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História

Um Jardim de Papel

História de: Eva Ern
Autor: Sandro José da Silva
Publicado em: 22/10/2019

Sinopse

A história de Eva é uma epopeia, repleta de descrições, emoções e situações memoráveis que nos fazem refletir sobre a coletividade dos tempos atuais.

A mais nova dentre as mulheres, a penúltima filha do casal, nasceu em 1956 em Lupionópolis, município localizado bem ao norte do Paraná, e justamente inicia sua narrativa contando sobre a chegada de seus pais ao estado na década de 1950, quando ainda havia muita mata e lugares para se descobrir. Eva conta que seus pais receberam o convite de Ibraim Abbud, primeiro prefeito da cidade, para comprar um lote de terras e assim iniciar a ocupação da região. Eles por sua vez convenceram seu avô que se mudou com todos os seus 12 filhos para o Paraná. A família Pereira comprou 80 alqueires de terras na região. 

Eva se recorda de uma rotina de sítio, onde se acordavam cedo, dos almoços em família, sempre muito cheios, das casas de madeira, dos carros de boi, o monjolo, o engenho de açúcar. Conta que seu avô na Páscoa matava um boi e servia churrasco para todos. E como se esquecer do povo dançando catira? Que balançava toda a casa com aquele arrasta pé. Boas lembranças... além da sensação das chuvas, dos trovões, dos relâmpagos, do telhado que voava com o vento, de uma terra repleta de água com as malhas de eletricidade que talhavam o céu, que ainda permanecem em sua memória.

Mudou-se para São Paulo no início do ano de 1976, exatamente com 20 anos. Conta que veio para se casar, e logo teve filhos e não pôde trabalhar de início, pois seu marido não aceitava. Seus sonhos de estudar e trabalhar ficaram à deriva, mas Eva sempre gostou muito de ler, lembra que passava as férias na casa de uma tia que tinha um monte de gibi, e ela podia ficar lá fazendo apenas isso, lendo, lendo, lendo. Depois dos gibis, passou a ler fotonovelas, em seguida começou a se interessar por temas como maquiagem, depilação, estética, massagem… Eva chegou a trabalhar em um salão, estudar no Senac, fez muitos cursos, mas aquele ainda não era seu caminho. Sua guinada se deu no curso de Pedagogia.

Quando seus filhos chegaram à adolescência, resolveu de sobressalto voltar a estudar. Eva já havia dado aulas no Paraná, mas na época não se preocupava com diplomas. Então, fez o magistério e depois cursou Pedagogia. Ao se formar, por volta de 1997, saiu para trabalhar e conseguiu um contrato como bibliotecária na Escola Estadual Ushikichi Kamiya. Na ocasião, a diretora da escola, Vera Curriel, lhe incentivou a fazer um curso sobre meio ambiente na Faculdade de Santana, uma formação rápida, algo em torno de seis meses, mas sua vida nunca mais seria a mesma, pois ali percebeu que ela já trabalhava com meio ambiente, e que sua ação e contribuição no cotidiano da cidade era muito maior do que ela pensava.

Eva foi morar na Vila Albertina, zona norte de São Paulo, em 1980. Era um lugar bem feio. Havia um monte de casinhas de madeira, nada de alvenaria, não havia muro, é verdade, se podia deixar tudo do lado de fora que nada sumia, mas fedia por conta do lixo. Os caminhões passavam noite e dia para o aterro sanitário, e eram aqueles caminhões enormes, barulhentos e que exalavam um cheiro forte. 

Certa vez, cansados dessa situação, Eva e outros moradores se organizaram e fecharam a rua bloqueando o acesso dos caminhões. A reivindicação era simples, os moradores queriam que os caminhões cessassem seus trabalhos à noite. E então chegaram várias viaturas, mas não tiveram medo, inclusive, os moradores chegaram a bloquear a circulação entre às 22:00 e 6:00 horas da manhã. Mas depois os caminhões encontraram outras rotas de acesso ao aterro. 

Fato é que essa situação, muito antes de seu curso, a levou para a coleta seletiva do lixo. Eva se tornou uma liderança local articulando moradores, catadores e locais de compra. Narra com detalhes as dificuldades do trabalho, as articulações políticas, as vaidades, assim como a solidariedade e a riqueza humana de seus colegas cooperados. Sua cooperativa chegou a tirar uma tonelada de material por dia, algo que permitia ao menos um salário mínimo para todos os trabalhadores. Dessa experiência saiu o sonho de transformar a Vila Albertina em uma Eco Vila, com uma rede consolidada entre os moradores, já separando seus lixos, coletores e as empresas compradoras do material reciclável. Algo que envolveria educação ambiental, respeito e mobilização comunitária.

Quanto mais Eva foi se informando sobre o tema, mais preparada foi ficando e mais difícil se tornaram as articulações políticas. Os interesses eram muitos, teve conquistas e também foi boicotada muitas vezes. Por estas questões, a cooperativa continua, porém acabou se afastando da reciclagem direta, e reflete que o projeto caminharia sozinho se tivesse um espaço, pois a riqueza está presente no lixo. 

Atualmente, continua trabalhando e atuando sob a bandeira ambiental na região norte de São Paulo, trabalha como monitora do MOVA - Movimento da Associação dos Moradores da Zona Norte – onde dá cursos relacionados ao meio ambiente e ação comunitária. Tem três filhos e quatro netos, e finaliza sua história dizendo que aprendeu que o indivíduo não precisa fazer grandes coisas, que ele pode fazer pequenas ações e talvez conseguir resultados melhores. O sonho da Eco Vila se transformou, agora ela foca suas energias na transformação pela educação, isso, de maneira ampla, envolvendo a questão alimentar, a economia e, claro, a questão ambiental. 

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História completa

Por volta de 1999, 2000, eu fui trabalhar em uma penitenciária feminina. Lá eu percebi a precariedade de uma prisão. Comecei a ensinar para as meninas a separação do material, como separar o material e não sei o quê… E comecei a ver que lá não tinha dicionário. Pensei: "Vou fazer uma campanha de recicláveis para que essa penitenciária tenha dicionário". 

A ação começou numa avenida aqui na Vila Albertina, botei uma caixa e comecei a pedir. Ali passava muita gente da Serra, e a caixa sempre enchia - enchia tanto de livro, quanto de papel de tudo. Eu continuei fazendo essa campanha, juntava e vendia, juntava e vendia. Quando terminei a campanha, que eu parei, que eu vendi tudo, o governo me mandou os dicionários lá para a penitenciária. “E agora?". Fui lá na 25 de março, comprei uns panos e dei na escola para se fazer as cortinas. Tinha a biblioteca… Não sei se fizeram. Eu dei o pano e deixei para que eles as fizessem. 

Aconteceu que o pessoal da Vila me viu fazendo essa campanha, e aí a liderança, a Maria Cristina e a Lobelo, me chamaram para que eu conhecesse um galpão lá no alto da Vila. Olha o tempo que eu já morava no bairro e não conhecia o tal espaço. Elas me levaram para conhecê-lo e falaram: "Dá para gente fazer esse projeto de coleta seletiva aqui, dá para fazer uma cooperativa”.

O espaço dava um campo de futebol. Ainda não era CDC. Gostei do lugar e comecei a escrever um projeto nas férias, foi na mesma época que eu conheci a Gol de Letra, que conheci o Raí -, e comecei a fazer o projeto.  Na verdade, o irmão do meu marido tinha sido preso e eu queria ajudá-lo, queria que ele saísse da cadeia e tivesse um lugar onde pudesse recomeçar a vida. Infelizmente, não consegui, porque é muito difícil, ele era viciado e eu não sabia lidar com essa situação antigamente. 

Eu peguei meu carro de passeio e troquei por uma “caminhonetezinha”, e assim que comecei, com ele de motorista. Eu ia na penitenciária dar aula, e nós voltávamos coletando as coisas. Acabei me juntando com outras pessoas da comunidade e fomos fazer a ação, sem nada. 

No começo da cooperativa eu ainda dava aula, alguém tinha que trazer recurso… Eu dava aula de manhã. Eu fiz o Jovem Cidadão por dois anos, e depois dei aula para o Sebrae também, o aprendendo a empreender, mas tudo isso sempre junto com o projeto.

Quando nós formamos a cooperativa, o que nós fizemos? Fomos atrás da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho. Naquela época, o Secretário era o Walter Barelli. Pedimos para ele apoio para fazer um projeto aqui. Então, ele trouxe um grupo de professores para ensinar para gente tudo. Nós ficamos três meses tendo aula de tudo quanto é coisa: empreendedorismo, educação ambiental. Eu fiz papel reciclado por muito tempo, sabe? Naquele tempo, nem dono de empresa falava em plano de negócio, e a gente já sabia fazer. Tanto é que quando falava isso no meio dos catadores, eles falavam: "Você não tem uma cooperativa, você tem uma empresa", e eu falava: "Calma, plano de negócio a gente faz até da vida”. 

Nós aprendemos muito… Mas na época, a Cristina se desentendeu comigo. A Folha de São Paulo veio fazer uma entrevista, e eles vieram bem em uma quinta-feira. Eu ficava mais preocupada em coletar e colocar a mão na massa, ela era mais do corre atrás dos políticos, das coisas, porque eu não tinha muito esse conhecimento. A Folha de São Paulo veio bem na quinta-feira em que ela não poderia estar no espaço. Eu falei para o rapaz: “Nós não podemos fazer essa entrevista, a Cristina não está aqui." E ele disse: "Tudo bem, eu volto depois". Eles não voltaram e me puseram na reportagem.

 E o que aconteceu? Ela achou que foi traída, achou que tinha sido passada para trás e a partir daí, ela começou a se mover contra a cooperativa. Se afastou e começou a agir contra. Tentei de todas as formas pedir perdão, explicar que a culpa não era minha, e as pessoas também diziam para ela, mas não adiantou, ela ficou irredutível, não teve jeito. E o tempo todo, o tempo todo, lutando contra, lutando contra…

Até que chegou 2006, momento em que nós fomos mais atacados, que eles tiraram a gente do espaço... No início, a gente lutou para fazer a rede Vila Albertina. E nós tivemos uma atuação muito forte, com apoio da Fundação Gol de Letra, que estava sempre nos apoiando. A gente passava nas casas, conversando... Aqui na Vila Albertina, três mil moradias foram educadas para separar o material, e isso foi crescendo, crescendo... Chegamos ao ponto de coletar, mais ou menos, uma tonelada por dia. Era um caminhão 608, cheio de todo tipo de material. Ali tinha plástico, papel, vidro, metal, eletrônicos também… Nós trazíamos o material, selecionávamos e vendíamos. Eu não me lembro qual era o valor, mas eu sei que cada um de nós tirava um salário mínimo. 

Porém, eu ainda tinha que trabalhar fora, e deixava outras pessoas conduzindo, porque alguém tinha que sustentar o projeto. E foi na época em que eu fui operar a vesícula, que eu fiquei internada. Me deu duas vezes pancreatite e eu não morri em nenhuma. Eu fiquei dez anos com ela, e foi ali no Hospital São Paulo que eu resolvi dar uma segurada. 

A partir da operação eu resolvi que iria parar de dar aula, parar de fazer as coisas com educação, e que iria me dedicar exclusivamente para a cooperativa. E eu comecei a trabalhar. Foi a época que nós compramos um segundo caminhão, porque o que nós tínhamos era de uma amiga da padaria que tinha nos dado. Primeiro emprestado, e depois ela deu para gente mesmo. Nós coletamos bastante, mas só que como a gente não tinha o espaço, era tudo no caminhão. Nós tínhamos que levar esse produto todinho do jeito que pegava na rua. Nós levávamos lá em Guarulhos, na Multilixo. Eles compravam o material da gente. 

Na época, o Padre Tomás mandou 20 moradores de rua para trabalhar conosco. Desses 20, quatro saíram da rua, dois estão por aí, dois morreram naquela chacina embaixo da ponte da Fernão Dias. Então, esses moradores de rua… Eu tenho uma gratidão muito grande por eles, tanto é que eu não gosto nem de passar muito perto, não gosto de ver seu sofrimento, porque eu sempre me envolvi muito nesse projeto, eu tirei a aposentadoria do Bradesco, tirei meu dinheiro da poupança, eu peguei meu carro de passeio e coloquei a serviço da cooperativa porque eu acreditava muito nesse trabalho. Ingenuidade minha, por não saber como era esse trâmite com políticos. 

Eu não me desanimo fácil. Hoje você me derruba, amanhã eu me levanto com mais força e sigo em frente. Como a água, não deu certo ali, vai aqui, a gente vai fazendo e chega lá. Então, não desanimo nunca. A depressão nunca teve muito espaço dentro de mim. Cada dia eu sonho mais, quero viver intensamente todo esse resto de tempo que eu ainda tenho da minha vida, seja um dia ou meia hora, mas com intensidade, fazendo o que eu gosto e estando no meio de pessoas que valem a pena. Hoje, eu não brigo muito para estar fazendo uma coisa com quem é desagradável, não, vamos fazer coisas boas. Para que perder tempo?

 

Eu relembrei de muitas coisas, falei delas com prazer e com amor. Muitas vezes, quando eu relembrava algumas coisas, era com dor e sofrimento, e dessa vez não, não teve dor nem sofrimento, só lembranças boas, coisas boas… E assim, fechando uma etapa da minha vida…

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