quando eu casei com 22 anos, porque eu não tinha, eu ia completar 23, eu fui para minha casa - bem bonitinha, bem feitinha, com educação de gringo que eu recebi. Quando eu comecei a trabalhar na Laminação Nacional de Metais o primeiro salário eu dei para minha mãe, o envelope inteirinho, isso foi até o primeiro aniversário, quando eu fiz um aniversário eu recebi todo o dinheirinho de volta com uma cadernetinha da Caixa Econômica da época, não era a caderneta de poupança - naquele tempo não existia, eu recebi todo aquele dinheirinho de volta...

 

P/1: Sua mãe fez _____

 

R: É, minha mãe, meu pai...

 

P/2: Que ela guardava.

 

R:  ...é, e com o meu nome. Falou olha...

 

P/1: Que coisa linda!

 

R: ... “isso é para você, você continuar guardando para você”... resultado: não muito tempo depois, apareceu não longe de onde nós morávamos um loteamento. Aí eu fui com o meu pai, compramos um terreno no meu nome bonitinho...

 

P/2: Lá em Santo André.

 

R: Lá em Santo André e fiquei pagando a prestação, tudo bonitinho. Aí quando começamos a namorar... nós namoramos durante quatro anos e quando a gente...

 

P/2: Como você conheceu a sua esposa?

 

R: Conheci numa festa da Rhodia, ela trabalhava na divisão têxtil que aliás era a Rodhiaceta na época e a Rhodia fazia umas festas muito bonitas. Famosíssimas em Santo André, na época umas festas juninas, ela fazia na praça de esportes e a Rhodia fazia várias barraquinhas, cada uma com um tipo lá, um tipo naviozinho não sei o quê, tem umas mocinhas que vendiam uns bilhetinhos lá ficavam de marinheirinho, outra era um tipo de chinês e não sei o que e elas ficavam tipo chinesa e ela numa barraca sem uma caracterização assim especial, apenas uma roupinha bonita e ela foi bonitinha quando mocinha assim - ela tinha uma pele clara, um cabelinho bem preto naquela época, agora meio artificial. Então, eu sei que eu olhei aquela moça lá, eu achei e falei: “Puxa vida, bonitinha.” Aí resultado, aquela história como todo jovenzinho, aliás na época, hoje a coisa seria muito diferente, aí eu comprei um bilhetinho dela, ela me deu o troco e eu não soltei a mão dela e ela não me...

 

P/2: Ficou segurando?

 

R: É, fiquei segurando e como a gente já estava flertando um pouquinho ela não fez muita questão de puxar a mão de volta também e resultado, aí marcamos o encontro para um matinê no dia seguinte porque ela trabalhava na festa a noite, então fomos no matinê no dia seguinte etc e tal...

 

P/1: _____.

 

R: ... e começamos a namorar, isso dia 18 de junho de 1950. dia 17 foi o sábado quando eu comprei o bilhetinho e segurei na mão dela, aí dia 18 de junho foi o nosso primeiro encontro no cineminha e nesse dia ela saiu inclusive mais cedo da barraca e eu levei-a para casa, assim. Mas depois não, depois ela não saía mais... porque... o titular lá da barraca não permitia que saísse, se ausentasse mais cedo. Mas foi daí, e então aí depois ainda que nós casamos ela continuou trabalhando mais um tempo...

 

P/1: Na têxtil mesmo.

 

R: É, aí nós programamos, falamos: “Bom... agora vamos arranjar um nenenzinho?” “Ah! Vamos e então…” e a coisa funcionava e nós usamos um método muito naturalista sabe, natural sabe do doutor (Ogino Knalsa?) até hoje, era de uma tabela... ela tinha um ciclo muito perfeito e realmente a tabelinha funcionava maravilhosamente bem, e quando a gente decidiu e falamos: “Vamos então encomendar o nenê…”

 

P/2: Aí deu certo?

 

R: ... mas encomendamos sem problema nenhum, aí ela ficou durante mais um tempinho e depois então já saiu da Rhodia. Aí já nós tínhamos pagos as principais dívidas, por isso que a gente casou, mas a gente tinha algumas dívidas e então a gente comprou algumas coisas a prazo naquela época.

 

P/1: A Rhodia deu algum tipo de incentivo assim... empréstimo?

 

R: Não. Bom, não procurei, não pedi...

 

P/1: O senhor não procurou?

 

R: Não. Agora, uma única ocasião eu tive um problema numa ocasião, isso eu já estava casado, não existiam pelo menos... não existiam planos de saúde, não é só a Rhodia que não tinha, não existia. Isso não era comum ainda, planos de saúde e eu tive um problema, eu tive uma infecção bucal, um problema meio sério, para o qual eu precisei fazer um tratamento... e eu trabalhava em Santo André na Antonio Cardoso e esse tratamento eu fazia não sei se diariamente, mas foi durante um bom período na rua Barão de Itapetininga...

 

P/1: No centro de São Paulo?

 

R: ... bem no centrão de São Paulo e custou uma importância relativamente alta - e eu sei que o meu chefe que era o Lourenço Franceschi ainda, ele sempre perguntando: “Como é que vai e tal, e vai não vai e não sei o quê”... e olhando todo dia como é que eu estava, e bem interessado, aí no fim quando terminei o tratamento e ele disse: “Como é você, está bem?” “Não, não tenho mais nada.” “Está bom?” Falei: “Realmente está bom e o médico deu alta, disse que está tudo perfeito sem problema nenhum e ele falou: “Albino, e exatamente quanto que você gastou?” Aí eu falei da importância, ele fez... então naquele tempo nós como eu falei o pagamento era feito em dinheiro dentro de um envelope e nós recebíamos, eu não sei se... acho que era no dia 30, assim viu. É, porque éramos mensalistas, não tínhamos cálculo a fazer nada, então acho que era no dia 30 mesmo e no dia 15 existia um adiantamento... para esse adiantamento você fazia um valezinho, era um vale cor-de-rosa assim, você assinava e retirava e depois ele vinha no envelope como dinheiro, aquele dinheiro que você tirava adiantado. Então, ele fez um vale desse como se fosse um adiantamento, ele assinou e falou assim para mim, deu o vale e falou: “Leva para o doutor Ávila assinar que ele está esperando para assinar, leva já e vai no seu Lima receber.” Aí eu... nossa senhora! Eu quase chorei naquela ocasião, quer dizer não pedi, não fiz absolutamente nada, ele me pagou... o último centavo que eu havia despendido com o meu tratamento, recebi tudo de uma vez. Quer dizer a Rhodia fez isso, por isso que eu continuo assim rodeando com “R” bem maiúsculo, porque além da minha atividade - que eu gostei muito do que eu fazia, do que eu fiz sempre, além desse tratamento assim muito especial da Rhodia, esse foi...

 

P/1: _____.

 

R: Então, e o casamento não, ela não ajudou porque eu não pedi, eu tinha... consegui casar bem jovenzinho com a minha própria casa, quer dizer, eu não precisaria de auxílio na realidade - talvez para quem precisasse, quem pedisse, talvez ela tivesse até ajudado, deve ter ajudado muitos, mas no meu caso para o casamento não. Aí depois que ela foi, saiu e tal encomendamos o nenenzinho e continuamos até hoje já com 44 anos sacramentados de casamento, começamos em 1950 e em 1954 nós casamos e a vida...

 

P/1: Isso foi nas festas da Rhodia, tinha as festas... tinha mais algumas festas além das festas juninas?

 

R: Não, tinha essa festa junina... tinha bailes também do Clube Atlético Rhodia, mas eu nunca fui bailarino, nunca aprendi a dançar, apesar de gostar muito de música e tudo mais, mas o corpo nunca se soltou sabe, interessante... incrível... eu confessei para ela, você sabe que eu confessei para ela não faz muito tempo, faz agora alguns aninhos que eu confessei, uma irmã dela ia casar e nós namorávamos ainda e ia ter uma festinha simples, mas dentro da casa dela e ia ter lá um conjuntinho que ia tocar umas músicas, então eu falei: “Puxa vida, eu preciso dançar porque o pessoal vai dançar e eu acho que dançar” - inclusive faz parte da cultura até, eu acho que faz parte da cultura. Caramba, eu fui na Rua São Bento número 81, tinha um professor de dança lá...

 

P/2: Tudo por causa da festa [risos].

 

R: Fui [risos] aprender a dançar lá, eram 10 aulas. Na 10a aula... talvez esse que foi o problema, porque quem dançava comigo era só homem viu [risos].

 

P/1: O professor?

 

R: É, ou era o professor, porque tinha um professor mas tinham mulheres também sabe, mas o interessante é que na última aula o professor disse assim: “Olha, não adianta... você está tão duro quanto na primeira aula [risos]. Não adianta!”

 

P/1: Não ______?

 

R: Não consegui dobrar a cintura [risos] não deu, não aprendi a dançar não.

 

P/1: [risos] E na festa?

 

R: Aí na festa não dancei também.

 

P/2: Não dançou?

 

R: Não, não dancei, não dancei porque...

 

P/2: Mas nem um pouquinho [risos]?

 

R: Não, nem um pouquinho.

 

P/1: Nem uma enganadinha no _____

 

R: Não, nem uma enganadinha, nada [risos]. 

 

P/1: Maldade que ele deixou para falar isso na última aula.

 

P/2: Na última aula?

 

R: É, bandido [risos]. Eu não sei como é que é... não lembro se a gente fazia o pagamento, se fazia no fim ou pagava por aula - enfim não lembro, eu sei que o curso eram 10 aulas e eu sai [risos]...

 

P/2: Você foi especialmente por conta do casamento?

 

R: Fui por conta do casamento.

 

P/2: Para desempenhar bem lá?

 

R: É, porque eu queria dançar. Ela sabia que eu não sabia dançar, mas eu falei: “Não, eu vou fazer uma surpresa para ela, vou sair dançando feito um Fred Astaire…”

 

P/1: [risos].

 

R: [risos] Não deu certo viu. Interessante, olha faz 44 anos que nós estamos casados, não tem 4 anos que eu confessei isso para ela, interessante não é? Só agora que eu fui falar para ela [risos]. Não... guardava não porque eu não quis falar que não tinha condições...

 

P/1: Na prática que o senhor tentou.

 

R: ... porque depois várias vezes, ela falou assim: “Mas, vamos…” outras festinhas que a gente participava, casamentos, às vezes alguns bonitos em salões gostosos, assim sabe? “Vamos, vamos…” não, não adianta, não tem jeito, às vezes aqui ela pegava assim para tentar também, ela falava: “Nossa, mas como você é duro!” E ela dança sabe - não sei se dança bem ou mal não sei, mas eu não consigo mesmo, mesmo apesar de ter ritmo, de gostar de música... mas dançar não deu certo viu, não deu certo. Que mais hein?

 

P/2: Mas o senhor ia nos bailes da Rhodia?

 

R: Olha, uma época inclusive ainda quando eu era solteiro eu levava minha irmã, sabe?

 

P/2: Levava?

 

R: ... e depois eu ia buscá-la também, eu sei que a minha irmã que ficava danada, ela falava: “Albino, nossa! As meninas…” Porque eu era alto sabe, era magrinho mas era “altão assim” e a meninada ficava louca, disse que queria dançar comigo e eu ficava encantado e falava, reclamava com minha irmã.

 

P/1: Queriam dançar?

 

R: Mas é, queriam dançar mas eu não dançava, não tinha jeito mesmo.

 

P/2: Mas o senhor não paquerava nesses bailes?

 

R: Não, porque não era meu meio... então não.

 

P/2: Só acompanhava a irmã, ia levar e buscar?

 

R: É, ia levar e depois dava as minhas voltas lá, ou aí para o cinema e depois ia buscá-la - mas eu não freqüentava.

 

P/2: Isso na adolescência do senhor?

 

R: Na adolescência.

 

P/2: O que quê o senhor fazia além do trabalho?  Por que o senhor já trabalhava?

 

R: Olha, então é interessante... houve uma época também que eu estava trabalhando e eu falei: “Eu não vou, não quero seguir…” Aí já estava se tornando mais ou mesmo comum o curso de economia que era uma sequência à contabilidade, mas antes disso eu tinha tentado fazer química, eu tinha ido aonde? No Eduardo Prado e Oswaldo Cruz...

 

P/2: Em São Paulo, na Angélica?

 

R: É, em São Paulo. Exatamente, eles não aceitavam o meu curso como equivalente ao científico porque naquela época havia uma diferenciação, se fosse fazer exatas era curso científico, humanas era o curso clássico e eles não aceitavam aquela equiparação e não aceitavam... e eu briguei bastante, eu fui inclusive em parte de Ministério aí, Secretária de Cultura, um monte de coisas para tentar, porque eu fiquei meio entusiasmado por química e não deu certo. É interessante, depois nesse ínterim, eu sempre gostei de música sabe, eu gostava muito de música - música erudita - às vezes até a minha irmã também tem uma afinidade, ela gosta hoje, mas naquele tempo que era mais mocinha e ela achava que eu fazia desaforo... Nós tínhamos um rádio só, naquela época, e eu queria ouvir a Rádio Gazeta - a PRA-6 Rádio Gazeta emissora de elite, não da elite, era o prefixo tinha... e ela tinha alguns...

 

P/1: De elite?

 

R: É, de elite. Porque eram programas assim eruditos, mesmo de elite. Nossa! Era uma rádio muito boa, tinha uma orquestra sinfônica dela própria, a Gazeta era um negócio muito...

 

P/2: Da própria Gazeta?

 

R: Da própria Gazeta, depois que o Casper Líbero morreu... foi a mesma coisa com a história do Assis Chateaubriand, quando ele morreu os Diários Associados, vucchh (?)  O Casper Líbero morreu, a Gazeta, vucchh (?), hoje acho que nem... só tem a Gazeta Esportiva ainda ou não, o jornal existe. Mas, a Gazeta tinha o jornal, inclusive tinha sempre, saía o títulozinho assim: “A Gazeta, o jornal mais bem impresso do Brasil”... e eram aqueles linotipos, aquelas máquinas não era offset nada, era um bruta de um troço lá, meio danado e eu ouvia bastante a Gazeta, eu afinava bastante com a música mesmo, gostava muito de música. Aí de repente eu falei: “Poxa vida, quem sabe esse amor que eu tenho pela música tem uma associação com o talento também?” Eu sentia assim uma particularidade por violino, eu falei: “Eu gosto de violino, eu vou tentar estudar violino.” Aí achei um professor que trabalhava inclusive na Rhodiaceta, ele tinha sido o meu colega bem anteriormente no ginásio também e companheiro de escola, era um austríaco e ele tocava violino, tocava até num restaurante em Santo André - era o único restaurante aliás que existia em Santo André sabe? O único restaurante que existia em Santo André e tinha um mezanino assim, uma pequena orquestrinha, um piano, ele com o violino e mais alguma coisa que não me recordo. Aí eu falei com ele e comecei a estudar violino. Ele me emprestou um inicialmente e depois falou: “Não, pode comprar que você leva jeito para a coisa”... E eu comecei a sentir assim uma motivação, porque eu tive um progresso que a coisa ia indo de uma forma boa, sabe? Aliás quero pegar mais uma coisinha no museu aqui, quer ver? Nessa ocasião, interessante aí isso não faz muito tempo, não faz muito tempo; eu subi a noite, já era acho que uma meia-noite mas eu estava fazendo o cursinho de inglês e eu subi com o meu caderninho de inglês, eu falei: “Vou dar uma estudadinha de inglês”... aí cheguei abri o caderno, nunca tive uma veia assim para escritor, se bem que eu tenho um continho aí que eu escrevi uma vez para acho que para Playboy, um conto erótico mas não mandei nada...

 

P/2: Que interessante!

 

R: ... e até escrevi um conto erótico e está guardadinho aí. E eu peguei e falei: “Em lugar de pegar o negócio de inglês, eu comecei a escrever um negocinho.” Então eu escrevi olha, a orquestra sinfônica: “Há muitos anos quando ainda garoto, menino entre oito e dez anos fiquei fascinado pela música, desde a medieval a renascentista, adorava a barroca, os grandes clássicos culminando com as impressionantes sinfonias românticas. Estudei com afinco o violino, instrumento com o qual mais me identifiquei; meu progresso foi rápido, meteórico, em dois ou três anos superava o meu mestre senão tecnicamente, sem dúvidas na expressão da interpretação. Que eu tocava algumas peças assim onde havia mais interpretação, mais romantismo, uma meditação por exemplo da Thaís de Massinê que é muito conhecida, eu tocava mais bonito do que ele; se tivesse que tocar uma peça de Paganini ele tocava e eu não conseguia nem tocar. “Logo após tínhamos em comum o mesmo professor”. Aí ele me levou para o professor dele e eu cada vez mais entusiasmado, porque em qualquer biografia que você lê de música normalmente é assim: o sujeito tal vai e tem um conto, já fiz tudo o que eu podia fazer por você agora, vou levar você ao meu professor - quer dizer, eu ficou todo entusiasmado. Em seguida, os momentos mais significativos da minha vida, eu fazia parte de uma orquestra sinfônica, levava para casa para estudar a partitura que me era confiada. Até altas horas da madrugada com o violino em surdina, eu estudava para poder no conjunto toda a orquestra ter o meu desempenho satisfatório. Uma grande orquestra sinfônica é composta de vários grandes solistas que às vezes são exigidos e põe à prova todo o seu virtuosismo; de um modo geral porém toda a arte desses grandes executantes é direcionada por um grande regente que capitaliza todos os sentimentos convergindo-os numa única direção a perfeita execução da obra. Então é justamente o papel de um regente, porque cada um tem uma expressão, tem um sentimento de interpretar a música, mas se você vai tocar num conjunto você... cada um tem, não pode cada um interpretar de um forma, é o regente que vai dizer exatamente os pianos, os pianíssimos, toda a dinâmica da música é o regente, é a alma dele que vai imperar, por isso que o regente é fundamental dentro de uma orquestra. Então que capitaliza todos os sentimentos convergindo-os numa única direção, a perfeita execução da obra. Os problemas sociais que naquele tempo já assolavam o nosso país imaginam-se facilmente as dificuldades para a consecução de um projeto cultural. Assim o meu outro objetivo paralelo tornou-se primordial trabalhar e produzir em uma grande empresa... uma ascensão que poderia até ser classificada como humor. Quanto mais me identificava com a organização maior correlação com a orquestra sinfônica eu percebia, havia a necessidade premente de conscientização de todos os executantes no sentido de que a obra era a mesma, havia um regente que sabia através de infindáveis estudos e pesquisas dirigir com perfeição a sinfonia. Óbvio tratando-se de uma grande obra, grandes solistas de vários naipes da orquestra se põem em evidência; hora um grande romance tendo como solista o violino, hora um grande resultado é conseguido num larghetto com os sons graves da clarineta; no movimento seguinte um tema rococó executado pelo violoncelo prepara um allegro final de toda a orquestra. Resultado: aplausos gerais, objetivo plenamente alcançado.”

P/2: Bonito.

 

R: Olha, fiquei arrepiado[risos], fiquei arrepiado outra vez.

 

P/2: Me arrepia ver que o senhor não esconde.

 

R: Hein?

 

P/2: E arrepio não dá para fingir.

 

P/1: O senhor tocou numa orquestra!

 

R: Toquei, nesse orquestra... está aqui do museuzinho... eu apareço aqui inclusive, só que é bem mais jovem, mas olha dá para reconhecer, quem me conhece bem de longe viu fala: “Ah! Só pelo nariz dá para conhecer.”

 

P/1: Onde que é esse?

 

R: Em Santo André.

 

P/1: Em Santo André?

 

R: É em Santo André.

 

P/2: Ah! depois a gente vai conversar sobre ela.

 

R: Essa Sociedade Amigos da Música que mantinha a orquestra ela...

 

P/2: Foto linda!

 

R: É, ela... está sendo re-erguida agora.

 

P/2: É mesmo?

 

R: É, está sendo reerguida; anteontem que foi terça-feira, hoje é quinta, anteontem nós fomos a um cocktail inclusive onde eu fui empossado como conselheiro; nós vamos ver, existem alguns projetos bons e a gente vai ver se leva outra vez adiante a orquestra. Agora, como dentro da minha atividade da Rhodia eu fiz muita amizade e eu saí muito bem da Rhodia, eu saí tranquilo deixando muitos amigos, todos os meus superiores eu tenho convicção de que... nenhum deles “desgostou” de mim, eu procurava desempenhar bem o papel, procurava porquê... porque eu gostava daquilo que eu fazia. A orquestra eu gostei tanto que na época ainda eu não tinha tido o contato com o parafuso Allen, eu não era desenhista ainda, eu não desenhava. Nós não tínhamos condições, no primeiro concerto inaugural da orquestra dia 30 de novembro de 1953, quer dizer vai fazer agora 45 anos, nós alugamos a partitura do Hino Nacional e pagamos um preço altíssimo...

 

P/2: Pagaram??

 

R: ... numa casa, alugamos a partitura do Hino Nacional...

 

P/1: A partitura do Hino?

 

R: ... a gente não tinha condições de comprar. Eu sei que eu estudava bastante porque a introdução do Hino Nacional é difícil, é aquele pa-ra-ram  pa-ra-ram... aquilo é difícil sabe, então eu estudava...

 

P/2: O senhor vai isso a noite depois que saía da Rhodia?

 

R: À noite, depois que saía da Rhodia. Aí numa bela ocasião, eu vi um trabalho desse maestro, esse maestro era um gênio, mas era um abnegado, ele foi uma grande figura no mundo da música na União Soviética mas ele foi preso em campo de concentração na Alemanha, como filmes que a gente vê, descobriram que ele era maestro, que ele era um grande músico, ele foi regente da orquestra estadual de Moscou. Quer dizer, uma das coisas mais importantes do mundo na época, sem dúvida nenhuma; de uma cultura tão grande que ele foi o único homem no campo de concentração que não perdeu os dentes, diz que ele ia, ele ficava observando onde os cavalos iam comer o capim, ele comia o capim que o cavalo comia, porque ele achava que tinha os nutrientes ou cálcio enfim, as coisas necessárias.

 

P/2: Tinha as proteínas.

 

R: E ele ficou com os dentes... E eu vi esse homem copiando, nós tínhamos os naipes, o naipe de violinos por exemplo são vários, para cada dois você precisa de uma partitura... ele ficava copiando, fazia um manuscrito da música para cada estante. Então a mesma música ele copiava um monte de vezes. Puxa vida, quando eu vi aquilo eu falei: “Caramba eu posso, acho que contribuir mais um pouquinho além... e eu era nessa ocasião eu era tesoureiro na sociedade, era tesoureiro aos domingos - é que eu também às vezes queria dar um passeio e eu recebia o cobrador lá em casa para fazer os acertos lá da contabilidade e tal. Então eu fiquei compadecido do homem e falei: “Puxa vida, eu tenho facilidade, eu acho que posso ajudá-lo e com menos trabalho do que ele, aí eu fiz o primeiro teste.” Então veja, eu não era desenhista na ocasião, eu não era familiarizado com papel vegetal, muito menos eu conhecia as penas próprias para desenhar, para escrever com tinta nanquim; então naquela ocasião eu prendia numa mesa da cozinha com percevejo papel vegetal, eu usava aquela malá, hoje não existe - existe pena de caneta ainda?

 

P/2: Isso em que ano, o senhor ainda não tinha feito o curso de desenho?

 

R: Não, não tinha; isso foi em 1953. Aliás, não isso aí já depois também porque eu tenho data aqui, fiz em 1956 ou 1957 então eu riscava, eu fazia um pentagrama... a primeira peça que eu fiz como teste foi essa aqui, era uma ária a corda Sol - olha essa foi a primeira música. Então eu risquei o pentagrama linha por linha, depois escrevi a música.

 

P/1: Olha só!

 

R: E tirei uma cópia, isso aqui papel, tirei uma cópia heliográfica está vendo?! Então eu copiava, quando o maestro precisava fazer dez para pôr em dez estantes, eu fazia uma vez só e depois copiava, então olha; vê quanto trabalho, quanta coisa que eu fiz aqui nossa! Tudo isso aqui, então e eu depois aí eu fazia e inclusive até com capricho, por exemplo, depois eu fazia a cópia... olha, aqui já saía na heliográfica, olha como é que saía.

 

P/1: ______ com uma letrinha...

 

R: Eu tinha boa caligrafia musical, a minha era muito boa.

 

P/1: Que capricho!

 

R: O pessoal gostava. Agora pensa bem, esse pentagrama eu que risquei um por um no papel vegetal. Aliás você viu, está aqui assim olha; então mas eu fazia com tanto entusiasmo, então eu saía da Rhodia jantava e ia fazer o ensaio na orquestra, saía da orquestra chegava às onze e meia mais ou menos...

 

P/1: _____

 

P/2: _____

 

R: ... eu ficava até umas duas, três horas da manhã fazendo isso...

 

P/2: Nossa!

 

R: ... pelo prazer de botar...

 

P/2: Trabalho maravilhoso!

 

R: Pelo prazer de botar a música na estante para gente poder tocar. Nossa! Mas, eu fiz um monte deles sabe, foi um monte. Olha, esse aqui eu lembro o entusiasmo que eu fiz, este concerto de Vivaldi... aqui eu já tinha aperfeiçoado um pouco, sem bem que eu não pus a capa, mas para evitar de virar tantas vezes eu colei uma página na outra aqui para virar uma vez só, olha.

 

P/2: O senhor fazia isso de madrugada?!

 

R: Fazia de madrugada.

 

P/2: Porque tinha que levantar bem cedo para trabalhar na Rhodia.

 

R: É. Ah, tem a data aqui quer ver? Olha: Santo André 25 de dezembro de 1957...

 

P/1: 57, olha só!

 

R: E nós tocávamos isso aqui... e isso aqui é hoje, hoje tem uma orquestra sinfônica lá em Santo André que é famosa já, muito boa mesmo - eu acho que eles tem essas partituras minhas inclusive viu.

 

P/2: É mesmo?

 

P/1: Ah, é?

 

R: Devem ter, devem ter. Então...

 

P/2: E o senhor se apresentava...?

 

R: É, e eu tocava com o pessoal tudo direitinho, gostava muito; depois aconteceu o seguinte, o nosso maestro morreu e nós éramos um grupo de amadores... nos dias do concerto, no ensaio geral que a gente chama - o ensaio geral sempre existe isso em toda a orquestra, em toda a atividade balé etc e tal existe sempre o último ensaio que é chamado o ensaio geral que é como se fosse uma apresentação já, não pode haver falha já. Então, para esse ensaio geral nós pedíamos um reforço da Orquestra Sinfônica de São Paulo e eu pagava, eu era tesoureiro, eu pagava para esses músicos. Então pelo menos uma meia dúzia a gente levava, pelo menos uns dois, três bons violinistas desses que o sujeito puxa o arco, o som sai mesmo e para os demais acompanharem; levava sempre um bom oboísta também, uns instrumentos assim um pouco mais difíceis. E esse nosso maestro que veio a falecer em 1964, ele conseguiu realmente um milagre com os músicos de Santo André, quer dizer, todo mundo trabalhando em fábrica, aquele negócio... Nós tínhamos um clarinetista Crisanto o nome dele, mas o sujeito era fantástico, ele trabalha em pedreira de marreta (assim pá-pá-pá!), lá em Mauá e ele tocava muito bem. Agora, o maestro dava aula para nós, ele além dos ensaios assim ele convocava grupinhos assim aos domingos de manhã e dava aulas assim para gente.

 

P/1: Dava aula?

 

P/2: Que interessante.

 

R: Puxa vida, que coisa! E eu fiz isso com muito amor mesmo, depois que eu...

 

P/1: Tinha mais gente da Rhodia lá também?

 

R: Tinha muita gente da Rhodia.

 

P/2: Tinha bastante...

 

R: Tinha bastante gente da Rhodia. O Alberto, foi o Alberto Pimenta de Brito que até hoje ele também hoje ele é o vice-presidente na nova Sociedade Amigos da Música, e depois quando o maestro morreu a coisa parou um pouco... Depois nós achamos um outro maestro aqui de São Paulo, um tal de (Tiboraisjner?), mas com esse não deu certo... ele não tinha o entusiasmo que o outro tinha sabe, ele queria profissionais muito competentes, quer dizer ele...

 

P/1: Queria a coisa pronta.

 

R: É, ele queria a coisa pronta para reger e não tinha que batalhar, tinha que preparar tudo o mais; então a orquestra acabou morrendo e, eu inclusive, nessa ocasião eu estava estudando com o professor que até havia mencionado, quer dizer, que só amor pela música não caracterizou o talento. Ou seja, eu tenho muito amor pela música mas eu não tenho o talento.

 

P/2: Mas eu ia perguntar uma coisa para o senhor dentro disso: o senhor pensou em sair da Rhodia em algum momento para ser músico?

 

R: Ah, não. Não pensei, eu tinha muito entusiasmo assim, mas eu não sei, eu não cheguei a pensar. Quer dizer não chegou num ponto de eu...

 

P/2: De pensar isso?

 

R: É, de pensar, não. E aí chegou num ponto onde acontece o seguinte: hoje por exemplo, se você vai fazer um teste numa orquestra eles já dão uma programação - você tem que tocar uma Sonata de Beethoven, você tem que tocar uma partita de Bach e uma música à primeira vista. Então, é a música à primeira vista que é um negócio meio danado, normalmente é uma composição de um compositor às vezes totalmente desconhecido, ele põe a partira e você tem que tocar.

 

P/2: Eu vou pedir um minutinho... [pausa]. Yes.

 

R: 1, 2, 3...? [risos].

 

P/2: Bem diferente, quase ninguém fala.

 

R: É, fazer o negócio meio diferente [risos]. Vim antes do três, em lituano agora.

 

P/2: É, em lituano?

 

R: É, então antes do três estava... ouve bem eu vindo antes do três... então está bom. Então nós estávamos falando vamos dizer, do amor e do talento; então quando eu me defrontava com uma música nova, eu deveria vamos dizer, por isso que eu mencionei o concurso; o sujeito é obrigado a interpretar à primeira vista, então ele fala à primeira a vista, a primeira leitura ele tem que tocar, ela não pode sair perfeita já digna de um concerto - mas, ela tem que sair. Então, e quando eu pegava uma música nova, eu sentia o mesmo problema da outra anterior, eu tinha que esmiuçar devagarinho e tal, eu não consegui tocar de pronto assim, não conseguia. Aí nossa! Quanto que eu chorei, mas eu chorava tanto, porque eu sentia tanta vontade, sentia aquele gosto, sentia o amor, sentia uma paixão toda - mas eu não tinha talento, não conseguia diversificar a história do talento que foi lido lá; mas então o resultado: eu acabei até parando sabe, acabei parando de tocar. Agora, recentemente voltou outra vez um pouquinho de entusiasmo, um pouquinho de saudade. Óbvio ainda mais agora que a gente atingiu certa idade, não pretendendo nem mesmo se a orquestra se nós reativarmos a orquestra, mas mesmo assim como uma recreação principalmente com os dispositivos de hoje que você tem bons gravadores, eu posso tocar dueto comigo mesmo que eu... porque é gostoso tocar em conjunto... então eu posso fazer a parte, tem muita música que existe para dois violinos, bons eu tenho um caso até interessante de genialidade, porque música é muita matemática. Então eu posso tocar a parte de um violino, eu gravo e depois eu toco...

 

P/2: Faz a sua parte mesmo.

 

R: Eu faço a outra parte exatamente, e aliás...

 

P/1: O senhor tem o violino ainda?

 

R: Tem, mandei consertar agora, ele foi consertado agora, faz pouco tempo...

 

P/1: É o mesmo da... época?

 

R: É o mesmo, esse violino eu comprei daquele segundo professor que era um colecionador, ele inclusive chegou a ter na época um Guarnierius, que é um violino que custa um milhão de dólares. Mesmo este meu é um violino de autor, é um violino feito por Nicolaus (Dukesni?) no século XVIII, eu não sei exatamente o ano mas foi 1700 e lá não sei o que, é um violino de autor, ele tem um bom valor inclusive para colecionador e ele tem uma boa qualidade sonora também - é um bom violino. Então eu pretendo reiniciar outra vez devagarinho,eu acho que talvez seja como andar de bicicleta, chegar até o ponto que eu estava já talvez eu não demore tanto assim e para mim assim como cultura e como entretenimento, mas almejar mais não dá porque a música... a música é interessante. Então, além da Gazeta nós tivemos também isto quando no começo da década de 50, nós tínhamos uma Rádio Cultura que não tem nada com essa Rádio Cultura de agora, também a Rádio Gazeta PRA-6, a Rádio Gazeta a Emissora de Elite. A Cultura era na Avenida São João, não lembro que mais que eles falavam mas tinha, era PRA-4 Rádio Cultura  e ela tinha um programa, um nome muito sugestivo, muito bonito “A Hora Doce”, era das nove às dez, um programa de música erudita, programa A Hora Doce patrocinado pela Companhia União dos Refinadores, do Açúcar União a Hora Doce... a primeira vez que eu senti assim que eu tinha talvez alguma coisa ou um pouquinho diferente assim, não só gostar de uma musiquinha de carnaval, a jardineira vamos dizer lá que era lá do meu tempo, eu estaria na faixa talvez dos 7, 8 oito anos quando eu fui; eu estava com a minha irmã nós íamos a um matinê que existia naquele tempo, onde passava seriado, filme de série, cada domingo tinha uma continuação tal não sei o quê. Olha a memória outra vez, Nossa Senhora! Isso já faz muitos anos, isso já está perto dos 60 anos, então era um seriado Terry e os Piratas, tinha um fundo musical...

 

P/2: Como que era o nome?

 

R: Terry, Terry...

 

P/2: Terry.

 

R: Terry, T-E-R-R-Y e os Piratas, nossa senhora! E o prefixo, o fundo musical como se diz a trilha do filme era um mercado...

 

P/2: A trilha sonora.

 

R: ... persa de Albert (Catilby?) que já era uma música um pouquinho diferente e eu fiquei tão encantado com aquela música, e daí...

 

P/1: _____.

 

R: É, nessa ocasião eu já... apareceu esse gosto..

 

P/2: Esse interesse.

 

R: ... esse interesse por música um pouco diferente e a primeira vez que eu chorei, que eu senti realmente que eu tinha assim qualquer coisa, que eu tinha realmente um...que eu sou músico, mas músico ouvinte. Porque tem o músico compositor que aliás é uma arte estranha, o artista plástico ele faz a arte e depois ela é para ser admirada, agora um compositor de música faz, depois ele precisa de um outro artista para interpretar - senão a música dele não vale nada, é interessante. Então você ouve uma Sinfonia 40 de Mozart por exemplo, então alguém diz assim: “O que quê você está vendo?! Porque você está ouvindo todo entusiasmado assim ali.” Não, não eu estou ouvindo nada, não estou vendo nada, estou ouvindo uma música impressionante mas não impressionista, é uma música que não é descritiva, é uma música abstrata e a maior parte principalmente no período clássico a música não queria dizer que tinha o passarinho voando o outro bicando por cima, não tinha... Agora, existe a música descritiva, então a primeira vez foi na Rádio Cultura, na PRA-4 Rádio Cultura de São Paulo quando os programas, os nossos programas, um locutor com uma voz também maviosa assim: “Os nossos programas estão sendo transmitidos todos em disco long-play Michel Grouve”. É, quer dizer, era novidade o long-play Michel Grouve, inclusive o micro sulco e depois de tocar a música ele fazia uma dissertação sobre a música -, essa foi uma ocasião que chorei também. Olha também... 

 

P/2: Fica arrepiado?

 

R: É, eu fiquei... eu ouvi uma música mas eu fiquei, eu falei: Nossa Senhor, que impressionante! Eu fiquei impressionado com a música... eu via... aí eu sentia realmente, quando o sujeito descreve a música falei: “Caramba, Nossa Senhora! É uma peça sinfônica de um grande pianista inclusive era de Rachmaninoff, é a Ilha dos Mortos - mas é uma música descritiva, é baseada num quadro. Quer dizer, o quadro também tem que ser entendido: é um navio que está carregando os mortos para a Ilha dos Mortos, só que havia algumas almas lá indevidamente e o cara não tinha morrido, então havia uns... é impressionante a música, eu tenho a gravação inclusive. Nessa ocasião eu chorei profundamente inclusive, chorei bastante; puxa vida, eu tenho afinidade com a música porque eu consegui realmente sentir sem nunca ter ouvido...

 

P/2: Sentir?

 

R: ... nada eu senti, eu senti a música. Então é realmente onde a gente ficava entusiasmado, daí quando eu comecei a estudar toda aquela paixão e aquela idéia de que poderia acontecer qualquer coisa, mas o amor só... então, e a música é assim, quer dizer, tem o compositor, tem o executor e tem o ouvinte - mas o ouvinte que é músico, que capta, que consegue interpretar. Eu sou rápido em concertos, até hoje eu frequento muito concerto, então é comum, as vezes ainda quando eu estava na Rhodia, tinha a companheira lá a Dona (Tocha?) e não sei, ____ “Hoje o senhor vai ao concerto, bom divertimento”! Eu falei Dona (Tocha?): “Eu não vou me divertir, eu não vou... no concerto, não é divertimento e às vezes eu não ficava com vergonha porque eu olhava o companheiro do lado ele também chorando com as lágrimas correndo, a minha também correndo, às vezes era obrigado até a puxar o lenço - mas era normal porque são pessoas que realmente gostam também e que sentem porque, principalmente se você vai assistir um grande solista desses virtuosos assim tipo Paganini que impressionam, quando ele termina o programa as madames que foram exibir os seus últimos casacos, todo mundo levanta já para ir embora, os que gostam de música começam aqueles aplausos de pedir bis e ficam até exaurir o músico.

 

P/1: ficam até...

 

R: Eu cheguei a assistir um dos maiores violinistas do século, ele chegou a dar sete extras, tocou..

 

P/1: Sete?

 

P/2: Sete vezes...

 

R: ... sete vezes, sete repetições. Quer dizer, não a mesma música, ele tocava outras peças assim sabe?

 

P/2: Quase um outro show.

 

R: É, quase outro.

 

P/2: Uma apresentação?!

 

R: É sim.. Mas... e daí agora... o que quê nós vamos voltar para...

 

P/1: O senhor não lembra da peneira Rodini?

 

R: Lembro.Nossa, lembro bastante.

 

P/2: Como que era ela?

 

R: Então, a Peneira de Rodini era justamente nessa PRa-4 Rádio Cultura de São Paulo, era na Rádio Cultura, ela tinha... era interessante, naquela época era um programa  de calouros, eu não sei se já era o Ruis ou o Maurano quem que fazia a coisa ou era da própria direção da rádio porque era o mais inteligente programa de calouros que eu vi até hoje. Porque hoje são poucos programas, você vê, às vezes na televisão; então é capaz de aparecer um sujeito cantando um _____ do Barbeiro de Sevilha e o outro vai tocar A Panela Vazia lá, Panela Velha não sei o quê e os dois vão ser julgados. Nesse Peneira Rodini não. Música popular era uma coisa e cantores líricos era outra coisa, era separado. E eu não sei se depois era a cada seis meses, então havia a peneira de ouro Rodini...

 

P/1: Peneira de Ouro Rodini.

 

R: Os ganhadores semanais que iam disputar, então eram só os bons mesmo, era a Peneira de Ouro Rodini, era um programa muito bonito e tinha uma parte final do programa onde havia um _____ enciclopédicos também de perguntas e respostas, tipo daquele O Céu é o Limite que apareceu na televisão...

 

P/2: Sei, ah! Tinha isso do programa.

 

R: Tinha também. Nossa!

 

P/1: E o senhor nunca ficou com vontade de ir... não tinha a parte de instrumental...?

 

R: Não, nessa ocasião ainda eu não tocava.

 

P/1: Não tocava?

 

R: Não, não tocava; gostava da música, mas não tocava. Tinha parte instrumental também, era um programa puxa vida, é a Peneira de Ouro Rodini.

 

P/2: O senhor escutava pelo rádio...

 

R: (cantando)  Esse era o prefixo, eu não...

 

P/1: Como é que é?

 

P/2: Como é que era?

 

R: Eu não sei, eu sei que é... (cantando), não sei que música que é, eu sei que era mais ou menos assim... era (cantando)... esse era o prefixo do programa Peneira Rodini.

 

P/1: Peneira...

 

P/1: Peneira Rodini.

 

R: Se pegar alguém da velha guarda ele vai lembrar dessa musiquinha.

 

P/1: Olha, e era um grande evento assim.

 

R: É, era aos sábados.

 

P/2: O senhor chegou a ir em algum programa ou participava?

 

R: Fui também, fui, cheguei a... frequentei também. Mas era um negócio importante e patrocinado pela Rodini, a boa enfermeira que não deixa dor doer.

 

P/1: É, o senhor lembra da publicidade da enfermeira.

 

R: É, lembro do cartaz dela direitinho. Rodini... aliás eu era... era assim o distintivo da Rhodia naquele tempo...

 

P/1: Ah! está na caixinha...

 

R: É, só que aqui não era Rodini não.

 

P/1: E o senhor trabalhou na seção de... a trajetória do senhor, o senhor entrou como mensageiro, foi auxiliar de compras, foi subchefe...

 

R: ...auxiliar de compras, aí eu passei para importação, técnico de importação.

 

P/1: Técnico de importação?

 

R: Então, esse curso de desenho também apareceu também dentro da minha atividade de importação, foi de grande valia o curso.

 

P/2: Entendi.

 

R: É, por isso que a Rhodia dava, aliás eu acho que a Rhodia desde que a Rhodia, desde  1921, que ela começou a trabalhar já começou a ensinar. Até hoje ela tem, ela aperfeiçoa cada vez mais os seus funcionários, isso é uma constante da Rhodia e tanto é que ela teve algum benefício, mesmo de minha parte o que ela me pagou lá dentro, lá fora eu fiz depois por minha conta. Eu fiz uma vez uma guia de importação; se eu morrer com 100 anos eu nunca vou esquecer isso também, tinha 42 anexos, 42 folhas de materiais. O material pra você fazer uma importação é classificado de acordo com o seu material físico, com a sua finalidade, com o seu peso, com uma porção de coisas, entra uma porção de coisas para você fazer uma classificação do material. O que quê é essa classificação? É na tab, na tarifa da alfândega brasileira, sobre a qual, sobre essa classificação é que você vai pagar o imposto correspondente; naquele tempo os impostos eram bastante caros inclusive, alguns chegavam até eu cheguei a pegar casos onde se pagava até 205% de imposto.

 

P/1: De imposto.

 

R: Só o imposto de importação, o I.I. Então nessa época dessa guia de importação de 42 anexos não foi negro, mas foi um pequeno período onde eu trabalhei com uma pessoa que eu não sei, não deu muito certo, foi um tal de Cigristi (?), não sei se vocês já ouviram falar ou alguma coisa?

 

P/1: Isso foi depois?

 

R: Isto foi, eu fiquei com ele de 1969 até 1972. Então eu era técnico de importação e a gente não afinava; aliás ele não afinava com ninguém na realidade, até com a esposa dele ele não afinou, se separaram agora a pouco tempo e negócio meio chato lá. Bom, e então o meu vamos dizer, o meu chefão era esse Cigristi, mas o meu chefinho ficou todo orgulhoso, pomposo lá etc e tal, ele levou quando eu terminei de fazer aquela guia de importação com 42 folhas só de materiais o tal de Afonso que era um superior hierárquico, um SH meu mas de nível mais... ele levou para o Cigristi para mostrar que era um trabalho incrível, aí o Cigristi olhou, elogiou e falou: “Olha eu dou três retornos da CACEX se até três retornos eu acho que o trabalho é louvável, porque se você faz um negócio que seja um pouco diferente etc e tal, a CACEX não emite a licença de importação ou a guia de importação, ela corrige, ela manda você arrumar, ela manda você estudar direitinho…”

 

P/2: Tem que voltar.

 

R: Tem que voltar, tem que refazer porque aquela classificação não foi condizente. Como eu era recém-formado ainda dentro da... eu conhecia muito bem material e não havia dúvida, eu trabalhava com muitos catálogos para fazer essa guia de importação de 42 páginas, 42...

 

P/2: Quer dizer, o senhor aprendeu fazendo?

 

R: Exatamente, então quando eu peguei aquele material todo para eu classificar tinham coisas por exemplo que não eram bem completas, eu tinha que deduzir, mas em função do meu conhecimento técnico eu deduzia de uma forma mais ou menos correta, eu deduzia melhor vamos dizer do que um leigo poderia fazer porque eu conhecia tecnicamente o material, eu conheci. Então resultado: aí entrou aquela guia na Cacex, quer dizer, se ela voltasse em três vezes o Cigristi acharia louvável ainda que seria um bom trabalho. Eu sei que, três, quatro dias, cinco dias, uma semana a guia não voltava, dez dias a guia não voltava, aí eu já comecei a ficar esperançoso, eu falei: “Se ela não voltou em dez dias é porque eles não acharam até agora nenhum problema, já devem estar na folha número 30 e lá vai cacetada.” Resultado: um belo dia eu vou a Cacex a porreta estava emitida sem nenhum... não voltou nenhum...

 

P/2: _____ nada em 40 folhas.

 

R: ... não voltou nenhuma vez, 42 folhas. Todas elas, quer dizer, mas eram centenas de produtos, quer dizer eu os classifiquei com perfeição, quer dizer que saiu tudo perfeito e depois outra; aí quando vem aí tem o fiscal na alfândega que vai pegar a guia de importação vai ver com o material para ver se realmente está condizente, senão você vai pagar multa e vai complicar o troço - ou você vai passar por contrabandista. Mas não, a coisa funcionou maravilhosamente bem.

 

P/1: Nessa área de importação aí já era geral?

 

R: Era geral, aí nós fazíamos para o grupo todo, aí fazia... era para têxtil, para...

 

P/2: O Grupo Rhodia.

 

R: é, o grupo Rhodia exatamente, era o Grupo Rhodia na ocasião, para  São José dos Campos, para Paulínia...

 

P/2: e como é que isso... não, termina.

 

R: É, então para Paulínia, para Santo André, enfim para todas, o grupo Rhodia completo, tudo passava por nós. E você ia perguntando?

 

P/2: Não, como é que o senhor chegou neste cargo? Como é que foi a transição, de subchefe...?

 

R: É, nessa ocasião houve uma fusão, coisas que já aconteciam naquele tempo, das áreas de compras nacionais da têxtil com a química e nós já éramos divisão têxtil (a Rhodia Indústrias Químicas e Têxteis), exatamente já tinha esse nome de Rhodia Indústrias Químicas e Têxteis, então a importação estava precisando de gente e um tal de Formigoni, que já é falecido também, e que me conhecia de infância, nós trocávamos gibis, isso quando tínhamos dez anos de idade e ele falou: “Não, eu quero o Albino”... e então resultado que aí eu fui para São Paulo, trabalhar na importação.

 

P/1: Lá em São Paulo?

 

R: É, e desempenhei muito bem também. Tanto é que depois surgiu uma oportunidade aí, eu já ia ser chefe do setor de compras da Rhodia Merrier, na ocasião o Instituto Veterinário Rhodia Merrier, aí pediram, eles queriam uma pessoa que soubesse bem importação = mas não faria, mas iria coordenador toda importação da Rhodia Merrier, a coisa estava centralizada justamente com o Cigristi e queriam uma pessoa que tivesse conhecimento de compras nacionais também, resultado: lembraram do Albino. Aí nessa ocasião também veio aquele um pouquinho de orgulho e uma satisfação gostosa, porque houve uma briga, preciso entrar o doutor (Romanov?) inclusive no meio porque o Cigristi não queria me soltar, ele achava que no momento eu era imprescindível, quer dizer, todo mundo é substituível mas no momento ele não queria me soltar porque eu faria falta na área de importação do conjunto Rhodia, mas mesmo assim depois ganharam lá quem me solicitou para Rhodia Merrier, eu fui para Rhodia Merrier.

 

P/1: E nesse período dos anos... esse é o ano 1970, a primeira...

 

R: Exato, de 1969 a 1972 que eu fiquei com o Cigristi.

 

P/1: E qual que era o produto mais importado, qual que era... motivava economicamente mais a Rhodia atualmente?

 

R: Olha, as importações… era para Divisão Têxtil, importava-se muito equipamento Zinzer da Alemanha. O que menos dava trabalho justamente era para farmacêutica, porque eram matérias-primas e o grosso 95% as matérias-primas era da mamãe, então não tinha concorrência, não tinha nada; se bem que existia também um problema de um controle rígido de preço pela Cacex [Secretaria de Comércio Exterior]. Se você ia fazer uma determinada importação a U$ 1,00 e tinha um que vendia a U$ 0,80, você tinha que justificar o porquê você estava importando a U$ 1,20; aliás um dos casos que me dava muito trabalho, até tinha um companheiro de um grupo, que depois eu vou fazer um comentário... Vocês tem tempo é?![risos].

 

P/1: Claro!

 

P/2: Todo do mundo.

 

R: Então, um dos produtos que me deu muito trabalho e esse companheiro falava assim: “Albino você vai fazer uma defesa para Cacex”.. eu falei vou, porque eu não ia tomar o drinquezinho com eles porque eu gostava de fazer, quando eu ia fazer uma defesa eu preferia ficar sozinho no escritório depois das seis horas que todo mundo ia embora para eu bolar alguma coisa. Era o bandido do ácido acetilsalicílico,  o nosso Ronal..

 

P/2: Famoso.

 

R: É, famoso. Ele me dava um problema porque nós pagamos exatos U$ 3,00 naquela ocasião para a Rhone Poulan na França, hoje não sei como é que está o negócio, se bem que hoje não tem mais controle de preço. A China botava o negócio aqui a U$ 1,00; então a Cacex... “Não, importa da China”!

 

P/2: Claro.

 

R: Importa da China, paga U$ 1,00. Aí então eu sentava e ficava, botava toda a moringuinha para funcionar lá e tentava escrever; escrevia um monte de coisa para justificar o porque que nós estávamos pagando mais...

 

P/2: A defesa era por escrito?

 

R: Exatamente, por escrito e tinha que ser muito boa.

 

P/2: Já tinha que mandar para frente.

 

R: Então o principal argumento é que o nosso ácido acetilsalicílico vinha revestido de um... puxa vida, qual era o...

 

P/1: Verniz.

 

R: É? É um... não lembro exatamente, não era acetato... não lembro direitinho o produto, mas ele tinha esse revestimento que dava uma particularidade, que ele é bom... por exemplo o Rhonal, não é porque ele é da Rhodia mas se você tiver algum problema, principalmente se tiver algum problema de gastrite ou qualquer coisa, você toma um Rhonal e ele não vai te prejudicar, como se você tomar um “Melhoralzinho” da vida aí.

 

P/2: Por conta desse revestimento.

 

R: Exatamente, por conta desse revestimento. Porque ele vai começar a se dissolver e vai começar a soltar o princípio ativo mesmo já nos intestinos. Quer dizer, então você... ele passa pelo estômago e não vai agredir a tua mucosa, aquele negócio todo. Então baseava nisso aí para poder fazer a defesa; na realidade mais é porque a mamãe que impunha o preço, era isso aí.

 

P/1: O senhor ______ a defesa também, funcionou.

 

R: Funcionava. Então, na importação eu também fui útil sabe. Gozado, agora a gente pode falar; na época eu não comentava com superiores, não havia necessidade, era a minha função, era o prazer que eu tinha. Então nós importávamos para a parte veterinária, para a Merrier uns freezeres mas que chegavam a 75o abaixo de zero, o produzido no Brasil o que dava mais frio dava -25o que era através inclusive de gás carbônico, mas nós precisávamos de - 75o. Mas, a Cacex deixava importar só que entrava dentro de uma categoria onde você pagava naquela época 70% de alíquota, o valor era 70%. Aí eu estudando aquela tab, a tarifa das alfândegas brasileiras, eu vi que tinha um freezer mas que era próprio para cultura de embriões, para reprodução e aquele era isento; você não pagava nenhum centavo de imposto; aí eu falei: “Puxa vida, se eu botar esse negócio... caramba, e outra; para uso veterinário, embrião de uso veterinário”. Então eu falei: “Caramba... se eu botar, nós somos Instituto Veterinário Rhodia Merrier, se eu botar esse negócio aqui, se é para embrião ninguém vai estranhar, porque dentro de uma indústria veterinária”... e resultado: eu fiz dezenas de importações de equipamentos assim sempre a zero, nunca paguei... quando o imposto correto seria 70%, deveria pagar 70%; mas eu me senti orgulhoso, eu falei: “Saiu a guia, saiu! E agora, agora vou esperar na alfândega, vamos esperar na alfândega, saiu.” [risos].

 

P/2: O senhor ______.

 

P/1: É, mas é essa coisa do governo era... com essa... era uma disputa de cão e gato.

 

R: É, e um ambiente lamentavelmente muito triste, hoje não sei se melhorou um pouquinho, eu acho que as coisas pelo que a gente vê nesse aspecto, eu acho que as coisas tem piorado porque o ambiente na alfândega era uma máfia muito feia, era um banditismo realmente..

 

P/1: Na alfândega?

 

R: É, na alfândega era um banditismo. Se tivesse uma falhinha sequer você tinha que correr alguma coisa por baixo, porque senão não saía o produto e complicavam sabe.

 

P/2: Guardar uma coisa escondida...

 

R: É, exato e às vezes a coisa era muita chata. Numa ocasião por exemplo, nós fizemos a importação de um equipamento para farmacêutica, um equipamento muito grande, eu acho que era para o setor de comprimidos lá; eu sei que houve pessoal da Farma que foi da Itália e ficaram uns dois, três meses lá acompanhando a parte final da estruturação lá dos produtos - daquele equipamento para poder fazer a manutenção depois aqui. E tudo bem, quando terminou o equipamento os brasileiros, voltavam para cá e os italianos já começaram a botar os negócios nos engradados para mandar para o Brasil, aí o italiano que conviveu com o brasiliano que era gente muito bonna, este italiano também latino falou:  “Puxa vida, o Benedito lá do Brasil é, vamos mandar uma máquina aí fazer macarrão para ele de presente, né? E dentro daquele bruta equipamento o cara bota uma maquininha de fazer macarrão.

 

P/2: Dentro da caixa?

 

R: Parou tudo na alfândega, parou tudo quer dizer...

 

P/2: Por conta da maquininha de macarrão?

 

R: Por conta da maquininha de fazer macarrão parou tudo.

 

P/1: Parou tudo.

 

R: É, parou tudo.

 

P/1: E não queriam liberar.

 

R: Não queriam liberar, aí não teve jeito, aí foi o jeito mesmo.

 

P/2: [risos].

 

R: É, numa ocasião interessante eu trabalhava, eu recebia bastante pessoal da França, nós fazíamos reuniões aqui e o pessoal da França inclusive pedia a minha presença lá, mas na hora de ir para França ia sempre outras pessoas, iam... e eu nunca fui para França e uma...

 

P/2: Nunca foi para França?

 

R: Não.

 

P/2: Eu ia perguntar isso agora.

 

R: É, nós estávamos uma ocasião reunidos, tinha dado também um problema porque a França também fez uma cagadinha desse tipo assim, simples que para eles não querem dizer absolutamente nada, acostumados com o Mercado Comum Europeu não tem problema, tudo é maravilhoso, tudo é fantástico, também botaram uma porcariazinha e deu um bruta de um problema. Nós estávamos numa reunião e inclusive naquela época a Rhodia tinha as vice-presidências, o presidente era o (Musa?) e o vice-presidente da saúde era o Belotti, aí estávamos lá, eu estava participando também e tal e todo mundo lá e reclamando dos problemas com a exportação da França e então eu falei: “Olha doutor Belotti, acontece o seguinte: quando vocês vão para França, vocês falam com o Monsieur Landau para cima, o Landau era o número 1, você falam com o Monsieur Landau para cima, com o Jean, com o Pierre, com o (Reimongen?) o pessoalzinho que cuida ninguém fala. Me deixe ir para França, numa semana nunca mais vai haver problema desse tipo. “Ah! O senhor está querendo cavar uma viagem para frança né?! E ficou nisso e não fui, então não falaram com o Jean, com o Pierre, falavam só com o Landau para cima, então as cagadinhas homéricas saiam.

 

P/1: Saiam _____

 

R: Saiam e chegava na alfândega, você tinha que dar a volta por cima, era sempre um negócio complexo - mas, sempre valia a pena [risos]. 

 

P/1: E o senhor estava no Instituto Rhodia Merrier...

 

R: Exatamente. Depois aí mudou, outra vez aí eu... nessa ocasião eu trabalhava só para Merrier, mas eu fazia compras nacionais também, eu tinha sob a responsabilidade as compras nacionais e fazia a importação. Aí também houve mais uma fusão e eu passei a fazer a importação para o todo o grupo saúde, exceto a fitosanitária que tinha um outro companheiro lá que ficou fazendo. Então eu passei a fazer para a Farma, fazia a... nós tínhamos a usina lá em Santo André, a farmacêutica lá em Santo André, aqui a da... que era a (Apcion Rhodia?) na época e também para alimentação animal.

 

P/1: Isso onde?

 

R: Essa alimentação animal em Camaçari.

 

P/1: Camaçari?

 

R: É, Camaçari. Aliás em Camaçari também foi um tento que a gente marcou também interessante, foi muito gostoso e vem aquela história, puxa vida, gostando de todos os baianos principalmente das “ Daniela Mercury da vida”, porque os outros baianos não… mas, o bahiano ele tem aquela fama de ser meio lento, meio não sei o quê, então a fábrica de Camaçari já estava prontinha quase para ser colocada em marcha. A matéria-prima para... era a produção de Metionina, nós íamos produzir Metionina, a única fábrica do Brasil. A matéria-prima para Metionina naquela época seria importada da França, era o famoso AMTT, Aldeído Metil ETil Propiônico, nome bonito. Diz que se caísse uma gota daquele produto no mar diz que os peixes sairiam todos do mar, que iam viver em terra de tão ruim que era... diz que era pavoroso aquele produto lá, muito fedido não sei o quê. A França já tinha um engradados... como se diz, uns recipientes hermeticamente fechados de aço tudo bonitinho e pronto para exportar e a Rhodia em Camaçari que não era registrada como importadora e exportadora, os baianos não conseguiam fazer aquele registro. Aí o Belotti um dia, foi até numa segunda-feira, chamou o Alcântara que era o gerente de administração e negócios naquela época, aí o Alcântara me chamou e falou: “Olha Albino, o Belotti está querendo que você vá para a Bahia resolver o negócio, porque a “francesada” está querendo botar já o aldeído para cá e não tem, não pode exportar; que a Rhodia ainda não é registrada. Você consegue dar um jeito nesse negócio?” Eu falei que sim. Então isso era numa segunda-feira de tarde, não sei porque cargas d’água eu sabia que tinha um avião à tarde, era às sete horas e pouco, então ele falou que eu iria amanhã. Eu falei: “Alcântara eu vou fazer o seguinte, já são quatro horas eu vou embora agora, eu vou para cá tomar um banho, pego uma trouxinha lá e eu vou tomar o avião hoje das sete horas e eu chego a noitinha lá, tudo bem? E amanhã às setes horas, eu já estou lá para ver o que quê está acontecendo, vou trabalhar.” Olha, então veio a história do baiano, aí puxa vida, que atendimento, que simpatia, que cordiais, que gentileza, que gente batuta no tratamento, aí eu falei: “Puxa vida, mas o que quê está fazendo? Não, está faltando o registro do... eu falei; mas de onde? Não, pode ser que esteja... então vamos lá, vamos. Não, vamos agora e tal…” Fomos lá e estava lá etc e tal, na quinta-feira, eu tirei a tarde para eu conhecer Salvador porque eu não conhecia, fui dar uma volta, missão cumprida. Perdão, na quarta-feira à noite eu sentei no hotel e fiz todo o meu relatório. A Rhodia estava registrada como importadora e exportadora. Quer dizer, tinha conseguido o que havia meses eles não tinham conseguido fazer e porquê... Aí, na quinta-feira,  no último dia que eu tirei por minha conta, inclusive eu fui a um bar super gostoso que era do irmão de um tal de Amaral que era companheiro lá da Rhodia, baiano super simpático - mas que não tinha funcionado na época, porque eu tive um pouco mais de sorte ou eu fiz a coisa acontecer. Parece que eles esperavam a coisa acontecer e então aí eu falei: “Agora eu mereço tomar um choppinho.” Aí fui procurar o bar do irmão do Amaral, uma delícia, fiquei lá até às tantas e o bar acabou fechando porque todo mundo já ia indo embora - deu meia-noite, era uma quinta-feira acho, o pessoal azucrinava só na sexta-feira e não sei o quê, então vamos embora e eu estava com uma capanguinha sabe, naquele tempo usava umas capanguinhas assim e eu ia com a capanguinha e falei que ia para o hotel. Não era muito longe, t 500 metros, um quilômetro quiçá para dar uma caminhadinha, mas perto do mar ali, então de repente os amigos ali falaram: “Não, senhor Albino o senhor não vai, não. Espera um pouquinho.” Aí fecharam o boteco, um deles inclusive tinha uma motoquinha de 50 cilindradas, aquela pequena, foi carregando na mão e os outros me levaram até a porta do hotel porque eles falaram: :Não, se o senhor for sozinho o senhor não chega lá no hotel, pelo menos com a capanga não chega, porque eles vão lhe assaltar.”

 

P/1: Logo no _____

 

R: Então, você vê... quer dizer foi uma gentileza e em todos os pontos eu achei que eles eram muito gentis só que no trabalho não funcionaram direitinho como deveria ser... como a coisa deveria ter ocorrido, mas eu tive um pouco de sorte.

 

P/1: Na Rhodia Nordeste também... na do carro o senhor chegou a fazer compras para eles?

 

R: Não. Eles tinham um setor específico, era o Walter Tomé e o Paulo, Paulo Roberto, Paulo Roberto Guimarães. Aliás como eu falo, eu mantenho hoje ainda uma estreita amizade com os  aposentados também da Rhodia mas com eles não, nunca mexi nada com... acho que foi o único setor mesmo, o resto a gente mexeu bastante.

 

P/1: Essa área de farmacêutica, ela foi crescendo nesse período que o senhor trabalhou na...

 

R: Ah, sem dúvida. E depois outra, quer dizer, o principal na área assim farmacêutica é como você mencionou, até é interessante, fazia anos que eu não ouvia falar em Nesdonal, você falou parece que Nesdonal [risos], você lembrou desse... então são produtos, o mais tradicional acho que continua porque ele fantástico mesmo é o Gardenal, o Fenobarbital, ou ainda o Fenilitil Malolinuréia.

 

P/2:  É sal?

 

R: Engasguei... é Fenilitil Maluniluréia...

 

P/1: Não, não engasgou nada, você está perfeito mesmo... vou chegar nesse estágio... até o final do projeto eu chego.

 

P/1: A gente aprende...

 

R: Então, o lançamento de novos produtos. Então muita coisa desapareceu que era boa, mas produtos que sem dúvida nenhuma vão sendo superados que a Rhodia tem, por isso se a gente falar um pouquinho em política eu sou um pouquinho contra os PT da vida porque esse pessoal de esquerda eles são muito contra as multinacionais. Eu acho um indivíduo quando sai de uma escola, um engenheirinho recém-formado, a primeira coisa que ele pensa é trabalhar numa multinacional, é onde há mais campo, os investimentos são maiores, essa empresas investem muito, muito em estudos, o centro de pesquisas da Rhodia Paulínia, quer dizer, tem uma equipe de cientistas lá que ficam só estudando produtos e fazendo, quer dizer, se é uma pequena empresa não pode fazer investimentos desse tipo assim sabe. Então uma multinacional é que tem condições, é uma multinacional que dá inclusive condições para um funcionário viver aposentado como eu relativamente tranquilo sem problemas, porque não é só a Rhodia, eu acho que tem outras empresas tão boas quanto a Rhodia - melhor não, melhor que a Rhodia eu acho que não tem - mas, tão boas quanto a Rhodia, deve haver assim, sabe? Então e em função justamente de todos esses estudos são lançados novos produtos e depois outra essas grandes associações, por exemplo, com Rhorer nos Estados Unidos, isso é coisa que ainda nem entrou na minha cabeça, eu já estava fora quando aconteceu tudo isso aí. Então tudo isso é um crescimento muito grande e a farmacêutica, a área farmacêutica da Rhodia, a Ronnie Poulan inclusive diz que é um exemplo no mundo todo, diz que é uma das empresas que serve como exemplo, isso sempre em dia com a revistinha Rhodia aí. Revistinha não, Revista Rhodia... porque era um departamento de especialidades, era um cubículo, depois fizeram um pavilhão “BF”, aí já era um pavilhão um pouquinho mais moderno, mais estruturado para receber mas também passou a ser arcaico. Aí quando compraram a (Apcion?) _____,  a (Apcion?) já era um negócio mais moderno, americano e mesmo assim já foram modernizando também.

 

P/1: O senhor importava os medicamentos... porque, não eram produzidos aqui, eram importados da mamãe como o senhor diz, o senhor trabalhava _____

 

R: É, na época nós só importávamos matérias-primas, havia proibição de importação de produtos acabados no meu tempo, hoje eu sei que... se importa com regularidade, aliás você pode importar até particularmente, se você quiser você faz uma importação aí de determinados produtos sem burocracia, mas naquele tempo não, produtos assim...

 

P/1: Nenhum produto acabado...

 

R: É, não havia possibilidade de importação de produtos acabados, era só matérias-primas.

 

P/2: Teve algum caso assim que o senhor precisou ir negociar diretamente na Cacex ou com o governo federal, algum produto importado que deu um maior problema?

 

R: É, eu ia muito a Cacex e falava com as figuras mais importantes.

 

P/2: Precisa ir lá negociar.

 

R: Precisa, precisa sim. E agora havia casos onde a solução ficava já na direção geral da Cacex que era no Rio, aí nós tínhamos a nossa agência, naquela ocasião o Sérgio Santos que era o nosso agente lá no Rio, ele que resolvia, tinha um grande relacionamento com todas as autoridades, inclusive não só com a Cacex, então os órgãos assim federais... esse Sérgio que cuidava, e cuidava muito bem, ele tinha uma penetração muito grande, tinha muita capacidade e bem falante, bem apessoado. Agora aqui não, aqui nós íamos a Cacex e tinha que chegar às vezes ao número um mesmo, era com pompas e circunstâncias para chegar a ele, era muito difícil marcar hora, passava por um monte de gente e tal; mas normalmente quando eu ia ter com... deixa eu ver, gozado; você vê olha, o negócio da memória... eu mencionei várias vezes a memória, tem coisas que eu lembro assim, agora nomes... eu sei que tinha acho que o doutor Rui que era um dos figurões mas quando eu ia ter a essas pessoas de primeiríssimo nível eu ia municiado de tal forma que nenhuma contra pergunta ou coisa parecida não... para todas eu tinha resposta, eu tinha tudo bem preparadinho. Quer dizer eu estava bem, quer dizer podia fazer qualquer pergunta fora do que eu levava por escrito que eu tinha, tinha soluções.    Que mais? Vamos passar para uma outra área.

 

P/2: Vamos! É só para encerrar esse assunto importação; como que no exterior também, a não ser produtos que vinham da França, outros produtos que você precisava importar também era feito por tomada de preço?

 

R: Também.

 

P/2: Além da qualidade que o senhor falou...

 

R: Exatamente.

 

P/2: ...que um determinado produto que justificava apesar de ser mais caro; mas em última instância era o senhor que escolhia de quem comprar.

 

R: É, alguns produtos veja bem existiam fabricantes exclusivos, então você não fugia de determinado fabricante, por exemplo eu comprava, eu tinha um relacionamento muito bom com o Aji-no-moto, você fala em Aji-no-moto aqui você lembra do tempero...

 

P/2: Porque a minha pergunta é assim: quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha? O fornecedor ele existia para fornecer para Rhodia ou ele já existia antes da Rhodia _____ fornecedores entende.

 

R: Existiam, exatamente. Eles eram fornecedores normais, existiam...

 

P/2: Independente da Rhodia?

 

R: Independente da Rhodia.

 

P/2: Existiu alguém que se estruturou para fornecer especialmente para Rhodia? O senhor entendeu o que eu perguntei?

 

R: Entendi, entendi a pergunta sim. Não, no exterior não.

 

P/2: E aqui no Brasil?

 

R: No Brasil, olha...

 

P/2: Sabe tipo um ______

 

R: Eu sei.No Brasil eu acho que sim, eu tenho convicção sabe, mas eu tenho a impressão que alguém como hoje estão fazendo até a Volkswagem, a primeira a fazer que tem o núcleo de um determinado fornecedor dentro do próprio site da Volkswagem. Mas, então alguém também realmente se estruturou para fornecer para Rhodia - sem dúvida nenhuma. Não, eu não fiz negócio desse tipo não, mas outros produtos assim nós comprávamos... algumas matérias-primas que não eram, vamos dizer, da Ronnie Poulan com exclusividade então nós fazíamos concorrência, mas fazíamos também... sempre havia...principalmente veja bem para a farmacêutica não, para a Rhodia Merrier como a grande parte dos produtos eram produtos biológicos, não eram produtos químicos mas sim produtos biológicos, cepas de vírus e mais outras “porcariadas” tantas assim. Então eu fazia uma concorrência, mas simultânea... eu tinha que fazer um negócio, era muito complicado viu, dava bastante trabalho e demandava um bom tempo para você fazer um pedido, porque você pedia o preço simultaneamente e uma amostra, vinha uma amostra do produto, o produto era testado ou os produtos eram testados dos fornecedores que mandavam com as cotações - porque a gente não testava só o mais barato, testávamos outros, porque o mais barato de repente não serviria ou ele poderia até passar mas com qualidade inferior à de um outro certo que o preço poderia ser proporcional até a qualidade. Então você fazia, havia produtos que demandava seis meses de teste, você já pensou? Quer dizer, eles ficavam fazendo seis meses de teste porque eram testes ao vivo sabe, então eram complicadíssimo, aí que o sujeito ganhava a concorrência, aí que nós fechávamos o negócio, era um bocadinho complicado viu.

 

P/2: E a Rhodia era super rigorosa no controle?

 

R: Nossa senhora, super rigorosa! Lá na Merrier... então na Merrier por exemplo, eu ganhei também uns pontinhos lá; eu fazia, nós estávamos sediados aqui no centro empresarial inclusive, não na fábrica, no centro empresarial e eu fazia reuniões quinzenais na fábrica, eu ia na fábrica com o gerente geral da fábrica lá da Merrier e mais chefes de setores; do laboratório de biologia, do laboratório de aftosa, fábricas de rações inclusive todo esse pessoal se reunia comigo. Eu era bom datilógrafo, eu datilografava bem; naquele tempo não existia na época da década de 70 não existia o Xerox, você sabe o que eu fazia? Existia um joguinho que a gente comprava chamava-se Copy-7, isso vocês nem conheceram, vocês são do tempo bem depois disso; então era um papelzinho fininho de sedo com um carbono fininho também e esse carboninho era one-way também porque você...

 

P/2: One-way?

 

R: É, porque você batia uma vez, usava...

 

P/2: Você usava...

 

R: ... e jogava fora porque se um caracter lá, o tipo da máquina batesse naquele lugar  não sairia mais nada, era só para uma vez mas era bem fininho. Eu tinha uma maquininha de escrever que aliás está aqui comigo; depois que eu me aposentei eu pedi; posso levar essa maquininha para mim? Pode! Então eu levei, não roubei, trouxe e me deram. Era da Rhodia Merrier...

 

P/2: Essa que o senhor tem aqui essa máquina?

 

R: Tenho a maquininha de escrever, ela era da Rhodia Merrier e eu tinha levado para Farma, então ela não constava do inventário da Farma e não constava também da Merrier lá, enfim ela está comigo. Eu levava aquela maquininha, chegava a reunião, no máximo a reunião dava umas dez pessoas, eu punha dez folhinhas naquele Copy-7 na máquina; apesar de ser portátil mas o papelzinho era tão fininho. Reunião de compras com produção etc e tal, parecia escrivão de polícia viu, escrevia bra-blá-blá-blá... não ligava muito para estética, para retrocesso nada etc e tal, mas batia rápido e tal. Participação dos bra-blá-blá-blá, punha o nome de todo mundo e bumba! Assunto; começa... e eu bra-blá-blá-blá ia escrevendo tudo.

 

P/2: Fazia a ata.

 

R: Fazia a ata na hora, terminava a reunião vucchh... todo mundo assinava, todo mundo assinava aquilo. Mas era um material de trabalho tão com, porque aqui a ata de hoje era a ferramenta da reunião seguinte, porquê? Nessa ata eu era acionado por... havia menção de ata que eu tinha sido acionado para fazer determinadas coisas pelo pessoal da produção, em contrapartida o pessoal da produção me devia muita coisa também que eu não podia fazer sem que eles me favorecessem com determinadas coisas, então resultado: não foi feito? Não. Mas você mandou? Não. Está aqui, olha na ata etc. e tal não sei o quê.    Como nós estávamos falando em testes eu lembrei justamente desta ata pelo seguinte; nós comprávamos na época, era justamente da Casa da Química que eu mencionei desse senhor cego um produto da Fluka que era um laboratório suíço, uma biotina; a biotina é a vitamina “h”, só que ela era super preparada, super purificada, custava muito caro... na época eu sei... era o produto mais caro que eu comprava na época, custava... eu lembro exatamente o valor que nós pagávamos naquela época CR$ 4.500,00 o grama e nós consumíamos alguns quilos e nós pagamos CR$ 4.500,00. De repente, então dentro da função do comprador ou compras nacionais ou compras que eu recebia, eu assinava inclusive algumas revistas especializadas, publicações médicas, publicações científicas. Eu tinha várias que passavam pelas minhas mãos, então uma bela ocasião eu descobri uma biotina da Alemanha da marca KDF... Vamos consultar! Antes de mexer em qualquer coisa precisa ver o preço. Consultei, sairia... eu teria que fazer importação direta mas sairia em CR$ 1.200,00 o grama contra os CR$ 4.500,00.

 

P/2: Uma boa diferença.

 

R: Eu falei: “Opa!! O negócio está bom, é uma boa diferença, boa diferença mesmo.” Aí resultado: pedi amostra, mandei analisar, Doutor Maurice, esse doutor Maurice era um cientista, era um cara meio louco; era um sujeito que tinha sido agraciado não sei quantas medalhas de ouro pelo governo francês, era um microbiologista de primeiríssimo nível, mas o sujeito era como todo cientista era acho que meio louco. Às vezes ele marcava uma reunião e não aparecia porque fazia dez minutos que ele tinha indo embora porque ele tinha passado à noite lá no laboratório, o sujeito era assim. Eu consegui imitá-lo mais ou menos inclusive, eu falei: “Doutor Maurice o senhor tem o resultado do teste da prova da biotina?” “Olha, eu tenho o resultado mas acontece que se  eu fornecer ele... ele faz uma amostra especial, depois o produto não presta.” Eu falei: “Doutor Maurice não é assim, ele tira de um lote de produção normal. Então, manda outra amostra.” Então mandava... olha, eu fiz sem exagero nenhum eu acho que umas cinco ou seis amostras, aí sabe o que eu fiz? O vice-presidente da Rhodia Saúde, doutor Belotti, eu peguei uma ata e falei: “Gente eu estou achando interessante para que ele fique sabendo direitinho do que quê está acontecendo etc e tal olha; eu estou pondo uma cópia, todo mundo fica sabendo, olha eu estou mandando uma cópia da ata para o doutor Belotti!” E bumba, e mandei uma cópia para o doutor Belotti. Puts, quando ele viu CR$ 4.500,00 para CR$ 1.200,00 se interessou demais, resultado; a amostra que eles produziam não era... que eles mandavam não era produção especial, era do lote absolutamente normal, então resultado; passamos a utilizar ...

 

P/2: ______

 

R: É, no início ainda ele demorou um pouquinho, ele usava então meio-a-meio, ele usava meio Fluka e meio KDF até que aos poucos ele foi, passou a usar só o KDF. Quer dizer, então foi um trabalho também gostoso, mas esse para ele aparecer eu precisei por um vice-presidente no meio porque senão não aconteceria.

 

P/1: E substituía essa... esse produto...

 

R: Não, era o mesmo, só a marca era diferente.

 

P/1: Só a marca era diferente.

 

R: Depois, depois eu fiquei sabendo inclusive que o produtor era um único só.

 

P/1: Quem era o produtor?

 

R: ... o maior produtor de vitaminas do mundo, a Roche.

 

P/1: A Roche?

 

R: É, a Roche. Quer dizer, aí foi uma outra etapa, aí foi o que eu reduzi mais de tudo e aí não dei mais, aí passou para CR$ 300,00 aí eu comprava aqui no Brasil inclusive.

 

P/1: Direto do Brasil?amos a comprar da Roche e passamos a economizar CR$ 4.200,00 por grama naquela ocasião da famosa biotina viu.

 

P/2: Bastante.

 

R: É.

 

P/1: Biotina.

 

R: É, Biotina.

 

P/1: O senhor comprava muito da Aji-no-moto?

 

P/2: É.

 

R: Nós comprávamos aminoácidos. Então, Aji-no-moto por exemplo, muitos aminoácidos eram justamente para a Rhodia Merrier também, nós comprávamos bastante, eu tinha um bom relacionamento… viu, também fora de época mas é interessante, é uma das coisas que eu tenho orgulho também. Se bem que eu... ah! Então, olha... puxa vida! Têm coisas, o museuzinho aqui é legal para chuchu. Acho que tem até, deixa eu ver se é do próprio... lembrei porque nós falamos... esse não... têm alguns aqui que estão bem escuros. Esse ar aqui é da Aji-no-moto. Quando eu saí da Rhodia, viu gente, por isso que eu digo; eu fico contente… quando eu saí da Rhodia... dá uma olhadinha os companheirinhos... esse aqui é de quem eu deixei de comprar por R$ 4.500,00,mas mesmo assim a gente tem amizade até hoje, vê aqui o que o sujeito escreve.

 

P/2: Foi... esse aqui o senhor recebeu essa...

 

R: Isso no último dia que eu...

 

P/2: ... essas várias mensagens no dia que o senhor saiu.

 

R: É, no dia que eu fui embora.

 

P/2: Nossa que lindo! O senhor deve ter ficado super emocionado.

 

R: Sem dúvida.

 

P/1: O senhor se aposentou em 1990?

 

R: Em 1990.

 

P/1: É.

 

R: Esse aqui é da Casa Química, você vê...

 

P/2: Mas o senhor se aposentou por quê? já estava por tempo de trabalho?

 

R: É, eu já ia completar 60 anos... interessante, mas ninguém estava falando nada para me aposentar sabe, mas quando chega um determinado momento a gente percebe e fala: “Não, está chegando a hora de me aposentar.” Eu tinha voltado de férias... quando você volta de férias você começa a se entrosar devagarinho com os companheirinhos, como é... para pegar o fio da meada outra vez. Eu sei que nessa ocasião o gerente geral da farmacêutica era um tal de Beniet, o Beniet alguém falou dele... desse...[pausa].

 

P/1: Da aposentadoria, que o senhor estava voltando de férias...

 

R: Ah! não fui para frente, nós paramos?

 

P/1: Isso.

 

R: Aqui está em ordem, está também? Está né?

 

P/1: Está tudo ok aí.

 

P/2: Está, aqui está ótimo.

 

P/1: Está?

 

R: Então eu não cheguei a entrar em detalhes ainda não?

 

P/1: Não.

 

P/2: Não.

 

P/1: Não, o senhor contou mas...

 

P/2: Deixa eu só explicar aqui, fita três teve uma interrupção por um problema então trocamos de fita, o disk-três.

 

P/1: Disk-três.

 

R: Então eu... disse que voltei e encontrei a reunião, eu fui para a reunião?

 

P/1: Não, não... 

 

R: Então voltei de férias e estava retomando devagarinho assim as rédeas da situação, quando mais ou menos às cinco horas da tarde, quatro horas por aí, o Norival me chama no telefone pedindo notícias de um produto. Então disse que de imediatamente eu daria condição para ele; ele falou: “Não, vem aqui, nós estamos em reunião na sala do Bernier e ele quer que você participe aqui da reunião”. Eu falei: “Tudo bem.”

 

P/1: Que produto que era, o senhor lembra?

 

R: Não lembro, o produto não lembro; era uma matéria-prima da mamãe francesa inclusive. “Esse mamãe francesa é carinhoso” também, não é...

 

P/1: É, essa expressão é ótima.

 

P/2: ____ muito bonita, é carinhosa.

 

R: É, não é pejorativo não.

 

P/2: Não, nem entendemos dessa maneira também.

 

R: Então, aí eu perguntei inclusive para o (25?) o companheirinho que  estava a testa lá, ele... não, está tudo em dia, está perfeito inclusive a última notícia é esse telex que o produto foi reprovado na França, quer dizer foi fabricado mas não passou no teste, então resultado: eles vão atrasar em não sei, deram um determinado prazo para nova produção e a cópia desse telex está aí inclusive com o senhor Bernier, eu mandei para ele. Aí tudo bem, aí eu participei, subi fui a sala de reuniões; quando eu entrei o Bernier de frente assim mais uns quatro elementos a esquerda e mais uns quatro companheiros assim a direita e recapitulando como eu já havia dito, no mínimo o Norival que era um companheirão assim de um espírito alegre etc. e tal...

 

P/2: Já era para ter recibo de outra maneira.

 

R: Ele... ele ia dar uma gozada:  “Oba, como é,acabou as férias... ô gringo…” alguma coisa desse tipo assim, mas ninguém falou nada. Aí eu me manifestei e falei: “Como é gente…”

 

P/2: Aí, que situação!!

 

R: ... tudo bem! Só o Bernier que se manifestou. Não, tudo mal, senta.

 

P/2: Nossa!

 

R: Pumba, aí... foi aquele pensamento hein: “O que quê você está fazendo aí Albino? Está na hora acho que você ficar de férias definitivas.” Então resultado: aí dei a notícia para o Bernier do que ele pediu e ele realmente viu que ele tinha, que ele já estava a par, que tinha sido um lapso de memória. Depois, aliás é interessante que depois que terminou a reunião, ainda ele pediu para que eu ficasse mais um pouco, todo mundo foi embora e ele quis saber de mais alguns detalhes, então informei os detalhes para ele e tudo bem, e ficou tudo em ordem. Só que no dia seguinte eu fui procurar o Farhid que nessa ocasião...

 

P/2: De onde o senhor _____

 

R: ... já era o gerente geral de recursos humanos de todo o conjunto Rhodia. Aí fui, contei a história para o Farhid tudo direitinho, falei assim: “Estou com vontade de ir embora”, o Farhid de uma forma assim que eu senti bem, porque tenho certeza que ele foi bastante sincero, ele disse: “Olha Albino, você ainda está sendo útil para a Rhodia. A Rhodia ainda pode contar com você, mas se essa é a tua idéia, é muito acertada, vai embora mesmo. Vai embora porque daqui a pouco a coisa vai ficar pior, então vai embora; amanhã ou depois eu te dou as contas aí.” Ele fez realmente os cálculos para mim, tudo bonitinho e eu tinha pela lei antiga, antes do fundo de garantia eu tinha 21 anos de trabalho o que me daria conforme o Musa tinha prometido para os veteranos, a gente tinha aquele tempo integral, mas então eu receberia 42 salários para ir embora e mais algumas coisinhas assim ainda e nesse ínterim quando eu estava realmente já pensando em ir embora...

 

P/2: E podia sacar o fundo de garantia?

 

R: E inclusive sacaria o fundo de garantia também. Aí nesse ínterim apareceu também o famoso sopão, que foi chamado sopão que era aquela demissão voluntária proposta pelo Musa, para quem estivesse já em condições de se aposentar, poderia ir embora e ganharia mais meio salário por ano, quer dizer, como eu tinha os 21 dava mais ou menos praticamente 11, 10 salários e meio a mais, foi quando eu perguntei para o meu gerente e falei: “Como é, isso aí engrossa? Eu também tenho direito a isso que eu tenho já uma conta feita e isso engrossa? Ele falou que engrossava e então eu definitivamente fui embora. Isto teria sido mais ou menos, não tem… não posso precisar mas eu acho que deve ter sido em abril, alguma coisa assim. Então o Marcos perguntou, pediu se eu ficaria até dezembro, um ano todo em 1990. Eu falei: “Sem problema nenhum, porque eu não estou saindo assim magoado e nada, então para ficar um pouco mais eu fico até dezembro - sem dúvida nenhuma.” Então agora, nesse espaço de tempo é que apareceu realmente o sopão do Musa, aí que apareceu.

 

P/2: Entendi.

 

R: Só que tinha um prazo, o sopão do Musa tinha uma validade até dia 31 de julho, 31 ou 30...  julho, até o último dia de julho, 31 de julho.

 

P/2: Tinha um período para o senhor aceitar.

 

R: É, exatamente.

 

P/2: Porque senão, não ia deixar...

 

R: Exatamente, porque senão eu ficaria...

 

P/2: Perdia?

 

R: É, perdia. Aí resultado: o Tosta até que fez uma carta e tal, pedindo para que eles aumentassem mais um pouco porque quem estava vindo para o meu lugar era o Volpi. O Volpi hoje não sei exatamente qual é a função dele, ele tem essa parte de importação e acho que mais alguma coisa; ele vai muito a França, parece que está padronizando alguma coisa de nível internacional e então pediram para que... o Tosta lá que redigiu aquela carta pedindo para que eles postergassem pelo menos durante mais algum tempo, aí a Rhodia concordou que... até agosto, que fosse até...

 

P/1: Até agosto.

 

R: É, até agosto, mais um mês. Então tudo bem, aí acertamos e antes disso, eu comecei, como eu realmente já tinha mencionado também, como eu adorava realmente muito a Rhodia e os Rodhianos, os companheiros, eu gostava de tudo, gostava muito das pessoas que eram companheiras e me cercavam, gostava muito dos fornecedores, gostava muito da atividade - então eu tinha um pouco de receio de sair: “Como é realmente que eu vou me portar, como é que eu vou me comportar?” Então eu tive uma idéia e parece que essa idéia deu certo; eu tinha um calendário muito bonito grande assim numa parede e eu peguei uma... hoje não sei se utiliza-se ainda, existia umas etiquetinhas auto-adesivas, era num pedacinho só adesivo amarelinhas assim...

 

P/2: Post-it.

 

R: Acho, é isso e eu peguei um tamanho mais ou menos grandinho, eu sei que quando me ocorreu a idéia então estariam faltando dias corridos, 130, 140 dias para mim parar e me aposentar, então resultado; eu colava assim num lugar bem visível da folhinha bem no meio 140, no dia seguinte 139... 

 

P/2: Fazendo uma regressiva.

 

R: Uma regressiva, exatamente uma contagem regressiva. Na segunda-feira eu mudava os dias, do sábado e domingo também para não perder nenhum dia. Não sei quem numa ocasião falou: “Albino isso não é um masoquismo não, você não fica sofrendo com isso que... você vai sair etc e tal?” Eu falei: “Não, ao contrário, pelo menos eu estou me sentindo bem…”

 

P/2: Estava se preparando?

 

R: ... parece que eu estou preparando, eu sinto que realmente cada dia é um dia menos, então a coisa está funcionando. Então aí veio a interrupção desse negócio de eu ficar mais um mês, aí eu parei, ficou um tempinho um hiato lá até que a Rhodia definisse quanto tempo mais eu poderia ficar, então aí eu parei de marcar, aí não marquei, parei no 120 alguma coisa assim. É, parece que era... eu sei que parei.    Aí tal e resultado... não, 120 não, era o tempo acho que suficiente lá, enfim tinha parado naquele tempo e quando a Rhodia definiu que eu ficaria até 30 de agosto aí eu comecei a remarcar outra vez.

 

P/2: Voltou a contagem.

 

R: Voltei a fazer a contagem regressiva e a coisa foi dando certo inclusive, até que quando chegou no dia aí no zero o que quê eu ia por? Aí eu lembrei da Normandia, o famoso dia “D”, eu fiz um “D” bem grandão assim, chegou o dia “D”, o dia decisivo e saí realmente assim mas... bem tranquilo sabe, sai bem tranquilo. Quer dizer, com um monte de festas, e foi um almoço aqui, um jantar ali, um monte de coisas gostosas, um monte de despedidas, essas cartas chegando de gente de fora, fornecedores, do exterior, da França várias tem aí também os companheirinhos me deram um presente e tal. Então resultado; eu sei que eu saí, mas não senti, eu saí realmente assim muito bem preparado e principalmente eu acho que o fator primordial assim da aposentadoria e hoje a juventude principalmente da Rhodia, todos os jovens hoje eles estão com mais condições porque hoje o Instituto de Seguridade Social, a Rhodia lá, ele tem, ele é extensivo a todos; o sujeito faz a contribuiçãozinha que no meu tempo ele não contribuía, não pagava nada, então eu fui um dos privilegiados na época. Então eu acho que a condição principal não é fator psíquico de você deixar a empresa, eu acho que o fator principal é de você manter o padrão, se você gosta de tomar um uisquezinho você tem que se aposentar com condições de tomar aquele uisquezinho, porque se você tiver que mudar para “51”, aí a coisa muda mesmo, aí vai degringolar. Então o primeiro ponto para você viver bem na aposentadoria é você ter uma condição financeira, aí o resto o ser humano ele se acostuma com tudo, até com o que é ruim porque com muitas coisas ruins eu me acostumei, agora imagina se não acostuma com o que é bom? Nossa, se acostuma! Então resultado: eu me acostumei, acostumei muito bem e hoje por exemplo eu sinto muita saudade da Rhodia, não gostaria de voltar lá para trabalhar, não gostaria e tenho muita saudade. Nós tínhamos um grupinho, todas as sextas-feiras e não só às sextas-feiras, às vezes mais, nós nos reuníamos para tomar um uisquinho, o nosso negócio era um uisquinho mesmo e era um grupinho de vários setores da Rhodia e vários níveis sabe, gerentes, executivos de primeira linha e gente mais simples um pouquinho. Nós quando o grupo era completo dava acho que no máximo 15 pessoas, mas normalmente a gente estava em oito ou dez, era um grupinho batendo um papo, tomar um uisquinho e trabalho às vezes, porque nós chegávamos para tomar um uisquinho, mas de repente: Ô Albino você está com a cara amarrada hoje, o que... não, me deu um problema, fiquei tal e tal... não sei o quê. PÔ, olha para mim aconteceu e eu fiz, porque você não....eureka!” Mas é isso! Então resultado: você às vezes naquele drinquezinho você tinha uma solução...

 

P/2: Resolvia.

 

R: ... resolvia um problema que estava te martirizando, então o drinquezinho servia para isso.

 

P/2: Que legal.

 

R: É, nós tínhamos pretextos para nos reunirmos, interessante. O Laer, você conheceram o Laer ou não?

 

P/1: Não.

 

P/2: Não, quem que era?

 

R: É, ele... estávamos, ele foi o antecessor do Plínio Carvalho, o Plínio vocês conhecem bem, então ele foi o antecessor lá do... trabalhava direto com o Musa, depois ele saiu, hoje tem uma empresa de importação e exportação. O Laer era um cara assim super divertido, super batuta, super alegre assim sabe. Nossa! Mas... fora de série. Então me lembro, mas já faz muitos anos, o 1988 passou em branco, uma ocasião ele ligou... ele tinha uma secretária, a secretária dele trabalhava... vocês têm tempo também né gentes?

 

P/2: Não...

 

P/1:  _____

 

R: A secretária dele era uma jovem filha de gente muita rica, trabalhava porque gostava sabe, queria trabalhar... então vez ou outra eu recebia um telefonema: “Senhor Albino, Maria Estela que está falando, secretaria do engenheiro Laer, ele mandou avisá-lo de que hoje haverá uma reunião da gerência. Eu falei: “Pois não, obrigado.” “Não, o senhor confirma?” Eu falei: “Não, confirmo sim, confirmo está... e tal.” De repente nós nos reuníamos nessa bandida dessa reunião que era justamente para tomar o drinquezinho e a turma começava assim; a secretária, a Maria Estela, ela sabe o que quê essa gerência, essa reunião? Não, não sabe e não tem nem que saber.

 

P/2: Ohh! Delícia, tem um código [risos].

 

R: É, inclusive e uma ocasião ele convocou uma reunião aí ele ligou pessoalmente, isso foi em...no dia 7 de julho de 1977, faz tempo hein!? Ele convocou uma reunião e falou assim: “Nós não podemos deixar de passar, porque agora só daqui a 11 anos, que hoje nós temos o 07/07/77, o 08/08/88 daqui há onze anos só, então... quer dizer, agora nós ainda teríamos só o segundo encontro passando disso.” Resultado: pegou esse negócio de gerência, nesse grupo tinha o famoso Barbozinha que eu mencionei, o fornecedor da Rhodia, ele era parte da Rhodia, ele era... nosso grupo sempre participando também. Numa ocasião para que houvesse reuniões, bolou-se de que cada aniversariante patrocinaria um litrinho de uísque etc e tal... ah! nós fazíamos essa reunião da gerência na sala do Walter Tomé que era o homem que cuidava da Rhodia nordeste onde ele tinha uma sala lá na Líbero Badaró, uma sala bastante ampla e ela ficou vaga porque a Rhodia… a Valisére Nordeste tinha sido desativada e aquele setor ali era grande onde havia desfile de modas, de lingerie essas coisinhas assim fabricadas pela Valisére e tinha uma mesa grande sabe, uma mesa bonita de reuniões, então nós nos reuníamos ali e como todo mundo era da comercial, um uisquinho era fácil, a gente ganhava de monte lá etc e tal, então todo mundo leva o uisquinho. Aí, resultado: belo dia, olha vamos fazer o seguinte; cada aniversariante vai levar um litrinho de uísque e é sempre um motivo assim e os demais assim vão se associar e nós compramos um limãozinho lá. Está bom. Tinha a Leiteria Lírico que acho que tem até hoje pertinho da praça do Patriarca descendo a Líbero Badaró, eles eram especialistas em sanduíches naquela época já, mas um monte de pães diferentes e tal, uns quarenta, cinquenta tipos de frios diferentes. Então a gente ia buscar os frios e o uisquinho lá, então lá era a reunião da gerência. Bom, então vamos fazer reunião agora nos aniversários. Ah! Então vamos, é mais um motivo... o Barbozinha ele fez um negócio que não faria por encomenda para cliente nenhum, ele fez na gráfica um cartão lindo de morrer dourado, bonito e homenageando, parabenizando o Laer pelo seu aniversário lá; aí depois ele ficou pensando, aí ele deu, passou o cartão para todo mundo antes do Laer ver, passou, o que quê vocês acham? Quê... bom... e a Rhodia tinha lançado havia pouco tempo naquela ocasião siglas porque não tinham siglas de... por exemplo nós GDC, Gerência de Compras e tal e, então eram siglas. Aí o Barbozinha bom... falou: “Puxa vida vou por o nome de todos os componentes da gerência?” Não, não dá, oferece os amigos da gerência e tal não sei quê, aí pôs então: “Com um abraço dos amigos da GDB.” Aí sim... aí todo olhou mas não... você não está querendo dizer Gerência de Bêbados não, lógico que não pô, é muito pejorativo, é feio deselegante mas é Gerência de Bebuns [risos]. E pegou sabe, pegou mesmo esse negócio de gerência de bebuns, inclusive um que participava era um tal de Pearlcing (?) já falecido, não sei se vocês já ouviram falar, ele era um dos gerentes, acho que era o mais importante naquela época do nossos grupo, ele era de primeiríssimo nível assim. Inclusive disse que ele estava uma ocasião numa convenção lá no Guarujá, no Casagrande, estava o Musa, o Belotti, mais um desses vice-presidentes lá tomando um uisquinho também, aí o Pearlcing chegou para eles e eles sabiam da história porque o Pearlcing participava da GDB e comentou com eles o que quê era GDB, ele falou assim: “Essa é uma DDD... uma diretoria de bebuns” [risos]. Porque era só diretores que estavam reunidos e aí também tem uma coisa gostosa; quando eu fiz 40 anos de Rhodia  eu... interessante, é; quando eu fiz 40 anos de Rhodia eu... cadê... tem mais uma, eu tenho certeza  que tem mais uma... ou eu perdi? Eu... quer ver... é, então quando eu fiz 40 anos de Rhodia nós tínhamos a nossa GDB, aí eu falei: “Eu vou convidar todos os companheiros da GDB, mas nós vamos na praça, só que eu vou patrocinar um uisquinho”... aí eu peguei alguns litros que eu tinha, comprei mais alguns de um companheiro que era da GDB, acho que ele fazia uns contrabandos lá, comprei uns bons uísques baratinhos inclusive e falei: “Olha eu ofereço, este uísque e assim vocês oferecem o salgadinho lá e vamos nos reunir”... só que aí fizeram surpresa para mim, convidaram inclusive o próprio Musa, mas o Musa não foi porque ele estava indo para França, etc e tal. Então mas saiu também uma reportagenzinha gostosinha mas até para ler aí fica meio complicado, só dar uma olhadinha depois eu cedo também para vocês. E inclusive, agora essa aqui sim, essa aqui pode ser lida, aí eu também... isso aqui foi motivo de orgulho também, porque eu sei que isso não foi a secretária não foi nada, isso aí é realmente o estilo dele, isso foi ele que escreveu.

 

P/2: O senhor quer ler?

 

R: Não, pode ler vocês.

 

P/2: Não, lê o senhor.

 

R: Bom, aí eu leio então, eu leio... ah! sim, bom... realmente eu fiquei bastante orgulhoso... você lê depois eu empresto essa revistinha para você.

 

P/1: bom, tem umas historinhas também essa... contador Albino é contador de histórias.

 

R: É.

 

P/2: É mesmo, deixa depois a gente vê.

 

R: Então, olha Edson Vasmuza presidente da Rhodia na ocasião “Prezado Albino, fui informado dessa sua iniciativa de por conta própria, que eu que estava patrocinando, festejar informalmente com os amigos os seus 40 anos de Rhodia, muito me alegrei com isso. comemorar tantos anos de dedicação a uma empresa é uma qualidade rara, só presente entre os que trabalham com alegria, felizmente esse espírito privilegia muitos dos nossos colaboradores que como você solidificam acima do esforço de cada dia e além do êxito das missões que lhe são confiadas as bases dessa cultura própria que possuímos já batizada de Rhodiana, razão maior de nossa força e de nosso sucesso. Não poderei estar aí mas por meio desta mensagem que deixei para ser lhe entregue hoje quero expressar à você todo o meu respeito, reconhecimento e admiração por tudo o que fez e promete fazer pela Rhodia já com 40 anos de Rhodia”. Então isso aqui me deixou realmente muito satisfeito e orgulhoso de receber...

 

P/2: Com certeza.

 

R: ... uma cartinha dessa assim e aliás tiraram várias fotos... eu tenho também. Puxa vida, eu tenho um álbum que eu fiz de... cada passeiozinho que eu dou com a minha esposa assim, nas férias que a gente viajava assim eu faço um álbum e eu não preciso falar nada para você, eu te dou o álbum e você acompanha porque eu escrevo tudo no álbum, fica tudo bonitinho assim. Esse da Rhodia não tinha que escrever, mas um belo dia colecionando lá as fotografias, então eu fiz um álbum e eu dei um nome só “Rhodia”, e começa acho que... no finzinho dos anos 40 ou no início de 50, não me lembro bem, porque em 50 era um privilégio de pouquíssimos ter uma máquina fotográfica, então não se utiliza fotografias, então são poucas fotografias da velha guarda mesmo, mas mesmo assim eu tenho algumas fotografias muito interessantes. Nós fazíamos jantares de confraternização no Beer-Hally, não sei se existe ainda hoje na Lavandisca, naquele tempo era uma algazarra...

 

P/2: Em Moema não é?

 

R: Em Moema, então jantar de confraternização de fim de ano, aquela zoeira, aquela farra todo mundo de camisa branca e de gravata. Assim você vê as fotografias assim que interessante, quer dizer o sujeito aparecia com uma camisa azulzinha ou amareladinha seria ridículo, o homem tinha que ser de camisa branca e de gravata; só depois da meia-noite é que o pessoal já exagerava e já abria um pouco a gravata assim, sabe? Mas nós... então, acho que os momentos assim os momentos fora empresa que também deixaram muita saudade, puxa vida.

 

P/1: O que quê mudou o senhor acha nesse período todo de Rhodia, mudou alguma coisa?

 

P/2: Nesse seus 43 anos de Rhodia o que quê...

 

R: É, realmente muita coisa mudou. Quando foi... talvez em... nos anos 60, é nos anos 60... houve uma demissão, um sujeito foi embora por justa causa. Lembro direitinho do Demétrio, um jovem senhor, devia ter os seus 30 e poucos anos, casado, a esposa dele não sei se ______ tinha dois filhos; ele foi mandado embora porque esses negócio que a gente vê de jornais na televisão, tara existe, negócio esquisito. Então a pessoa que você vê parece absolutamente normal; naquele tempo em Santo André nós tínhamos um salão lá onde estavam justapostos assim um monte de armários, armários altos e todo o funcionário tinha o seu armário onde você punha em dia de chuva paletó, punha galocha, a gente usava muito galocha naquele tempo, casaco, capa etc e tal não sei o que; esses armários eles eram assim do solo sabe, bem baixo, tinham uns pézinhos baixinhos e tal e esse Demétrio ele foi mandado embora por justa causa porque ele, a própria vítima... aliás ele tinha bom gosto, a própria vítima que viu... Levou um susto, ficou apavorada, fez um escândalo: “O que acontece para um homem desse? Ele deitou-se embaixo, deitou-se embaixo do armário... um homem de escritório…”

 

P/2: Que tinha só esse cantinho e vão...

 

R: ...e pôs um espelho, pôs um espelho para ver as pernas da mulher de uma determinada moça que ele tinha uma tara por ela, mas um tarado inofensivo que só queria ver as pernas.

 

P/1: _____.

 

R: É, que coisa não?! Embaixo de um armário?!

 

P/2: Deste armário era quase o chão já.

 

R: Então, é nesse armário quase no chão; ele fez igual a um gato se encolheu todo lá para poder ver as pernas da mulher.

 

P/2: E a moça...

 

P/1: E a moça viu.

 

R: É, e a moça viu, levou primeiro um susto...

 

P/1: ... percebeu, levou o maior...

 

R: ... levou um susto e não sabia acho nem o que quê era, depois que viu exatamente o que quê era. Então nessa ocasião o senhor Benedito da Silveira que era o contador geral da Rhodia, hoje seria o cargo de Diretor Financeiro ou coisa parecida, ele era contador geral da Rhodia um cargo importantíssimo na época, chamou o sujeito e deu um sermão de duas horas e mandou o sujeito embora, justa causa. Num período mais recente, isso é para responder a perguntar assim, quer dizer... depois tem outras coisas que eu não sei. Num período mais recente, nós tivemos um companheiro que já faleceu, ele tinha 42 anos de Rhodia, ele tinha já 60 anos de idade e 42 anos de Rhodia, numa sexta-feira a tarde um boy leva uma carta para ele dizendo que na segunda-feira ele não precisa vir trabalhar que os serviços dele estavam dispensados.

 

P/2: Um office-boy?

 

R: É, um office-boy entregou a carta para ele. Ele não teve um enfarte porque ele conseguiu chorar, chorou como uma criança e não acreditava naquilo que estava acontecendo; mas ele foi dispensado. Quer dizer, houve uma falha muito grande, na ocasião o doutor Romanov era o superintendente, depois o doutor Romanov mandou chamar o Gaia, pediu desculpas pela falta gravíssima e tal e fez um monte de homenagens e realmente ele se desligou da Rhodia. Mas você veja bem, o caso de 30 anos atrás que hoje seria um caso até de polícia, o assédio sexual ou pior ainda, ou tara mesmo, o sujeito é chamado, toma um bruta de um sermão, chora também na frente de um diretor da Rhodia mas é dispensado, mas de uma forma humana quando ele fez um negócio de animal praticamente. Então ele poderia ser dispensado quase como um animal e o outro...quer dizer. Então, aí é uma mudança. Agora, e o interessante uma coisa que eu friso e isto foi, e eu acho que ainda é a Rhodia que eu amo tanto, a Rhodia não existe, vocês vão concordar comigo. A Rhodia é um nome, ela é totalmente abstrata, nós que fazemos a Rhodia, a coletividade que a torna concreta certo, então são pessoas, são pessoas; às vezes uma pessoa só pode vender uma imagem negativa de um determinado setor, quando a empresa na filosofia da empresa não é aquilo que aquele sujeito está transmitindo não é aquela imagem, aquela imagem negativa e então outras coisas mais quer dizer, não sei... muitos benefícios aconteceram sem dúvida nenhuma, quer dizer muita coisa melhorou mas esse... Eu frequento ainda Rhodia, eu gosto, vou principalmente no centro empresarial; interessante eu vou mais no centro empresarial do que na Farma. Então eu bate um papo lá com os companheiros ainda da velha guarda, ninguém mesmo sabe, ninguém se manifesta assim de uma forma concreta, onde que está alguma diferença; mas o pessoal diz: “É Albino, você não aguentaria mais hoje a Rhodia”... não sei se é por isso que eu não gostaria mais de trabalhar, mas eu tenho muita saudade do meu tempo; mas parece que alguma coisa realmente mudou, mas sabe o que quê é também? Eu acho que é tudo, é evolução, é o tempo, é a mudança do país, do mundo. Então as coisas mudam. Esse próprio grupinho que nós tínhamos, a famosa GDB que era linda de morrer etc e tal, linda... era um ambiente... nós éramos chamados, nós fomos chamados de grupo fechado, nós não éramos fechados de jeito nenhum, tinha gente que chegava lá, era sempre bem recebida e de repente a pessoa se entrosava e ficava lá com a... e outros chegavam e não davam certo, não afinavam; eles iam embora porque não afinavam com aquela absoluta transparência, uma amizade, um amor entre os companheiros fora de série, fora de série. Inclusive houve um caso da GDB por exemplo, um dos companheiros ele já tinha assinado a carta de demissão por um chefe lá incompatibilizou, aí o próprio Laer esse que eu mencionei que era alegre, era risonho para chuchu falou: “De jeito nenhum, não sei o que e na própria reunião na GDB lá falou: Pearlcing o que você está precisando? Nós está... amanhã você está conosco.” Quer dizer rasgaram a demissão dele e bumba, e foi sabe... que eles eram um negócio assim fora de série, muito gostoso e pelo que consta hoje eu falo assim; mas... não tem, vocês não vão tomar um choppinho? Não, não tem mais... diz que não existe mais esse grupinho.

 

P/2: Esse tipo de vínculo?

 

R: É, então o que eu pregava às vezes quando eu falava: “Você trabalhando mesmo você se dando muito bem, você tendo um relacionamento profissional ótimo com um companheiro é apenas coleguismo; pode ser um bom coleguismo, agora você pode ter colega ruim também mas é teu colega, não deixa de ser colega porque vocês estão trabalhando juntos certo.

 

P/1: Claro.

 

R: Agora, amizade é uma outra coisa; amizade você faz num balcão de um bar, você toma... vai tomar um choppinho descontraído, vai jogar uma partida de futebol, vai fazer enfim vai assistir um concerto junto com o amigo ver se afina, então aí vem a afinidade, vem a real amizade que é muito maior do que o coleguismo que através da amizade você conhece coisas que, através do coleguismo as vezes até o colega gosta de puxar o tapete e isso sempre houve, mesmo nos bons tempos que hoje não são tão bons assim, mesmo nos bons tempos havia puxador de tapetes sem dúvida. Então, mas ninguém puxa tapete para um amigo lógico. Você tem algum amigo chato?

 

P/1: Amigo chato, não.

 

R: Não, exatamente não tem. Você se relaciona com o chato, mas os amigos chatos... é você que escolhe os seus amigos, você vai escolher um chato para ser seu amigo? De forma nenhuma. Então, está frio, quer que fecha aí ou não hein?!

 

P/2: Não, não para mim está ótimo.

 

R: Faz a gentileza, mesmo ali onde está a tomadinha lá tem o interruptor que acende esta luzinha aí também porque está...

 

P/2: E o senhor sente assim alguma diferença entre a diretoria francesa e a diretoria brasileira na Rhodia assim, fazendo um balanço?

 

R: Olha...

 

P/2: Pensando nessas mudanças.

 

R: Eu trabalhei muito tempo assim diretamente ligado com franceses, eu tive um dos superiores assim de nível bem lá em cima que era diretoria mesmo, mas era um gentleman fora de série que foi o senhor (Schiung?) - não sei se alguém falou desse (Schiung?) - mas era um cavalheiro de uma... impressionante. Eu gostava demais, afinava demais com ele, ele faleceu agora recentemente e a gente tinha até hoje um bom relacionamento. Em contrapartida, tinha um outro sujeito com o qual eu também me relacionava mesmo ele já fora da Rhodia e eu fora da Rhodia a gente... não jantares, mas a gente fazia almocinhos de confraternização de grupo e ele participava também, era o doutor (Ramu?) que vocês devem ter ouvido falar que porque ele foi pai da farmacêutica durante muito tempo. Esse era um cavalo no tratamento, ele era bruto, gritava etc. e tal, mas eu afinava muito bem com ele; aliás eu tenho uma passagem, uma típica passagem com ele...

 

P/2: É mesmo, qual a...

 

R: ... isso nos idos de 1947, logo no comecinho de 47, logo quando eu entrei na Rhodia. Eu não sei se foi alguma influência ou não, eu tinha sido escoteiro, fui escoteiro até os 14 anos; só quando eu comecei a trabalhar que eu deixei de ser escoteiro e gostei muito da fase dessa infância de escotismo - muito gostosa. Então uma ocasião o senhor Lourenço Franceschi, puxa vida... ele pediu para que eu levasse um determinado papel lá para o doutor (Ramu?) que era urgente, no meio do caminho tinha o senhor Umura no almoxarifado - onde também estava aguardando um negócio também super urgente. Então eu levei eu fiz assim, fiz uma triangulação, fiz um... um triângulo, passei no seu Umura só entreguei e bumba, aí corri lá para o (Ramu?), entreguei para a secretária dele que hoje é esposa dele, aliás viúva dele hoje, a Vilma: “Doutor (Ramu?) está esperando. Ele quer falar com você, você demorou!” Eu falei: “Não, demorei... olha... aumentou no tempo…” que eu sabe eu era um boyzinho acho que queira progredir porque eu corria inclusive sabe, eu corria e então aí eu entrei na sala dele... ah! mas aí depois foi gozado [risos], eu dei mais risada depois quando eu cheguei na minha seção porque o pessoal já estava sabendo, porque o senhor Lourenço afinava muito com esse doutor (Ramu?). Aí ele olhou para mim, aquele jeito... “Ô rapazinho qual é o seu nome?” Mas olha, sem exagero nenhum, mas eu bati uma continência, estalou... o sapato fez um bruta de um barulho... um no outro e tal: “Albino as suas ordens!” [risos].

 

P/1: [risos].

 

P/2: [risos].

 

R: Não sei porque me ocorreu, eu fiz isso e tal [risos]. É, foi gozado... “Ô rapazinho onde que você!” Eu falei: “Eu passei no senhor Umura, mas eu demorei um minutinho só, eu não demorei nada.” “Ô rapazinho se você trabalhasse comigo eu te mandava lá... te mandava embora, vai embora, vai embora!” E se vê que no fim na realidade ele achou interessante, ele gostou do negócio sabe; porque quando eu cheguei lá na minha seção de volta...

 

P/2: Já estava todo mundo...

 

R: ... aí estava todo mundo dando risada porque o (Ramu?) ligou para o Lourenço que já tinha comentado com o pessoal [risos], e o pessoal... o que foi que você andou aprontando e tal.

 

P/1: Bater a continênci!

 

R: [risos] Bater a continência, mas eu lembro que eu bati os calcanhares assim e fez tó! E bumba!! [risos]. Então quer dizer... eu sei que foi olha, então depois eu tive muito trabalho direto subordinado ao doutor (Ramu?) e olha nunca tive nenhum problema e depois eu tive um relacionamento muito bom com brasileiros também. Agora, talvez eu tivesse alguma facilidade de aceitar as coisas e aceitar as pessoas; eu me lembro uma ocasião quando meu pai... não sei o que quê tinha acontecido lá na Rhodia e eu estava choramingando um pouquinho para o meu pai, mas era coisa sem muita importância, mas o meu pai falou assim: “Albino você precisa ver que tem pessoas ruins também, eu nunca ouvi você falar que uma pessoa é ruim para você todas são boas, tem pessoas ruins, analise bem tem pessoas ruins.” Pode ser, que realmente tem... eu não via maldade nas pessoas, para mim todas eram boas, se alguém me sabotou algum dia, eu não sei… mas eu me dava muito bem, então eu não senti. Muita gente achou que quando os brasileiros começaram mandar mais na Rhodia que a coisa mudou, que o francês era mais liberal; mas eu tenho um caso registrado, houve testemunhas que não era inclusive o francês, ele era suíço, esse doutor Blanc que eu mencionei que era diretor gerente, que era o único gerente além de gerente de cinema que eu tinha ouvido falar naquela época. Uma senhora, esposa de um chefe do setor de construções, enfim chefe dos pedreiros, ela foi reclamar alguma coisa ou ele já tinha morrido e ela como viúva foi reclamar; mas isso a muito tempo quando não existiam benefícios assim principalmente legais não tinha nada disso. Então ela foi ou reclamar ou solicitar qualquer coisa e no momento ela teria feito alguma comparação com o francês que esse... não sei bem a história, eu sei que isso é real que aconteceu e que ela reclamou mas que ela queria ter um benefício porque um determinado fulano lá tinha tido um benefício e era francês, então doutor Blanc pura e simplesmente teria respondido para ela: “Oh! Minha senhora mas a Rhodia é dos franceses!” Quer dizer, então aí seria até meio seco, então para comparar seria melhor a direção brasileira e quando dizem as línguas aí que não, que quando os brasileiros assumiram eles começaram a se empombar mais e a coisa... mas eu acho que não é bem assim não; que eu afinei muito bem com todos. O único realmente que eu não afinei, eu achei ele assim um tanto pedante, meio pernóstico assim, foi esse tal de Cigristi. Quando houve uma fusão inclusive e nessa ocasião eu era muito elogiado, ele quis se desfazer de mim inclusive, então...

 

P/2: Qual fusão?

 

R: A fusão da atividade compras da Têxtil com a Química, então ele quis pôr mais o pessoal dele e diga-se de passagem comprovadamente todos esses que foram mais ou menos privilegiados por ele, todos todos invariavelmente todos foram demitidos como ladrões.

 

P/2: É mesmo?

 

R: É, porque dentro dessa função... Difícil uma pessoa ficar numa atividade de compras durante tanto tempo assim, normalmente são as carreiras curtas porque eu poderia não estar neste apartamento; eu poderia estar num senhor de um apartamento porque as ofertas que você recebe para fazer negócios...

 

P/2: Isso que eu ia perguntar para o senhor: tipo algum benefício para o senhor comprar determinado produto...

 

R: Exatamente, isso...

 

P/2: ...pagarem uma comissão para o senhor escolher aquela empresa?

 

R: Exatamente, exatamente.

 

P/2: Devem aparecer muitas propostas desse tipo.

 

R: Muita, mas muita coisa mesmo. Inclusive uma ocasião você veja bem; nem foi para mim fazer um determinado negócio, foi como brinde pelo que eu fiz, mas eu fui, eu comprei porque essa empresa era melhor, eu comprava dela. Chegou no fim do ano um fornecedor ele pura e simplesmente na época era muito dinheiro, era dinheiro redondo, ele quis me dar naquela época, hoje eu posso falar não tem problema, não vou... não menciono nem o fornecedor, mas ele quis me dar CR$ 100.000,00; era muito dinheiro e não como uma condição de eu comprar não, é pelo que eu já tinha comprado.

 

P/2: Já pelo que tinha acontecido.

 

R: Aí eu em hipótese alguma, eu falei: “Pelo amor de Deus! De jeito nenhum”... aí no fim sabe o que ele me propôs? Seria o equivalente mais ou menos, ele me propôs levar eu e a minha esposa para o Canadá e Alemanha para conhecer os representados dele, porque era uma firma de importação. Então era para eu ir para o Canadá, aí eu falei: “É a mesma coisa, de jeito nenhum!” Aí ele falou: “Não, mas eu quero te dar um presente e tal não sei o quê, você vem vamos jantar junto inclusive para a sua esposa começar a fazer um relacionamento com a minha, porque nós vamos viajar juntos.” Eu falei que não, em hipótese alguma. “Puxa, mas como e tal! Então, o que quê você quer ganhar então de presente?” Eu falei: “Me dá um disco de música clássica, aí pelo menos... aí eu já tive uma decepção, eu falei, pelo menos ele vai me dar uma coleção de uns cinco discos, dez discos... mas, me deu um disco só [risos].”

 

P/2: [risos].

 

P/1: [risos].

 

P/2: No fim _____ aceitar tudo isso [risos].

 

R: [risos]. Aí... olha quer dizer... nossa! Isso é demais. Uma ocasião... tinha um sujeito... quer que encosta está ventando hein?!

 

P/2: Não, mas não está chovendo.

 

R: Mas não está ruim não?

 

P/2: Não, para mim está agradável.

 

R: Está. Uma ocasião um fornecedor mas ele insistia tanto para trabalhar comigo mas não tinha condições, realmente não tinha.

 

P/2: Ele ofereceu para trabalhar com o senhor?

 

R: É, queria vender, mas ele não tinha nem qualidade e nem preço. Eu falei que não tinha. Não, e me chamava e olha a gente faz um acerto e não sei o que e tal e não sei o quê. É interessante que eles usavam, hoje eu não sei se eles usam ainda TV Globo, não na base da TV Globo não sei o que, era canal 5, era 5%. Então gozado, aí mas não de jeito nenhum. Uma ocasião eu recebi a visita do representante desse mesmo fornecedor...

 

P/2: Vendedor, desse vendedor.

 

R: ... vendedor, é vendedor. Só que não era um vendedor, mas eu não sei de onde é que ele... desculpe, posso falar um palavrão? Não sei de onde aquele filho da puta foi arranjar uma modelo, mas uma senhora...uma moça, uma senhora não, uma moça, mas eu acho que era profissional até, mas tão bonita sabe, mas tão bonita e meio escandalosa para os padrões da época, ficou na minha frente e me convidou para jantar inclusive.

 

P/2: É mesmo?!

 

R: ...me convidou para jantar também, eu falei que não e daí não fui jantar e não jantei inclusive nada, quer dizer não fiz relacionamento nenhum também. Tem um outro fato curioso, olha nossa! Este é demais também, sabe? Mas, eu tenho um fato curioso também; uma ocasião eu estava procurando um aço especial, era uma liga especial que os aços tem muitas ligas, que estava muito difícil de localizar até... aí nossa senhora! Você mexia a lista lá de fornecedores, você procurava pelas amarelas em todo o lugar, aí um determinado fornecedor diz que não tinha no momento mas ele estava com esse mesmo aço em desembaraço na alfândega que dentro de dias ele teria condições de me fornecer. Então era o senhor Pedro, ele Pedro eu Albino, então seu Albino e tal então tal não sei o quê e tal, um monte de falatório e seu Pedro daqui e ele... seu Albino... e estava difícil. “Não, não liberou ainda. Bom, mas olha, está ficando…” e eu parei de procurar inclusive porque não sei o senhor... não sei como é que eu ia chamar, o senhor me prometeu e tal. “Olha, eu vou, eu vou aí amanhã, eu vou aí amanhã nós vamos conversar, aí sair sim, está saindo, já está sendo liberado e não sei o quê.” Quando eu chego lá [risos]” “Você que é o senhor Pedro?!” Era um amigo meu de infância, filho de lituanos que morava pertinho da gente naquele núcleo de casas assim sabe.

 

P/1: _____.

 

R: Era o Pedro (Banise?) conhecia o pai dele, o irmão dele, o irmão dele é o Roberto e não sei o que... aí ele, puts! aí ele viu o Albino mais conhecido ainda e ele falou: “Olha Albino, na realidade o negócio é o seguinte: não vai sair esse aço, deu problema e não vai sair; mas eu tenho toda a linha dos inoxidáveis e nós podemos fazer bons negócios... olha vai ser muito lucrativo para você inclusive. Aí eu tenho a sala de visitas, não atendia assim na mesa, era uma sala de visitas meio diferente... eu sei que eu me levantei e falei assim: “Olha Pedro, realmente lembrando dos tempos de infância, você sabe onde eu moro agora, pertinho de onde você morava inclusive, você será muito bem recebido na minha casa; mas aqui na Rhodia, por favor você nunca mais me procure.” Quer dizer, dispensei um amigo assim, porque o sujeito me embrulhou porque eu estava esperando se concretizar, de fazer uma compra de um material que eu estava sendo obrigado a comprar e o cara estava me embrulhando para depois me propor negócio lucrativo para  mim. Mas isso existe demais agora e existe demais dos que aceitam, lamentavelmente tem muita gente que aceita e hoje segundo consta diz que o negócio não está muito fácil não, que a turma está apelando mesmo; dizem o com quem eu trabalho com os fornecedores aí dizem que é canal... hoje já é canal Bandeirantes viu, o negócio não tem...

 

P/1: _____ canal 21...

 

R: É, ah! tem o 21 também.

 

P/2: Não tem medida.

 

R: É, mas não está fácil. E a gente tem que saber dar a volta por cima com facilidade, com respeito.

 

P/2: Como que era seu lugar de trabalho, o senhor tinha uma sala para receber os vendedores, porque o senhor era procurado também, não era só o senhor que procurava os fornecedores.

 

R: É, não... exatamente...

 

P/2: Pelo que o senhor contou o senhor era procurado.

 

R: Não, era procurado. Eu tinha... aliás isso aqui estava na minha porta e então...

 

P/2: Eu imaginei a hora que eu vi isso de cara.

 

R: Aí eu saí e falei: “Mas eles vão jogar fora mesmo”. Então eu arranquei e trouxe aqui, e falei: “O que eu vou fazer? Ah! vou por aqui [risos]”... e eu tinha uma salinha isolada mesmo lá na Farma mas... tinham duas poltronas assim, eu recebia, conversava lá com o pessoal. Que de fato eles procuravam mais a gente inclusive do que a gente os procurava... normalmente quando você tinha uma coisa específica e tal, você tratava por telefone depois na hora aí que o sujeito ia buscar pedido, naquele tempo ainda o pedido era importante, hoje eu sei que muitas empresas já não trabalham mais com pedidos ou trabalham on-line também, parece que com essas gráficas eles trabalham já, já a tempo, praticamente o mesmo controle de estoque até com o fornecedor, alguma coisa assim; a coisa modernizou muito. Mas, que mais?

 

P/1: O senhor trabalhou na... Santo André, Líbero Badaró, Centro Empresarial e Farma?

 

R: Exatamente, e ia muito para Paulínia, eu ia a cada 15 dias eu ficava lá em Paulínia. Em Paulínia tinha um negócio interessante também, além de eu fazer essa ata nessa reunião também se alguém mais ouvir essa fita não tem crítica nenhuma, não menciono nomes [risos] e não vou querer nenhuma promoção, mas muita gente sabia. Às vezes eu ficava chateado quando eu estava na fábrica assim, ou melhor, no Centro Empresarial ou mesmo na Farma... tinha alguém que ia para Paulínia, então o sujeito ia para Paulínia; eu não gostava assim, eu não gosto muito de carnavalesco, não gosto de carnaval assim no trabalho, eu acho que a coisa tem que ser mais objetiva - tem que funcionar. Então o indivíduo ia para Paulínia, mas ele passava primeiro no escritório, às oito horas ele chegava lá, às oito e quinze, oito e vinte chegava o café e ele ficava esperando para tomar o cafezinho, aí ficava embromando saía às dez horas, chegava em Paulínia justo na hora do almoço, aí ia almoçar com a turma, como é novidade o sujeito não vai sempre lá, vai uma vez por semana uma vez a cada quinze dias, aí o almoço tem um cervejinha, o trabalho depois do almoço fica meio chato e volta. Eu quando ia a Paulínia mas eu ia com tanto prazer, mas nunca perdia a hora, as quatro e meia invariavelmente eu levantava, o mais tardar que eu chegava em Paulínia era sete e quinze, sete e vinte, quando eu estava lá eles começavam a sete e meia o trabalho, então quando eu chegava em Paulínia eu ficava na porta mas eu ficava uma cara de pau assim e falava: “Olha, eu vou fazer um “x” naquele que chegar atrasado quando o pessoal ia entrando [risos], sabe?” Então eu chegava, aí das sete e meia que eles começavam a trabalhar até às oito horas abraços, cumprimentos, cafezinho que era servido, às oito horas eu já estava na ativa, já estava trabalhando, já estava em reunião, já estava ou fora de reunião fazendo algumas outras coisas assim - mas de uma forma objetiva, aí eu saía e eu vinha tão contente porque eu me achava muito útil. Eu falei: “Puxa vida, que bom, que bom que eu vim”... eu me sentia útil, gostava mesmo; parava no Frango Assado - não, no Lago Azul - na volta era no Lago Azul, tomava um copinho de chopps e fazia o resto do caminho e chegava feliz em casa. Uma outra prova assim do meu amor pelo trabalho, pela Rhodia e por tudo o que eu fazia; aos domingos eu via tanta gente criticar tanto o domingo a noite... ah! eu não suporto ouvir a música do Fantástico, quando eu ouço a música do Fantástico eu já e não sei que... Olha, quando chegava no domingo a noite mas eu ficava...

 

P/2: [risos] Essa é uma máxima...

 

R: É, gozado. Mas eu ficava esperando tanto chegar a segunda-feira já planejando o que quê eu ia fazer, mas ia com um bruta de um tesão na segunda-feira, tinha vontade mesmo de começar a segunda-feira. Falava, inclusive eu sempre comentava: “Pô, porque que vocês não gostam da segunda-feira? Vocês gostam da sexta-feira, a sexta-feira vocês vão encher a cara porque? Porque vocês não ganharam na loteria, não foram promovidos, não fizeram absolutamente nada e acabou a semana, a segunda-feira é o raiar de uma semana com um monte de perspectivas, um monte de coisas que podem ocorrer, não é maravilhoso, não é linda a alvorada, não é lindo... o crepúsculo é lindo; agora o crepúsculo ele é melancólico, é triste, é o fim do dia que não aconteceu nada, acabou o dia; quando está raiando o dia pela manhã é um monte de esperanças, um monte de coisas, você pode até ganhar na loteria aquele dia.” Então o começo é sempre bom, por isso que eu gostava muito da segunda-feira e da sexta-feira ia pagar as mágoas com os amigos. Quando eu fiz os 40 anos de Rhodia, olha..[risos]... 

 

P/2: “Os companheiros da GDB, em estação extraordinária secreta e abstêmica nomeiam por aclamação unânime ao senhor Albino como o seu presidente honorário, efetivo e vitalício”. Que ótimo! [risos].

 

R: Complemente.

 

P/2: “São Paulo, 40o aniversário de trabalho de bico do agraciado em multinacional francesa”[risos].

 

P/1: [risos].

 

R: [risos].

 

P/2: Que ótimo, simpático... [risos]. Super simpático.

 

R: Então, eles lembram da gente inclusive. Quer dizer, isso aqui também vocês chegaram a ver ou não?

 

P/2: Não, ah! aA revista...

 

R: Isso também foi uma pequena entrevista mais sobre a aposentadoria, como é que você está vivendo hoje depois de aposentado, se está bem, se está com saudades, se está com não sei o quê. Então, aí eu já mencionava que eu até estava pretendo voltar a tocar violino [risos] e realmente se Deus quiser ainda eu vou voltar.

 

P/2: E depois que o senhor se aposentou, o senhor não foi procurar uma atividade, um outro trabalho?

 

R: Olha, não e numa boa. Quando eu estava saindo da Rhodia naquele exato momento eu estava com seis propostas de emprego; seis companheiros queriam que eu fosse trabalhar com eles; inclusive um deles seria, é um despachante alfandegário lá na praia aí eu moraria na praia e todos eram trabalhos muito bons dentro do que eu gostava de fazer. Depois que eu saí apareceu mais uma proposta ainda, eu tive um total de sete propostas de emprego, para nenhuma eu recusei, para todos eu disse a mesma coisa; olha, seis meses são meus eu não vou fazer absolutamente nada, eu vou realmente descansar, vou curtir e não quero saber de nada, daqui a seis meses a gente volta a falar. Só que como eu já mencionei, o ser humano, o homem, o homem e a mulher acostumam com tudo até com o que é ruim, imagina com o que é bom se não vai acostumar.

 

P/2: Aí o senhor ______.

 

R: Nossa Senhora! Porque, primeiro tem que... condição sine qua non, a condição financeira; você tem que manter o mesmo padrão, eu tinha um apartamentinho que vocês viram do meu pai, eu herdei do meu pai, tinha uma outra propriedade deixou para minha irmã e o apartamentinho da praia ficou para mim. Como era um apartamentinho velho etc e tal, quando eu me aposentei, quando eu saí como que agraciado recebi algum dinheirinho, eu comprei um apartamento melhor mais moderno para mim; fiquei com o velho, reformei deixei lindo e eu alugo assim mais para fins de semana, temporada só. Então ele me dá uma distração, porque eu tenho que trocar uma torneira, tenho que trocar uma pastilha, tenho que arrumar alguma coisinha e me dá um entretenimento também, então eu vou a praia. Eu tinha um pedacinho de terra com uns sobrinhos e uma casinha, não é bem um sítio não tem muita infraestrutura, mas é uma casa no meio do mato lá em Bragança, um lugar lindo de morrer; então resultado: eu fico dez dias na praia, fico dez dias aqui e fico dez dias em Bragança, agora por exemplo na segunda-feira de manhã a gente vai embora, vamos passar exatos dez dias em Águas de São Pedro, nós vamos ficar lá, tomamos banho...

 

P/2: E o senhor _____ na Rhodia, ficava na Rhodia na... ________ de certa maneira, em Santo André?

 

R: em Santo André.

 

P/2: Mesmo quando o senhor estava vindo para o centro empresarial, o senhor trabalhava no lado de Santo André?

 

R: É, vinha para o centro empresarial, morava em Santo André. Nessa ocasião eu me aposentei, eu me aposentei pelo Inps. Nós fizemos as contas inclusive e eu me aposentei com 80 e poucos por cento, mas aposentadoria integral não aquele pé na cova que tinha que era 20% na época não, é o integral que nós fizemos as contas era mais funcional - era muito melhor você se aposentar e a diferençazinha depois seria insignificante, resultado: quando me aposentei, eu tive direito e é óbvio que eu levantei o fundo de garantia, então eu fiquei com o dinheiro e um pequeno salariozinho maior, eu falei: “Bom, agora o que quê eu faço, vou elevar o meu padrão de vida em lugar de tomar Passport vou tomar Chivas? Não, é estupidez”... eu falei: “É a melhor coisa sempre todo mundo falou, investimento em imóvel, aí como investimento?” Eu comecei a procurar alguma coisinha lá por Santo André mesmo como investimento aí não achei, um belo dia trouxe a família mostrar para vocês aonde que o papai trabalha; vamos almoçar no meio do mato, algum restaurante bonito por aí e vamos, eu vou mostrar o centro empresarial para vocês. Resultado: nesses faróis aí da vida, aqueles bilhetes lá de imobiliária não sei o quê, um apartamento aqui, apartamento... eu falei: “Puxa vida, a gente estava interessado mesmo porque não dar uma olhadinha”... aí eu vi um naquele conjunto Os Andorinha do Adolpho Lindemberg, era um negócio inacessível, não dava. Entramos no apartamento e nossa senhora! Era um troço fora de série, aí viemos aqui nossa… a gente gostou sabe, gostamos eu olhei e falei: “Puxa vida, dentro da nossa, dá para fazer tranquilo, inclusive aí também a memória funciona. Eu paguei durante um bom período CR$ 816,00 por mês de prestação aqui, tinha dado uma entrada, a entrada não lembro exatamente que foi através do fundo de garantia e pagava CR$ 816,00 e naquela ocasião... e a minha aposentadoria era Cr$ 790,00; então eu tinha que fazer investimento de cigarro, naquela época eu ainda fumava; era investimento de cigarro, nem de cigarro era menos que... muito pouca coisa...

 

P/2: Que dá o cigarro do mês.

 

R: ... e dava, é então tranquilo dava para fazer e naquela época o BNH eu aconselhava, quer dizer um monte... meus familiares um monte de gente entrou no BNH porque quando eu estava nos últimos anos de pagamento do BNH com a minha, com o meu soldo da aposentadoria dava para pagar cinco prestações, então o BNH era muito bom naquela época, tanto é diz que eles perderam dinheiro porque alguma coisa não funcionava muito bem, porque antes eu tinha que pôr um pouco de cigarro - mas tinha que pôr um pouquinho, mas depois não, dava... aí resultado então... e como estava trabalhando aqui foi nossa uma beleza, aí eu vinha almoçar em casa...

 

P/2: Resultado...

 

R: ... vinha almoçar em casa tranquilamente, e depois por uma... eu estava fazendo acho que um tratamento dentário lá num gabinete lá da Rhodia, lá em Santo André na praça de esportes, e os dias que eu tinha que ir ao dentista... aí eu ficava pensando comigo, falei que se eu não tivesse mudado para São Paulo, eu ia procurar aposentadoria, eu acho que eu teria me aposentado muito antes porque eu não aguentava mais o trânsito, o que você levava para fazer 30 quilômetros, levava uma hora e meia, então era terrível e aqui tranquilão: vinha almoçar e sossegado, gostoso. Achamos um apartamento assim relativamente confortável, gostoso, quer dizer, foi fruto do trabalho também.

 

P/1: O senhor ____ aqui na _____ o senhor participou dessa mudança depois para Santo Amaro...

 

R: É, fui... então eu estava... nessa mudança também havia coisas interessantes sempre. Eu estava em férias, aguardando férias quando eu voltei de férias o Plínio inclusive, o Plínio Carvalho falou: “Ô Albino tem novidades  etc e tal, você sabe que a Rhodia adquiriu Up-John”... a Up-John era fornecedora inclusive da Rhodia, eu cheguei a comprar não sei exatamente qual o antibiótico que eles fabricavam para Rhodia. Então, ele falou: “Você sabe que a Rhodia comprou a Up-John e nós vamos mudar para lá”... eu falei: “Plínio, eles não tem um setor de importação lá?” “É, tem Albino, eles tem o setor de importação.” Eu falei” “Pombas e como é que vai ser agora a coisa, eu vou ter que provar tudo outra vez etc e tal, vou ter que brigar tudo outra vez?” Ele falou: “Não, nós que compramos, então resultado fomos para Up-John e tudo bem... no primeiro dia que nós deixamos os móveis, aquele negócio todo, no primeiro dia útil de trabalho que aliás foi  no dia 1o de abril de 1987, foi o dia dos meus 40 anos. Um tal Nicolau Rondinelli que não tem anda com o Silvio Rondinelli, o nome não...

 

P/2: Não tem a ver com a família.

 

R: Não tem nada, nada e aliás pessoas totalmente diferentes porque o Silvio eu carreguei ele no colo quando nenêzinho sabe.

 

P/2: É mesmo?!

 

R:  É, carreguei ele no colo, nós morávamos perto..

 

P/2: Aposentou agora?

 

R: É, aposentou agora. Então esse Nicolau Rondinelli ele chegou na minha sala sentou, falou: “É Albino, então você roubou a minha importação né? Mas eu vou reaver, eu vou brigar até as últimas instâncias, eu vou ficar outra vez com a importação!”

 

P/2: Ah! Porque você ficou com o cargo também de importação da Up-John... na fusão.

 

R: Quer dizer, é...porque fiquei com o cargo exatamente na fusão, exatamente.

 

P/2: E aí ele se sentiu lesado.

 

R: Exatamente e essa foi as boas vindas dele sabe.

 

P/2: Nossa!

 

R: Eu falei: “Puxa vida, mas eu me senti arrasado…” Eu usava muito um conjuntinho que o Jânio Quadros usava, como é que eles chamavam? Acho era Safari, acho Safari... eu tinha acho que uns cinco ou seis daquele sabe, eu achava elegante você ficava bem vestido e não precisa ficar engravatado, eu usava gravata quando eu estava frio, era frio eu punha a gravata, se não estivesse frio eu punha aquele meu Safari ficava confortavelmente vestido e elegante para trabalhar. Aí eu sei que no dia seguinte um tal de Barbosa, acho que era José Barbosa que era o chefão da Up-John naquela época, ele me chamou juntamente com o Nicolau, eu cheguei lá o Nicolau já estava sentado, eu falei: “Pronto eles vão falar outra vez a mesma porcariada”... então de uma forma também não muito simpática esse Barbosa olhou para mim e falou: “É Albino, parece que você não gosta muito de usar gravata…” e lá era uma norma, empresa americana eles eram obrigados todos do escritório a usar a gravata e nós no centro empresarial não tinha nada disso, aliás na Rhodia nunca houve nada disso. Então como eu já tinha tomado um chute no dia anterior e eu sabia que haveria mais uma continuidade pura e simplesmente eu disse assim: “Eu usar gravata? Puxa vida, no centro empresarial lá eu não usava, agora aqui numa fabriqueta eu vou usar gravata?!” [risos] quer dizer...

 

P/2: Deu o troco.

 

R: ... é, dei o troco. Quer dizer, maldade existe, todo mundo tem um negócio de diabinho assim... todo mundo tem o negócio do diabinho.

 

P/1: Mas você foi provocado, o senhor foi provocado, não veio...

 

P/2: É, não foi lá...

 

R: É, mas aí eu... você vê, não deixei [risos]...

 

P/2: Aproveitou e não deixou barato.

 

R: Não deixei barato viu, não deixei barato.

 

P/1: Mas foi uma fusão traumática.

 

R: Foi uma fusão traumática. Nós estávamos numa festinha de confraternização de natal, às vésperas do natal; nós tínhamos naquela época um francês muito sério, um sujeito que simpático (Diar?), alguém falou nesse nome (Diar?)?

 

P/1: Não.

 

R: … que ele foi un passant, ele veio acertar uns negócios... (Diar?), mesmo assim D-I-A-R... e ele era super, era o maior lá dentro. Nós estávamos numa festinha de confraternização todo mundo bebericando um uisquinho, diga-se de passagem lá na área de compras, eu que tinha aberto o uisquinho lá para o pessoal.

 

P/2: [risos].

 

R: É, estávamos lá numa boa etc e tal, onde o Diar foi chamado, ele voltou e era uma senhora não lembro o nome, teve muito contato com o Barbozinha assim com negócio de embalagens, naquela hora direto ele mandou ela embora e ela foi embora porque senão poderia ir para cadeia, estava fazendo alguma sabotagem - alguma besteira. O pessoal da Up-John não aceitou, na época... depois houve até um reconhecimento, aquilo que se propagou como sinergia na realidade foram dois pólos opostos, a coisa não funcionou, o objetivo não funcionou, depois a longo prazo a coisa mudou totalmente... aí sim, foram se desfazendo inclusive de várias manchas lá da Up-John... parece que não tinha por objetivo dar lucro também no Brasil, era uma coisa meio diferente e então, agora hoje não, eles estão com instalações muito boas e a Up-John parece que está voltando para o Brasil, diz que em Jacareí não sei aonde onde que eles estão construindo.

 

P/1: Vi alguma história que também ____ retomaram algumas patentes... ___ houve alguma coisa assim também.

 

R: Mas na época não foi muito favorável não, não foi favorável, um pessoal meio esquisito. Mas foi uma mudança e as mudanças foram muitas, quer dizer, nesses 43 anos eu passei por muitas mudanças; mas é aquilo que eu falei que o ser humano tem facilidade de acostumar até com o que é ruim, porque acostumava realmente.     A primeira vez de Santo André, nós fomos para a Líbero Badaró e era uma tristeza, sabe? A gente saía tarde, nós tínhamos duas horas de almoço, quer dizer, era uma bobagem ficava depois zanzando pela cidade. Então a gente fazia... chegamos a fazer de tudo, em frente da Rhodia tinha uma academia de bilhares, fomos lá, frequentávamos a biblioteca, ficávamos folheando uns livros lá alguma coisa, chegou numa ocasião começamos a frequentar o cinema mas na hora que tinha o duelo do bandido com o mocinho a gente tinha que sair, não dava certo mas mesmo assim a gente acostumou. Aí depois, aí então eu fui para Santo André, voltei para Santo André, depois voltei para São Paulo, outra vez para a Líbero Badaró, aí depois fomos para o centro empresarial. No Centro Empresarial eu fiquei dez anos também porque nós fomos em 1977...

 

P/1: Até 1987.

 

R: É, eu fiquei até 1987. Nós fomos em março, dia 21 de março foi o primeiro dia útil que nós começamos a trabalhar em 1977.

 

P/2: Ótimo de datas!

 

P/1: