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História

Um pai sonhador, uma mãe pé no chão

História de: Arlete Lopes Crispino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2005

Sinopse

Em seu relato, Arlete fala sobre sua infância e juventude e sobre sua relação com seus pais, especialmente sobre as ideias revolucionarias de seu pai para época, que era considerado um comunista e chegou a ficar preso diversas vezes. Recorda também como a mãe manteve a família lecionando, porque enquanto o pai queria “mudar o mundo” ela primeiro “olhava para a família”.

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História completa

P/1- Vamos começar, a senhora diga o seu nome completo, lugar onde a senhora nasceu, quando e nome dos seus pais, seus avós e, se possível, onde eles nasceram.

 

R- Então, eu me chamo Arlete Lopes Crispino, nasci em Pinheiros, numa cidade pequenininha na Central do Brasil. Meus pais são João de Araújo Lopes, também da Central, da cidade de Resende e Elisa de Souza Valente Lopes, nascida em uma fazenda em Pinheiros e criada em pinheiros também. Depois ela estudou em Guará, viveram muito tempo na Central, naquela cidade da Central do Brasil.

 

P/1- Conta alguma coisa da sua família: como foi sua infância, seus pais, seus irmãos, sua casa.

 

R- A gente começa a ter lembrança da infância lá para os 5, 6 anos. Antes não me recordo das coisas, sei das coisas porque minha mãe teve sempre o hábito do diário, então a gente sabe o que aconteceu na vida toda porque o diário dela é da vida inteira, mas da minha lembrança mesmo começa em Marília. Uma infância cheia de dificuldades porque meus pais tiveram muitos filhos e ele era um homem assim muito aventureiro; ele tinha uma profissão, mas ele se interessava por tudo, queria estar em todos os lugares; quando ele se casou com minha mãe ele era farmacêutico formado, então os primeiros filhos nasceram em Queluz onde ele tinha duas farmácias e uma posição muito boa. Minha mãe logo deixou de lecionar porque ele quis fazer o curso de medicina e foi para o Rio de Janeiro fazer o curso de medicina, então ela parou de lecionar, deixou a cadeira dela. Ele fez o curso de medicina, lá a família cresceu mais um pouco e depois de formado ele voltou para Pinheiros, que era a terra dela e um pouco dele também, aí comprou terras no Paraná, ele queria ser fazendeiro. Tinha ideias avançadas; ele foi dono de uma fábrica de latas, que naquele tempo a lata era o máximo, estava entrando no Brasil, 1920, antes até, ele foi dono do primeiro jornal de Queluz, que ele queria fazer circular as notícias, mas a cidade era tão pequena que antes do jornal ficar pronto, todo mundo já sabia de tudo. Assim ele se aventurou por muitas coisas e quando ele comprou a fazenda, ele praticamente largou a medicina e foi se dedicar a fazenda. Mas a fazenda era no norte do Paraná e eles então se mudaram para lá, foram morar em uma cidade pequena chamada Itaporanga; lá a mamãe recomeçou a lecionar porque ela viu que ele se dedicava tanto a fazenda, ele se pegava tanto com aquilo que não dava, né, então ela voltou a lecionar. Então quando eu fui para Itaporanga eu fui no colo, tinha 2 anos. Lá mamãe teve mais filhos e ele sempre tudo o que ele ganhava, porque ele atendia também, a medicina, não é que ele abandonou de uma vez, mas ele se dedicava mais a fazenda e nesse tempo ele começou a ler sobre cooperativismo e queria fazer cooperativa, então minha mãe sempre ali com o ordenado dela sustentando a família e ele com as fantasias dele. Ele ia fazendo tudo, ele queria tudo e depois de Itaporaga nós mudamos para Marília em 1929, que não era a Marília de hoje, era uma coisinha. Não tinha calçamento, não tinha água encanada, luz elétrica já tinha e fomos para lá e a família aumentando, porque mamãe teve ao todo 13 filhos, né, e ele ali se firmou um pouquinho mais, mas sempre com aquelas ideias que ele externava muito de cooperativismo, ele já passou para socialismo e com o tempo ele ficou sendo o comunista da cidade. Então a toda hora ele era detido, era encaminhado para São Paulo e minha mãe lecionando e a família grande, a família grande. Mas a gente era criança e a vida para gente ótima, porque tinha o pai, tinha a mãe; as vezes o pai viajava, né, entre aspas, se ausentava, depois voltava e a vida da gente era boa, alegre, a casa cheia de criança, muitos amigos, muita criançada em volta, mamãe sempre lecionando, muito querida. Então assim foi. Da primeira casinha que nós moramos, que era de tijolo, coisa rara em Marília, passamos para uma grande casa de madeira e lá ele pôs o consultório e até ia indo muito bem. Aí veio a Revolução de 1930 e depois a de 32, né, então ele sempre comentava com a família o avanço das tropas legalistas, os paulistas se afastando, ele marcava no mapa e comentava tudo; olha, não sei porque, ele ficou mal visto e foi preso pela primeira vez lá, veio para São Paulo e daí para cá ele foi diversas vezes detido e a mamãe sempre firme com a família, todo mundo estudou e ele nesse vai e vem. Foi assim no tempo do Getúlio também, foi... Depois do Getúlio, negócio de intentona, aquelas coisas todas, né; e ele finalmente... Caiu em ciladas, assim, até te contei, de porem material dentro do consultório dele e quando ele abriu a porta viu aquele material lá, não deu tempo de sair porque a policia entrou atrás dele, essas coisas injustas e tudo. Então nós éramos uma família visada de duas maneiras: muito respeitada, mas ao tempo assim, né, “o pai deles é comunista”, mas a mamãe nunca perdeu a linha dela, ela foi diretora em Marília do grupo escolar e todos fizeram o curso ginasial lá. Como não tinha mais nada para fazer lá, e a gente então fomos, uma a uma, fazendo escola normal em Agudos. Mas a vida para nós era muito boa, muito gostosa, porque mamãe não deixava faltar nada. Tinha uma vizinha nossa bem de família, bem economicamente, os pais tinham padaria, então ela adorava ir tomar lanche lá em casa porque todo dia tinha bolo de fubá, mamãe fazia bolo, ela achava que lá em casa tinha muito mais, né, mas a mamãe fazia da mão dela, né, naquele tempo punha o bolo em cima da chapa, punha a tampa em cima da panela e enchia de brasa em cima e ela sabia direitinho quando podia tirar a tampa e derrubar as brasas e o bolo já estava crescido; quer dizer foi um tempo que não tinha nada, eu acho que hoje a vida é facílima, porque o que uma mulher tinha que trabalhar naquele tempo, de roupa para levar, para passar de ferro de brasa, eu passei muita roupa de ferro de brasa porque ela nos punha todas para trabalhar, e toca por brasa dentro do ferro e toca sacudir o ferro e toca soprar o ferro; fazíamos todos esses trabalhos caseiros e ela bordava a roupa da gente, ela costurava a roupa da gente, então a gente estava sempre em ordem, mas ali, porque ela não perdia um minuto com outras coisas a não ser a família. Depois quando a gente veio aqui para São Paulo aí conhecemos o fogão elétrico, posteriormente o fogão a gás, nossa, quando a gente lembrava de Marília, o que era a vida dura, né, não tinha água encanada, a gente morava numa casa, essa casa de madeira, tirando água do poço, o poço até servia a nossa casa e a do vizinho; tirando água do poço, enchendo tinas de água, carregando a água para cozinha, carregando a água para o chuveiro, que ele tinha uma cordinha, descia, o chuveiro era redondo e tinha um ralo em baixo por onde descia a água. Então quando enchia a água o ralo estava fechado aí a gente ia tomar banho e puxava o ralo pela cordinha, suspendia la qualquer coisa e a água descia pelo ralo; a gente tomava banho de chuveiro, mas era um chuveiro improvisado, tudo improvisado. A gente conheceu a vida na forma mais dura, então acho que hoje a gente tem tudo, todos esses modernismos aí que veio em benefício da mulher, porque mulher sofria, viu? (risos). Mas depois em Marília, depois de morarmos nessa casa grande tábua, papai começou a construir uma casa de tijolos e foi uma casa muito gostosa e ele teria sido o precursor das coisas, ele era muito para frente, sabe, por isso ele era inquieto. O quanto ele tinha de inquieto ela tinha de pé no chão para ali segurar as barras, né, então ele mandou já instalar canos e posteriormente, quando Marília recebeu água encanada, já estava em casa. Nessa casa também ele fez o poço e ao invés da gente puxar a água assim em balde, ele fez uma espécie de bomba, você sabe um filme de mocinho que eles bombam a água assim? Então a gente bombeava, cada um tinha que bombar um pouco e com isso enchia uma caixa alta que tinha no quintal e dessa caixa nos servia, então a gente já teve água encanada antes da água encanada chegar em Marília, que ele providenciava as coisas. Papai sempre que mudava para uma casa, a primeira preocupação dele era por um filtro de água para os filhos, os filhos tinham que ter tudo água filtrada, sempre uma preocupação assim. E dessa antecipação dele, então nós tivemos uma banheira dentro de casa, que era uma novidade também e também um sanitário, né, e lá fora tinha a fossa séptica então passava tudo pela fossa. Ele foi assim, ele via as coisas, ele lia, se interessava, queria por em prática, ele vivia um pouquinho fora da época dele, adiantado. Mas a mamãe ali dentro sustentando tudo.

 

P/1- Como é que ela enfrentava as situações?

 

R- Como ela enfrentava?

 

P/1- Principalmente quando seu pai...

 

R- Com muita coragem, olha, com muita coragem. Eu me lembro dela falar muitas vezes assim: “João, lembra dos seus filhos, deixa a situação mundial, pensa nos seus filhos. Você quer consertar o mundo, João? Olha para os filhos!” (riso). Mas ele falava: “O mundo é para eles, nós temos que consertar o mundo porque o mundo é para eles!”. E eles ficavam assim, né, para acertar era difícil, porque ele via muito longe e ela via a família. Foi assim, mas a gente sempre admirou porque ele via mesmo na frente, quando nós mudamos para cá em 44, ele já estava lendo muito sobre naturismo e falando muito de alimentação natural e ele teve, com uma pessoa que o ajudou, o primeiro restaurante naturista daqui de São Paulo. Comidas muito gostosa, mas não entrava carne, né, uma variedade enorme. Então tudo a gente vê que ele era na frente, ele era um percursor, sei lá. Agora lá em Marília a gente passou dificuldades, mas que eu criança não percebia. Comecei a perceber depois do ginásio que a gente era meio, olha, a gente não era excluída, não é, mais falavam assim: “Ah, elas são filhas do Doutor Lopes”. Falava em Doutor Lopes e todo mundo já sabia quem era. Então “São filhas do Doutor Lopes e Dona Elisinha”, que já era diretora naquele tempo lá, né, ela foi diretora substituta bastante tempo, ela nunca fez o concurso para direção; naquele tempo punha-se assim para dirigir e ficava. E estudamos, né, eu ganhei um curso secundário grátis porque tinha sido uma boa aluna no quarto ano então recebi o diploma e recebi também a possibilidade de frequentar o ginásio do estado sem pagar. E o ginásio, a gente tinha muita honra de frequentar porque era um ginásio exigente, os professores começaram a modernizar o ensino, vamos dizer, né, o professor nos levando a noite para a parte de cima do colégio para a gente ver as estrelas, as constelações, localizar, localização de norte, sul, a criar laboratórios e a gente a frequentar laboratórios, quer dizer, eram experiências simples, mas era uma novidade, era uma mudança no ensino, né? Tivemos uma professora de música também maravilhosa, ela é viva até hoje, se chama Regina Epinghaus(?), ela era moça, hoje eu sei que ela tinha 21 anos, mas para nós ela era uma senhora bonita, loira, filha de alemães e ela dava música de uma maneira completamente diferente. Ela levava trechos de óperas, árias, nos fazia pesquisar biografias de Beethoven, Mozart, Liszt, tudo e gente foi se interessando de tal maneira pela música que era uma matéria que a gente gostava, que ela levava uma vitrolinha, olha, porque naquele tempo era uma vitrola de dar corda, na sala de aula era uma coisa extraordinária. A professora de português também, que nos fazia ler livros e comentar livros e dizer dos personagens dos livros, era uma coisa tão diferente, era uma professora extraordinária também, se chamava Berta Camargo Vieira, uma coisa, nós a considerávamos uma sumidade. Ela providenciou a primeira biblioteca do ginásio com os alunos indo de casa em casa pedindo livros e a população dava os livros, né, e os livros eram depois os livros separados por matéria, por assunto, então foi organizado a primeira biblioteca, né e o todos os professores muito assim diferentes. O professor de química, gostaria de lembrar o nome dele, fazendo experiências com a gente... Era, vamos dizer assim, uma palavra bem assim daquele tempo, era uma plêiade de professores muito bons, então a gente orgulho de estudar naquele ginásio. Que depois passou a ser estadual. Porque a gente comentava assim, quem não passa no nosso ginásio vai estudar no colégio das freiras. Então a gente tinha aquela coisa de criança, né, nós estudamos numa escola mais exigente!”. Depois nos formamos e uma a uma minha mãe conseguiu que fosse estudar em Agudos, que era onde tinha uma escola normal livre que se chamava Escola Normal Livre de Agudos e era dirigida por freiras alemãs, essas freiras, a última delas morreu a pouco tempo, elas fizeram o ensino de Agudos, formaram olha, não sei quantas turmas de professoras lá, né e eram muito modernas, vamos dizer também; eram freiras que, aos sábados, punham o rádio para tocar no pátio interno e nós dançávamos. Isso era coisa que naquele tempo freira não fazia e elas nos deixavam a gente dançar, fazia carnaval, pulava. Elas nos levavam a chácaras para comer frutas, íamos em fila, nos tirávamos do internato então, porque éramos internas, eram freiras diferentes mesmo. Ficaram famosas na região porque eram muito abertas. Nesse tempo foi muito bom também para nós e então a vida foi passando e gente foi entendendo o porque daquela situação assim que antes nos envergonhava, mas depois deixou de envergonhar porque cada um tem o direito de pensar como pode, como quer e o meu pai pensava daquele jeito pelo bem de todos, ele pensava em todos, não pensava nele. Assim foi a vida dele, muitas vezes veio para cá, ficou no DOPS que o trazia para cá, ficou no Presídio Maria Zélia, ali ele fez relações, aí é que ele foi estudar a política, porque ele conheceu muita gente boa, Caio Prado, né, encaminhou ele a leituras muito boas, mas era uma vida de prisão. Então uma vez que meu pai ficou quase um ano e meio aqui, ele voltou gordo, a gente quase não reconheceu porque era ler, cantavam, jogavam dama, baralho, conversavam muito e as conversas eram muito instrutivas e ele cada vez foi se instruindo mais naquilo que ele era acusado sem dever, ele falava em cooperativismo, em socialismo e de repente ele tinha virado um comunista.

 

P/1- Mas ele não militava assim, era só umas ideias?

 

R- Quando aqui o partido entrou na legalidade, em 45, ele se aproximou mesmo do partido, porque aí ele já conhecia muita gente que ele tinha conhecido lá preso, sem conhecer, sem saber e durante os anos de legalidade, ele frequentou, mas sempre com a recriminação da mamãe. Então quando caiu outras vez na ilegalidade, que foi Marechal Dutra que tirou a legalidade do partido, ali ele já era amigo até de Prestes, né, Prestes o visitou quando ele estava doente, tudo. Pessoas muito boas, o Doutor Samuel Pessoa, tudo gente boa, ele conheceu nessa época e Dona Joelfina(?) foi muito boa também e então a gente tinha aquele receio, porque a mamãe não nos deixava, nesse ponto ela nos segurava. A gente admirava ele e via quantas coisas justas ele pensava, mas ao mesmo tempo não tinha coragem de aderir assim abertamente, né?

 

P/1- Ele conversava muito sobre política com vocês?

 

R- Nossa! Ele lia os jornais: “Vem aqui, vem aqui olha!” e lia trechos ou passava em vermelho trechos e falava: “Vocês precisam ler isto”. E quando não nos fazia ouvir aquilo que ele estava lendo mesmo e falava: “Vocês tem de ler as entrelinhas, não é só ler não, é pensar”. E assim ele nos levou a um raciocínio que tudo que a gente lê a gente fala “O que será que tá nessas entrelinhas, tem coisa por aí”. Me lembro quando a gente ainda mal entendia de nada ele falou: “Olha aí, a Ford comprou uma concessão enorme de terras no Amazonas e assim que eles vão se apoderar das nossas terras!”. E a gente então falava: “Ah, já estão vendendo o Brasil” (riso). Olha, tem tanta gente comprando o Brasil até hoje (riso), não muda nada.

 

P/1- Aqui em São Paulo ele continuou a mesma coisa?

 

R- Aqui ele se dedicou mais a medicina, bem mais, principalmente porque o naturismo deu muito retorno para ele. Ele criou também casa de banho a vapor, também nunca tinha ouvido falar que São Paulo tinha banho a vapor. Ele fez muito primitivamente, mas no consultório dele tinha banho a vapor. Então ele aliava o regime aos banhos a vapor, à ginástica, porque ele era um ginasta fervoroso, de fazer diariamente. Tinha um programa no rádio do Professor Osvaldo Diniz Magalhães, de lá do Rio, interessante; ele fazia ginástica pelo rádio e ele nos acordava: “Vamos, sai da cama, vocês ficam dormindo aí até tarde, vamos fazer ginástica!”. As vezes a gente acompanhava, as vezes tinha vindo de baile, não queria, mas ele sempre assim. Mas aqui ele se dedicou mais a medicina, bem mais e foi bem sucedido e tudo. E dizia que ia viver 120 anos ele dizia assim, tadinho: “Vou enterrar vocês todos”. Mas ele foi quase que com a idade que eu estou, ele foi com 68 anos, morreu de câncer. E ele se alimentava bem, ele não bebia, ele não fumava, ele ginasticava, ele fazia excursões, nos levava para o Pico do Jaraguá, para Guarapiranga, que naquele tempo não era nada, para Santos; muita atividade que ele tinha e teve a doença fatal, né, e minha mãe que era magrinha, que lutava e tudo, viveu até os 98 anos e meio (riso). Mas aqui então a vida, a gente já veio para cá recém formada, tivemos dias muito bons em Marília, a despedida de Marília foi uma festa que a gente fez em casa que coincidiu com o aniversário da minha irmã Odila, então foi uma festa que todo o pessoal do clube veio porque o que tinha em Marília? Cinema, que nós íamos uma vez por semana só porque não tinha meios de mandar aquela turma toda ao cinema mais do que uma vez por semana; baile, todos os domingos chamava-se Domingueira no Tênis Clube de Marília, a gente saia do cinema e aí fazia na avenida o footing, ficava que nem amostra, para lá e para cá, para lá e para cá e os moços parados, né, vendo as moças circularem e então a gente dava volta na avenida, era bem larga e após isso íamos para a Domingueira. A gente vinha sempre acompanhada de amigos, mamãe sempre perguntava “com quem vocês voltar?” e a gente falava com quem ia voltar e era aquela segurança absoluta porque eram moços, né, gente fina (riso), não tinha perigo. Bailes que terminavam quatro da manhã também, saía-se, como hoje, a gente passava no bar, tomava café ou então comia pão fresco na padaria, mas ia para casa direitinho. “Vocês vieram com fulano?” “Viemos mamãe”, pronto então estava tudo ok, né?

 

P/1- E os namoricos?

 

R- Os namoricos, saí de lá com 16 anos, naquele tempo não namorava ainda com 16 anos. É porque aí eu fui interna, lá no internato é que eu comecei com namorico, e depois já fomos para São Paulo, mas eram namoros... Olha, tem sempre de tudo, né, a gente tinha aquela maneira da mamãe, que ela dava liberdade, mas ao mesmo tempo ela cobrava, então a gente queria respeitar aquela liberdade que ela dava. Tinha de tudo né, tinha moças com mais liberdade, mas por exemplo, andar de namorado, de mão dada, de abraço, de beijo, mas nem sonhar! Isso daí nem de jeito nenhum, isso daí foi bem depois e ainda com medida, ainda com bastante medida. Então esse último mês que a gente passou lá e fizemos a festa, que foi em casa e tudo, a vitrola ainda era vitrola de manivela, a gente dava corda e com sentia que a corda chegou, bom, aí punha os discos, punha a agulha, tocava; tocava alguns discos aquela corda, depois renovava a corda. Mas foi muito gostoso, todos os moços foram, do Tênis, as amigas, a miss Marília que se chamava Dalva Sentini estava lá, uma outra que já tinha sido também, a Gláucia Amaral, todas as moças, porque a gente tinha muitas amizades. E no baile, agente distribuiu assim, para o moço e para a moça, o nome de amores famosos, vamos dizer assim Romeu e Julieta, Otelo e Desdêmona, que mais que tem? Aberlado e Heloísa, esses amores famosos, né, e então um tinha que procurar o outro. Se a moça era a Desdêmona, tinha que procurar o Otelo, né, e então depois que os pares se formaram, então teve a valsa e dançamos e tudo. Foi uma festa muito gostosa, eram essas festas inocentes que a gente fazia né, a música que deixou lembrança dessa festa foi Céu Cor de Rosa, uma música muito bonita, acho que nossa, naquele tempo não tinha isso de música estrangeira infiltrada aqui, né? E depois então viemos para cá e aqui nós continuamos com essa tradição de festinhas em casa; então essa casa da Avenida Pompeia, onde nós moramos 25 anos e que tinha um hall imenso, mas maior que isso só o hall era maior que isso e a sala de jantar maior que isso também, a gente fez muita festa lá. A gente era daquele tipo de moça do interior e fomos nos ambientando, devagarinho, devagarinho. Eu fui substituindo o grupo escolar Miss Brown, eu e a Iná, a minha irmã Odila logo, nós mudamos em julho e ela, em janeiro no ano seguinte, ela logo escolheu cadeira. Então ela não substitui aqui em São Paulo assim muito tempo e a gente substituíamos, era uma hora em Casa Verde, uma hora em Perus.

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