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História

Um mestre de Cachoeira

História de: Oldemar Duarte Farias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/06/2008

História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Oldemar.

R – Boa tarde.

P/1 – A gente gostaria, pra iniciar, que o senhor falasse o seu nome, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Oldemar Duarte Farias. Nascido em Fortaleza, nasci em Fortaleza, no dia 22 de dezembro de 1931. Aconteceu um fato importante: nós viajávamos, eu era neném, meu pai compra uma passagem num navio misto, cargueiro e passageiro, pra gente ir de Fortaleza para o Rio. Só que nessa viagem, eu fiquei doente. O navio teve problema, ficou em Recife dois dias pra conserto. De Recife para o Sul, o navio perde a rota. Nós ficamos dez dias perdidos, sem rota, sem saber pra aonde ia. Eu muito doente, minha mãe pensando que eu pudesse morrer, agoniada de eu ser sepultado no mar, né? E com aquele nervoso da minha mãe, quando chegamos a um local, já era a costa da África. Aí, os marinheiros de lá sinalizaram com o navio oferecendo prático pra ver se o navio queria aportar, mas não aceitaram, né? Meu pai também, por acaso, era marinheiro, só que nesse navio ele não estava trabalhando de marinheiro. Aí, viemos direto da África a Salvador. Em Salvador, meu pai teve que desembarcar porque eu passava muito mal, eu estava muito doente. Entra no navio, quando meu pai ia desembarcando, um médico negro e meu pai reconheceu que ele era médico por causa do anel. Aí, falou pra ele: “O senhor poderia examinar o meu filho porque ele não está passando muito bem?”. Aí, o médico disse que não podia no navio, que era falta de ética, que no navio deveria ter médico, que meu pai desembarcasse em Salvador e fosse numa farmácia que tinha no Mercado Modelo, ao lado do Mercado Modelo ou no Mercado, não sei. E lá, esse médico me consultou e aconselhou o meu pai para desembarcar em Salvador, que ele ia ao Rio, ficar em Salvador pra me tratar. Mas não era tratar de doença nenhuma, me tratar de santo, que eu tinha um problema espiritual, que meu pai procurasse uma pessoa na Barroquinha, uma senhora na Barroquinha que fazia trabalhos assim, cuidava de candomblé, cuidava de santo. Meu pai, então, me leva lá, e eu me lembro que minha mãe contava, eu era criança, o que esta mulher pediu, entendeu? Os apetrechos que ela pediu pra fazer o trabalho pra mim foram roupas de criança. Então, hoje, pelas roupas que foram pedidas, as cores que foram usadas, depois, homem que tomei conhecimento das coisas, eu passo a tomar conhecimento, qual seria o trabalho que foi feito pra mim? O médico disse pro meu pai que o meu remédio era banho de semente de linhaça e chá de semente de linhaça, que não ia passar nenhum remédio de alopatia pra mim. E essa mulher que me cuidou na Barroquinha só passou foi banho. Só passou o banho e chá. Meu pai alugou uma casa na Conceição da Praia, alugou um sobrado, viu? Tinha um sobrado ali, ficamos morando ali uns tempos. Quando foi, me parece, em 34, 33, ele vai ao Rio. Eu quando nasci em dezembro de 31, 33 ainda, no início do ano, eu ainda estava com um ano. E me leva na casa do tio da minha mãe. Ele era do Congo, entendeu? Porque a mãe dele, minha avó Sinhá, era do Congo. Quando ela veio da África, trouxe o meu tio com dez anos de idade. Esse meu tio fez um trabalho espiritual, né, ele me recolheu pra uma determinada obrigação, e eu fiquei bom completamente. Meu pai muda-se para o centro do Rio, centro que tá a cidade do Rio, foi a Campo Grande no Rio, ficou uns tempos em Vassouras, depois Campo Grande. Aí, eu me lembro, né? Eu cresci um menino muito peralta. Eu me lembro de tantas coisas que eu fiz que hoje são coisas importantes, e uma das coisas era essa de levantar escondido, de madrugada, e recolher as vacas pra tirar leite. Porque eles me davam um latão de dez litros de leite pra eu levar pra casa, entendeu? Todo dia de manhã cedo, eu ia entregar o leite na cidade. Aí, pegava o seguinte, não fazia os trabalhos da escola, os trabalhos de casa. Quando eu entregava o leite, amarrava o cavalo na chácara que era perto da escola, ia fazer os trabalhos, os deveres de casa sentado na porta da escola antes de começar as aulas. Então, ficou no costume de a minha turma, todo mundo, sentar, principalmente trabalho de Matemática, eu tinha que ensinar todo mundo. Eu era o que menos estudava e que ensinava todo mundo. Todo mundo só fazia os deveres depois que eu chegava, também se acostumaram a não fazer em casa. Aí, ficou nisso. Eu nunca tinha desconfiado que eu tinha uma certa tendência, assim, pra estar ensinando uma coisa ou outra, né? Quando eu já tinha até me, não, não tinha me casado, eu era rapazinho, 16, 17 anos, estava fazendo esse curso do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), curso de aprendizagem comercial, e a professora vai, passa um dia, a professora de Matemática, ela passa uns problemas, passa umas equações, umas coisas, e ela foi comentar em outras turmas que na minha turma tinha um professor de Matemática e deu o meu nome, né? Então, na hora vaga que não tinha aula pros alunos, os alunos vinham à minha sala me procurar, pra eu ensinar Matemática a eles, entendeu? Aí, foi acontecendo as coisas na minha vida, né? Eu tinha pena dos jovens que vinham do interior do Estado do Rio, ficava lá. Então, tinha um menino que ele tinha feito até a quinta série, mas ele mal sabia ler. E eu comecei a ensinar ele, botei ele lá em casa todo dia, eu ensinar ele tudo, né? O programa todo: Geografia, História, Português, Matemática, tudo, e ele foi se desembaraçando. Primeira coisa que eu fiz, foi ensinar ele a ler e compreender a leitura, e isso foi acontecendo com esse menino. Aí, passei uma temporada sem o Rio, mudei para a Bahia, fiquei uma temporada. No dia que eu chego lá que eu encontro ele, ele me abraçou, me levou uma garrafa de whisky, disse pra mim que era por minha causa que ele era gerente de uma importante empresa, que quando ele viajou de São Fidélis ao Rio, ele não tinha esperança de nada. E como ele aprendeu a ler comigo, ele teve condições de dar continuidade aos estudos dele. Um dia, eu moro numa casa em frente, do outro lado da rua tinha uma casa de candomblé, que lá no Rio chamam de umbanda. O pai de santo era conhecido como Zé Pretinho da Macumba. Zé Pretinho da Macumba um dia chega pra mim assim: “Ô, ô...” Ele me chamava “Odimar”. “Odimar, eu te peço uma coisa: vou te pedir pelo amor de Deus, me ensine a ler. Eu não sei ler, queria que você me ensinasse a ler porque eu fico com vergonha quando minhas filhas, já estão no ginásio, me pedem pra eu explicar algumas coisas, eu não sei falar nada”. Aí, eu comecei a ensinar ele a ler. Ele falou que queria fazer um concurso pra polícia. “Eu quero ser da polícia, fazer um concurso pra polícia...” Porque ele era funcionário da Prefeitura do Rio, aquele tempo lá, era Distrito Federal, ele era funcionário e ele dizia pra mim: “Ó, recebo meu pagamento, eu desenho o meu nome, eu não sei uma letra do meu nome”. Ele entrou, talvez lá, arrumado, né? E ele vai, ensinei ele a ler, conversei com o diretor da Escola Venezuela, de Campo Grande, era o professor Joaquim, conversei com o professor: “Professor, tem um rapaz assim, assim”. Contei toda a história dele. “Esse rapaz precisa de um certificado do curso primário, eu alfabetizei ele, ensinei ele a ler, ensinei Matemática, ensinei tudo. Ele poderia fazer uma prova, o senhor não daria um certificado a ele de curso primário, um certificado de curso elementar, qualquer coisa?” Que existia o curso elementar. Aí, ele foi fazer a prova, tirou o certificado. Passado anos, anos, eu estou assistindo um programa de televisão, a posse do governador do Estado do Rio, foi quando deixou de ser estado da Guanabara, foi ser Estado do Rio, e o primeiro governador foi o Leonel Brizola. Na hora que Leonel Brizola estava apresentando o seu secretariado, quem era Secretário de Viação e Obras Públicas? Doutor José que era o Zezinho da Macumba, Zé da Macumba. Até chorei nesse dia, entendeu? Doutor José era Secretário de Viações e Obras Públicas no Rio de Janeiro. Passaram os anos, entendeu? E assim a minha vida correu, vem correndo. Eu tive negócios, passei pra trabalhar na minha profissão. Eu tive loja no Rio, eu tive fábrica de roupa no Rio, tive fábrica de roupa em São Paulo. Então, eu cheguei a ter até uma posse razoável, mas devido a minha religião também, eu resolvi me transferir para a Bahia. Por que? Quando eu fiz a preparação pra ser dessa religião, quando eu fiz em 1959, o meu avô deixou uma determinação pra mim, que ele não me queria morando no Rio de Janeiro, que eu me transferisse pra África ou se eu não fosse à África, que eu viesse à Bahia, que a Bahia era a continuação da África. E foi o recado que eu recebi do meu avô, eu vim à Bahia. Aí, passaram os tempos, eu comecei estudar o idioma Iorubá com um primo da minha mãe, em um livreto escrito pelo mestre Didi: “Iorubá tal qual se fala”, que foi publicado em 1950. Antes disso, quando era criança, eu aprendi um pouco da língua Quincongo com a minha vó, em casa. Vovó sabia muita coisa da língua, lógico, a mãe dela era da África, do Congo, né? E aprendi muita coisa do Quincongo, e mais tarde, eu venho a aprender o idioma Iorubá, em 67. Aí, eu tomei gosto, eu tomei gosto. Uma pergunta que uma aluna uma vez me fez aqui em Cachoeira, foi em Cachoeira. A aluna me fez uma pergunta, por que eu me interessava pela cultura africana? Aí, eu expliquei pra ela: “Embora vocês, não sei se vocês tenham sentido ou tenham sido atingidos por uma discriminação”. Porque existem vários tipos de discriminação, né? Aí, logo na escola, quando eu começo a freqüentar a escola em 1937, 38, começo a freqüentar a escola, eu ia fazer sete anos, né, em 38, a professora mostra pra gente, eu me lembro até hoje, era uma Geografia de Gaspar de Freitas. Ela mostra como que nosso povo era formado, a nossa raça, porque naquele tempo só existia quatro raças no mundo. A gente era igual ao cachorro porque raça é cachorro, cavalo, touro. Então, nós tínhamos raça: a raça vermelha, a raça branca, a raça amarela do mundo, né, e a raça negra. Aí, ela mostra naquela Geografia de Gaspar de Freitas com um retrato de um negro, ela diz assim: “Infelizmente, nosso povo tem o sangue desse negro, dos negros que vieram da África. Quando vocês virem um negro de fronte bem grande, vocês corram porque geralmente são tarados. Se nós temos tarados no Brasil - você vê o sistema de ensino no Brasil naquele tempo – se nós temos tarados no Brasil é por causa do povo negro, do povo do Congo principalmente, que os tarados vêm do Congo”. Aquilo, ela estava falando direto comigo porque vovó era negra, a minha bisavó era do Congo, você entendeu? Aquilo calou em mim e me machucou. Eu era muito pequeno, cheguei em casa e perguntei ao meu pai o que é que era tarado. Meu pai não quis me explicar: “Ah, tarado é um homem maluco”. Aí, eu chorei muito, perguntei à minha mãe, aí fui perguntar a ele: “Meu pai, escuta, na nossa família tem algum tarado? Será que na nossa família tem algum tarado?”Aí, foram e me perguntaram por que é que eu estava insistindo com aquilo? Não sei, que não tinha nenhum tarado na nossa família, não tinha, e sempre eu via a minha avó como pessoa bonita. Eu comecei enxergar o negro bonito desde criança, desde que eu nasci. Não é porque eu estudei a cultura, entendeu? Aí, eu acabo me conformando e aquilo me marcou porque eu nunca mais pude endereçar os meus objetivos a não ser estudar qualquer cultura condizente com a África, né? Isso foi passando, eu venho a Salvador...

P/1 – Deixa eu só retomar uma coisa seu Oldemar, o que é que o senhor sabe dos ancestrais do senhor? Da sua avó, da bisavó? Do pessoal que veio do Congo, o que é que o senhor conhece desta história?

R – Essa história da minha bisavó, não, do meu tio avô, foi que ele deu uma obrigação à minha cabeça quando eu tinha um ano de idade. E da minha vó, o que eu aprendi com ela que até hoje eu sei como é que faz, é fazer sabão da costa. Aqui na Bahia chama sabão da costa, é um sabão preto feito com folhas. Esse sabão na Nigéria ou na língua iorubá, ele chama-se oxedudu, que a palavra dudu quer dizer preto, e oxé, sabão. E na língua que minha avó falava era saba porque é feito de folha e folha nessa língua chama-se saba, entendeu? Então, vovó fazia saba. Eu aprendi a fazer. Isso é uma coisa que até hoje me pertence, né, são essas coisas, entendeu?

P/1 – O senhor sabe por que a sua avó veio ao Brasil, seu Oldemar?

R – Minha bisavó veio ao Brasil pra poder trabalhar na abolição da escravidão.A minha avó era casada com um cidadão que, embora ele fosse do Congo, parece que ele era registrado como português. Parece que nessa época, o Congo tinha um vínculo com Portugal. Então, ela veio, eles trouxeram dinheiro, compraram uma fazenda em Vassouras. Ali, ela reunia todos os negros doentes e os velhos, e dava carta de alforria a eles. Aí, é uma das histórias que eu sei de vovó, da minha vó Sinhá, que era a mãe de meu tio Custódio, o nome dele latino era Custódio, entendeu? E do irmão dele que já era brasileiro, tio Alberto Caravana, que era irmão da minha avó mais novo. Minha bisavó queria que ele fosse católico, que ele fosse padre e colocou ele no seminário. E ele depois de ser ordenado padre, ele vai à África fazer catequese. Só que ele quando retorna da África, ele retorna como, como é que se diz? Zelador de santo, essas coisas aí. Ele nunca teve nenhuma casa de candomblé, nada disso, mas ele era da religião. Agora, desses meus parentes, teve um filho do tio Custódio, que era primo da minha mãe, o filho do tio Custódio, era tio da minha mãe, chamava Custodinho. Ele dava uma festa na casa dele todo dia de São José em homenagem ao pai dele. Eu não sei o porquê. Era uma festa, uma comemoração que eles faziam. E ele fazia no quintal uma fogueira e colocava todo o povo mais simples, os negros, tudo, pra dançarem as músicas, as coisas da África, foi onde eu assisti muito caxambu, que é uma dança religiosa, entendeu? E o Custodinho fazia em casa, dentro do salão, o baile com a sanfona, e do lado de fora, era o caxambu. Então, o caxambu consiste em uma fogueira, e as pessoas dançam ao redor da fogueira e cantam seu saudosismo, né, naturalmente. Foi quando eu ouvi muitas cantigas que eu recordo até hoje. E a gente brincava muito com minha irmã, que minha irmã chama-se Cida. E eles cantavam no caxambu pra Gongobira: “Gongobira vem ficar aqui, ô Gongobira vem ficar aqui, vem ficar comigo”. E aquela lenga-lenga a noite toda, e a gente pra brincar com minha irmã, chamava: Ô Cida vem ficar aqui”. Essas coisa, sabe? E quando a gente não podia ir à casa de Custodinho ver o caxambu, a gente ficava do lado de fora de casa, da casa da gente, olhando pro céu pra ver os africanos irem à África montando no caxambu porque quando chegava altas horas, eles, então, parece que se embriagavam ou entravam em transe, era um transe, ou da bebida, ou do sobrenatural. Eles, então, iam à África buscar notícias dos parentes. E a gente queria falar com os africanos pra trazerem notícias também dos parentes da gente, né? Aí, eu era muito criança e, talvez, até não visse nada, mas meu pai fazia a gente olhar pro céu: “Tá vendo? Tá passando um”. E a gente acabava vendo, acabava vendo, sabe? Eu me lembro de uma cantiga que eles diziam: “Já plantou café de meia, já plantou cana? Já plantei café de meia”. Por que? Na época, quando foi abolida a escravidão, o sistema de escravidão transformou-se num sistema feudal. Então, os patrões começaram a dar meia para aquele que era escravo e ter o que comer, né? Você planta feijão aqui, mas a metade é da casa, entendeu? E um trabalhava uma terça, outro trabalhava uma meia, tudo. Aí, tinha uma cantiga que eles cantavam: “Eu já plantei café de meia. Eu já plantei canavial. Café de meia, não dá lucro, sinhá dona, mas canavial, cachaça dá.” Ô, segura o touro, Cabinda, e amarra Se o touro é bravo, cabinda, joga ele no chão”. Cabinda era um povo de Angola, de Cabinda, que eles eram contratados pelos patrões para serem capitães-do-mato. Então, tinha os cabindas, principalmente os crioulos, que eram filhos dos africanos, eles eram favoráveis aos escravos. Eles eram contra os outros capitães-do-mato. Então, aquela cantiga seria uma metáfora. O touro era o valente que vinha prender eles, entendeu, era o capataz, né? Então, ele mandava: “Segura o touro cabinda e amarra no porão. Se o touro é bravo, cabinda, joga ele no chão”. Então, essa música e outras músicas, que eu sei um bocado de música, são as músicas que cantavam naquele tempo. Então, essas são umas das recordações que eu tenho. E mais tarde, né, eu me transporto a Salvador. Eu tive um derrame muito sério. Eu fiquei 16 dias em coma e fiquei com isquemia cerebral, esqueci até nome dos meus filhos eu não me lembrava. Durante dois anos eu não podia falar. Até esquecer mesmo, de minha filha ligar pra mim e eu pensar que era trote. Aí, o médico disse que eu tinha que ler muito pra exercitar a mente, é...como é que se diz? Ventilar a mente, era falta de oxigênio, oxigenar a mente, né? Aí, eu passando pela Escola de Belas Artes, eu vi anúncio de um curso, eu já estava trabalhando. Eu trabalhava de estilista de moda, modelista. O curso de desenho, comunicação cênica, plástica e cênica. Eu me matriculo nesse curso, eu não aprendi a desenhar nada. Eu trabalho com desenho dos outros. Mas aprendi a fazer aquela comunicação cênica, foi bom pra mim porque eu já estava sendo professor de iorubá da Sociedade de Preservação do Idioma Iorubá no Brasil. Eu era aluno e estava fazendo estágio com um professor, o professor Baraúna. Ele sentava na minha frente e mandava eu dar aula. E ele, de vez em quando, ele gritava comigo pra eu falar alto, que ninguém ouvia o que eu falava. Então, esse curso foi bom pra eu desenvolver minha fala, falar e tudo, entendeu? Foi muito bom. E aprendi também a ensinar alguma coisa, né? Foi ótimo, e esse curso do professor Baraúna também foi um empurrão pra mim. Quando eu deixo de dar aula lá, eu passei a dar aula de Iorubá na Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro. Dei aula lá na Federação durante um ano. Como eu não recebi nada, ninguém pagava nada, eu passei a dar aula na Casa do Benin, em Salvador, dei aula na Casa do Benin. Da Casa do Benin, eu fui dar aula no Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra Cdcn, Conselho de Cidadania do Negro, alguma coisa assim, entendeu, Cdcn. Aí, passei a trabalhar lá no Cdcn, nesse tempo, foi quando chegaram lá na Casa do Benin um pessoal. Uma das funcionárias me chama pra eu dar uma explicação a uma pessoa que queria saber de uma peça que estava exposta e com escrito em língua Iorubá. Quando eu cheguei lá, o rapaz me perguntou: “Essa peça, o que é que é?” Eu comecei a explicar a ele tudo o que é que era, estava escrito em língua iorubá, né, pensando que ele estivesse sozinho, mas aparece uma moça e disse a ele: “Ah, professor, podia convidar ele pra fazer uma palestra”. Aí, foi que o professor se apresentou: “O meu nome é Francisco Alfredo”. Ele chama-se Francisco Alfredo de Moraes. Francisco Alfredo vai e me perguntou: “Eu sou professor da Universidade do Estado da Bahia, Uneb. Eu tô aqui com minha turma. Eu vim fazer uma aula técnica. Eu gostaria que o senhor fizesse uma palestra pra gente na Uneb, pode fazer?” Eu falei: “Posso”. “E o senhor assumiria um curso de Iorubá lá na Uneb?” Isso em 2001. Eu falei: “Assumo, sem problemas, assumo”. Então, o trabalhão todo foi quando eu fiz essa roupa. Trabalhão todo, eu vou à Casa da Nigéria, converso com os africanos, fiz um bocado de transparência e em preparei todo pra fazer essa palestra. E ele, então, abriu a inscrição para as aulas. Quando eu termino de dar a palestra, tinha 71 pessoas inscritas, estão, na aula do idioma iorubá. Eu tive que fazer duas turmas. Aí, que foi o problema porque eu não sendo universitário, metido a professor, como que eu ia trabalhar com professores, com alunos acadêmicos dentro de uma universidade? Essa questão me forçou a estudar, me forçou a estudar, a saber das coisas, entendeu, porque tinham alunos que estavam fazendo doutorado na Universidade Federal da Bahia (Ufba) que estudavam Iorubá comigo lá. Teve alunos que foram fazer a apresentação de trabalhos, de coisas que eu orientei eles, na Sorbonne, Paris. Eu falei: “Não, eu tenho que estudar, não posso conviver com esse povo sem estudar”. Eu era quase leigo dessa questão, sabia a língua, mas as histórias, as histórias, entendeu? As pesquisas de professores, eu comecei a me interessar. Eu fui fazer parte do núcleo do povo dessa modernidade, que na Uneb tem esse núcleo lá em Alagoinhas. Eu fui convidado pelo professor Osmar Moreira pra eu participar desse núcleo. Entrei no seminário pra falar sobre o povo malê. Eu falei: “Mas eu não sei nada do povo” “Ah, você fala qualquer coisa, você não pode deixar de falar”. Falei: “Mas como é que eu vou falar do malê, eu não posso falar. Eu não vou enganar ninguém que eu sei uma coisa que eu não sei” “Fala que eles mal sabem ler, é malê”. Eu fui, fiz uma pesquisa rápida sobre malê, entendeu? Mas as coisas que eu sabia eram do Male na religião. Eu não sabia do malê na política e senti até um certo medo em falar certa questão do malê. Na verdade, o malê, ele é parte do povo da subalternidade, ele fez parte. Também, porque ele era africano, mas de contrapartida eram pessoas poderosas porque eles eram islâmicos também, né? E as pessoas que passavam pra essa religião, eles tinham que aprender árabe, eles tinham que aprender árabe mesmo aqueles que já eram da religião da tradição africana, aprendiam árabe. E eles, então, criaram um sincretismo entre a religião islâmica e a religião que eles já cultuavam da tradição africana.

P/2 – Mas de onde que vem essa ligação com o árabe?

R –O islamismo foi fundado no século VII. E Maomé, parece que ele nasceu em 1610, entendeu? E o islamismo foi fundado e apareceu lá já em meados do século. Então, o Islã, eles falam árabe porque é da Arábia Saudita, a cidade de Meca, entendeu, são lá. Por isso que os islâmicos ou os mulçumanos em qualquer parte do mundo onde é que eles estejam, eles fazem, eles seguem a regra. Eles fazem cinco orações por dia sempre virados em direção a Meca. Isso, até um dia desses, eu fiz uma palestra na Uneb, lá em Euclides da Cunha, eu estava falando sobre isso quando contestaram comigo, por que é que no candomblé faz matança de galinha, de bode, tudo? Eu falei: “Mas se essa questão de matança, isso é uma questão comercial, qualquer coisa, por que é que não proíbem quando o Brasil exporta frangos para a Arábia Saudita, quando eles compram muitas toneladas?” Mas eles fazem questão, eles mandam fiscais deles, fiscais pisarem nos frigoríficos pra que aquele frango tenha que morrer com a cabeça em direção a Meca. Até hoje existe isso. Daí vem essa ligação do árabe com... Aí, acontece muita coisa, aquele sincretismo, aquele babalaô que era só culto só da cultura africana, passa a cultuar a sua cultura com o islamismo, que ele tinha sido catequisado pelo islamismo. Então, ele jogava o búzio ou seria o ifá, que é o jogo, num opelê, que era aquela “táubua” de cedro, ele jogava ali. E aqueles clientes dele, os vizinhos que tinham dor de barriga, dor no coração, dor na perna, iam fazer consulta com ele. E ele já não era mais da tradição africana, ele era da cultura islâmica. Então, ele não jogava mais, mas ele colocava em cima do opelê, um pó chamado iorosun e escrevia com o dedo ou com uma pena feita de bambu, ele escrevia um versículo do Alcorão, do Alcorão. Ele escrevia um versículo do Alcorão. Depois, ele pegava umas folhas, amassava com água, despejava em cima da pedra e recolhia aquela água com folhas numa cuia, quer dizer, aí já é uma mistura de religião, e dava pra pessoa beber. A pessoa bebia a oração que estava escrita e ficava boa da dor de barriga. Esses eram os malês. Então, eles lá passaram a ter esse nome como um nome pejorativo. Esse nome é da língua Fon, Malê é da língua Fon. E eles, então, os traficantes negros, eu não sei se ele fez isso, mas era um grande traficante, dizem até que ele era baiano, José Félix de Souza, do Dhaomé, chegou a ser vice-rei do Dahomé. Eles passavam aqueles escravos, como escravos, vendiam eles como escravos para os portugueses, ou franceses, ou ingleses, esse Malê, esse mal lê, por quê? Falava em português: Malê. De fato, então, o professor Osmar tinha razão, eu fui saber disso depois.

R – Eu fiquei devendo à minha consciência. Foi aí que eu parti pra pesquisa. Foi daí que uma aluna, professora Maria José, até ela estava fazendo doutorado. ela virou pra mim e falou assim: “Ah, eu estou lendo Nina Rodrigues”. Eu Falei: “Ih, não gosto de Nina Rodrigues”. Eu nunca tinha lido, né? Só ouvia dizer que Nina Rodrigues foi um médico psiquiatra que foi contratado pra saber se negro tinha espírito ou não, se era gente, se tinha alma, entendeu? E aí, eu não gostava por isso. Mas eu comecei, o interesse de descobrir coisas, comecei a ler Nina Rodrigues. Eu comecei a fazer pesquisa, ler Arthur Ramos, Nina Rodrigues que é editado em francês e foi traduzido pela professora Maria José. Eu fiz um curso no Rio, sobre O Mito do Negro e foi com a professora Maria José, que eu fiz esse curso. Ela deu um curso na Ásia-Afro lá na Cândido Mendes. Eu passei uma temporada no Rio e fiz esse curso que me valeu muito, começou a me abrir a memória. E eu fui fazendo outros cursos, fui lendo outros livros. Comecei a ler Nei Lopes, gosto muito da leitura de Nei Lopes, é fabuloso. Até pouco tempo, eu entendia que a África existia, assim, duas línguas ou dois idiomas, várias línguas, várias falas, né, mas dois tipos de idiomas que fossem originários que seria os Bantus e Malês. Os malês seria o povo da África Ocidental. Quando eu estudei, eu comecei a compreender que a África para fins de estudos, foi dividida em duas grandes partes: da linha do Equador pra baixo, seriam todos Bantus, e da linha do Equador pra cima, seriam todos sudaneses. E o Sudão, isso que eu queria lembrar, o Sudão é um dos maiores países da África. Então, aquela região toda era o Sudão, eram sudaneses, a língua de origem sudanesa. Mas hoje, eu já entendo diferente. É por isso que eu tô querendo reciclar um projeto que eu tenho na universidade sobre a questão da fala, que muita coisa que eu aprendi tem que ser reciclado, entendeu? Porque eu passo a entender que no Senegal, um dos idiomas mais falados, nativo, é o wolof. E wolof é uma língua Bantu, não é Sudanesa. Na realidade, Senegal fica no Noroeste da África. Então, é preciso que a gente pesquise mais, procure mais. Aproveitando a deixa, aquele trabalho que eu te falei ontem a respeito de um projeto que eu tenho também sobre a cultura africana, sobre a escravidão, por que nós éramos da Guiné? Os negros chegavam aqui como peças da Guiné. Então, eu aprendi, eu vi, eu li, que aquela área do Noroeste da África, do Golfo da Guiné, do Senegal para o final do Noroeste, né, o Norte, aquela parte ali, toda ali era reconhecida como área da Guiné. Então, mesmo que nós viéssemos do Moçambique, lá do Oceano Índico, na Guiné tinha um entreposto onde eram registrados todos os escravos, está entendendo, pra pagar tributo a Portugal. É por isso que nós vínhamos lá da África como peça da Guiné. Aí, eu fui entender porque é que o primo da minha mãe me dizia: “Ah, Oldemar, você tem que dar um jeito de falar a língua da Guiné”. Porque nós somos da Guiné, todo mundo lá era da Guiné. Acabei em teimar com minha avó, se ela era do Congo, como é que era da Guiné? É uma coisa, Congo é quase no centro da África, a Guiné é na costa da África, Noroeste. Então, agora eu compreendi, depois que foi o que? Foi Nei Lopes, que eu estava falando, foi Nei Lopes que esteve no Senegal e ele escreve muito sobre várias línguas. O livro dele, Bantus e Malês, ele fala que línguas Bantus são duas mil e 200 línguas Bantus, entendeu? Inclusive, eu venho juntando, a gente quando estuda, quando pesquisa, as coisas que ouvi do professor Félix, um professor africano que casualmente foi meu aluno e depois, um dia, foi meu professor, né? Aí, eu conheci, ele tinha chegado da África, e no dia seguinte, eu ia fazer um trabalho de pesquisa com uns alunos da Uneb. Aí, ele vira assim pra mim: “Eu posso ir com o senhor?” Ele não apresentou-se como professor. Ele disse que era africano só. Eu falei: “Tá, eu vou fazer um trabalho em Salvador em três casas”. Eu já tinha falado as casas que eu ia dar. Aí, ele falou assim: “Ai, vou, vou, vou”. Pronto, ele foi comigo, marcamos horário, ele foi também, mas ele foi como aluno porque a maior parte de lá da Uneb, a maior parte dos meus alunos eram professores de lá mesmo. Então, eu estava fazendo um trabalho do dinamismo da religião, da cultura, o que tem passado aqui, a transformação que tem tido desde a chegada dos africanos até hoje. O que é hoje no Brasil, e o que é hoje na África. A própria língua falada, a língua que nós falamos aqui, lá que eu trabalho com ela, né, a mais forte, como ela é falada lá na África. Então, eu não posso estar ensinando a língua que é falada na África. Eu ensino a língua que é falada aqui. A língua negra falada aqui, cantada pelos africanos aqui num tempo que a língua Iorubá não existia gramática, não era “gramaticado”. Essa língua foi coordenada por uns missionários ingleses, na época que a Nigéria foi colônia da Inglaterra, entendeu? Aí, hoje, se fala Iorubá diferente do que eles deixaram aqui. Ainda mais depois que foi gramaticado, existe aquela coordenação, aquele método de fala, tudo, né, imposição. Então, eu atento pra ouvir bem. O professor africano nesse dia até assinou a lista de presença como aluno e tudo. Depois, eu fui estudar com ele que era professor. Eu fui estudar conversação Iorubá com ele, né? Aí foi que eu aprendi muito, muito, muito, muito, aprendi a ouvir o que é cantado aqui. Hoje, eu compreendo melhor, compreendo melhor. E cada cantiga cantada aqui no candomblé é uma oração. Quando se canta pra Oxum é a coisa mais linda do mundo. Uma cantiga de Oxum que é uma oração muito bonita, quando Oxum fala que pelo Deus que ela tem, as alegrias dela são constantes. O Deus que ela possui, possuído nela. Quando ela cantarola, a palavra “oro”, um dos nomes de Deus, é uma religião africana há mais de dez mil anos. E “mi” é um pronome possessivo igual ao nosso, né, por acaso, oromi, meu Deus. Ela pode ter falado num sentido metafórico, meu Deus que está com ela, tem Deus com ela, né? Ma é uma palavra que é cantada sempre, é falada sempre nesse idioma pra ser interpretado por coisas constantes, quando ela fala “ma aió, aió” é alegria. Então, ela tem alegrias constantes porque ela tem Deus dentro dela, entendeu? E isso é Oxum que nos ensina. Quando ele fala “abaodô”, “abá” é uma coisa muito antiga com um objetivo, e “odô” é o rio. Então, acontece que nessa cantiga tá dizendo que o rio tem um objetivo: correr para o mar. Ele é muito antigo, rio corre para o mar. Iê iêo é uma espécie de meiguice. Oxum deixou pra gente aqui na Bahia, a gente chamar nossa mãe de mainha porque “iê iê” é mãe meiga. “Ia” é mãe, “iê iêo” é mãe meiga, entendeu? Então, o rio tem sua meiguice, ele tem sua meiguice. Oxum canta isso porque ela é a rainha do rio. Essa é uma das cantigas que eu faço tradução e eu adoro o que ela tá dizendo, que Oxum tá falando. Aí, pronto, eu me mudo pra Cachoeira, venho morar em Cachoeira. Fui convidado pra ser griô, ser Mestre Griô. Aos 27 anos, eu fiz santo na Nação de Jeje e passo a participar dessa Nação. Embora tenha uma veia de sangue africano que seja do Congo, mas a parte espiritual é universal. Aí, eu sou da Nação de Jeje, em Cachoeira. Tenho com muita honra e sou muito feliz. Não tenho nada, não tenho mais, alguma coisa que eu já tive quando tinha fábrica de roupa em São Paulo. Quando eu vim à Bahia, eu era muito bem empregado, ganhava muito dinheiro, e hoje, eu não tenho nada. Hoje, eu devo pra aprender. Esse dias, eu estava até contando lá pra nossos parceiros lá que eu aprendi uma lição tão grande com uma criança de três anos. Esse menino chega pra mim e me perguntou o que era isso aqui que estava no meu colo, disse: “O que é que é isso?” Eu digo a ele: “Olha, isso aqui é um filá”. Filá é um chapéu, né, é um filá. Botei na cabeça. Ele olhou pra mim, falou assim: “Ah, então, vamos brincar de velho”. Quer dizer, ele me disse que a velhice era uma brincadeira, a velhice era uma brincadeira. Que eu era gente tanto quanto ele, ainda estava em condições de brincar, brincar de velho, que a velhice é uma coisa, tá entendendo? Que a pessoa pode sentir porque pode brincar de ser velho. Quer dizer, pra ele, eu não sou velho, eu sou gente. Isso é uma lição que a gente aprende com criança, entendeu? Eu vivo assim, sabe, procurando aprender fazendo muita pesquisa, faço muita pesquisa. Pretendo, eu fui chamado agora pra trabalhar na Universidade do Recôncavo com o curso de Iorubá e cultura africana, entendeu? Nós estamos fazendo um projeto, e eles estão em recesso, né? Vão continuar o segundo semestre agora, de setembro pra lá. E já tem um projeto meu lá, e nós vamos coordenar a matrícula, como é que vai ficar, o negócio do patrocínio, como é que é meu pró-labore, se vem, se não vem, como é que vai ser. É, são detalhes, né?

P/1 – Voltando um pouquinho, seu Oldemar. Eu queria que o senhor falasse pra gente como é que se deu o convite pro senhor se tornar um mestre, um mestre griô. Como é que aconteceu esse convite, eu queria que o senhor falasse pra gente como é que aconteceu isso.

R – Sabe o que é? Existe muita discriminação religiosa no Brasil. Principalmente, eu tenho feito um estudo geral do aspecto da nossa religião porque até a religião sendo de origem africana, não importa que eu tenha a pele clara, mas eu sou visto como coisa ruim, como Satanás. Porque quando eu chegava na Uneb lá em Alagoinhas, o pessoal: “Chegou aí, ô, chegou”. Ficava todo mundo: “Chegou”. Um dia, num seminário que eu levo esse professor africano, levo o professor Ubiratan de Castro, convidei eles pro seminário, todo mundo de abadá, uma professora negra, de pele negra, talvez ela tivesse pele negra e consciência de opositora, uma professora russa falou com ela: “Você não vai pro seminário?” Ela disse: “Eu? Deus me livre. Eles estão muito bonitos, mas eu não estou aqui pra ouvir conversa de Satanás”. Uma professora da universidade, entendeu, eu não sei. Então, essa discriminação não existe em Alagoinhas. Essa discriminação está existindo na África. Eu tenho uma amiga do Rio que todo ano vai à África, ela disse que igrejas cristãs, evangélicas, estão sendo abertas em cada esquina. Aqui, eu dei aula uns tempos em São. Um dia, eu ia atravessando a ponte, veio um grupo de protestantes, me agrediram, quase que me jogam no Paraguaçu: “Sai de retro, Satanás”. Assim na minha frente. Então, quando eu passo em qualquer rua de Cachoeira, muita gente vira a cara porque eu sou reconhecido como uma pessoa da religião, eu sou do candomblé do Jeje, entendeu? Então, isso daí foi válido porque um rapaz que trabalhava na Ação Griô lá em Cachoeira, Luís Antônio, não sei o sobrenome dele. Ele quem criou o Terreiro Cultural, que tinha um cine clube, ele criou o terreiro cultural, ele me chama: “Ah, você quer Oldemar participar da Ação Griô?” Fez esse convite e eu aceitei porque eu já vinha ministrando aula em São Félix. E eu gosto de ensinar, ensinar as pessoas do candomblé porque eu vejo tanta coisa se modificando, dizendo aquilo que não é, entendeu, sendo olhado de outra maneira. E eu queria que meu povo todo visse as coisas como são, que a minha religião não tem nada a ver com Satanás. Eu estava trabalhando numa escola que eu tenho um projeto de africanidade para jovens de até 16 anos. E esse projeto, eu estava desenvolvendo ele com um amigo da escola, em Cachoeira. Eu estava dando aula em uma escola, vocês me desculpem, eu não vou citar o nome da escola porque a diretora fez uma coisa comigo que eu não gostaria de ver o nome dela. Ela me chamou, depois eu soube por outras professoras que até esposa de vereador de lá, do presidente da Câmara, disse: “Ah, Fulano não vai querer mais que você dê aula lá, não vai querer mais porque não sei”, Aí, quando passou, deixei passar uns dias, eu fui lá falar com ela. “Não Oldemar, não vai ter mais a tua aula porque eu recebi ordens da Secretaria de Educação pra não aceitar “amigo da escola” que não fosse funcionário público”. Eu acho que isso não existe. Eu acho que isso foi uma maneira dela me descartar. Eu peguei e suspendi. Por que? No enceramento das aulas, parece que aconteceu alguma coisa que nós, a nossa natureza, eu creio que eu sou Mestre Griô desde que nasci. E aí, é a nossa natureza de fazer amor, entendeu? Então, quando foi no encerramento das aulas nessa escola, eu levei presente pra todos os meus alunos, cópia de livros, livros de história, eu trabalho com histórias e lendo as histórias africanas, entendeu? Eu faço glossário daquela língua, daquelas personagens, histórias, lendas contadas em português, né, mas com personagens africanos. Então, eu faço um glossário. E parece que isso repercutiu na escola no dia do encerramento, na hora que tocou pra eu chamar meus alunos que eu entrego um presente pra cada um, uma lembrança pra cada um. Aí, daí pra lá, quando recomeçou as aulas, eu não pude mais porque eu teria que ser funcionário público. Foi o que a escola estadual passou pra mim. E Luis Antônio me fez o convite pra eu participar da Ação Griô. E estou à disposição do trabalho.

P/1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho da importância de deter esse tipo de conhecimento e ser considerado um mestre griô, pro senhor.

R – Ah, a importância é muito grande porque esta questão de eu ser um Mestre Griô, essa importância de estar falando muito a minha consciência, está pagando um pouquinho daquilo que eu sempre objetivei. Basta vocês sentirem na minha fala que desde criança, eu nasci para ensinar, pra aprender e ensinar, e nunca tive uma oportunidade como essa que estou tendo agora. Para eu ensinar, primeiro: tem que ter os papéis, né? Hoje, eu tenho mais de dez ou 20 certificados lá que me dão aí. Mas eu nunca tive oportunidade de fazer universidade. Eu nunca tive oportunidade de arranjar um emprego ou condições de estudar, de seguir um currículo correto, certo. Vocês notam que eu venho aprendendo com a vida, aprendendo com a vida. Aprendo um pouco aqui, daqui há dez anos, aprendo um pouco ali, e eu somo com tudo aquilo que eu aprendi de um modo geral e procuro passar pra alguém. Então, hoje, quando nós nos reunimos, eu senti que eu tenho o sangue indígena, que a minha avó paterna é da tribo tabajara, era uma mulher tapuia da Serra de Ibiapaba, no Ceará. Então, minha vó paterna é índia. Minha avó materna é filha de uma africana casada com um português. Então, eu tenho o sangue africano, o sangue do índio e o sangue do português, e o nome Tem até um senhor lá em Cachoeira que ele é Duarte, ele diz que eu sou primo dele, ele é Duarte, ele é português, que eu sou da família Duarte. Eu falei: “Não, sou parente de Duarte da Costa. Você entendeu? Então, essa coisa está me valorizando, me fazendo cada vez mais ter o direito de ser brasileiro. Eu poder ver o meu sangue cantando em línguas diferentes, tupi-guarani, em línguas africanas, em língua portuguesa, aculturando por um brasileirismo muito bonito, entendeu? Então, isso tudo me empolga e me traz um certo orgulho. Espero que antes de eu ir à outra vida, deixar alguma coisa que eu, inclusive, tem alguma coisa que eu tô preparando. Eu conheci a nossa irmã Li ontem, mas ela já me convidou pra gente fazer um trabalho, em Recife, a respeito desse trabalho que eu tenho escrito. Eu tenho dois trabalhos que são de grande importância, seria para a Ação Griô, mas a Ação Griô, não precisa a gente ser vinculado em qualquer entidade, basta que a gente aja, basta que a gente aja, cada um procure o seu jeito. Como dizia a minha avó: “Cada corcunda tem seu jeito de deitar”. A gente tem que procurar o jeito da gente, entendeu? Então, é isso.

P/2 – Eu vou pedir pro senhor falar a história dessa roupa do senhor.

R – Da roupa?

P/2 – Da roupa que o senhor tá vestindo.

R – Ah, sim. Essa roupa aqui, por acaso, eu tô me esquecendo o nome do africano que usava a roupa idêntica, uma roupa idêntica, sabe? Quando eu fui convidado pelo professor Francisco Alfredo pra fazer a palestra na Uneb, então, eu achei que seria importante levar, mostrar algo de importante. Francisco Alfredo é um professor de História e ele trabalha com a cultura indígena, entendeu? Então, alguma coisa do africanismo que ele sabe e de indígena, ele preparou o auditório da Uneb lá em Alagoinhas, todo. Aí, eu preparei também alguma coisa pra levar da parte africana, né? E fui à casa da Nigéria, em Salvador, e na época o presidente da casa era o professor Acani, ele é do estado de Ogum, na Nigéria. Conversei com Acani. Acani, então, me forneceu uma revista onde tinham muitas coisas importantes da Nigéria, inclusive, o presidente da república da Nigéria que agora, eu me esqueço o nome dele, que é um nome difícil, né? Então, eu fiz uma transparência, fiz não uma, eu fiz várias transparências de várias figuras publicadas em livros, nas revistas, eu levo. Lá na escola, na hora de apresentar a palestra, eu apresento as transparências e pedi ao professor Acani pra ele comentar, fazer um comentário porque sendo africano, era melhor ele fazer o comentário a mim. Quando passa a transparência com um negão vestido com essa roupa, o Acani falou assim: “Aqui é o presidente da república da Nigéria, e o professor aqui fez uma roupa igual a essa. A diferença é que ele é baixo e mais claro” Pois o africano é um homenzarrão, negão, né, com essa roupa. Eu fiz uma roupa igual porque eu sou estilista de moda, entendeu? Eu sou estilista, eu sou modelista. Na época, eu ainda fazia alguma roupa, alguma coisa. Aí, eu não sabia com que roupa eu iria à essa palestra, peguei: “Pronto, uma roupa igual a essa aqui”. Aí, eu cortei igual á da revista a revista. Foi apresentada na Uneb em 2001. Eu trabalhei na Uneb direto, quatro anos. A reitora agora, depois que eu sai, entrou o professor Valentin, foi essa Arlete, Arlete que era a reitora, inclusive, ela é até protestante. Ela é negra, é protestante, mas essa coisa não tem importância, né?

P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa pro senhor. Dessa época que o senhor começou seus estudos e aquela digressão com Nina Rodrigues e hoje com a história dos indígenas, dos afro-descendentes fazendo parte dos currículos nacionais, dos parâmetros curriculares. O que é que o senhor acha que tem que ser privilegiado na história dos afro-descendentes, o que deve ser contado?

R – Olha, quando eu li Nina Rodrigues, eu li vários trabalhos dele como, “Os africanos no Brasil”, “O Fetiche no Brasil”, li vários livros dele. Porque eu li pra ver o que é que ele falava, quando Maria José chega pra mim e diz: “Ó professor, eu tô lendo Nina Rodrigues e tô tendo muito sucesso. Aí, eu falei: “Não, não gosto de Nina Rodrigues”. Mas aí, eu fui ler, eu adquiri o livro e fui ler Nina Rodrigues. Eu, então, acho uma coisa muito importante que Nina Rodrigues fez, apesar dele ter inventado a mulata, entendeu? Ele foi ótimo porque ele publica no livro dele, na abertura do livro dele, tem uma publicação que é de Sílvio Romero que fala sobre a responsabilidade da ciência brasileira com os negros. Enquanto que no Brasil, nós temos a cultura africana na mesa, nas roupas, nas matas, em todo lado, na América do Norte e na Espanha, na Europa, de um modo geral, os cientistas estudaram as línguas. Então, tem umas páginas de Nina Rodrigues que ele publica vários glossários de línguas. Ele publica seis línguas colhidas aqui de africanos que ele conheceu. Então, daí pra cá, eu passei a valorizar Nina Rodrigues porque eu vi o positivo que ele fez. Se ele fez aquela questão dele examinar o negro, para ver o cérebro do negro pra ver se o negro tinha alma ou não. Então, isso era uma questão que ele era um funcionário do governo. Ele estava fazendo isso porque ele foi contratado pra fazer isso, mas que na realidade, ele está de acordo que se estude. Vamos dizer assim, uma integração que se faça. Isso que se faz hoje, já foi pedido por ele, já foi pedido por Sílvio Romero, já foi pedido por Gilberto Freire, já foi pedido por vários autores, Arthur Ramos, tudo. Então, eu acho que hoje, essa Ação Griô, eu não vou brincar, dizer que ela veio muito tarde, mas isso sempre foi muito necessário. Eu acho um grande trabalho, um grande trabalho, uma grande coisa. O africano ensina mais é o amor. Você sabe que o ensino oral traz uma certa tranqüilidade, é diferente do ensino na escola. O oral que eu estava fazendo lá na escola de Cachoeira com o meu projeto ensinando histórias, lendo as histórias para os alunos. Então, eu não dava aula em sala de aula formal, eu colocava as esteiras no chão, os alunos sentavam, eu sentava num banquinho e contava as histórias pra eles. Então, ali, aquela juventude, aquelas crianças, todas passam a amar, descobrem o amor, descobrem sentimento de união. O que a Ação Griô tá fazendo hoje é isso, a gente descobrir como nós somos importante uns para os outros. Então, essa Ação Griô vem me resgatar de um mundo que eu venho perdido até hoje.

P/1 – A gente queria agradecer a sua participação em nome do Museu da Pessoa, da Ação Griô, e foi muito importante o seu depoimento pra gente.

R – Ah, eu fico muito agradecido a vocês porque assim também seja alguma coisa que fique registrado para o nosso futuro, o futuro de filhos, de netos, de bisnetos para saberem alguma coisa do Brasil, como o Brasil começou e como ele está agindo, a reação que está tendo, né, isso é muito importante.

P/2 – Obrigada.

R – De nada.

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