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História

Um imigrante feliz

História de: Simon Mao
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Simon fala sobre sua vida na China, por que considera o período que passou no Brasil o melhor de sua vida e sobre sua vida atual, nos Estados Unidos.  

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História completa

(00:33) P/1 – Oi, Simon! Tudo bem com você? 

R – Tudo bem. 

(00:38) P/1 – Que bom! A gente começa pelo básico, que é o seu nome, local e data de nascimento. 

R – Meu nome é Hun Tseng Mao, o apelido é Simon. Nasci em 1944, dezesseis de outubro, em Xangai, China. 

(01:11) P/1 – E qual o nome dos seus pais? 

R – Meu pai é Mao Tseng Tsu , minha mãe é ____ Tsu Shin . 

(01:24) P/1 - O que eles faziam de trabalho? 

R – Meu pai era um empresário desde os dezenove anos, porque meu avô era um playboy, não ‘podia’ trabalhar. (risos) Nossa família é de intensa… [tem] catorze fábricas, grandes empresas. 

(01:58) P/1 – E a sua mãe, o que ela fazia? 

R – Minha mãe depois de casar, nunca mais trabalhou, porque a família dela é [de] um outro serviço da China, de _______. Quando [ela] casou, chegou na família Mao, só [foi] dona de casa. 

(02:42) P/1 – Tinha algum costume da sua família, que era especial pra vocês? Comemorações, por exemplo. 

R – Nossa família… Destruíram tudo na Segunda Guerra Mundial. Eu lembro que meu pai falou que a nossa família é a segunda em perda de população de famílias, na China. Nossa família, depois, [que era] de comerciantes, [ficou] um pouco difícil pra viver, mas não era tão pobre como a maioria das pessoas. 

Eu tenho mais cinco irmãos. Eram seis, o primeiro filho, na Segunda Guerra Mundial, morreu de doença. Eu tenho uma older sister, irmã mais velha, mas [quando] jovem teve um ataque do coração e morreu. Por isso minha família tem tantos filhos, mas separados do meu pai e mãe; enquanto eu vivi em Xangai, a maior parte de minha vida, foi só com meu irmão mais novo e comigo. [Vivíamos] separados do meu pai, mãe e irmã mais velha, porque [eles] estavam em Hong Kong.       


(04:53) P/1 – E seus pais contavam histórias pra você? 

R – Minha mãe não contava coisas de família. Meu pai, por causa de eu viver separado do meu pai [por] mais ou menos quatro anos… Quando voltei a encontrar meu pai, eu já era casado. Passei em Hong Kong, com meu pai e mãe, só treze semanas, por isso não contava. Mas mais ou menos oito anos atrás, eu comecei a querer saber da minha família, o que aconteceu, todas as histórias, desde meu tataravô, carpinteiro, que começou a construir uma imensa, [uma] firma muito famosa na China, tudo. Meu avô, família, tudo. Minha esposa, o avô dela… Nossa família sabia de algumas coisas, contaram pra mim, e eu comecei, agora… Se não é verdade, eu tenho que descobrir e eu trabalho muito por causa disso. É muito valiosa a história.

Eu descobri na terra natal do meu avô, um vilarejo perto de Ningbo, uma ponte. Foi meu tataravô que construiu, pra terra natal. Tudo isso [me] agrada muito, por isso eu escrevo uma história muito boa pra toda a minha família, porque a maioria nessa geração - minha filha, até meus sobrinhos - só tem um que sabe ler chinês. Todos não sabem ler mais. (risos) Então, eu vou achar uma pessoa pra traduzir em inglês, pra toda a família.

 

(08:26) P/1 – Você lembra da casa em que você passou a sua infância? Você consegue descrever? 

R – Lá em Xangai, a casa que sobrou pra nossa família, [é] no Centro de Xangai. Perto, daquela época, do primeiro consulado do Brasil em Xangai. O primeiro cônsul de lá é muito meu amigo, Francisco Lima, porque naquela época, Fernando Henrique Cardoso, o presidente [do Brasil], visitou a China. Eu também acompanhava alguma coisa. (risos) 

Era um bom local. Como dizer? Como fica na… Mas a casa não era muito grande: quarto, sala, cozinha, dois quartos de empregada. Esse é o lugar que eu me criei lá. Passei pelo primário, middle school, high school, até estudar dois anos de Química e trabalhar numa fábrica de chemicals, de detergente. (risos) Depois nós saímos, eu casei, tive um filho e saí da China, em 1978. Nós tínhamos passaporte, permissão, pra sair. 

Naquela época o presidente do Brasil era João Figueiredo? Esqueci. O último da dita….   


(11:12) P/1 - José Sarney? 

R – Não. Sarney foi [depois que] ele saiu. “Brasileiras e brasileiros!”. (risos)

(11:29) P/1 – Você costumava brincar, quando era criança?  

R – Eu era meio quietinho, não gostava muito de bagunçar lá fora, porque eu gosto muito de ler livro, qualquer livro. Desde a infância gostava muito de desenhar, por isso mamãe dizia: “Você é quietinho, sempre no canto”. Dava um lápis, um papel e eu ficava quietinho, no canto. Mas você sabe, criança também sempre fazia algumas... (risos) Menino, né, fazia sim.  

(12:32) P/1 – Você costumava sair com seus amigos pela região, à volta da sua casa? 

R - Na middle school tinha alguns amigos muito bons, [de] relação muito próxima. Naquela época, lá nessa casa, eu tinha um quartinho pequenininho, sozinho; não tinha pai e mãe que enchiam o nosso saco. Por isso sempre… Eu começo a me aproximar desses seis meninos. Nós fazíamos qualquer bagunça, conversávamos à meia-noite. 

Aquele local é muito perto de três cinemas. Naquela época tinha muito comércio perto da nossa casa e era muito perto da nossa escola, da middle school, então, podíamos voltar pro campo da escola.  Eu aprendi a  andar de bicicleta, jogávamos ping pong, porque tinha pertinho. Todo mundo sempre… Se não tinha nada a fazer, vinham em minha casa e me encontravam. (risos) 


(14:35) P/1 – E na escola, você tem alguma primeira lembrança dessa época?

R – Escola? Na nossa juventude sempre tem coisa gostosa pra memória. Mas agora estou tão velho, já tem muita coisa [que eu esqueci] por causa da idade. De vez em quando lembramos como era aquele tempo na internet, juntos. Voltamos pra conversar: “Lembra?” (risos)

(15:37) P/1 – Nessa época da escola, você tinha alguma disciplina favorita? 

R – Por causa de meu pai, nossa família é de empresários, e estarmos na China do governo comunista, nós consideramos aquela época muito ruim pra nós, eu lembro. Só tinha alegria com amigos mesmo, da mesma classe. É como minha esposa, ela foi separada da família também. Por isso não se pode entender outro, senão é nosso como forma de só viver da, como comunista falando people, né? Mas a nossa [vida] não é considerada… Mesmo [vivendo] direito, tinha que ficar com muito cuidado, quietinho. 

Agora ouvi falar que mudaram. Depois, nesses últimos dias, anos, eu acho que a China está voltando à política de Mao Tsé-Tung. 

   

(17:24) P/1 – E você lembra de algum professor que te marcou? 

R – Sim, por exemplo, minha professora de pintura, de arte. Uma senhora que ensinava a pintar e, por outro lado, também, era professora de música. Eu não era bom de prestar atenção, mas eu sempre tinha nota boa. Aula de pintura, naquela época, eram 45 minutos, uma hora. Eu pintava mais ou menos cinco a seis minutos e no resto - normalmente tinha bons amigos - sempre os ajudava a pintar. Eu usava, de trinta minutos de pintura, só três, porque cinco é melhor. Mas eu usava cinco minutos de pintura, só por causa do meu nome. (risos) Boa nota. _______. Eu lembro tudo que ele falava. (risos) 

(19:04) P/1 – Quando você começou a trabalhar?

R – Depois da high school. Em português, como fala?   

(19:18) P/1 – Faculdade.          

R – Faculdade, depois do colegial, de estudar dois anos de Química. Não é como university, porque nossa família, nossa classe não pode ter um ensino só direto. Mais ou menos, eu comecei a trabalhar entre dezenove e vinte anos. Eu trabalhei no laboratório de fábrica química, mas o trabalho era muito cansativo, muito trabalho. Pra mim, eu acho que o mínimo é ter metade ou mais tempo livre, então pra mim… Naquela época tinha muita reunião de política, alguma coisa, mas se sobra muito tempo, você podia ler livro, fazer qualquer coisa. Só não podia mexer em política. 

(20:50) P/1 – E a Química você fez durante o high school, o colegial? 

R – Não é high school, é college.  

(21:00) P/1 – Ah, a faculdade! Entendi. Como é que foi fazer Química? 

R – Razoável, porque eu não sou muito bom de estudar. Eu sou uma pessoa que não é muito boa, por isso que nunca estudo muito tempo. Gosto, mas a minha nota era sempre razoável e dava pra passar. 

(21:32) P/1 – E aí, depois disso, como é que você veio pro Brasil?  

R – Quanto nos casamos. Como eu e meus irmãos mais novos, em Xangai, e minha esposa, a família [dela] também estava fora da China, overseas, fora do território do governo. Então, nós dois… Tinha um velhinho que a gente conhecia a família dele, lá em Taiwan. No final da Segunda Guerra Mundial, em 1946, 1947, a família dele montou uma fábrica. Também são de Xangai e montaram fábrica em Taiwan. A família dele mudou pra lá. 

Quando teve o segundo filho, a mãe dele [ficou] grávida de novo, a levaram, com um ano e meio, pra Xangai, porque [em] Xangai a família… A vida era mais confortável, a casa tinha criados, mas naquela época a pessoa que mexia com negócios, era empresária, não entendia nada de política. (risos) Guerra civil… Quando cortaram - as pessoas não podiam viajar - ele foi viver com o avô dele, porque a família de mamãe é de Xangai. Então, tem um velhinho, sabe, a família dele conhecia nossa família, então [disse]: “Vocês dois querem conhecer?” 

Em 1973, em agosto, no dia dezessete, nós ouvimos na rádio a notícia [que] Brasil e China, o relacionamento…O Itamaraty reconhece a relação [entre os dois países]. Olha, minha mulher o dia inteiro não conseguiu dormir, não conseguiu fazer nada, porque viu uma esperança de poder ver a família dela. Vocês imaginam. Eu já [tinha me] separado da mãe, já na middle school, e [separado do] meu pai quando eu tinha quatro anos. Mas ela, em 1948, voltou pra China, nunca viu a família dela - [em] 1973, desculpe, foi nosso casamento.

Nós ficamos atentos, mas naquela época não podia casar, só podia namorar escondido, porque minha esposa seria mandada pro campo, pra trabalhar. Mas ela tinha doença, não podia, só namorar e casar. Eu também, naquela época, pra idade de casar… Homem precisava ter 29 anos, mulher era 25. Só em 1973 minha mulher ganhou um trabalho em Xangai e já tinha seu direito pra viver em Xangai. (risos) Então, nós casamos em meio a essas duas famílias. Minha mãe tem a carta, me pergunta: “Vocês dois, por que não casam?” Porque o pai e mãe dela reclamaram. “O que você está...” “Eles não sabem, mas eu não posso”. Por isso, em 1973 casamos. Em 1974 minha filha nasceu. 

O relacionamento do Brasil com  a China [foi retomado em] dezessete de agosto e minha filha nasceu duas semanas mais cedo. Nós lutamos, pedimos muitas vezes… Em 1978 nós recebemos passaporte, em 1979 nós fomos pro Brasil. Era muito difícil naquela época. Nós tivemos muita sorte. Minha família [estava] em Hong Kong e foi pro Brasil. A família dela foi em 1971, emigraram pro Brasil, pra São Paulo. 


(28:44) P/1 – E um pouquinho antes disso, você lembra do dia do seu casamento? 

R – Sim. 

(28:50) P/1 – Como é que foi?           

R – Naquela época já era o final, ia começar a Revolução Cultural mais calma, mas  como nosso casamento não podia mostrar pra todo mundo, [a gente tinha que] esconder. Então, a família dela, avó, tio… E meu avô, irmã, a família na China [estava em] Xangai. Nós éramos muito próximos da família. A maioria era velhinha, porque na época de revolução muitas famílias de empresários não podiam visitar todos. 

O casamento em Xangai foi em um hotel muito bom. Tinha quatro mesas redondas, mais ou menos quarenta ou 46, eu esqueci, pessoas, os velhinhos. [Há] quanto tempo não via comidas tão boas, com alegria, (risos) tudo isso, porque eu conheço esse hotel, o restaurante, o chef, o gerente. Então, era bom e paguei muito barato. 


(31:00) P/1 – E como foi, pra você, ser pai pela primeira vez, quando nasceu sua filha? 

R – Há alguns anos eu levava minha mulher e minha filha para passar lá, porque é muito bom esse hospital-maternidade. Naquele dia seguinte, aconteceu de minha esposa falar pra mim: “Talvez precise ir na maternidade.” Naquela época [a] China não tinha ambulância, não tinha nada. Como podia ir? Então, [usamos] uma bicicleta. Mandei ela sentar atrás, eu e meu irmão [nos] movíamos com esse cuidado, né? [Quando] chegamos lá, ela ficou lá dentro, mas tudo eu tinha arranjado, essa maternidade tinha pessoas que eu conhecia, falava. 

Naquela época a família não podia entrar pra ver, mas fizemos uma combinação. Eu mandei ela: “Se nascer, você pega um lenço [e coloca] na janela”. Ela não podia, né? Ela falou pra uma pessoa: “Por favor, manda esse lenço pra janela.” “O quê?” “Por favor”. Quando eu vi, eu lembro que eram onze da noite, onze e cinco minutos. Eu vi o lenço, então fiquei sossegado, voltei pra casa, pra falar que nasceu. “Como você sabe?” Então eu conto:  “Assim [e] assim.” (risos) Todo mundo ria. 


(33:27) P/1 – Você tem outros filhos? 

R – Só uma filha. 

(33:34) P/1 – E quando você veio pro Brasil, você veio de Hong Kong? 

R – Sim, naquela época que tinha a Varig. Primeiro ia pra Hong Kong, ficava em Hong Kong uma semana só; mas nós pedimos mais tempo, mais duas semanas. Minha família é de Hong Kong. Não tinha nada a ver [com o regime chinês], era colônia da Inglaterra, então não tinha nada de conversa. Ficamos três semanas, compramos uma passagem de Hong Kong para o Japão. [Em] Tóquio já tinha passagem da Varig. 

Naquela época a Varig ia pro Peru, de Lima chegava em São Paulo; aqui em São Paulo, em Congonhas. Naquela época, porque antes [de vir] para o Brasil, eu andava tudo no (laboratório?), porque ele sabe sobre o Brasil. Eu consegui um papel e meio, só. Naquela época não tinha xerox, fax, nada; eu escrevi. Por isso, quando chegamos em Congonhas, eu vi os carros andando, tinha prédio, mas naquele dia eu não vi nada de indígena, porque eu pensava que a terra era assim, né? Mas aquela época realmente não sabia, e também minha esposa, eu falei pra ela: “Não fala nada com pai e mãe.” O pai [dela] falou: ‘Não chora’”. Eles se abraçaram e ela chorou. 


(35:55) P/1 - E como foi quando você chegou em São Paulo? Onde você foi morar e no que você foi trabalhar? 

R – A família dela morava no Brooklin, então eu fui morar com a família dela, algumas vezes. Eu aluguei de uma família de chineses um quarto com uma sala e tinha empregada, porque sou exigente. Comecei a estudar, naquela época era [na] Igreja Católica Chinesa. [Foi] muito boa, ajudou tanto, você nem sabe e comprei pra mim um dicionário português/chinês e isso ajuda tanto. Então, todo dia: “Como está?” Trabalhar em três coisas. Primeiro, durante o dia, vai pra um restaurante chinês, [como] ajudante, pra aprender e também, no tempo de descansar, vai vender... Como chama esse produto que ____… comprava alguma coisa, chega na rua, toca na porta, pergunta a você se queria algum presente. Mais ou menos, um ano, dez meses [depois], eu vi um restaurante pequeno, no Paraíso. Estava falido, queriam vender. Eu vi, fiquei na porta olhando, falei: “Não pode ser que não ganha dinheiro. O problema é dele. Então, eu compro”. Naquela época que cheguei tinha um pouquinho de dinheiro e também tinha uma família que ajudava. Então, nós vivemos, começamos… minha filha começou a ir pra escola, dava pra passar pagando aluguel. (risos) 

(39:01) P/1 – Quando você chegou no Brasil, você sentiu muita diferença entre os brasileiros e os chineses? 

R – Sim. Cultura é tudo diferente. Chinês, nossa criação, é sempre amarrado, responsável. Eu, chegando ao Brasil, responsável pela família, tive que lutar pra viver, mas brasileiro… Como eu tenho empregada… Eles [os brasileiros], em primeiro [lugar] é a vida; [para] nós, em primeiro lugar é trabalho, é [ser] responsável. Brasileiro, não. Brasileiro é só a vida, só a felicidade. 

Uma vez, um empregado não veio por muitos dias; depois de uma semana e pouco ele volta. “Onde você foi?” Ele fala: “Não, aquele dia eu vinha trabalhar, mas no ônibus eu conheci uma menina muito bonita, eu fiquei muito contente. Então, esse [dia] eu não pude vir pro trabalho, eu perderia o contato dela.” Eu falei: “Trabalho é [em] primeiro lugar!” [Ele disse:] “Não, trabalho é pra viver, felicidade de vida”. (risos) Eu fico doido. 

Depois começamos mais a viver. Eu acho que está certo. Viver pra quê? Só [pra] carregar sua responsabilidade não é bom. Tem que ter, mas não é a única [coisa], eu acho. (risos) 


(41:27) P/1 – E tem alguma coisa parecida, que você sentiu que tem, entre a China e o Brasil? 

R – É, porque eu acho… A primeira vez que eu ouvi “Deus é brasileiro”, eu falei assim: “Brasil tem melhor clima, a terra tem tudo, imensa terra boa de plantar, mas o Brasil também… Talvez não pode falar isso, mas a política é a pior que tem no mundo. Eu acho. Eu vi alguma política boa, pra mim, mas é muito pouco, muito pouco. Porque nosso Brasil pode ser uma potência, [tem] muita potência na mão, mas nós perdemos muito tempo pra arrumar coisas que não valem nada.      

(42:50) P/1 – Você ficou muito tempo com o restaurante? 

R – Sim. Minha vida no Brasil não pode [ser contada sem o] restaurante. Um pequeno restaurante, eu conheci lá muita gente. 

Perto do meu restaurante, primeiro, tinha uma firma japonesa, Mitsui. Uma vez eu vi uma pessoa da Mitsui, uma gerente, comendo todo mês sopa de macarrão, eu pergunto: “Por quê?” Ela fala: “_______ problema”. Então, eu falei: “Você não pediu isso?” “No cardápio só tem isso.” “Tá bom. Amanhã eu vou começar, a cada dia eu vou fazer uma sopa diferente de macarrão pra você”. Ela falou: “É?” Então, eu comecei, [durante] um mês nunca teve [sopa] igual. 

Ela contou na Mitsui, [na] Mitsui gostaram - japonês gosta muito de lamen. Todo mundo veio. Fazer o serviço pra uma pessoa, esse lamen, tudo bem, mas vieram tantas pessoas! Eu trabalhava muito. O presidente da Mitsui ficou muito amigo meu. 

Depois eu mudei pra [Rua] Peixoto Gomide, perto da Paulista, [pra] um [restaurante] maior. Tinha muitos amigos do restaurante pequeno [que] foram pro outro me encontrar. Tarcísio Meira, Glória Menezes, a família deles, todos meus amigos. Mudei e eles vieram [no novo restaurante]. 

Depois, porque o restaurante [era] maior, [tinha] cozinheiro pra mim. Tinha uma pessoa específica [pra fazer] comida chinesa, então tive muito tempo pra participar de grupos de chineses, conhecer artistas, tinha muita gente, amigos de amigos. Um dia, ____, uma artista conhecida no Brasil, falou: “Você sabe pintar?”. Eu falei: “Sim.” “Por que você não vai _________?” Então comecei minha vida na arte. 

Conheci muita gente. Fiquei alegre, [tinha] muitos amigos. Tem o Carlos Matuck e Roseli, esse casal é muito amigo, amigos do peito. Valdemir Martins, Tomie Ohtake, todos viraram amigos, de conversar muito. Tem uma figura, Christine Yufon, [que] é muito próxima. Meu português é ruim, mas em chinês podemos conversar mais fácil. Por exemplo: Tai tem que ajudar Carlos Matuck a fazer um livro, queriam que  eu ajudasse também. Eu falei: “Tá bom”. É sobre [a dinastia] Ming, Qing, mais ou menos quatrocentos anos atrás ______, né, esse livro. “Eu vou olhar, posso ajudar”. Porque eu vi, vivendo aquela época, tantas coisas, porque a família da minha mulher também é muito histórica. Então, nossa... eu fui morar na casa dele, conversar com a avó dele, amigos do avô dele e nós gostamos [de conversar] sobre arte. 

Por isso eu acho que minha vida no Brasil foi [de] muita alegria. Eu sempre penso [que] aquela época é a melhor da minha vida, porque brasileiros realmente têm os braços abertos pra receber imigrantes. Eu nunca, no Brasil, senti diferença de raça. No mundo inteiro, [isso é] muito difícil. No Mercado Municipal tem árabe com judeu, é como vizinho, amigo. Dá pra imaginar isso? Se eu contar pra um chinês, na China, nunca conheceram isso. Falam: “Impossível”, mas o nosso Brasil consegue isso. Não é verdade? Esse é o nosso tesouro. Japonês com chinês no Brasil; como os dois [têm conflitos], na Segunda Guerra Mundial… Mas chega [no Brasil], eu tenho muitos amigos japoneses. É como nossa família que destruiu ________ japonês, mas lá (Brasil) são como irmãos. Isso é muito bom. No mundo inteiro, porque coração de brasileiro… A história do Brasil é essa. 


(50:16) P/1 – Essa parte da arte, você faz pinturas, desenha? 

R – Sim. Eu comecei na Galeria… [Na Rua] Padre João Manoel tem uma galeria, se chama Cláudia… Eu tinha um contrato pra fazer a cada mês duas gravuras. A primeira que eu tentei fazer [foi] uma pá. Eu fiquei tão alegre, porque aquele dia que eu vi na novela… Roda de Fogo, não lembro o nome… Tarcísio Meira e Glória Menezes que faziam. Na sala deles, na novela, [tinha] o meu trabalho [na parede]. (risos) O filho da mãe ficava olhando… [Quando eu] o encontrei, [eu disse]: “Aquele lá é meu trabalho”. Ele fez: “Ah!” “Sim”. (risos) Ele ficou tão alegre, contente.

Depois participei com uma aquarela, num evento mundial de alguma coisa. É sempre uma alegria participar dessas coisas e também sentir, é muito bom, amigos como Carlos, Peres, Rubens. É muito bom. 


(52:14) P/1 – Simon, a gente conhece a cultura chinesa como uma cultura milenar. Tem alguma coisa que seu pai passou pra você, sua mãe, que você leva até hoje, da cultura chinesa?

R – Na minha casa, como tem algumas culturas… Mais ou menos seiscentos anos de história de ______  dessa arte. Algumas… Quando eu saí do Brasil já tinha muita coisa pra vender, arte de mais de cinquenta anos de porcelana, mais ou menos duzentos _____. Eu perguntava pros amigos: “Vocês querem?” Porque acho que eu levar pra quebrar não vale nada. (risos) 

Essa cultura chinesa, a arte, eu gosto muito e conheço. Lembro uma vez de um amigo de Paulo, que trabalha no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, me perguntou: “Tem uma pessoa que atuava no museu”. Ele passou a foto pra mim. “O que você acha?” Eu tenho tantas coisas que conheço, olhei e sabia, esses dois, são símbolos de guarda de túmulo. Por causa da foto eu sabia [que era] dessa dinastia Han, [de] mais ou menos novecentos anos passados. Depois de algumas semanas, ele voltou. “Tudo bem, você falou tudo certo”. Eu tenho conhecimento, né? (risos)

Também, uma vez, veio um pessoal me perguntar sobre uma pintura de Chang Dai-chien, uma importante figura na história da pintura chinesa. “Você viu?” “Eu não”. Pergunto: “Onde você viu?” “Eu paguei quatro mil dólares. É barato? É de verdade ou não?” Eu falei: “Eu não sei. Melhor você perguntar ao Sun, porque [ele] estudava com Chang Dai-chien, [era discípulo dele]. Ele é doutor da Universidade de São Paulo, USP”. Nós éramos muito próximos. Porque eu sabia, esse ____, eu pintaria melhor do que ele, esse quadro. É pessoal [de] cambalacho, a maioria das pessoas não conhece. 

Depois… Todo mês nós temos um encontro em salão; esse mês foi com a minha família, na sala, a Christine, Song, Frank. Eu perguntei. Ele disse: “Sim., eu vi.” Eu falei: “Isso é falso.” “Isso não pode falar, é terrível.” (risos) Porque ele tem certeza. Por isso, quando você tem alguma coisa que sabe, é muita alegria dividir com os seus amigos, mas também tem, agora, no mundo inteiro, muita coisa falsa. Então, quando gasta tanto dinheiro, é uma dificuldade. 

Tem um artista muito importante que chama ________, é muito famoso na China. Ele viveu no Brasil também, um tempo, a esposa dele é francesa, depois faleceu. Uma vez a filha dele chegou e quis vender o trabalho do pai dela,  cinquenta dólares cada um. No Brasil, pintura a óleo é peça de arte; pintura de aquarela, alguma coisa não tem valor. Mas você sabe o valor na China, quanto é cada um? Cinquenta mil dólares. Não, cinquenta. Cinco, zero, zero, zero, zero. Mas no Brasil a filha dele ainda só cinquenta. Esse eu não conheço a pessoa que… Se eu conheço alguém eu iria falar: “Toma uma passagem, vai pra lá. Todo mundo vai ficar doido pra comprar.” Essa arte antes da Revolução Cultural tem valor; depois da Revolução Cultural nada tem valor, todo mundo destruiu, mas desde os anos noventa a China começou a voltar pra essa arte. Agora, a China é rica também, imagina! 

(59:55) P/1 – E por quanto tempo… Até que ano você morou no Brasil e por que você saiu daqui?                

R – Porque minha filha estudava no Brasil, na Bandeirantes, uma boa escola. Ela estava sempre reclamando [que] todos amigos dela tem irmãos, irmãs; só ela era sozinha, se sentia muito só. Então, eu falei: “Você tem tantos primos e primas nos Estados Unidos! Você vai lá estudar”. Então, quando chegou na faculdade, ela foi pra Califórnia. 

Eu tenho três irmãos, cinco primos e primas. [Ela] ia ficar na mesma casa e ficar alegre. Depois, quando chegou um ano de high school, estudou em UC Berkeley, ela estudou Física e Matemática. A cabeça dela é muito boa. Então, quando formada, depois ela trabalhou… Conhece… Como fala son in law?

 

(01:02:00) P/1 – Direito? 


R – Não. Ela é casada. Depois, quando teve filho, eu e minha mulher já não tínhamos nada a fazer. Cuidamos do nenê, é como babá de graça, pra eles também é bom. (risos) Nós não temos nada a fazer de melhor. Babá de graça. Um ano atrás mudaram de empresa, foram pra Atlanta. Mas por causa da covid, de doença, nós atrasamos um ano, com medo da nossa idade, de pegar avião. Então, três meses atrás nós mudamos pra cá. 

Eu gosto daqui também. No inverno é muito frio, tem 26 graus negativos. (risos) Pode imaginar? Eu lembro uma vez que um brasileiro chegou em Pequim e começou a nevar. Quatro brasileiros, duas meninas e dois meninos. Ficaram doidos, nunca viram neve. Claro, no Brasil. Mas aqui, em Atlanta, o clima não é muito seco, não é muito frio nem muito quente. É muito bom pra viver.

 

(01:04:18) P/1 – E você voltaria a morar no Brasil, se tivesse oportunidade? 

R – Eu acho impossível, porque os amigos falaram sobre o custo de vida. Não tem como aguentar. 

(01:04:43) P/1 – E hoje em dia, o que você faz no seu tempo livre? 

R – Eu, ultimamente comecei… Meu olho não é muito bom, pra pintar é um pouco difícil, mas na juventude eu escrevia novelas, livros, romances. Quando [veio] a Revolução Cultural, eu queimei tudo. 

Eu era poeta na minha juventude. Agora comecei a lembrar, estou escrevendo um romance, já terminado, e alguns poemas. E também tem um livro de novela, de história, mas é muito longo. Tem muita história pra contar sobre a base da nossa família. Eu estou fazendo mais ou menos, nem chega a 20%. Eu espero, antes de morrer, deixar isso, mas é só pra passar tempo, porque na China não [se] pode ter essas coisas, nem mexer com política. Mas essa história da família vai, sim, mexer com alguma coisa. Nem comentar __________, nem comunismo, vai integrar essas coisas. É só pra família, só escrever, deixar pra quando um dia nossa geração, no futuro, [quiser] saber como nós vivemos essa época. 


(01:06:57) P/1 – Você já chegou a voltar, viajar pra China? 

R – Viajei algumas vezes. [Quando] Fernando Henrique Cardoso visitou a China, eu  _____. Primeiro de Aldemir, esse artista, fui eu que [fiz] contato com Taiwan, com Pequim, visitaram como grupo de artistas. Aldemir [ficou] muito contente em Pequim com essa figura de ______, [que] é uma importante pintora chinesa. Eu falei antes de partir: “Eu tenho problema de restaurante, não posso ir.” Então, eu perguntei: “Você nem fala, ela nem entendeu português”. Ele falou: “Nós não precisamos de língua. Nós entendemos tudo”. Imagina! (risos) 

Na segunda vez, [teve] artista famoso na Globo, [de] fotógrafo, tinha o Leonardo Crescenti,  Rubem Roseli, todos. Artistas, arquitetos foram pra lá, eu que organizei. Naquela época nós éramos conhecidos como ajuda de despesa. Eu, com Abelardo Figueiredo, organizei um grupo de dança folclórica [que] visitou mais ou menos vinte cidades, incluindo Xangai e Wuhan, muitas cidades. Eles, artistas, ficaram muito contentes quando terminaram a primeira apresentação. Eles chegaram me abraçando, chorando: “Eu nunca tive esse orgulho”. E também era uma época difícil, porque você sabe, brasileiro, Sampa, tudo é tão pouco mostrado. 

Na China comunista, naquela época, usaram muito a parte da embaixada, conversaram com eles. Se você viver aqui, você vê: essa arte, cada região tem esse clima de sol, de Fortaleza, tem frio… Tudo tem _____. Isso faz muito sucesso, mas eu não entendi essa parte da imprensa, só da [imprensa] local ter publicado isso. É por isso que eu tenho, ultimamente… Alguns anos atrás levei a minha família pra conhecer Xangai. Agora é diferente, muito moderna, mas você sabe, não tem [recurso] financeiro pra fazer coisas. Mas eu quero ainda poder voltar pro Brasil uma vez, é muito bom. Tenho tantos amigos pra visitar. Eu sempre gostei, quando se conhece é tão belo. Não somos jovens, mas nós ficamos muito alegres por encontrar essas pessoas. 


(01:11:55) P/1 – Nós estamos indo pra parte final da entrevista... 

R – Ok. I’m sorry. Desculpe. Eu sou bom de papapapapapa [conversar]. Eu não sabia no que vocês teriam interesse. (risos) 

(01:12:09) P/1 – Imagina, a gente quer ouvir mesmo todas as histórias. Agora, a parte que a gente vai perguntar é: quais são as coisas mais importantes pra você, hoje, na sua vida? 

R – Boa saúde e, pode ser, todo mundo ficar em paz. Você sabia? Interessa o Brasil, dá pra andar em certos caminhos, dá pra mostrar sua potência. E também querer voltar pro Brasil, eu nunca fui no Nordeste. Eu queria conhecer o Nordeste. (risos) Eu gosto muito de viajar, agora ainda é pouco possível, mas quanto mais velho, talvez não tenha mais [chance de ir]. 

Também queria levar meu neto e neta pra conhecer a terra de [minha] mãe e avô, nossa terra, pra eles saberem. Não é como a imprensa tem essa imagem. O Brasil tem uma coisa muito boa, você precisa tocar e realmente abrir o olho pra saber. 


(01:13:50) P/1 – E você tem sonhos pro futuro?         

R – Se Deus quiser! 

(01:14:01) P/1 – Por fim, como é que foi, pra você, contar toda essa sua história pra gente? 

R – É uma alegria, porque a melhor época da minha vida se passou no Brasil. Naquela época, desde chegar [como] um imigrante novo, com mulher e filha, que precisava criar. Mas eu lutei, andei, conheci essa cultura diferente, a história do local. Fomos recebidos como brasileiros, por cada um. Foi muita alegria essa vida. Eu acho muito bom. E também a comida. (risos) Disse pro meu sogro: “Realmente, comida brasileira, viu? Olha, pretinho, o que é isso?” Depois que comi: “É bom!” (risos) 

(01:15:18) P/1 – Então, Simon, muito obrigada, em meu nome e do Museu da Pessoa, pela sua entrevista. Foi incrível! Foi um prazer pra gente. 

R – Prazer é todo meu. Obrigado a vocês todos!                          

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