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História

Um jovem pescador

História de: personagem
Autor: Fernanda Peregrina
Publicado em: 31/01/2014

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História completa

Cabo Frio, Itapemirim, Macaé, São Francisco de Itabapoana e São João da Barra na Memória e Vida dos Seus Moradores. Depoimento de Jancarlos Pires dos Santos Entrevistado por Danilo Eiji e Laura Fuser Macaé, 18 de março de 2013. Realização Museu da Pessoa em parceria com o projeto REMA AECOM_MAC_HV01 Transcrito por Vanuza Ramos (MW Transcrições) Revisão feita por Danilo Eiji Jancarlos Pires dos Santos P/1 — Só para a gente identificar, eu gostaria que você falasse seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R — Jancarlos Pires dos Santos. Moro em Macaé há 19 anos, nasci em 1993. P/1 — Em 1993, maravilha. O nome dos seus pais. Vou começar com a sua família e depois nós vamos para você, tudo bem? R — O nome da minha mãe é Cláudia, mas eu não lembro o nome dela todo, não. O do meu pai é Jean Rodrigues dos Santos. Do meu irmão é Júlio. P/1 — Júlio? Você tem um irmão, então? R — Tenho, mais novo. P/1 — Mais novo? Legal. Conta um pouquinho sobre os seus pais. Você sabe a história deles, da onde eles vieram? R — Meu pai veio de ____ 00:01:13___. Ele já mora aqui há quarenta e dois anos, eu acho. Minha mãe é daqui já, ela é de Conceição e aí veio pra cá, eu era menor. P/1 — Entendi. Você sabe como eles se conheceram? R — Em festa, óbvio (riso), todo mundo se conhece mais em festa. P/1 — Mas eles já te contaram isso? Como foi? R — Eu nem perguntava muito, não. Ela só conversava pouco, só o básico “mermo” dentro de casa. Esses negócios, assim, eu nem perguntava muito, não. P/1 — Mas você é próximo deles, não? R — Sou. Eu agora não tô morando mais com meu irmão, tô morando sozinho agora. P/1 — Tá morando sozinho. Faz tempo isso? R — Não. Eu saí há pouco tempo agora de casa. P/1 — Legal. Vamos falar sobre isso. Deixou o irmão mais novo lá? R — É, deixei. P/1 — Tá certo, cara. Me conta um pouco do seu pai: como é que ele é, trabalha com o que, como... R — Ah, ele trabalha de linha, tá trabalhando de rede agora. Por causa da safra agora, tá indo com palombeta agora, não sei se vocês já escutaram. Palombeta. A gente pescava com pargo, é linha; agora não, agora é a rede, é palombeta. Aí fica três dias, quatro dias no mar. P/1 — Isso desde sempre? R — É. Aí quando tem a safra, a única coisa que a gente não pesca é o camarão. É raro a gente pescar camarão, mas de vez em quando a gente dá um arrasta. P/1 — Chama arrasta, né? A gente já vai conversar sobre isso, cara, sobre a pesca. Ainda tô querendo entender, assim, como é você na sua casa, como é o seu dia a dia familiar. O seu pai é pescador, né? R — Hum ham. P/1 — E a sua mãe? R — Minha mãe, não. Minha mãe não trabalha, não, fica dentro de casa. P/1 — E as conversas que você tinha com ela? Lembra de uma? R — Ah, têm tantas, é meio difícil lembrar agora. Ah, mas assim, dentro de casa, tem hora que ela fala assim: "Ah, porque você não volta a estudar?", mas eu não gosto de estudar mais não. Eu desde pequeno já gostava de ficar andando no barco. Meu pai me mandava estudar, mas eu não ligava, não. Ficava mais no mar, gostava. Eu gostava dali desde pequeno. P/1 — Desde pequeno? Você está falando em quantos anos? R — Desde 13 anos, 14 anos eu já gostava mais de pesca. É raro eu... Eu nem ia pra escola, matava aula. P/1 — Mas você pescava com seu pai? R — É, com meu pai, nunca pesquei com ninguém, não. P/1 — Entendi. Então você ia pra escola, estudava, daí uma hora você falou gente "não quero mais". R — Eu nem falei nada, não. Peguei e saí da escola, falei com meu pai: "Oh, pai, não quero ir pra escola não. Não quero estudar mais não.". Aí ele foi e entendeu porquê, porque eu já gostava da pesca. P/1 — Você lembra, assim, das primeiras pescarias que você foi? R — Ah, lembro! Quando eu comecei a pescar, passei muito mal, bastante mal, mas depois eu acostumei. Já peguei tempo ruim, já... P/1 — Tipo grande tempestade no mar? R — É, já peguei tempestade, mar alto. Mas eu já acostumei. P/1 — Já que você está falando da pesca, vamos lá, vamos entender. Você falou que teve uma mudança. Me fala um pouco dessas pescas, a primeira que você fazia. Como é que era? R — A primeira vez quando eu comecei a pescar foi aqui perto, que meu pai me levou. Ele falou que pra mim costumar a pescar, aí foi arrastando camarão. Aí depois de uns dias, fomos pescar o pargo, que era mais pra fora agora. Aí desse daí, mudamos, é só três pescarias que a gente fica pescando, que é o palombeta e o pargo, que é de linha de rede. Mas esse daí também é de linha, o palombeta. P/1 — O de linha? Calma aí que somos os ignorantes da pesca. Eu não sei se a Laura Fuser conhece as questões da pesca, mas eu confesso... Vamos lá, antes você disse que tinha uma pesca de linha... Eu quando fico pensando em pesca, eu não sei vocês, eu penso naquela varinha. Você joga ali a varinha com anzol. Eu acho que não é assim, né? R — Não, não é assim, não. P/1 — Como era essa pesca? Vamos pensar no passado. R — A gente não bota na tabuleta? Tabuleta, que a gente fala é o isopor, que é enrolada a nossa linha. E a outra, não, é a nossa rede. Tem a rede que é esticada no barco. P/1 — E como funciona? A rede vocês jogam no mar? R — É, vamos soltando, vamos soltando reto. Tem hora que a gente cerca, depende do jeito que tá a pescaria. Quando a gente acha o peixe também, aí cerca. P/1 — Como é que você sabe que é para deixar reto ou deixar cercado? R — Não, é porque o pargo é mais no fundo. A palombeta, não, ele é mais boiado, é mais na superfície da água. Então a gente já sabe como é, aí a gente solta reto, tem hora que cerca elas. P/1 — Preciso entender mais, cara. Como é que você aprendeu essas coisas? R — Ah, eu aprendi olhando meu pai, vendo ele primeiro como é era pescando, aí depois me interessei mais ainda. Aí disso daí que eu gostei. P/1 — Quem vai na pescaria? R — Eu, meu pai e o meu tio. Só três pessoas, só. P/1 — Que barco é? Como funciona? R — É barco de nove metro, três cilindros. Aí a gente fica só três dia no mar, o máximo é três ou quatro dias no mar. P/1 — Ah, vocês ficam dormindo ali? R — É, ficamos dormindo. Aí vai, vigia lá fora, tem hora que a gente faz vigia. P/1 — Ah, você vai ter que contar pra gente. Descreve aí, como é que é? Vamos lá, amanhã você vai pescar. Como funciona? R — Oh, a gente sai daqui meia noite, de hoje pra amanhã. Aí a gente chega lá seis horas da manhã, sete horas, que é sete horas de viagem daqui lá. P/1 — Lá onde? R — Lá fora, lá no mar, lá pra fora lá. Aí a gente sai daqui e chega lá sete horas da manhã, seis horas. Aí já começa pescando. Alguns vão dormindo. Tem hora que meu pai leva, aí eu e o meu tio vamos dormindo. Aí depois meu pai acorda a gente pra ir ajeitando as coisas para pescar. Aí tem uma hora que a gente chega numa posição certinha pra pescar. Tem hora que a posição que a gente tem marcada no GPS não acha, aí a gente vai procurando em outros de acordo, até achar a posição certa. P/1 — Posição certa significa onde tem peixe? R — É o local certo, onde que tem o peixe. P/1 — Hoje você consegue por GPS? R — É. Antes eu nem cheguei a pegar não, porque era na bússola. P/1 — Antes era na bússola. Mas calma aí, eu preciso entender melhor. Por que você sai meia noite? R — É por causa do peixe, que é longe, bastante longe. P/1 — Longe. Quanto, por exemplo? R — Sete horas de viagem. P/1 — Eu não consigo entender quanto tempo daqui... É no oceano, você vai pro oceano? Alto mar? R — É. Alto mar. P/1 — Como é que eles sabiam pra onde ia ter peixe? R — Aí eu não sei, não. Porque... P/1 — Por que antes não tinha GPS, né? R — Não, era na bússola. Aí marcava um local, ilha, farol, esses negócio assim, aí marcava a posição onde que é. P/1 — Você conhece bem o mar ai? R — Eu pesco há quatro ano, vai fazer cinco agora. P/1 — Entendi. Se te jogarem lá no meio do mar, você vai saber onde você tá? R — Tem hora que dá para ficar meio perdido, por causa da neblina, a gente não vê nada. Época de neblina é a coisa mais difícil, é perigoso, navio passa por cima, mas aí dá pra se virar um pouquinho lá no mar. P/1 — Entendi. Tem esse problema? Já tiveram problema com outro barco? R — Não. É mais o rebocador “mermo”. Rebocador, navio que pode passar por cima, de vigia também. O único negócio perigoso é isso. P/1 — E como é que vocês fazem? Tem uma luminária? O que vocês fazem? R — Não, a gente deixa as luzes acesas, os dois dormem e um fica fazendo a vigia. Aí divide a hora pra cada um. P/1 — Se está vindo um petroleiro, o que é que você faz? R — Ah, a gente chama e sai do local. Que a gente já vê a base e tal, se o navio tá vindo reto, já sabe certinho, aí: "Vamos sair da frente desse", senão passa por cima. P/1 — Mas tem história disso? A gente tá rindo, mas tem história disso? R — Tem, passa por cima, se der mole passa mesmo. Tem uns que passa. Eu nunca cheguei a ver, não, e nem quero. Mas meu pai já falou que já passaram por cima de um barco. P/1 — Mas você não viu isso. R — Não, não vi, não. P/1 — Vamos lá, vamos pensar. A gente vai sair pra pescar, nós somos a tripulação. O que nós temos que levar? R — Leva roupa, que a gente de vez em quando toma banho lá. Aí leva rancho, rancho é o alimento pra gente comer, as coisas pra gente comer. Aí a gente fica os três dias lá. E lá depois de ficar pescando três dia, quatro dia, aí quando o gelo acaba, que a gente bota gelo em sete, oito isopor, isca também pra gente pescar. E quando não acha peixe, fica procurando; ou quando acha peixe e a isca acaba, a gente tem que ir embora por causa da isca. Ou o gelo acaba também, aí tem que ir embora também. P/1 — Entendi. Porque a ideia é vocês pescarem, bota no gelo e daí... É isso, já vai pra onde isso? R — Já vai pra fora. Aí depois a gente vai pro mercado. P/1 — Direto? R — É. Ou vai pra casa, dorme, aí acorda de manhã pra ir pro mercado. P/1 — Conta uma boa pescaria pra nós, descreve pra gente uma que você lembra com carinho. R — A pescaria que foi de palombeta, de rede, que eu gostei mais. A que eu gosto mais de pescar é essa de palombeta, porque puxa rede, aí vem um monte de peixe agarrado na rede, é bonito. Eu acho bem bonito. Eu gravei um vídeo, mas aí o celular caiu dentro d'água. Eu pescando e segurar o celular, não dá, né? Mas é muito bonito pescar palombeta, eu gosto. Melhor que o pargo. P/1 — É pela técnica ou por que vem mais peixe? R — Não, é pelo gosto mesmo. Cada um tem um gosto de pescar. Eu não gosto muito de pescar pargo, porque é parado, dá bastante sono. Esse não, esse é mais animado já vai puxando, vê o peixe pulando, é show! P/2 — Mas é mais perigoso, é mais pesado? R — É mais pesado, por causa da rede é pesado, mas eu já costumei já. P/1 — Esse com a rede é mais pesado, porque é tudo, a rede é mais pesado... R — Aí tem o chumbo, a malha, rede, o pano, aí fica pesado. P/2 — Já teve algum acidente? R — Não, eu nunca caí dentro d'água, não. P/1 — Mas já aconteceu com vocês? R — Não, comigo, não, e nem com meu pai também não. Era raro, quando era rede, que agarra, assim, aí tem muito que agarra na hélice, mas é meio difícil agarrar. P/1 — Tudo que você aprendeu foi com seu pai? R — Foi com meu pai. P/1 — Olhando? R — Olhando. P/1 — Ou ele dava uns toques? R — É. Me mostrava como que era também. Mas eu aprendi mais olhando mesmo e fazendo. P/1 — E você não tem nenhuma daquelas pescarias que você gostou muito? Que você lembra que tenha vindo um monte de peixe, foi a vez que veio mais peixe, ou um peixe raro, não sei... R — O único peixe que a gente apanhou foi cação grande e um marlim, pegamo na rede. Pegamos uma tonelada e pouco de peixe, foi só uma vez só também. P/1 — E normalmente é quanto que vem? R — Tonelada, como é que fala? É mil e pouco de peixe, é três isopor, a urna cheia, é bastante peixe. P/1 — E normalmente quando você vai, você traz quanto? R — Vai depender do mar porque é bem difícil chegar lá e achar peixe. P/1 — É difícil? R — É! Tem que procurar. P/1 — E como vocês fazem isso? R — Ah, porque a gente tem os locais, aí não acha, aí a gente muda até achar o local certo pra achar os peixe. P/1 — Mas como assim esse local? É perto de uma ilha, é perto de alguma coisa? R — Não, não tem ilha, não. P/1 — Como vocês fazem pra achar esse local? R — Ah, vamos pelo GPS agora. P/1 — Entendi, tem um programa que fala: "Vá pra tal lugar", daí vocês vão. E se não tem, ele já ponta outro lugar, é isso? R — É. Aí depois se a gente não achar, a gente vai pra outro local. Vai procurar... P/1 — E como funciona esse processo inteiro, você sai, traz o peixe e vai pro mercado. E aí? R — A gente vende o peixe, a gente bota um preço, o comprador bota outro. P/1 — Mas vende pra quem? R — Pro comprador lá de dentro da peixaria. P/1 — Vocês já têm os clientes? R — Tem os clientes e tem os de fora também pra comprar. P/1 — Vocês já têm direto o... R — Já tem o comprador certo já. P/2 — Vende no mercado, frigorífico? R — No mercado. P/2 — E sempre tem que negociar o valor do peixe? R — É. Antigamente tinha um preço, agora a gente aumentou, né, porque tudo aumentou também, né? Aí a gente aumentou também, mas sempre tem um que reclama! P/1 — Como está essa questão de peixe? Tem essa coisa de que antes tinha mais, agora tem menos? R — Ah, antigamente tinha mais, tinha bastante peixe, agora tem bem menos. P/1 — Quando você era moleque, você lembra de mais peixe ou não? R — Antigamente tinha bastante peixe. No comecinho, quando eu comecei a pescar tinha bastante peixe, mas agora tá mais fraco, tá bem mais fraco “mermo”. P/1 — Isso é perceptível? Você está há quanto tempo mesmo pescando? R — Quatro anos pescando, agora vou fazer cinco. P/1 — Em cinco anos você já reparou a diferença. O que você acha que é? R — Não sei o que é. Porque antigamente a gente ia, achava bastante peixe. Mas agora não, o mar tá normal, a maré ficou alta, a gente achava bastante peixe. Mas agora não, o mar tá bem normal, a mesma coisa, mas pouco peixe. P/1 — Vocês estão precisando ir mais pro fundo, mais pro alto mar, alguma coisa assim? R — É. A gente tá procurando mais longe agora. P/1 — Cada vez mais longe da costa, é isso? R — É, pra procurar, que tá bem difícil agora. P/1 — O que você acha que é? Seu pai fala que é o que isso aí? R — A gente fala que o mar deve tá sujo por baixo. É meio difícil todo dia tá sujo por baixo. P/1 — Como funciona? Quantas vezes vocês vão pescar? Como funciona, assim, o esquema? R — A gente sai de segunda, aí chega quinta, três dias no mar. Aí fica sexta, sábado e domingo em casa, e segunda-feira a gente compra as coisinhas pra ir pro mar e sai de novo. Aí é quando o mar tá bom, que nem essa semana, a gente tava ajeitando o barco, aí o mar tava bom, mas depois o mar ficou ruim e não deu pra gente sair, não. Hoje também, a gente ia carregar o barco, mas não vamos sair, não. P/1 — O mar ruim, você está falando da chuva? R — É, o mar ficou alto. Aí eu vou esperar para sair agora. P/1 — A melhor fase é quando baixa? Sem chuva, sem nada... R — É, mar liso, mar liso. P/1 — Maré... Lua tem alguma coisa com isso? R — Tem umas que mexe na maré, é meio difícil, é mais vento, mar alto. Chuva não tem nada a ver, não, que a gente pesca lá com chuva. O negócio é mais vento e mar alto, que fica meio ruim. P/1 — Entendi. E isso tudo você aprendeu como? Olhando? R — É. Meu pai também me ensinando e eu olhando também. P/1 — E questões como qual é a melhor rede, qual é o melhor barco? Vocês pensam nessas coisas? Material? Vocês ficam lendo sobre isso? Como é que funciona? R — Não, o barco do meu pai é nove metros, é normal. É um barco normal “mermo”, isso daí é pescaria, é o que a gente pesca “mermo”. Tem de rede, que é cabelhinha e tem outras também de rede de caída, mas o nosso não. É esse daí de rede de palombeta. Sempre tem umas rede diferente, tem rede de palombeta, tem rede de caída, que é pra peixe diferente, mas pode palombeta também. Aí vem vários de peixe também. P/1 — E você tem uns camaradas que também pescam e tal? R — Tenho, tenho dois amigos meus que são mais novos que eu e que pescam. P/1 — É mesmo? E como vocês fazem? São de barcos diferentes, né? R — É. P/1 — Tem alguma coisa de competição entre vocês? R — Não, não. Eles pescam mais de beirada e eu e o meu pai sempre pesca do mar pra fora. Só pra se comunicar com eles é pelo rádio, mas é meio difícil falar com eles. P/1 — Mas vocês se ajudam, como é que funciona? Às vezes a pesca é bom pra um ou para o outro... Tem alguma, não sei, coletivo, organização de pescadores? R — Não. Eles pescam o deles e eu pesco o nosso, individual. P/1 — E vocês fazem parte de alguma cooperativa? R — Eu comecei a fazer um negócio agora, um negócio pra defesa de pesca, defesa do camarão agora. Que antes mesmo já teve defesa de não sei o que e aí meu pai fez pra mim agora esse negócio de defesa de camarão. Pra receber... P/1 — O que é isso? R — Isso daí eu sei pouca coisa também. Assim, a pesca fechou agora de camarão, aí fechou e agora tem pra receber. Aí tem defesa de sardinha, tem várias coisas, mas disso aí eu sei pouca coisa... P/1 — Defesa você fala o que? Lei de restrição, é isso? R — É isso. Aí tem a lei de cada coisa. P/1 — E como foi isso, chegaram para vocês e disseram: "Vocês não podem pescar"? R — É que já tem a data certinha, foi no dia 28 de fevereiro, eu acho, que foi a última pescaria de camarão. P/1 — Aí tem que esperar o que? R — Tem que esperar até acabar a defesa. P/1 — E daí chega a alguém para vocês e fala? R — É, que fala. P/1 — E quem é esse alguém? R — Aí eu não sei, não. Isso aí eu não conheço, não. Meu pai que sabe quem é. P/1 — E nessas viagens para pescar, você já viu muitos golfinhos... R — Ah, vi bastante. Baleia, golfinho, dá pra ver bastante lá fora. Vi tartaruga grandona, grandona mesmo. P/1 — Você se acostuma com isso? R — Já, já tô acostumado já. P/1 — Legal. Pra gente que fica de fora, quando vemos um negócio desse é uma maravilha. R — Muita gente aqui fora acha que é mole lá fora, mas é bem difícil lá. P/1 — O que, por exemplo? R — Para pescar lá, porque fala "ah, isso é fácil", mas quando chega lá é outra coisa diferente, não é a mesma coisa que tá em terra, é muito diferente. P/1 — Mas o que, por exemplo? O que você está chamando de diferente, que não é fácil? O que é? R — Não, é que algumas pessoas falam que pescar é mole, é fácil de pescar, que é só chegar lá e jogar a linha, mas não é isso! É chegar, ter que saber pescar, porque é bem difícil pescar lá fora. Eu mesmo acostumei foi depois de um ano e pouco, que eu parei de vomitar, essas coisas assim. Que eu vomitava bastante, fazia força, não tinha nada dentro da barriga, mas fazia força e ia. Era muito difícil, mas eu aprendi depois de quatro ano pra cá, bastante coisa. P/1 — E fora passar mal, tem também a questão manual... R — É, das coisas que você tá fazendo. P/1 — O que você sente falta ali no barco que poderia ajudar o trabalho de vocês? R — Não, tudo ali ajuda a gente. Tem de tudo lá, tem negócio de farmacinha quando a gente se corta, já tem já; aí tem o remédio quando a gente passa mal, que quando a gente passa mal já tem o remédio lá pra gente tomar. É isso. P/1 — Me conta um pouco, vamos voltar, então, pra terra. Você nasceu aqui? R — É, nasci aqui, moro aqui há 19 anos. P/1 — Neste bairro? R — É, Macaé. P/1 — Não, o bairro. R — Aqui é Barra. E tem a Nova Holanda. P/1 — Conta um pouquinho aqui sobre a Barra. R — A Barra aqui eu sei pouca coisa. P/1 — Desculpa, você é da Nova Holanda? R — É, eu moro na Nova Holanda. P/1 — Conta um pouco da Nova Holanda, como é que é? R — A Nova Holanda era um bairro que assim que começou era um mangue, não tinha bastante casa igual ao que tem agora. É muita casa agora, a gente fica até perdido agora. Eu que moro lá, se eu andar lá dentro agora, eu se perco, que é bastante casa. Eu conheço também pouca gente lá, porque agora tá morando bastante gente. Eu conheço pouca gente pela ali pela frente, pelo local agora, mas o local ali ficou melhor agora. Mal, mal, ali que agora mofou o mangue, que agora tem pouco mangue, só tem um pedacinho de mangue. P/1 — Você está lá desde criança, então você lembra bem do bairro, assim. O que foi acontecendo? Foi chegando mais casa, aí foi... R — É, foi chegando mais casa. Bastante gente chegando, vindo de fora para morar aqui em Macaé. P/1 — E por que veio essa turma toda, você sabe? R — Por causa de negócio de emprego, o negócio da Petrobras que tem aqui agora, tem bastante emprego, aí eles tão vindo tudo pra cá, até tem bastante baiano aqui agora. P/1 — Bastante baiano? R — Bastante baiano vem pra cá pra trabalhar. P/1 — Entendi. E você não se interessou por essas coisas de ir trabalhar... R — Não. Sou mais ficar pescando “mermo”, já gostei. Já trabalhei em terra uma vez, mas não gostei, não. P/1 — Em terra? Mas no que? R — Em lanche. Aí eu tentei fazer curso, mas eu não fiquei interessado muito, não. Peguei e perguntei pra meu pai se eu podia voltar a pescar com ele. Ele foi e deixou voltar a pescar com ele. P/1 — Como foi isso, Jancarlos? Só pra eu entender, você estava... R — Eu tava pescando com ele. P/1 — Daí você parou. R — É. Aí eu perguntei pra ele: "Vou ver se eu trabalho em terra, vou ver se eu gosto". Aí ele falou: "Pode ir. Se você não conseguir trabalhar em terra, você pode voltar". Eu trabalhei um mês e pouco e não consegui, peguei e saí. P/1 — Você trabalhou em lanche? Era o que? R — Em lanche, lanchonete. Fazia lanche. Aí eu peguei e saí, não gostei. P/1 — E curso, você falou que fez curso. R — Não, eu não cheguei a fazer curso, não. Eu falei, mas não cheguei a fazer, não. P/1 — E seus amigos? Tem um pessoal que está dividido? Tem um pessoal que pesca outros não? Como é? R — Não. O único dali do local que eu moro que pesca sou eu. Só eu e tem uns que moram mais longe, que moram lá em Nova Esperança, que tem uns amigos meus que pescam, só. É bem difícil pessoa nova pescar. P/1 — É mesmo? E você conversa com seus amigos e ninguém quer? R — Não. Converso. Eu falo: "Pô, você já tem curso, nem prefere nem pescar, não, porque rala mesmo". Não, se você quer trabalhar embarcado, corre atrás, porque é um trabalho bom. Mas eu não, eu já gosto de pescar “mermo”. Eu já pensei em trabalhar embarcado, mas não vou, vou ficar pescando “mermo”. P/1 — Embarcado? R — É. Embarcado fala de quem fica 15 dias lá pra fora, em navio, plataforma. P/1 — Mas também tem a ver com a Petrobras? R — É. Tem a Petrobras e tem outros também de fora, tem bastante. P/1 — Conta um pouco, o que os seus amigos estão fazendo, por exemplo? Você tem um camarada, você tem um brother, um grande amigo? R — Não. O único amigo que eu tenho é meu irmão que fica comigo. P/1 — E seu irmão tá pensando em fazer o que? Seu irmão é mais novo, né? R — É mais novo. P/1 — Quantos anos ele tem? R — Ele tem 14. P/1 — O que ele tá pensando? R — Pro meu pai ele não fala nada, não. Mas eu falo "Júlio, se você não gosta de barco, nada, vai ver serviço em terra, um curso bom pra você nem chegar no barco". Porque ele odeia barco, odeia “mermo”. Ele não gosta de jeito nenhum. Quando a gente ia pra ilha, ele ia pra casa da minha avó, porque ele não gosta. P/1 — Mas vocês já levaram ele pra pescar no alto mar? R — No alto mar, não. A gente leva aqui perto, mas ele passa mal, ele não gosta, não. P/1 — Todo mundo que começa a pescar passa mal? R — Passa. Tem alguns que é meio difícil passar mal, não sei porquê, mas eu passei mal demais, chegou até a sair sangue de tanta força. É difícil “mermo”. P/1 — Como você se imagina, Jan, daqui a 20 anos? O que você pensa, eu, daqui a 20 anos? R — Daqui a 20 anos? Oh, porque meu pai, ele não vai ficar pescando o tempo todo, né? Aquilo ali vai ficar pra mim, vai ser meu, eu vou continuar pescando, que eu gosto “mermo” de pescar. P/1 — Você vai precisar de algum parceiro, não é? Você é o parceiro do seu pai. R — É, aí eu vou ter que procurar um parceiro. P/1 — Quem? R — Eu não sei, não. Aí eu vou ter que procurar um pra pescar comigo. Mas deve ter, sempre aparece um querendo pescar. P/1 – Sempre aparece? R - Sempre aparece um querendo pescar. P/1 — Tá crescendo muito essa cidade? R — Tá, bastante! P/1 — Você vê isso? R — Vejo, já vejo diferença, que tá crescendo bastante já. P/1 — Dá um exemplo de uma coisa que seja fisicamente visto, que você percebeu que tenha mudado a sua vida com o crescimento da cidade. R — Eu quase não saí daqui de Macaé, é raro eu sair daqui. Mas que Macaé cresceu bastante com esse negócio de emprego, esses negócio assim. Eu quase não vejo nada de televisão essas coisas, não, é raro eu ver. Que eu fico mais em barco, é bem difícil eu ver televisão, eu não vejo nem jornal direito. Agora você fica perguntando esse negócio de pesca, é bem difícil. Meu pai que fala pra mim, fala algumas coisa o que é, o que não é, o que significa, o que não é. É bem difícil eu ver televisão, é raro. P/1 — O que você gosta de fazer, fora pescar? R — Eu fico mais dentro de casa, eu saio pra festa. Também agora eu pesco e agora eu tô no negócio, toco de DJ também. Eu toco também, aí eu saio... P/1 — Você não tinha falado isso! O cara tava aqui só de pescador, quietinho... R — Não, eu comecei agora. Eu sempre me interessei por negócio de música, aí eu tô começando agora. P/1 — Mas onde, cara? Você disse que não vê televisão, que fica em casa e de repente virou DJ? Como assim? P/2 — Você começou a pescar com seu pai, e você está aprendendo a ser DJ com quem? Com amigo? R — É com um amigo meu que gosta de negócio de música, aí fui vendo ele como é que é, aí eu se interessei. Eu gosto bastante de negócio de música. P/1 — Tipo? R — Ah, vários. Eletrônico, funk, de tudo? P/1 — Já tá discotecando? R — Oh, essa semana eu toquei lá no Cavaleiro, num bar lá. Eu e um amigo meu, nós dois, que ele me chamou pra ajudar ele. Cada um ajuda um parceiro. Mas eu tô começando agora. P/1 — Dá pra ser pescador e DJ? R — Dá, porque é no fim de semana que eu saio mesmo. E agora tem isso pra eu tocar, é bom, é um passatempo. Ajuda bastante. P/2 — E tem bastante festa pra tocar? Em Macaé tem bastante lugar? R — Essa semana tem. Tem aniversário, tem bastante lugar essa semana. P/1 — Por que essa semana em específico? R — Tem festa, aniversário que tem, aí começa sexta-feira e até domingo eu toco. P/1 — Então, você não ter que sair para pescar? R — Não. Eu pesco mais de semana. Aí dia de festa, de sexta a domingo é raro eu pescar. P/1 — Você falou que normalmente saía de domingo para segunda. R — É, de domingo pra segunda. P/1 — E aí, como é que fica? R — Não atrapalha, não. É porque de domingo é raro a gente sair. A gente sai mais de segunda pra terça, aí pesca terça, quarta e quinta. Na quinta chegamos à noite, aí ficamos sexta, sábado e domingo em casa. Nesses três dias vagos, eu toco, saio. P/1 — Sair você vai pra onde? Qual é o lazer aqui em Macaé? Para onde você sai? R — Aqui em Macaé quase não tem nada. P/1 — O que tem? R — Não tem show, aqui é difícil ter show. A gente vai mais pro lado de Cavaleiro, pra Rio das Ostras. A gente vai pra lá onde tem mais show, sai pra praia. Porque aqui mesmo eu não gosto de tomar banho nessa praia, porque me dá micose, esses negócios aqui. É meio difícil tomar banho aqui. P/1 — Ah, é? A praia daqui é... R — É, dá alergia. Eu já tive alergia uma vez já por causa dessa praia daqui. P/1 — O que acontece? Você acha a orla daqui meio poluída? Mas tem banhista? R — Dá sim, dá bastante gente que toma banho ali. Mas é meio difícil de dá micose. De um machucadinho que dá dessa água, por causa do rio também, porque é tudo junto, o rio e o mar junto. A água do rio vai pro mar... P/2 — O Rio Macaé, você diz, que tá poluído? R — É, o rio. Tem esse negócio de esgoto. P/1 — Me conta um dia seu, descreve pra gente um dia de pesca e um dia normal de discotecagem. Vamos lá, descreve pra gente, você acorda, faz uma meditação, pá, alonga... R — Ah, quando eu vou pro mar, eu nem durmo, não, porque meu pai sai meia noite, aí eu fico o tempo todo. Aí quando eu tô saindo, meu pai leva, meu tio leva e eu vou dormindo. Depois ele me chama pra pescar, aí pescamos os três dias, fica cansados, aí chega tem um dia que na sexta-feira eu nem durmo. Meu amigo liga pra mim: "Ah, tem uma festa pra gente ir", sendo que eu tinha acabado de vir do mar! Em vez de descansar, não! Eu pego e saio também. P/1 — Você tem namorada? R — Não tenho, não. Já namorei, mas não tô a fim de namorar mais, não. É melhor ficar solteiro mesmo. P/1 — Ah, é, cara? Está gostando da vida de solteiro? Dá pra ter namorada e ser pescador? Como é que funciona? R — Dá sim, mas é meio difícil. As meninas não gostam muito, não. As namoradas não gostam, não, mas dá sim, dá pra dividir um galhinho ali... (risos). P/1 — Me fala sobre a mulher macaense, cara. Como é aqui? R — Isso daí eu sei mais ou menos, é meio difícil de falar de mulher. P/1 — Mas é uma mulher bonita? R — Tem bastante menina bonita aqui. P/1 — Tem pescadora? R — Não, não tem, não. Que eu sei, não. É bem difícil. Mulher pescadora, não. P/1 — Você pensa em casar? R — Pensar todo mundo pensa em casar, né? Mas agora eu não quero casar, não (riso). P/1 — Mas você pensa entrar na igreja? R — Não. Agora não tem nenhum motivo pra eu casar. P/2 — Morando sozinho agora, né? Ganhando seu dinheiro. Filho pra te acompanhar, que nem você acompanha seu pai? R — É, eu penso em ter filho, mas não agora. Agora não! P/1 — Por exemplo, seu filho, você vai querer que ele te acompanhe? R — Não. Eu vou falar pra ele que isso não é vida, não. É bom pescar, né? Mas vai depender dele, se ele gostar de pescar, ele vai pescar. Eu não vou impedir dele, porque eu gostei também, foi assim. Aí vai ser dele, vai ser a opinião dele. P/1 — Mas você vai incentivar ele a pescar? R — Não. Eu vou deixar ele se virar. Se ele quer estudar, eu vou deixar ele estudar. Se ele quer pescar, eu vou perguntar se é isso mesmo que ele quer. Vai ser assim, vai ser a mesma coisa que eu fui. Vou passar pra meu filho também. P/1 — Mas... Faltou na escola, porque ele queria ir lá pescar. O que você vai fazer? R — Ah, foi a mesma coisa que eu, porque eu matava bastante aula, aprontava muito na escola. Aí chegou o ponto que eu falei pra meu pai: "Oh, pai, não dá, não. Se eu ficar matando aula, esses negócio, vai ser pior pra mim". Aí eu fui pedir pra ele pra me tirar da escola, foi aí que eu comecei pescando. P/1 — Você estudava onde? R — Estudava na Fronteira, Samuel, não sei se você já escutou falar do Samuel Brust. P/1 — É uma escola... R — Na Fronteira, perto do batalhão. P/1 — O que você não gostava ali? Você não tinha uma turma, não tinha amigos? R — Não, eu gostava. Tinha turma, tinha os amigos, mas eu ficava mais andando, não dentro de sala. Era raro eu ficar dentro de sala. A única coisa que eu passei, nem sei como eu passei, nesse curso foi inglês. Nem em educação física, nada. A única aula que eu ficava era nessa. Português, nada, só inglês que eu passei. Mas se me perguntar alguma coisa em inglês, eu não sei nada, mas não sei como eu passei (riso). Não sei nada, mas a única matéria que eu passei foi essa. P/1 — Era a única que você gostava então? R — É, que eu ficava, que se interessava mais era essa. P/1 — Por que será? Será que era porque trabalhava com música? R — Não. Passava bastante dever, era isso que ele passava, dever no quadro, livro. Mas eu me interessava mais, só essa aula que eu gostava. Nem educação física eu ficava, matava aula. P/2 — Você disse que está cada vez mais difícil pescar, que tem que ir mais longe. E daqui a 20 anos, como você vê isso? Será que vai dá, será que não vai dá... R — Aí eu não sei. Vai depender... P/2 — Será que vai ter que voltar para escola? Como é que você pensa? Ou você não pensa nisso ainda? R — Não penso isso ainda, não. Vai depender lá pra frente, porque está tudo mudando “mermo”. P/1 — É perceptível isso? R — É. P/1 — Mas ao mesmo tempo você consegue se bancar. Está morando sozinho. O que mais? O que você está querendo? Quando você pensa, poxa, "quero continuar pescando", você pensa em chegar onde? Quer aumentar frota? O que você quer conseguir? R — Meu pai tem um barco e já tá querendo outro maior. E assim por diante, a gente tinha um menor, tinha um de oito ou sete metros. Aí comprou um maior, e agora tá querendo trocar já de novo, querendo pegar um maior. E assim por diante até ficar com um maior. Aí vai aumentando, vai aumentando as despesas das coisas, e assim por diante. P/1 — Quais são as despesas básicas? R — Comida, alimento, essas coisas. P/1 — Tem que pagar marina? Onde você para o barco? R — A gente paga... Tipo assim, a gente compra o óleo no posto, ali perto do mercado, ali. A gente abastece ali. P/1 — Então o gasto de vocês é gasolina... ? R — O óleo, o gelo e o rancho que são as coisas pra gente levar, biscoito, essas coisas. Aí depois faz a divisão, tira a despesa e o que sobra é o nosso pra dividir. P/1 — Divide os três certinho? R — É divide os três. Quando eu comecei, eu comecei com meio quinhão, que é a metade de... É cem, a metade é cinquenta. Aí eu ganhava a metade. Aí depois eu ganhava meio quinhão e pouco, era 75. Agora eu ganho um quinhão. Quando eu era mais novo, mas agora eu ganho um quinhão e mais um pouco, porque eu cozinho lá fora, eu que sou o cozinheiro. P/1 — Ah, você ganha por ser o cozinheiro. O que você faz, conta pra mim. R — Eu faço de tudo. P/1 — Por exemplo? Qual é o menu? O que vocês comem lá durante a viagem? São três dias. R — Ah, leva frango, carne, diário, todo dia a gente leva uma coisa diferente. P/1 — Você que monta tudo? O cardápio, e compra? R — É, eu que vou fazer as compras. P/1 – Que legal! P/2 — E você aprendeu a cozinhar como? R — Foi olhando a minha mãe. Minha mãe gosta bastante de cozinhar, eu aprendi com ela. P/2 — Você aprende bastante coisa olhando, né? R — Eu gosto de ficar olhando os outros, assim eu aprendo rápido. Aí o incentivo também foi com minha mãe cozinhando. Dentro de casa eu gostava de cozinhar também. Até hoje eu cozinho. P/1 — Mas calma aí. Então esse barco tem mais coisa, né? Tem que ter uma cozinha, tem que ter fogareiro, o que tem lá? R — Tem um fogãozinho lá, aí a gente leva também, faz a comida. Tem dia que a gente leva carne diferente. P/1 — Aos poucos, está vendo, pescador, DJ e cozinheiro. Está escondendo o jogo, antes era só pescador, agora, daqui a pouco joga futebol também! R — Não, não. Não jogo futebol, não (risos). É bem difícil jogar futebol. P/1 — Onde você está morando agora? R — Agora estou morando lá na Nova Esperança. Minha mãe mora aqui na Rua 1, ali perto da ponte. P/1 — Você mudou do seu bairro, então? R — Moro no mesmo bairro, mas só que eu moro mais longe. Eu moro na Rua 5, lá na Nova Esperança. P/1 — Não é Nova Holanda? R — É Nova Holanda, mas também tem o nome de Nova Esperança, Nova Holanda. P/2 — Um pouquinho mais pra frente é Nova Esperança. R — É. Aí tem as ruas, aí vai mudando. P/2 — E você traz sua roupa pra sua mãe lavar? R — Não. Meu irmão lava. Não, moro bem longe dela. P/1 — Então você está fazendo tudo, lavando tuas roupas, fazendo seu supermercado, ou você vai almoçar todo dia na casa da sua mãe? R — Não, no comecinho quando eu não tinha nada e tal, tava comendo lá. Mas é meio difícil comer em casa, comprava mais era quentinha. Mas agora não, agora eu cozinho em casa normal. Lavo minha roupa normal, nem lavo, a máquina que tá lavando, lava e seca logo, é só estender e pronto (risos). P/1 — E sua casa está completinha? Como é? R — Em pouquinho em pouquinho, estou comprando as coisas. P/1 — Descreve pra mim, como é a tua casa. R — Não tem quarto, é sala e quarto junto, um banheiro grande e uma cozinha. Aí a gente comprou... Pra ficar até mais bonitinho lá, a gente fez uma sala. Aí botamo um sofá-cama, compramo um guarda-roupa pra gente botar as roupas, que aí meu irmão que tá morando, o mais velho. E aos pouquinho vamos comprando as coisas. P/1 — Você tem um irmão mais velho? R — Tipo, é amigo, mas eu chamo ele mais por irmão. P/1 — Ah, você está rachando com um camarada, então. R — Pra mim ele é como um irmão pra mim. P/1 — Entendi. E ele faz o que? R — Ele trabalha de segurança. P/1 — Não quis levar pra pesca? R — Não. Ele tá querendo, mas eu falo: "Não, pô, continua no seu emprego “mermo”". Que o emprego dele também é mole, ele trabalha um dia e no outro dia folga. Aí no outro dia trabalha. Aí eu falei: "Pra que você quer trabalhar no mar se tem um emprego já desse, assim?". Mas ele não liga, não. P/1 — E ele tentou te levar pra lá? R — Não, nem fala nada, não. P/1 — Você conhece esse seu amigo da onde? R — A gente se conheceu em festa, aí começamo a sair. De uns tempos pra cá, começamos a sair direto, só com ele que eu andava pra baixo e pra cima. Aí depois resolvemos morar nós dois, eu e ele. P/1 — Entendi. Mas não é seu brother de infância, tal, é um cara que cê conheceu mais velho, mas virou seu irmão... R — Não... P/1 — Ele que é DJ também? R — Ele não. É outro amigo meu. P/1 — Legal, cara. Morando junto, né? Não é fácil morar junto. R — Não, até que não dá aporrinhação. De vez em quando dá, assim, mas é meio difícil. Que um quer fazer a coisa e não pode, mas dá pra se virar um bocadinho. A gente tem menos liberdade de fazer as coisas, mas dá pra se virar um pouquinho sozinho. P/1 — E o turismo aqui? Tem crescido? Tem agência de turismo aqui? Você vê muito estrangeiros, paulistanos que vêm pra cá? R — Eu vejo mais no Cavaleiro, que vai bastante gringo pra ali. É mais difícil pra cá, porque pra cá não tem nada de show. Esse prefeito novo agora tirou os shows todinhos por causa do acidente que teve pra fora, aí tiraram festas, esses negócios tudinho. P/1 — O que aconteceu? R — Foi pra fora, que teve um negócio que morreu bastante gente. Você não soube, não? P/2 — Em Santa Maria? R — É. Aí pra cá também ele não quer deixar rolar muito show, não. Aí acabaram com negócio de show todinho pra cá. P/2 — Mas antes tinha? R — Tinha, tinha bastante show no ano passado. Festa, bares, tinha bastante coisa e agora não tem mais. P/1 — Mas como ponto turístico da cidade, se eu fosse pedir a você para me mostrar a cidade, você me levaria pra onde? R — Ah, eu levo lá pro lado de Cavaleiro pra lá, que é o único lugar melhor que tem, é pra lá, a praia. P/1 — Cavaleiro não é Macaé? R — É Macaé também. P/2 — É a primeira praia, quando sai de Rio das Ostras, é a primeira praia. P/1 — Então só pra entender, eu vou passar uma semana aqui meu amigo, pra onde você vai me levar? Vamos lá, estou na tua casa, pra onde você vai me levar? R — Olha, no bar pra tu conhecer onde é o bar. Levo nos outros lugares pra tu conhecer, aos pouquinho eu vou te levando pra tu conhecer melhor. P/1 — Onde? R — Oh, tem Barra, tem Malvina, tem Aroeira, é Macaé mesmo, mas é longe um pouquinho. P/1 — Mas você vai me levar pra ver o que? “Olha, vem cá, vou te apresentar a melhor coxinha do estado...” “Oh, aqui é a igreja tal”. Pra onde você ia me levar? Malvina, Barra? R — Malvina é meio difícil você andar pra lá, porque é raro eu sair daqui do bairro onde que eu moro. Eu saía mais, mas era noite e estava tudo fechado. Mas têm uns lugarzinhos que são uma boa, barzinhos, festas. Que eu moro aqui, mas eu nem gosto muito de sair pra esses lugares, assim, carnaval de bairro, esses negócios. Foi meu amigo que me chamou pra festas, esses negócios, assim. Aí que eu comecei a sair mais, que era meio difícil eu sair, porque minha mãe não deixava eu muito sair... P/1 — Você não saía, seus pais controlavam um pouco e depois que você ficou mais velho... R — Eu comecei a sair mais. Mas mesmo assim, mais velho, é raro eu sair. É difícil. Eu fico mais dentro de casa. Fico mais perto de casa ali, é meio difícil sair. P/1 — Seus pais são religiosos? R — Não. P/1 — Você também? R — Não. P/1 — Ir na igreja... ? R — De vez em quando a gente vai um pouquinho na igreja, mas é meio difícil. P/1 — Entendi. Chega no mar, você não reza quando tem tempestade? R — Não. Eu fico até mais tranquilo agora, mas ficava preocupado, minha mãe fica preocupada. Ah, tem uma coisa, agora tava chovendo e lá pode não estar chovendo, porque é distante. Pode não tá chovendo. Lá é diferente, em terra e lá fora. Lá pode tá chovendo, tá mar ruim, e aqui não tá, aqui pode tá sol. É diferente mesmo. P/1 — E como é que você sabe? Não é perigoso ir na chuva, por exemplo? R — Não. Na chuva o mar fica calmo. Mas tem dia de chuva e vento que o mar fica alto, aí tem tempestade... P/1 — Mas você sabe isso da terra, não é isso? R — Tem a base que fala pra gente: "O mar tá bom, dá pra sair". Aí meu pai vê o jornal e fala: "O tempo tá bom, dá pra gente sair", e a gente vai e carrega. P/1 — Você falou que tem várias pessoas que pescam... E tem alguma associação, cooperativa, sindicato de pescadores? Porque você falou que tem vários pescadores aqui... R — Tem, mas desse negócio eu não sei muito, não. P/1 — Você deixa mais pro seu pai? R — é, deixo mais pro meu pai. Ele só fala: "Oh, tem um negócio pra você assinar lá", aí eu venho e assino. P/2 — Onde, na colônia? R — Na colônia. P/2 — Isso que você falou do período da defesa foi lá na colônia, não foi aqui na associação? R — Aqui tem também. Ele vem e diz: "Tem lá em junho pra você assinar não sei o que", e eu venho só assinar. P/1 — Entendi. Mas você não acompanha as reuniões pra ver o que está acontecendo? R — Quando ele não tava, eu que ia no lugar dele na reunião, eu e minha mãe. Agora quando ele me chama, eu tenho que ir. Vamos eu e ele agora, eu e meu pai. Mas dessa semana pra cá até agora eu não fui ainda não, porque ele tava pro mar. Dia de reunião é mais dia de terça, que é o dia que a gente tá mar, então é difícil a gente ir. P/1 — Então tem reunião que é sempre de terça, mas é o dia que vocês estão no mar. R — É o dia da semana que a gente tá no mar, e não dá pra gente ir. P/1 — Mas e o pessoal todo também, né? Todo mundo aqui pesca nesses dias, né? R — É. Mas é meio difícil a gente ir, porque a gente já botou nesses dias. Aí nem vamo pra reunião, não, porque a gente já carregou. Aí tem vezes que a minha mãe vai no lugar do meu pai para prestar a atenção e depois falar pra ele. P/1 — Entendi. Ela representa vocês. Não é todo mundo que sai na terça, né? Vocês que escolheram, né? R — Ela representa. O nosso dia é esse daí, é semana em semana que a gente sai. P/1 — E pra ficar o fim de semana tranquilo. Entendi... R — É, pra ficar o fim de semana tranquilo. P/1 — É uma opção, né. Fala uma coisa, o que mais você gosta de fazer? Que a gente vai descobrindo aos poucos aqui. Tem festa, dança tradicional, tem coisas desse tipo aqui de expressão cultural? R — Aqui é raro eu sair. Só saio pra festa. Festa é um bailezinho que a gente faz nosso socialzinho, mas esse negócio de festa eu não vou não. A única coisa que eu fui é o Quinze, que é perto de Cavaleiro, depois da linha. Só esse local mesmo que eu vou, o Quinze, que é o local que dá Naldo, essas músicas de fora que vem. A gente aproveita e vai, que é meio difícil. P/1 — Essas são mais animadas? R — São mais animadas, que vêm de fora pessoas diferentes. P/1 — Tá muito caro morar aqui em Macaé? R — Eu não vi diferença, não. O aluguel que eu tenho, eu tô pagando barato. Porque tem uns lugares aí que o aluguel é caro, mas onde eu tô tá barato. P/1 — E você não acha que as coisas estão ficando mais caras na cidade ou... R — Tem uns amentos de carne, esses negócios que aumentam “mermo”, mas tá normal. P/1 — Como você espera que esteja essa cidade daqui a 20 anos? R — Ah, eu só quero que não tenha nada de violência, que tá meio difícil aqui. Sempre tem uma mortezinha, agora até que tá calmo, porque tem uma UPP aqui dentro, na Nova Holanda ali. Então até que tá melhor. P/2 — Teve ou ainda tem? R — Tem ainda. P/1 — Tem muito problema? R — Antigamente tinha bastante problema, mas agora tá melhor. P/1 — Você já teve algum problema, você já foi assaltado? R — Graças a Deus, não, nunca fui. P/1 — Aqui tem esses problemas de você morar em um bairro e não poder ir pra outro? R — Tem igual tem o Aeroporto. A gente que é morador nem pode ir pra lá, eu, um morador assim não pode ir pra lá. A gente, assim, que é novo, a gente não pode ir lá, porque pensam que a gente é do movimento, é assim, é difícil. P/1 — Mas você tem esse tipo de problema de não poder transitar em alguns lugares? R — Poder, eu vou, mas a gente fica meio preocupado do cara invocar com a pessoa. Eu não mexo com nada, trabalho, fico dentro de casa, aí eu vou pra lá, aí tem o cara... Uma vez eu fui pra festa de lá, aí os menino ficam olhando pra gente, aí meu primo foi e falou: "Não, ele não mexe com nada, não. Ele só trabalha “mermo”". Aí ele olhou na minha cara: "Mas ele é de lá, não é?" "Ele é de lá, mas não mexe", aí ele foi e deixou eu passar. É difícil mesmo. P/1 — Mas seu primo era de lá? R — Conhecia gente de lá. Aí deixaram eu passar. P/1 — Complicado essas coisas... Tem que ficar esperto. E polícia? R — Polícia tá... P/1 — Já teve algum problema com a polícia de chegar chegando com aquela truculência? R — Não. Igual a uma vez que eu tava tocando na associação, aí chegou o cara: "Pode desligar o som, fazendo um favor, que a hora já passou do limite?", que já era três horas da manhã. Só essa vez só que chegaram pra mim para desligar as coisas, aí fui e desliguei. Deixamos baixinho pra gente ir limpando as coisas e só. Só essa vez só. P/1 — Com a questão do barco vocês já tiveram problema ou alguma coisa assim de chegar polícia pra ver? R — Igual ao meu pai tava contando pra mim que ele tava pintando e chegou um cara e pisou na tinta que ele tava pintando no convés. Aí meu pai: "Nossa senhor, não pise, não" "Por quê?" "Porque eu acabei de pintar agora". Foi só essa vez também. P/1 — Você falou que tinha pegado uma tempestade e depois você não contou. Como foi, teve algum perigo? R — É. Balançava muito o barco. P/1 — Como foi? O que vocês estavam fazendo? R — O local eu não lembro muito, não, que eu tava dentro da casa de areia, mas meu pai que tava lá fora aí do nada começou a chover, o mar levantando. Mas mesmo assim a gente tava pescando, o meu pai que tava pescando. Começou a chover, tempestade alta, aí não dava nem pra sair do local, que o mar tava bastante alto, mas enfim a gente chegou inteiro, graças a Deus. P/1 — E neblina, chuva, raio? P/1 — E aí bagunça tudo lá dentro? Vocês ficam todos lá dentro também para não sair voando? R — Bagunça. Amarra tudo, porque se deixar voa tudo. P/1 — Ah, tem que amarrar tudo. Você já se amarrou? R — Não. Amarra as coisas que a gente leva, a gente não (risos). Mas passou, foi só uma vez só que eu lembro da tempestade. Foi chuva, raio. Essa semana pra cá também pegamos uma, mas foi fraco, foi chuva passageira. De vez em quando passa uma chuvazinha passageira, mas não foi igual à de antigamente que a gente apanhou, não. P/1 — Já teve caso que vocês ficaram sabendo de pescador que foi e não voltou? Ou que já tiveram de ir procurar? R — Já. Teve uma semana que não sei se foi em Cabo Frio, aquele lugar ali que um barco afundou e morreram três pessoas, meu pai tava falando comigo. Mas esses negócios assim, o meu pai tava falando comigo: "Oh, o mar tá alto, não dá pra gente sair", e a gente nem arrisca de sair não, pra não acontecer uma coisa pior. P/1 — A Prefeitura ajuda vocês em alguma coisa? Vocês têm o apoio de alguém? Como é que funciona? R — Meu pai tem, porque esses negócio pra cá eu não sei muito, não. Eu to começando agora. Mas ele falou que tem um apoio, ajuda, vereador, esses negócio aí. P/1 — Você ainda está conhecendo? R — É, tô conhecendo. De pouquinho em pouquinho eu vou conhecendo. P/1 — Beleza. Vou começar a encaminhar pra gente ir fechando, pra não pegar muito teu tempo. Uma pergunta, se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que você mudaria? R — O que eu mudaria? Eu tentaria me interessar mais por trabalhar em terra. Mas eu gosto de pescar, eu não sei que motivo, mas eu gosto de pescar. P/1 — Mas se você gosta de pescar, por que você gostaria de trabalhar em terra? R — Porque cada semana, tem hora que eu gosto de ficar mais em terra e tem que ir pescar, fazer o que? Mas trabalho é trabalho, não adianta. Mas eu gosto mais de ficar pescando mermo. P/1 — E o pessoal, seus amigos, estranha que você pesca ou falam "que legal que ele pesca"? As menininhas lá, você chega lá e elas "o que você faz?"... R — Antigamente eu tinha vergonha de falar que eu pescava, mas agora eu não tenho mais, não, porque é disso que eu dependo. Aí eu nem ligo! Os cara nem ligam não, porque já conhecem como é, aí não falam mais nada não, porque sabem como é. P/1 — Você já teve vergonha disso? R — Já. No comecinho eu tinha vergonha de falar. "Trabalha de que?" "Ah, eu trabalho com meu pai." Só falava isso. Mas de um tempo pra cá, eu falo: "Ah, trabalho, eu pesco já tem quatro anos". Aí tem um que acha maneiro: "Pô, eu gosto bastante de pescar", e assim por diante. P/1 — O pessoal se interessa? R — É, vai perguntando. P/1 — E você não tenta convencer alguns: "Vem comigo!". R — Às vezes eu chamo: "Quer ir pescar? Eu vou pedir o barco de meu pai pra gente ir perto da ilha ali pra pescar", aí sempre vão uns com a gente pra aprender. A gente leva pra ilha ali, mas lá pra fora a gente não leva. Porque aqui é calminho, é manso, que é o modo de dizer do mar liso. P/1 — Mas tem uns amigos que vão com você, falam "vamos lá, vamos ver qual é que é"? Olha! E dá pra ir? Vamos dizer nós três, dá pra ir, dá pra pescar? R — Dá pra sair, dá pra pescar. P/1 — É mesmo, cara? R — É, tipo, assim, vou seis horas da manhã e vem à tardinha, três, quatro horas. Só pra brincar lá, peixe, linha, só pra ver. Uma diversãozinha. P/1 — E tem que ser sempre na madrugada? R — Não, não precisa, não. Porque a gente sai, assim, de madrugada pra chegar lá cedo. Meu pai leva o pessoal pra pescar, ele sai quatro horas da manhã e chega lá sete, que vai ali pro... P/2 — Leva o pessoal amigo ou... R — Os amigos dele, que conhecem. Umas dez, nove pessoas cabem no barco, aí saem pra pescar. Sai daqui quatro horas da manhã, cinco horas, aí chega lá seis. Aí depois vem pra cá às quatro horas da tarde, pra casa. P/1 — Quando você leva seus amigos, assim, não tem problema de ser marinheiro de primeira viagem? R — Tem os caras da capitania que não gostam muito, não. Mas se tiver tudo certinho, eles deixam. P/1 — O que é? R — Capitania é tipo policiamento, tem que revistar se está tudo certinho, colete, esses negócio, mas tem horas que eles deixam passar. P/1 — Fala que é só para brincar um pouco e... R — É. Fala que é pra ilha... Mas agora também tá proibido ir pra ilha, não sei o porquê, mas não pode não. Aí não tão deixando mais ir pra ilha, não. P/1 — A ilha é aqui perto? R — É. No Francês, Santana, ali. P/1 — Não é pelo mesmo motivo das proibições de defesa? R — Não. É por outro motivo, esse daí eu não sei, não. P/1 — Jan, pra gente ir fechando, né, hoje pra você quais são as coisas mais importantes? R — Pra mim mais importantes? Tem muita coisa importante. P/1 — O que? R — Eu até fiquei um pouquinho nervoso agora (riso). Ah, tem tantas. P/1 — Fica tranquilo, cara. R — O importante pra mim é... A única coisa que eu gosto é ficar pescando mesmo, como eu te falei. Eu acho... Eu estou me interessando mais agora é negócio de DJ, que eu gosto muito, e estou aprendendo agora. Meu sonho é ser DJ, cara. P/1 — É mesmo? R — É. Eu gosto muito, mas eu tô começando agora. De pouquinho em pouquinho. P/1 — Tá começando agora, daqui a pouco está comprando as coisas, o equipamento. R — É, o equipamento. Meu amigo é que tem, mas eu quero comprar, eu quero ter o acessório meu. Mas é assim que começa, de pouquinho em pouquinho eu vou comprando. P/1 — Legal. Vai investir nisso? R — Vou investir nisso, que eu gosto. P/1 — Legal. O que você achou de contar um pouco a sua história pra gente? R — Ah, achei maneiro. É diferente, que é meio difícil eu fazer negócio de pergunta, assim. Só fiz uma vez na escola, quando eu ainda estudava, que perguntaram "ah, seu pai trabalha de que? Você vai ser igual a ele?", foi isso. Mas agora não, agora eu sou pescador, gosto muito de pescar. Às vezes eu ia fazer... Teve um amigo meu que me perguntou, fez uma pesquisa comigo também, ele me deu uma folha para eu falar o que eu faço. Foi assim, um relatóriozinho perguntando o que é, o que não é, o que eu gostava. P/1 — Foi diferente essa entrevista? R — Foi diferente. P/1 — Por quê? Porque você mudou ou por causa do tipo de entrevista? R — É, a entrevista e porque eu também mudei um pouco. P/1 — Ainda bem, né? Mais alguma pergunta, vocês querem perguntar alguma coisa? P/2 — Você quer falar alguma coisa? P/1 — Quer falar alguma coisa que a gente não perguntou? Alguma história que a gente não tenha perguntado e que você queira contar? R — A única coisa que tinha pra falar é isso mesmo, não tem mais nada, não. P/1 — Não? Certeza? R — Certeza (riso). P/1 — Ele pulou da namorada, ele não falou de nenhuma festa, não falou... R — Não, a festa que eu falei... P/1 — Fica tranquilo, cara (risos). Em nome do projeto a gente queria muito agradecer a sua participação. Vamos pra segunda fase, então? R — Vamos. FINAL DA ENTREVISTA
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