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História

Um navio chamado Zelândia

História de: Jacob Pomerancblum
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Jacob Pomerancblum conta como foi sua infância na Polônia na pequena cidade de Staszów e como se divertia no inverno com seus irmãos. Comenta sobre sua vinda de navio da Polônia para o Brasil, aos 13 anos de idade, além de suas primeiras impressões do Brasil. Sobre a juventude, fala sobre seu gosto por jogos de cavalo e pôquer, e sobre sua paixão, Helena. Jacob descreve sua vida profissional e de sua família, comentando também sobre suas viagens e o sobre ateísmo.

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História completa

Meu nome em português, Jacob Pomerancblum. Nasci na Polônia, em 1914, dia 12 de setembro. O meu pai chamava Moisés e minha mãe chamava Brandola. Nasceram na Polônia. A família da minha mãe morava numa aldeia e a família do meu pai morava numa cidadezinha chamada Staszów. O casamento foi com um intermediário. Chamava chacham, o rapaz que ia casar ou a moça que queria casar tinha o chacham, ele procurava e apresentava. Se o negócio saía, ele ganhava comissão. Era uma cidade pequena, praticamente, uma cidade planejada. Esse era o centro de Staszów, aqui tinha uma construção de armazéns e as ruas saíam assim, para cá, para cá, para cá e para cá. Eu morava numa rua que esse era o centro, as ruas saíam do centro, tinha o mercado. Somos, como se diz, judeus, meu pai era judeu, meu avô era judeu, meu bisavô era judeu, meu tataravô era judeu, todos judeus.

 

Minha infância foi ótima! Tinham dois rios, em vez de ir na escola, eu deixava o livro atrás da porta e ia brincar no rio, tanto no verão, ia brincar no rio e no inverno ia deslizar no gelo. Era muito frio. Tinha noites de inverno que a temperatura caía de 15 a 20 graus abaixo de zero. Tinha quase um metro de neve, mas ninguém lidava, quando conseguia arrumar pedaços de madeira que a gente fazia um pequeno trenó, a gente ia até em cima, até o rio era declive, a gente então sentava um no meio, um na ponta aqui, outro na ponta aqui e o outro de pé, a ponta só, porque não cabia mais e a gente deslizava, no meio da descida, rolava… quem ligava, subia de novo e assim a gente brincava. Isso no inverno.  Em Staszów tinha caverna, em Staszów passavam dois rios, os rios que atravessavam eram rasos, não eram fundos e a gente ficava assistindo de longe.

 

Eu não fui na escola em Staszów. Eu tinha um tio que morava pegado, o ofício dele, como se diz? Quando a pedra tubular que faz as letras, ele fazia o serviço dele era esse aqui, alguém falecia, precisava pôr a pedra, então davam para ele o que ele tinha que gravar e ele também era professor, professor de Religião, a, b, c, d. O meu irmão era três anos mais novo do que eu. Mas ele era diferente de mim, ele era acomodado, quietinho. Depois, tinha uma irmã que ainda está viva, que está no lar e tinha mais uma irmã, que faleceu com 38 anos, e tinha o irmão caçula que faleceu em Israel. O mais novo Samuel, estou falando de trás para… a segunda que faleceu jovem chamava Esther, a terceira que está viva ainda chama Sarah, o quarto era Isaac e eu sou o último da linhagem, você sabe o meu nome. O meu nome é Jacob, em ídiche e o nome que me deram Yaacov.

 

Quando eu cheguei no Brasil, meus pais foram me buscar em Santos, a mim e meu irmão. Viemos por causa do antissemitismo na Polônia. Na Polônia tinham três milhões de judeus, vê quantos judeus têm na Polônia hoje. Na Polônia, o antissemitismo era muito grande, o padre na igreja, antes de começar a reza, então eles vinham: “Os judeus mataram Cristo”, se eu estivesse hoje lá, eu dizia: “Mas Cristo também era judeu”, para você ter uma ideia. Na Polônia, se tem 100 judeus, é muito. A imigração veio da Polônia, da Lituânia, da Rússia, todo leste europeu. Um vinha para o Brasil, outro ia para a Argentina, outro ia para Chile… as minhas tias foram inteligentes, foram para Israel. Só o meu pai e minha mãe e nós cinco, filhos. Primeiro, veio meu pai. Em 1924. Em 1925, meu pai mandou passagem para a família toda, por azar, caiu pra gente viajar na época da Páscoa judaica, os judeus na Páscoa judaica têm certos hábitos, tem que ter louça diferente purificada, a palavra certa é purificada. A minha avó disse: “Escuta, você vai viajar na Páscoa? Vai comer comida impura? Deixa passar, você viaja na próxima…”, e a minha mãe ouviu e nesse ínterim, a companhia que vendeu as passagens aqui no Brasil foi à falência, nós perdemos as passagens. Por causa disso que viemos parcelados. Isso foi em 1925. Em 1926, meu pai mandou um pouco de dinheiro, minha mãe andou vendendo algumas coisas e ela veio com os três menores. Então, eu fiquei na casa de uma avó em outra cidade e o meu irmão ficou na cidade onde nós nascemos, chamada Staszów.

 

Quando viemos, o trem nos deixou em Gdansk. Pegamos um navio, esse navio nos levou até Amsterdam, levou três dias. Nesse navio, tanto eu como o meu irmão enjoamos, mas depois passou. Em Amsterdam, nós ficamos na Companhia, depois de três dias, embarcamos num navio chamado Zelândia, tinham mais ou menos, mais de dois mil imigrantes.  Então, esse era o salão onde iam comer muito. Então era assim, aqui tinha uma porta, tinham nuns quatro degraus e aqui tinha tudo beliche, tudo cheio, embaixo e em cima. Vinte e dois dias, de Amsterdam até Santos. Descemos no Rio, o navio parou e descemos. Chegamos aqui, meus pais estavam esperando em Santos, naquela época, a gente ia de trem.  Um menino de 13 anos e um mês. Muda de ambiente, muda de lugar que ele não sabe a língua, não conhece ninguém, mas a gente se adapta. Eu logo me adaptei, logo fiz amizade.  Morávamos na Rua Prates. Na Vila Renascença, Renascença é essa que não tem mais, depois, fomos morar na Vila Minerva, da Vila Minerva fomos para a Vila Aníbal, o dono da vila chamava Aníbal. Em 1932, nós estávamos morando na Vila Aníbal. Vou contar um fato de 32. Em 32, tinha a Revolução Constitucionalista, morava na Rua Prates um indivíduo, ele era chefe de um sindicato dos motoristas, então o que fizeram? Era getulista, entraram na casa dele, puseram todos os móveis na rua e botaram fogo. Então, esse é um fato que pouca gente sabe, na época da Revolução Constitucionalista.

 

Quando eu cheguei, meu pai tinha um brechó, na Rua Mauá, bem em frente à estação da Luz.  De um lado tem o Jardim da Luz, e a Rua Mauá é do outro lado da estação. A lojinha dele era mais ou menos, era mais estreito que isso aqui e assim, e vendia roupa… brechó, vendia roupa velha e não dava para vender. Ele veio com um pouco de dinheiro, os dois amigos que vieram junto com ele vieram, como diz em português, com uma mão na frente e outra atrás, mas progrediram na vida e ele não conseguiu progredir na vida. A situação em casa o melhorou quando os primos, em 1942, vieram da Bélgica e abriram uma lapidação de diamantes, na Barão de Itapetininga, ele foi trabalhar com os primos. A situação financeira melhorou. A situação estava muito ruim, a minha mãe ficou doente…

 

Eu convidei ela para sair. Saímos e perguntei se ela queria namorar comigo. Ela disse: “Não”, depois fiquei sabendo. Ela tinha namorado um rapaz dois anos, naquela época que eu convidei ela para sair, ela tinha 20 anos. Ela namorou um rapaz dos 18 aos 20 anos. Eu convidei ela numa época ruim, uma época que ela tinha levado um pontapé, tanto um homem quanto uma mulher quando leva um pontapé não está em boa. Passaram dez anos e vocês vão pensar que eu não saía com garotas? Saía com garotas que gostavam, eram loucas para casar comigo, só que não… não grudava. E um dia, assim por acaso, encontro ela na rua, digo: “Helena, onde você vai?” “Eu estou estudando Inglês agora, vou na Cultura Inglesa. Você não quer me acompanhar?”, foi a minha desgraça e comecei a acompanhá-la, larguei os amigos, larguei o pôquer, larguei corrida de cavalo e começamos a namorar. Dois anos depois, eu tinha 38 anos, casamos. Eu tinha 38 e ela tinha 32. A diferença nossa de idade era seis anos. Eu era viciado em corrida de cavalo, sábado e domingo eu ia no Jóquei e de noite, jogava pôquer. Mais ou menos, nas corridas joguei 19 anos. Comecei a jogar nas corridas quando o Jóquei Clube ainda era na Mooca. Acho que você não tinha nascido ainda.

 

Primeiro, eu fui aprendiz de bolsas para senhoras. Depois, eu fui aprendiz de fotógrafo, depois fui tecelão, fazia malha. Trabalhei muitos anos, trabalhei no mínimo uns 15 anos fazendo toda a malharia que tinha no Bom Retiro e no Brás. Depois, vieram os primos da Bélgica e abriram uma lapidação de diamantes. Eu fui trabalhar na lapidação. Então, na lapidação, a minha função era roundador, eu fazia a pedra redonda, mas não era pedra desse tamanho, eram pedrinhas, é difícil explicar quando alguém que não conhece. Enquanto durou a Guerra, durou a lapidação. A Guerra acabou, a lapidação fechou porque abriram lapidações em Israel, abriram lapidações na Holanda e a mão de obra era qualificada, aqui tudo era aprendiz, porque eram novatos, então aqui está a resposta.

 

Quando os primos vieram, a família toda foi trabalhar. O melhor de tudo foi a situação do meu pai, meu pai foi trabalhar com os primos. Hoje, eu posso contar, ele se transformou em pombo correio.  Ele levava matéria-prima, diamante bruto para Nova York. A família trabalhava na oficina, na lapidação, ele não, ele tinha a sua pasta, a pasta tinha um fundo falso para o diamante pequeno, não vai pensar que é diamante paralelepípedo, um diamante do tamanho da unha é grande já, é bem menor.

 

Quando acabou a lapidação, esse primo começou a importar. Ele importava geladeiras, discos, toca discos, aquele chaveiro, então tudo que era bugigangas, então eu trabalhei com ele. Eu trabalhei com ele até eu começar a namorar. Quando eu trabalhei com ele, eu ganhava mil e quinhentos reais. Ele me aumentou de mil e quinhentos para dois mil e ele me deu de presente de casamento, cinco contos, cinco mil reais. Quando comecei a namorar, eu larguei os amigos, larguei o jogos e comecei a economizar. Eu tinha trinta e poucos contos, economizei em dois anos, até 48. Comprei uma casinha na Rua Guaporé com 45 de entrada e o resto em tabela price em 20 anos, tabela price, fixa, dois reais por mês, fixo. Primeiro, quando o primo mudou para o Rio e eu casei, quando eu casei, fui morar com a minha sogra. Minha sogra me deu um quarto, um quartinho pequeno, bem menor que esse aqui e eu pagava um e setecentos, eu ganhava dois, me sobrava trezentos reais, mas dava para ir ao cinema e tal, no teatro também.

 

Um deles, esse chamado Michael disse assim: “Jacob, por que você não fala para o seu primo para em vez de ele te pagar o ordenado, ele te dá comissão?”, porque eu atendia freguês. Tinha fregueses que eu atendia, fui falar com o meu primo e ele aceitou a sugestão, comecei a ganhar dinheiro. Ganhei dinheiro. Depois, comecei a vender para pessoas que traziam mercadoria, ganhei muito dinheiro.

 

Quando o Isaac me convidou, me convidou também o Charlie, esse Charlie era negociante de diamantes, e tinha uma fábrica, ele fornecia pólvora para o Exército. Ele precisava de alguém para cuidar da fábrica, ele tinha dois filhos, mas eram pequenos e eu fiquei indeciso, bom, no fim, eu aceitei desse Isaac Sverner e o meu capital era três contos, eu entrei com 10%. A firma chamava Neopan. Começou a funcionar, Neopan fechou, abriu Neotron, depois fechou Neotron, abriu a Açometa e depois fechou Açometa e aí que abriu o Comércio Componente de Eletrônicos - CCE. Nesse começo, Componentes Eletrônicos, eu era diretor comercial. Agora, eu vou voltar atrás. Quando esse meu primo, que eu trabalhei com ele morava no Rio, um dia, ele chega em casa, eu já era casado, morava na Rua Guaporé e: “Jacob assina aqui”  e “Helena, assina aqui”, nós assinamos. “Jacob, vê se você consegue arrumar uma casinha aqui na sua redondeza”, o que era? Ele abriu uma firma chamada Benolux, em meu nome e o nome da minha mulher e ele fez uma importação. Eu tinha arrumado como ele me pediu um lugar, quando a mercadoria chegou, eu abri: refugo, válvulas com soquete solto, sem marca, sem nada. O que foi? O que ele fez? Ele ganhou uma fortuna nisso aqui, me deixou uma dor de cabeça que você não imagina, mas essa dor de cabeça veio 18 anos depois. Bom, veio um fiscal e olhava, olhava, porque ele tinha comprado licença de mercadoria europeia, que era mais barato e a mercadoria que ele importou era americana, só que não dava para saber a marca, era tudo refugo.

 

Quando a minha mulher estava na maternidade, eu estava sentado aqui é a cama e eu estava sentado aqui na cadeira, minha mulher pegou a minha mão e pôs na barriga. Nasceu a minha filha, até hoje é bonitona, só que é muito mandona. A Rosie. Ela começou a namorar jovem com um rapaz, ela estudava na faculdade… hoje é museu, no Jardim da Luz, antes tinha uma faculdade. Ela conheceu um rapaz do Bom Retiro, a família não era judia, eram filhos de italianos, portugueses, eram muito religiosos. Bom, eu fiz um casamento só no civil, minha mulher foi no hotel na Avenida Ipiranga, tinha um hotel de luxo, esqueci o nome do hotel e acertou e lá fizemos o oficial veio lá, arrumou a mesa e tal e nós fizemos o casamento, só o casamento civil. Depois teve o Isaías, o filho. Isso foi a pedido, ele dá risada, verdade! Minha mulher disse: “Jacob, um filho só não dá, precisa fazer mais um” “Tá bom”, quando a mulher pede a gente obedece. Ele nasceu três anos depois da filha. Nasceu em 64, 66, por aí. Ela era uma moça bonita, eu gostava dela, eu gosto até hoje, já morreu faz quase nove anos! Mas levou muito pontapé na vida, o mal dela é que a família era pobre, quem praticamente sustentava a família era a mãe, a mãe saía e vendia, tinha freguesia, vendia coisas à prestação. E o pai era sapateiro na colônia judaica. Ela não tinha dote, o único dote que ela tinha era a beleza.

 

Eu sou! Como diz o ateu, com muita honra. Sou racional. Um homem que é racional não pode acreditar numa coisa que ele nunca viu, ninguém viu, ninguém sabe. Primeira viagem que eu fiz com a minha mulher foi para Israel em 66, na volta, fomos para a Espanha, paramos em Madrid e naquela época tinha tourada ainda, hoje não existe mais, é proibido. Fomos ver a tourada, coitado, o touro entra, entram dois e judiam do touro, o touro fica… aí eles saem, aí entra o bonitão, isso no esporte. Peguei isso, a minha mulher ficou até o fim, ela gostou do torneio. De Madrid, fomos para Lisboa, fiquei em Lisboa um dia, dois dias, eu sei que eu tinha, peguei o hotel Marquês de Pombal na Praça Marquês de Pombal, hotel deve existir até hoje.

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