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História

Um mergulho no mistério Guarani

História de: Carlos Papá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2019

Sinopse

Carlos Papá é um homem de sabedoria Guarani, um curandeiro e um contador de histórias. A sua história é um mergulho na cosmologia e nos valores da tradição Guarani, nela nós acompanhamos desde o seu teste de sobrevivência, sua primeira caçada - e seus valiosos ensinamentos - até o grande batismo de Papá na sua tradição e casa de reza.

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História completa

Meu nome é Carlos Papá eu sou do povo Guarani Mbya e uma coisa que me marcou muito, até hoje eu me lembro, foi quando alguns guerreiros me levaram em um lugar para se compreender e para ser guerreiro, na época, pra sobreviver, um teste de sobrevivência na selva. Eles vendaram o meu olho, me levaram em um lugar na selva e falaram pra mim que eu só poderia tirar a venda depois de bastante tempo. Então, eles colocaram uma água no bambu cortado, na taquara, fizeram um furinho, essa água começou a pingar: tu, tu, tu, deixaram eu sentar e essa água começou a pingar no meu joelho... Então, eu tinha direito de limpar, mas a água tinha sempre que pingar.  Eu só tiraria a venda do meu olho depois de parar de pingar. Depois que parou tudo de pingar, eu tirei e cadê o pessoal? Foi embora. Eu também não sabia de onde tinha vindo, fiquei desesperado e eu comecei a chorar e gritar para todo mundo se alguém estava me ouvindo, mas ninguém, né? Eu percebi que estava entardecendo, aí eu ouvi a cigarra cantando, pássaro e aí comecei a gritar, gritar, gritar, gritar, gritar e, de repente, eu vejo uma onça caminhando, assim, para cima. Eu falei: “Nossa, agora eu vou ter que parar de gritar”. Aí eu fiquei quieto, né? Eu fiquei ali e eu não tinha nada na minha mão. Nada... Então, eu comecei a ouvir o barulho de água: chuuuuuuuuu,  pensei comigo: “Bom, eu vou pra água, né? Eu não vou ficar aqui”. Comecei a descer devagarzinho com a água, morrendo de medo, falei: “Nossa, e agora? Vou ser comido aqui”. Aí comecei a pensar: “Nossa, eu achava que minha mãe, meu pai, minha família, gostavam de mim. Eles me odeiam, então. Vão me deixar aqui pra quê? A onça me comer?”.  

 Eu comecei a pensar mil coisas: “Nossa, eles me odeiam, então, mas eu vou sobreviver”.  Comecei a descer e cheguei no rio, tinha uma pedra, falei assim: “Bom, eu vou ficar por aqui, porque aqui dá pra ver se a onça passar, se a onça vier, eu consigo ver”. E aí eu estava com uma pedra, qualquer coisa vou jogar na onça e tentar assustar, enfim…. Então, eu ouvi a onça urrar!  Começava a me arrepiar o corpo inteiro, eu comecei a pensar: “Eu vou descer o rio porque, descendo o rio, eu vou chegar em algum lugar”. Eu comecei a descer, aos poucos, pelo rio, aí eu pensei também: “A onça só vai atrás pelo cheiro, pela pegada. Quando fui ver, estava perto da minha aldeia. Eu acabo chegando de novo à aldeia, tipo umas dez horas da noite, assim, eu chego de novo. Aí, quando eu chego na aldeia, todo mundo reunido lá, fumando cachimbo, rezando, tudo, conversando, chego lá todo molhado, todos eles: “Parabéns! Seja bem-vindo, guerreiro!” Começou, assim, me receber com maior carinho, eu fiquei muito bravo, pra caramba, falei: ‘Não quero nem papo com vocês”.  Minha mãe pegou uma roupa que estava lá, colocou assim: “Sobreviveu, né?. Aí, depois, muito tempo, eu comecei a entender isso porque os mais velhos falavam assim: “Se, de repente, o homem branco chegar lá?” Porque, na época, era pré democracia que nasceu, porque até então era perigoso, por isso que a gente era expulso, né? Na época da ditadura militar chegava: “Aqui é fulano que vai morar, aqui é nossa área, vocês têm que procurar outro lugar”. Não tinha diálogo. Eles falavam: “Se um dia os brancos chegarem e matarem todos nós, se sobrar só você, só, como você se viraria?”

(...)

Quando pela primeira vez fui fazer armadilha,eu fiz uma armadilha pra pegar uma paca. E com muita dificuldade porque, pra pegar a paca, você tem que trazer uma madeira pesada e então eu tinha o quê? Catorze anos, mas eu não tinha muita força ainda, aquela força de homem adulto pegar uma árvore, uma tora e preparar armadilha… Com muita dificuldade, levei três dias para fazer, com muita dificuldade, sozinho e também não queria pedir ajuda pra ninguém, queria eu fazer. Então eu fiz essa armadilha com muita dificuldade, levei três dias, coisa que um homem adulto em umas três, quatro horas, faz. Então, eu levei três dias e mais 15 dias pra pegar uma paca. 

Levei 15 dias e depois que eu peguei uma paca dentro da armadilha, pra tirar de novo a armadilha, tive que tirar as pedras, uma por uma, depois pegar a madeira e erguer, com muita dificuldade. Aí, não conseguia erguer, o que eu fiz? Desmanchei toda a armadilha pra pegar de novo essa paca que estava, dentro, presa, já morta, porque a madeira que cai em cima prende e não consegue ter o ar, né? Então, prende à compressão. Então, a paca já estava morta. Então, eu destruí a armadilha, peguei a paca, levei onde eu morava, cheguei lá, a família toda feliz: “Legal, hoje a gente vai comer paca! Que legal!”. Minha mãe falando: “Foi meu filho que pegou”. Eu ficava todo orgulhoso, né? “Foi meu filho que pegou”. Minhas irmãs: “Meu irmão pegou a paca”. Então, reuniu toda aquela tribo, toda a comunidade dali, pra comer a carne que eu peguei. Então, fizeram preparação, cozinharam, trouxe banana verde, aquela coisa. Eu falei: “Nossa, hoje eu vou comer até dizer chega”.

   Chegou o momento do banquete e eles não me deram, aí eu fiquei olhando: “E eu?”. “Não, você não pode”. “Como não? Foi eu que cacei”. “Não, você não pode”. Eu fiquei morrendo de vontade e agora eu vou sentar e vou... Não, não pode. Aí eu fiquei olhando as pessoas comendo, felizes e eu lá me corroendo… Então falei para um mais velho lá, quietinho, comendo, com muita dificuldade, aí eu falei pra ele: “Por que vocês não me deram? Por que não pode eu comer? Que mal tem? Eu só ia comer um pedacinho só, também não ia pegar bastante carne pra eu comer, ia pegar um pedacinho só”. Aí o mais velho, com muita dificuldade, falou assim: “Você é guerreiro, você pegou essa caça pela primeira vez e quando um guerreiro que pega uma caça pela primeira vez, não pode comer. Você tem que mostrar que o guerreiro vai caçar para sustentar as aldeias. E o guerreiro tem que se preocupar com as pessoas primeiro, servir o banquete primeiro. E aí você vai esperar agora o próximo guerreiro que pegar e você vai se deliciar com o banquete do outro. Mas no seu banquete não pode. Isso vai acontecer três vezes, depois de três vezes, aí você pode comer o seu próprio banquete”. Eu fiquei muito tempo sem entender o  porquê que é isso. Então, existe regra, né? A pessoa que pegou primeiro não pode comer. Pode comprar. Não, tem que servir os outros primeiro. Ele pode comer outra coisa, mas não as coisas que ele trouxe. Essa é a nossa cultura. Então, ficou isso muito forte em mim. Porque com muita dificuldade eu fiz, ainda com muita honra eu trouxe: “Agora eu vou mostrar pra galera, quer dizer, para os meninos, eu vou mostrar pra aldeia inteira, virei adulto. Virei guerreiro de verdade. Consegui, né?” Então, é uma forma também de quebrar a vaidade. Uma forma de quebrar esse dizer: “Eu sou bom”. Então, eu entendi isso. Isso é uma educação: então você tem que ser humilde. Seria uma forma de ser humilde que você trouxe a caça e serviu as pessoas, você não comeu. Então, é uma educação que você vai levar isso pelo resto da vida. Então, não é uma forma assim: “Eu consegui. Eu consigo, tá vendo? Só eu consigo e vocês não conseguem”. É uma forma da nossa cultura de quebrar isso. 

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