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História

Um legítimo Okinawano

História de: Alexandre Takara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/04/2013

Sinopse

A entrevista de Alexandre Takara foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 11 de abril de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Alexandre nasceu em Oknawa, no Japão e conta sobre os costumes tradicionais de sua família, que veio para o Brasil e atuaram como agricultores. Hoje, Alexandre é presidente da Associação Oknawana no Brasil e realiza diversos trabalhos em prol do resgate desta cultura.

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História completa

Meu pai nasceu em 1898 e minha mãe em 1900, portanto dois anos de idade de diferença. Quando nascia uma mulher, existia aquele casamento por combinação familiar. A família do meu pai pediu a minha mãe, ainda criança de berço, para casar-se com meu pai. Então vínculos familiares permanecem até hoje. A grande característica da cultura Okinawana é essa: eles têm apego muito grande ao território e a comunidade. Existe uma outra, que para entender é preciso associar família e religião: a comunidade tem o habito de fazer o culto aos mortos. Eles tem alguns ritos que revelam isso. Aqui no Brasil, existem alguns cemitérios coletivos, que são da cidade. Lá não. No passado, os cemitérios eram familiares, construídos no fundo do terreiro, ou nas regiões mais distantes, no meio do mato. É uma sepultura clãnica. Todos os descendentes takara, por exemplo, estão em uma sepultura clãnica. É onde são sepultados todos os familiares da mesma linhagem. Além de cultuar os mortos, os Okinawanos consideram que mesmo após a morte, há uma relação entre os vivos e os mortos. A cultura grega antiga também era assim. No dia dos mortos no Japão, não me lembro se é em março ou abril, há uma grande cerimônia aos mortos. Eles acreditam que os espíritos dos familiares vão para lá e fazem uma festa, no encontro de ambos. Aqui no Brasil existem religiões hierarquizadas. A religião é exterior a nós. A hierarquia é exterior a nós. Na igreja católica, por exemplo há papas, cardeais, arcebispos, bispos, e assim sucessivamente, onde deve-se obediência a esta hierarquia. Lá não. Temos este culto aos antepassados reconhecendo que os mortos, após um tempo, são tidos como deuses. Os deuses então estão vinculados a nossa subjetividade, e o respeito é muito grande. As famílias japonesas fazem o culto aos antepassados e possuem um vinculo muito grande com a religião. E como lá a religião é comunitária, todas as famílias se conhecem. Naquela época, da região noroeste do Brasil até Mato Grosso e Bolívia, era considerado a nova fronteira agrícola. Havia florestas imensas, há perder de vista. Meus pais quando chegaram lá, em 1921, 1922, mais ou menos, eles tiveram que derrubar a floresta e plantaram café e tudo mais. É importante eu dizer para vocês que naquela época a região noroeste do Brasil, Bauru, Araçatuba, Campo Grande, era uma nova fronteira agrícola e estava toda para ser derrubada e se plantar café. Como era uma nova fronteira, havia também tribos indígenas, chamada Kaingang. Eles moravam de Bauru, que era o limite da plantação, até as barrancas do rio Paraná. Meus pais compraram o sítio lá em promissão e tiveram que conviver com os índios. Aí que eu gostaria de introduzir o novo capítulo da história da minha família e da colônia Okinawana. Meu pai estava satisfeito e, segundo depoimento dos amigos dele, ele foi um grande agricultor. Ele comprara o sítio e produzira café. E aí é que está a tragédia da minha família. Você sabe pela história que houve a queda da bolsa de Nova Iorque, em 1929. O Brasil era o maior exportador de café, e os Estados Unidos o maior comprador. Com a crise, eles suspenderam a compra de café. Então houve um problema, pois a produção em São Paulo ia crescendo, a região estava cheia de cafeicultores. Em 1930, 1931, não me lembro bem, o Getúlio Vargas acabou decretando a queima de café. Era proibido plantar mais café e também não se podia mais armazenar café nas próprias fazendas. Os proprietários, entre eles o meu pai, levavam sacas e sacas para a cidade em carroças – naquele tempo não haviam muitos caminhões – e entregavam para as autoridades. O com isso o meu pai recebeu o quê? Gasolina e fogo. Ele acabou colocando fogo no produto do trabalho dele. Dessa maneira ele naufragou e não conseguiu mais aprumar a vida. Nessa época nós morávamos no bairro Barreirinho, um bairro rural de Promissão. E com a perda do sítio eles mudaram para Promissão, a cidade. E foi aquele desespero. A colônia japonesa toda, aliás, todos os agricultores, perderam tudo. E então, o que os meus pais fizeram para sobreviver? Administraram uma pensão que havia na praça Primeiro de maio, no centro de Promissão. E quem eram os clientes deles? Os akinawanos. Eu tinha uns três, quatro anos nessa época. Eu estou contando esta história da queima de café com detalhes porque eu era um garoto, com três quatro anos, que ouvia muitas dessas histórias dos Olinawanos. Muitos desses depoimentos se fixaram em minha memória. Outra coisa, eu era pequenininho e gostava de ir com os meus colegas ao rio dos Patos. Para mim era um rio imenso, isso com o olhar de crianças. Já casado, com cinquenta anos, eu visitei o rio dos Patos e que decepção. Era um riozinho! . Eu com seis anos entrei para a escola, para o grupo escolar. Eu fui mal a escola, porque lá na minha casa, nós falávamos o japonês, e não sabíamos falar o português. A falta de domínio da língua portuguesa levou-se a reprovação por três anos consecutivos no primeiro ano da vida escolar. Eu não dominava a língua portuguesa. Eu teria sido reprovado pela quarta vez se eu não tivesse usado de um expediente escuso. Ai foi a primeira origem da minha criminalidade! Da minha deslealdade. Naquela época, não sei se era assim pra você também, havia o boletim, onde a professora colocava a nota e o pai era obrigado a assinar. Por fim, ao final daquele ano, em 1927, 1928, não me lembro bem, lá pelo mês de outubro, eu não entreguei o boletim. Não entreguei e a professora não reparou na ausência do meu boletim. Quando chegou o mês de janeiro, eu precisava me matricular, só que o boletim não estava escrito notas, aprovação, nem nada. Sabe o que eu fiz? Eu coloquei uma nota mínima para eu passar de ano, e falsifiquei a nota da professora e da diretora. E fui me matricular numa outra escola, em um bairro distante. Fui como aluno transferido para outra escola. A história contata hoje eu acho graça, mas na época foi um drama, viu. E como eu ia mal, eu detestava a escola. Como eu detestava os meus colegas. Eles me gozavam e eu já estava com uma baixo auto estima. E ninguém suporta baixo auto estima. Ainda no primeiro ano escolar eu saia da minha casa para o grupo escolar. Mas para chegar lá, precisava passar pela rodovia leste oeste do Brasil, onde a locomotiva parava. E eu então pulava no vagão, o trem ia no sentido de Penápolis, Araçoiaba, Araçatuba, e alguns quilômetros depois, no vale do rio dos patos e, imagine você, eu pulava do trem em movimento e ia banhar-me no rio dos patos, por todo período das aulas. No fim da tarde, lá por cinco, cinco e pouquinho, vinha o trem carregar no sentido contrário, de volta para Promissão. Eu, garoto de sete anos, pulava de voltava e retornava para a cidade. Eu fazia compensação psicológica. Já que ia mal na escola, ia lá para fantasiar, foi uma forma de sobrevida diante daquele drama de minha infância. Meus pais me colocaram num interno. E você deve se perguntar: “se eles eram pobres, como eles pagavam”? Isso eu vim a saber depois, mas meus pais pagavam com arroz e feijão que eles plantavam. Era uma vida muito pobre. Agora, você me pergunta sobre a língua portuguesa. O meu português já tinha melhorado, depois daquela história do boletim, tinha que melhorar! Mas não era como o dos brasileiros. Fui melhorando, mas não o suficiente para passar de ano. O meu português era ruim. Na terceira série do ginásio eu precisava passar de ano. Tive um professor muito bom, a quem eu faço homenagens a todo momento, o professor Acir Rodrigues. Ele era diretor do internato. Na terceira série ele disse: “Takara, você não tem condições de passar de ano. Você está precisando de 9,5 para passar. Você não tem domínio sobre a língua portuguesa. Vamos fazer o seguinte, quando terminar o expediente, após as 22 horas, vamos fazer aulas particulares”. Quando terminava o expediente dele, ele me dava aulas particulares. Aquelas 15 ou 20 aulas foram suficientes para eu ter o domínio mínimo da língua portuguesa. Eu aprendi o núcleo fundamental da língua e acabei passando de ano. Esse professor me pedia para escrever redação. O professor me pedia para escrever redação e eu escrevia. Ele dizia: “Takara, você tem brilhantes ideias, mas como escreve mal!” . Então ele me pedia para escrever a mesma redação uma, duas, dez vezes. E ele dizia que sempre podia melhorar. E foi através da minha insistência e estimulo dele que eu fui aprendendo a língua portuguesa. Haja vista que aprendi a língua e linguagem oral muito bem. Naquela época ainda falava melhor do que falo hoje. Fazia até discursos. Hoje o meu português, comparado com o da época, é muito ruim. Mas me expresso bem. Eu era um fulano petulante. Aí, quando eu vim pra São Paulo, eu imaginava uma cidade grande, como de fato era naquela época, com um transito incrível. Mas eu gostaria de dizer para vocês que eu vim em janeiro de 1947 e, não sei se você sabe, a estrada de ferro de São Paulo era dos ingleses. Em 1946 acabou o convênio, de quase cem anos de instalação da rodovia. Os brasileiros queriam receber a ferrovia mas o que é que houve? O incêndio da estação da Luz. Eu não sei se vocês sabem disso. Foi queimado, incendiado mesmo. Isso foi em dezembro de 1946, e em 1947 nós chegamos, com a estação da luz fumegando. Isso é uma passagem que ninguém se lembra. Pouquíssimas pessoas se lembram. Pois é, existem muitas histórias para se contar. Eu sou um grande leitor. Sabia que eu leio e escrevo uma média de dez horas por dia? De dez a doze horas! . Fui trabalhar de puxar o carrinho e ia entregar lá naqueles restaurantes da praça da Sé, rua Direta, João Mendes, Patriarca. Eu vivia de gorjetas. As dez horas terminava o meu expediente. Eu voltava para casa, tomava um banho, almoçava, dormia e às dezessete horas eu voltava para o Américo Brasiliense. Então, o meu itinerário era esse: residência, colégio do estado, mercado municipal e de volta para a minha casa. Eu lia desesperadamente. Como eu lia! Nossa! Haja vista nesse período, Rosana, e até antes, pra você ver como eu era um leitor: aos quatorze anos de idade eu tinha lido Os Miseráveis. Eu lia desesperadamente. Eu lia, mas o que eu desejava mesmo era escrever, por influencia do professor Acir. Ele dizia: “Takara, você pode escrever sempre melhor e mais”. Eu tentava, fazia o mesmo texto várias vezes, até melhorar. Fui aprendendo e cá entre nós, já no colégio começava a escrever bem. E daí para o fato de escrever os primeiros artigos publicados no jornal de Santo André foi um pulo. Em 1974 eu já escrevia artigos em grandes quantidades lá. O bom é que eu tive um ótimo revisor, se não eu ia ter vergonha! . Esse foi o meu início. Até que eu comecei a escrever o primeiro, segundo, terceiro, os cinco primeiros livros meus foram publicados. Depois eu fui ser secretário adjunto de cultura, da prefeitura de Santo André, e não tive mais tempo, então parei. Só depois, nos momentos de folga, eu garatujava alguns livros. Hoje tenho dez livros escritos, apenas cinco publicados, cinco ainda são inéditos. Mais tarde eu fui trabalhar no Sesi, porque foi o Sesi quem desenvolveu aquela bolsa. Eu fui aprovado e admitido como educador social. Essa bolsa de estudos foi a minha auto afirmação. Ai foi a minha epifania. Eu me descobri, sepultei todos aqueles meus dramas e comecei me auto afirmar. Fui ser professor de colégio, fundei o colégio Singular Anglo vestibulares de Santo André, que hoje é no ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano) inteiro. Me afastei porque depois de um tempo a gente repete a mesma aula e é um saco! Ai eu soube que havia uma vaga de professor de antropologia cultural na universidade metodista de Santo André e lá fui me inscrever. Havia quatro candidatos e eu fui aprovado para dar aulas para o curso de psicologia e pedagogia, onde eu permaneci por mais de 25 anos. Só este fato já foi um sinal de reconhecimento. Só em 2010 eu sai de lá por causa da idade, além do mais, porque eu queria escrever livros. E tem o capítulo de como conheci a minha mulher! Eu frequentava a igreja Santa Maria Goretti, em um bairro de Utinga. Um dia eu fui a reza em um domingo a noite. Eu estava ajoelhado em um banco e ao meu lado estava uma moça, relando com toda a fragilidade, vertendo lagrimas. E eu fiquei fragilizado. E foi assim, meio que de qualquer maneira. E dessa maneira, esse encontro ficou marcado até a presente data. Marcada com afeto, com uma emoção muito forte. Eu era presidente da ACATU, Associação católica dos trabalhadores de Utinga, e nós tínhamos a nossa associação. Fazíamos diversas ações lá. Eu estava com um roupa assim...nós estávamos pintando lá , e ela nem deu pelota para mim, eu estava com roupa de operário mesmo, né. Algumas semanas depois nós no vimos depois. Aí disseram: “Está vendo aquele japonês? Ele é estudante universitário”. Ai eu vi nos olhos dela: “Ah, então ele não é porcaria, é muita porcaria”, não é?! . Então fomos nos aproximando e começamos a nos encontrar e ir ao baile juntos. Isso foi em junho, não, julho de 1959. Ela morava em Socorro, e eu escrevia muito para ela, e ela me respondia. Na época, ela era professora universitária. Ai eu percebi que a amizade estava se tornando mais forte. Ela voltou e no dia 02 de agosto de 1959 eu a pedi em namoro. Ela aceitou e, enfim, me desencalhou. Ela é filha de italianos. Loira, de olhos verdes, muito bonita. Eu acho que ela também estava encalhada para aceitar um japonês feio, pobre, encalhado como eu. Por fim, eu gostaria de dizer a vocês é que eu tenho nostalgia a língua Okinawana, que é diferente da japonesa. Quando eu era pequeno e ia dormir com os meus pais, eles conversavam muito em Okinawano, o Uchinaaguchi. Então a música ainda permanece nos meus ouvidos, que depois, infelizmente, fui esquecendo. A construção das frases... A minha grande frustração depois de retornar ao shibu foi que eles começaram a falar em japonês, japonês lá de Tóquio, mas eu queria ouvir eles falando em Okinawano. E eles não falavam mais. Porque a lingua Okinawana tende ao desaparecimento. Lá em Okinawa já desapareceu e os linguistas que querem fazer pesquisas sobre esta língua, precisam vir ao Brasil e Argentina para ouvir esse som. Essa sonoridade da língua Okinawana permanece ainda em mim. Hoje eu ouço muita canção japonesa Okinawana. Me sinto muito envolvido pela cultura, pela arte, dança, música, cerâmica e vou retornando aos meus pais e às tradições da comunidade. Tudo isso aprendi com menos de sete anos.

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