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História

Um jornalzinho dos jogos de várzea

História de: João Baptista da Silva Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento João Batista Silva Junior relata a infância no bairro de Perdizes, em São Paulo.  Fala sobre como começou a escrever um jornalzinho sobre os jogos de várzea da região oeste de São Paulo. Recorda os jogos que assistiu nos estádios do Pacaembu, Parque Antárctica e Parque São Jorge e os ídolos do São Paulo da década de 40.  

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História completa

Eu me chamo João Batista da Silva Junior, nasci em 22 de Abril de 1926, na cidade de São Paulo, bairro das Perdizes. Meu pai tem o meu nome, menos o Junior. E minha mãe Hortênsia Maria de Assunção. Ele trabalhava de publicitário, mas não tem relação nenhuma com meu jeito para fazer jornal. Eu tinha uma letra, modéstia à parte, bonita. Eu sei que eu sempre me dediquei muito a gostar de fazer jornal, com carvão, na cozinha da minha casa. Minha mãe me ensinou o alfabeto e com seis anos eu já sabia ler e escrever. E graças a Deus fiz o jornalzinho que aguentou 18 anos, saindo toda semana. Eu trabalhava numa indústria metalúrgica nove horas e meia por dia e nas horas vagas dava um avanço no jornal. Ele nunca deixou de circular. Eu fazia reportagens dos jogos, nosso campo ficava ali perto da minha casa, onde hoje é a Avenida Sumaré. E eu fazia e depois todo mundo ia passando de mão em mão. Muitos desapareceram porque não devolveram. Mas foi a minha vida, eu me senti um jornalista legítimo. Eu fazia entrevista com jogadores, fazia antes dos jogos, a escalação das equipes, um certo comentário sobre como desenvolveu o jogo, criticava alguns jogadores indisciplinados. Eu era o paginador, o articulista, o entrevistador, ia no jogo, marcava os resultados. Eu sempre desde criancinha pegava o papel que vinha embrulhado o pão também e ficava rabiscando. Ficava rabiscando o chão da minha cozinha da minha casa, a minha mãe consentia e foi ali que eu aprendi a ler e escrever. Eram jogos de várzea. Não era nem campeonato.

 Eu sou do tempo de Oberdan Cattani, Da Cunto, Viladonica, Luizinho, Echevarrieta, Lima, Pipi. Eu só não me tornei palmeirense porque tinha aquele negócio de guerra, você não podia comentar, tinha raiva dos nazistas. O jogador não tem culpa nenhuma, é filho de italiano. O Palestra e Corinthians era um clássico medonho. O Parque Antártica estremecia. Jurandyr, Carnera, Junqueira, Tunga, Gogliardo e Del Nero, Luizinho, Waldemar Fiúme, Echevarrieta, Lima e Pipi. Belos tempos. Eu ia ao Parque Antárctica, ajuntava garrafa vazia durante a semana para arrumar um cruzeiro, que era a entrada na geral. Tinha aquelas duas arquibancadas cobertas, do lado da Turiassu, a geral era em frente, mas sempre foi um estádio inacabado, sempre ficou faltando alguma coisa. E eu ia ver jogo do Corinthians no Parque São Jorge. Eu gosto do clube pelo que eu vi, não a rivalidade, que o São Paulo é maior, vai bater no Corinthians, voltar chateado para casa quando perdia. Não, eu reconhecia que o Corinthians é uma potência do futebol, Jango, Brandão e Dino. Desde os dez anos, ia ver jogo no Parque São Jorge. O São Paulo jogava na Rua da Mooca, lá na Rua Bresser, bem lá perto da estrada de ferro, no campo da Companhia Antárctica Paulista. Era um campinho pequeno, mas muito sedutor, bonitinho, bem gramadinho, ia todo domingo lá. Eu subia a ladeira da Rua Bartira, pegava o bonde grandão lá, na Praça do Correio, que ia para o Largo São Bento e pegava o Mooca, o Bresser, mas era uma maravilha. Ajuntava garrafa vazia a semana toda, para ter dinheiro para condução.

 Torcida uniformizada tinha o lugar dela. De um lado o Palestra e do outro o Corinthians, por exemplo. O Parque Antártica era um campo inacabado, mas era sedutor, era bom ir lá, representava muito o Palmeiras. Eu não tenho raiva dos outros times, só quando jogava com o São Paulo. É porque eles me deram alegria também, eles me deram um futebol lindo. O Corinthians: Joel, Jango, Brandão e Dino, Luizinho, Servílio, Teleco, Joane e Carlinhos. Quanto ao São Paulo, não vou falar Friedenreich porque aí você vai achar que eu estou muito velho: Leônidas da Silva, Dom Antônio Sastre, Gijo, Piolim e Renganeschi, Bauer, Rui e Noronha, Luizinho, Sastre e Leônidas, Remo e Teixeirinha, esse era o time. Jogava o ano todo a mesma formação. Até o Friedenreich eu cheguei a ver uma vez, num jogo de veteranos, onde ele participou. Mas o Leônidas eu acompanhei a carreira dele de 42 a 2001. Eu sou são-paulino porque meu pai era são-paulino. Mas meu pai trabalhava no Jóquei Clube e nunca tinha domingo livre.

Eu acompanhava através do jornal O Esporte, a Revista Equipe e mesmo a Folha de São Paulo, Diário de São Paulo, eu sempre tinha um jornal em casa para ler. Mas eu ia no campo. Só o jogo noturno que nem sempre eu ia porque a minha família não gostava, descer o Vale do Pacaembu perto do estádio era perigoso.  Eu ia sozinho. Voltei muitas vezes horrivelmente decepcionado. São Paulo e Corinthians, segundo jogo decisivo. Segundo tempo, São Paulo abre a contagem, 1 a 0, e quando faltava 15 segundos para acabar o jogo, o São Paulo cedeu o empate. Eu tinha largado de beber, graças a Deus eu aguentei a dor, mas não tomei nenhuma bebida. Mas foi uma decepção, a bola, ah, nem quero pensar! O juiz já estava olhando o relógio, vai acabar o jogo, 1 a 1. O Corinthians não ganhou nada, porque o Corinthians não estava classificado. Foi mil novecentos e agora não estou lembrado o ano, deve ser 65, 66. Eu deixei de beber em 65 e eu tomei assim umas duas Coca-Cola de raiva (riso). O Corinthians empatou em cima da hora, em cima mesmo, 45 minutos. Subi o Vale do Pacaembu indo para as Perdizes e fui me encher de Coca-Cola. Graças a Deus que eu fui mais forte que o vício.

Eu comecei a trabalhar em 45, eu tinha 19 anos. Trabalhei, me aposentei nessa firma aí, indústria metalúrgica, era na Barra Funda. Eu não tive muito emprego, eu ficava bastante tempo. Depois me aposentei, um salariozinho. Nas horas vagas, no serviço eu fazia muito o jornalzinho. Meu patrão viajava muito para o Sul, ele era vendedor e de modo que eu ficava tomando conta da casa e fazendo jornalzinho. Mas perdi a capacidade daquela letra que eu tinha, eu tinha uma letra de imprensa mesmo, não consigo fazer mais. Eu dava para a pessoa lerem. Eles ficavam sentados no barranco lendo o jornalzinho.

O primeiro título que eu lembro do São Paulo foi o de 43, empatou 0 a 0 com o Palestra e o empate favorecia o São Paulo e ele foi campeão. O jogo que demorou um século e meio para acabar. Tinha que fechar os olhos e tampar o ouvido. Bateu uma falta contra o São Paulo, como se isso adiantasse alguma coisa. Mas o futebol antigamente era um balé de Tchaikovsky. Em 1942 teve o jogo que o São Paulo fugiu do campo. Eu nem sei o motivo da reclamação do São Paulo. Eu sei que o São Paulo resolveu sair de campo, saiu e a gozação em cima da gente, na rua, como moleque, é terrível: “Fugiu, heim? É sempre assim”. Mas esse jogo eu me lembro todos os detalhes. King foi um goleiro espetacular. São Paulo tinha um time de aspirante maravilhoso também, foi quatro vezes campeão, seguida, Ieso, jogava Ieso, o goleiro. Eu sempre ficava para onde o São Paulo estava atacando. São Paulo sempre costumava atacar para o gol da concha acústica. Eu sentava na direção do gol dos fundos. Depois do intervalo vinha o portão principal, é a mania que eu tinha.

Teve um jogo que o São Paulo ganhou de 6 a 0 do Palmeiras. Foi na Rua da Mooca: Pedrosa, Agostinho, Iracino, Fiorotti, Lysandro e Felipelli, Mendes, Armandinho, Elysio, Araken e Paulo. Esse jogo eu não fui. Eu fiquei assistindo com um amigo palmeirense, e caladinho para não sair briga, mas foi gostoso. E no domingo seguinte São Paulo apanhou da Portuguesa, 5 a 0. Uma semana depois acabou a graça.

Eu sei que a inauguração do Pacaembu quem inaugurou foi o Palestra, ganhou 6 a 2 do Coritiba. E no jogo principal, o Corinthians ganhou do Atlético Mineiro por 4 a 2. Saiu uma briga, parece que o estádio ia desmoronar, todo mundo descendo os degraus lá e eu encolhido lá entre um degrau e outro. Saía briga de pessoa embriagada, aí vinha os meganhas lá e pegavam os briguentos e punha lá na corintiana, veículo de presos: preto e branco. E depois acabava o jogo, soltava o pessoal. Mas uma vez eu fui no Pacaembu, eu tinha um pouco de dinheiro a mais, fui de arquibancada, quando cheguei lá dentro eu, tinha a estátua do Davi. Eu falei: “Eu vou dar uma olhadinha lá para ver de perto a estátua”. Fui e na volta o vigilante lá pensou que eu tivesse entrado, invadido o estádio. Me pegou pelo cangote e levou para rua. E eu tinha pago a entrada para entrar, e eu conhecia o bilheteiro, podia falar com o bilheteiro, esse rapaz sempre passa por aqui para comprar ingresso, mas não me ocorreu, era ingênuo, menino ainda. Mas eu voltei, paguei, entrei de novo. O Pacaembu me recebeu outro dia muito bem, graças a Deus. Eu falei: “Será que sou eu que estou aqui?” Por causa do jornalzinho. Pessoas ilustres lá me cumprimentaram. Comendadores, juízes de direito. Eu fui homenageado lá também no Ministério Público, um prédio lindíssimo que tem lá na cidade. Então, recitaram, um senhor ilustre, jurídico declamou um poema meu, Ode ao Meu Cachorro, ao Meu Cão, fica mais bonito. E depois, no fim, quando acabou o programa, eu fui lá para o fundo, todo mundo foi lá me cumprimentar, eu vivi um dia de herói, graças a Deus.

Aqui do Brasil, Copa do Mundo de 38 para cá assisti tudo, 38, 42 não houve, 50, 54, 58, 62 Brasil bicampeão. De lá para cá vi todas as Copas. Espero ver a próxima, vamos ver. Eu tenho um medo de morrer e não ver a Copa do Mundo agora. Desde 38 tinha aquela barulheira, 38 então era um foguetório nas Perdizes que eu nunca vi igual, de maneira que agora vamos ver esse ano. Foi a decisão com Itália em 38. Brasil perdeu 2 a 1, eu cheguei chorando em casa, e chorava mesmo, era uma tragédia. Eu ouvi no rádio em casa. Com aquele barulho lá pi pi pi pi, aquelas intromissões das outras estações. O Domingos que era frio de nervos, fez um pênalti besta, o Brasil perdeu o jogo.

Eu sou são-paulino, mas eu sempre gostei do Palmeiras. Foi ali que eu comecei assistir jogo de futebol. Quando o Palmeiras joga eu sempre torço pelo Palmeiras, quando não é contra o São Paulo. Eu jogava bola no campinho. Eu fiz um gol olímpico, uma bruta casualidade (riso). Eu bati direito, eu bati da ponta esquerda eu bati com esse pé assim, a bola entrou. E todo mundo olhando para mim, me aplaudindo. Eu tive meus dias de glória. Jogo de várzea é liberado, joga onde quiser, mais de atacante. É gostoso bater um escanteio assim, a bola entrar. Eu tive essa alegria, mas por acaso, não é habilidade. A bola era amarrada, era fechada com couro. Mas a bola é um caso sério quando chove, fica pesada. Dar cabeçada na bola molhada a gente vai para trás e a bola fica no mesmo lugar. 

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