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História

Um nome na história do teatro

História de: J Maia (José Cândido Maia)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2016

Sinopse

Nesta entrevista, José Cândido Maia Alves, o J. Maia, contou sobre sua situação em Manaus, na infância, vivendo com onze irmãos e seus pais na pobreza. Desde criança já mostrava interesse pelo teatro ao brincar de atuar com seus irmãos e vizinhos. Mas em meio a um ambiente preconceituoso, foi expulso de casa, tendo de ir para Belém do Pará trabalhar por conta própria aos 12 anos. Quando a oportunidade apareceu, foi clandestinamente para o Rio de Janeiro, onde viveu com a irmã e já começou a trabalhar com Silva Filho, a princípio como porteiro, mas logo como contrarregra, profissão que exerceria por mais de quarenta anos. Nos contou sobre as canções, marchas e jingles que fez, além de seu reencontro tardio com a família e dos dois filhos que adotou. Compartilhou sobre os bastidores das peças em que trabalhou, de suas paixões e, por fim, de como interviu no Retiro dos Artistas para não ser abandonado e seus sonhos para depois de sua estadia lá.

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História completa

Meu nome é José Cândido Maia Alves, o J Maia. Nasci em Manaus, numa família de doze irmãos. Meus pais se mudaram do Ceará para o Acre e depois Amazonas, onde nos tiveram. Meu pai explorava borracha, mas era marceneiro, carpinteiro e construtor de obras. Minha mãe foi negociante e sempre a ajudávamos na infância, além de estudarmos. Éramos muito pobres na época. Começara a fazer seminário, pois minha mãe sempre quis ter um padre na família, mas fora expulso, nunca deixando, no entanto, de ser um homem religioso. Desde cedo, mostrava interesse pelas artes, principalmente pelas cênicas. Porém, quase toda família tinha preconceito contra teatro, negro, prostituta, homossexual e batuque, assim que um dia fui expulso de casa, dizendo: “Eu só quero que a senhora me abençoe, que tão cedo tu não vai me ver, tu só vai me ver quando eu colocar o meu nome na história do teatro do país. Eu vou colocar. Aí, tu vai me ver”. Imediatamente, fui pra Belém do Pará, onde aos 12 anos já tinha de trabalhar para o próprio sustento. Trabalhava no mercado ver-o-peso e dormia na rua a princípio até poder arcar com um canto em uma pensão até que encontrei uns amazonenses que trabalhavam em um navio e viajei clandestinamente nele até o Rio de Janeiro.

 

Uma vez lá, fui morar com minha irmã, que era como uma mãe para mim e logo me apresentei a Silva Filho, fazendo sapateado, cantando, interpretando, o que lhe agradou muito. A princípio, trabalhei como porteiro e tomei conta da bilheteria, aumentando os lucros da casa ao ficar de olho em roubo de ingressos. Logo, trabalhei também com Colé. Mas foi numa oportunidade de ser contrarregra em uma peça, onde este havia faltado e antigamente, quando isso ocorria, não havia apresentação, que me apresentei para fazer tal trabalho, já que conhecia a peça de trás pra frente. Daí para frente, fui contrarregra de inúmeras peças, fazendo, inclusive, seleção de atores, e por vezes direção. Coloquei o respeito dentro do teatro, onde todos se xingavam. Assim, me tornei o contrarregra mais respeitado na história do Brasil. Trabalhei com os maiores atores, atrizes, diretores e técnicos desse país, viajando até para o exterior. Fiz também canções, marchinhas, jingles que fizeram muito sucesso no carnaval carioca e brasileiro, como “sambanana” e um jingle para Brastel. Um até convenci a colocarem o nome de uma música minha como o de uma peça. Fez muito sucesso.

 

Meu maior amor foi Zé Carlos, que veio morar comigo, mas depois dele cismei com morar junto com alguém. Namorei também Márcia Windsor, mulher bonita, chique. Ela foi uma grande relação também que tive. Já depois de anos, fiquei sabendo numa praia do Rio que minha família estava morando na cidade. Assim, fui visitar minha mãe, que fazia aniversário no Natal, com minha promessa cumprida, de colocar meu nome na história do teatro brasileiro. À primeiro vista, só houve choque. Mas logo matamos a saudade de toda a família. Com algumas brigas, porque minha mãe era muito abelhuda, mas ficamos todos próximos, menos meu pai que voltou pra Manaus depois. Depois ainda adotei dois meninos, o Jonathan e o Bruno, filhos de duas amigas que os pais das crianças Abandonaram, lá na favela. Eles sempre vem me visitar aqui no Retiro dos Artistas. Aliás, essa é a segunda vez que eu estou aqui. Eu entrei a primeira vez em 90 e fiquei até 96. Derrubei o Colé, que era presidente daqui. Eu digo: “Porra, Colé, eu tô pagando aluguel altíssimo, não tenho mais casa, dei minhas casas para todo mundo, tá todo mundo já com as suas vidas resolvidas, eu queria uma casa dessa pra morar”, e vim para cá. Aí fiquei aí. Eu senti que tinha muita roubalheira, muita falcatrua, aí eu comecei a mexer em estatuto, tudo, botei todo mundo pra fora. Então, veio a turma do Roberto Marinho para tomar conta. Aí, eu disse: “Vou ter que me mexer novamente”. Deixaram um rombo no caixa aqui. Ia tudo fechar. Então, chamamos o Stepan Nercessian. Ele montou uma equipe, parcelou as dívidas e hoje está melhor que antes, graças a ele. Depois disso, saí pra trabalhar e ganhar dinheiro. Fundei a Escola das Artes Técnicas e comecei a dar aula lá. O meu sonho hoje é começar a dar aulas de graça lá na Terra Encantada no Jardim América, que é um lugar muito humilde, muito pobre, mas é onde a riqueza mora. Eu chego ali, eu sou tratado com muito carinho por aquela gente. Uma gente maravilhosa. Eu amo tanto eles… lá é onde moram os meus filhos.

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