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História

Um mergulho no universo da tecnologia, inovações e ousadia

História de: Entrevista de Ney Robinson Salvi dos Reis
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 08/07/2021

Sinopse

Pipa, balão, bola de gude, entre outras brincadeiras de rua no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, permearam a infância de Ney, que conta adorar a cidade do Rio de Janeiro. Recorda com carinho de sua avó e de seus pais. Narra episódios da época de estudante, destacando figuras que marcaram sua história. Em uma relação visceral com o trabalho, o engenheiro tem a trajetória profissional marcada por inovações, soluções tecnológicas e pela busca por romper paradigmas.

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História completa

Memória Petrobras

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Ney Robinson Salvi dos Reis

Entrevistado por Márcia de Paiva e Larissa Rangel

Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2008

Código: MPET_HV004

Transcrito por Regina Paula de Souza

Revisado por Lilian Bueno

 

P/1 – Ney, bom dia!

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu queria começar essa entrevista com você nos dizendo: onde você nasceu, seu nome completo e data de nascimento.

 

R – Eu sou natural de Juiz de Fora, Minas Gerais. Eu nasci no dia 3 de março de 1950, e até brincava com a minha mãe, eu dizia que ela não precisava ter feito isso comigo, né, ela ficava brava [riso].

 

P/1 – Ter feito o quê?

 

R – De ter deixado eu nascer lá em Juiz de Fora [riso].

 

P/1 – É a terra do Itamar.

 

R – É, depois é que eu vim saber disso. Mas a família toda é de lá, muitos primos, né, muita brincadeira.

 

P/1 – Como é o nome dos seus pais?

 

R – É Angelina Salvi dos Reis, e meu pai é Lutero Costa dos Reis.

 

P/1 – Os dois são de Juiz de Fora?

 

R – Não, o meu pai é de Petrópolis, e a minha mãe é de Juiz de fora. A família toda da minha mãe é de Juiz de Fora, e a família toda do meu pai é de Petrópolis.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Não tenho, não, filhinho único!

 

P/1 – Filho único?

 

R – Isso [riso].

 

P/1 – E você cresceu em Juiz de Fora?

 

R – Não, não! Por isso que eu falei que eu brincava com a minha mãe, que logo que eu nasci o meu pai teve lá um problema de...foi logo no pós-guerra, o meu pai era lapidário de pedras preciosas, e o dono da lapidação convenceu o meu pai e o meu tio que era um bom negócio. Eles já trabalhavam naquilo, então eles compraram a lapidação do dono, né? Só que logo depois veio a falir, porque o negócio ficou ruim, e como eu nasci em 1950, em março, no final do ano o negócio já estava mal, aí, eles tiveram que caçar [riso] outras oportunidades. Aí vieram pro Rio de Janeiro, né? Então, eu vim pra cá antes de um ano de idade, e fomos morar no Catete, onde eu moro até hoje.

 

P/1 – E seu pai veio trabalhar aqui no Rio com o seu tio?

 

R – Não, o meu tio continuou em Petrópolis, mas o meu pai veio correr atrás, ele veio ser motorista de caminhão, depois motorista de ônibus e, depois, chofer de táxi. Eu cresci no meio dessa mecânica. Foi aí que eu comecei a gostar de mexer com essas coisas, eu sempre ajudava ele a consertar o carro no fim de semana.

 

P/1 – E você cresceu aonde aqui no Rio?

 

R – No Catete

 

P/1 – No Catete?

 

R – No Catete mesmo, é.

 

P/1 – E o que você se lembra da sua infância, assim, você estava falando de ajudar o seu pai, como é que era a sua casa?

 

R – Ah, casa humilde, casa pequena. Primeiro nós moramos num quarto de uns portugueses, que logo que a gente chegou aqui foi o que o meu pai e a minha mãe conseguiram. Maravilhosos os portugueses, eu adorava! Seu Orlando e Dona Júlia. Ela fazia tremoços; o dia em que ela fazia tremoços era uma festa [riso]. Ela botava tudo de molho no tanque, tinha cachorro, gato, a casa era uma festa, né, então, quando eu via ela chegar com um saco de papel da feira [riso] eu já sabia que ia ter festa. Então ela enchia o tanque, botava os tremoços de molho, e tinha todo, assim, um ritual: ela botava os tremoços de molho, aí eu sabia que na semana seguinte ia ter tremoços pra comer. Eu adorava aquele negócio de apertar o tremoço, ele pular dentro da boca, né? Mas aí nós fomos morar com essa família, seu Orlando e Dona Júlia, me ensinaram um monte de coisas. O Seu Orlando era um portuguesão forte; ele tinha sido lutador de luta livre lá em Portugal, e aqui no Rio ele era representante de sardinhas, vendia Sardinhas Fidalga. Ele tinha uma bolsinha de couro que tinha sempre umas três, quatro latinhas de sardinhas ali dentro [riso]. E ele estava tentando fazer sardinha lá na casa dele; tinha um quintal grande e tal, então, a gente fazia muitas experiências, né? A gente, não, ele fazia e eu participava; eu sempre ali coladinho com ele. O meu pai trabalhando! 

 

P/1 – E eles não tinham filhos?

 

R – Eles tinham uma filha, mas eu não me lembro muito bem dela, a Rosa, Rosa Maria, mas eu não me lembro muito, assim, a gente não...Eu nem sei onde que ela ficava [riso], eu sei que eu ficava lá brincando com eles. Aprendi a caçar passarinho com ele. Hoje eu já não caço mais, não é legal, mas ele tinha espingardinha de ar comprimido e tal. A Dona Júlia me ensinava a fazer comida; eu tive, assim, vários pais e várias mães, né? Foi muito bom!

 

P/1 – E tinham também ali na vizinhança outras crianças que brincavam na rua, como é que era?

 

R – Tinha, tinha, a gente soltava muita pipa, balão, jogava bola de gude, toda essa...brincar de polícia e ladrão, era muito bom brincar de polícia e ladrão, eu queria ser sempre o ladrão, ser polícia era muito chato [riso]. Eu tinha mais uns colegas, que a gente gostava de ser o ladrão pelo seguinte: na hora que escolhia lá os times a gente ia ser ladrão, e o polícia tinha que sair correndo atrás da gente, como uma boa história, e tinha dias que eu e esses meus colegas, a gente estava brincando, ia embora pra casa [riso] e o cara ficava procurando a gente um tempão, [riso]; era muito legal. Mas o mais bacana mesmo da região que eu morava...eu morava entre, hoje está complexo lá, o Morro da Santo Amaro e a Tavares Bastos, mas então, era soltar pipa de um morro pra poder chegar no outro. Era muito bacana, assim, cruzar a pipa no ar e tal.

 

P/1 – Você fazia as suas pipas?

 

R – Minha vó me ensinou a fazer as minhas pipas, é aquela bem definida, aqui no Rio era tipo cafifa, né, assim, a pipa carioca, e em Petrópolis, onde eu ia passar as férias, era a raia, a pipa que quando você puxa ela enverga assim, é muito legal, é pipa sem rabo.

 

P/1 – E foi a sua avó que te ensinou a fazer pipa?

 

R – A minha avó que me ensinou, a minha avó me ensinou a fazer um monte de coisas, minha avó...

 

P/1 – Sua avó, mãe do seu pai?

 

R – Mãe do meu pai, ela era professora primária, Dona Irene. Chega em Petrópolis e fala de Dona Irene, todo mundo conhece, já falecida, infelizmente. Mas ela sabia tudo, eu não sei aonde que aquela mulher tinha tanto tempo pra fazer de tudo, que ela...ela estava sempre disponível, é impressionante! A gente chegava em Petrópolis e ela estava lá com um chalé prontinho pra minha mãe, eu falava: “Pô, como é que você faz isso?”. Ela ficava tricotando de noite. Adorava ler. Eu achava bonitinho, que de noite, assim, todo mundo já nos seus nichozinhos pra dormir, ela pegava, abria o livrinho dela, lapisinho, né, lápis de, sabe, lápis tinta, né, molhava assim e saía sublinhando, fazendo as passagens do livro que ela gostava mais. Aí, depois eu vim descobrir que o livro era a Bíblia. Ela tinha uma religiosidade muito forte, né? 

 

P/1 – Isso ela passou pra vocês também?

 

R – Ela não conseguiu muito, não, tanto que na hora de fazer a ficha, daí, ela me perguntou: “Qual é a religião que você tem?”. Eu falei: “Todas, né?”. Porque eu acredito em tudo.

 

P/1 – Na sua casa tinha também, assim, dos seus pais alguma coisa, tipo, ter uma formação religiosa ou política, eles conversavam com você?

 

R – Não, não tinha muito, não! Essas coisas a gente aprendeu mais com os amigos, na rua, né? É, eu lembro da minha mãe, ela ia à missa domingo, de vez em quando tinha que ir à missa. Eu fiz a Primeira Comunhão, terninho branco, brilhantina no cabelo [riso], lá fui eu queimando a mão com aquela vela pingando [riso]. Foi muito legal, foi ali no Largo do Machado. Mas a gente não tinha, assim, não era fanático, não!

 

P/1 – E quem é que era mais, assim, a autoridade da casa: a mãe ou o pai?

 

R – A mãe, a mãe! O pai trabalhava muito, meu pai teve um período difícil, porque como ele veio pra cá com uma mão na frente e a outra eu nem sei onde é que estava, ele teve que trabalhar muito, então, ele começou trabalhando como motorista de caminhão. Ele arrumou emprego no desmonte do Morro do Castelo, ali, aonde hoje é a Petrobras [riso]. Ele tirava terra dali e levava pro Aterro do Flamengo, então, ele foi um dos que ajudou a fazer o Aterro do Flamengo, ele trabalhava a noite toda levando terra. É bonitinho, porque ele não tinha o que comer na rua, e a gente estava meio mal de situação, aí a minha mãe fazia, pegava o pão meio dormido já, né, tirava a parte de fora da casca do pão, porque o pão velho ia ficar duro, né, e botava lá um pedaço de carne assada, alguma coisa, uma fritada, né, dentro do pão. Eu sei que aconteceu um dia que ele não comeu o pão, eu não sei porquê, aí, quando ele chegou de manhã, às 7h da manhã é que ele voltava pra casa, era a hora de eu ir pra escola, aí, eu não sei porquê, também, estava lá o pão em cima da mesa, né, eu passei, o cherinho estava gostoso, né, aí, eu dei uma mordida e falei: “Pô, que legal o pão, né”?. Eu sei que a partir dali ele passou a não comer o pão, pra trazer [entrevistado se emociona].

 

P/1 – Pra deixar pra você?

 

R – É, e era assim, né? Aí, depois ele foi melhorando e tal, ele com o meu tio, que não é o irmão dele, é um outro...é cunhado da minha mãe, se juntaram e compraram uma lotação. Aliás, eles pegaram o caminhão, desmontaram o caminhão e usaram a carroceria do caminhão pra fazer...puseram uma carroceria de lotação e começaram a trabalhar como lotação. Também era outra coisa bacana, que eu e a minha mãe íamos pra praia do Flamengo, em frente ao Hotel Novo Mundo, pra levar a comida dele na hora do almoço.

 

P/1 – Esperando ele passar?

 

R – Aí, era aquela coisinha, assim, de filme, assim, um prato, outro prato em cima, amarra, né, aí, a gente ia levar a comida pra ele. Foi muito legal [riso]!

 

P/1 – E de escola, o que você se lembra, onde é que você estudou?

 

R – Eu estudei também no Catete, em frente ao Palácio do Catete tinha uma escola chamada Rodrigues Alves, um prédio belíssimo, aí o metrô veio e derrubou, eu fiquei chateado [riso]. Mas era bonito, porque a gente ficava na sala, aquelas janelas grandes daquele prédio antigo, né, e o presidente estava ali do nosso lado, era o maior barato, eu gostava muito. E a gente via, chegavam aqueles carros suntuosos, era festa pra gente  ver os presidentes e as autoridades chegarem bem do lado. Hoje não tem mais a escola, fizeram uma escolinha menor lá, mas eu estudei ali. 

 

P/1 – O que você gostava de estudar, o que você se lembra, assim, ou de uma professora?

 

R – Hum, eu lembro praticamente de todas as professoras do primário: a professora Idelsa, do primeiro ano, a professora Iréia Bocater, do segundo ano, Dona Daura, professora do terceiro ano, Dona Assumpção Vita, do quarto ano, aí, no quinto ano eu fiz, é, admissão, eu saí do quarto ano e fui fazer um curso preparatório, tipo um vestibular pra passar pro segundo grau. Fui estudar em Laranjeiras, no Curso Dillon, na Rua Pereira da Silva. 

 

P/1 – É Curso Dilon ou Odilon?

 

R – Dilllon!

 

P/1 – Dilllon?

 

R – D, i, l, l, o, n. É engraçado, né, que nem, a gente guarda os nomes, porque a gente tinha que fazer o cabeçalho do caderno [riso]. Caderno encapadinho, um negócio meio... eu não gostava muito na época, não, hoje eu acho que foi importante, né?

 

P/1 – O cabeçalho era diariamente, né?

 

R – É, você botava o dia, quer dizer, você aprende a escrever a data, você aprende a escrever o nome das pessoas, o seu nome inclusive, eu acho que ali você começa a fazer a tua identidade, quando você escreve o seu nome várias vezes, você aprende o que você gosta de fazer no seu nome. E hoje a minha assinatura é basicamente o que veio daquela época, né? Agora, o que eu gostava? Eu gostava muito de português, linguagem, não era português, era linguagem. Matemática, eu gostava. Eu nunca fui muito bom aluno, não, eu sempre fui meio vagabundo, assim. Mas, é, tinha uma galerinha que a gente estudava juntos, um negócio meio de grupo, né? Eu gostava mesmo era do recreio da escola, ali, do Rodrigues Alves, o recreio tinha: sopa de macarrão com feijão, Toddy [riso], tinha melado com uma farinha que eles botavam em cima, eu sei que eu me lambuzava, literalmente eu me lambuzava todo; tinha mingau de fubá, cada dia tinha um negócio, eu adorava, né? E é engraçado, hoje, né, as escolas, elas estão diminuindo os recreios, por conta de um tal de um conteúdo aí que você tem que aprender e que é completamente questionável, né? Eu me lembro que o nosso recreio, ele tinha assim.. a gente comia, repetia, entrava na fila várias vezes, brincava e ainda ia jogar bola no pátio da escola. Quer dizer, devia ser, sei lá, 40 minutos, 45 minutos, né? É, o tempo pra criança e pro adulto é diferente, mas era muito tempo, era muito tempo! A gente chegava suado na sala, aquela coisa: “Vai se molhar, menino!”, vermelho [riso] de correr pra lá e pra cá, era muito bom.

 

P/1 – E depois, quando você foi pro outro colégio, pro Colégio Dillon, no ginásio, você já sabia, já tinha uma ideia, quando é que você começou a pensar o que você ia ser, como é que você...

 

R – Ah, eu nunca tinha pensado, não! Mas me perguntavam: “O que você vai ser quando crescer?”. Aí, eu dizia que ia ser piloto de avião a jato, né, e não tinha outra, assim, outra coisa mais, é, que me saltava à cabeça, não!

 

P/2 – Mas você tinha algum professor que te influenciava?

 

R – Não, não, foi... Quando eu estava, aí, divide um pouquinho, quando eu estava na casa do Seu Orlando e da Dona Júlia eu era mais sozinho, então, eu fazia as minhas brincadeiras. O meu pai às vezes me ajudava em alguma coisa, aí, eu fazia caixinha d’água, né? Eu tinha um formigueiro que era o meu xodó, chovia, eu protegia o formigueiro, o sol saía e eu ia lá fazendo assim [riso]. Às vezes, o formigueiro sumia, eu falava: “Pô, o que aconteceu com o formigueiro?”, aí, eu descobri que as formigas mexem, elas se deslocam no terreno, né? O Seu Orlando tinha muitas gaiolas de passarinho, que eu também adorava, Biquinho-de-lacre! Dia de pegar Biquinho-de-lacre, assim, ele tinha uma horta com couve, com coisas, aí ele fazia uma rede, a gente ficava escondidinho, na hora que os Biquinhos-de-lacre vinham pra horta, a gente puxava e pegava...

 

P/1 – Isso é um passarinho, Biquinho-de-lacre?

 

R – É, é um passarinho, não serve pra nada, não canta, nada! Mas o Seu Orlando era muito, muito interessante, porque ele pegava, prendia o passarinho, sei lá, um tempo depois: “Vamos soltar os passarinhos”? “Vamos”, aí já soltava, era aquela festa, dia de soltar passarinho, né? Tinha também o evento de podar a videira. Ele trouxe lá de Portugal umas cepas de uva, e tinha uma videira no quintal. Muito legal [riso].

 

P/1 – Ney, me diga também: você pegou ditadura, todo aquele movimento estudantil?

 

R – Graças a Deus!

 

P/1 – Você participou?

 

R – Muito [riso].

 

P/1 – Me conta um pouco dessa época também.

 

R – É.

 

P/1 – Você se envolveu com o movimento estudantil?

 

R – Sim, sim! Do Curso Dillon, eu fui pra lá, porque, aí, eu acho que foi um pouco influência dos meus pais; eu tinha que ser alguém na vida, né? Aí, eu não sei de onde é que veio isso não, mas eu fui ser preparado pra entrar no Colégio Militar, que era assim, os colégios bons do Rio de Janeiro eram o Pedro II e o Colégio Militar. Aí eu não passei, claro! Eu não era estudioso, eu era meio vagabundo pra estudar, não passei, fiquei meio frustrado, porque eu tive que fazer um outro colégio qualquer, que foi o Souza Aguiar, ali, na Rua dos Inválidos. Mas foi ótimo, foi ótimo, porque eu conheci grandes professores ali dentro: o Paulo Roney, ele dava aula de francês pra gente, ontem mesmo eu estava comentando com um colega, quando eu entrei no ginásio...

 

P/1 – A maior honra, né, ter aula com ele?

 

R – Pô! Eu tive aula de latim, aula de francês e aula de inglês, infelizmente...

 

P/1 – Latim você pegou com ele também?

 

R – Não, latim foi com uma outra pessoa que eu não me lembro o nome, foi uma pena, porque no ano seguinte teve a reforma de ensino, aí acabaram com o latim, mas eu ainda tenho lá, até hoje, o meu dicionariozinho de latim, de francês, dessa época! Mas eu gostei muito do Souza Aguiar, porque era no Centro do Rio, e isso me abriu outras portas para andar pelo Rio de Janeiro. Eu adoro o Rio de Janeiro, eu ando, às vezes vou pra Lapa, eu vou a pé pra casa, eu vou e volto, estou em casa, literalmente em casa. Aí, as pessoas: “Pô, mas é perigoso o Rio de Janeiro”. “É perigoso, nada, né, eu estou em casa, né?”. Lá, no morro que eu moro, quer dizer, eu não moro no morro, eu moro entre dois morros, eu conheço os traficantes, eu conheço os bicheiros, então, a gente se chama pelo nome, a maioria está morto hoje, mas a...

 

P/1 – Isso é em que bairro, Ney?

 

R – Catete! Mas a gente jogou bola de gude juntos, soltou pipa juntos, então eu me sinto completamente à vontade, pode até acontecer um dia, a gente não sabe, mas eu não tenho o menor medo de sair no Rio de Janeiro. E essa ida pra cidade, pra estudar no Colégio Souza Aguiar, foi muito boa, porque como pretexto eu pegava o dinheiro do ônibus, que era do bonde na época, pra guardar, pra ir ao cinema, lá, dois anos depois, porque não se tinha muito dinheiro [riso] e eu ia e voltava a pé, era uma festa.

 

P/1 – Foi no Souza Aguiar que você se envolveu mais com o movimento estudantil?

 

R – Foi. Deixa eu ver, fui pra lá com uns 10, 12 anos, em 1964 eu estava com 14 anos, aí, a gente passou corrente no portão da escola pra não ter aula [riso], aquelas coisas, né? No enterro do Edson nós estávamos. Eu não era ativista, mas eu gostava muito daquele movimento. Eu não sabia muito o que estava acontecendo, mas eu sabia que era uma coisa importante pro país que estava naquele movimento todo. Conheci algumas pessoas que foram fundamentais, depois, pra outras escolhas. Nesse colégio eu conheci um cara chamado Edgar, que ele era o certinho, né, assim, cabelinho bem milico, mas eu gostava muito do Edgar, ele tocava trompete, era escoteiro do mar, só tirava dez nas provas, e a gente teve uma afinidade grande. Um dia ele chegou pra mim e falou assim: “Ney, eu vou fazer prova pra escola técnica lá no Maracanã”. Pô, eu, do Catete pra Lapa já tinha sido, assim, desbravamento, né [riso]? Eu falei: “Pô, onde é que é isso, Escola Técnica”? “É um curso legal, porque a gente aprende a mexer com máquinas, aprende a fazer solda, aprende a fazer um monte de coisas”. E como ele era uma pessoa que eu confiava muito, ele tirava boas notas, era um cara bom, jogava bem futebol também, a gente era sempre do mesmo time, aí, um dia eu fui com ele ao Maracanã, pegamos uma carona e fomos ao Maracanã. Cara, eu vi aquele... Vocês conhecem a Escola Técnica, né, Celso Suckow da Fonseca? Era escola técnica federal. Aí, cheguei lá, tinha almoço, tinha oficina, tinha campo de futebol, eu falei: “Caralho, mas isso aqui é muito bom, né?”. Aí, eu vim fazer concurso depois pra escola técnica, por causa do Edgar, né? O Edgar também era de família humilde, mas ele fazia Cultura Inglesa, fazia Maison de France, o cara era o CDF, ele era assim [riso] o que eu queria ser, mas eu não conseguia. O cara era muito bom, muito inteligente, brilhante!

 

P/1 – Aí, vocês fizeram prova juntos pra lá?

 

R – Não [riso], a gente depois não se viu nunca mais, inclusive...

 

P/1 – Mas você fez?

 

R – Eu fiz a prova, graças a Deus, passei pra escola técnica, aí eu fui fazer máquinas e motores lá, e aí que a gente começou a se envolver mais com a parte de política, porque, aí, na Escola Técnica eu já estava um pouco mais maduro, entendia tudo o que estava acontecendo e tinha uma disputa muito grande no Maracanã, ali, naquela região, entre a Escola Técnica, entre o Colégio Militar e o Pedro II. Acho que eu tinha, assim, um pouquinho de: “Ah, já que eu não passei pro Pedro II. Ah, eu não passei pro Colégio Militar”. E eu participava das brincadeiras que a gente fazia contra os meninos do Colégio Militar, que era padrão, isso não fomos nós que inventamos, isso já era um costume. O pessoal do Colégio Militar andava a cavalo, ali, na Rua Professor Gabizo, ali onde hoje tem a Petrobras, na General Canabarro, e o pessoal da Escola Técnica, às 9h a gente tomava um café, café com leite, mate e pão, só que as janelas eram abertas, o pão era molhado no café com [riso] leite e jogado nos meninos lá do Colégio Militar. Eu sei que na época da ditadura, na época da repressão, eles entraram a cavalo na Escola Técnica, aí foi um período realmente negro, muito difícil; colegas nossos sumiram, foi um negócio meio difícil de viver, mas passou, né? Fizemos passeatas... No enterro do Edson a gente estava lá, foi um negócio bastante forte, né?

 

P/1 – A passeata dos 100 mil?

 

R – Sim, sim!

 

P/1 – E você escolheu, lá, na Escola Técnica motor e... era motor e?

 

R – Máquinas e motores!

 

P/1 – Máquinas e motores?

 

R – É.

 

P/1 – Já por conta dessa influência do teu pai de mexer em motor ou não?

 

R – Não, aí foi quase que um acidente, por influência do Edgar eu tinha escolhido eletrônica, a minha primeira opção foi eletrônica, mas como eu já falei, eu não era um grande estudioso, assim eu não passei na primeira opção, eu fiquei com a segunda, que era máquinas e motores, e de novo foi fantástico pra mim. Eu acho que o meu anjinho da guarda está de plantão, assim, 38 horas por dia, porque está sempre me ajudando muito, então quando eu não passei e tinha vaga em máquinas e motores, no início eu fiquei meio chateado e tal, como também tinha ficado chateado de não passar no Pedro II, mas depois foi ótimo, porque eu adorei as oficinas da escola técnica. Eu era muito bom de solda, de qualquer tipo de solda, fundição, eu adorava fazer fundição, que tinha que trabalhar com madeira, fazer os moldes, aí que eu aprendi a trabalhar com formão, coisa que meu avô em Petrópolis fazia eu passei a fazer também. Que todos os homens da minha família, eles são muito hábeis pra fazer as coisas, eu acho que são todos artesãos, né?

 

P/1 – A sua avó também, que ela fazia xales também.

 

R – A minha avó é hors concours, ela fazia isso e várias outras coisas, né? Mas dos homens eu peguei essa parte mais, vamos chamar de dura, mais bruta, né? Com as mulheres eu peguei essa parte mais feminina, então, eu acho que eu tenho um lado feminino bastante grande, a minha avó me ensinou a fazer tricô, crochê, frivolité, eu sabia fazer esses negócios todos. Hoje, se eu pegar as agulhas deve sair algumas coisas, mas eu sabia mesmo, de sentar do lado dela e tricotar.Não tinha vergonha disso; mais tarde é que eu falei assim: “Pô, eu podia ter caído pra um outro ramo aí”, mas, não, foi só habilidade mesmo, e gostei muito! É, eu já fazia engenharia com ela, sem saber que fazia engenharia. Ela fazia aqueles telefones, com caixinha, com fio, como eu falei, ela era professora primária, e na aula não tinha recursos, antigamente, então ela criava os seus próprios apetrechos didáticos. Um deles, né, uma casa, com janelas, porta, telhado que abre e não sei o que, então, pra ensinar a tabuada, então, ela botava assim: “Essa é a casinha do vezes”, aí você abre uma janelinha e está lá o número dois, abre outra janelinha e está o número três, aí, quando você abria a portinha tinha o resultado, aí, você trocava os papeizinhos, era uma festa, né? E ela fazia isso tudo e ainda tinha tempo de cozinhar, ainda tinha [riso] tempo de tomar conta de mim que estava passando férias lá, um barato! Então, ela fazia esses objetos todos, todos os objetos funcionavam, né? Até, numa das primeiras revistas da Petrobras eu fiz um artigo dizendo: que cientista é a avó, assim, meio doublé, de xingamento, e dizendo que ela já era cientista e eu não sabia disso, eu já estava pegando esse gosto pela ciência, pela curiosidade de materiais e não sabia... e foi muito via minha avó.

 

P/1 – E como é que você escolheu o vestibular, chegou a época do vestibular e como é que foi, então?

 

R – Ah, bom, aí, de novo o anjinho foi guiando, né? Eu fiz Escola Técnica, mas eu esqueci de falar, a escola técnica não era uma coisa, assim, muito aceita, vamos dizer assim... era uma coisa de segunda, era uma coisa pra pobre, era uma coisa pra suburbano, tanto que na escola técnica tinha, acho, convênio com a estrada de ferro, o pessoal vinha do subúrbio pra estudar na escola técnica e voltava, e nós fomos uma leva, assim, de pessoas da zona sul que fomos pra escola técnica, né? É, nessa época eu já estava, assim, mais, é, metido a andar na moda, então alguns amigos meus tinham camisa Lacoste. Então nós tínhamos um apelido, o pessoal da camisa Lacoste, né? E a comida da Escola Técnica é uma comida muito boa, tanto que até hoje eu adoro, eu estou viajando, assim, eu vejo, assim, comida caseira, eu paro, porque é a melhor comida que tem, e a comida da escola técnica era assim. Na Escola Técnica o ensino era um ensino industrial, então, a gente recebeu toda essa parte que foi mais feita pro pessoal mais humilde, que era pra arrumar logo um emprego, e essas máquinas ficaram na Escola Técnica, e isso me influenciou a escolher engenharia depois, porque eu aprendi a gostar de fazer coisas, não de mandar, e não de projetar, e não de planejar, fazer isso tudo, mas fazer também, tanto que eu me dei, como eu falei, eu me dei muito bem nas oficinas, por conta disso. Os professores eram fantásticos, assim, o professor de forja [riso], o professor de forja era muito engraçado, ele era muito temperamental, aí ele fazia a fila dos alunos, pra pegar a sua tarefa, então, ele desenhava assim, por exemplo, pegar um vergalhão, aquecer na forja e transformar aquele vergalhão numa ferramenta, num sextavado, num quadrado e tal, e ele fazia a primeira peça. Nós em fila e ele botava lá o ferro na forja, aquele tufão, né, um fogo danado, a gente com medo, ele uá uá uá, aí, “péin péin péin”, batendo na bigorna, aí, ele fazia a primeira peça e mostrava pra todo mundo: “Tá vendo qual é”. Aí, botava a peça, esfriava a peça e botava em cima da mesa, e cada um de nós ia fazer a sua própria peça. Eu tinha um amigo, o Ricardo, ele mora no Catete ainda, de vez em quando a gente se encontra e a gente ri muito, o Ricardo era um desastre [riso], ele fazia tudo que a gente fazia, ele não sabia escrever, a gente fazia as provas dele, era um barato aquele cara, mas alegre pra cacete, né? Então, ele pegou a peça dele, nesse dia, foi lá, botou a peça na forja, e óbvio, o aço dele fundiu, derreteu e foi embora, né? E nós estamos, lá, fazendo a nossa peça e tal, aí, daqui a pouco chega o Cadinho: “O que foi, Cadinho?” “Cara, a minha peça fundiu, o professor vai me matar, né [riso] ? Eu falei: “Não vai, não!”, então, aí, eu, o Paulo, fomos e roubamos a peça do professor que estava em cima da mesa [riso], roubamos e tal: “Toma, Ricardo, vai lá, finge que tá trabalhando e tal”. Todo mundo fez as suas peças, e entramos na fila pra ganhar a nota, aí, entrou fulano, beltrano, ciclano, e o professor, que já não tinha assim muita paciência, com o Ricardo então não tinha paciência alguma, aí o Ricardo chegou, [riso], o professor baixou o óculos, olhou pro Ricardo assim: “Esta peça está uma merda[riso]! A peça que ele tinha feito [riso]. “Pô, professor!”, ele não podia falar que era a sua peça, né? “Tá bom, eu vou dar um...”, seis ou sete, eu não me lembro mais. Mas eu sei que ele deu uma nota ruim pro cara, mesmo sendo a peça que ele fez. Mas a Escola Técnica foi importante pra isso, pra eu saber que eu podia fazer as coisas, e a minha avó, somado à experiência com o meu pai, com o meu avô e a Escola Técnica me deu a visão do que eu posso fazer hoje, do que eu já venho fazendo desde que eu comecei a trabalhar com engenharia. Então, como você perguntou, a escolha por engenharia foi quase que um... eu já estava ali e fui fazendo. É, de novo, eu tinha que trabalhar rápido, porque o meu pai não tinha muita grana, e, nessa época, tinha um curso na Escola Técnica chamado engenharia operacional, eram só três anos e você saía formado engenheiro. Eu tinha que trabalhar, aí, eu escolhi fazer engenheiro operacional, fiz o vestibular, passei, aí, eu passei na primeira opção...  

 

P/1 – Foi pra onde?

 

R – Pra Escola Técnica mesmo. 

 

P/1 – Pra Escola Técnica?

 

R – É, tinha um curso médio, que era um curso técnico, e eles já estavam recém-abrindo o curso de engenharia, mas o que aconteceu? Como o curso de técnico não era um curso muito famoso ainda e eu tinha que ser alguém na vida, o que eu fiz? Eu fiz a Escola Técnica de manhã e fazia o científico, que era o curso tradicional, à noite, e eu estudava o dia inteiro, né? Estudava, não! Eu vivia nas escolas o dia inteiro, né? Na Escola Técnica eu matava aula pra ir pra oficina, pra poder brincar na oficina, e de noite... Foi assim, o ensino técnico, ele foi se distanciando do ensino tradicional muito rapidamente, o ensino técnico era muito bom, então, à noite eu passava o que eu tinha aprendido na escola técnica pros meus colegas do científico, tanto que quando rolou o vestibular foi mole, né, eles já davam integral, derivada, coisas que o pessoal do científico não dava, né, então, foi um diferencial bastante grande, então, quando surgiu o vestibular eu passei, passei bem, fiz a engenharia operacional, fiz os três anos pra começar a trabalhar, né? Foi muito legal!    

 

P/1 – E qual foi o seu primeiro emprego, o primeiro trabalho?

 

R – O primeiro trabalho foi na Companhia Soutex de Roupas, De Millus! Eu fazia controle de [riso] qualidade de sutiã, era ótimo [riso]!

 

P/1 – Você já tinha se formado, como é que foi?

 

R – Foi logo depois que eu me formei, eu fui trabalhar ali na Lobo Junior, na Penha. É, tem uma passagem interessantíssima nesse emprego, assim, eu fui ser assistente de métodos e processos, uns nomes assim pomposos e que não querem dizer nada, né? Eu ganhava dois mil, trezentos e um dinheiros na época, eu não sei que dinheiro que era, acho que era cruzeiro. Então, eu fui ser assistente de métodos e processos, e eu tinha que fazer o quê? Eu tinha que ir  nas linhas de montagem da De Millus, junto com o Seu Hector, que era o chefe da gente, e ajudar os caras a melhorar a produção, aí foi engraçadíssimo, chegou, assim, um cara pro Seu Hector e falou assim: “Nós estamos com problema na linha de montagem de sutiã”. O pessoal que faz aquele fechinho do sutiã, assim, de plástico, que você engata...

 

P/1 – Aquele clique?

 

R – É, faz assim e engata, né? Estava acontecendo o seguinte: o pessoal que faz o plástico é da parte de estrutura da extrusão, das extrusoras que fazem o fechinho, e é feito assim um saco de machos e um saco de fêmeas. A máquina faz o macho e a fêmea separados, e esses sacos vão pra parte de costura. Aí, as meninas pegam o macho e a fêmea e costuram no sutiã, né? Então, o que acontecia? O pessoal que recebia esse conjunto macho e fêmea recebia eles juntinhos, já aí o Seu Hector falou pra mim assim: “Oh, o pessoal lá está precisando de uma máquina ou de alguma coisa que pegue o conjuntos de fechos macho e o conjunto de fechos fêmea e junte isso”. Eu falei: “Legal! Um desafio interessante, né?”. Aí, eu bolei uma máquina toda complicada, assim, uns vibradores, que o cara despejava um saco de fêmeas de um lado, um saco de machos do outro, aí tinham umas esteiras rolantes que vinham andando assim e lá pelas tantas o macho chegava perto da fêmea, só faltava dar beijinho, né, mas chegava e encaixava, juntava e caía já os dois prontinhos, né? Isso caía num saco e ia depois pro setor de costura. Aí, eu fiz o protótipo, foi um sucesso, todo mundo gostou: “Pô, que legal, o macho e a fêmea se juntam e tal, não sei o que”. Aí, eu sou muito curioso, eu falei: “Seu Hector, eu queria ver pra onde é que está indo esse negócio que a gente está fazendo aqui, então, eu fiz o protótipo, agora vamos ver aonde é que vai dar isso, né?”. Aí, eu fui num outro setor da fábrica, que era a parte que costurava, chego lá, falei: “Ah, eu trabalho com o fulano de tal, assim e tal”. O chefe da seção, falou: “Ah, é! Pô, vocês fizeram um trabalho pra gente”. “É”. “Só que tem o seguinte, cara, a gente recebe aqui o conjunto de macho e fêmea, e aí, tem aqui essa linha de montagem de costura, dessas moças, e aqui a parte de controle de qualidade que corta o fiapinho que sobrou e tal, só que isso dá um trabalho pra gente, cara, chegam uns sacos aqui com os negócios agarrados um no outro, e eu tenho que ter esse monte de meninas aqui tirando um do outro pra poder [riso], porque eles são costurados em máquinas diferentes”. Eu falei: “Ih, é, né?”. Eu voltei correndo lá [riso], falei: “Olha, é melhor vocês conversarem aí, porque eu acho que a gente vai perder tempo com essa maquininha que a gente inventou” [riso].

 

P/1 – Tinha que refazer depois todo o trabalho.

 

R – Quer dizer, a gente tinha falta de conversa. E depois, ao longo da vida, eu vim ver que isso é o maior problema que o ser humano tem, a comunicação, né? Então, você acha que fala, o outro acha que entende... Bom, graças a Deus, a máquina não foi pra frente. Bem que eu queria que ela tivesse ido, porque foi uma máquina fantástica, né? 

 

P/1 – Ney, você ficou quanto tempo lá?

 

R – Ah, eu fiquei pouco tempo, eu fiquei um ano e meio, dois. Aí surgiu uma oportunidade de sair do Rio, eu fui pra Blumenau, Santa Catarina, trabalhar na Metalúrgica Zimmermann, uma metalúrgica de uns alemães. Eu caí no trecho, aí, eu entrei na linha de trabalho do peão, vamos dizer assim. Eu fiquei um ano e dois meses, um ano e meio em Blumenau. Eu perdi o emprego, que eu briguei com a família inteira dos Zimmermann, porque eu queria modernizar a [riso] fábrica dos caras: “Não precisa, a gente trabalha assim há anos, dá certo” [riso]. Eu queria, não deu certo, eu tive que sair, fui pra Curitiba, em Curitiba eu conheci a Petrobras. A Petrobras pra mim era só posto de gasolina. Porque nessa metalúrgica que eu fui trabalhar em Curitiba, eles estavam fazendo umas estruturas pra refinaria de Araucária, que estava sendo montada em Curitiba. Aí, eu entrei na Petrobras, assim, aquela coisa enorme, linda, né: “Caramba!”. Eu nunca achei que eu ia trabalhar na Petrobras. Aí, eu entrei numa empresa, saí dessa metalúrgica, entrei numa outra empresa que atendia a Petrobras, a Montreal Engenharia, fiquei na Montreal 12 anos.

 

P/1 – É uma empresa muito grande, né, a Montreal?

 

R – A Montreal foi muito grande. Nessa empresa eu trabalhei em Curitiba, eu trabalhei em Ponta Grossa, eu trabalhei em Coronel Fabriciano, em Minas, eu trabalhei na Usiminas, e aí fui pra Nuclep, aqui em Itaguaí, uma fábrica de reatores nucleares, aí a Montreal pegou o consórcio MMW, que já era pra construir as plataformas da Petrobras, aí eu fui transferido pra Niterói, na base ali de Niterói, dali da Conceição, quando atravessa a ponte, do lado esquerdo. Conheci a Petrobras, foi paixão de ver, eu comecei a embarcar pra montar as plataformas de Enxova, Garoupa e Cherne.

 

P/1 – Mas isso pra essa outra empresa?

 

R – Na Montreal!

 

P/1 – Ainda na Montreal?

 

R – Na Montreal, é. Aí, na Montreal o que aconteceu? A Petrobras já estava arrebentando, indo pra águas profundas, profundas, profundas. A Montreal fez uma associação com uma empresa de mergulho, a Oceaneering, e fundou uma empresa chamada Monocean, e eu, mais uma vez de enxerido que era, comecei a estudar essa parte de mergulho, trabalho debaixo d’água. Aí, quando surgiu a oportunidade de se trabalhar com essa nova tecnologia, eu já sabia alguma coisa, eles me transferiram pra essa empresa, a Monocean, e eu fui ser o engenheiro de projeto de sistema de mergulho.

 

P/1 – Então, espera aí, antes disso me conta das plataformas, daí você trabalhou, que você falou: em Cherne, Enxova...

 

R – Enxova, Garoupa e Cherne.

 

P/1 – Você pegou as primeiras fixas, né?

 

R – As primeiras, é. Nós pegamos.

 

P/1 – Como é que estava nessa época, o que você achou ao chegar lá, dessa estrutura no mar, o que se falava também?

 

R – Era um negócio, assim, meio de ficção científica.

 

P/1 – Era bem o princípio, né?

 

R – É, era bem no princípio, já tinham bastante plataformas, mas a maioria delas não era brasileira, não tinham brasileiros trabalhando, eu me lembro que a primeira vez que a gente foi, assim, achou muito estranho a gente foi meio de tardinha, aquele monte de...do flair, né, queimando, mas muita coisa. A primeira plataforma mesmo foi Garoupinha, que foi antes de Garoupa, era o sistema antecipado de Garoupa, que nós fomos preparar pra ser substituído pelo sistema definitivo, e isso a gente estava nessa empresa, na Montreal.

 

P/1 – Você acompanhava a instalação também?

 

R – Sim, sim, a gente trabalhava no planejamento dessas operações, e embarcava pra fazer a operação. Mas foi um período muito legal, porque a gente tinha que aprender tudo, a gente não tinha essa especialidade, não, no Brasil, a engenharia não estava preparada pra isso. Foi muito legal, a gente tinha que ler muito. E a Petrobras já uma escola, porque os padrões, os procedimentos, a Petrobras sempre foi, assim, o padrão de qualidade. A gente até estranha que hoje a Petrobras esteja comprando isso e pagando gente pra certificá-la, ela não precisa disso, porque o corpo técnico da Petrobras na época e hoje...na época já era fantástico, então a gente que era das empreiteiras, a gente saía correndo atrás dos manuais, dos folhetos, pra aprender, mas foi uma época muito legal! Então, eu trabalhei em Enxova, na montagem de Enxova, primeiro em Garoupinha, preparando ela pro sistema definitivo, depois, Enxova e, depois, Cherne. Foram as três primeiras grandes plataformas em que eu participei.

 

P/1 – O que deu mais trabalho nessas três?

 

R – Foi Enxova, uma plataforma belíssima, quando pegou fogo eu chorava muito.

 

P/1 – Ela pegou fogo quando, em 1984?

 

R – Eu não me lembro da data, não. Tiveram uns eventos tristes de Enxova, teve aquele acidente grande que morreu muita gente.

 

P/1 – Da balsa, né?

 

R – Do bote, que as pessoas não souberam operar o bote, aí ele caiu lá de cima, matou muita gente. Mas é uma plataforma belíssima, e a gente tinha toda uma vida, social a bordo, aquela coisa de embarcar 14 por 14.

 

P/1 – Você chegou a ficar trabalhando embarcado?

 

R – Embarquei muito tempo, embarquei muito tempo.

 

P/2 – Quanto tempo você trabalhou embarcado?

 

R – Uns cinco anos, 14 lá, 14 cá.

 

P/1 – Qual foi a tua primeira sensação de embarcado, de ficar lá?

 

R – Eu adorava!

 

P/1 – Você gostava?

 

R – Eu adorava, eu ia, eu dizia pros meus amigos, né: “Quando eu venho pra terra é que eu me canso, a bordo é uma festa”. Eu fui o primeiro a soltar pipa na plataforma, ninguém sabe disso, vocês estão sabendo agora [riso]. Não era nem proibido, porque isso não era nem [riso] pensado, né? Eu fiz experiências a bordo, né, muito legal! Eu sempre gostei muito do mar, quando eu estava ainda na Escola Técnica eu participei de um programa do Governo chamado Operação Mauá, tinha o Projeto Rondon e Operação Mauá. A Operação Mauá é como se fosse, assim, o primeiro emprego, aí, eu fui como estagiário, trabalhando num navio, até o Canadá, eu fui trabalhando na sala de máquinas e voltei trabalhando no passadiço, pra aprender a mexer com máquinas e...

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Ah, eu devia ter uns 18, 19, por aí.

 

P/1 – Que ótima experiência.

 

R – Fantástica! Aí, o que eu fiz?  Na ida nós pegamos o navio aqui no Rio de Janeiro, o Navio Minerva, da empresa Netumar, aí, o navio ia costeando o Brasil, entrava pelo Golfo do México e tal, passava em Cuba, as Antilhas e ia direto pra Nova Iorque e, depois, Canadá, foi essa a viagem que eu fiz. Aí, o que eu fiz ainda aqui no Brasil: eu fui na cozinha e peguei várias garrafas de água mineral, fiz uns bilhetes, escritos à mão, em português e inglês, assim: “Sou estudante do curso de ‘eu não me lembro, eu acho que era engenharia’ e sou apaixonado pelas correntes marinhas ‘não sei o que’ e estou fazendo uma viagem a bordo do navio ‘expliquei tudinho’ e estou mandando seis mensagens, essa aqui é a mensagem um, essa é a dois, três, nas coordenadas tais e tais, por favor, quem encontrar essa garrafa mande a mensagem pra mim quando encontrar”. Joguei uma na frente de Salvador, outra na frente lá de... – eu acho que foi – Rio Grande do Norte, depois em Antigua, eu fui jogando garrafas [riso] pelo mar afora, né?

 

P/1 – Você dava o teu endereço?

 

R – Eu botava o meu endereço, botava as coordenadas de onde eu tinha jogado a garrafa, porque eu dizia: “Olha, eu quero saber aonde que essa garrafa foi parar, que aí eu vou saber as correntezas e tal”. Isso foi em 1970, 1969, por aí. Até hoje eu não recebi nenhuma garrafa [riso]  de volta [riso]. Aí, eu fiquei pensando: “Pô, e aquelas histórias que o cara se perde numa ilha, joga uma garrafa e nego vem salvar ele”. “Ah, achamos a sua garrafinha”. Oh, furada [riso]! Pelo menos eu estaria morto já [riso].

 

P/1 – Ney, como é que foi essa sua passagem pra essa firma de mergulho?

 

R – Ah, tá! Bom, aí, eu estava fazendo engenharia dura, né, aquela coisa mais de montagem e tal, que eu também adoro. Aí, eu fui selecionado pra aprender essa nova tecnologia do mergulho, por quê? Porque a Petrobras estava trabalhando em água até 200 metros, Enxova era 130 metros, Cherne, eu acho que era um pouquinho mais, eu não me lembro da profundidade, mas tinha que usar mergulhador, não tinha jeito! As conexões lá no fundo eram feitas com mergulhador, tudo, tudo era mergulhador. Aí é que começa a entrar as maquetezinhas que eu tenho que mostrar, então, precisa o homem estar presente para as operações serem concluídas.

 

P/1 – Mas você ia mergulhar também?

 

R – Não! Mas aí, enxerido que eu sou, eu fui fazer curso de mergulho pra saber como é que era e tal, até, porque eu projetava os equipamentos dessa empresa, quer dizer, a gente recebia muita coisa dessa Oceaneering, mas muita coisa tinha que ser feita aqui no Brasil. Então, eu...

 

P/1 – Já eram equipamentos de submarino, então?

 

R – Já, submarino, né? Então, tem um sino de mergulho, onde os dois mergulhadores vão dentro, o sino desce até a profundidade de trabalho, é um negócio muito perigoso, muito perigoso! Aí, eu comecei a tomar contato com a parte da engenharia que mexe com a segurança do homem que, até então, você mexe com a segurança, mas não é tão direto, assim, se o sino despressurizar o cara morre, é imediato, né?

 

P/1 – E tem um tempo, né, de pressurização do sujeito, da subida e da descida.

 

R – É mais pra despressurizar, porque o nosso sangue fica cheio de gás, dissolvido, e se você despressurizar rapidamente acontece o fenômeno da água mineral com gás, quando você abre as bolhas “pluflufluflu”, isso acontece no sangue, mata o cara ou dá dores terríveis, tem que comprimir o mergulhador de novo, fazer um tratamento com um ar rico em oxigênio, tem toda uma parte médica aí que eu também tive que estudar. Mas, então, eu também me apaixonei por essa atividade.

 

P/1 – Você chegou a mergulhar?

 

R – Mergulhei, é claro! E a Petrobras começando a trabalhar em 300 metros, 400 metros e tal, até que aconteceu um problema numa árvore de natal da Petrobras a 411 metros, e os mergulhadores não podiam ir até lá, e aí eu tive que desenvolver a primeira ferramenta, aí sim eu já estava trabalhando com robótica, sem saber que estava trabalhando com robótica. Pra mim era só uma extensão da engenharia pra resolver um problema que era impossível os mergulhadores irem atrás, né? Então, esse desenvolvimento das ferramentas especiais começou mais ou menos nessa época aqui no Brasil, eu nem sabia...

 

P/1 – Você se lembra qual era o campo, era o que, já Marimbá ou foi depois de Marimbá?

 

R – Foi Marimbá, foi Marimbá!

 

P/1 – E qual foi a solução?

 

R – Tem que mostrar a maquete [riso].

 

P/1 – Você tem ela aí?

 

R – Tenho, tenho.

 

P/1 – Mas não pode dar só o nome, pelo menos pra gente ter uma correlação?

 

R – É, era o seguinte: a árvore de natal  encaixa em quatro postes guias, quando foi retirado o BOP, que é o blow out preventers, esse BOP saiu, bateu nos postes e empenou, então esse poço, que era um poço bastante produtivo, não poderia receber a árvore de natal, porque o poste estava empenado; tinham dois postes bons e dois empenados, então, o que nós fizemos? Nós fizemos uma ferramenta que cortava esses dois postes e colocava poste novo pra que a árvore de natal pudesse se encaixar aí, um trabalho belíssimo! Belíssimo, assim, um negócio...nesse trabalho eu fui a 411 metros dentro de um sino especial chamado sino atmosférico, pra poder seguir a operação de perto, então, essa operação foi feita com um sino atmosférico que tem braços manipuladores pra trabalhar, e com dois veículos de operação remota, pra poder fazer o trabalho. Então, esse foi o primeiro grande trabalho brasileiro de intervenção em locais inacessíveis ao homem. 

 

P/1 – Você tem fotos disso, existem fotografias?

 

R – Tenho foto, filme, eu tenho tudo, tudo guardado.

 

P/1 – E você é que operava esses braços mecânicos lá dentro do sino ou não, como era?

 

R – Dentro do sino eu operei o braço junto com o operador do sino, a gente revezava, porque é muito pequeno o espaço lá dentro. Foi belíssimo descer nesse sino, porque ali é que eu conheci o azul marinho, a gente fala: “Ah, azul marinho, não sei o que”. O sino, quando ele entra na água, ele passa pela interface da água, por enquanto você está vendo aquele azul belíssimo do mar, aí, quando ele vai descendo a luz já não penetra mais, e chega, assim, aos 120, 150 metros, você vê o azul aparecer.

 

P/1 – Um azul profundo?

 

R – O azul marinho! Dá vontade de abrir e beber aquela água toda, assim, sabe, é maravilhoso, maravilhoso!

 

P/1 – E o silêncio profundo?

 

R – Você não escuta nada, só o sino sendo espremido pela pressão [riso] do mar, aí, você fica assim, oh [riso]. 

 

P/1 – Você sente?

 

R – Sente! Você está lá dentro...

 

P/1 – Um medão, né?

 

R – Eu estava sentado...a escotilha de entrada estava atrás de mim, aqui na frente tinha um operador e uma grande janela de acrílico, né, pra gente ver o mar; aqui atrás eu escutava assim: ki ki ki ki kiii [riso].  E, oh, [riso]... teve uma hora que eu botei a mão aqui, assim, atrás, né, estava molhado, eu falei: “Cara, tá entrando água aqui” [riso]. Ele falou: “Não, é assim mesmo, que a pressão vai e fecha”. Cadê que eu acreditava [riso] nisso? Mas depois fechou, aí a gente desceu...

 

P/1 – Mas era suor de nervoso?

 

R – Não, não, era água mesmo.

 

P/1 – Era água mesmo?

 

R – Porque a vedação que existe entre a porta e o sino é feita com o que a gente chama de anel OR, O-Ring, e a pressão externa aperta, aperta, aperta, até que pára de entrar água, e quanto mais você desce mais ela fecha, mas [riso] foi ótimo! Essa operação também foi, assim, inusitada, que a gente desceu uma vez, duas, a gente desceu umas dez vezes, o sino, aí, que...

 

P/1 – Isso era início da década de 90 já, né?

 

R – Não, isso foi em 1986. A equipe já estava morta, porque a ferramenta não encaixava lá embaixo, a gente tinha que trazer a ferramenta pra cima, quer dizer, eu descia pra ver a ferramenta, tinha que ajustar a ferramenta sem estar presente, a ferramenta não encaixava, a gente tirava ela, eu saía do sino, ia lá com os mecânicos, ajustava a ferramenta e entrava de novo, descia, o que aconteceu? Na última tentativa que a gente ia fazer, e é sempre assim, é a Lei de Murphy, a última tentativa que a gente ia fazer, faltava só dar aquele, sabe, aquele totozinho, assim, pra encaixar, aí o sistema do sino começou a dar problema, o sistema de respiração. Aí o cara falou: “Oh, a gente vai ter que subir”. “Não, não, não vamos subir, não vamos subir, não vamos subir!”. E o sistema de bombeio, que era um macaco hidráulico que tinha dentro do sino pra fazer a ferramenta funcionar do lado de fora, começou a vazar, e a gente tinha que subir de qualquer jeito. Aí, o que aconteceu? Vazou o macaco, não tinha mais óleo pra botar no macaco, o que aconteceu? O operador fez xixi dentro do [riso] macaco [riso].  É hidráulico, água, óleo, tudo a mesma coisa. Foi aí que a gente conseguiu terminar a operação, encaixar a ferramenta lá embaixo, e conseguimos subir, e eu e ele com uma dor de cabeça assim enorme, porque o oxigênio já estava diminuindo, a gente já estava com a mistura pobre de ar pra respirar dentro do sino, mas felizmente a gente conseguiu fazer, graças àquela mijadinha que [riso] foi dada dentro do macaco hidráulico [riso].  Ai, meu Deus do céu!

 

P/1 – Ney, como é que você vem pra Petrobras; como foi a passagem, também, nessa outra empresa?

 

R – Eu acho que essa operação foi uma operação determinante, também, nessa vinda pra Petrobras. Aconteceu o seguinte: isso foi em 1986; logo depois apareceu um anúncio no jornal: concurso para Petrobras, não sei o que, eu estava na praia, na praia do Flamengo com uns amigos, aí chegou um cara: “E aí, oh!”, mostrando o anúncio,. Eu falei: “Ah, cara, pô, a Petrobras, pô, eu nem vou lá”, eu não me achava nem um pouco capaz. Ele falou: “Não, cara, tá aqui, oh, é o que você faz, é intervenção submarina, usar mergulhador, veículo de operação remota e tal. Vai lá rapaz!” “Não, não, não!” “Vai, vai, vai!”. Eu falei: “Ah, tá bom!”. Aí, na semana seguinte eu preparei lá um currículo, vim aqui no Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], cheguei ali na portaria, é aquela portaria horrível, ou você fala ou você escuta, ou você vê [riso]. “Ah, anúncio no jornal, e não sei o que”, ela falou: ”Ah, é aqui mesmo e tal”. Eu falei: “É, eu trouxe aqui o meu currículo”, peguei o envelopinho e entreguei, ela pegou o envelope assim, e botou numa pilha, um negócio desse tamanho. Eu falei: “Ah, ferrou, né? Tô fora!” “Ah, então, espera o telegrama”, o famoso telegrama. Eu falei: “Ah, então tá bom!”. Continuei trabalhando, sei lá, duas semanas depois o telegrama: comparecer com máquina de calcular e caneta pra fazer prova, não sei o que, fui, fiz a prova: “Espera o telegrama” [riso]. Aí, então, duas, três semanas depois chegou o telegrama: comparecer pra não sei o que, prova de não sei o que e tal, fui fazer a prova, esperar o telegrama. Aí, eu sei que três meses, quatro meses depois: comparecer no Cenpes para entrevista. Eu falei: “Opa, tá diferente agora, não é mais prova!”. Aí, cheguei aqui, fiz a entrevista com o meu antigo chefe, o Luiz: “Ah, é assim, assim, assado e tal. Mas nós estamos com um problema”. Eu falei: “Ah, tava bom demais, né?”. Eu falei: “É, o que é”? “Não, é o seguinte: o nosso anúncio no jornal e o nosso pedido era pra uma vaga e nós temos dois candidatos finalistas,  você e um outro rapaz”, aí, eu rapidamente pensei assim: “Bom, vamos pensar pelo lado positivo ou negativo? Bom, negativo: a vaga já era do outro cara e eu estou aqui de penetra, ou positivo: a vaga era pra mim e ele é que está me ameaçando e tal. Eu sei que no final eles conseguiram duas vagas, que eles tinham pedido uma vaga só, e no final entrou eu e o Venceslau, que infelizmente já saiu também. Mas, aí, eu fiquei nessa dúvida, até hoje eu não sei se a vaga era pra ele e eu entrei de bicão, ou a vaga era pra mim e ele que entrou de bicão, eu sei que a gente entrou, foi muito legal.

 

P/1 – E você já entrou direcionado pra essa parte de equipamentos submarinos, como era?

 

R – Foi, a vaga era pra intervenção submarina, por isso que eu achei que poderia ter sido determinante esse trabalho que nós fizemos lá, e talvez eles tivessem querendo uma pessoa bastante específica dessa área. Então, quando eu entrei, eu fiquei bastante feliz, por quê? Eu estava fazendo um trabalho que já era necessário pra Petrobras e eu não sabia, e aqui nós tivemos a chance, com o Aluísio, no antigo Cemec, eu e o meu colega, o... 

 

P/1 – O Cemec era o quê? Conta, também, pra quem não era dessa época.

 

R – O Cemec hoje é o Temec, mas na época era Setor de Equipamentos, Mecânica e Corrosão. O Aluísio era um cara fantástico, assim, sabe, aqueles caras visionários.

 

P/1 – Você sabe o nome completo dele?

 

R – Aluísio Nóbrega. Nessa época também estava chegando no setor o meu colega, que a gente divide baia até hoje, que é o Luiz Mecina, e o Aluísio, com aquela clareza dele, falou assim: “Bom, vocês vão montar o laboratório de robótica” “Então, tá!”.

 

P/1 – Foi a sua primeira missão!

 

R – [Riso] É. Eu e o Mecina, a gente começou a rascunhar esse laboratório, aí, montamos o laboratório, que é o que eu estou tocando até hoje. Têm ótimas coisas que a gente já fez nele, e a gente vai fazer muito mais ainda. Mas aí que a gente começou. Eu pelo menos comecei a ter uma visão maior do que eu já fazia, quer dizer, eu já fazia engenharia com a minha avó e não sabia, o meu pai já tinha me dado um monte de dicas, informalmente, a escola técnica! Então, essas coisas começaram a ter um formato e uma aplicação pro negócio que, aí, o meu lado ideológico começou a aflorar mais, de trabalhar na Petrobras, de saber que é uma empresa importantíssima pro país, saber que nós temos condições de fazer praticamente tudo aqui no país, a nossa formação de povo, nessa mistura, faz da gente, assim, um povo especialíssimo, nós somos super inteligentes, super criativos, nós somos bonitos, a gente é agradável, é ótimo, o brasileiro é fantástico. Então, comprar essas caixas pretas dos irmãos do norte, na maioria das vezes não precisa,  porque nós temos condições de resolver tudo aqui. E aqui dentro do Cenpes, né, que eu já entrei direto aqui pro Cenpes, eu vi que é possível esse tipo de realização. Já foi mais, hoje está muito difícil de se trabalhar, eu não sei nem se a gente vai conseguir ter tempo de falar sobre essas coisas, mas aqui nós temos condição de resolver os problemas da operação, os problemas políticos, os problemas operacionais, enfim, trabalhando na Amazônia, agora, mais recentemente, eu vi que essa responsabilidade aumenta mais ainda, porque...até, numa das palestras que eu dou, eu boto o mapa da América do Sul, delineio a Amazônia, que não é só brasileira, é brasileira e de outros países irmãos, e boto a Europa em cima, Amazônia e Europa, quer dizer, a nossa responsabilidade é muito grande, porque nós temos que desenvolver a Amazônia, nós temos que desenvolver o país, quer dizer, esse discurso de a Amazônia é intocável, isso tem que ser repensado, ela tem que ser tocada com carinho, e não intocada, né, e isso a Petrobras está fazendo, lá, a partir de Urucu e a partir do gasoduto Coari–Manaus, que nós estamos trabalhando direto, lá, agora. Então, nós é que temos condição de tocar isso! Porque a gente é brasileiro, a gente sabe como lidar com aquela região, e a gente está aprendendo a lidar com o povo de lá, que sabe, que vive lá há séculos, né? Então, as soluções do Brasil, e as soluções que passam pela Petrobras, elas obrigatoriamente têm que ser dadas por brasileiros. Não quer dizer que a gente tem que fechar os ouvidos e os olhos pras soluções que já estão lá fora, mas a gente tem condições de fazer isso aqui.

 

P/1 – Deixa eu entender também da sua trajetória, né, que agora você está falando desse trabalho na Amazônia, mas você entrou para um departamento também específico, era o que, 1987, já, então...

 

R – 87!

 

P/1 – Vocês estavam pegando, já, águas profundas, e hoje aparecendo os grandes campos e tudo.

 

R – Águas profundas, nessa época era 400 metros [riso].

 

P/1 – É. Eu quero saber também quais foram os principais trabalhos que vocês fizeram, que vocês desenvolveram nessa época, pra essa parte mesmo, pra começar a enfrentar, o que foram, assim, os primeiros grandes desafios que a Petrobras começou a...

 

R – Aí, de novo, eu vou ter que mostrar a maquetezinha, né? Eu tenho três copinhos lá no laboratório de...

 

P/1 – Eu até lembro deles.

 

R – Os três copinhos de isopor que são, exatamente essa explicação que você está pedindo, um deles é um copo de isopor normal, feito pela fábrica de copinhos de isopor, que está a uma atmosfera, que é a atmosfera que nós estamos aqui, é um quilo por centímetro quadrado, a gente não sente essa pressão, porque nós nascemos, nós estamos adaptados à isso. Tem um copinho do lado que é igualzinho ao copinho normal, só que nós submetemos esse copinho a uma pressão de mil metros de lâmina d’água, você vê que o copinho é pressionado, o mesmo barulho que eu escutei dentro do sino, ele atua nos corpos. E do lado tem um copinho que foi submetido a uma pressão equivalente a três mil metros de lâmina d’água, que é a profundidade que a Petrobras está trabalhando hoje. São três quilômetros dentro d’água, são 300 quilos por centímetro quadrado, então, tudo que você bota ali vai sofrer aquela pressão, e não só a pressão, a temperatura também, porque a mil metros de lâmina d’água você tem uma faixa de três, quatro graus centígrados de temperatura. Se você pega uma barra de aço comum, aqui, até essa temperatura, e bota ela no fundo do mar a três, quatro graus centígrados, naturalmente ela sofre com a variação de temperatura, ela muda as suas dimensões, se eu estou falando em metro, coisas, assim, medidas grosseiras, você praticamente não observa isso, mas se você, por exemplo, está trabalhando com eixo e mancal, isso tem uma folga! Se esse eixo tem que rodar nesse mancal, e aqui na superfície ela roda, porque existem tolerâncias que fazem com que ele rode, se você coloca isso nessas novas condições de temperatura e pressão, lá ele trava! E se você trouxer pra cima, pra consertar, ele vai funcionar, aí, você fala: “Poxa, mas ele está bom”, mas quando você bota ele lá embaixo, ele está ruim. Então, foi todo um aprendizado, porque isso não estava em livro nenhum! Isso não tinha experiência de gringo que desse isso pra gente, isso foi aprendido por nós, técnicos brasileiros que estávamos confrontando com essas situações pela primeira vez.

 

(Início do segundo CD)

 

P/1 – É conhecimento empírico mesmo, né?

 

R – Empírico, completamente empírico! Depois, as pessoas foram: “Ah, eu preciso estudar isso melhor. Que eu preciso estudar aquilo melhor”. Aí, fui buscar academia, fazer associações com as universidades, estudar temas e tal. Mas quem desbravou isso foram os brasileiros, tá certo? Então, hoje nós temos lá fora a fama de: “Ah, porque o brasileiro é que entende de água profunda”. Isso não é de graça, não! Isso foi com muito suor, e muito erro em cima; hoje, uma das dificuldades que eu falei há pouco, hoje é um tabu dizer que errou, ora, errar faz parte do ser humano, tá certo? “Ah, mas é com o erro que se aprende”, mas isso é um discursinho, né? Tem que errar mesmo! Você quer errar? Não, mas errando você pode usar aquele erro pra aprender muita coisa. 

 

P/1 – E a ciência sempre mostrou, né, que é a partir dos erros que você consegue, até, entender e ter um processo de conhecimento.

 

R – Sim! E o principal disso tudo é o seguinte: se você fica com medo de errar, você pára de ousar, parando de ousar, você pára de ter soluções disruptivas, que são as soluções que nós precisamos no momento! Porque o nosso momento é um momento especial! De novo nós descobrimos, descobrimos, não, a gente já sabia, mas está aí na nossa porta explorar o pré-sal, como é que faz? Se as pessoas tiverem medo de dar soluções que podem vir a falhar, a gente não vai ter aquela que vai acertar!

 

P/1 – Ney, a robótica participava do Procap, como é era isso também, teve alguma ligação, interface?  

 

R – Não, não era, assim, tão direto, porque o Procap, o primeiro Procap, que não tinha número, mas era pra...

 

P/1 – Foi quando você estava chegando, né?

 

R – Foi, foi, exatamente!

 

P/1 – Estava começando quando você estava chegando.

 

R – Era o Procap, mas era pra atender mil metros, né? É, o Procap já inovou com essa proposta, que era trabalhar matricialmente, então, ele tinha um problema, trazia um problema e se pensava, aonde se estivesse, na empresa ou fora da empresa, pessoas, grupos, tecnologias pra ajudar a resolver aquilo, e a gente participava com projetos que nós propúnhamos dentro do Procap.  A gente não era do Procap, a gente era...

 

P/1 – Esse projetos eram para?

 

R – Para atender a carteira do Procap. E depois veio o Procap 2000, 3000 e tal, e tomara que [riso]  continue, né? É, mas lá no laboratório nós temos, assim, claramente três linhas de atuação que é: apagar incêndio...

 

P/1 – Apagar incêndio é quando está precisando de uma coisa urgente?

 

R – Urgente.

 

P/1 – Uma solução urgente?

 

R – E que não tem em prateleira de lugar nenhum do mundo. Tem o auxílio aos projetos novos, onde a gente, por conta da experiência que a gente tem, a gente fala assim: “Oh, não faz desse jeito, porque assim já deu errado, tal, tal. Tenta fazer assim, que tem a chance de dar certo”. E tem o acompanhamento dos projetos que estão rolando, então, o que aconteceu?

 

P/1 – Os projetos de vocês?

 

R – Não, projetos da empresa, por exemplo, manifold, fazer manifold pra atender Marlin. Marlin precisou de não sei quantos manifolds, a maioria das empresas que fez os manifolds, eles não tinham experiência de fazer manifolds daquele tipo, então, cada empresa cunhou lá a sua tecnologia, então, aonde é que nós entramos aí pra ajudar? Como são águas não mergulháveis precisava ter o veículo de operação remota pra fazer as operações, as válvulas, trocar as tomadas de lugar, lida aqui e bota lá, então, nós tínhamos um manipulador no laboratório que servia pra fazer os testes nos manifolds, ainda com os manifolds aqui no estaleiro, então, o que acontecia? Eles faziam as concepções de projetos deles, montavam o painel e nós, com o nosso manipulador, íamos até lá testar, pra ver se aquilo era factível, então, aí, também inauguramos uma fase muito interessante que é, ainda no canteiro, você dizer: “Oh, isso aqui, quando chegar lá embaixo, vai ser muito mais difícil de operar”. Então, a gente mexia no projeto, dava sugestões pra que eles adequassem os painéis de interface. Então, os dois hoje estão em manutenção, mas nós temos dois manipuladores que são exatamente pra fazer isso: simular as operações no fundo do mar. Então, têm projetos que são feitos em terra pra ajudar o pessoal que está construindo os manifolds e as árvores de natal que vão pro fundo do mar. Mas eu tenho que confessar, o que mais me agrada mesmo são os incêndios, né, porque [riso] são as coisas inusitadas, assim: “Tem que apertar um parafuso de uma árvore de natal que já está instalada a mil e não sei quantos metros de profundidade”, como é que faz isso?

 

P/1 – Te coloca pra pensar, né?

 

R – Aí, de novo, tem que ir lá na maquete pra mostra, né? Têm exemplos, lá, que estão lá na maquete.

 

P/1 – A gente vai lá ver, tá? Mas eu queria que você me dissesse, assim, primeiro: qual foi dos seus projetos o que te deu mais dificuldade e o que te deu mais prazer também. Desses incêndios,  depois a gente pode falar mais um pouquinho pra você mostrar lá.

 

R – Tá. Oh, os de maior dificuldade, não é nem uma dificuldade técnica, foram dificuldades de execução mesmo: resgatar helicóptero que cai com colegas nossos dentro, resgatar eles do mar, é muito difícil.

 

P/1 – Mas isso é um trabalho ou foi uma...

 

R – Acontece mais do que eu gostaria [riso].

 

P/1 – Só pra eu entender também, vocês fazem esse trabalho também?

 

R – A gente faz também, né, porque as empresas que prestam serviço de helicóptero pra Petrobras não são da Petrobras, são terceirizadas, mas na hora que acontece um sinistro desse, não importa, a Petrobras vai e assume a operação, e tenta: primeiro, tirar os nossos colegas com vida do mar; segundo, não dando, porque a maioria dos acidentes são fatais, você tem que tirar os corpos, e o mais difícil ainda é quando o helicóptero vai pro fundo, e normalmente vai, e as pessoas vão dentro do helicóptero, não mais pessoas, mas, sim, só o corpo das pessoas, e aí você tem as famílias querendo uma notícia primeiro, depois, querendo o corpo e, às vezes, não tem o corpo, e a gente que está ali na sala de contingência tem que dar conta de todas essas emoções que estão no ar. Você tem que fazer um trabalho técnico bem feito, porque os críticos de plantão estão sempre de plantão, e a pessoa que perdeu um ente da família você não tem palavras...mesmo que não tenha sido uma culpa direta da Petrobras. Então, esse é o pior trabalho que eu já fiz, e a gente faz com bastante, né, sei lá, a cada dois, três anos a gente tem que fazer um negócio desses, e é muito desagradável. Agora, os trabalhos que dão prazer são muitos, eu poderia...

 

P/1 – Teve um, assim, que foi o seu querido, o seu xodó?

 

R – Eu acho que o xodó, de novo, foi uma coisa política, foi num momento muito difícil da Petrobras, que estavam querendo privatizar a Petrobras, e apareceu um vazamento num campo de Marlin, no Marlin meia dúzia, e o pessoal lá de Macaé recebia telefonemas, a gente veio a saber disso depois, telefonemas de ONGs, ou pelo menos se diziam de ONGs, que iam denunciar, e que o vazamento da Petrobras estava prejudicando o meio ambiente, não sei o que e tal, e a gente tinha que dar uma solução pra isso, e não podia tirar a árvore de natal que estava vazando lá do fundo do mar. Então, na época, era o Irani o superintendente...

 

P/1 – O Irani Varela?

 

R – É. A gente pediu orçamento pra empresas de mergulho, pra fazer essa intervenção, a resposta veio: “Ah, a gente faz, sim! Vai custar zilhões de dinheiros, mas a gente não dá garantia de sucesso”. Aí, caiu no meu colo fazer alguma coisa pra sanar o vazamento, foi nessa época que eu comecei a trabalhar com o Zé Almir, fazer maquetes de madeira, porque a gente não tinha a peça pra trabalhar, então: “Vamos fazer o quê”? Aí, construímos no laboratório a maquete, e aí isso foi bom, porque mostrou que existia uma linha, uma metodologia muito interessante de trabalho, que é essa de se trabalhar com maquete, por isso que eu fiz o...

 

P/1 – Foi aí que você começou com as maquetes, foram as primeiras?

 

R – Aqui na Petrobras, sim! Porque, de novo, existe um preconceito, já que você trabalha num centro de pesquisas da maior empresa da América Latina, já que você está trabalhando num laboratório de robótica, trabalhar com marceneiro? Por que você não faz prototipagem rápida? Por que você não trabalha com AutoCAD? Por que você não usa o 3D Max? Por que, né, entendeu? Que dizer, o colonizado, ele tem essa coisa de: “Não, vamos usar o melhor do mundo pra fazer o melhor do mundo”. Não, não foi assim que o vietnamita ganhou a guerra! Eles não construíram porta-aviões, eles não, fizeram, treinaram vários Rambos pra combater os americanos, eles fizeram ponta lá no bambú, puseram saquinhos de arroz na cintura e foram ganhar a guerra. Então, você tem que ter consciência do tamanho das tuas pernas, dar o passo que você pode, mas saber que você tem coisas boas, dentro do que você está precisando fazer. Então, esse negócio de trabalhar com maquete eu enfrentei e ainda enfrento hoje algumas resistências bastante fortes aqui dentro, mas está aí, o resultado mostrou que funciona, né?  

 

P/1 – E aí, você passou a usar ali?

 

R – Não, ali eu comecei a trabalhar com vários, vários carpinteiros, alguns se destacaram mais e tal, e hoje o Zé Almir é pra mim, assim, é o artista, ele não é mais marceneiro, ele é um profissional do corpo de engenheiros de um laboratório de robótica, a opinião que ele dá tem o mesmo peso que a minha e que a de...eu que tenho que decidir no final, mas...

 

P/1 – Eu gostei de ver que ele contou que ele participa do trabalho da equipe, né?

 

R – Tudo! É, tudo!

 

P/1 – Ele acompanha também as etapas? 

 

R – Isso, ele embarca com a gente, ele vai pra campo, na hora que ele fala: “Não dá pra fazer isso”, a gente pára pra escutar, ou: “Faz isso”, a gente pára pra escutar e fazer, então, o peso é igual. Então, o que aconteceu nesse evento de Marlen meia? Existia uma pressão externa muito grande, aí, eu acho que estava pra ser votada a quebra do monopólio, a gente não podia dar esse mole de deixar um: “Ah, está vazando, tá vendo como a Petrobras não tem condições de tomar conta dos seus equipamentos e tal”. Aí, chegou lá pra mim: “Ney, vamos fazer?”, eu falei: “Vamos! Estamos dentro, vamos fazer”. Aí, fizemos a maquete, começamos a estudar opções de intervenção.  Nessa época tinha um técnico aqui muito bom, o Carlos Henrique, ele hoje está fora do Cenpes já. Então, nós desenvolvemos duas ferramentas pra fazer a intervenção desse vazamento. Olha, nós trabalhamos uns sete meses nesse negócio, sorte que o vazamento não era constante, era um vazamento intermitente, vaza hoje, amanhã não vaza e tal. A Petrobras botou um esquema forte de inspeção em cima pra monitorar esse vazamento, e a gente aqui, né, trabalhando, eu até me lembro um dia que o Irani, preocupado com esse problema, oi lá na Adema, na nossa oficina aqui dentro, aí, estava lá eu, o Alfredo (Magé?) e o soldador de tigue, que infelizmente faleceu, mas a gente estava soldando uma peça dessa ferramenta, aí o Irani chegou, ele era o superintendente, o Irani que observou isso, foi muito interessante, que ele uma vez num papo e, depois, numa entrevista ele falou isso, né, ele falou assim: “Ney, eu cheguei e as pessoas não arredaram pé”. Quer dizer, a leitura dele foi a seguinte: as pessoas estavam tão – oh, eu fico arrepiado – as pessoas estavam tão dentro do trabalho, tão dentro da necessidade, que elas não abriram pra autoridade chegar, ele... 

 

P/1 – O trabalho era mais importante.

 

R – E ele era mais um! Naquela hora era todo mundo igual, então, as pessoas não. “Ah, pois não e tal. Aqui a peça é assim. Agora dá licença que eu vou trabalhar” [riso].

 

P/1 – É, o importante era o trabalho.

 

R – É, foi muito bonito, e isso quem observou foi ele, um momento muito interessante. Então, essa operação eu acho que foi o divisor de águas, antes nós éramos mais um grupinho que estava tentando fazer algumas coisas lá, nessa ocasião a gente foi, fizemos duas ferramentas, embarcamos, fechamos o poço em apenas quatro horas, o poço não podia parar, porque a gente não podia também baixar a nossa produção. Então, nós embarcamos num barco de apoio, quando estava tudo preparado, a gente mergulhou e só quando a ferramenta já estava na boca de fazer o trabalho é que a gente mandou fechar o poço, porque, aí, também, a gente não podia piorar o problema, com o poço aberto pra gente fazer alguma coisa que fosse vazar muito mais, então, naquela hora fechou-se o poço, em quatro horas a gente conseguiu fazer o aperto dessa porca que estava frouxa, e tiramos a ferramenta e viemos comemorar no barco. Aí, foi o divisor de águas, já fizemos coisas muito mais complexas, mas essa, assim, pelo caráter delicado da situação, do momento, da estratégia do país de não perder a Petrobras, sabe, de manter uma empresa importante como essa, brasileira e tal, a gente suou um bocado a camisa.  

 

P/2 – E quais foram os dois equipamentos, quais eram os nomes deles?

 

R – Nessa época eu não dava nome pra eles, ainda não [riso]. Depois é que eu...a gente tem que brincar também, tem que se divertir, então, eu crio algumas siglas, assim, que têm umas brincadeiras por trás.

 

P/1 – Vocês patenteiam também essas...

 

R – Sim, alguns, sim! 

 

P/1 – Algum, sei lá, equipamento, eu não sei, como é?

 

R – Quando a ferramenta ou quando o sistema vai ser usado mais vezes a gente tem a preocupação de patentear, como é o caso do Girino, que é o robô que nós fizemos pra trabalhar dentro de tubulação, o caso do robô ambiental híbrido Chico Mendes, que é pra trabalhar na Amazônia ou em áreas inundadas, é uma ferramenta que a gente espera que vá ter outras operações com ela. Agora, quando é uma ferramenta que vai operar uma vez só, a gente não patenteia. Teve uma ferramenta que eu fiz e que eu patenteei um detalhe dela, que é uma chave que encaixa de qualquer jeito numa porca, então, isso pode ser usado em qualquer outra ferramenta, porque foi uma ideia fantástica de uma solução mecânica para um problema universal.

 

P/1 – E isso pode ir pra...

 

R – Pra qualquer coisa.

 

P/1 – ...qualquer tipo de ferramenta, até pra gente, doméstica, né?

 

R – Isso, exatamente! Por isso que eu pedi pra patentear. Mas quando é uma ferramenta, assim, que você vai usar uma vez e nunca mais vai usar, e que não tem nada específico nela, de novidade, a gente não patenteia. E a gente está cheio desses exemplos, lá tem um monte deles, é o que eu quero mostrar pra vocês. (riso)

 

P/1 – A gente vai lá. Me conta: como é essa demanda, essa demanda que vocês estão atendendo agora, fazendo esse robô pra Amazônia, isso é uma demanda...

 

R – Não!

 

P/1 – Como é que funciona essa questão?

 

R – Isso é outra luta grande nossa aqui dentro do Cenpes, que é o seguinte: um centro de pesquisas não pode ser uma quitanda, a gente não pode estar aqui só recebendo encomendas, nós temos que trabalhar no incêndio, apagar incêndios? Sim! Nós temos que trabalhar pra atender a produção e o lado operacional? Sim! Mas nós temos que ter liberdade pra poder indicar coisas pro futuro, e hoje nós não estamos tendo essa liberdade conforme nós gostaríamos que tivesse.

 

P/1 – O Chico Mendes é pro futuro de vocês?

 

R – O Chico Mendes não era pra existir, porque ninguém pediu, dentro dessa...

 

P/1 – Então, isso é um projeto pro futuro?

 

R – Não, aí é que está! Você está tocando no ponto, eu posso falar isso, porque eu já estive do lado operacional só, eu já estive do lado operacional e de pesquisa, hoje eu estou mais no lado de pesquisa, mas eu também atuo no operacional; o que normalmente o operacional quer? O operacional quer resolver um problema imediato: “Hoje a minha chave quebrou, eu quero concertar a minha chave” “Hoje o poço está parado, eu quero concertar o poço” “Hoje o meu navio está com um furo, eu quero tapar o furo”, é uma coisa muito imediata. Quando você pede auxílio ao centro de pesquisas, você espera, homem, universidade, você espera que venha uma solução um pouco mais perene, o Cenpes, de um tempo pra cá, virou um órgão de demandas imediatas. São importantes? Muito importantes, mas tem que ter dentro de um centro de pesquisas espaço pra que você pense amanhã, pra que os problemas de amanhã não sejam incêndios também, então, nem que deixe meia dúzia de malucos dentro do centro de pesquisas pensando coisas pro amanhã, tá certo? Aí, eu vou falar do Chico, né, do Chiquinho [riso]. Eu estive na Amazônia em dezembro de 2004, e vendo a região onde o gasoduto iria passar, por quê? Porque a Petrobras fez um convênio com a Universidade Federal do Estado do Amazonas, a UFAM, e tem um projeto lá chamado Piatã. Piatã quer dizer forte, vigoroso, em tupi-guarani, eu acho. E esse projeto estava vendendo que precisava estudar os impactos ambientais de um possível vazamento de óleo numa floresta tropical úmida, mas quando você começa a estudar isso você não fica só nisso, foi o que aconteceu quando eu estive lá, eu fui lá, eu estava a bordo de uma voadeirazinha junto com um mateiro, eu, um colega e o mateiro: “pãããããã”, aquela rabetinha, um barquinho de alumínio, e nós tínhamos que ir numa região atrás das árvores grandes, as árvores chegam a 50, 60 metros de altura, quando a gente estava no meio do rio, você olha assim, eu tenho fotos disso, e tenho até o filme, quando você olha, assim, nas beiradas do, eles chamam de igarapé, pra mim aquilo é um rio enorme [riso], mas na beirada do igarapé você vê uma relvazinha verde, parece praia de restinga, que tem aquela relvazinha em cima da areia, e eu dentro da minha ignorância sulista, do sul-centrista, eu olhava e falava: “Pô, que praiazinha legal, de um lado e do outro, né?”. Aí, quando o barco se encaminhou pra região que a gente queria ir, quando chegou na interface entre a água e esse colchão verde o barco parou, porque ele não passa ali, eu até brinco, dizendo assim, na hora: O barco bateu assim e eu vi aquele negócio fazendo assim, a marola chegou, eles chamam de banzeiro, a marola chegou, eu falei: “Caramba, é de manhã ainda, eu não tomei nenhuma cerveja e eu estou vendo tudo mexer, né [riso]

 

P/1 – Isso era o colchão verde mexendo?

 

R – É, um negócio assim, eu falei: “O que está acontecendo?”, ele falou: “Não, aqui é a tapagem ‘que é o termo técnico daquilo, né, que têm macrófitas, canarana, eu vim estudar isso depois’. Isso aqui a gente não passa”. Eu falei: “Pô, mas a gente tem que ir lá em terra firme, né?”. Aí, o cara tira um terçado, uma peixeira desse tamanho, vai pra beirada do barco, o meu coração caiu [riso], vai pra beirada do barco e ele começa a cortar aquele colchão vegetal que está na flor da água, e aquilo abre e ele vai com o remo empurrando o barquinho, e corta mais, e vai empurrando, cortando, vai até chegar lá no fundo. Eu estava entretido, vendo o que ele ia fazer, que eu já tinha visto, ave sair dali, mais adiante tinha jacaré, um negócio riquíssimo, e o cara, “tcha tcha tcha” e andando e tal, aí, quando chegamos lá, 50 metros depois, eu olhei pra trás, cadê o caminho? Já tinha fechado de novo, eu falei: “Oh, seu mateiro, fechou! Como é que a gente vai fazer à tarde, quando a gente voltar?”, ele falou: “Ah, a gente corta tudo de novo”, eu falei: “Ah, não! Não vai cortar tudo de novo”, aí, eu pensei: “Pô, daqui a não sei quantos anos, né...” Se foi em dezembro de 2004, a Petrobras vai ter naquela região, sei lá, 200, 300 pessoas fazendo operações, indo ao gasoduto toda hora, entrando pra fazer manutenção, inspeção, imagina se eu tenho 200, 300 pessoas com seus barquinhos e todo mundo cortando a tapagem? Eu, não! Não vai fazer isso, não, pô, isso é loucura. Isso foi em dezembro de 2004, em janeiro de 2005 eu entrei de férias, eu estava andando na Rua da Alfândega -eu adoro a Rua da Alfândega, quer dizer, eu adoro o Rio, já falei-, eu gosto de comer um quibe ali no árabe aos sábados, aí eu passei numa loja, aquelas lojas que fazem festas de crianças, que tem a Mônica...

 

P/1 – No Saara, né?

 

R – É, é no Saara. A Mônica, o Cascão, o Super-Homem e tal, aqueles castelos horríveis, feitos [riso] de isopor, aí, eu olhei na vitrine e tinha, assim, uma esfera grandona de isopor, aquela que a gente cola vidrinho pra fazer bola de festa, aí, eu passei, voltei, olhei a bola assim, entrei: “Moço, você tem dessa bola maior?”, o cara: “Ah, tem uma lá em cima. O fulano”, aquelas coisas, o Saara é uma zona, né? “O fulano, vê lá se tem aquela bola lá de tantos”. Aí, o cara: “Tem, tem quatro”, ele falou: ”Ah, tem lá em cima no depósito, tem quatro de...”, eu acho que era de 400 milímetros de diâmetro; ela é bipartida assim. E já ia saindo, eu falei: “Não, não, não! Eu quero, eu quero as quatro”. “Traz as bolas aí”. Aí o cara com aquele saco preto, tudo cheio de poeira, comprei as bolas, levei pra casa. Eu já estava com a ideia do robô nessa hora; comecei em casa a brincar com esse negócio das metades do isopor, né, bota na água, flutua, fecha, flutua mais, quanto é que é esse peso? Não sei o que. Aí, eu voltei aqui no Cenpes, ainda de férias: “Zé, ‘o Gepeto’ isso, isso, isso e tal, não sei o que e tal”. “Ah!”, e ele é assim... você fala um negócio e ele já melhora, depois manda pra mim, eu melhoro um pouco, e volta pra ele e tal, pá pá pá, eu sei que em março nós estávamos com um prototipozinho do robô andando aqui no lago do Cenpes, em março! Em setembro nós fomos com o protótipo pra Amazônia, na seca, porque ainda tem isso, lá você tem quatro estações muito bem definidas: cheia, vazante, seca e enchente, muda tudo, muda tudo! Então, o que eu fiz? Eu fiz uma proposta para que não se fizesse a incursão na floresta tropical úmida da Amazônia daquele tipo que estava sendo feito, já, desde sempre, porque a tendência do ser humano é usar o que já está aí, tá certo? Então, quando nós viémos com uma proposta de uma quebra de paradigma, só pra eu usar uma palavrinha da moda aí, pra transportes em zonas inundadas, as pessoas: “Ué, mas quem é o cliente?”. “Não tem cliente, caceta! Não precisa ter cliente, a gente tem capacidade de pensar também, tá certo?”. Então, é o espaço pra esse tipo de atividade que a gente está pedindo aqui dentro do Cenpes, e não existe mais, hoje, um Aluísio, por exemplo, que era um cara visionário, que falava assim: “É, isso aí pode dar certo, vamos fazer”. É o risco, é a pessoa que está hoje numa determinada posição, seja de gerente, de chefe, o nome que se queira dar, ele ter colhão [riso]. pra falar assim: “Não, esse projeto é um projeto em que eu acredito, pode trazer benefícios pra empresa, pro país, e nós aqui do Cenpes vamos bancá-lo, independente se alguém pediu ou não!”. Quantos vão dar certo? Não sei, tá certo, mas se de 10 um der um resultado fantástico, ele paga todos os outros.

 

P/1 – O que é o normal em pesquisa, né?

 

R – Pesquisa é isso! Então, não é que a gente esteja defendendo que todo mundo faça o que quer, o que dê na cabeça: “Ah, aqueles malucos!”, não! Nós temos uma experiência hoje, nós não somos mais crianças, a gente sabe o que a gente está fazendo, então, deixar que determinadas pessoas façam as suas propostas até num fórum diferente, por isso que nós criamos aqui o fórum transverso, já numa tentativa de falar transversalmente, com todos os outros setores que têm lá as suas caixinhas, têm lá as suas missões, as suas visões, essa coisa bem caretinha, da empresa moderna.

 

P/1 – Esse fórum acontece uma vez por ano, como é?

 

R – Nós só conseguimos fazer um encontro do fórum transverso até hoje, por quê? Porque a gente precisa trabalhar, precisa apagar os incêndios. A gente tem os projetos, tem esse monte de burocracia que a gente tem que vencer. Você passa o dia fazendo isso, vendo Correio que não interessa, então tem determinadas coisas que você tem que dar um tratamento diferente, e é isso que a gente está pedindo aqui dentro do Cenpes, já há algum tempo, e, oh, falta ar, sabe, falta ar [riso]!

 

(Interrupção na entrevista)

 

P/1 – Então, retomando, eu também queria, enfim, perguntar: você falou desse fórum transverso e tudo, assim, o que mudou no seu trabalho nesses 20 anos?

 

R – O que mudou? Pergunta difícil. Eu estou na minha vida exatamente fazendo esse balanço agora, sabia, porque não dá pra saber ainda o que mudou, dá pra saber que a gente fica mais crítico, mais seletivo; as dificuldades mudam, como essa que eu estou relatando, agora, de querer fazer coisas e a estrutura não está muito favorável. Eu não sei, estou fazendo esse balanço agora, porque durante muito, muito tempo a minha dedicação ao trabalho foi muito, muito grande, e isso até em detrimento de família, de filhos, de relações amorosas...

 

P/1 – Você está casado?

 

R – É, quando eu comecei a embarcar eu me separei [riso]. Eu tenho dois filhos, a Mariana e o Vicente.

 

P/1 – De quantos anos?

 

R – Mariana está com 31, o Vicente, 28. Recentemente eu...justamente por isso eu te falei que eu estou repensando minha vida, porque fiquei muito tempo, muito, muito dedicado ao trabalho. Isso não é desculpa, foi só um erro de avaliação [riso].  E já há algum tempo estou tentando retomar isso com eles, em casa também, hoje eu moro com uma outra pessoa, já há bastante tempo, e o trabalho pra mim ele é uma coisa muito visceral, muito forte, quer dizer, não é trabalho, vou tirar essa palavra, essa atividade estratégica do país que passa pela Petrobras e passa pelo  que eu acredito, ela me emociona muito, então, eu me dedico muito a ela, tá certo? Então, mesmo aqui dentro, sem ter tido, nos períodos normais, as promoções, os cargos disso e daquilo, eu sempre fui preterido, pelo menos na maioria das vezes eu fui preterido, isso quem falou não fui eu, foram as pessoas: “Pô, Ney, de novo você não foi a consultor”? Eu falei: “Não, deixa pra lá e tal, eu vou continuar trabalhando igual, né?. Então, essa relação, que deixa de ser uma relação só profissional pra ser uma relação ideológica, uma relação de visão de mundo, e aí obriga, do meu lado, pra eu ser melhor ainda, pra que me tenha do outro lado nos críticos de plantão, aquela bestazinha, eu falava: “Tá vendo, eu disse, né, e tal”. Então, essa dedicação hoje eu acho que ela foi, é, super dosada, né? Mas não quer dizer que eu me arrependo, não é isso; é só uma reflexão que eu estou fazendo; eu deixei de fazer coisas, por conta disso, e eu acho que eu vou continuar fazendo, mas, hoje, com outro conhecimento.  Esse trabalho na Amazônia está sendo muito bom. Quando eu apresentei o robô lá pra Universidade Federal do Amazonas, o professor Jackson, da UFAM, falou assim: “Pô, Ney, mas que trabalho legal que vocês estão fazendo. Pô, onde é que você fez doutorado, hein”? Eu falei: “Não, eu não fiz doutorado, não” .“Ah, não, é? Ah, e onde é que você fez mestrado”? Eu falei: “Não, eu também não fiz mestrado, não”! “Você não tem mestrado, Ney”?, eu falei: “Não”. “Mas como é que vocês fazem esse negócio”?, falei: “Ah, isso é engenharia, cara”. Aí eu contei, mais ou menos, da minha avó, do meu pai. Ele falou: “Pô, cara, mas isso é um projeto de doutorado que você tem na mão, por que você não faz agora, né”?. Aí, pô, uma inocência minha, eu falei: “Pô, Jackson, isso é desonesto, né, eu já tenho um negócio pronto, eu vou fazer um mestrado?”. Ele falou: “Porra, isso é o que todo mundo gostaria de ter” [riso]. Aí, eu fiquei com aquele negócio pensando, e pensando, isso já tem dois anos e meio, três, que faz parte desse balanço que eu estou fazendo. Eu falei: “Pô, até que não é de todo tão maluco assim, né”?, e conversei aqui com o pessoal do RH e tal, a Fatima falou: “Não, Ney, o teu projeto é um projeto de doutorado sim e tal”. Aí, eu comecei a fazer mestrado lá na UFAM, lá em Manaus [riso].

 

P/1 – Mas você podia tentar até um fora, né, direto? Porque mestrado...

 

R – Fora da onde?

 

P/1 – Fora do Brasil, até.

 

R – Não, eu não quero!

 

P/1 – Não quer?

 

R – Eu não quero!

 

P/1 – Que, aí, você já ia direto pro doutorado.

 

R – Não, não, não, porque é aí que está, aí, não, o cara de Stanford, não, eu sou da UFAM [Universidade Federal do Amazonas], eu sou brasileiro, entendeu? E aí, o que eu fiz? Aí, eu fiz a proposta de fazer o mestrado primeiro, né, teve uma resistência grande aqui dentro: “Pô, mas a UFAM, a UFAM tem nota três na Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], porque você não faz pelo menos aqui na COPPE [Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia] que tem nota sete, seis?”, eu falei: “A COPPE sabe de Amazônia tanto quanto o pessoal da UFAM”? Não tem resposta, né? Pô, se eu quero trabalhar na Amazônia eu vou fazer mestrado aqui? Pode até ser que aqui tenham excelentes conhecedores do Amazonas, mas lá eu estou suando, literalmente suando, que lá é quente pra cacete, eu estou literalmente suando do lado do cara, onde é que eu ia aprender o lance da macrófita se não fosse lá do lado do mateiro?   

 

P/1 – É, todas as especificidades, né, daquilo lá que é um outro mundo.

 

R – Aonde é que eu teria tido a ideia de não cortar, se eu estivesse fazendo as coisas aqui? Então, eu acho que esse caminho é um caminho que está certo, é um caminho que está legal. Aí, eu entrei como aluno, é, ouvinte, né, em 2007, alunos especial, né, que eles chamam. Aí, em 2008 eu fiz a prova, passei, aí, hoje eu sou um aluno. Eu era especial, hoje eu sou um ordinário, né? Eu não entendi isso [riso].  Não, mas... Então, hoje eu estou fazendo o mestrado como aluno formal de lá, devo defender, sei lá, daqui uns seis meses, mais ou menos, e o tema é: sistemas de transporte e locomoção em florestas tropicais úmidas, e a base é o robô ambiental híbrido.

 

P/1 – O Chico Mendes?

 

R – O Chico Mendes. E aí, mas eu não queria fazer um negócio, assim: “Ah, a Petrobras botou o nome de Robô Chico Mendes no projeto deles”, não! Aí, eu entrei em contato com a viúva do Chico Mendes, a Ilzamar e, depois, com a Elenira, que é a filha dele, marquei uma reunião com eles lá em Rio Branco, lá no Acre, fui lá, conversei com eles, mostrei o projeto, eles ficaram de conversar lá na Fundação Chico Mendes, seis meses depois me mandaram uma carta dizendo: “Ah, a gente concorda e tal, mas qual vai ser a contrapartida?”, então, começamos a estudar isso. Eu sei que nesse meio tempo a gente: “Lá, o Robô Chico Mendes, o Robô Chico Mendes”, eu falei: “Gente, a gente não pode chamar de Chico Mendes ainda, porque não tem autorização”. Aí, começamos: “Ah, porque o Chico, o Chiquinho! O Chiquinho!”, então, ficou Chiquinho, né [riso]?  Aí, esse ano passado, agora que chegou a autorização formal, a gente pode usar o nome Chico Mendes pro robô ambiental híbrido, mas Chiquinho já está...[riso] institucionalizado, então a gente chama de Chiquinho pros íntimos, né?

 

P/1 – Mas fica simpático também.

 

R – É, é muito simpático.

 

P/1 – E bem brasileiro.

 

R – Bem brasileiro, exatamente!

 

P/1 – Ney, a gente vai terminar a nossa entrevista pra gente ir lá, pra poder também gravar um pouco as maquetes. Eu queria perguntar se você gostou de finalmente estar contribuindo também com o Memória Petrobras?

 

R – Ótimo! Não, maravilha! É como eu falei no início, a gente precisa muito disso, no período que a Petrobras e o Governo, o anterior, incentivou as pessoas a saírem da Petrobras e se aposentar, eu acho que a gente perdeu muito de conhecimento. Muito da história da Petrobras foi embora ali, muito da estratégia de país, ali, passou pra mãos estrangeiras, porque as pessoas foram trabalhar nas multinacionais. Eu acho esse projeto fundamental, eu não tenho detalhes, assim, do que vocês vão fazer com isso, mas só o fato de vocês estarem, nos órgãos captando o que as pessoas pensam, o que as pessoas acham, e a experiência da Petrobras que é muito grande, eu acho isso fantástico! A Petrobras, ela não foi feita por decreto, ela foi feita por pessoas, e essa pessoas é que detêm esse tesão por fazer uma empresa como a Petrobras, por isso que a gente briga tanto pra voltar a ter uma Petrobras como a gente gostaria que fosse, com ousadia, né, porque a gente quebrou todos os recordes que nós quebramos, não foi em cima de medo, foi em cima de certezas, em cima de ousadia de pessoas, que se arriscaram, algumas morreram, outras ficaram doentes e tal, mas é aquela história, como diz lá o poeta: eu não erro nem uma, nem duas, nem três, né, eu só aprendo – quem foi que falou isso mesmo? É, esqueci o nome do cara – mas ele diz que só aprende quando ele erra muitas vezes, né, então, a gente tem que errar muito, e tem que saber que a gente pode errar, e não ficar com medo de errar, né?

 

P/1 – Então, Ney, eu queria agradecer...

 

R – Leminski! [riso]. Lembrei.

 

P/1 – Paulo Leminski.

 

R – Paulo Leminski, é.

 

P/1 – Eu queria agradecer por você ter vindo aqui colaborar com a gente.

 

R – Tá legal, beleza!

 

P/1 – Muito obrigada!

 

R – Foi um prazer muito grande.

 

 

-- FIM DA ENTREVISTA --

 

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