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História

Um inventor na Vale

História de: José Márcio Jardim Paixão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Quando foi chamado para trabalhar na Vale do Rio Doce, Márcio achava que a empresa fabricava doces. Mas a sua carreira na empresa envolveu muita pesquisa e tecnologias novas para inovar e manter a empresa como um negócio chave para o Brasil. Nesta entrevista, ele nos conta sobre sua carreira de inventor e como isso se deu dentro e fora da Vale. 

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História completa

P/1 - Primeira pergunta: o nome completo do senhor, local de nascimento e data de nascimento.

 

R - José Márcio Jardim Paixão, todo mundo conhece por Márcio Paixão mesmo. Local de nascimento: Diamantina, [no] dia seis de abril de 1932.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - José Paixão e Rute Jardim Paixão, também nasceram em Diamantina. Meu pai nasceu em 1905, no dia seis de março. [Quando] morreu eu estava na Alemanha, tive que vir correndo para cá. [Quando] cheguei já o encontrei enterrado; tem muitos anos isso. Minha mãe, a velhinha mais linda do mundo viva, totalmente lúcida, recita poesias imensas, ainda fica aquela memória fabulosa. Nasceu no dia 25 de junho de 1907, portanto tem 92 anos. 

 

P/1 - Ela recita poesias?

 

R - Lindas, maravilhosas, imensas poesias de autoria do meu tio. E todas, de Guerra Junqueiro e até Castro Alves - ela solta um “Navio Negreiro” que tem um tamanho imenso, né? Antes meu tio que era um sujeito maravilhoso, _____________ - já morreu também. Era poeta, músico, pintor, escritor, tudo, também [de] Diamantina. E umas poesias minhas também, quando era novo eu também era metido a poeta. Hoje eu morro de vergonha delas. (risos)

 

P/1 - Você não lembra nenhum poema pra contar para a gente aqui?

 

R - Ah, lembro de alguns, um poema desse tamanitinho: “Os dias tristes em São Delis são as quintas-feiras. Toda a quinta-feira vem um dragão e devora uma virgem, mas São Delis tem uma sorte, não existe.”

 

P/1 - Seus pais faziam o que, qual a atividade deles?

 

R - Meu pai era uma pessoa fenomenal. Meu pai ficou órfão de pai e mãe, com onze anos o mandaram de Diamantina aqui para o Rio. Ele se virou sozinho, foi morar na casa de uma madrinha dele, nobre - nós somos todos descendentes de nobre, a família é toda nobre, tem barão que não acaba mais. Minha bisavó era baronesa, do outro lado também, então Barão do Serro, Barão de Araçuaí, tudo aquilo. Veio para cá; essa pessoa que eu não vou dizer o nome, já morreu, coitado, há muito tempo, que pôs ele como menino de recado, ai ele foi embora para... “Não, o senhor vai embora.” Foi embora e teve uma vida maravilhosa. 

Eu sei que com dezoito anos ele já era gerente da General Electric. Depois, mais tarde, ele comprou a General Electric de venda direto a varejo. Depois foi industrial, ele fez um banco para tomar conta de todos os negócios dele. Um grande industrial e morreu paupérrimo. Nunca faliu, nunca fez nada. 

Ele morreu quando estava os negócios todos dele… Ninguém mexeu mais com os negócios dele, então pronto, foi tudo embora. Morreu já há muitos anos, [em] 1971; ele morreu quando faliu, estava na Alemanha nessa época. Mas ele era industrial, teve várias indústrias. Fui presidente duma fábrica dele, fui emancipado com dezoito anos para ser presidente de uma indústria dele. Uma grande indústria, reunia o Distrito Federal aqui, né, IRDIFE, e tinha um banco também, Banco Comercial da capital da República - o Juscelino foi até presidente do banco dele durante uns tempos. Mas depois eu segui minha vida, ele seguiu a dele.

 

P/1 - Ele veio sozinho para o Rio com onze anos de idade?

 

R - Veio sozinho para o Rio de Diamantina para cá e se virou sozinho.

 

P/2 - E como eles se conheceram, o senhor não sabe?

 

R - Mamãe e meu pai? De Diamantina. Minha mãe é de Diamantina. Meu pai é primo de minha mãe, longe, mas é a mesma coisa que eu e minha mulher, aconteceu a mesma coisa comigo. Eu fui também para Minas por amor, e papai voltou a Diamantina por amor. Ele ia lá uma vez ou outra e minha mãe ele já conhecia. Ele [se] casou com minha mãe com 21 anos, minha mãe com dezoito. A mesma coisa, eu casei com minha mulher [quando] ela tinha dezoito anos, mas eu já era mais velho, eu tinha 25 na época. 

Foi uma história mais ou menos parecida, só que foi inverso: minha mulher… Meu sogro era jornalista e morava aqui no Rio, apesar de ser toda a família de Diamantina, Mata Machado e teve aqui, minha mulher nasceu aqui no Rio, morava no Leblon. Eu não conhecia, nunca tinha visto.

Diz mamãe que quando teve as bodas de ouro do meu avô, que foram lá em casa, uma festa muito grã-fina, eu morava ali no Leblon numa casa muito bonita, muito grande, minha mulher, a Sueli, foi para lá. Meu sogro era jornalista, jornalista naquele tempo era muito pobre, como hoje, apesar de ele ter sido um... Era uma festa a rigor e a minha sogra não tinha um vestido a rigor, então diz que levou a Sueli com seis meses e pôs na minha cama. Talvez daí tenha começado o amor, sem eu pressentir, subconsciente. 

Mas foi isso, eu a conheci bem mais tarde. Saímos com um grupo de amigos aqui do Rio; resolvemos fazer uma dessas coisas de garoto, fazer uma excursão na Serra do Cabral, um dos lugares mais desgraçados do mundo. Naquele tempo, saímos daqui, viajamos um dia inteiro de trem, depois passamos uns dias em Belo Horizonte e eu encontrei minha mulher lá. Só que um dos meus amigos começou a namorar minha mulher; eu tinha uma namorada aqui que foi atrás de mim, então a única maneira de a gente sumir era por essa Serra do Cabral, que ficava dois dias de trem e mais dois… Não, um dia de trem e dois dias no lombo de burro para subir a serra. Claro, a garotada aqui do Rio e do Leblon, muitos amigos nossos: “Poxa, eu entendo de cavalo.” Aquilo dava uma dor do lado danada, eu tinha andado naquilo o tempo todo. Quando nós chegamos lá na Serra do Cabral, nós estávamos com uma missão formidável, íamos procurar lá uma porção de minerais - eram uns carimbos de cristal, uma coisa assim -, não tinha ninguém lá, um lugar lindo, maravilhoso. Um planalto, tinham manadas de veado naquele tempo lá, várias aves. 

[Quando] nós chegamos lá, o ________ falou: “Olha, o negócio aqui é o seguinte: a gente tem que soltar os cavalos.” Quando armamos as nossas barracas, nós soltamos os cavalos; eles sumiram, nós passamos quinze dias morrendo de fome no meio do mato comendo piqui, até que o cara lá da pensão, já que o infeliz voltou lá e tinha um cachorro… Nós resolvemos caçar com o cachorro, mas parecia mais uma radiografia de cachorro do que um cachorro, o bicho só tinha osso. E teve uma vez que foi muito gozado, o Ronald viu: “Puxa, uma codorna está lá.” Bruuu! A codorna está pousada numa árvore, [a gente] achou meio estranho. (riso) A codorna caiu da árvore e o cachorro, o tal de Danúbio, saiu uivando: “Uuuuuuuu!” Foi lá, pegou a codorna e quando veio saiu com um pedacinho de coruja - a codorna era uma coruja que eu tinha matado. (riso) O cachorro comeu no ato a coruja, de tanta fome que ele tinha. 

Quando eu voltei da Serra do Cabral, meio faminto, que eu vi minha mulher lá, achei a coisa mais linda do mundo. “Meu Deus do céu!” Fiquei baleiro. “Poxa, espera aí, pô!” Meu sogro era uma fúria. Nesse tempo eu era muito menino, tinha uns quinze anos. E meu sogro protegendo o namoro: “Essa besta quadrada…” 

Depois ela veio para o Rio e ficou na casa da tia dela que ia casar por coincidência com meu primo, e eu fui lá para ver... Ia visitar um navio com minha irmã, usava isso, minha irmã era amiga dela - minha irmã mais nova, a Julinha, casada com o Sérgio, ia visitar um navio. Então eu vi, quando ela apontou fiquei na varanda lá de casa, quando ela apontou lá na esquina da João Lira - eu morava na Rua João Lira, eu saí correndo de casa, fui para lá como quem não quer nada: “Ei, menina como é que vai aquele Arraial do Bom Jesus lá?” Belo Horizonte, que eu moro hoje, que é... “Vai bem. Cadê a Julinha?” Falei: “Julinha já foi embora há muito tempo, foi ver o navio.” “Ai, meu Deus, e agora?” “Mas se você quiser a gente pode ir no cinema.” Ela: “Mas não sei se posso.” “Pode, é claro que pode.” (risos) 

Levei-a no Luna, que era um bar que tinha ali no Leblon. Eu lembro disso até hoje, eu a levei no Luna. Pedi um martini, para mim usava martini naquele tempo. Fiquei tomando martini, aí pedi um sundae desse tamanho e [ela] ficou lá tomando. Nós fomos ao cinema, eu lembro até o nome do filme, foi E Deus que criou a mulher, com Brigitte Bardot. Eu tentei beijá-la o tempo todo, ela não deixou. (risos) Acho que foi por isso que eu casei. 

Depois ela voltou para Minas e eu fiquei numa paixão danada. Foi aí que eu arranjei, quis arranjar um trabalho em Minas. Até essa época eu trabalhava aqui em algumas coisas. Depois eu resolvi ir para Minas e fui; estive em outros lugares primeiro, depois fui para a Vale, mas eu fui por amor para Minas, sabia? Eu achava que o ar depois de Túnel Novo já me fazia mal - você vê como é que são as coisas - quando eu morava aqui no Rio. No entanto, morar em Itabira… Você não imagina o que era Itabira 42 anos atrás. Era uma coisa, um lugar tremendo; a Vale nesse tempo produzia… Não chegava a dois milhões de toneladas de minério. Eu fui morar lá, fui em 58 para lá. Falei: “Meu Deus do céu, o que eu estou fazendo aqui? Deixa eu sair daqui correndo.” Não dava jeito. 

Demorava sete horas, quando o tempo estava bom, para você chegar em Belo Horizonte, naquele tempo, quando chovia aí você não tinha tempo para chegar. 

A primeira vez que eu fui foi de avião como o Dr. Fonseca, fui para trabalhar em pesquisa, lembro disso perfeitamente. O presidente da Vale naquele tempo era o Dr. Lessa, que era de Diamantina. Quando eu falei com ele que eu estava trabalhando na Cesita, ele falou: “Não, você vai trabalhar na Vale do Rio Doce.” “Poxa vida. Que é Vale do Rio Doce, qual doce que ela fabrica?” Não tinha nem ideia do que era a Vale do Rio Doce. “Não, companhia de minério de ferro e tal.” Eu falei: “Ah, bom.” “Nós estamos precisando de um químico lá e você vai trabalhar com o Dr. Fonseca. Ele vai estar montando um negócio de pesquisa, você já mexe com pesquisa.” Realmente eu tinha mexido com pesquisa uns tempos aqui. “Você já mexe com pesquisa, vai trabalhar com ele, é uma pessoa maravilhosa.” Realmente, era uma pessoa maravilhosa. Mas o Dr. Fonseca foi me brigar com os políticos de lá na época e saiu, então eu cheguei em Itabira completamente perdido e mordido. 

Fui com ele a primeira vez, me deixou lá. Fui com ele de avião, fiz aqueles exames que tinha que fazer, voltei para Belo Horizonte. “Dr. Fonseca, quando o senhor volta?” “Não, eu não volto mais não. Ele era com o superintendente lá.” Naquela época só tinham três superintendentes na Vale: um da estrada, um superintendente das minas e o outro, que era o superintendente geral. Então, quem vai ser? “Quem é o superintendente aí?” “Não sei, ainda vai ser nomeado.” E realmente não tinha. Eu era nesse tempo noivo. 

Não tinha superintendente, então fiquei lá. O laboratório era uma coisa horrorosa, o negócio não tinha nem cabimento, os minérios todos... Não tinha nem capela, quando eu falei que ia construir uma capela lá o pessoal começou a ajoelhar. Falei: “Não, é uma capela para ataque de aço, não é bem por aí, não.” (risos) Foi nessa época, ficamos um período sem superintendente lá e eu perdido e mordido no meio daquilo, mas comecei fazer meus trabalhinhos. 

“Dr. Fonseca, quando é que nós vamos montar o centro de pesquisa?” “Calma, daqui a pouco eu volto para aí.” Sei que esse “volto para aí” demorou oito anos, nesse tempo. 

Eu me radiquei lá em Itabira, foi ótimo, a vida passou a ser sensacional. Eles construíram uma vila de engenheiros lá na Conceição, eu fiz um campo de areia de vôlei, porque nós jogávamos vôlei na praia, então nós [dissemos]: “Vamos fazer um campo de vôlei aqui.” Fiz um de areia porque me dava uma lembrança do Rio ainda que tinha. Foi uma vida boa, o Schettino morava ao lado da minha casa e a gente tinha uma turmazinha de dez, era uma vida gostosa lá, boa. 

Eu comecei a mexer com umas pesquisazinhas por minha conta mesmo. Fui o maior autodidata do mundo, o que não tinha eu tinha que ver e mexer. Fabricava as coisas mesmo lá, comecei a fazer a primeira parte que foi a concentração de itabirito, que fez a Vale crescer, virar esse monstro que é. Eu que sou o culpado de arrasar aquele troço todo de alta intensidade magnética, via úmida. O Carlos, um amigo meu que era engenheiro de eletricista, fez o primeiro eletroímã de alta intensidade para a gente, e eu ficava brincando com aquilo separando a sílica da hematita, fazendo a curva de uma, fazendo a curva da outra, independente do controle de qualidade que foi montado. 

O tempo passou, teve um superintendente lá que era gente boa, o major Galvão, no tempo ainda do Sá Lessa e no tempo do Juscelino. Aí o Jânio Quadros ganhou e quando ganhou ele pelejou com o Dr. Fonseca para ser o presidente da Vale. Dr. Fonseca não quis de maneira nenhuma e indicou um rapaz novo que falava várias línguas, que era muito bom; foi o maior gênio que já teve dentro da Vale, que é o Eliezer Batista. Então a Vale deu essa sorte imensa - não é que o Dr. Fonseca não tenha querido o que é foi Eliezer para a Vale, o Eliezer é que fez umas coisas maravilhosas. A primeira coisa maravilhosa que ele fez foi o seguinte: a Vale vendia dois milhões de toneladas de minério de ferro porque ela vendia por um processo onde você usava minério de ferro não pelo ferro, mas pelo oxigênio que tinha nele. Era o processo antigo de refino de aço que chamava open heart - não tem nada a ver com o coração aberto. Uma vez eu estava num congresso, então o tradutor instantâneo, quando eu falei forno open heart, ele traduziu para todo o mundo em cinco línguas forno de coração aberto, em ter nada a ver com isso. (risos) Era um forno para ser utilizado principalmente em oxigênio de minério para poder refinar aço. Mas aquilo estava acabando, começaram os fornos de oxigênio, LD etc. Já existia há muito tempo, e o minério de ferro nessa época custava onze dólares e pouco a tonelada, no início de 60, mais ou menos. O Eliezer teve a coragem de pegar o minério e gastar dinheiro moendo, você só vendia o lampe especial, era o minério grande, tinha até oito polegadas, porque precisava ter massa para poder mergulhar dentro do banho de escora para poder atingir o forno _______ - não vou entrar em coisas técnicas não.

 

P/2 - Pode entrar.

 

R - Então, era diferente, nesse forno open heart - ou Siemens-Martin, se quiser - o aço era refinado para refinar: você tira principalmente o carbono, quando você faz o [ferro] gusa. Quando reduz minério de ferro, minério vai a gusa, que é um minério impuro, cheio de carbono, então você utilizava nesses fornos Siemens-Martin…  Tinha que ter um minério muito puro, que o minério de Itabira era puríssimo. Minério de ferro o que é? É óxido de ferro, e quando era muito puro era praticamente óxido de ferro, era praticamente ferro e oxigênio, vinha umas impurezas muito pequenininhas. O minério tinha um teor altíssimo, quando eu entrei para a Vale era altíssimo; eu tinha que controlar o fósforo, ficava menos de 0,02%, o resto era puríssimo. Então o Eliezer falou: “Poxa, isso só tem um mercado muito pequeno que está acabando.” Então teve a coragem de gastar dinheiro para moer aquele minério, torná-lo menor para ir para alto forno, que era vendido por oito dólares a tonelada mas tinha um mercado grande. Ele teve coragem de fazer isso, como teve coragem de fazer uma porção de coisa, como teve coragem de fazer Carajás, fazer porto para um navio de trezentas mil toneladas que na época era muito importante, abriu o mercado para o mundo inteiro. 

Só que o minério de ferro, depois de um certo tempo foi provado que ele não era muito bom para forno, não. A hematita, que é o grosso que a gente tinha em Itabira, ele crepitava, estourava dentro do forno e desintegrava; tinha outros processos físico-químicos que aconteciam que ninguém sabia de nada disso. 

Eu posso falar que fui o primeiro sujeito que conseguiu fazer uma pesquisa sobre isso. Eu medi a crepitação de todos os minérios da maneira mais rudimentar do mundo: fiz uma caixa grande, enfiei um termopar dentro dessa caixa, peguei minério de todas as localidades, medi o tamanho deles todo antes __________ e depois ficava num forno, aquecendo. Eles começavam a crepitar, ninguém sabia a que temperatura ou não, e por barulho eu começava a ver. Estabeleci cinco padrões: papapapapapa, padrão um, papapapappapapa, padrão dois, papraaaaaaapraaaa, padrão três e assim por diante. Não tinha outro jeito, poxa; lá em Itabira, daquela maneira, tinha que usar a imaginação. 

Consegui estabelecer esse padrão e via que o minério começava a crepitar a trezentos graus e parava de crepitar a quinhentos. Os fenômenos… Não era esse só que acontecia, esse não atrapalhava em grande parte o minério, não entupia forno - pelo contrário, abria mais a superfície. Tinha outras coisas. Aí que foram descobertas outras coisas, que a 550 graus ele, principalmente, em contato com a atmosfera redutora, ia de hematita para magnetita: estraçalhava, aí virava tudo pó, a hematita. 

Aí que nós começamos a estudar isso. Eu fui estudar isso na Alemanha, junto com o Bocart que era o... É por isso que eu falo que eu sou meio autodidata, eu não ia para aprender com o Bocart, ia estudar junto com ele os fenômenos; a gente começava a ver essas coisas, então descobriram isso tudo. E então o que passou a ser o grande minério da Companhia Vale do Rio Doce? Os finos, porque os finos você podia fazer o quê? Pellet. Em pellet você podia corrigir essa desintegração dele, controlando os termos chatos, técnicos, basicidade e sinter. Estudando bem o sinter tem outra maneira de se aglomerar o minério; minério não pode entrar em pó dentro do forno,  não, ele tem que ter um tamanho certo para ter permeabilidade. 

As primeiras pesquisas foram feitas na parte metalúrgica, mas depois teve um problema grave: esse minério de alto teor começou a ficar escasso e difícil. Para cada tonelada que você tirava de alto teor, você tinha que tirar uma porção de tonelada de baixo teor que era uma rocha chamada itabirito, que é o que realmente tinha lá. Só que o fino era vendido nessa época por 5,70 dólares, posto no navio dava uma bruta margem de lucro para a Vale. Primeiro que parte do fino já tinha sido explorada; [ele tinha sido] peneirado e deixado em Itabira porque não tinha mercado. Aí o nosso geniozinho, o Dr. Eliezer Batista, conseguiu mercado para esse fino para sinterização, enxergando muitos quilômetros na frente dos outros. 

O fino passou a ter um valor grande, mas tinha o problema do itabirito. Para concentrar o itabirito... Era hematita. O mundo não estava acostumado a concentrar hematita, estava acostumado a concentrar magnetita, que é muito fácil. Magnetita é um minério que tem aos montes. Esses taconitos todos, americanos, eles passavam aquilo num separador magnético de baixa intensidade mínima, separava para um lado a magnetita, para o outro as gangas, as impurezas; moía aquilo fininho, depois fazia pellet etc. Mas no nosso caso, a hematita é paramagnética; ela não é um negócio que seja magnético. Pra você ter uma ideia, se a gente considerar o ferro sem a compatibilidade da magnetita é 46%, 40 e poucos por cento - 1,6, desculpe, um negócio assim. Da hematita é um vírgula pouco, então não há ímã que segure aquilo, tem que ter alta intensidade magnética. Existia um processo de alta intensidade magnética, mas esse processo era de difícil escala, de rotor induzido, você tinha que secar o minério completamente, tinha que pôr numa bitola. 

Nós mandamos estudar no mundo inteiro isso, mas o mais barato de todos, foi o mais barato de todos naquela época, ficou em 6,50 dólares. Ora, se você vendia um minério em Vitória por 5,70 dólares dentro do navio com essa geografia toda desfavorável, quinhentos e poucos quilômetros de distância, como é que você podia fazer isso? 

Nessa altura eu já tinha ido para Belo Horizonte fundar o velho laboratório mecânico de tratamento de minério com o Dr. Fonseca. Dr. Fonseca me chamou: “Chegou a hora, Márcio. Vamos para lá.” Aí que eu passei metade do tempo em Itabira, metade do tempo… Durante um ano ia todo o dia, ia e voltava, até eu montar um pequeno laboratório de tratamento mecânico de minério. Aí nós começamos. Meu primeiro trabalho foi exatamente: “Pô, a gente tem que conseguir uma maneira de concentrar esse itabirito.” Já existia relatórios feitos em outras firmas que a Vale tinha contratado no mundo inteiro, mas não chegava o resultado, então aí nós começamos a pensar: “Que nós temos que fazer?” Eu falei: “Temos que descobrir um processo primeiro que não seque o minério.” Porque só em secar você já gastava todo o dinheiro que tinha, tinha que gastar óleo para secar, então tem que ser úmido. Não existe processo de alta intensidade magnética úmido, não existia esse com rotor reduzido com vinte mil gauss. Para você ter uma ideia, para separar magnetita você precisa de seis de seiscentos gauss; a hematita, naquela época, era vinte mil gauss no rotor induzido, então era um processo que não ficava econômico. Existia outros processos: [espiral de] Humphreys, flutuação, mas nada disso era econômico; perdia muito, não tinha rendimento. 

Teve um professor, o professor Jones, aquele que tinha desenvolvido uma placa magnética, onde ele conseguia chegar a um campo alto e dava para trabalhar a úmido nessa placa. Fui lá conversar com esse professor Jones e vi a máquina dele. Era uma dessas trapizongas, a mais trapizonga que eu já vi na minha vida até hoje! Pla pla pluf pluf, troço de professor maluco mesmo, de dentro de laboratório. Eu falei: “Puxa, nós estamos roubados. Esse troço nunca mais na vida vai funcionar aqui. Não é isso.” 

Mas existia aquela ideia, então chegando em Belo Horizonte, eu pedi ao Dr. Fonseca… O Dr. Fonseca, com aquelas manias dele, tinha a mania de mexer com mecânica. Na casa dele mesmo, em Venda Nova, tinha um... Nessa época já tinha aposentado há muito tempo, ele aposentou logo que eu mudei para Belo Horizonte. Logo que foi criada a Vale ele saiu, foi o primeiro a sair. O Dr. Fonseca foi meu grande mestre, durante esses oito, nove anos que nós convivemos juntos, ele sempre me ensinou tudo, eu sabia o que ele sabia. E me adorava, eu também adorava o velho. 

Eu comecei a fazer umas experiências com uma maquinazinha desse tamanhinho que tinha também, passando itabirito. A gente conhecia que desde do tempo de Itabira eu já tinha separado a curva da sílica, que é a ganga de um lado, a cor da hematita da outra. Eu conheci formato, aquele negócio todo; comecei a separar e deu certo, funcionou mesmo, então houve um entusiasmo grande nesse negócio, né? Nesse tempo, na Companhia Vale do Rio Doce, quem era presidente? O Eliezer já tinha saído, quem era presidente era o Mascarenhas... Foi o Dias Leite nessa época, e eles acreditaram em mim. Falta de responsabilidade, acreditaram em mim completamente! (risos) Então eu fui para a Alemanha para construir a máquina e existia a máquina, junto com a [Universidade de] Humboldt. 

Construímos a primeira máquina. Quando nós construímos a máquina para pôr no piloto já estava no terceiro andar duma usina industrial de 28 mil toneladas. (risos) Todos ali, todo mundo no mundo inteiro disse que a Vale ia ter um montão de ferro velho lá que não existia, mas trabalhei que nem um louco nesse negócio, fiz mil modificações. Eu sei que a máquina que era para dar cinquenta toneladas/hora, passou a dar 140 e a recuperação foi [de] noventa e cinco por cento. A concentração de itabirito ficou em menos de um dólar por tonelada, então nós patenteamos isso no mundo inteiro e viabilizou tudo. Daí para a frente a Vale cresceu que nem um foguete porque o mercado inverteu: o que valia era fino, o itabirito só dava fino, não precisava moer, então passou-se a acreditar em tecnologia.

 

P/1 - Nesse momento que passou a se acreditar em tecnologia?

 

R - Acredito que sim, viu? Quando eu mudei para Belo Horizonte eu acreditava piamente nisso. Meus amigos todos: “Daqui a uns três meses você está voltando para cá.” Não, fiquei lá. 

Foi um grande centro de tecnologia,  líder metalúrgico. Foi verdade, realmente foi um grande centro. Mas nós fizemos coisas no Brasil inteiro, em tudo quanto é lugar, atuamos em todas as partes do Brasil, Carajás e outras partes todas, junto com a Docegeo [Rio Doce Geologia e Mineração S/A]. Tinha usinas piloto no meio do Amazonas, os lugares mais incríveis do mundo. 

Teve um lugar lá que eu fui uma vez, passei uma semana lá; tinha tanto pernilongo, pernilongo sem educação, sem a menor noção de horário. Pernilongo que se preza tem um horário para atacar, depois de cinco horas da tarde; esse atacava o dia inteiro. Chegava lá… O negócio é lá em Berenice. É um lugar que você descia o Amazonas num barco que fazia um barulho desgraçado, um popó popopopopo, de vez em quando queimava sua mão toda. Você bobeava, encostava na chaminé… E depois subia um barranco muito bonito, você empurrado pelos mosquitos, né? (risos) Eu ia dormir - dormir não, ia passar a noite em insônia com roncos porque todo mundo dormia em rede, uma rede que se fechava assim para não entrar mosquito, tinha um véu em cima. Quando entravam os mosquitos lá era uma desgraça. Você punha esse matador de mosquito, repelente, eles iam lá comer com repelente. Achavam que estava temperado, que era mais gostoso ainda. (risos) 

Mas lá tinha uma usina piloto nossa também, junto com o pessoal da Docegeo para pesquisar um tipo de bauxita refratária, minério de alumínio. E assim foi em vários lugares, então nós atuávamos em vários cantos: em Minas e Araxá para titânio, fosfato, na Amazônia para uma porção de coisas, no Nordeste para outras coisas. 

Então teve uma época que realmente tinha um espírito muito grande de você acreditar no país, e levá-lo para a frente. E uma das coisas que me fez ficar na Vale do Rio Doce é que a gente estava trabalhando - não sei nem se devo falar isso -, que a gente estava trabalhando era para nós todos. Eu tive vários convites para sair da Vale, ir para outros lugares, mas nunca saí. Ficava lá mesmo porque estava trabalhando para um país, coitado, que estava precisando de muita gente que trabalhasse por ele; um país que tem um bom potencial, mas [que] precisa de gente que acredite nisso. Então não saí. Deixei de ser rico, fiquei pobre a vida inteira, mas fiquei muito feliz. 

Quando me aposentei na Vale eu fui trabalhar em pesquisa também. Fui convidado pelo governo de Minas - quer dizer, não fui convidado, entrei na lista tríplice para ser presidente do Centro de Pesquisa de Minas Gerais, que é o segundo maior do país. O primeiro está em São Paulo, é o IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas], o segundo é o Cetec [Centro Tecnológico de Minas Gerais]. E fui para lá, só [que] aquilo lá era completamente diferente da Vale. A Vale era minério-metalúrgico, principalmente; lá era tudo, desde alimento até a parte mineral, então uma tecnologia… Isso também era interessante porque depois também fui trabalhar no outro, acumulei… 

Depois de um ano fui para outro, que é o Instituto de Geociências. Esse instituto é interessante também porque ele fazia plano diretor de cidade, mapeamento de tudo. Foi um desafio danado, desafio que me deu o meu primeiro enfarto. (risos) Depois eu não aguentei, aí tive que sair fora, mas nessa época eu já era do conselho da Docenave. Só saí quando a Vale parou de ser do governo. Achei que estava na época realmente certa de sair, então quando eu saí também, pedi minha renúncia. Foi muito gozado esse negócio da renúncia porque eu não sabia para quem ia pedir renúncia. Quando era do governo a gente ia lá para pedir renúncia para o pessoal do governo. Eu falei: “Poxa, nem parece que tem dono, né? Para quem que vou pedir renúncia?” Logicamente pedi renúncia para não ser expulso. (risos) 

Conversei com o Schettino. O Schettino falou: “Pede renúncia não, rapaz. Põe o seu cargo à disposição.” Falei: “Conselheiro não põe cargo à disposição, Schettino. Conselheiro pede renúncia.” Então para não ser expulso pedi ao Marreco renúncia. “Pô, mas logo a mim?” Falei: “É, você é o presidente do conselho, tem que ser você.” (risos) 

Mas dentro da Vale eu tive imensas alegrias. Não posso dizer que o _____________ foi… Pelo contrário, eu fui muito reconhecido, ganhei vários prêmios. Ganhei três vezes um prêmio que acho que ninguém nunca ganhou três vezes, o Prêmio Nacional do Invento, um prêmio do governo do Estado de São Paulo.

 

P/1 - Com quais inventos?

 

R - Eu fui com três: com um que é um produto de poluição que eu desenvolvi, o outro foi concentração de titânio, que também foi uma coisa que eu desenvolvi sozinho, e o outro é uma maneira de você aglomerar minério de ferro sem poluir, então...

 

P/1 - Conta um pouquinho sobre os seus três inventos.

 

R - Eu tenho mais de cinquenta. Eu esqueço, tem no mundo inteiro.

 

P/2 - Tem lugar das patentes. 

 

R - Tem dado pela Rainha da Inglaterra -  nem guardo disso não, lá na Vale deve ter isso tudo. 

Tem vários inventos. O principal para mim foi a concentração de itabirito, que fez a Vale explodir. Na época foi considerado… No começo, todo mundo meteu o pau, dizendo que o Brasil ia ter um monte de ferro-velho. “Quem são esses índios aí para se meter a fazer isso?” Depois o mundo inteiro escreveu a favor: “Poxa, é isso mesmo que eu pensava.” Esse eu achei que foi realmente o mais importante de todos, o mais corajoso. Coragem enorme do Dias Leite, do Mascarenhas. 

 

P/2 - Depois desse resultado é que a empresa passa a investir em pesquisa, entende o valor da pesquisa?

 

R - Eu acredito que sim, ela passou a investir muito em pesquisa. Eu tive um laboratório - um laboratório não, um centro de pesquisas maravilhoso. Realmente, era considerado o melhor do mundo na época para a parte mineiro-metalúrgica. Era… Tem aquele folhetinho __________ que eu trouxe, está no meio dos retratos, dá para ver o que é. Não sei hoje como está.

 

P/2 - Era o CPM?

 

R - Não, não era o CPM. CPM foi interior, era Superintendência de Tecnologia.

 

P/2 - No quilômetro quatorze?

 

R - É. Começou, como eu falei, naquele laboratoriozinho de tratamento mecânico de minério de ferro, foi expandido com projetos. No final nós tínhamos um mundo de projetos espalhado pelo país inteiro, todos esses projetos promissores tecnológicos. Mas eu não… Minha vida era aquilo, sempre foi isso, porque apesar de mexer com gestão, eu mexia muito com gestão de tecnologia, acumulava uma porção de cargos. 

Eu era da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas], fui durante anos presidente do conselho de mineração da ABNT. Era um negócio, naquela época eu punha para valer mesmo porque aquilo era importante, era duma importância imensa. O pessoal não dava importância, mas era duma importância enorme. Você nem imagina o que a normalização é importante, sem normalização não existe nada. Era importante para ganhar dinheiro também, para uma porção de coisas. 

Tem um caso que eu acho muito interessante, que não tem nada a ver com minério de ferro... Não sei se eu estou divagando muito, estou?

 

P/1 - Não, pode ficar à vontade.

 

R - Tinha a ver com normalização. O grupo de normalização do café estava discutindo sobre nomenclatura. Já viu coisa mais besta que nomenclatura? Qual a importância que tem a nomenclatura do café solúvel para o Brasil? Pois bem, quando está se discutindo nomenclatura, esse pessoal que entendia muito de normalização, o grupo brasileiro, eles estavam insistindo para que café solúvel fosse um produto feito unicamente de café. O resto do mundo, fora os produtores de café, estão falando: “Não, café solúvel é um produto feito essencialmente de café.” Muito bem, não passou isso, ficou um produto unicamente de café. Se passasse isso o Brasil ia vender cinquenta por cento a menos de café, porque essencialmente você põe mais um pouquinho de café e põe outras coisas no meio, unicamente de café, só pode entrar café em café solúvel. 

Também para minério de ferro tem muitas coisas assim. Eu não vou entrar nesse pormenor, mas tem muitas coisas que eu lutei tremendamente por isso, que pareciam coisas bobas, mas que representavam um mundo de dinheiro a mais. Se eu não lutasse por isso… Mas é muito importante, [tem] uma importância imensa também essa parte. Outras também, uma série de editais, tinha a ABIPT [Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação],  que era a entidade que vê todos os centros de pesquisa governamentais do país, fui vice-presidente da ABIPT também, e de uma série de outras coisas aí que não eram importantes, o que era mais importante mesmo era a gente lutar por aquilo que estava com a mão em cima. Então, como eu falei, foi muito bom.

No ano em que eu saí da Vale, fui agraciado com uma coisa ótima, fiquei muito feliz. Foi votação - o anterior tinha sido o Dr. Eliezer, parece que só teve dois desses -, fui a personalidade especial do ano pela revista Brasil Mineral. Mas aquilo é votação, tem dois… Eu juro, dou minha palavra de honra para vocês, eu não sabia que eu estava concorrendo. E são dois turnos, então naturalmente o pessoal foi avisado depois que eu tinha sido eleito no segundo turno. Eu fiquei competindo com uma pessoa muito gente boa que eu não vou falar o nome e ganhei. Foi no ano que eu saí da Vale e foi muito bom. No ano que eu aposentei, aposentei com a maior honraria que podia esperar, ser personalidade num ano especial. Claro que a gente sempre é reconhecido por outro Estado, por São Paulo, recebi uns premiozinhos de Minas, mas todos eles pequenos. Os grandes mesmos foi de São Paulo, mas tudo isso aí foi muito bom. 

Para mim as recordações todas que eu tenho da Vale são boas, são recordações boas de coisas, de você poder ter feito. No Cetec também foi bom; eu saí do Cetec porque eu estava que não aguentava mais o Cetec e o IGA. Não terminou meu mandato lá, tive um enfarto, aquilo lá era um inferno. 

O Cetec e o IGA, quando eu acumulei os dois era demais. O outro coitado que saiu do IGA [Instituto de Geociências Aplicadas], ele saiu quase louco. Eu acumulei os dois negócios. 

O IGA é mais velho que Belo Horizonte, mas é o que faz os planos diretores das cidades do interior, mapeamento - Instituto de Geociências Aplicadas. E o Cetec, sozinho, já era muito difícil; o governo sem dinheiro e você ter que pegar aqueles pesquisadores, com toda a razão, de altíssimo gabarito, ganhando pouco. E davam a almas deles mesmo por aquilo, então era difícil. 

Nessa época… Renunciei também. Renunciei, senão ia morrer. Ainda aguentei uns tempos lá, saí. Eu escolhi até o sujeito que ficou lá, um cara muito bom. Mas fiquei na Docenave ainda, fiquei vindo para o Rio; tinha contato com o pessoal todo, era bom - no conselho, é claro. 

Hoje é totalmente diferente. Mexo ainda com pesquisa, tenho uma patente que fiz agora com o meu filho para a parte de ecologia, está dando o maior negócio, que eu estou reciclando tudo quanto é coisa desses fornos e transformando isso tudo numa matéria-prima. Eu e ele trabalhando juntos. Meu filho é cientista, bom cientista, com formação muito boa na França, não foi como eu, autodidata. (risos) Ele montou a firma dele e nós estamos trabalhando numa coisa que eu adoro, que é combater esses problemas todos que foram precisos numa determinada época, mas é a parte ambiental. Eu estou fazendo um negócio hoje sensacional, fica mais barato reciclar aquelas porcarias todas que estão poluindo o mundo, voltar com elas para o forno e dá um resultado muito melhor do que você ‘coisar’ um material novo que vai te dar as coisas. Então se você pensar um pouquinho e querer, olhar com boa vontade…  Você tem muita ganância, às vezes tem lucro com isso; [se] você não olhar só o dia a dia… 

Aqui para nós [é] muito fácil no Brasil, porque infelizmente o Brasil é um país que ainda é terceiro mundo então está tudo por ser feito. Não devia ser, mas infelizmente ainda é por uma série de motivos que vocês todos sabem muito bem. Tem coisas aí que podem ser feitas. 

Uma das coisas que eu desenvolvi acabava com toda essa mortandade de peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas, acabava com a chuva química no mundo, acabava com esse negócio todo. E eu fiz para isso. Foi quando eu ganhei o segundo prêmio do governador do Estado de São Paulo. A Vale perdeu essa patente, mas ela está toda dentro da minha cabeça, eu sei fazer isso tudo de novo. É um produto que custa 230 dólares, quando tem aos trilhões uma matéria-prima para isso aqui. Custa 2300 dólares, existe similar, mas tem trilhões de matéria-prima jogada fora. Você pode fazer isso na base de trinta dólares; fazendo na base de trinta dólares dá para você despoluir o mundo. 

Eu pretendo ainda, se eu tiver vida… Falando com o meu filho, eu não quero fazer para ninguém ganhar dinheiro não. Eu quero fazer para entregar para todo o mundo usar, pôr na internet para todo o mundo ver como é que faz, porque não é só aqui no Brasil que tem, tem no mundo inteiro. Ninguém mexe com isso, é jogado fora, e o tratamento é um tratamento bobíssimo que transforma isso no maior absorvedor mesmo, que é chuva química principalmente. Tem outras coisas: é que o mundo inteiro queima óleo, queima carvão, queima tudo. Todos esses produtos têm enxofre. Quando queima, você normalmente tem 93% de SO2 e 7% de SO3, mais água, chuva, então dá H2SO4, ou seja, chove ácido sulfúrico. Esse meu produto sequestra enxofre de qualquer coisa, o que mata peixe, lagoa, rio, o inferno a quatro é o produto mais venenoso do mundo - H2S, aquele negócio que tem cheiro de ovo podre, gás sulfídrico. O gás sulfídrico é muito mais venenoso que cianeto, é muito mais venenoso que SO, ele combina com o sangue e forma a sulfonoglonobina que é totalmente irreversível, então a pessoa morre. Quando a pessoa morre afogada normalmente numa lagoa aí pensa que morreu afogada por... Para mim morre afogado pelo seguinte: quando ele pisa no lodo da lagoa dizem que [foi] o lodo que prendeu. Não, tem metano, gás sulfídrico, que é pesado, fica preso embaixo. Ele pisa, solta um bolsão de metano, sobe junto com a pessoa o metano e o gás sulfídrico; ela respira aquela porcaria e apaga. Não morre de imediato não, apaga e morre afogado. Ele morreu porque o que o matou foi gás sulfídrico, se ele respirar o gás sulfídrico ele morre. Depois de certo tempo ele não sente mais aquele cheiro horrível de ovo podre que destrói as fossas nasais, destrói todas as partes. 

Esse produto sequestra gás sulfídrico, SO2, SO3; tem a capacidade de absorver isso tudo transformando num outro mineral, que é totalmente insolúvel e que você pode reciclá-lo novamente, aproveitar todo o enxofre que tem nisso.

 

P/1 - Aproveitar o enxofre ainda.

 

R - Aproveita que tem isso e volta com ele novamente. 

Tem coisas incríveis aí que a gente nem pensa, então dentro dessa parte de meio ambiente, de ecologia, eu acho que ainda dou minha parca contribuição. Ainda tento falar com meu filho e ele gosta também disso. Os outros não gostam, faz tempo que eu não estou falando para ele que eu pretendo dar isso para todo o mundo. (riso) Eu acho que umas coisas dessas você não tem que… Não sei se eu estou velho, ou talvez eu nunca tenha sido ganancioso porque eu fui muito rico quando era garoto; meu pai era muito rico, então eu era muito rico, eu não tinha problema. Morava no Leblon, tinha MG, Jaguar XK. Depois eu fiquei pobre, fui para Itabira, fui normal como os outros todos e tal, então nunca vi nada que pudesse trazer mais felicidade na vida do que você ter determinadas coisas internas. 

O dinheiro para mim é qsp, aquele termo final da bula dos remédios que falta para completar, você precisa… Não sei plantar, mas não precisa de muito. Nem é bom que tenha muito, precisa do suficiente para você poder viver. 

Outra coisa muito importante é você não depender de absolutamente nada e não ter rabo preso, mas isso aí é normal, e eu não sou ladrão, então eu não faria nunca uma negociata na minha vida. (risos) Acho que o cara, para ser ladrão, tem que ter uma capacidade fora do comum. Deve ser difícil, porque aguentar a consciência dele deve ser dureza, então para mim essas coisas... Por isso que o tempo todo que eu estive na Vale eu nunca me preocupei de usufruir nada daquelas coisas que eram desenvolvidas, eu estava criando aquilo para todos. Isso era a coisa que... Eu, logicamente, usufruía da melhor coisa do mundo, ter satisfação de ver alguma coisa funcionando. Depois, também, você perde todo o interesse, depois não tem mais interesse, da mesma maneira que hoje eu estou pintando um quadro: eu fico louco para pôr aquela ideia para fora, quando eu acerto estou pouco ligando se vou vender ou não vou vender. Pelo contrário, não quero vender, eu dou. Tem fila de gente querendo meus quadros lá, sai, vai indo, mas é por isso, porque você se sente bem, você se sente maravilhosamente bem. 

Hoje eu não tenho um vassa laboratório, se tivesse um vassa laboratório seria muito bom, né? Não tem. Como se pode dar vazão à criatividade? Tem que apelar para essas coisas, para esse processo que eu estou falando, de reciclagem. É lógico que teve que unir com outras companhias; as companhias querem ganhar dinheiro. Muito bem, eu não quero ganhar nada, quero só contribuir com minha parte, deixa meu filho ganhar que ele preciso viver. Mas para você criar umas outras coisas, seja pintando, esculpindo ou fazendo qualquer coisa que te dê vontade, você está pondo para fora uma coisa muito importante, sua criatividade, senão você fica maluco. (risos) É uma necessidade existente. 

Puxa, eu estou falando besteira sem parar. (risos)

 

P/1 - Bom, mas conta como é que surgiu a pesquisa. Como é que surgiu a possibilidade de ir para essa área e trabalhar?

 

R - Na minha vida? Eu acho que desde pequeno. A primeira pesquisa que eu fiz foi uma pesquisa que devia ter sido feita em Portugal. Quando eu tinha dois anos, tinha um terraço lá em casa, no Leblon; mamãe falou para mim: “Olha, sai daí senão você cai e quebra o osso.” Eu subi lá em cima e joguei um osso de galinha embaixo. Olhei o osso de galinha e não tinha quebrado. Pulei lá de cima e quebrei o braço, quase morri. Não morri porque bati no limoeiro antes. (risos) A primeira pesquisa que eu fiz foi essa. O importante da pesquisa é você ver que ela dá errado também, viu? É muito importante, se desse só certo... (risos)

 

P/2 - Mas e quanto à química?

 

R - Meu pai era industrial, e como eu falei para vocês naquela época usava química industrial, era muito importante para pesquisa, então não representou nada na minha vida. O que representou para mim, a principal universidade que eu tive, foi a universidade do Cauê, em Itabira, onde eu não tinha nada para trabalhar e tive que inventar tudo para poder fazer meu laboratório. Os laboratórios maravilhosos, tinham milhões de espectômetros, espectógrafos, microssondas e tudo, mas o pessoal, coitado, eles precisavam de todo esse troço para trabalhar. Eu trabalhava una e exclusivamente com a cabeça, com mais nada, e o kit que eu precisava para medir eu tinha que inventar, lá no meio  de Itabira, um forno que tinha lá na mecânica, fazia caixa, essas coisas. Aí é que surge realmente a criatividade, que você pode, você vai desenvolver essas ideias quando você não tem nada. A grande universidade minha foi a universidade do Cauê de Itabira, essa que realmente… O resto é nada, deu no mesmo. 

Os princípios básicos… Primeiro porque eu nunca fui um aluno brilhante, achava aquilo muito chato. (risos) A fábrica do papai era vinte por cento minha, 80 [por cento] dele, era bom assim. Depois disso nada tinha retorno, esse é um passado que eu não gosto nem de lembrar.

 

P/1 - E então na Vale, como é que foi esse convite para ir para a Vale?

 

R - Como eu contei para vocês, eu tinha primeiro numa outra companhia, e o Dr. Lessa era o presidente da Vale, e o Dr. Lessa era padrinho da Sueli, de Diamantina. Eu fui com o meu sogro visitar o Dr. Lessa, que eu chamava de Chiquinho Lessa, mas aqui eu estou chamando de Dr. Lessa. Chegou lá e tal, perguntou aonde eu estava indo. Eu falei: “Estou saindo daqui e indo lá para Minas.” “Para onde você vai?” “Companhia tal tal.” “Não, de jeito maneira. Você vai para a Vale do Rio Doce, porque a Vale do Rio Doce, tal, tal.” Eu, palavra de honra: “Qual doce que vocês estão fazendo lá?” (risos) Não tinha a mais pálida noção, um garoto aqui do Leblon, né? “Qual doce que vocês estão fazendo lá na Vale do Rio Doce?” Depois me tornei esse cara abnegado, franco, completo dela, que dava a vida pela Vale do Rio Doce.

 

P/2 - E as patentes na empresa, quer dizer, é...

 

R - Ela que fez bom proveito delas. (risos)

 

P/2 - Então você estava ali desenvolvendo pesquisas, inventos em função do trabalho em si, e isso era encaminhado para patente por interesse da própria empresa ou...

 

R - Não. O inventor é sempre aquele que inventa, mas quando você… Toda a patente que eu fiz para a Vale, tudo que eu inventei para a Vale, eu assinei um termo doando tudo para ela. Esse primeiro prêmio que eu ganhei, o primeiro prêmio de todos que teve, foi pela primeira vez que foi concedida uma patente no Estados Unidos -  porque ele não concede patente de maneira nenhuma -, dum troço que eu tinha inventado. Eles fizeram várias comissões. Foi no tempo do Figueiredo, depois a comissão resolveu me dar um prêmio, aí resolveram que o prêmio seria um ordenado do presidente. (risos)

 

P/2 - O importante é que...

 

R - Mas nunca me importei com isso, nunca dei a menor bola para isso aí, nada, mas...

 

P/2 - A propriedade intelectual é uma coisa importante para a empresa assim como para o próprio inventor, né?

 

R - Eu já te falei, eu gostava muito de fazer, depois que fazia não tinha mais a menor importância, esquecia aquilo. Deixa para lá, vamos partir para outra. Na hora não, dava a vida para aquilo sair, depois não tinha mais grandes problemas. É como um quadro: você pinta um quadro, na hora você acha que é formidável, depois que pinto, acabou, pronto. Você expôs toda a sua alma naquilo, foi aquele momento. No meu caso, eu tento muito mais esse sentimento que qualquer coisa. 

Eu também tenho figurativo de vez em quando, eu gosto muito mais de pintar sentimento. Você tem que ter o sentimento, por isso não é sempre que eu gosto de pintar. Às vezes me dá… Eu passo meses pintando quinze, vinte quadros grandes; gosto de pintar quadro grande. Pintar aquarelinha, essas coisas assim, é uma norma, muita técnica, muito tempo; você fica muito limitado - se bem que eu não fico, né, não dou bola. Mas nos quadros grandes, você joga a sua alma ali dentro daquilo.

 

P/2 - Qual técnica que o senhor usa?

 

R - Eu pinto em várias telas. Eu pinto óleo, pinto acrílico, que eu descobri agora, tive que entrar para uma aula para… Eu estudei durante uns tempos com uma pintora boa de acrílico, pinta aquarela. Eu gosto mais de acrílico, acrílico é mais rápido.

 

P/2 - Seca mais rápido.

 

R - É. Óleo é mais fácil do que acrílico, óleo... Eu não gosto de consertar tela, tem que sair aquilo que você está pensando, quando você está sentindo. Mas nesse momento, quando tem que estar trabalhando, que tem que desenvolver esse projeto, eu tenho que usar toda a minha criatividade para isso. Eu não estou pintando, então tem problemas a serem vencidos; eu penso dia e noite neles, ainda. Depois aparece, é uma coisa engraçada; surge do meio para o nada, umas coisas sem forma e você vai chegando naquilo. Você consegue ver. 

 

(PAUSA)

 

R - Tem parte muito interessante, por um lado fala bem com a história de Minas, porque o meu tetravô era o Barão do Serro. O irmão do Barão do Serro, Padre João de Santo Antônio foi que criou os dois filhos do Petigliani. Os dois filhos do Petigliani depois tomaram o nome de Pinheiro, então foi o João Pinheiro que foi o mais conhecido de todos. Foi governador de Minas, naquele tempo tinha presidente de Minas, o que gerou essa família Pinheiro toda que tem, e que eu fui herdar. O último dele foi Paulo Pinheiro que foi trabalhar comigo, então falei: “Paulo Pinheiro, você vê uma coisa só: sua família vem me amolando há anos, né? (risos) Meu tio é que criou seu bisavô.” 

Israel Pinheiro foi presidente da Vale do Rio Doce, Israel Pinheiro era também filho desse homem. Então minha família foi culpada disso tudo; se não fosse o Padre João de Santo Antônio, que era irmão do Barão de Serro que criou os dois, não teria isso. Tem uma coisa muito engraçada. 

Do outro lado tem o Barão de Araçuaí. Esse Barão de Araçuaí foi onde o velho Jardim, Catão Gomes Jardim I, que era meu bisavô, foi para Diamantina fazer um trabalho de engenharia, [se] apaixonou pela filha do barão, pela baronesa e casou, teve doze filhos. Um deles foi o Dom Serafim Gomes Jardim, arcebispo lá de Diamantina que ficou famoso em tempos de Juscelino, que era irmão do meu avô. O meu avô era livre pensador e ele, religiosíssimo. Tem até um caso muito engraçado: os dois tinham um amigo de infância que também era livre pensador por causa de Benjamin Constant, desse pessoal todo que era professor deles lá no IME [Instituto Militar de Engenharia] - e vinham, depois voltaram para... No começo estudavam todos na Europa, mas depois, já na época do meu avô, vinham a cavalo para o Rio e estudavam aqui. Mas tem esse caso, acho muito interessante: meu avô como livre pensador e metade da família supercatólica - minhas tias, irmãs de caridade, minha mãe catolicíssima, outros, a outra metade, livre pensadores. Mistura danada. 

Tinha um amigo deles que eu esqueci o nome, não lembro mais… Meu avô, o apelido dele era Catãozinho e tinha o bispo - era o Dom Serafim, que a gente chamava de bispo -, [que] resolveu ir lá e conversar com ele. Ele estava morrendo, estava passando mal, nas últimas. Falou: “Oh, fulano, vamos deixar agora dessas coisas, dessas veleidades. Entrega a sua alma para Deus.” Ele virou para ele, falou: “Fifi,” - era o apelido do Dom Serafim - “vai converter Catãozinho.” E morreu. (risos) 

Mas muito engraçado foi quando o Marechal Rondon fez noventa anos. Meu avô morava na minha casa. Depois que minha avó morreu ele foi morar lá na minha casa, ele era o meu padrinho. Eu o adorava, tinha aquele jeito de falar dele, um homem de uma integridade fora do comum. Quando Rondon fez noventa anos ele resolveu telefonar para o Rondon; tinha milhões de anos que eles não se vinham,  aí meu pai fez a ligação. Tossiram meia hora os dois até que conseguiram se reconhecer, meia hora depois. 

Rondon para o vovô: “Ô Catãozinho, como é que vai o Vaca Brava?” “Aquele menino já morreu há uns quarenta anos.” (risos) Devia ser um colega dele lá ____________. Então tem coisas muito engraçadas nisso. 

Meu avô, com aquela integridade absurda dele, ele que fornecia os lotes de diamantífero. O pessoal passando uma miséria, a gente imaginou engenheiro, o governo…  Ganhava uma miséria com filharada danada, [mas com] integridade total, né? Eu tenho um tio que quase morreu de raiva, ele descobriu um terreno diamantífero ótimo lá e foi querer registrar: “Não, você é meu filho. Não pode.” Aí um mágico que estava lá em Diamantina registrou, ficou um dos caras mais ricos. (risos) O Paulo morreu numa pobreza tamanha, coitado, e quando morreu eu estava até aqui na Vale. Ele estava morando com minha mãe lá, tadinho, sem nada, aposentadoria vagabunda. Essas coisas são muito engraçadas na vida.

 

P/1 - A família deixou objetos? Essas coisas ficaram, nem isso?

 

R - Tem essa medalha que eu passei para meu filho no dia que ele [se] formou.

 

P/2 - Conta a história da medalha.

 

R - Essa medalha foi o primeiro trabalho da engenharia de minas feita no Brasil, foi em 1831, no ano da abdicação de D. Pedro I, veio por passando e chegou comigo, então no dia em que meu filho se formou em engenharia de minas eu passei para ele, falei: “Daqui para frente você fica com ele.”

 

P/2 - Foi dado a um avô seu que ainda...

 

R - Foi dado a um ancestral, meu tataravô, e foi passando.

 

P/2 - Mas por que ele ganhou essa medalha?

 

R - Porque ele fez um trabalho de engenharia de minas, foi um dos primeiros aqui. Deve ter sido alguma coisa importante na época, tanto que o imperador deu uma medalha bonita, uma medalhona grande. pelo negócio desse trabalho. Isso assim da família… Tem um retrato do barão que ficou com minha prima, que eu não sei até hoje… Entrou no Barão de Araçuaí, ele descobriu num sótão lá em Diamantina, levou e tem. As outras recordações que a gente tem são todas contadas de boca a boca ou em então em árvore genealógica. Tem uns chatos que gostam de fazer isso, então a gente fica sabendo porque vê. 

Outro dia eles me pediram para eu pôr a minha parte lá. Eu não pus nada, falei: “Não, chega disso. Para de querer remoer… Vamos ver a vida pela frente e parar com isso.” Primeiro que toda a monarquia e toda a nobreza que existia era napoleônica. D. Pedro não dava continuidade, não havia hereditariedade; era só um nobre aquele que era nomeado, o descendente não, então [é] besteira, não tem sentido. Se for olhar eu tenho de tudo quanto é lado, outro lado do… Só cito os Avoencos): Barão da Catta Preta, Barão de Araçuaí, Barão do Serro, os Caldeira Brant todos,  são todos parentes nosso. Que vale isso? 

Os Mata Machado, o conselheiro Mata Machado, porque minha mulher é minha prima também, foi o homem mais rico do Brasil na época dele. Um sujeito importante, com uma importância imensa, no entanto os filhos foram os mais pobres de todos que existiram - eu conheci um, o Raul. O Raul era um filósofo, morava num barraco perto da BR-3, era o único do partido do Washington Luís ainda naquela época. No entanto foram todos criados, educados na Europa. A avó da minha mulher, que era filha do conselheiro Mata Machado, coitadinha, o marido dela também era Mata Machado. Esse negócio de casar primo com primo dava louco ou então superinteligente, era uma coisa terrível. Dizem que Mata Machado quando nasce você joga na parede: se grudar é louco, se cair no chão é gênio. (risos) Teve até um verso que eu acho interessante: “Dizer que um Mata Machado louco ficou…” Não é isso não, eu esqueci. Eu sei que o negócio é o seguinte: “Dizer que um Mata Machado ficou louco é bobagem, tem que dizer apenas que piorou”, uma coisa assim. (risos) Mas são todos poetas, uns poetas ótimos - Edgar da Mata Machado era um... Eu fui numa entrega agora dum livro publicado sobre ele, um poeta simbolista ótimo, tem uns versos maravilhosos. É uma família muito ligada a essa parte de poesia, de literatura, que se cultivava antigamente. Você não tinha muita coisa, tinha uns... Eram muito educados, então...

 

P/2 - Quantos filhos o senhor tem?

 

R - Tenho três filhos e cinco netos, um fazendo vestibular esse ano para medicina. Tenho um filho, que é esse que eu te falei que é engenheiro de minas, mas tem mestrado e doutorado também. Tem outro que é médico, mas também é cirurgião plástico. Fez três anos de pós-graduação, mais três com o [Ivo] Pitanguy aqui. 

E tem uma outra filha que também está querendo virar cientista. Ela tem uns três cursos, agora está fazendo mestrado em Genética. O marido dela também mexe com isso, é médico, então são pessoas… A minha filha, boa que nem  ouro. Dependendo do estudo, se preocupa muito mais com os outros, contudo - até me comove isso. 

Essa semana eu passei embrulhando mais de mil saquinhos com uma porção de coisinhas dentro, pirulito, chocolate, ovinho e tal, porque ela todo o domingo vai para uma favela mais miserável do mundo, que tem em Belo Horizonte. Tem favela miserabilíssima, onde o marido dela atende de graça. Ela distribui lá comida que eles preparam na casa dela. E agora que vem a Páscoa para aqueles meninos miseráveis, morrendo de fome, ela vai lá. E esse Fábio, esse amicíssimo meu, que foi superintendente da Vale do Rio Doce, também vai. 

Uma coisa que eu achei muito boa foi [que] minhas netinhas estão consumistas demais. Umas gracinhas, uns amores, mas incrivelmente consumistas, então as levou lá e viram o que é uma pobreza. Sabe o que elas fizeram? Eu achei tão bonitinho. Elas pegaram todas as Barbies dela, tinham milhões - eu tenho dois netos que são franceses, nasceram na França, Aluísio e Bernard. Pegaram tudo aquilo - os pais viajam, dão muita coisa -, todas as Barbies, todas as bonecas, foram lá e levaram tudo para a favela. Eu achei isso superbonitinho e achei bom para eles, para eles verem a vida como realmente é, para não ficar só no consumismo, o que é uma coisa ótima. E esse meu neto mais velho, que é meu afilhado, que eu adoro, agora está ótimo. Ele estava malandro de marca maior, mas agora virou budista adolescente. É ótimo quando vira budista, tirou aquela porção de prego que ele tinha no nariz, na orelha, no peito, aquele troço todo. Está ótimo agora, prestativo. Ficou sensacional. Está estudando toda a vida, é uma coisa ótima, me dá lição de moral: “Vô, você está sendo está sendo extremamente consumista.” Ele era o maior consumista do mundo, cada vez que eu viajava ele pedia o mundo, tudo para trazer. (risos) “Que é isso, você não precisa mais que uma coisa para te cobrir, nada mais do que isso.” “Está certo, Léo. Eu concordo com você plenamente.” Daqui um pouquinho passa também isso. (risos) Podia ficar pelo menos até passar no vestibular budista.

 

P/1 - O seu filho engenheiro de minas não foi para a Vale?

 

R - Ficou na Vale muito tempo.

 

P/1 - Ah é, trabalhou na Vale.

 

R - Trabalhou na Vale muito tempo. Eu fiquei uma fúria com ele porque ele saiu da Vale, mas ele chegou para mim e falou: “Papai, eu estou há doze anos. Tenho doze anos de formado, seis de PHD e sou aqui seu filho ainda, sabe? Se eu não sair daqui eu vou ficar eternamente seu filho.” “Mas agora, nesse desemprego desgraçado, cara. Tem paciência.” Isso aí tem uns dois anos ou três anos. Falou: “Papai, a gente tem que ter coragem na vida. Eu acredito em mim. E tem outra, não quero emprego, vou trabalhar por conta própria.” 

Abriu essa firma dele, está se arrebentando, se virando. Está indo, e o velho alquebrado pai aqui dá uma mãozinha. (risos) Mas está indo, está lá fazendo os projetos dele, mexendo com essa área de meio ambiente e também outros projetos. Ele faz muita coisa para o exterior.

 

P/1 - Fiquei com uma curiosidade nessa coisa da pesquisa na Vale. Como era a demanda disso, quem solicitava a pesquisa? Era uma coisa que surgia do próprio centro? Como é que...?

 

R - Quando fui superintendente de pesquisa, eu quis fazer um negócio mais organizado, então fiz um plano quinquenal de pesquisa, onde todo mundo da Vale e da subsidiárias participavam. Era participativo. Nós tínhamos um grupo que conversava com todos e todos davam aquele negócio que eles queriam participar, que eles precisavam que se participasse, precisavam que se visse. E nós então fazíamos um plano, que depois era julgado e via-se orçado aquele plano. O plano era revisado ano a ano, ano a ano esse plano quinquenal de tecnologia era revisado. Não sei como está isso, nem sei se existe mais.

 

P/1 - Mas quando você estava lá isso funcionou?

 

R - Funcionou, pode separar essas coisas você tem que ter… Uma parte muito importante, você não pode desanimar; você não pode ficar esperando que as coisas caiam do céu. Você tem que ir atrás, tem que ser humilde. Você tem que procurar, tem que... Então não é culpa de ninguém, se for conversar de medicina com alguém que seja especialista em medicina eu não vou entender nada, vou achar que o chato falou um bando de besteira. Você é um leigo, nessa eu... Normalmente na operação ninguém quer nada mais que a rotina, que realmente o que faz as coisas andarem é a rotina. Você propõe mudanças; existe uma reação muito verdadeira, contrária a isso, então a gente tem que estar cônscio dessas coisas todas. 

Uma coisa na minha vida que sempre me norteou muito é o seguinte: eu todo dia fazia de manhã uma meditação e procurava saber meu grau de ignorância em determinado assunto que eu estava trabalhando, e ficava horrorizado com o meu grau de ignorância em cima daquilo. Imagine os outros: você vai chegar para eles, ver o que eles precisam. Os outros se sentem até constrangidos porque não querem nada, querem que aquilo ande daquela maneira que está andando, desde que ande bem. Então tem que ter realmente muita paciência, resignação, saber escutar não, saber que as pessoas têm razão naquilo que elas estão te negando. Isso é muito importante, você ter consciência disso e tentar de uma maneira e de outra mostrar que não é bem assim, que tem caminhos que não atrapalham absolutamente nada que podem ser tomados. Depois que tem, que existe essa conscientização, as pessoas aprovam. Mas todo mundo que mexe com pesquisa, com desenvolvimento tecnológico passa por um descrédito muito grande, isso é normal e a gente tem que aceitar, se não aceitar não mexa com isso. 

O descrédito existe mesmo. A primeira coisa é te chamar de porra louca, dizer que você está no mundo da lua, mesmo porque é normal do homem, do temperamento das pessoas. Então se você não tiver capacidade de resistência à frustração para isso, nem mexe; vai mexer com outras coisas. Tem tantas coisas na vida também que podem te dar satisfação. 

Tem que aguentar isso e [é] trabalho árduo, duro; não é você ficar pensando só, pesquisando e olhando. O mais difícil da pesquisa, do desenvolvimento tecnológico, não é você fazer o desenvolvimento. Quem tem jeito para isso é como quem tem jeito para determinadas coisas e sabe fazer. Sabe porque sabe, não é mérito nenhum, entendeu? Então não é isso que é o difícil, o difícil é exatamente você tirar os obstáculos todos que tem na frente, existem milhões de obstáculos para isso. Esses obstáculos são colocados, mas são colocados violentamente, e é uma maneira das pessoas defenderem aquilo que é delas, naquilo que elas acreditam. Nessa parte de pesquisa e desenvolvimento tecnológico o principal é exatamente você vencer esses obstáculos, aí que está a grande parte, que é o difícil. É isso, não é você pesquisar, no mundo inteiro é assim.

 

P/1 - Então sabe que você não vence necessariamente com conhecimento.

 

R - Não, você tem que ser humilde se você quiser fazer alguma coisa. Se você não quiser é muito fácil. Por que a pesquisa hoje aqui no Brasil está uma desgraça? As pessoas desistem. Não existe uma vontade, o pessoal para. Por que eu falei com vocês que é muito fácil a gente fazer qualquer coisa aqui? Porque existe muito pouca coisa, então qualquer coisa que você faça é uma inovação. E outra coisa, o que existe está muito mal aplicado, porque é muito fácil quando existe dentro de um... Nem sei se devo falar isso. É muito fácil você convencer [alguém] de um projeto quando existe uma verba para isso, desde que você apresente bons pesquisadores, gente boa. Mas se você for olhar o grau de prioridade que esse negócio tem para o país, talvez seja o quadragésimo-nono em termo de prioridade, tem outro muito mais importante na frente, então você teria que estabelecer uma hierarquia das prioridades. Isso é impossível, tanto que aqui é principal… Se não estabelece isso por estudo, o que é principal para a gente aqui em termo de estudo? 

Dizem que não tem verba para estudo. Tem verba sim, existe muita verba, só que a meu ver esse tipo de verba é mal aplicada, ela devia ser aplicada em primeiro lugar no conhecimento básico mesmo, depois nos outros, ou seja, no curso fundamental, primário, ginásio, depois nos outros. Por que tem tantas coisas assim, tanta besteira, essa explosão demográfica desgraçada? Por falta de educação, meu Deus do céu, educação básica primária. Essas favelas que minha filha vai, uma vez eu estive lá com ela, tinha uma mulher aidética nova que tinha onze filhos, uma pobre coitada que nem sabia o que era isso. Então o que está faltando? É uma educação básica, você tem hoje grandes universidades aqui, boas universidades, poxa. E o ensino básico? As universidades podiam ser em número um pouco menor até, poxa. Você podia até pagar universidade, traz esse dinheiro todo; deixa algumas, é claro, estabelece bolsa para os que forem melhores, traz esse dinheiro aí e gasta com todo o povo mesmo, ensine-os a ser gente, sabe que tem uma importância brutal saber o que eles são. Na pesquisa é a mesma coisa, lá tem que haver uma educação, conhecer, saber que aquilo é para melhorar, não é para piorar nada. 

Existe um medo muito grande hoje de tecnologia por causa de vaidade. Realmente, dentro da pesquisa a vaidade é um fator extremamente negativo. Os grandes cientistas são humanos, todos nós que somos humanos, nós somos regidos por quê? Temos sete pecados capitais mais dois, é verdade, onde entra a inveja, a ira, o orgulho, luxúria, todos nós temos um pouco disso. E vaidade, evidente, então todas essas coisas entram. Muitas vezes um grande cérebro, esse grande cérebro só é fenomenal numa determinada parte e na outra não, então ele desenvolve um gás que vai matar milhões de pessoas, mas que é um negócio fenomenal dentro da parte científica. Ele faz aquilo por vaidade. 

Por que a energia nuclear foi desenvolvida? Foi desenvolvida pelo Projeto Manhattan, não foi desenvolvido para fazer esses reatores que tem aí hoje. Não é porque… Quem estava lá? Estava [Enrico] Fermi, estava cada cabeça formidável. Aquilo desenvolveu, poxa, festejaram; foi um negócio que pôs em risco o mundo inteiro. Quem foi que fez isso? Foi um grande cérebro. Agora será que esses grandes cérebros, a outra parte, o desenvolvimento da parte, vamos dizer, do grau deles de humanidade não conseguiu superar o grau de vaidade? (risos) Isso é muito difícil de a gente ver. 

Muitas vezes em pesquisa a gente se entusiasma demais e leva aquilo à frente muitas vezes também por vaidade. Aquilo, para ele… Ele desenvolveu alguma coisa, é um fenômeno, então isso atrasa também um pouco, mas é no mundo inteiro, isso não tem jeito; isso não é no Brasil, é no mundo inteiro. É que no Brasil existem outras coisas, piores ainda. O sujeito precisa de um projeto de pesquisa para conseguir uma verba, então ele faz aquele projeto, ele que aprova aquilo a fundo perdido. Agora ele não está nem aí se aquele negócio é bom ou ruim para o país... Primeiro que quase todo o tipo de formação nossa aqui, agora que está tendo mais, é do hemisfério norte. O hemisfério norte é completamente diferente do hemisfério sul, então o que é bom muitas vezes para o hemisfério norte não é bom para o hemisfério sul. A gente precisa aqui de outras coisas muito mais… A gente precisa de muito mais do dia a dia, do pão, da hora a hora, do que de grandes tecnologias avançadas. A gente precisa melhorar, precisa trazer meios para conseguir educar mais o povo mesmo de uma maneira geral, para o nosso próprio benefício, para a nossa própria segurança. 

Às vezes não entendo como as pessoas não conseguem pensar… Eu lá na nossa rua, falei para vocês, nós juntamos nove vizinhos. Contratamos uma firma de segurança para poder ter segurança e morar. Eu participei disso também. É muito diferente a gente pensar sozinho que pensar em grupo. O inconsciente coletivo nosso é dum primitivismo brutal. Juntando duas pessoas você tem ideias maravilhosas, ideias; quando chega cem, cinquenta, está um primitivismo absurdo - eu estou pensando nas coisas primárias e básicas. 

Isso acontece com os grandes cientistas também, acontece mesmo, e aqui no Brasil principalmente, porque a nossa cultura científica é muito mais do hemisfério norte que do hemisfério sul. Os problemas do hemisfério sul não são levados muito para frente. Talvez eu tenha tido êxito em muita coisa que fiz porque eu pensei no hemisfério sul, olhei os problemas nossos, corriqueiros que nós tínhamos. Não foi procurar a tecnologia americana nem a europeia, não, fui contra isso, porque eu não tinha… Para a gente era totalmente diferente, não era a mesma coisa. Estou falando só na parte mineral, na outra parte é pior ainda, era completamente diferente. Nós não tínhamos taconito magnético, nós tínhamos uma hematita aqui que não era magnética, com todos os problemas dela. Exatamente por eu ter sido autodidata nessa parte eu me preocupei com os nossos problemas. 

Quando eu ia trabalhar lá fora, eu nunca ia trabalhar para fazer cursos nem nada; eu levava um problema nosso, como levei várias vezes para a França, para Alemanha, para os Estados Unidos, levava e trabalhava com eles naquele problema nosso. Eu não deixava eles trabalharem em cima, eu falava: “Não, nós temos que resolver isso. Eu quero seu conhecimento para resolver isso aqui, a gente está precisando.” Então talvez o êxito seja por isso, por minha total ignorância que eu tive que aprender e aprender dentro dos nossos problemas. 

Esse meu filho já tem uma formação dele. Nós, às vezes, entramos em discussões muito grandes: “Papai, ________ pensa dessa maneira.” Ele pensa dessa maneira e está coberto de razão para a França, não para aqui. Aqui é totalmente diferente. Uma tonelada de cimento lá custa 38 dólares, aqui o pessoal está querendo levar a cem, porque existe uma ganância desgraçada em torno disso. Então não se pode usar isso, nós temos que procurar um sucedâneo. Foi ótimo que dentro desse sucedâneo nós conseguimos procurar coisas muito mais baratas que ajudaram no projeto que tinha. Essas coisas são muito importantes.

 

P/1 - Na Vale tinha esse espírito de coisa nossa, de estar fazendo uma coisa...?

 

R - Eu convivi num período da Vale onde que o pessoal todo vestia a camisa da Vale. Vestia a camisa da Vale mesmo, para valer, por isso que ela cresceu. Tivemos sorte de ter o Eliezer, que eu considero um gênio, o Dias Leite, Mascarenhas. Foram pessoas formidáveis. Claro que teve outros também ótimos, eu tive uma sorte especial de ter tido o Dr. Fonseca, que foi meu professor. Muitos não sabiam nem o que era minério de ferro nem nada disso, aprenderam lá com ele, vendo o dia a dia depois. Acho que foi considerado um dos melhores que tem aí, no entanto nem sabiam o que era isso. Foi convivendo com o velho Fonseca, com aquela coisa formidável. Era chamado de velho, aquela simplicidade dele, aquela humildade que ele tinha. Eu virei o aluno dileto dele, ele era professor da Escola de Medicina... Da Escola de Engenharia de mina. 

Ele também passou a me adorar porque eu tinha ideias. Ele me sugeria, discutia; eu levava para ele, ele fazia. As primeiras chapinhas da máquina que deu vazão a isso tudo, que se criou a concentração magnética de alta intensidade em via úmida, foi feito lá na oficina dele, num torninho que ele tinha. O velho era pão-duro, então ele tinha um gasogênio que queimava lá, todo cheio das maquinações. Ele queimava serragem que ele conseguia de graça. A gente tocava o motor, o motor tocava uma polia, a polia tocava um forno, ou então tocava um torno e nesse torno tocava outro negócio e tal. Eu sei que ele fresou lá a chapinha e nós conseguimos montar com um eletroímã potente que tinha lá pra uma outra coisa. [Foi de] uma maquininha desse tamanho que a ideia surgiu para essa monstruosidade que tem lá. 

Então o pessoal tinha sim uma garra danada, cada um na sua área, tinha orgulho daquilo que fazia e eram honestos. Eu não conheci ninguém durante o tempo que eu tive na Vale que metesse a mão - podia ser que tivesse, toda companhia tem, mas eu não conheci ninguém, só conheci pessoas que como eu não tem nada, passaram a vida inteira lá. 

Não se vocês vão entrevistar o Fábio, é o meu melhor amigo, Fábio Teixeira de Almeida. O Fábio mexeu comigo a vida inteira em pesquisa, foi superintendente de compra, depois superintendente do projeto de titânio, foi do CPM [Centro de Pesquisa de Minério] durante anos. Nós trabalhamos sempre juntos, apesar dele ser de outra coisa; ele era o cara que fazia, era executor das grandes obras, das grandes coisas. Pessoa formidável, é o meu maior amigo até hoje. Tem um retrato aí junto com o Fábio. 

 

P/1 - A gente vai pegar o nome dele. 

 

R - Mas é um cara formidável também em tudo, direito até a alma. Vestiu a camisa da Vale para valer. 

Então isso é verdade, que eles eram lutadores, todos, cada um dentro da sua área, senão não teria crescido. Como é que ia crescer essa companhia assim se não tivesse esse grupo de pessoas? Eu dava a vida pela companhia, dava mesmo. Eu até tinha orgulho de pertencer a essa companhia. 

Tinha vezes que a minha mulher até ficava chateada: “Poxa vida, você casou comigo ou com esse raio dessa companhia?” Eu não ia para casa, quando eu estava desenvolvendo um negócio meu lá no ________ eu não ia mesmo, não. Ficava lá a noite inteira, depois no dia seguinte inteiro - aquelas coisas que aconteciam com a gente quando você estava num negócio... Esse pessoal, realmente, pelo menos os que eu conheci, todos, eles davam a alma pela Vale do Rio Doce.

 

P/1 - E a privatização? O que o senhor achou disso?

 

R - Olha, [pra] tudo chega uma hora. O governo atrapalhava muito mais do que ajudava, então a minha opinião eu não tenho formada sobre essa privatização. Eu achava que a companhia sem o governo funcionaria muito melhor, que o governo travava uma porção de coisas, então eu não sei até quando foi bom. Eu pensei numa maneira de privatização que não tem nada a ver com a maneira como ela foi privatizada; umas grandes companhias foram privatizadas, mas isso não cabe a mim falar, isso aí é outra coisa. 

Eu saí antes de ela ser privatizada, eu só fiquei no conselho da Docenave e quando ela foi privatizada eu pedi minha renúncia no mesmo dia, contei para vocês que até estava difícil procurar alguém para pedir a renúncia; Pedi no mesmo dia minha renúncia, então essa parte não cabe a mim falar. Não sei se foi bom ou se foi ruim, isso o tempo que vai dizer.

 

P/1 - E o seu cotidiano hoje, seu Márcio Paixão, como é?

 

R - Quando eu posso, quando tenho inspiração, eu gosto muito de pintar, de fazer minhas comidas e de dar uma mãozinha para o meu filho. Gosto muito de viajar com ele porque ele carrega as minhas malas, traz tudo e vai nos lugares que tem bons vinhos comigo. 

Quando nós fomos para a Califórnia agora, porque ele ia fazer uns negócios lá em uns congressos, eu impus minhas condições. Ele topou ir para o Sonoma e o Napa Valley, tomar aquele… Ele entende bastante de vinho. Depois nós fomos para a França imediatamente - eu também impus minhas condições. Nós tínhamos que correr vários lugares lá, aí nós ficamos em Borgonha pelo menos três dias, em Bonn, visitar os vinhedos todos e tomar uns bons vinhos lá. 

Depois ele foi fazer um trabalho no Chile e me levou para fazer junto com ele o trabalho. Eu falei: “Ótimo, o Chile é um bom lugar para ir, tem ótimos vinhos.” (risos) 

Então é isso. E graças a Deus meu cardiologista falou que tomar um copo de vinho por dia vai fazer muito bem ao meu coração meio fulminado. Eu não tomo todo dia, prefiro tomar uma vez, duas vezes por semana. Ainda tomo um vinho bom - também  escolho, agora eu quero um vinho que seja realmente bom. Vinho bom não é vinho caro, vinho bom é vinho bom, isso é importante. Vinho que te agrada, que você gosta do paladar, tem um bom buquê. Os chilenos têm vinhos ótimos que você pode encontrar. A gente ia nos franceses, mas um bom vinho francês está muito caro. Mas a gente toma também, compensa você economizar em algumas coisas e deixar para um outro prazer que você pode ter, vale a pena. 

Meu cotidiano é esse. Estou com 68 anos. Meu pai morreu com 65, já estou dando três de vantagem para ele. Já tive três enfartes e não morri, estou vivo; o último foi agora no carnaval. Estou aqui com vocês, conversando; vou ver minha mãe hoje, que tem 92 anos - vai fazer 93, se Deus quiser, em junho. Ela vai recitar para mim provavelmente ________________, que é muito bonitinho, eu adoro que ela recite aquilo para ela, ou então “O Melro”, do Guerra Junqueiro. 

Minha vida é muito boa, eu amo tremendamente minha mulher e meus filhos. 

 

P/1 - E sonhos, só sonhos?

 

R - Acabar com a chuva química do mundo. Acabar com essa mortandade estúpida de peixes que ______ uma simplicidade meridiana. Acabar com esse cheiro horrível que as refinarias todas têm, que é uma bobagem também. 

Eu sei fazer isso, sei fazer de uma maneira muito barata, mas é como eu te falei, é muito difícil fazer isso sem usufruir… Eu não quero. É muito fácil… Esse grupo que está financiando esse negócio todo, eles vão ganhar um mundo de dinheiro com isso para eles financiarem esse negócio porque a Vale perdeu essa patente, bobearam e perderam. Mas eu já descobri depois disso outras coisas muito mais simples e muito mais fáceis. Eles vão querer ganhar dinheiro toda a vida, vão querer ficar mais ricos do que todos no mundo porque, claro, tem cinquenta bilhões de dólares para acabar com a chuva química, para pesquisar. Então eu acho que não, que uma coisa dessa não pertence a ninguém, o difícil é isso. Um dia vai acontecer, eu vou deixar tudo certinho, como é que se faz. O mundo inteiro tem aos montes e ninguém usa para nada.

 

P/1 - Ninguém tem curiosidade.

 

R - Tem um processo físico-químico que tem que ser feito, mas é um processo banal, bobo que qualquer um pode fazer.

 

P/1 - O que o senhor achou de fazer parte do Projeto Memória Vale do Rio Doce?

 

R - Achei muito bom, achei ótimo. Peço desculpas a vocês se eu falei muita... Divaguei demais. Não sei se era esse o objetivo. Achei muito boa, falei absolutamente sem restrição porque eu não tenho mágoa nenhuma, se eu tivesse mágoa seria uma coisa muito ruim. Aliás, eu tenho horror as pessoas que cultivam mágoa, as pessoas que cultivam injustiça; as pessoas não fazem nada, elas passam a viver única e exclusivamente da injustiça delas, elas se satisfazem com aquilo. Eu tive alguns amigos, alguns colegas que se sentiram injustiçados e passaram a viver daquilo, ao invés de passar a borracha nisso e partir para outra coisa; pronto, vai para frente. 

Eu sou uma pessoa sem mágoa, nunca me senti injustiçado na minha vida. Quando acontecia uma coisa qualquer eu achava que estava incompetente para vencer aquela barreira. Da Vale do Rio Doce eu só tenho coisas boas para falar. Foi minha vida, minha casa; fui superfeliz, criei a minha família que eu amo, sempre amei o meu trabalho, aprendi um mundo de coisas que eu não sabia. A Vale me propiciou tudo, propiciou um conhecimento grande que eu fui livre para ir no mundo inteiro - conheço o mundo inteiro, [fui] conversar com todo o mundo no mundo inteiro, conheço os cinco continentes, então o que eu posso achar da companhia? A companhia foi muito melhor que eu ter sido um cara arquitrilhonário, propiciou para mim satisfação profissional e eu dei a volta que podia dar. Não tenho a menor mágoa, o menor ressentimento. Quero que ela cresça cada vez mais, que seja muito boa para o país; espero que vai ser, ela tem um princípio bom. 

E os dirigentes da Vale hoje são dirigentes muito competentes. Eu conheço alguns deles, [são] pessoas extremamente competentes e boas, um valor enorme. E outros também que eu conheço pessoalmente, a grande maioria que eu conheço eram meninos - aliás conheço, tem muitos que eu vi nascer. Roger eu vi nascer, era filho do Chico Onça, Chico Médico que era lá de Itabira, que era um dos maiores amigos meus. O padrinho dos filhos dele, do Marquinho, que é um grande médico hoje, ele é padrinho do José Eduardo, que também é um grande médico, grande cirurgião plástico -, já morreu, o coitado do Chico. Tem uns que eu vi nascer que estão bem na companhia ocupando bons cargos, esse pessoal todo é muito bom. A gente precisa mais desse tipo de gente aqui nesse país.

 

P/1 - A gente agradece demais.

 

R - Eu que agradeço vocês. Desculpe mais uma vez se eu divaguei demais, mas eu divago mesmo. 

 

P/2 - Obrigada pela sua participação.


 


 

 

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