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História

Um pai de coração

História de: Josino de Brito Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Josino relembra da cidade de Três Pontas e de Campos Gerais, cidades onde cresceu. Conta sobre a relação que sua família tinha com a música, todos contavam, menos ele que começou a se interessar mais por fotografia. Conta também sobre a sua proximidade por rádio e eletroeletrônicos. Relembra do período em que foi soldado, como ele e sua mulher adotaram o Milton Nascimento e de onde vem o apelido “Bituca”.

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História completa

P/1 –   A gente vai começar nossa entrevista e eu vou pedir para o senhor falar seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R –  Eu não me lembro da data, não lembro porque eu era pequenininho (risos). Bom, meu nome: Josino de Brito Campos, filho de Francisco Vieira Campos e Bárbara... Eu esqueci o nome dela, como que é? Bárbara Campos, é Bárbara Campos. Que mais?

 

P/1 –  Que dia o senhor nasceu?

 

R – Oito de janeiro de 1917.

 

P/1 –  Da onde vem o apelido Josino, Zino? Quem colocou esse apelido?

 

R –  Foram os meus amigos que acharam que era mais palatal (risos). Josino é um nome meio feio e Zino é mais fácil de falar.

 

P/1 –   Seu Zino, o que o pai do senhor fazia?

 

R – Era coletor federal, tinha lavoura, plantava café, matava gado, essa coisas todas.

 

P/1 – Que cidade o senhor passou a infância?

 

R –  Passei em Três Pontas e depois eu fui para Campos Gerais, fazer cavalo pra lá porque não tinha mais (condução?), depois voltava pra (cá e nós tínhamos?) o Doutor Josino de Paulo Brito que era médico e senador.

 

P/1 –  Qual era o parentesco dele com o senhor?

 

R –  Era meu avô e minha avó era Bárbara Carolina de Campos.

 

P/1 –  E o que o senhor brincava quando criança aqui em Três Pontas?

 

R – Eu gostava muito de trepar na árvore pra pegar fruta, brincar de criança, jogar malha, pinhão... Sabe o que é pinhão?

 

P/1 –   Não.

 

R –  É uma fruta, uma frutinha, a gente come… E a gente punha ela, fazia uma biloca, um buraco, e ficava jogando com a unha pro pinhão cair dentro do buraco que chamava... Eu me esqueci o nome dela... Biloca.

 

P/1 –   E quem ganhava?

 

R – Quem ganhava ficava com o pinhão, ia comer assado, punha na brasa, ele estourava, abria e a gente comia a parte interna.

 

P/1 –  A turma toda comia ou só quem ganhava?

 

R – Quem ganhava.

 

P/1 – Como era a cidade quando o senhor era criança? Descreve pra gente.

 

R – Era uma cidade boa, tinha um cafezal dos melhores do Brasil, quem falou isso foi uma senhora do Rio de Janeiro que eu fui lá, ela era... Estava com um pessoal lá de _____, essa coisa... E ela me perguntou: “O senhor é de onde?” Eu falei: “Eu sou de Campos Gerais.” Aí ela  disse: “De Campos Gerais? Pois lá é a cidade que produz o melhor café do Brasil!” Isso eu guardei até hoje. 

O meu avô era médico, trabalhava, tinha as máquinas dele de fazer coisa de comer, criava gado e também porcos de tamanho inusitado naquela época, parecia um elefante e era bravinho (risos). Eu morava numa casa que nós chamávamos de, esqueci o nome da casa, sei que eu morava nessa casa, lá na fazenda dele, e um dia ele estava deitado, caiu um raio, entrou pela parede afora, de uma parede para a outra e jogou terra na cabeça dele, ele era médico, passou a mão e estava cheio de farelo na cabeça, de terra. Ele mesmo fazia o trabalho de todo povo, depois ele ainda criou uns homens, ensinou uns homens naquele tempo a trabalhar com doente, ele era médico, esses dois médicos que ele ensinou trabalhavam em Varginha. Nós, primeiro, trabalhávamos com o vovô e depois passamos a ir pra perto de Varginha porque o meu avô que tinha ensinado pra eles aquele negócio, a medicina.

 

P/1 –   O senhor ia junto com o seu avô?

 

R – Não. Meu avô... A gente ia lá pra fazer exame, mas ele ensinava os exames para os outros e os outros é que estavam fazendo exames no outro povo de Varginha.

 

P/1 –  Seu Zino, como eram aquelas festas quando o senhor era criança? Tinha procissão, o que tinha de festa naquela época?

 

R – Era muito bom. Nós éramos pequenos, mocinhos, e passavam lá na nossa rua muitos ________, muitos ________, homens trabalhando a cavalo e sempre eles levavam uma matula e um embrulho. Nós, depois, descobrimos uma coisa: quando o homem passava, ele sempre estava catando coisas, então a gente passava a pegar um tijolo e enrolava nele, amarrava uma fitinha, uma coisa, e punha lá. Ele passava, descia do cavalo, pegava o tijolo e punha dentro do (boral?) (risos), era nossa brincadeira e nunca fomos apanhados. Gostava de jogar biloca.

 

P/1 –   Biloca?

 

R – Biloca, nós gostávamos de fazer isso, gostava de tirar leite.

 

P/1 –  Roubava fruta?

 

R – Não, fruta não roubava não, mas nós tivemos um que roubava e era meu amigo que ainda é vivo. Chegava na época, os filhos roubavam a fruta e ele pensava que esse menino estava vendendo a fruta, e ele estava apanhando e comendo... É vivo até hoje!

 

P/1 –   Como ele se chama?

 

R – Manuel Piedade de Campos. Acho que Manuel Piedade.

 

P/1 –  E tinha bailinho?

 

R – Tinha, tinha baile.

 

P/1 – Onde que era?

 

R – No Clube Trespontano. Primeiro em casa o papai dava baile pra nós, nós éramos pequenos e ele convidava as meninas de perto e levava lá pra casa que tinha uma varandona e ali que papai tocava e a gente (começou?) a dançar. Depois ele comprou um aparelho de toca-fita, toca-disco, punha lá pra a gente dançar e a gente dançava.

 

P/1 – Ele tocava que instrumento?

 

R – O papai não tocava, ele cantava e os outros faziam tocar flauta ou violão.

 

P/1 –   E o pessoal cantava?

 

R –  O pessoal dançava, eu mesmo dancei... Jogava também baralho. 

 

P/1 –   Baralho?

 

R – Baralho, eu jogava isso, mas não gostava não.

 

P/1 –  Deixa só eu dar uma paradinha.

 

R –  Eu gostava muito de brincar na horta, a horta tinha três mangueiras, dava manga e a gente comia. Eu gostava muito de trepar na mangueira, pegava nos pés no (varal?) da coisa e bancava o artista, só que teve um dia que escorregou e eu caí cabeça abaixo, mas não quebrou nada não. Gostava também de passar de uma árvore para a outra, (que era um trio em carreira?), então a gente (ia?) roubar a fruta, a gente pegava e sentava numa... Comia e passava pro outro, comia e também vigiava as vizinhas que moravam perto, por cima do muro (risos).

 

P/1 –   Ficava olhando?

 

R – Ficava olhando.

 

P/1 –   Seu Zino, o senhor tinha irmãos, irmãs?

 

R – Irmão e irmã. A primeira irmã era a Alzira, moça bonita, inteligente e professora... Bateu até morrer, infelizmente, ela pegou uma doença que matou... E tem mais três mulheres, e homens era (Ozete?), José, eu, Milton e fora aqueles meninos que morriam no parto, perdemos muito, lá em casa foi mais de uma dúzia de filhos, e dessa coisa toda salvou uns dez.

 

P/1 –   Família grande mesmo.

 

R – É, família grande.

 

P/1 –  E como é que era a sua casa com essa família grande, com esse monte de gente?

 

R – Era uma casa bem grande, era muito bom, nós mudamos de casa muitas vezes. Nós moramos, por exemplo, na primeira vez que eu me lembre, numa casa com escada pra gente subir, que era alto... Depois dessa, nós passamos para uma outra casa perto de umas casas de Tiradentes, depois saímos de lá e fomos para a última casa que ficou pra nós até ontem, ali era uma casa muito grande, tinha uma entrada que chamava varanda de entrada, depois a varanda de comer grande, maior que isso aqui... Muitos quartos, cada um tinha um quarto. Tinha um corredor, aí que era engraçado, nesse corredor tinha umas coisas de madeira, do lado, e ali guardava coisas de comer. Foi engraçado alguma coisa, a mamãe ficava sempre vigiando, um dia o papai pôs isso aqui...

 

P/1 –   Relógio?

 

R – Relógio no armário e ficou ali uns dias e eu peguei o relógio, fui pro terreiro, pra debaixo da árvore e fui consertar ele, quer dizer, desmanchei ele pra depois montar, eu montei, mas não funcionou, então eu levei pra dentro de casa, pus dentro do armário e ficou ali, o papai passou: “Zino, que negócio é esse? Precisa dar corda nesse coiso!” Eu disse: “Eu vou dar.” E assim aconteceu muitas vezes, no final das contas, eu tirei o coiso, guardei, escondi dele e o mesmo relógio eu tinha levado para debaixo da árvore, desmanchado, depois fui montar e não consegui montar... Então papai ficou bravo (risos). Andava a cavalo numa coisa de milho, aquele pauzinho de milho, a gente andava a cavalo nele, fazia uma cabecinha nele, punha um barbantinho e saía. Dançava, papai gostava, convidava aquelas meninas por perto e (dava uma coisa na vista dele?).

 

P/1 –  E ele era bravo?

 

R – Era bravo, mas era também muito bom pra nós... E a mamãe batia palma. Minha mãe era filha do Doutor Josino, esse que falei que era médico, porque papai era de Três Pontas, ela também era de Três Pontas, mas depois o pai dela tinha ido pra Campos Gerais e depois papai foi lá, casou com ela e ficou então o meu avô lá em Campos Gerais, que era médico, e o papai ficou em Três Pontas, que era coletor federal.

 

P/1 –   Seu Josino, me fala uma coisa, o senhor montou também o primeiro rádio quando era criança?

 

R – Montei.

 

P/1 – E o senhor era criança?

 

R – Era criança e fiz um rádio com galena. Galena é uma pedrinha que regula também uma passagem de corrente, então eu trepei na nossa bananeira... Bananeira não, mangueira... E lá eu fiz uma antena e consegui pegar uma estação, muito longe, mas um ruído próprio disso e chegamos a fazer até conversas.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Depois, mais tarde quando eu cresci, eu fabricava transmissores, repetidores que falavam no Brasil inteiro e até mais tarde falei no Japão com o aparelho que eu fiz. Eletrônica, né?

 

P/1 – Esse primeiro rádio que montou, o senhor tinha mais ou menos quantos anos?

 

R – Eu devia ter uns treze, quatorze, quinze anos.

 

P/1 – Da onde que veio a ideia?

 

R – Porque eu era muito fuça. Eu ficava vigiando tudo, fazia um remédio, eu queria saber como era o remédio, trabalhei numa coisa ________ Vieira Mendonça que tinha uma casa de remédios e ali eu aprendi alguma coisa... Que ele era meu professor, então pegava dele as coisas pra fazer e eu fazia, eu era meio complicado (risos).

 

P/1 – Que músicas que o senhor ouvia nessa época? Que tipo de música, o que o senhor gostava?

 

R – A única coisa que eu não fazia era cantar, até hoje eu não canto, mas lá em casa todo mundo cantava. Papai cantava, mamãe cantava, meus outros irmãos também, agora eu não cantava não, eu fazia essas coisas, fazia remédios, tirava fotografias, gostava muito, inventei esse negócio de tirar fotografia (risos)...  Eu era meio aventureiro... Tocava na vaca, pegava no rabo dela e batia nele (risos) e meteu um coice na minha cabeça! Teve uma outra vez que eu fui encostar num cavalo para abrir uma porteira, o cavalo saiu e eu caí (risos), essas coisas de criança, mas andava mesmo.

 

P/1 –   E igreja?

 

R – Eu ia à igreja, mas com papai. Primeiro era o seguinte, a gente quase sempre ia com um pé de sapato pra não estragar o outro pé (risos), mas escondido do papai. Depois papai falou: “Tem que calçar os dois pés.” A gente ia à igreja e as moças, as irmãs também estavam _________, nós assistíamos missa, eu tocava o sino, depois eu fiz a (identificação?) da igreja e pus luz e som, isso eu já era moço. Um dia eu estava fazendo um serviço lá, pus umas caixas na (parede?)... Porque eu ia à São Paulo, comprava lá e fazia pra qualquer outro... Eu fui lá em São Paulo, fiz o aparelho e comprei uns alto-falantes, fiz o aparelho pra tocar, o alto-falante pra tocar na igreja. Aquilo foi uma beleza! Terminado aquilo, chegou um monge e disse: “Escuta, você está pondo alto-falante nessas coisas?” Eu disse: “Estou.” “Não, mas tem que pôr na parede!” Eu disse: “Na parede não, eu gosto daqui porque fica no meio da igreja e o som é mais (viável?) e tem lá no fundo e na outra (porta?).” Por fim, (profissionei?) ______________. Depois passado algum tempo, o homem foi lá e cortou tudo. Aí saiu a briga! Lá fui eu brigar com o homem. Briguei com ele, mas depois ____________. O homem não sabia nada, sabia só mandar, mas não sabia nada... Eu tenho um retrato meu, numa mesa aí, até vi hoje, eu numa mesa com um aparelhinho que eu mesmo fiz, está num retrato desses aí.

 

P/1 –  É dessa época?

 

R – Dessa época, eu já era rapazinho.

 

P/1 –  Seu Zino, me fala uma coisa, tinha passeio ali na praça, vocês faziam fut?

 

R – Sim, tinha fut.

 

P/1 –  Como era isso?

 

R – A gente andava pra lá, pra cá, na praça ao lado da igreja e namorava, dava umas conversadas (risos). Às vezes a gente parava ali e ficava conversando, depois eu fui, por exemplo, eu mudei de estado, de cidade e estranhei muito o negócio, foi em São Paulo, eu mudei pra lá, mudei não, eu fui pra lá e fiquei lá, depois eu acabei com aquilo e voltei pra casa porque não estava dando certo.

 

P/1 –  O senhor foi sozinho pra São Paulo?

 

R –  Ia pra São Paulo.

 

P/1 –  O que o senhor foi fazer lá? Estudar?

 

R –  Comprar peças pra montar transmissores, repetidores, fiz tudo isso ________, comprar remédios. Eu ia sozinho.

 

P/1 –  Ia sozinho e voltava pra cá?

 

R – Depois eu comprei um carro, um fusca que eu tenho até hoje.

 

P/1 –   Ah, é?

 

P/2 –  Que é o Antônio? 

 

R – Ahn?

 

P/2 –  O Bituca não colocou o apelido no fusca de Antônio?

 

R – Não sei.

 

P/2 –  Não? O senhor tem esse fusca meia dois? O senhor ainda tem?

 

R – Tenho e é bom!

 

P/1 –  Depois a gente vai querer ver.

 

R – Mas eu também conserto.

 

P/1 – É? Carro também?

 

R –  É, carro também.

 

P/1 –  Seu Zino, o senhor foi soldado na Segunda Guerra Mundial?

 

R – Fui.

 

P/1 – Conta isso pra gente, como isso aconteceu?

 

R – Eu fui pro Rio e lá eu estava estudando, fiz faculdade e adorei o negócio de fazer esses aparelhos, e fui convidado pra ir pro Norte, eu não queria ir, mas aí falaram: “Vai, Josino, acontece que se você não for agora, depois você vai ter que ir porque os homens, os moços todos já estão entrando na guerra, e você precisa arranjar um jeito também pra desarmar tudo.” Eu fiz uns exames, eles me fizeram uns exames lá: “Você vai fazer um exame.” Eu fui no pessoal que mandava lá, fui chamado pra ir à Bahia. Tomei o (Avião Bahia?)_______. Fui pra lá, desci, quando entrei dentro da casa, tinha aquela porção de cadáveres, eu quis sair, os outros: “Não, você não vai sair!” Fiquei e banquei o soldado lá. Fui numa cidade pequena e pra frente dessa cidade tinha um bar e eles me puseram _________. Eu, então, ia a pé na cidade buscar remédio, remédio não, coisa pra comer. Na primeira vez que eu fui lá não tinha nada, só pão e banana. Eu peguei e levei... Era longe! Graças a Deus deu tudo certo. Depois o chefão dos Estados Unidos foi lá, me conheceu, me passou uns pitos (risos) porque eu não podia dirigir: “Não, você é soldado, você não é chofer!” “Mas eu gosto de andar, essas coisas”... Depois eu dei uns (golos?) pra ele, ele ficou satisfeito e me deixou _____________, peguei o carro e fui até a praça, na praia, na praia não, num terreiro, e quando eu vi, eu estava debaixo de um avião, um avião desses grandes, daí eu ia bater no avião porque todo mundo estava trabalhando, dando tiro... Era guerra mesmo! Tinha uma serra e eles fizeram um buraco debaixo da serra pra esconder as coisas e depois, não teve nada não, não morri não. Uma coisa interessante, foi engraçado é que minha tia foi pra lá, que era mulher do meu tio, e quando acabou o negócio, ela falou assim: “Agora você vai levar isso tudo aí pra mim.” Porque ela foi pra lá, esteve lá uns tempos e comprou uma porção de coisa, ela era Argentina, então eu levei pouca coisa pra mim, porque ela levou uma porção de coisas e o avião não podia levar aquilo tudo (risos). Aconteceu isso. Coitada, eu levei tudo pra ela, pra mim não fez falta não, deixei uns armários desses aí cheio de cigarro.

 

P/1 –   É mesmo?

 

R –  É.

 

P/1 –   O senhor fumava muito?

 

R – Eles me davam os cigarros, os soldados. Me davam o cigarro, eu fumava um e punha lá e ficava lá.

 

P/1 –  E aí o senhor voltou pro Rio de Janeiro?

 

R – Voltei pro Rio, fiquei lá muito tempo, depois fui para Três Pontas e lá eu fiz uma escola, a Academia de Comércio, fiz a escola dessas coisas que você está vendo aí: Matemática, Física, Economia, Política e Estatística, essa coisa toda ____ , não sei se é mal, mas eu fazia tudo!

 

P/1 –  Me fala uma coisa, o senhor já falou um monte de frases em latim pra gente, com quem o senhor aprendeu a falar latim?

 

R – Aprendi a desfalar (risos). Era só rezar. Eu, primeiro, estudei latim, inglês, português e dos índios, aprendi alguma coisa (nhanhenhemcatumpi??).

 

P/1 –   O que quer dizer?

 

R – A língua dos índios... Eu toda a vida fui muito bom.

 

P/1 –  Seu Zino, como o senhor conheceu a Dona Lílian?

 

R – Foi um (encanto?). Eu trabalhava na General Eletric, eu estava lá, arranjei umas namoradas no Rio. Arranjei uma vez, três namoradas de uma vez. Combinei com uma, com outra e com outra, encontramos lá no centro da cidade, às três, e comigo, me deram só ___ pra (bater?) (risos). Foi engraçado, mas depois eu fui pra casa e meu tio que era engenheiro e fez a... Como que é? É uma ilha lá, mas eu esqueci agora o nome dela, e eu continuei na Sede de Engenharia e ele me telefonou: “Você vem pra cá, eu também preciso de gente!” Aí eu fui pra Resende. Chega lá, vou pra um hotel, estava lá meu tio e minha tia, que eram casados, e era em frente a uma igreja cheia de escadas, tinha uma porção de moças lá. A minha tia que falava: “Aquela mocinha é bonita.” Aí eu fui, encontrei com aquelas moças que estavam na escada e comecei a conversar com a Lílian, aquela menina, e ela muito religiosa queria que eu rezasse com ela, eu disse: “Eu não quero rezar com você, eu vou rezar do meu jeito!” (risos). E nós brigamos ali bastante. Depois o que aconteceu? Em menos de um mês eu já estava passeando com ela, saímos com uma turma para na ________ fui na fazenda, depois fui pro Rio, ela era do Rio,  casei lá no Rio e vim para Três Pontas e aí levei a vida toda aqui.

 

P/1 –  Aí o senhor saiu da General Eletric?

 

R – Saí porque quando eu fui pro Norte, eu saí da General Eletric. Eu fiquei lá ajudando os outros, fazendo outros serviços, por exemplo, lá com meu... Fazia  as estações transmissoras, eu fazia e faço até hoje, eu parei de fazer porque agora eu estou velho já, mas eu fazia pelo menos umas vinte e tantas cidades, eu pus a coisa...

 

P/1 – Seu Josino, conta pra gente o que o senhor lembra do dia do seu casamento.

 

R – Do meu casamento?

 

P/1 –  É, o que o senhor lembra? Noivado, casamento.

 

R – Casei no Rio, foi tudo muito bom, fomos pra igreja, mas eu não fui batizado não (risos). Ela era muito devota, mas ela aceitou comigo. Eu falei pra ela: “Eu não vou comungar, mas eu vou rezar.” Depois casamos, eu levei ela pra Três Pontas e vivemos muito bem toda a vida... A coitada não sabia nem matar uma galinha. Um dia eu cheguei em casa, ela estava no quarto, e disse: “Eu fui lá na cozinha e matei o coiso, mas eu estou fechada aqui porque eu fui lá, cortei o pescoço dele, ele começou a pular e eu vim pro quarto, até agora o bicho não parou.” Eu fui lá e o bicho já estava morto... Era assim, ela não matava o coiso... Estava lá nós dois na janela: “Hoje mesmo eu vou levar pra sua mãe aquela fruta” “O que é...?” Aquilo que  a gente come, que todo mundo comeu como todo dia...

 

P/1 –  Fruta?

 

R – Não, uma coisa compridinha assim!

 

P/1 –  Mamão?

 

R – Não. É feito mamão.

 

P/1 –  Abóbora?

 

R –  Abóbora. Tinha umas abóboras em cima do coiso, uma dessas compridas, e a gente estava conversando ali, e ela falou: “Olha, depois eu vou levar umas frutas lá pra sua mãe.” Eu disse: “Que fruta?” “Aquela lá.” “Não, aquela fruta não é de comer assim não, de qualquer jeito, tem que fazer, cozinhar” (risos). Era muito engraçado.

 

P/1 – Ela estranhou sair do Rio de Janeiro e ter vindo para Três Pontas?  

 

R – Foi, durou um pouco, mas ficou cem por cento, muito ______, não amolava ninguém, nem papai, nem mamãe, ela sempre estava junto, daí que até hoje eu me lembro dela com a mesma intensidade.

 

P/1 –  E os filhos?

 

R – Os filhos, nós tivemos poucos filhos. Teve um que foi em Varginha, teve um no Rio... Ela, coitada, não sabia cozinhar, mas aprendeu.

 

P/1 –   Aprendeu?

 

R – Aprendeu. Bordar, bordava, costurava, cozinhava (risos). Agora, ela era bravinha também, mas tenho muita saudade dela.

 

P/1 –  Uma saudade boa, né?

 

R – É, muito boa. Tenho lá em casa, aqui, o pai dela, a mãe dela e ela... Aconteceu o seguinte:  a Dona Augusta, que era mãe dela, adoeceu e eu fui lá pra Três Pontas e a levei pra São Paulo, pelejamos lá e não deu certo, levei ela pra casa outra vez e lá ela morreu. Ela estava muito mal, ficou um mês sentada numa cadeira que mandamos fazer pra ela, aí ela morreu, nós fizemos o enterro dela no Rio, não, lá em Três Pontas. Depois o Seu Edgar, o pai dela, que ficou no Rio, veio à Três Pontas e ficou doente, eu levei ele pro Rio, no hospital e ele morreu lá no hospital, e eu então fiz o enterro dele lá. Depois voltamos pra cá. Ficamos aqui e aqui ela morreu, em Varginha.

 

P/1 –  Aqui em Varginha?

 

R – É, aqui em Varginha.

 

P/1 –  Seu Zino, e como surge na vida de vocês o Milton?

 

R –  Nós estávamos na casa da Lílian, Seu Edgar que era o (chefe?) e da Dona Augusta que era a mulher, então a Lílian estava lá e a cozinheira dela arranjou um menino que foi uma gravidez fora da casa e ela deu a luz dele na casa da Lílian.

 

P/1 –  Da Dona Augusta?

 

R –  É, Dona Augusta.

 

P/1  – Lá no Rio?

 

R – Lá no Rio, depois então ela morreu e ficou ele sozinho e a Lílian é que tratava dele, do menino. Deu algum trabalho pra gente porque nós estávamos no centro da cidade e um dia eu cheguei lá e cadê o Bituca? Bituca sumiu. Lá fui eu correr atrás dele, andei pra lá, andei pra cá e tal, acabei descobrindo, ele estava na rua... Porque tudo era de bonde, um bonde passou e parou ali pra pegar e o outro descer, mas o Bituca, que era menininho desse tamanho, estava sentado ali no degrauzinho e ficou ali, mas uma pessoa passou lá e disse: “Seu menininho está aqui (fugido?).” Levou e deixou ele numa coisa do exército. Quando eu cheguei lá e vi que não tinha, eu saí pelejando, pelejando, pelejando, andando pra todo lugar, achei ele e levei ele pra casa, depois de lá, peguei um carro, fomos na casa, na cidade que a mulher morava, pra mostrar pra mãe do menino a avó dele. Assim que ele ficou conhecendo _______ nós adotamos o menino, era nosso filho, meu e da Lílian.

 

P/1 – Mas nessa época vocês moravam no Rio ou moravam aqui em Três Pontas?

 

R – Morava no Rio, depois é que nós viemos pra cá.

 

P/1 –  E ele recebeu o nome de Milton em homenagem...

 

R – Aqui em Três Pontas.

 

P/1 –  Mas tinha um irmão da Dona...

 

P/2 – Do Seu Zino.

 

P/1 –  Um irmão do senhor é Milton também, não?

 

R – Teve um Milton. Milton, meu irmão, mas esse não entrou na coisa não.

 

P/1 –  Seu Zino, da onde vem o apelido Bituca?

 

R – Botocudo. Porque ele era beiçudinho, então como tem índio com o nome de Botocudo, por causa de ser beiçudinho, então deram o nome dele... Botocudo, Bituca, Botocudo passou pra Bituca, pronto! (risos) Está aí, é Bituca até hoje se Deus quiser.

 

P/1 –  Bituca pros mais íntimos?

 

R – Não, todo mundo sabe.

 

P/1 – Me fala um pouco do Luís Fernando?

 

R – Tem dois Luís Fernando, tem um que é filho de ___________, ele era filho de uma irmã da mãe da Lílian e o outro que tem aí apareceu não sei como, foi lá em São Paulo, acho que foi em São Paulo mesmo que apareceu com esse negócio... Mas nós fomos a São Paulo porque o Bituca já estava aqui em Três Pontas, a gente estava meio atrapalhado, então eu fui lá no Rio, no Rio não, lá em São Paulo, e lá nós arrumamos um jeito de tirar ___________, ele estava querendo aprender... Um dia, eu saí e disse: “Você não vai beber mais não.” Levei ele de São Paulo. Tinha uma mulher que estava querendo ficar com ele, e eu não deixei não.

 

P/1 – E a (Elizabete?)?

 

R – Lá em Três Pontas tem uma igreja e perto da igreja tem um __________. Acontece que eu estava em casa e o telefone tocou: “Aqui tem uma menina.” Eu estava trabalhando com eletrônica, eu fazia o transmissor, fazia tudo, punha pra funcionar... Tinha uma moça que trabalhou comigo lá vigiando, que eu saía pra trabalhar e ela ficava tomando conta do aparelho, ela não mexia, só ficava vigiando e eles pediram pra pôr a moça lá pra poder comer, ela era muito pobre... Então eu saí de casa, fui lá e peguei a menina, a (Bete?), mas ela estava transparente, os bracinhos dela era só osso e eu estava com a Lílian, levei ela no carro comigo e falei pra ela: “Vamos levar ela” “É capaz (dela não dar?).” 

 

P/1 –   De tão fraquinha que ela estava?

 

R – Fraquinha. Em vez de ir pra casa, levei ela na casa de uma irmã da Bete... Não... Da __________, levei e saí, andei, andei, andei e não achei o médico nem o sapateiro... Sapateiro não... O que tinha que fazer remédio.

 

P/1 –   Farmacêutico?

 

R – É, farmacêutico. Fui no farmacêutico, tarde da noite, bati na porta e esperei ele levantar: “Tem uma menina lá que está morrendo!” Ele disse: “Não, não vou.” “Vai porque é uma menina, você tem que ir.” “Então, vamos.” Saí, levamos o remédio e falei: “A menina está morrendo, ela está transparente de tão magra.” Fomos lá, aplicamos o coiso, levei a menina pra casa, cheguei lá, a Lílian sentou e ficou vigiando ela, quando foi de manhã, ela saiu e pôs outro no lugar dela, ela não ficava sem ninguém por perto... Graças a Deus, hoje ela está uma moçona forte.

 

P/1 – Que beleza, né?

 

R – É.

 

P/1 – E a (Catherine?)?

 

R – A (Joceline?)? A Joceline também é filha de uma irmã minha.

 

P/1 – Mas o senhor também criou a Joceline, não?

 

R – Criei, eu criei muita gente, o Bituca e tem um outro que eu também criei que estava aqui até agora, mas acho que não está não, era um rapaz que tinha aqui, não, não era aqui, era em São Paulo. Mas ele me ajudou um pouco, ajudou assim, pra fazer limpeza. Depois a mãe dele morreu, ele foi pra outro lugar. Ele foi pra cadeia uma vez, e eu fui lá tirar ele da cadeia (risos), passei mal porque ele foi preso por acharem que ele fez uma briga num bar qualquer, então pegaram ele e puseram na cadeia. A mãe dele mandou me chamar e disse: “O coiso está na cadeia.” Aí eu disse: “Então eu vou lá.”  Fui lá, fucei, tirei ele da cadeia (risos). Eu faço tudo que não gosto.

 

P/1 – Seu Zino, fala pra gente do pessoal quando era criança como é que era o Bituca, ele cresceu aqui em Três Pontas? O que ele gostava de fazer?

 

R – Ele veio pra cá menino porque a mãe dele morreu. A Dona Augusta estava doente, então a gente tinha que dar um jeito nele e ele foi criado aqui conosco, com a Lílian.

 

P/1 – A Dona Lílian era brava com ele?

 

R – Não, ela nunca foi brava não, era muito boa.

 

P/1 – Conta pra gente como era o menino Bituca?

 

R – Ele gostava muito de assentar na rua e enchia de menino e ele ficava cantando porque a Lílian que o ensinou a cantar e depois ele ficava ali, sentado no banco, juntava uns meninos lá... Cantava em qualquer lugar, mas foi a Lílian que foi ensinando ele a cantar.

 

P/1 –  O que ela ensinava? Que tipo de música?

 

R – Essas musiquinhas... Eu não sei (risos), eu nunca cantei.

 

P/2 – Como que a Dona Lílian aprendeu a cantar?

 

R – No Rio, quando eu estava aqui, ela cantou com o homem que fazia canto aqui... Aqueles homens no Rio que cantavam... 

 

P/1 – O Ataulfo Alves? O pessoal do rádio? O Orlando Silva?

 

P/2 – Villa-Lobos.

 

R – É, acho que é Villa-Lobos que ela aprendeu e ensinou pra ele. Ele cantava com ela.

 

P/2 – Desde pequenininho?

 

R – Desde pequenininho.

 

P/1 – E já cantava bem?

 

R – Os meninos gostavam muito dele porque ele ficava lá, com uma porção de moleque, e ele ali cantando.

 

P/2 – Ele tocava algum instrumento quando ele cantava?

 

R – No começo não. Começou aquilo no Rio, que eu comprei uma sanfoninha pra ele, a sanfoninha tem aí.

 

P/2 – O senhor tem aqui?

 

R – Tenho, está aí.

 

P/2 – Ele começou a tocar sanfoninha?

 

R – Foi.

 

P/2 – Sozinho, ou ele teve aula?

 

R – Não. A Lílian gostava de mexer com ele e ele também gostava.

 

P/2 – Além dessa brincadeira de cantar e tocar a sanfoninha, que mais que ele gostava?

 

R – De brincar? Praticamente era sempre isso: música. Porque a Lílian gostava de música, ele gostava de música, eu também gostava de comprar disco pra pôr pra tocar em casa, quando tinha música... Todos os discos aí, foi lá.

 

P/2 – O senhor me mostrou um bordado que o Bituca fez, com quem ele aprendeu a bordar daquele jeito?

 

R – Não sei.

 

P/2 – Com a Dona Lílian?

 

R – Deve ter sido, era professora dele.

 

P/1 – Seu Zino, ele fazia traquinagem na rua?

 

R – Não.

 

P/1 – Com os meninos?

 

R – Não.

 

P/1 – Subia no telhado?

 

R – Às vezes, se passava algum aperto... Por exemplo, teve lá uma ocasião, teve uma coisa de folia.

 

P/2 – De Reis?

 

R – Não, não era Folia de Reis não… De carnaval! Ele, pequenininho ainda, a Lílian arrumou ele direitinho, ele entrou e foram tirar ele da coisa, aí quando eu soube, eu fui lá brigar e tirei ele, briguei lá com o sujeito, e foi assim.

 

P/2 – E por que eles tiraram ele da Folia de Reis?

 

R – Pois, é! Não, mas não era Folia de Reis. 

 

P/2 – Carnaval?

 

R – É, Carnaval, mas não ______, queria pôr pra fora e a gente achava que não, nós tivemos ele como um filho mesmo e é até hoje!

 

P/1 – E o Bituca foi à escola?

 

R – Foi à escola, depois ele foi pro Rio, pensamos que ele fosse tirar o coiso. Deixamos ele no Rio, acho que não chegou a um ano. Depois nós levamos ele outra vez porque ele teve uma parte que ele estava estudando aqui, teve qualquer coisa... Eu sei que nós tiramos ele do Rio e levamos pra Três Pontas e foi lá que ele estudou com... Como é que chama? Onde tinha uns cantores lá, uns professores e cantores, lá pra cima do Norte do Brasil, dos Estados Unidos... Como é que chama?

 

P/2 – Canadá?

 

R – É, Canadá. Os canadenses estavam lecionando em Três Pontas, então eu levei ele lá na escola deles. Eles chegaram lá e ficaram também em outra cidade, numa outra casa, lecionando.

 

P/1 – O que eles lecionavam pro Bituca?

 

R – Tudo. Lecionavam tudo. Mas, no caso, quando ele foi lá, eles foram lecionar, levei ele lá porque ele já cantava alguma coisa. Eu levei pra lá, cheguei lá, levei ele pro colégio, levei ele lá, pus e voltei, e acontece que eles... O Bituca tinha um livrinho e ele levou o livrinho pra lá, chegou lá, deram pros professores, eles abriram o negócio: “Escuta, você tem aqui (as notas?) que você cantava no Rio, vamos ver o que você faz, canta ai!” Aí ele cantou: “Como é que puseram uma nota dessa aqui? Você canta direitinho!” Foi a coisa lá que puseram a nota errada, eles que não sabiam _________. Eu tenho os papéis dele até hoje.

 

P/1 – O senhor tem esses papéis que são as partituras das músicas?

 

R – É, tinha. Do Bituca, eles deram ________ pra cantar também porque o que está aqui eles viram que ele sabia cantar, eles até me chamaram: “Escuta, esse menino, como que é? Ele sabe cantar!” Eu disse: “Ele sabe cantar mesmo.” “Pois é, mas aqui as notas estão vermelhas e são dele.” “Essa coisa não serve pra você não.” E deram outra coisa pra ele. 

 

P/2 – Nessa escola ele se apresentava?

 

R – Ãh?

 

P/1 –  Vamos tomar uma água... Parece novela.

 

R – Minha vida é uma novela.

 

P/2 – Toda vida é rica, né? Nosso trabalho é pegar a história de vida das pessoas e é esse o trabalho que a gente está fazendo aqui com o senhor, é pegar a história da sua vida porque ela é rica, é muito interessante.

 

R – Não é rica não.

 

P/2 – O senhor não acha rica?

 

R – O negócio... A coisa é tão importante assim... Eu não tenho a capacidade de fazer uma...

 

P/2 – Teve uma ocasião que o senhor foi o diretor e um dos fundadores da Rádio Clube Três Pontas, não foi? Conta um pouquinho como foi essa experiência, foi o senhor que teve a ideia de fazer essa rádio clube?

 

R – Foi.

 

P/2 – Como foi isso?

 

R – Toda a vida eu fui desse jeito.

 

P/2 – De gostar de fazer as coisas?

 

R – É.

 

P/2 – Foi o senhor que montou a rádio aqui?

 

R -  Foi.

 

P/2 – E botou pra funcionar?

 

R – Foi o seguinte: eu estava trabalhando no Banco da Lavoura... No banco era pesado, mas eu conhecia bem... Quando eu saí do clube, no banco, na praça, encontrei com dois homens... Os dois hoje são mortos... Pediram pra eu fazer o aparelho transmissor que eles davam tudo, mas tinha que ter uma pessoa que conhecia um pouco pra fazer isso. Um deles era farmacêutico, esqueci o nome dele, mas depois eu lembro dele, eu sei a casa dele, até o filho dele eu conheço... Eu estava saindo do banco, quando eu cheguei perto da igreja, os dois se acercaram e falaram: “Ah, eu preciso de você.” “O que é?” O negócio no banco não estava bom. “Nós estamos precisando pôr aqui um aparelho de transmissão e queremos que você faça isso.”  Eu disse: “Eu não posso fazer, como eu vou fazer?” Ele disse: “Não, eu sei que você sabe fazer porque você anda fazendo esses aparelhos aí.” Eu disse: “Bom, eu vou fazer.” Depois, passado algum tempo, pus todas as peças no lugar e briguei muito com os sujeitos que não estavam trabalhando direito... Esses dois já morreram.

 

P/2 – E quando a rádio passou a funcionar o Bituca foi trabalhar como locutor nessa rádio?

 

R – Não, foi antes deles morrerem, o Bituca já foi pra coisa lá, arranjei pra ele ir pra lá pra cantar e falar, o que fez, eu fiquei muito satisfeito com ele e sou satisfeito até hoje.

 

P/2 – Quando que o senhor e a Dona Lílian perceberam que o Bituca ia se tornar músico mesmo, que essa era a carreira dele?

 

R – Começou lá no Rio porque lá eles tinha piano, eles tocavam piano e ele ficava lá ao lado do piano dando uns pon, pon, pon, uns pulinhos e daí foi aumentando, aumentando, aumentando... Depois nós levamos ele na casa da avó dele, foi piano, piano, pra chegar nesse ponto, não foi nada de extraordinário não.

 

P/2 – Teve aqui uma ocasião em 1970 que aconteceu as bodas de prata do senhor e da Dona Lílian, e teve uma grande festa na cidade, o que o senhor lembra desse dia, o que mais marcou pro senhor?

 

R – Eu posso mostrar pra senhora uma coisa.

 

P/1 – Depois a gente pega. Ele veio com os amigos?

 

R – Quem?

 

P/2 – O Bituca.

 

R – Não, eu não recordo mais, mas está aí.

 

P/2 – A gente vai pegar então.

 

R – Eu vou ver onde é que está.

 

P/2 – Depois o senhor mostra pra gente, é uma foto, é isso?

 

R – Está guardada.

 

P/1 – A gente vai acabar a entrevista e a gente pega as fotos. Tem alguma coisa que o senhor acha que não falou pra gente, que ficou faltando falar do Bituca?

 

R – Não, não tem nada não, porque o Bituca teve esse problema aí, depois nós fomos pra São Paulo, dessa vez que eu falei que saí com ele no carro e falei pra ele que ele não podia beber essas coisas porque podia fazer mal, não dava certo... Depois nós fomos pra São Paulo, quando chegamos em São Paulo, a gente estava no almoço que foi até ________ que nos recebeu bem, conversamos com ela. Tinha um sujeito, um cantor lá do Sul, estrangeiro, e mandou um recado pra mim, que era pra mandar o Milton para ele ver. Aconteceu isso aí. Eu não sei como é que o homem descobriu, mas eu sei que eu recebi o recado lá e falei pro Bituca: “Olha, tem um recado pra você aqui, ir lá, pra ele cantar e você também.” Ficou mais ou menos essa conversa e de fato deu tudo certo.

 

P/2 – O senhor e sua esposa iam aos ensaios, assistiam às apresentações dele, os shows?

 

R – Todas as vezes que eu posso, eu acompanho os shows dele, eu saio daqui e vou lá.

 

P/2 – Até hoje o senhor vai? Teve algum que marcou o senhor especialmente, que foi muito emocionante?

 

R – Não. Ele toda a vida foi boa pessoa. Gosto muito dele como um filho, eu brigo com os outros por causa dele, briguei muitas vezes por isso... Quando coloquei ele lá no coiso... Depois meti o pau.

 

P/1 – Seu Zino, a Dona Lílian também ia aos shows com o senhor? Vocês saiam aqui de Três Pontas e iam pro Rio de Janeiro?

 

R – A Lílian toda a vida foi muito agarrada a mim e a ele.

 

P/1 – Eu queria perguntar uma coisa: o Márcio Borges está aqui e ele falou da primeira vez que ele veio aqui, o senhor lembra disso?

 

R – Não.

 

P/1 – A primeira vez que o Márcio veio com o Bituca, que ele queria conhecer coleção de discos do senhor?

 

R – Não, não lembro porque é muita gente.

 

P/2 – Fala só um pouquinho pra gente desse museu do Milton Nascimento que fica do lado da casa do senhor. O senhor que vem e recebe as pessoas, da onde que vem essas pessoas que vem visitar esse museu, de onde elas costumam vir?

 

R – Parece mentira, quase o mundo inteiro vem. Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça, França, Rio Grande do Sul, todas as cidades, quase todos os países já viram ele cantar... E tinha, por exemplo, a África. Eu sempre falei: “Bituca, você precisa ir pra África.” Ele falava: “Ah, não vou lá não, não dá pra eu ir lá.” Um dia, ele me telefonou, ele tinha ido acho que era Espanha, por ali assim, e de lá me telefonou: “Ah, eu estou aqui, aqui é assim e o pessoal aqui é mais bonito do que eu” (risos).

 

P/2 – O senhor imaginava que esse menininho que tocava sanfoninha aqui na porta de casa ia virar esse cantor reconhecido mundialmente? O senhor esperava isso?

 

R – Não, toda a vida eu tive muito apego a ele também, eu tenho ele como a um filho mesmo, porque perdi filhos.

 

P/2 – Quais foram as lições que o senhor tirou e tira dessa vivência com esse filho tão talentoso que o senhor tem?

 

R – É uma coisa natural e muito boa pra ele. Agora, eu não tenho mais o que eu possa dizer pra mim, eu já estou no fim mesmo.

 

P/2 – Está jóia. A última pergunta: o que o senhor achou de ter falado essas coisas todas pra gente? De ter recordado o senhor na infância aqui em Três Pontas, o que o senhor achou de ter dado essa entrevista pra gente?

 

R – Acho que é uma coisa normal.

 

P/1 – Está jóia então.

 

R – Por exemplo, vou ensinar matemática,______________ tem aqueles coisos que não aprendem, eu chamo no quadro e aperto: “_______ vai embora pra parede”.

 

P/2 – Se o senhor fosse deixar uma mensagem pra gente em latim, o que o senhor falaria pra mim, pra Stela e pro Alexandre, o que o senhor deixaria?

 

R – Eu sou analfabeto (risos). Eu sabia o latim, mas não sei porque há muito tempo que eu não mexo, a gente esquece, é como Matemática, esse tipo de coisa esquece.

 

P/1– Então jóia, obrigada pela entrevista, Seu Zino!

 

P/2 – Obrigada, Seu Zino,  foi uma honra conversar com o senhor!

 

R – Vocês estão pensando que eu sou mais jovem do que sou (risos). Eu sou esforçado, só.

 

P/2 – Está bom. Acabou. Pronto!

 

P/1 – É um exemplo pra gente!

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