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História

Um mundo para chamar de meu

História de: Danilo Hüvös
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2021

Sinopse

A origem e história dos pais. Os finais de semana com avós durante a infância. A receptividade e a culinária da família. Relação com os irmãos. Brincadeiras na rua na Vila dos Remédios. Estudos e atividades extracurriculares no Colégio Nossa Senhora dos Remédios e no Colégio Campos Sales. Os trabalhos na serralheria e na loja de roupas Drugstore. O interesse pela moda e o ingresso no curso da Santa Marcelina. A participação no diretório acadêmico e a montagem do evento de moda Flash 99. O encontro com seu marido, André. Estágio no Mercado Mundo Mix e experiências em outras marcas. Primeiro trabalho como estilista. A responsabilidade ecológica da moda. Trabalho como síndico e a implantação da coleta seletiva no prédio. O hábito de separar o lixo reciclável. O casamento com André. O reinventar-se da pandemia. A importância de ser um agente de mudança no mundo. 


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História completa

P/1 – Eu gostaria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Tá. Oi, eu sou Danilo Hüvös, nasci… já me perdi, Luiza…

 

P/1 – Tudo bem. 

 

R – Nome...

 

P/1 – ... local e a data de nascimento.

 

R – Oi, eu sou Danilo Hüvös, nasci em São Paulo, no dia 20 de fevereiro de 1978.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Odete Hüvös e José Hüvös, em português. Porque o nome do meu pai é József Hüvös lá, até tinha uma brincadeira, na escola de infância, que eles eram conhecidos, meu pai e meu tio, pelos irmãos “ontem” e “hoje”. Porque, em hungarês, Antônio, é “Onto” e José é “Iodje”. Então, os irmãos “ontem” e “hoje”, eram os nomes do meu pai e do meu tio, enfim. E minha mãe nasceu Zarnauskas, ela super revolucionária, falava: “É um nome muito complicado pra ficar soletrando, vou mudar meu sobrenome. Já que tem essa coisa machista, vou aproveitar essa onda, vou tirar meu sobrenome, pôr só o sobrenome do marido, que é complicado, são só cinco letras, mas tem trema, tem tudo, mas é mais fácil que Zarnauskas. E daí trocou, virou Hüvös e eu sou só Danilo Hüvös, um sobrenome pequeno, de cinco letras.

 

P/1 – E onde seus pais nasceram?

 

R – Ambos nasceram aqui no Brasil mesmo. Os meus avós é que vieram refugiados de guerra, na Primeira Guerra Mundial. O meu avô e minha avó paternos eram hungareses, que é de onde vem a origem do meu sobrenome, o “Hüvös”. E a minha avó materna era polonesa. E o meu avô materno era lituano. Então, eu tenho umas cidadanias, eu tenho duplas cidadanias aí, também, por causa disso, das nacionalidades.

 

P/1 – Você chegou a conhecê-los?

 

R – Sim, eu só não conheci meu avô paterno, ele faleceu um pouco antes de eu nascer, no mesmo ano, coisa de meses, eu não conheci meu avô paterno, que era o ______ que é “vovô, em húngaro. Mas eu conheci a ______ e conheci meu avô Luiz, que era o pai da minha mãe e minha avó Amélia, que, inclusive, a minha roseira chama Amélia, em homenagem à minha avó.

 

P/1 – E, na sua infância, tinha alguma atividade que você gostava de fazer com seus avós?

 

R – Muito. Eu adorava ir pra casa dos meus avós, assistir filmes de terror, com a minha avó. Era a minha balada preferida, de infância, era assistir filmes de terror com minha avó materna, ou ir pra casa da minha avó paterna também, passar o fim de semana com as minhas primas, que ficaram órfãs muito cedo, então moravam com a minha avó e adorava… Minha mãe, na verdade, falava que eu tinha ‘siricutico’, né, o bicho carpinteiro, ou bicho pelo corpo inteiro, como diz o ditado certo. E eu adorava ficar na casa dos outros, toda casa era melhor do que a minha, então, eu queria ir pra casa de tio, pra casa de avós, para casa de todo mundo, sempre estar junto. Sempre fui comunicativo, desde pequeno, né? As pessoas mais velhas, sempre conversavam comigo e falavam: “Nossa, você é uma criança meio diferente!” (risos) Mas, enfim, sempre gostei de ter contato com os meus avós. E contato com bicho, contato com planta também, isso eu aprendi na infância, que a gente estava comentando. Eu estudei em um colégio ‘Jean Piagetista’. Então, aprendi a amar planta, cultivar horta desde cedo, sempre gostei muito disso, gostei de bicho, de ter perto. Já tive de tudo: tive aquário gigante, tive tartaruga, cachorro, gato, maritaca, tudo que você possa imaginar, de pássaro, eu sempre gostei de bicho. Hoje é só a Mia, só a gatinha. Tive um furão antes dela, que chamava também nome composto, Maria Alice. Era muito fofa.

 

P/1 – E, Danilo, como você descreveria seus pais, o jeito deles?

 

R – Os meus pais, a geração eu acho que também influencia muito na forma dos meus pais. A gente veio de uma geração que tinha a coisa militar, que acontecia, muito forte, o machismo era muito mais forte nessa época, mas eu acho que a minha mãe é muito artística, né? Ela sempre foi muito revolucionária, à frente do tempo dela. E, sei lá, me perdi.

 

P/1 – O jeito dos seus pais.

 

R – O jeito deles, de ser. Então, minha mãe é muito ‘prafrentex’. Meu pai é um cara que estudou super pouco. Só estudou até a quinta série. Só que ele teve uma empresa de serralheria, movimentou uma galera, super batalhador. Eu acho que, se ainda tivesse estudado, ele teria ido absurdamente mais longe, entendeu? Mas ele também não queria, exatamente com o machismo dele, ele acreditava muito no potencial dele. (risos) Foi um senhor grande homem, que construiu muita coisa e, graças a Deus, deixou eu e meus irmãos com um respaldo bom que dá pra eu ter uma qualidade de vida também, graças a ele, à persistência dele. E eu acho que a sensibilidade louca da minha mãe é que me fez vir pro mundo da moda, esse mundo artístico de cultura, de arte mesmo, de criação, de imaginar o que não existe, de tudo sair de um desenho e virar verdade. Isso é o que faz os meus olhos brilharem e que veio deles. A persistência do meu pai e o brilho nos olhos da minha mãe. Acho que é muito isso.

 

P/1 – Você lembra de algum momento marcante na sua infância, com os seus pais?

 

R – Um monte. A minha família é bagunceira, é família grande, festeira. A gente sempre se reuniu muito. Então, eu tenho muitas fotos de festas, assim, de galera mesmo. O WhatsApp, hoje, é uma coisa super na vida de todo mundo, então eu tenho grupos da minha infância, de estudo e a referência sempre, na minha casa, é a comida e a receptividade, porque a gente sempre foi uma família de receber muito com comida na mesa, sabe? Dividir o que tem. O que tem, vai pra mesa, pra todos, todo mundo come, se diverte e eu só tenho momentos agradáveis, assim, eu não tive percalços na minha vida, sofridos. Eu sou um privilegiado, né? Nasci em uma família classe média incrível, que me deu toda a estrutura. Me assumi muito cedo também. Eu, sei lá, tive todo o apoio. Vejo tanta gente que é posto para fora de casa, uma coisa ou outra acontece. Então, a minha, eu tenho que levantar a mão ao céu, agradecer, que deu tudo certo, nasci numa família que me proporcionou e me proporciona tudo de bom. Sou privilegiado, não tenho o que falar. Tô quase chorando, já.

 

P/1 – A sua família tem costumes que você consegue lembrar deles, assim, da infância? Cheiros, comidas, datas comemorativas…

 

R – Sim. Se eu começar a te falar, vai dar um nó na cabeça de vocês. Muitas reuniões... a minha alimentação partiu de culinária húngara, então, eu como coisas que não são convencionais. Arroz e feijão não é o meu prato. Eu sou uma pessoa que faz feijão uma vez por ano, por exemplo. Mas a gente come muita coisa que todo mundo fala assim: “Ah, isso é comida de restaurante”. Pra mim, não é, é comida do meu dia a dia. E é muito gostoso. Tem uma receita que a gente faz com macarrão, que é como se fosse arroz. Você faz o macarrão que chama ‘tarhonya’, né? Então, um arrozinho, é um macarrão em formato de arrozinho, que você faz como se fosse um arroz mesmo, pra acompanhar uma carne recheada, pra acompanhar uma friturinha, alguma coisa. É incrível, gente. Põe a salada, põe ‘tarhonya’ e ‘pörköit’, que é outro prato húngaro, que é uma delícia, uma carne de panela com batata. E muita páprica, que a páprica veio dos hungareses. É incrível, eu adoro, assim. Então, eu sempre tive muitos bons momentos, Natais incríveis. Atualmente eu sou o Papai Noel da família, né? Mas já fui a criança encantada que esperava, ansiosamente, a chegada do Papai Noel. É. Bons momentos, só boas coisas de recordação de infância.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Sim, somos três irmãos. E também eu brinco muito com isso. A minha mãe, o primeiro filho ela perdeu, né? Porque era desmiolada, estava surfando, tomou um caldo na onda, voltou pra casa, abortou o primeiro filho, traumatizou. Então, a minha primeira irmã mais velha, primogênita, é a Érica Hüvös, que a gente brinca que é a que tem rodinha no pé. É uma pessoa que, você falou, ela faz e acontece, tudo dá certo, é literalmente a primogênita. Meus pais, mais ou menos em 2008, foram morar no litoral e ela se tornou a nossa mãe em São Paulo. A gente já era formado. Em 2008, eu já estava casado há oito anos e, enfim, já tinha minha própria vida, mas meu pai faleceu. Meus pais foram morar no litoral em 2003, na verdade, um pouco antes. E ela se tornou a mãezona nossa, em São Paulo. A próxima irmã é a Patrícia, que é a Pacó. Ela nasceu prematura, muito pequena. Aí meu avô lituano, não gostou da minha mãe ter colocado o nome lusitano na filha, porque patrícios são os portugueses, né? E ela veio, ela ganhou o nome de Patrícia então, por ter nascido muito pequena, ele, com esse racismo besta, de povos, chamava de Pacó. Então, é a Pacó, até hoje é a irmã Pacó. O Dennis, depois de ter tido duas meninas, minha mãe falava: “Eu quero ter um filho homem, quero ter um filho homem, quero ter um filho homem”. E, na época, em 1975, que é o ano de nascimento dele, teve o filme “Dennis, o Pimentinha” nos cinemas e minha mãe falava: “Eu quero ter um filho homem. Se for um menino, vai se chamar Dennis, ele vai dar nó em rabo de cachorro, vai quebrar vidraça, vai bater, arrumar confusão, vai fazer tudo de errado. E eu vou colocar uma placa na frente de casa: “Não aceito reclamações”. Pois meu irmão é tudo isso, ele é ‘da pá virada’, mesmo. Tem até uma história de infância, que é engraçada: no jardim de infância, na Lapa, que eu cursei o prezinho, um menino de uma outra classe se encrespou comigo e me bateu. Meu irmão, me vendo ralado, falou assim: “Quem que te bateu?” Eu falei: “Aquele menino ali”. Pois ele foi, deu uma surra no moleque, fez assim ó, paft, paft: “No meu irmão só quem bate sou eu”. E eu do lado, assim, tipo: “Isso mesmo”. Eu tinha acabado de tomar uma outra surra, mas concordando com o negócio ali, que só quem podia me bater era meu irmão. E eu brinco que, quando minha mãe engravidou de mim, as pessoas perguntavam: “Ah, é menino ou menina?” Ela falava: “Ah, pode ser o que ele quiser”. Então, vim eu, homem, mas homossexual, pra fazer a miscigenação de toda a família aí, causar mais um pouco.

 

P/1 – E como foi a escolha do seu nome? Você sabe?

 

R – Sim, quem escolheu o meu nome foram os meus irmãos. Porque teve a opção de “Daniel” e “Danilo”. E meu irmão, que era pequeno, tinha três anos, falou: “Danilo, Danilo”. Então, ficou meu nome “Danilo”. E eu acho que o significado é muito bonito também. Aquele que leva a palavra de Deus, né? Eu não sou tão evangélico, nem católico assim, mas eu gosto de levar a palavra de Deus sim, acredito muito em Deus, nesse poder universal, que transcende entre a gente e faz tudo acontecer. Afinal de contas, eu acredito no bem e no mal e estamos aí pra isso. Fazer o certo, tentar fazer o certo.

 

P/1 – E você lembra da sua fase de infância?

 

R – Sim, aqui na Vila dos Remédios, em São Paulo mesmo, passando a Ponte dos Remédios, primeira à direita. A casa existe até hoje, é da família até hoje. Está alugada pra uma outra família, que também é muito feliz. É uma casa oposta disso aqui, é uma casa monstruosamente grande, com cômodos muito grandes, que ocupou muitas festas. Tinha sala de jogos com mesa de sinuca, tinha biblioteca com mais de dois mil livros. Era uma ‘senhora casa’, assim, eu tive uma ‘senhora infância’. Muito legal, assim, o espaço muito bom.

 

P1 – Quais eram as brincadeiras favoritas da infância?

 

R – Eu fui uma criança de rua, Luiza. Eu gostava de jogar bolinha de gude, pião, queimada, vôlei, jogo de rua. A gente, na minha infância, não tinha celular, então tinha a obrigação de chegar até as dez. Depois das dez, todo mundo pra dentro de casa. Mas, até as dez, a mãe largava pra Deus e confiava. A gente descia com carrinho de rolimã, na rua de trás. Brincava de guerrinha de mamona.  Eu fui uma criança peralta. Como meu pai era serralheiro, a gente fazia os brinquedos pras outras crianças. Então, o carrinho de rolimã a gente fazia pra toda galera. O deles na pedaleira, o meu e do meu irmão no volante. Porque a gente tinha que ter o “pro” da coisa, a gente fazia o nosso patinete. Brincar de guerra de mamona, a gente fazia a roca, pra brincadeira. Ou fazia o estilingue, né? E o nosso estilingue era de ferro, porque o pai era serralheiro, então tinha o “plus” da coisa. Mais isso, eu era criança de jogar taco de rua, brincar brincadeiras de menina também, entendeu? A minha infância no Jardim Belaura, nos Remédios, foi muito feliz também, de rua. Que as meninas, os meninos eram muito integrados. Então, ia brincar o jogo de menino, que tinha o futebol, as meninas iam poder participar. Ou, se elas ficavam um pouco mais sentadas, a próxima jogada era rouba-bandeira ou queimada, pra estar todo mundo junto, sabe? A gente gostou sempre da integração e, sei lá, isso fez muito parte da minha infância, assim, uma infância miscigenada. Esses dias, assistindo Saia Justa, programa atual, agora, falando disso, a Pitty, a cantora falando da filha que está em uma escola que não tem miscigenação, que é só formada por brancos. O Cnsr, Colégio Nossa Senhora dos Remédios, que eu estudei a minha infância, era miscigenado, sabe? Tinha negro, amarelo, que eram os japoneses, os vermelhos, que tinha até indígenas que estudavam na escola, uma puta escola bacana. Maioria branca? Infelizmente, eu tenho que falar que sim. Eu não vou mentir. Mas era uma coisa miscigenada. Eu acho que isso foi importante para minha formação. Entender que todo mundo, se cortar o pulso, vai sair sangue vermelho. É todo mundo igual, entendeu? É isso.

 

P/1 – Os amigos eram do bairro, vizinhança?

 

R – Sim. Amigos da rua. Tem os amigos da rua, tem os amigos da escola, que daí não eram tão da mesma rua. Mas eu tenho esses amigos até hoje. Um monte deles dá pra te mostrar uma lista aí no telefone, até hoje, graças a Deus. Fica ali na porta da geladeira, (risos) pra eu te mostrar.

 

P/1 – E, nessa época, pequeno ainda, você pensava no que você queria ser, quando crescesse?

 

R – Sim, eu tenho um amigo de infância que chama Ivoilário. Aos sete anos, a gente tinha uma marca juntos, que chamava “Hids”, que era o “h” e o “d” de Danilo e o “i” e o “s” de Ivoilário da Silva, que era (risos) o nome dele. Então, a gente brincava. Desde criança, eu gosto de moda. Mas, na minha infância não existia faculdade de moda, nada do gênero, né? Ela veio, o primeiro curso da Santa Marcelina veio existir quando eu estava com dezesseis anos, então é muito recente ainda. A história do Brasil é recente, a história da moda no Brasil é mais recente ainda.

 

P/1 – E que lembranças você tem, da escola? Da sua primeira escola. 

 

R – Na primeira escola eu acho que é esse contato com natureza e animal. A importância de ver crescer, de ver que a terra produz, se você souber cultivar. Tudo é muito mágico, eu acho. Esse processo natural. A minha raiz mais forte, da primeira infância, é o beabá, que a gente aprende, o Abcd e essa paixão por bicho e planta. Eu acho que é isso, a primeira infância minha, é essa referência que eu tenho.

 

P/1 – Teve algum professor ou professora marcante, nessa época?

 

R – Então, nessa época tão infantil, eu não consigo te dar o nome de nenhum. Eu sou péssimo pra nome também. Eu lembro a fisionomia de vários desses professores, mas eu não consigo te dar o nome… professoras, eu não tive nenhum professor homem na primeira infância, né? Aí é isso. (risos)

 

P/1 – Você mudou de colégio?

 

R – Sim. Eu estudei a primeira infância, que é o pré e o jardim, em colégio público, na Lapa, no Jean Piaget. E daí eu fui pra um colégio privado, Colégio Nossa Senhora dos Remédios, a partir da primeira série. Lá eu estudei até a oitava série.

 

P/1 – Como foi, nessa escola?

 

R – Aí foi minha grande formação, que é o que eu estava te contando, que tinha até um diretor que chamava Carlos e me chamava de “delegado de aluno”. Toda minha família estudou nesse colégio, Nossa Senhora dos Remédios. A gente foi criado no bairro dos Remédios, na infância e eu ia a pé pra escola, com os meus irmãos. Eu sou o fim da escadinha, o caçula. Então, eu sabia o caminho de cor e salteado. A gente fazia o caminho a pé mesmo, pra escola. Ia juntando os alunos, pelo caminho, porque quase todo mundo no bairro estudava no melhor colégio do bairro, que era esse aí. Então, a gente, da minha casa, que é próximo da ponte, até a Avenida dos Remédios, onde é o colégio, atrás da igreja, a gente ia fazendo arrecadação. Então, saía eu e mais dois, que era eu, a Meire e o Nilton, desse caminho. E a gente chegava em vinte alunos na escola. Porque ia tocando a campainha de todo mundo, ia pegando todo mundo, até chegar a porta do colégio, que já estava batendo o sinal, pra gente entrar enlouquecidamente. E era um colégio que também incentivava muito a gente a fazer muita coisa e… ah, modéstia à parte, eu adorava ser premiado. Eu ganhei medalha João Romero, então, na primeira série. Na terceira série já ganhava paraolimpíadas… paraolimpíadas… ganhava as olimpíadas estudantis do colégio. Eu sempre gostei de estar no meio da muvuca. E sempre fui muito premiado, em um monte de coisa lá. Assim, eu adorava evento cultural, tudo que era extracurricular fazia parte do meu currículo, sabe? Eu gostava muito. Nossa, dancei em vários festivais. Ganhei prêmio de dança também, mesmo sendo pé torto. Mas, só de se empolgar e dar a cara pra bater, de subir no palco, eu acho que já era um incentivo. Eu tentava fazer bonito, em tudo o que eu participei, assim. Participei de bastante teatros da escola, sei lá, um monte de coisa. Eu era do movimento das coisas, entendeu? Era da turma do fundão, da turma bagunceira, mas que fazia a coisa acontecer. Acho que é isso.

 

P/1 – Tem alguma história marcante desse período, dessa escola, que você queira compartilhar, que você se lembre?

 

R – Ah, Luiza, tem um monte de coisa legal, de escola. Não sei lá, acho que vinculado ao que a gente está fazendo, não muito, assim.

 

P/1 – Não, mas é isso, é livre. O que você quiser. 

 

R – É livre. Teve uma feira de ciência - já que a gente está falando de esoterismo, e essa coisa da magia, da energia - que a gente ‘causou’ na escola. Eu estava na minha sexta série. E a gente fez a barraca esotérica, que não tinha nada a ver com as ciências que a escola queria fomentar. Mas a gente falou: “Ai, vamos pras ciências ocultas”. E a gente acabou ‘causando’, mesmo. O evento que deveria acontecer até às quatro da tarde teve que ser estendido até as dezoito horas, por causa do tamanho da fila que tinha no nosso stand. (risos) A gente ganhou, por unanimidade, como o melhor stand da feira, né? E assim, as pessoas falando: “Não, eu pago pra você fazer, pra mim, mapa astral, meu signo”. Ecológico, que tinha isso, a gente fez um signo ecológico, o signo das árvores etc. E as pessoas enlouqueceram naquele ano. Isso foi uma coisa que foi muito marcante, que as pessoas comentam comigo até hoje, quem vivenciou isso. Acho que foi a coisa mais marcante.

 

P/1 – E, saindo desse colégio, você foi pra outro?

 

R – Saindo desse colégio, eu fui pro Colégio Campos Sales, estudar colegial técnico em publicidade e propaganda. Me formei lá e lá também fiz um monte de evento bacana, também ligado à moda. A gente teve um trabalho de formação, de conclusão de curso, a gente ia formar uma agência. A gente fez uma agência que chamava CEP Brasil, “Criações, eventos e propaganda Brasil”. A gente fez um evento de moda que juntou também uma galera no bairro da Lapa e foi noticiado, saiu em jornal, saiu em revista. Eu gosto de fazer vuco-vuco, amiga, eu gosto da bagunça.

 

P/1 – E como foi a relação…

 

R – De publicidade?

 

P/1 – É, como foi…

 

R – Ah, então, foi incrível, né, amiga. Eu amei cursar um colegial técnico, de publicidade e propaganda. Comecei a trabalhar cedo. Nessa época eu já trabalhava, eu comecei a trabalhar aos catorze anos. Então, aí essa parte é o pai machista, né? O meu pai é machista. Ele, com catorze anos, me deu de presente começar a trabalhar. Então, no dia 21 de fevereiro, eu estava empregado na empresa dele, trabalhando de funcionário. (risos)

 

R – Como foi isso?

 

P/1 – Foi muito louco, porque eu não tinha experiência nenhuma. Uma serralheria enorme, tipo, chegaram uns bandidos e falaram: “Ó, a gente veio pegar o relógio de ponto que o ‘seu’ Paulo” - que era um encarregado do meu pai – “autorizou”. Só que era gueri-gueri, eu abri a empresa pra bandido, eles roubaram (risos) um relógio de ponto da Dimep, que tinha sido adquirido há pouco tempo e daí, nisso, teve uma briga com meu pai, daí eu falei: “Pai, então eu não trabalho mais com você.” Tipo: eu fiz essa besteira e fui trabalhar pros outros. Daí, o meu primeiro emprego, com catorze anos, que eu trabalhei com meu pai três meses, que eu fiz essa besteira, de abrir a porta pra bandido e (risos) fui trabalhar no Pizza Hut, no Shopping Iguatemi, em São Paulo. E assim foi começando. E daí, então, eu fiz o colegial técnico de publicidade e propaganda, já trabalhava. Fui ser vendedor numa loja de roupa que não existe mais, que chama “Drugstore”, que era da Yvonne Kasinski. E lá eu estava me preparando pra cursar psicologia, uma professora da Santa Marcelina, chamada Mitsuko Shitara, que é a Mit, uma querida, melhor historiadora de moda que eu conheço nesse planeta, falou: “Eu vejo que seus olhos brilham por moda, você nunca imaginou estudar moda?” Eu falei: “Mas existe isso?”. Ela falou: “Existe, eu sou professora da Santa Marcelina, vai lá e faz a inscrição”. Fiz a inscrição, passei nesse processo seletivo do cão, porque não foi fácil entrar naquela faculdade. Mas entrei, em 1996, pra Santa Marcelina. Me formei em 2000. E também ‘causei’ na faculdade, amiga, porque, sei lá, tipo: eu ficava indignado de saber que não tinha um diretório acadêmico, alguém que lutasse pelos alunos. E ajudei a fundar o diretório acadêmico da Santa Marcelina. Meu nome está lá, na fundação, como um dos diretores. Louco, eu tinha 19 anos, falei: “Meu, mas diretor? Eu sou vendedor de shopping.” “Não, já que você tá querendo fazer a formação” A coordenadora do curso, a Vera, na época, falou: “Não, eu tô incentivando, vão fazer o diretório acadêmico, vamos fornecer um espaço aqui da faculdade, pra vocês”. E assim foi. Eu, na Santa Marcelina, nos anos que eu estudei lá, revivi um evento que chamava “Flash Noivas”, que era um evento de noivas, pros alunos da instituição e estava adormecido pelos três anos anteriores à minha entrada na faculdade. Eu falei: “Vamos levantar esse negócio aí!” Fizemos, o negócio saiu, um monte de TV, ‘causou’. No ano seguinte a gente juntou todas as faculdades de moda que tinham em São Paulo para fazer o Flash, que foi o Flash 99, que aconteceu no Shopping SP Market, com quase três mil pessoas, quase seiscentos participantes, uma loucura, que as freiras falaram: “Nunca mais faz isso na vida”. Mas daí também veio meu período de formação, me foquei pro meu trabalho de conclusão e acabei passando a direção para outras pessoas e fico triste de saber que hoje a faculdade não tem mais um diretório acadêmico. Algumas pessoas não quiseram se engajar, pra continuar esse movimento estudantil, que eu acho que é importante toda universidade ter.

 

P/1 – E o que te encantou, na moda? Você consegue dizer?

 

R – O que me encantou na moda, era a moda dos anos oitenta e noventa do Brasil, com os grandes nomes, tipo Renato Kherlakian, que era dono da Zoomp; o Tufi Duek, que era o dono da Forum e da Triton, aos quais eu tive o prazer de ser assistente, no decorrer aí, da minha vida profissional. O que me faz brilhar é fazer produto. Apontar na rua e falar: “Fui eu que fiz”. Adoro fazer isso: “Ah, foi eu que fiz, meu dedo tá…”... completa. Pode ser só no tecido, ou só na estampa, ou só o acabamento de um produto que eu sei que eu participei, sabe, que eu fui uma pecinha contribuinte nessa máquina. Isso, eu acho, pra mim, que é encantador, é isso que faz o meu olho vibrar. 

 

P/1 – E a juventude, como você gostava de se divertir?

 

R – Eu sou uma pessoa muito noturna, Luiza. Assim, eu sempre fui baladeiro, sabe? Meu pai brincava, na minha juventude, que era pra eu chegar com o pão. Porque eu chegava com o sol amanhecendo, então, ele falava: “Então passa, pelo menos, na padaria e traz pão, já que está chegando tão cedo”. Eu gostava das baladas aqui, de São Paulo: Up and Down, Broadway, entre outras muitas, eu ia em muitas baladas aqui. E eu fui descobrindo a minha orientação. Porque eu acho que a parte que a gente está mais sexualizado é na adolescência, onde tudo começa a surgir e tive experiência com mulheres, mas me descobri gay, sabe? E eu conheci o meu parceiro muito cedo. Porque eu conheci o André eu estava com dezenove para vinte anos e assim estamos juntos, até hoje. E, sei lá, isso foi na saída da minha adolescência, começo da minha fase adulta, que aconteceu, vamos dizer assim.

 

P/1 – Como vocês se conheceram?

 

R – A gente se conheceu numa boate, em São Paulo, que chamava “Mad Queen”, que ficava no Ibirapuera, né, em Moema, em frente do Shopping Ibirapuera. Foi lá que a gente se conheceu, nessa balada Mad Queen, na Rainha Louca. (risos) E é isso. E o relacionamento de balada dá certo. 23 anos estamos juntos, estamos firmes.

 

P/1 – Logo que vocês se conheceram, já começaram a namorar?

 

R – Sim, logo que a gente se conheceu já foi uma coisa: “Vamos morar juntos, vamos morar juntos e vamos morar juntos”. E daí ele é santista, ele trabalhava em São Paulo, subia todos os dias, subia e descia todos os dias pra trabalhar. Ele falou: “Ai, não está dando, venho morar numa pensão”. E daí, nessa da pensão, a gente resolveu morar junto e tudo começou, há vinte e três anos. (risos) 

 

P/1 – E como foi, assim, a formação em moda?  O ciclo de fechamento da faculdade, esse período de ingressar... você já estava no mercado de trabalho, né?

 

R – Sim, eu já estava no mercado de trabalho, mas eu trabalhava, com primeiros empregos de pessoas que não tinham experiência nenhuma. Então, meu primeiro emprego foi atendente de fast-food. Daí o fast-food chegando no Brasil, porque isso era 1994, 1995, que eu trabalhei em fast-food. E daí, logo depois, quis ir atrás de onde estava o dinheiro, fui ser vendedor de loja, que ganhava, assim, um pouco mais, e trabalhava-se um pouco menos do que atendente de fast-food. E ali conheci a Mit, que eu contei a história, entrei pra Santa Marcelina. Daí evoluí, para ser vendedor de outras lojas um pouco mais conceituadas. Então, antes de eu trabalhar na parte de estilo das marcas que eu falei, eu fui vendedor na Zoomp do Shopping Iguatemi e fui vendedor da Triton do Shopping Iguatemi. E, de lá, eu comecei a estagiar no Mercado Mundo Mix, que era uma feira de moda extremamente louca, onde eu tive contato com tudo de mais louco e mais frenético e mais efervescente do mundo da moda em São Paulo, que também é onde tudo acontece, nesse miolo, assim. No Mercado Mundo Mix eu fui assistente do Jair Mercanzini, que era um dos caras que fez, né, um dos donos do Mercado Mundo Mix. Eu era assistente de um deles. Conheci um monte de gente legal. De lá, fui trabalhar como estagiário de estilo, na Zoomp, uma empresa que eu tinha sido vendedor, que meus olhos já brilhavam, que era o raio, louco no Brasil, aí. E conheci a Zapping, que era uma marca extremamente efervescente, colorida, desse povo cyber, que estava surgindo no Brasil. E com essa pegada, já preocupada de: “Vamos melhorar o planeta. Não vamos impactar o planeta”. Aí eu comecei a ter contato com essa coisa do tentar ser menos poluente, ou tentar ser, do RE: vamos reciclar, vamos ressignificar, vamos tentar coisas novas pro planeta. Acho que o consumo vai existir, de qualquer jeito, a gente precisa de consumo, a gente precisa de alimento, precisa de agasalho. A gente precisa, às vezes, de um veículo para locomover mais rápido a gente, a gente não vai deixar de consumir. Mas, se a gente puder ser… impactar menos no mundo, isso é muito importante. Esse começo aí, de moda, foi assim, mas eu ainda não tinha essa consciência tão grande. Logo depois, teve uma outra marca, a Mixed, que é muito conhecida também. Fiz curtume pra essa marca e curtume não tinha uma pegada ecológica. Matava-se mesmo, pra aproveitar o couro. E isso foi uma coisa impactante pra mim também. Uma coisa é, hoje, um couro agro, ao qual a carne já está destinada a um mercado certo e, se esse couro não for reaproveitado, ele acaba se tornando um lixo residual muito grande, então, vamos utilizar uma coisa, fazendo um produto durável, entendeu? Tipo essa bolsa que eu tô mostrando. Que, sei lá, vai ter uma vida longa. Então, isso é importante também pra gente, pro planeta, entendeu, fazer bens duráveis. Eu acho que não precisa fazer coisas indestrutíveis, porque o ressignificar é importante. Mas a coisa do durável é importante. E, que nem eu te falei do porta-cartão, que é papel, cara, que você pode reciclar, ressignificar e usar uma coisa bacana. Logo depois dos estágios que eu fiz, nessas empresas superlegais, eu tive a minha primeira oportunidade de estilista mesmo, que foi para uma grife de moda gótica em São Paulo, que chamava “Profecias”, não existe mais. Ela tinha loja na Galeria do Rock, a minha cartela de cores era preta, roxa e vermelha, (risos) mas noventa por cento era roupa preta. Foi um período muito louco da minha vida também, assim, trabalhar com uma coisa que eu nunca imaginei. Fazia muito espartilho, muita renda, calças de látex. É um público, um nicho muito louco, diferente de tudo que eu já imaginava na minha vida. E daí, de lá, eu tive a oportunidade de ir pra um grupo muito grande, aqui em São Paulo, que chamava grupo GEP, Grupo Empresarial Pasmanik. Lá eu entrei na linha Luigi Bertolli. O grupo tinha três marcas, na época, que era Cori, a Luigi Bertolli e a “Emme”, que era filhotinha, que veio depois, mais descoladinha, na turma. Na Luigi Bertolli eu me desenvolvi muito e lá eu vi o quanto o diverso da moda era poluente mesmo. Eu assumia as linhas de jeans, camisaria e acompanhava, até comentei com você, visitei uma fábrica jeans, ao qual o rio, na lateral, corria na cor rosa. Isso era devido à pigmentação e descarregamento de tinturas do jeans, da fabricação de jeans. Isso me incomodou extremamente, assim, eu comecei a correr atrás de uma preocupação mais ecológica. As pessoas vivem dessa água e água é fundamental, é um bem quase que escasso. Por mais que ele se regenere, mas se o ser humano não contribuir para que a gente tenha fontes hídricas, para que a gente tenha planeta, a gente não vai ter planeta. E, a partir, mais ou menos, de 2004, 2005, eu comecei a virar essa chavinha desse mundo ecológico, de ser menos agressivo, de usar pigmentos que deixassem menos resíduos no mundo. E eu brinquei também pro Saulo, falando de Wgsn, que é um grande portal de pesquisa e eles vinham falando dessa necessidade, do mundo pedindo socorro. E o mundo está pedindo socorro pra gente. Eu acho que a gente tem que se esforçar em deixar um futuro, em deixar um planeta. Eu acho que as pesquisas científicas estão mostrando o homem saindo da Terra. Isso ainda vai demorar muito tempo, então, a gente precisa muito de uma Terra, para continuar, para as próximas gerações terem algo de vida. Voltando pra moda, que eu acho que eu fui longe, já chegando quase no final de tudo aí. Voltando pra moda. Eu, na Luigi Bertolli, vi essas coisas prejudiciais, poluentes e, não de acordo com tudo isso também, falei no ano de 2012 que essa ideologia não era mais a minha, que eu estava procurando coisas que fossem mais próximas à minha ideologia. Saindo da Luigi, ainda fui pra TNG, uma outra marca muito grande. Infelizmente, também muito poluente, que não tinha essa preocupação sustentável do mundo. Era uma coisa mais de capitalismo selvagem, mesmo. Também fiquei só por dois anos e fui atrás da minha ideologia e encontrei a Ogochi, uma empresa que tinha esse fundamento, de: “Vamos estar em cima dos três pilares, do sustentável, do social. Vamos tentar fazer um mundo melhor”. Preocupado na política reversa, de não gerar resíduo. O que é resíduo? Como a gente vai fazer para reutilizar isso? Então, eu me sentia bem nessa empresa. E, sei lá, daí, aqui, o apartamento onde a gente está filmando, eu e o André, a gente comprou o nosso primeiro apartamento, foi esse aqui. Chegando agora mais próximo da nossa vida, acabei me tornando síndico aqui. Entrei no Conselho, na verdade, aqui do prédio, pensando nisso, em fazer o bem, em ajudar a comunidade. Ajudar, não só a minha unidade no prédio, mas as cento e uma outras unidades que têm aqui também. O que eu posso fazer pra melhorar, né? E a primeira coisa foi entrar nessa questão política, que é o sindicato de um prédio. Então, virei um conselheiro. E, de lá pra cá, vim tentando melhorar várias coisas aqui no prédio. Uma delas foi a implantação da coleta seletiva, que eu acho que foi um grandessíssimo passo aqui pro nosso condomínio. As pessoas, os moradores estão contribuindo cada dia mais, que nem mostrei pra vocês. Nos últimos doze meses a gente conseguiu gerar onze toneladas de lixo limpo, onze toneladas de coisas que não foram macular o meio ambiente. Que viraram coisas novas, viraram novos produtos, ajudando milhares de famílias. Ajudando o planeta. Bichinhos que não estão, ali, se alimentados de plástico. Enfim, vamos, mais uma vez, fazer um mundo melhor, brincando das telas dos elevadores que eu mostrei pra vocês, né? Se a gente pode não gerar resíduo, então por que vamos continuar usando papel. Vamos pra uma coisa digital. É mais ecológico, não gerou resíduo, o que consumiu foi energia e foi pouca. E, se Deus quiser, quem sabe, em breve, aqui no prédio a gente vai ter energia limpa. A gente vai ter energia solar aqui, pros ambientes comuns. Eu acho que a gente tem que mudar a chavinha, que é o que eu estava comentando várias vezes com você, Luiza. Eu sou uma pessoa que eu acho que virei essa chave, sabe? Eu fico feliz de saber que eu contribuo para um mundo menos nocivo, menos agressivo. Coisas boas pra humanidade, mesmo. Se preocupar com o próximo, não olhar só pro próprio umbigo. Eu penso muito nisso, assim, me preocupo muito com isso, por mais que eu não tive prole, que nem eu te falei, que eu não deixei filhos, mas tenho sobrinhos e afilhados maravilhosos por aí. Acho que meio que isso resume. (risos) Já me emocionei de novo. É isso, gente.

 

P/1 – Eu queria saber como foi esse começo, de se interessar e mergulhar nesse mundo de iniciativas sustentáveis, começando pela moda. Como foi o impacto de perceber o caos, tudo isso e falar, virar a chave: “Vamos tentar transformar?” Como foi esse primeiro momento, pra você?

 

R – Então, Luiza, que nem eu te falei, eu acho que o primeiro momento foi esse contato com essa fábrica de jeans e ver o tamanho poluente ao qual eu estava fazendo parte. E, nessa viagem mesmo, pro interior do nordeste, eu falei: “O que eu posso fazer? Como que eu posso ser o agente motivacional de tudo isso? Eu não quero mais fazer isso, eu não quero mais estragar um rio por um motivo consumista. Tudo bem existirem as fábricas, existir necessidade, que nem eu te falei: necessidade primária de alimentação, necessidade secundária de abrigo, de vestimenta. É uma necessidade da humanidade, né? Então, eu acho que a gente não pode ir contra isso, mas ser menos nocivo. Eu acho que a minha grande virada de chave foi nisso, nesse ano de 2005, que eu tive essa consciência mesmo de ver o quão poluente eu estava sendo. E tentar ser o agente de mudança disso mesmo, que nem eu falei: mesmo que pra marca não agregasse valor, eu sei que eu, Danilo, estava contribuindo de usar menos pigmentos, de usar menos sujeira, jogar menos sujeira no mundo. Então, acho que, de 2005 pra cá, eu vim me preocupando de fazer um trabalho silencioso, de formiguinha, de deixar o mundo melhor mesmo. De… é isso. E eu não tô sozinho, sabe? Eu acho que a gente é uma rede muito grande de pessoas que querem o bem de tudo, que quer o bem do próximo. É isso. E eu comecei a ir atrás de, por exemplo, o algodão orgânico, que é feito uma pigmentação natural. Eu acho que a Embrapa, o agro brasileiro é muito forte, muito bom. E a gente tem, hoje em dia, algodão que nasce rosa, algodão que nasce azul claro. E não é afetando o meio ambiente, você está mexendo na genética da planta, mas você não está mudando a essência dela, ela continua ali, ela não se tornou nociva por isso. Isso eu acho que a expertise humana, contribuindo também para um futuro mais longo, um futuro melhor. E, cara, é muito legal isso, você pegar um algodão que não precisa de pigmentação pra ter cor. E, sei lá, eu acho que a tua geração, essas gerações mais novas, compram essa ideia. Vê o valor agregado da coisa, sabe? Que nem eu te falei de uma carteira, que é papel reciclado, que passa por alguns agentes, que o deixam mais fortalecido e que pode se tornar um produto durável. Eu quero muito que vocês usem pra caramba aí e falem: “Meu, isso aqui é ecológico!”, sabe? Eu tenho essa preocupação. Eu sou uma pessoa pequenininha, que tem essa preocupação de ser legal com o mundo. Se cada um fizesse pequeno agente, com certeza a gente vai ter um 2050 muito melhor. A gente vai ter um Brasil mais verde, um mundo mais verde. Fazendo que nem o Jaloo conta a história da chuva, do ciclo da chuva. E é importante mesmo, a gente ter árvores, a gente ter impacto pequeno.

 

P/1 – Tudo bem. Eu queria saber como você vê o papel da moda, da indústria têxtil, no debate de sustentabilidade e nesse processo de conscientização ambiental e social também, né?

 

R – Mais uma vez falando de sermos pequenos agentes de mudança. Sei lá, eu sou uma pessoa da criação e acho isso muito importante, a gente cobrar também.  Assim como a gente deve cobrar os nossos políticos, a gente deve cobrar um monte de coisa. Eu sou uma pessoa que, pros meus fornecedores, sempre perguntei: “O que você está fazendo, pra ser menos impactante no mundo?” Se o cara falasse: “Nada”, eu não vou comprar dele. Eu não vou ser um compactuador disso. Eu quero alguém que se preocupe junto comigo, eu quero gente que me dê a mão. É o famoso: “Eu não vou largar a mão de ninguém, mas quero que venham junto comigo, pra isso”. Para pensar num mundo melhor. Gente poluente, gente corrupta está cheio. Só que, se você não aceitar isso, cara, o mundo vai mudando. Se essas pessoas começarem a se sentirem excluidinhas, no canto, elas vão entender que elas têm que virar a chavinha também e têm que contribuir para um mundo melhor. E daí, é que nem eu estava te falando, a Santista Têxtil e a Vicunha são dois grandes produtores de jeans do Brasil, entendeu? De tecido plano ou jeans, que é a minha área. E mais uma vez eu fico feliz de existir a pegada hídrica zero na Vicunha, sabe? É um projeto incrível de: “Não vamos utilizar água ou vamos reduzir o consumo de água ou vamos impactar menos. Se estamos poluindo trinta litros, cinquenta mil litros, vamos gerar e jogar mil litros de água limpa de volta, nos rios, ou lagos, ou o que seja. Nas correntes hídricas que a gente tem no Brasil. É isso e eu tô em busca disso e eu cobro muito isso das pessoas que me cercam. Falando agora não só da indústria da moda, que como síndico também, a implantação da coleta seletiva, que eu acho que, mesmo com resistência, que nem eu te expliquei, às vezes as pessoas não sabem da importância, até começarem a fazer. E, quando começa, vira automático, entra na rotina, entendeu? E daí o legal é isso. Daí o próximo cobrar de você: “Ai, por que que ainda não tem isso reciclável?” Por exemplo: composteira. A gente vai colocar uma composteira pra gente fazer o nosso próprio adubo, gerar menos impacto ainda. Hoje a gente joga o lixo não reciclado, orgânico, pro lixo comum, ser carregado. E por que não a gente diminuir ainda mais isso? E o que é orgânico, orgânico mesmo, a casca da cebola, a casca da banana, que pode ser reaproveitado, mas quem não quer, vai pra composteira, para virar adubo.  E ajudar até a comunidade, porque a gente tem um monte de praça próxima precisando aí, de adubação. Seria superlegal ter uma plaquinha falando que a gente contribuiu. Ação solidária também, todas possíveis que chegam aqui, no nosso prédio, eu super sou em prol a gente colocar caixinha aí, todo mundo colaborar. Vamos ser um mundo colaborativo. Vamos ser participativos. Eu acho que eu sou muito assim, eu tento pedir para que as pessoas sejam. Não vou cobrar. Mas tento incentivar, pra que todo mundo seja colaborativo. Acho que todo mundo tem muito para contribuir nesse mundo, assim. E é isso.

 

(50:51) P/1 – Antes de fazer a pergunta em relação à você ser síndico, queria saber qual… como surgiu a ideia de montar uma marca?

 

R – Vamos lá. Falando agora da minha marca. Eu fui atrás da necessidade do que não tem. Hoje em dia está começando a aparecer, né? O movimento de moda,  o movimento de consciência das pessoas é meio que coletivo. A moda não é diferente, não foge à regra dessa coletividade. E está surgindo, hoje, essa parcela da população, a qual não tem representatividade, que é a pessoa que ainda não decidiu qual é o seu gênero, qual é… o que ela quer. Ela ainda não se decidiu se ela é cis, se ela vai ser trans, ou se ela gosta de menino ou gosta de menina, ou se simplesmente ela gosta de gato ou de cachorro. Acho que está tudo pra todes, né? E a marca foi com essa busca de abraçar todes. Que nem eu brinquei com você, que se alguém corta o pulso, seja eu, seja você, sai vermelho, sangue é vermelho de todo mundo. Até hoje eu não descobri se alguém tem o sangue azul. Falam que a realeza tem sangue azul, mas não tenho certeza disso, acho que, se corta o pulso, também sai vermelho. E a minha marca, eu a iniciei com essa busca de abraçar a todos, por mais que seja utópico, que digam que eu não consiga, eu vou tentar. E os produtos da marca são com a consciência e pegada ecológica de ser menos agressivo. De que eu, Danilo e quem consumir essa marca, sentir orgulho de falar: “Eu destruo pouco o planeta. Eu sou uma pessoa que quer o bem do planeta, eu faço em prol ao planeta”, não em um fator de destruir, sim em fazer em prol, ao crescimento de algo melhor. É o que eu estava te falando, produto… acho que papel pode ser tão incrível, de ser recriada tantas coisas, ser tão durável e tão menos poluente que o plástico. Afinal de contas, o plástico é químico. Você extrai algo que não é retornável pra terra. E o papel, pelo contrário, é celulose, vem da árvore. Vamos plantar que dá, entendeu? E ele, de novo, essa carteirinha, se você cansou dela, bota na terra, trinta dias ela virou terra de novo. Isso que é legal, sabe? Você está fazendo uma pegada transparente ao mundo, né? Você tem essa preocupação de ser transparente. E a minha marca é transparente em tudo, assim, é transparente na parte de impostos, que a gente é muito transparente em pagar todos os impostos corretos. A gente é transparente de mostrar que o nosso produto é pouco agressivo ao mundo. Gentileza gera gentileza. A gente tem produto que é simplesmente uma flor, pra você levar onde você for e alegrar o dia das pessoas com uma flor. E isso acontece. Fizemos estudos científicos que mostram que a pessoa, chegando com uma flor no peito, abre o sorriso da próxima. Então, é isso que eu busco: é o bem-estar, é o ser feliz, é estar com a consciência tranquila, que você fez o seu melhor, que você foi um agente motivador para mudar tudo isso. E abraçar os que não têm causa, os que não são abraçados, sabe? Os que se sentem isolados. Eu nunca passei por isso, Luiza e eu espero que ninguém da sociedade passe. Isso é uma coisa muito complicada, assim, pras pessoas. E, sei lá, se eu pudesse, eu abraçaria todo mundo. A gente está num momento pandêmico tão louco, onde o afastamento, isolamento social é algo que se tornou tão forte, mas, se você pode criar alguma coisa que a pessoa se sinta abraçada, por que não? A marca é isso, essa preocupação em abraçar. Abraçar o mundo, abraçar o próximo e abraçar se sentir acolhido, né? E é isso. (choro) Já tô chorando, de novo.

 

P/1 – Quais são os maiores aprendizados que você tira da sua trajetória profissional?

 

R – Os maiores aprendizados da minha trajetória profissional… eu acho que eu já fui te falando tanta coisa. Os meus principais aprendizados são isso, assim: de se preocupar com o amanhã, é viver o hoje, mas se preocupar com o amanhã. Por mais que eu possa não fazer parte do amanhã. Mas eu sei que eu deixei algo, não só pra humanidade, mas para o planeta. Uma preocupação de um amanhã melhor. Eu acho que a principal essência de tudo isso que eu aprendi, da minha vivência, do meu relacionamento, da minha carreira pela moda, é isso, é se preocupar com o próximo. E o próximo não é só o próximo humano, é o próximo bicho, é a próxima planta, é o próximo água, é o próximo vento. É se preocupar com todo próximo que está vindo pro planeta e que ela seja o melhor possível, pra quem ainda estiver aqui, né? É isso.

 

P/1 – Como foi se tornar síndico? Você enfrentou resistências?

 

R – Aí mesmo, Luiza, você quer pôr aí, porque…

 

P/1 – Eu acho que é legal. 

 

R – Enfim, vamos lá! Compramos nosso apartamento aqui em 2014.  O reformamos por seis meses e começamos a morar aqui, efetivamente, em 2015. No começo de 2015. Os primeiros anos a gente estava pagando, porque a gente fez um financiamento. Então, estávamos preocupados com as principais dívidas aqui e não tinha tempo de me envolver com essa questão. Daí foi ter eleição de síndico. O síndico, que o atual chamava Felício, infelizmente faleceu, já. Mas o ‘seu’ Felício chamou o André pra fazer parte do Conselho, ele: “André, você que é da Band, né, que é do meio de comunicação, vem participar do Conselho”. Eu estava junto, ele falou: “Eu não vou, não, mas o meu marido vai”. E assim eu entrei pro Conselho. O administrador antigo daqui do condomínio falou assim: “Ai, se você soubesse o que é o enrosco desse prédio, você nunca teria nem comprado uma unidade aqui”. Aí eu falei: “Então, eu comprei e agora estou fazendo parte do Conselho, então você vai engolir o que você está falando, porque eu vou fazer desse prédio um prédio decente”. Quando entrei pro Conselho, o prédio tinha o nome sujo, tinha bloqueio judicial de quase trezentos mil reais. A gente tinha umas unidades fechadas, gerando dívida, parada etc.E eu e um outro conselheiro, que é o Doutor Adilson, que hoje é o meu subsíndico e é um querido, a pessoa mais ética que eu já conheci nesse planeta, junto, eu falei assim… voltando mais um pouco, a minha irmã Patrícia, ela tem mania de falar assim: “Você consegue comer um elefante inteiro? Não. Mas se você fatiar, você não come? Então, vamos comer uma fatia do elefante de cada vez? E, com esse pensamento dela, a gente começou a fatiar os problemas do edifício. Em dois anos, como conselheiro, junto com esse Doutor Adilson e mais alguns outros conselheiros, a gente conseguiu limpar o nome do condomínio, a gente conseguiu uma unidade de volta pro condomínio, hoje está alugada e é revertido em renda, a gente pode fazer benfeitoria. Conseguimos todos os valores que estavam em bloqueios judiciais de volta, ao qual pudemos fazer as reformas que eu te comentei, de reformar uma academia de cento e trinta mil reais e colocar aqui dentro, entendeu? A gente conseguiu reformar a piscina, a gente conseguiu fazer todo um paisagismo de vasos novos no edifício e estamos saudáveis, temos dinheiro em caixa. Fora tudo que eu te falei de ecológico, porque a gente colocou a coleta seletiva, diminuiu o uso de papel. A gente tinha um consumo médio de mil reais em folhas de sulfite, por ano, no condomínio. Estou te falando sério. Para gerar boleto, gerar comunicados, gerar tudo. Esse consumo caiu para um bloco, uma resma por ano, de papel. Só aí o meu sorriso já dá um laço de saber que eu deixei de gastar, de sujar o mundo desnecessariamente. Porque, sei lá, a gente colocou as telas nos elevadores, que fazem a função e todo mundo amou e valorizou o patrimônio, sabe? Eu acho que não é difícil. E é isso, é querer fazer o bem pro próximo. Eu me valorizei? Valorizei. Minha unidade valorizou, porque tudo que eu fiz de benfeitoria está valorizando o imóvel, assim como as outras cento e uma unidades também entraram nessa. E é isso. E o próximo passo é a composteira. É o que eu te falei, vem aí.

 

P/1 – Como foi introduzir a coleta seletiva? Como foi conversar disso com os condôminos, aquilo que você estava me falando, de diferentes gerações? Como é trabalhar com essa diferença de pensamento?

 

R – A gente está numa democracia, graças a Deus, fico muito feliz e espero que a democracia continue por muito tempo. Em condomínio tudo é levado a um Conselho e quando é algo que envolve muito dinheiro, leva-se à assembleia. No caso, era um projeto não muito caro, a viabilização dele não era muito custosa. O valor fica em torno de quinze reais por unidade, por mês. Para termos a coleta seletiva de uma empresa idônea, que todo o lixo é voltado à cunho social, porque vai pra cooperativa sem fins lucrativos, a cooperativa que vai lucrar depois, com a coleta. Então, está movimentando essas famílias também. Infelizmente, as gerações mais antigas, os baby boomers, são mais resistentes a todas as inovações, sejam tecnológicas ou não. Porque essa é uma inovação física, de uma empresa de cunho organizacional… fugiu a palavra agora… as ONGs, o início de ONGs.O Instituto Muda é, de certa forma, uma ONG preocupada em tirar resíduos e usar o lixo limpo. E eu tive esse contato com o Instituto Muda logo que eu virei síndico, porque, aqui o prédio também não tinha Avcb, que é o auto de vistoria do Corpo de Bombeiros. Por vinte anos a gente nunca teve isso. Pagava-se quatro vezes o preço do seguro, por causa disso. E eu falei: “Gente, é uma coisa que é tão simples, por que não se adequar ao que o Corpo de Bombeiros exige? Porque, afinal de contas, eles estão aí pra proteger a gente, pra que não aconteça incêndio”. E, em cima dessa adequação do Avcb, o Corpo de Bombeiros solicitou que tirasse o lixo dos andares, a lixeira dos andares. E foi a deixa que eu tive, já que teria que fazer adequação, pra fazer implantação da coleta seletiva. Como eu te disse, os baby boomers, mais resistentes, falando: “Imagina, não quero gastar com isso, não quero fazer esse investimento”. O meu Conselho é formado por cinco conselheiros, comigo seis e a gente ganhou a maioria, de quatro a dois, de implantação da coleta seletiva no condomínio, com a primeira premissa de fazer o teste por um ano. Passou-se esse um ano, todo mundo ficou maior feliz com tudo isso, todo mundo gostou de reciclar, a resistência só foi inicial, só foi o pré-implantação. Com a implantação e o pós-implantação, todo mundo está indo junto, está gostando e cobra dos outros que não fazem isso. Que eu já vi senhorzinhos e senhorinhas falando: “Mas por que jogou o recipiente de suco no lixo comum? Isso é reciclado”. Então, é muito legal. Essas pessoas também já viraram a chavinha, né, pra essa coisa mais ecológica. E, só de fomentar a ideia, que eu te falei, de composteira, hoje já tem moradores que falam: “Quando a gente terá a composteira? Quando vem a composteira?” Ou seja: já está fomentando essa vontade de reciclar mais, de fazer mais e melhor pelo planeta. É isso.

 

P/1 – Como vocês aprenderam a separar o lixo? Como você separa e como você...

 

R – Tá, vamos lá. Eu, mesmo antes da implantação da coleta seletiva, eu já tinha o hábito de separar o lixo, por mais que ia tudo pra um lixo comum, eu separava o orgânico, que é o que eu te falei, do que é reciclado. Sei lá, do meu cantinho pequenininho, da minha lavanderia, eu dava uma forma do meu tanque de roupa virar o cesto de lixo reciclado. E não é difícil. Com a parceria de uma empresa grande, ou empresas que nem a Tetra Pak, que vocês estão vindo, a política reversa não é muito difícil com empresas como a Muda ou empresas grandes. Você só tem que separar o lixo limpo do lixo orgânico, né? É simples assim, você não precisa fazer a seleção do que é vidro, do que é papel, do que é lata, do que é metal, sabe? Bastou que seja limpo e, lógico, a gente tentar tirar o máximo de resíduo alimentar que tem, pra não criar cheiro, bactéria, nada do gênero, facilitando a vida, inclusive, dos catadores ou dessas cooperativas. Sei lá, eu acho que o mundo está melhor e tem muita gente trabalhando com lixo, com o lixo. As pessoas estão vivendo mais disso e o brasileiro é um povo para ser estudado. É um povo muito louco, né? Que, por mais que a gente fale, o Brasil é o primeiro país do mundo em reciclagem, gente. Isso é muito legal, entendeu? O brasileiro tem essa consciência também louca, entendeu, de deixar um impacto menor. Isso é muito bom, desse povo miscigenado, que é o nosso. Que aqui tem de tudo, né? Eu acho que é sorte nossa também, ser miscigenado desse jeito e ser aberto a novas possibilidades, a novas oportunidades, a novas tecnologias que vem aparecendo. O Brasil é o primeiro em muita coisa e o que não é primeiro, é segundo em muita coisa, né? A gente é um povo muito louco, mesmo. 

 

P/1 – Então, todas as embalagens são recicláveis, é isso? Inclusive plástico, embalagem longa vida também é reciclável.

 

R – Sim, também é reciclável. Eu acho isso até uma coisa muito louca, que o pessoal fala do papel metalizado, que não é um papel reciclado. Porém, a embalagem Tetra Pak é metalizada interna, mas a empresa tem essa preocupação da política reversa, em receber esse material e tratar esse material da melhor forma possível. Eu acredito muito que, daqui cinco minutos, daqui um futuro bem próximo, até o papel metalizado vai ser reciclado. Eu acho que tudo pode ser reaproveitado, Luiza. Eu estava brincando com você, do tecido. A cadeia têxtil faz uma coisa que chama “auréola” do tecido, que é uma necessidade pro tecido que é plano ter um guia pra corte etc e esse pedacinho de tecido chamado auréola não ser reaproveitável, isso era uma coisa que não entrava na minha cabeça, entendeu? E é o que eu te falei: que dá pra fazer uma parceria com empresas que a gente chama isso de rebolo e do rebolo você faz um filamento têxtil. E que contribui com as famílias mais carentes do Piauí, do Ceará, ou de algum polo que não seja tão grande como São Paulo, sabe? Você está ajudando o Brasil, você está ajudando o que é o nosso. Você está ajudando o seu próximo, mesmo que ele não esteja tão próximo, que ele está a alguns quilômetros de distância. Mas a felicidade de você ver essas mulheres, essas bordadeiras, crocheteiras, receber esse material. Você vê o brilho nos olhos dela. E ela, pra fazer aquele pedacinho de trapo virar um cachepot, um sousplat, um jogo americano. Isso é muito legal, isso é muito legal.

 

P/1 – Voltando rapidamente pro condomínio, eu queria saber se… o que é?

 

R – Não, vamos, vamos.

 

P/1 – ... se algo mudou, assim, no condomínio, depois da implementação desse projeto de sustentabilidade, de reciclagem, como você e como, de uma forma geral, os condôminos mudaram o jeito de enxergar a reciclagem.

 

R – Tá, vamos lá. Eu mudei, eu acho que um pouco antes disso, que é o que eu te falei. Eu já estava vindo com essa chavinha meio virada, de “vamos tentar fazer melhor pelo próximo e pelo planeta”. E é o que eu te falei, teve muita resistência no começo, mas da geração mais velha. As gerações mais novas, dos trinta pra baixo, todo mundo aceitou com o sorriso dando um laço de felicidade. Então, foi fácil a implantação. A empresa veio com incentivo, que eu te falei, do aplicativo, de você acumular pontos e reverter em algo benefício próprio, já que você está fazendo bem pro planeta, por que não você também ser beneficiado um pouco. Então, foi muito fácil. Depois da parte inicial, foi muito fácil. E é o que eu te falei que, a partir do momento que você vira a chave na cabeça, ou na sua, ou na cabeça do outro, o outro já começa a te cobrar isso, entendeu? Então, é o que eu brinquei, que os moradores do condomínio já estão me cobrando, por ser síndico, a implantação de coisas ainda mais sustentáveis, de: “Pô, vamos fazer o bem de uma forma até mais próxima” Não sabe como, mas quer ser um agentinho da mudança. E, das cento e duas famílias que moram aqui, todo mundo já está com esse bichinho carpinteiro de ser agente da mudança. Seja senhor, senhora, novinho ou criança. Já tem a preocupação. A Dona Tereza, que tem um netinho super fofo aqui, o menino vê papel no chão, opa, já pega o papelzinho, vai pra lixeirinha e já outro dia pôs a mão na cintura e falou: “Por que tem uma só?” Porque ele já queria que tivesse as cestinhas separadas da coleta. Ou seja: ele já veio com a chave virada, entendeu? A criançada aí dos cinco, seis, sete, dez anos já estão com a chave virada e já cobram isso. Cobra primeiro do círculo próximo, que são os pais, tios e avós. Se estão um pouco maiorzinhos, já cobram do social, que é o meio escola e colegas. E isso é muito importante. Se todo mundo já estiver com essa chavinha, cara, certeza que a gente tem um mundo melhor amanhã.

 

P/1 – E como… o que você acha que pode ser feito, para aumentar essa conscientização ambiental?

 

R – Engajamento. Eu acho que falta engajamento. Assim, sabe, é cansativo. Para as pessoas que têm essa preocupação, é cansativo. Às vezes, eu brinco que tem que dar textão. Você tem que explicar a questão pras pessoas e, de repente, a coisa muda. Eu acho, a gente está super na veia do ecológico, mas eu vou pegar agora a pegada de racismo. Estava te falando uma coisa que era simples, que a minha geração, a geração do Saulo super teve, assim, eu tenho um ‘criado mudo’ do lado da cama e eu acho que a consciência é mudar, porque eu não tenho um ‘criado mudo’ do lado da minha cama, eu tenho uma mesa de cabeceira. Uma simples palavra pode mudar milhares de coisas. Ontem eu falava ‘criado mudo’, mas eu aprendi. E eu acho que, se eu posso não ofender alguém simplesmente por chamar mesa de cabeceira, por que que eu vou continuar chamando criado mudo? Então, mais uma vez, seja o agente da mudança, entendeu? E o mundo está aí pra mudança, o mundo está pra todes. O mundo não está pra todas ou pra todos. O mundo está pra todes, pra quem ser o que quiser ser. E, mais uma vez, eu só não quero que seja muito poluente. O cara que gosta do carro que ronca o motor, só que, meu, ele está agredindo o ar pra caramba, só pra ele sentir o ronco do motor. Então, cara, vamos mudar? Se ontem você fazia o seu motor roncar, ok, passou. Hoje você não precisa disso e tenha a certeza que o ar vai te agradecer muito. É legal isso, entendeu? Você ter essas pequenas preocupações. Ou, que nem eu estava te falando das fazendas de água, logo no começo da tarde, quando vocês chegaram aqui. A importância de se ter uma fazenda de água, cara! De se fazer água para as próximas gerações poderem ter o que beber. A gente não está falando poder ter água pra lavar a roupa, porque, se Deus quiser, até 2050, isso vai ser algo que não vai pertencer mais pra gente. A água vai ser um bem tão valioso, tão valioso, que vai servir só para alimentação humana e animal mesmo. E é isso.

 

P/1 – Como é o seu dia a dia, hoje?

 

R – Meu dia é abrir o olho, um, dois, três, valendo. Eu brinco que é o meu dia. E até dormir é um, dois, três, valendo. A hora que eu fecho, eu tenho certeza que eu fiz o melhor que eu pude naquele dia. Não fiz tudo que eu precisava, mas eu fiz o melhor que eu pude naquele dia. E eu acho que a gente é múltiplo. Os meus dias, hoje, são os dias de uma pessoa que tem que ser múltipla. Porque eu sou homem e mulher da casa, eu sou síndico, eu sou administrador de uma sequência de uns vinte imóveis... não, exagero, corta isso. Uns doze móveis. Cuido desse prédio, de cento e duas famílias. Desenvolvo uma marca quase sozinho, porque a equipe da empresa é super reduzida. Porque também eu acho que a gente tem que tentar aproveitar o melhor da gente, sempre. 

 

P/1 – Você quer falar um pouco do seu casamento?

 

R – Essa é a parte mais gostosa da vida.

 

P/1 – Então, como foi se casar?

 

R – Bom, conheci o André em 1998, há milhares de anos, brincadeira, 23 anos atrás. É uma pessoa incrível, é o meu companheiraço. É uma pessoa que, quando eu conheci, trabalhava com importação e exportação, na UPS. E, de lá, ele tinha o sonho de ser jornalista e eu falei: “Vai estudar o que você quer, vai se formar no que você quer”. E ele entrou no grupo Bandeirantes, como estagiário da novela Dance, Dance, Dance, uma novela de alguns anos atrás. Está lá até hoje. Hoje ele é gerente da assessoria de imprensa do grupo inteiro. Responde por todos os programas, seja rádio, seja TV, nessa parte de assessoria. A gente é mega, ultra, wow, wow, feliz. Já a gente começou do nada, sem apoio de nada e ninguém. Era só um apartamento com uma cama e a gente feliz da vida e daí a primeira noite, assim, de relacionamento, como um casal que a gente foi ter, a gente descobriu que não tinha cortina e que todos os vizinhos estavam vendo tudo que a gente estava fazendo. Isso na Rua Áurea, na Vila Mariana, que foi a nossa primeira casa juntos, um apartamento alugado. É um relacionamento incrível, com milhares de shows, milhares de viagens. A gente gosta muito de cultura, gosta muito de ler. Então, a gente tem muito livro, eu tenho uma pequena biblioteca aqui, na parte de cima, no meu escritório, com muitos exemplares, mais dele do que meu. Ele é um leitor voraz. Enquanto ele lê um livro por semana, eu leio um livro por ano. Mas me informo bastante. Posso não ler livro, mas tô sempre no meio da informação. É uma pessoa que exige muito de mim, né? Assim, em vários aspectos, pra eu ser um ser humano melhor e eu, a recíproca é verdadeira, faço o mesmo com ele. Somos um casalzaço. Só nos casamos em 2017, que foi quando nosso país autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isso foi autorizado em maio, a gente casou em junho, julho. A gente casou no dia vinte de julho e estamos nesse matrimônio até hoje, de união. Tivemos a Mia, que é a nossa filha de quatro patas, né? Que está com a gente já há 16 anos. Nossa história sempre foi em São Paulo. Tudo aconteceu aqui, em São Paulo. Estamos aqui em São Paulo desde então. Ele é santista e eu paulista. Fazemos esse casal muito louco aqui, que recepciona todo mundo muito bem e todo mundo é muito abraçado e bem-vindo aqui. E é isso.

 

P/1 – Danilo, como a pandemia impactou a sua vida?

 

R – A pandemia fez a minha vida virar de cabeça pra baixo, né? Porque é o que eu estava te contando, eu tinha um emprego fixo, eu tinha empregos freelancers fixos, modo de falar, coisas com rendas fixas e minha vida virou de ponta cabeça. De um jeito que eu tive que me reinventar. Eu resolvi começar uma marca própria, no começo da pandemia, foi no dia 20/02/2020. E daí, no dia 18 de março, o planeta fechou. Tudo aconteceu no dia 18 de março e eu tive que me reinventar. Uma forma de reinventar foi acreditar nos meus sonhos e fazer o sonho virar verdade, de verdade, né? Então, já que eu contribuía com empresas para ser menos impactante, por que não fazer isso do produto da minha marca? E eu comecei a ter o brilho nos olhos pra isso. Então, fiz esses pequenos porta-cartões, que são feitos com papel reciclado, Zetex de Kraft, uma coisa super simples, que não é nada super inovador, mas eu tô tentando mostrar de uma forma inovadora, de fazer algo novo com algo que era velho. E acreditar nisso. E o legal é que onde eu chego e pra quem eu mostro, as pessoas compram a ideia e acreditam comigo. De ser menos poluente, de ser sustentável, de acreditar num amanhã melhor, deixar o mundo melhor. É isso.

 

P/1 – Qual o impacto na sua vida, desse modo de vida sustentável, que você virou a chavinha e trouxe pra si, assim? Qual é a importância e qual foi a mudança que a reciclagem, o modo de vida ecológico mudou, te tocou?

 

R – Essa coisa de vida mais ecológica vem em uma mudança constante, mais uma vez. E eu acho que é importante tudo. A gente é o que a gente come, por exemplo. Então, quanto mais comida de verdade você comer, melhor, menos industrializado, menos processado, muito melhor. Então, acho que a minha mudança veio pra tudo, desde a comida, até o lixo da casca do que eu não utilizei, como eu vou fazer isso não se tornar algo agressivo ao meio ambiente. É uma felicidade pra mim. Todo dia era pôr a cabeça no travesseiro e saber que eu fui um agente da mudança, sabe? Fui uma pecinha que me preocupei em sujar menos, em agredir menos. E o agredir, o agredir menos é agredir o próximo menos. Seja com palavras ou com ofensas. Agredir menos o mundo, né, o meio ambiente. Que nem eu tô te falando, eu sou uma pessoa não muito em prol plástico. Eu sou uma pessoa em prol ao papel, que é o que eu te falei, que é uma fonte renovável, que plantou, depois você tem que ter muito carinho, tem que regar, dar muito amor, vai crescer uma árvore, que pode ser que vire papel, que vire mesa, que vire cadeira, que vire alguma coisa muito legal, entendeu? Mas sem mexer com petróleo, sem mexer com o que é poluente. Mesmo porque, esse processo do petróleo, do combustível, que nem eu te falei do carro, sabe? Uma forma de eu ser menos poluente é não usar carro. Parece que é pouco? Parece. Mas é a minha forma de mostrar que dá certo. Eu vou deixar de usar um transporte, também, público? Não vou? Vou deixar de usar os aplicativos de carro, de locomoção? Também não vou. Mas eu tô usando menos, eu tô usando mais a máquina humana. Eu me alimentei de banana, posso andar pra caramba. E é isso que é legal, é isso que me motiva e que me faz dormir tranquilo toda noite.

 

P/1 – Quais são seus maiores sonhos?

 

R – Meus maiores sonhos é realmente, daqui alguns anos, ainda ter um planeta sem coisas muito agressivas, sem catástrofes naturais, para uma geração poder viver bem, poder curtir uma praia. 

 

P/1 – Danilo, eu gostaria de saber se você tem alguma coisa, se você quer acrescentar alguma coisa, alguma passagem da sua vida que eu não tenha te perguntado, ou deixar alguma mensagem sobre a importância da separação, da coleta, da reciclagem de resíduos, um espaço aberto.

 

R1 – Beleza, Lu. Eu acho que a importância, na verdade, é a gente se preocupar com o amanhã. A mensagem que eu quero deixar é essa, gente: vamos nos preocupar com o amanhã. Viva o hoje, mas se preocupa com o amanhã, se preocupa em deixar alguma coisa pros outros que estão ficando atrás de você. Que estão continuando nesse mundo louco. É isso, vamos fazer o bem pro próximo. Vamos abraçar o próximo, entendeu? Pode ser literal ou não. A preocupação de ver o olho sorrindo, do próximo, é isso. Eu tenho muito essa preocupação, do bem-estar. Não só meu, o meu bem-estar é muito importante, mas o bem-estar de todos que me circundam também. É isso.

 

P/1 – Como foi, pra você, dividir um pouco da sua história com a gente, pensando desde a infância, da sua família…

 

R – Foi muito emocionante, chorei algumas vezes, fiquei emocionado aqui, em algumas partes. Me emocionei também nessa parte de “vamos nos preocupar com o mundo, vamos nos preocupar com o próximo, vamos fazer o bem pra todos que estão por aí”, é isso.

 

P/1 – Você quer falar daquele… da sua frase de filosofia de vida?

 

R – Minha frase de filosofia de vida?

 

P/1 – Você mostrou.

 

R – Eita, qual? Eu falei tanto já, Luiza. Esqueci. Ai, eu tenho que ler de novo, amiga. Dá uma parada aí. Eu acho que é muito importante que, se você nasceu num mundo em que você não se encaixa, é porque você nasceu pra criar um mundo novo. Isso é algo que eu acredito muito e me preocupo, que todo mundo tenha um mundo pra chamar de seu. É muito importante isso na vida de todo mundo.

 

P1 – Obrigada!

 

R – Ai, de nada. (choro) Já aí, já tô chorando de novo.

 

P/1 – Obrigada, obrigada, obrigada.

 

R – De nada, gente. Foi superdivertido.

 

 

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