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História

Um Iguapense e os falares caiçaras

História de: Paulo Fortes Filho
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

Foi em sua experiência na educação que se aproximou dos povos caiçaras e escreveu o livro Falares Caiçaras. Nessa entrevista Paulo conta sobre sua trajetória de vida, a infância, sua formação acadêmica e vida profissional, suas leituras e vivências enquanto cidadão iguapense.

História completa

Projeto Museu em Rede Sete Barras Realização Instituto Peabirus, Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de Paulo Fortes Filho Entrevistado por Fernanda Peregrina e Isaac Patreze Iguape, SP, 26 de Fevereiro de 2011 Código: MRI_CB003 Transcrito por Filipe Vicente Barbaras Revisado por Juliane Roberta Santos Moreira P/1 - Obrigada pelo senhor estar aqui para dar o seu depoimento pra gente. Qual é o seu nome completo, local e data de nascimento? R - Nome: Paulo Fortes Filho, nasci aqui em Iguape mesmo, em 19 de maio de 1932. P/1 - Qual é a origem da sua família? Sua família é de onde? De onde ela vem? R - Aqui de Iguape mesmo, agora, os Fortes vieram para cá de Portugal, em 1643. Vieram, se localizaram primeiro na Juréia, depois vieram para a cidade. E conto ainda que foram três irmãos, um ficou no Recife, outro aqui em São Paulo, em Iguape, e outro em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e a família se espalhou por aí. P/1 - Então o senhor sempre viveu aqui... R - É, sempre. P/1 - ...em Iguape, né? R - Sim, vivo. P/1 - O senhor poderia descrever como é que era a sua infância aqui em Iguape, sua casa de infância? R - Olha, a vida de criança antigamente era uma vida mais controlada, mais comedida. A gente saía, brincava, ficava à vontade, mas tinha horário de chegar, sempre tinha horário de chegar em casa. Então, a gente tinha amizade com um grupo de amigos, para quem éramos mais chegados, mais próximos, esses amigos, muitas vezes a gente cultua até hoje a amizade, amizade que nasceu na infância, que reforçou nas brincadeiras do recreio do grupo escolar e na brincadeira de rua, de lá pra cá. Era uma vida calma, alegre, e de certa forma gostosa, mas havia um certo respeito, não é bem um temor, mas era um sentimento de respeito em relação aos mais velhos...ah, de que a gente fizesse alguma coisa que controlasse...ah de que a gente sentasse na mesa antes dos mais velhos sentarem, de que a gente começasse a comer antes que eles começassem a comer, mas no fundo dava tudo certo. Agora, eu não sei se eu era o mais bonito ou o mais feio [risos], mas sempre a minha avó me dava um tratamento mais especial, então a melhor parte do frango era minha, a melhor parte do peixe era minha, e eu era meio chatinho, sabe, em relação a comida; não gostava de arroz. Então eu comia, ou era batata amassada, ou cará, ou abóbora, qualquer coisa, menos arroz. Eu fui comer arroz, de maneira concreta, quando eu fui fazer o ginásio "infanto". Me lembro que escrevi uma carta para casa, eu tenho até a carta: "Olha, o arroz até que é bom, eu devia ter comido antes" [risos], mas a gente vai levando as coisas. Eu tive que sair, porque a gente estudava aqui até a quarta série, não dava certo. Depois eu comecei um estudo, não é que eu fosse ser padre, mas entrei no Pró-Juvenato do Verbo Divino em Araraquara. Fiquei lá de março até junho, depois saí, voltei pra casa, vim pra Iguape. Fiquei mais um ano aqui, fui fazer o ginásio em Santos. Passei numa admissão no Canadá [Escola Estadual Canadá], mas como eu morava no Marapé, pegava duas conduções para ir assistir a aula, eu chegava cansado, então resolvi deixar o Canadá e fui para uma escola particular, pro Tarquínio Silva. P/2- O senhor tinha quantos anos nessa época? R- Eu tinha 14, 15 anos nessa época. Fiz anos no Tarquínio Silva, fiz até a oitava série, depois mudei de ares, fui fazer o normal em Sorocaba. Andei lá em Sorocaba, fiquei quatro anos em Sorocaba fazendo o curso normal, até ia tentar fazer outra coisa mas não dava, família pobre, oito filhos, para estudar fora não dava. A vontade minha, era ser igual ao meu avô: advogado, mas não deu certo; mas continuei, fiz um curso normal, me formei, vim trabalhar em Iguape, conheço todas as escolas do município, comecei pelo Jipovura, fui pro Jairê, fui pro Inhápombocú. Inhápombocú, o pessoal do bairro achou o nome muito ruim, então resolveram mudar o nome, puseram… aliás, o bairro chamava-se Lagoa Negra, e eles achavam feio o nome, resolveram mudar, então mudaram pra Inhápombocú, ____________ Dr. Rocha, que era o engenheiro que resolvia as coisas aqui. Antes ficasse o nome antigo, era mais sonoro do que esse aí [risos], mas trabalhei lá na Barra da Ribeira, Paraty, vim para Icapara, no Icapara é que me deu elemento para formar o livro que eu escrevi Falares Caiçaras. Eu fiquei impressionado com o modo deles de falar, e fiquei interessado em saber, curioso em saber o significado de vários termos e de várias palavras que eram uma linguagem comum, normal do pessoal. Marquei tudo direitinho em um caderninho. Quando eu fui fazer o mestrado em 2001, resolvi fazer desse meu trabalho a minha tese, ela ficou guardada esperando a vez para trabalhar, e a minha tese é o livro, que está ali. Mas deu para ver direitinho as coisas, presenciei muitas cenas, muitas coisas que marcam a vida da gente o tempo todo, e fiz muitas amizades também. Só pra vocês terem uma ideia, eu tinha marcado até pouco tempo atrás 235 afilhados, que eu arrumei no sítio. Eu acho que foi isso que foi a minha base eleitoral pra me eleger vereador por quatro legislaturas [risos], mas o tempo vai passando e a gente vai deixando de lado muita coisa... P/2- Seu Paulo, desculpa, o senhor falou das vilas caiçaras, conta um pouquinho pra gente dessa diferença de uma para a outra, que o senhor falou que tem nos dialetos, nos costumes. R - Sabe o que é, o falar caiçara não é propriamente um dialeto, é um falar diferente, porque de certa forma o caiçara, ele é o habitante, morador do litoral do sul do Rio de Janeiro, ao litoral norte do Paraná, essa área é o espaço do caiçara. Em cada comunidade tem uma maneira típica de falar, alguns termos são idênticos, outros termos são mais localizados, vejam só: quando no Icapara a pessoa fala que a casa é "aficuada", é uma casa limpa, arrumada, organizada. Então têm certas coisinhas que marcam direitinho. E mesmo costumes, têm costumes diferentes, e que são típicos de todo o litoral. O caiçara, quando a pessoa morre, a primeira coisa que faz, quando sai para o enterro o corpo, da casa, a primeira coisa é limpar a casa, mas não se joga o lixo na porta da rua, se joga o lixo na porta de dentro. Então cada comunidade guarda essas características. De certa forma também em relação ao baile, as moças ficam no quarto e os rapazes ficam olhando para ver se marcam para poderem dançar. Lógico que a moça também deixou de ser boba a muito tempo, né, ela escolhe com quem quer dançar, então ela fala assim: "Não, ‘mui’ não posso porque eu já tô tirada", então ela faz como se alguém já a tinha escolhido antes, mas muitas vezes o rapaz fica preocupado, olha de lado: "Eu quero ver se é verdade mesmo, ou ela tá mentindo", então fica do lado para ver se alguém vem tirar a moça pra dançar ou não, se não arma-se aquele "sururu", e muitas vezes o baile acaba. O falar é simples, é um modo. A culinária é típica, tanto caiçara do Norte, como caiçara do Sul, é típica, até mesmo a “ponteada” da viola marca muitas vezes a passagem do pessoal. As coisinhas, elas se acomodam e se "coisam", agora, o caiçara ele tem um comportamento sui generis, típico dele mesmo. Ele não é agressivo, ele é irônico, o caiçara leva o humor como arma, é a arma dele, lógico que ele se enfurece, lógico que ele briga, mas isso só em última instância, porque o sorriso é a arma dele, o sorriso de alegria, o sorriso de acolhida, o sorriso de censura, o sorriso de solidariedade, o sorriso até de repulsa. Então o sorriso faz com que as pessoas entendam aquela maneira de se comunicar, e muitas vezes, as brigas cessam quando alguém se arma de coragem e coloca em prática tudo aquilo que ele sabe em relação ao comportamento da turma. Então por isso eu disse que o humor comanda a vida do caiçara, ele sabe o que faz, quando faz e a hora que faz, de maneira correta, de maneira certa. P/2 - Seu Paulo, conta um pouquinho da formação do senhor. No final do colégio, como é que o senhor entrou na faculdade? O curso que o senhor fez? R - O curso que eu fiz. Muito bem, eu fiz o grupo escolar aqui em Iguape, no Vaz Caminha, fiz até a quarta série, que era o que todas as crianças faziam na época. Depois, então, eu fiz lá em Araraquara um tipo de um preparatório, para fazer a admissão ao ginásio, porque havia o exame de admissão ao ginásio. Fiquei lá seis meses, saí, fui pra Santos, continuei o preparatório e passei a admissão num dos colégios mais rigorosos do estado, o Canadá, em Santos. Era um colégio de classe, igual o Culto à Ciência, em Campinas, o Canadá. Então era um colégio de ________ e eu fui classificado, passei no vestibular e comecei a estudar lá. Estudei, mas como eu falei pra você, eu morava na Marapé, a dificuldade de ir pro Boqueirão, aquelas complicações todas, tinha que acordar muito cedo, tomar duas conduções, me atrapalhou. Então eu terminei o ginásio, a oitava série, no Tarquínio Silva, ali na Vila Matias, em Santos, na Avenida Rangel Pestana. Fiz lá, depois eu fui fazer o normal em Sorocaba, no Instituto de Educação Doutor Júlio Prestes de Albuquerque. Comecei o pré-normal, que era um ano, e depois mais dois anos o curso normal. Depois de muito tempo, eu fiz o concurso para professor primário, passei, escolhi no Vaz Caminha, comecei a trabalhar, e resolvi fazer o concurso para diretor. Fiz o concurso para diretor, e a gente se atrapalha muitas vezes, não olha o edital do concurso de maneira correta, certa. Ali tinha um itenzinho, que falava que, a pessoa que tivesse dado aula no curso de alfabetização de adultos na cadeia, contava o ponto em dobro, e me ofereceram duas vezes esse cargo, e eu não aceitei, mas mesmo assim consegui passar. Não fui muito bem, de 3081 candidatos que passaram eu fui o 516. Restava trinta para eu escolher o Porto do Ribeira, mas um fulano na minha frente escolheu, então eu tive que escolher uma escola em Registro, o Grupo Escolar Luiz Guimarães de Almeida. Fiquei lá, durante um ano, e me removi para o Porto da Ribeira, como diz em ________. Depois houve alguma mudança na Secretaria da Educação, e eu fiquei pensando, eu e várias pessoas, se a gente, para o cargo de diretor, tínhamos que ter a formação em Pedagogia. Se eu não faço, é capaz que eu não perca o cargo de diretor, mas pode ser que eu fique afastado, como algum ___________ de luxo, então resolvi fazer Pedagogia em Itapetininga. Minha filha, era um sacrifício danado. A gente saía um dia sim, um dia não. Pegávamos a Kombi e íamos por Registro, Sete Barras, São Miguel, Itapetininga, dez homens numa kombi, e em Registro dez moças, que faziam o curso lá. Então a gente fazia esse trajeto muito grande, mas uma coisa é certa, os trabalhos que a gente entregava, mesmo a gente assistindo aula, um dia sim, um dia não, a gente sempre estava em dia, sempre conseguíamos ir bem. Nós… agora me lembrei de um caso; nós tínhamos uma professora, por sinal excelente professora, de Sociologia, mas muito rigorosa, ensinava muito bem, mas cobrava demais, e a gente quase que não tinha tempo de estudar, porque trabalhávamos o dia inteiro e a noite viajávamos, né. Então nós resolvemos, a turma de Iguape: "Vamos dar uma lembrancinha, um agradinho à professora de vez em quando", então cada dia, cada viagem, era escalado um, quando tinha aula dela, para levar uma lembrancinha, era uma esferinha, um _________ japonês, umas coisinhas aqui da própria região. Um dia, nós paramos lá na Bica do Tanaka, Marcone que era o responsável pra levar o presentinho. Nós perguntamos: "Marcone, trouxe?", ele falou : "Meu Deus do céu, esqueci lá em casa, mas eu dou um jeito", bom, se ele dá um jeito, tudo bem. Chegamos em Itapetininga, paramos numa loja, ele entrou lá, falou com a vendedora, e saiu com uma caixinha na mão. Fomos para a aula, assistimos a aula e ele levantou-se e veio lá: "Professora, aqui é uma pedra da gruta onde lavaram a imagem do Bom Jesus, é uma pedra milagrosa. A senhora colocando isso no filtro vai abençoar a senhora e a sua família", até hoje eu acho que a mulher tem o seixo da estrada lá no filtro da casa dela [risos], é a pedra que cresce. Albert Camus quando esteve aqui em Iguape em 1947, no livro dele tem o conto A pedra que cresce, no qual ele conta a lenda que corre em torno do chão da gruta, que com o tempo, que toda pedra, que aquela pedra sempre cresce e não acaba, então o Bom Jesus nos salvou, e a criatividade de Marcone também. Essa mulher ficou nossa amiga "pra chuchu" [risos]. Bom, fizemos o curso em Itapetininga, tudo direitinho, e depois eu fiz também duas graduações lato sensu em Santo André, São Paulo, também outro sacrifício, viajava, mas lá também era gozado, era... P/2 - Senhor, Seu Paulo, o senhor chegou a lecionar aqui em Iguape? R - Cheguei, lecionei aqui em Iguape, no Vaz Caminha e no Jeremias. Depois eu fui escolhido como diretor para trabalhar no Grupo Escolar Ginásio, era uma atividade antes da Lei 5692, da integração de quinta à oitava série. Era o Grupo Escolar Ginásio, apesar de GEG, o nome é meio feio [risos], mas era Grupo Escolar Ginásio. Fiquei lá um ano, um ano e meio como diretor, trabalhando, apesar de que a integração de quinta à oitava série até hoje não se deu ainda, porque funciona como antigo grupo escolar, e como antigo ginásio, a ideia é boa, mas falta alguma coisa para tentar fazer o entrosamento perfeito. De lá então voltei para Iguape, me removi para Pariquera, porque o grupo que eu estava em Porto da Ribeira tinha só seis classes, e havia na administração o projeto de o diretor ganhar de acordo com o número de classes que ele elegia, então pra ficar com seis classes o tempo todo, os outros iam passar na minha frente, não que o dinheiro [risos]... mas de certa forma, a gente vive disso, né? Então escolhi, deixei o Porto da Ribeira, fui pro Presidente Vargas, 22 classes. De seis pra vinte e duas, então a situação se estabilizou melhor. Aí trabalhei lá, voltei pra Iguape, e em 1980 eu fui convidado para dar aula na faculdade em Registro. Comecei a trabalhar lá, na cadeira de Educação e Estrutura e Funcionamento de Ensino; Didática. Eu funcionei até como uma peça chave, dei aula de didática, dei aula de filosofia da educação, dei de tudo. P/2 - Seu Paulo o que é que levou o senhor a ter esse interesse pela cultura caiçara? R - Olha, o fato da gente ser caiçara, morar aqui, e depois o interesse também, a curiosidade, que me despertou o modo de vida deles. É um grupo, não é bem fechado, mas é um grupo que olha os outros com um olhar, como se fosse uma coisa que analisa a pessoa de alto para baixo. O caiçara, é difícil de fazer amizade, mas quando ele faz amizade, a amizade é verdadeira, mas a pessoa tem que andar na linha, se a pessoa der um passo em falso ele isola. Então o caiçara, ele se dedica à isso, é um grupo que cultiva os seus valores, cultiva as suas ideias, e defende com unhas e dentes tudo aquilo que ele acredita, tudo aquilo que ele pensa. Não é de brigar, mas não é de aceitar de maneira pacífica. Ele fala que a gente não deve lutar, a luta enfraquece o homem, a gente deve aproveitar as condições para poder viver, porque até o vento contra, se a gente souber aproveitar a força do vento, a gente tira vantagem. Então ele fala que, a vela, se mudar de posição na canoa, ela anda, mesmo contra o vento, então não adianta lutar, tem que saber aproveitar a oportunidade para poder levar a vida. P/2 - O senhor estava comentando da lavagem do arroz, é isso? R - Aham. P/2 - Isso é uma coisa típica aqui da região? R - É uma coisa típica de toda região, como eu falei pra moça lá. O caiçara, ele pesca pouco, porque planta, ele planta pouco, porque pesca, pois ele não tem aquele caráter capitalista de _______ coisa, ele planta para subsistência, e pesca pra viver. Muito bem, então, a roça do arroz é pequena, é mais para uso próprio mesmo, o arroz é colhido em cacho, cortam o cacho à canivete, e esse arroz é espalhado no chão da sala e os moços e as moças dançam em cima. Então a dança dura a noite toda, regada com vinho pras moças e cachaça pros homens. Passou a noite inteira, quando amanhece o dia, o arroz está solto no chão e é só ensacar. Eu falei pra você, em 1947, o sociólogo Donald Pierson esteve no Icapara, e presenciou o batido do arroz no jongo. E tem até um escrito dele publicado em 1947, pela USP, Survey de Icapara, "Olhar de Icapara" se não me engano, então lá, as modinhas do jongo, são modinhas típicas de cada região, de cada época, de cada hora. Não são modas muito elaboradas, mas são modas mais ritmadas, em que a pessoa dança ao som do tambor, é um jongo estilizado. Então, o _______ tem uma maneira de dança, de cantar, o Icapara tem outra e aqui também tem outro tipo. Agora já não se faz mais, porque existe muita restrição em relação à plantação, à derrubada, à pesca. É lógico que ninguém é contra as leis ambientais, de maneira nenhuma, mas o que a gente tem que levar em conta é que o caiçara mora aqui, vive aqui. A legislação cuidou do caramujo, da formiga, do jacaré, da serpente, da capivara, do macaco, mas esqueceu de olhar o bicho homem, então o bicho homem também tem que ser levado em consideração, ele não pode derrubar, não pode plantar. Dificilmente a gente encontra roça de arroz, ou roça de mandioca, porque alguma coisa deve estar errada. Não digo que não foi um avanço as leis ambientais, lógico que foram, lógico que o ambiente tem que ser preservado, mas também temos que levar em conta o morador da área, da região. Eles moraram o tempo todo ali e não foram eles que degradaram. Sobre o arroz então, tem uma musiquinha, eu não sei dá pra cantar aqui, que fala assim, essa é do Icapara [entrevistado canta]: "O padre sempre se benze quando vê a moreninha, fica toda arrepiado, com a dona pimentinha", e aí vai. Então têm umas coisas que mexem com o povo, mexem com a coisa e animam a noite toda, lógico, não cantam só essa, são várias, mas passada a noite, vencida a noite, amanhece o dia, aquele arroz é ensacado, e depois vai ser pilado para poder ser usado e aproveitado. P/2 - Seu Paulo, o senhor acha que a cidade mudou muito de antigamente para agora? R- O que foi? P/2 - O senhor acha que teve muita mudança na cidade, de antigamente para agora? R - Olhe, uma mudança gradativa, o tempo sempre faz a mudança, o tempo sempre muda, agora, a gente tem que conviver com a mudança para poder aproveitar as coisas boas que ela traz, e trabalhar para que as coisas não se degradem, o estilo de vida mudou, a característica de vida mudou. Antigamente, o ambiente era mais familiar, veja só, quando uma pessoa fazia uma viagem pra São Paulo, uma viagem de ônibus, que levava quase o dia inteiro para ir, havia o ritual de despedida. A pessoa ia de casa em casa, dos parentes, dos amigos, se despedir, porque ia viajar, e logicamente pegava também encomendas, pra comprar uma coisa, comprar outra. E quando voltava era a mesma coisa, ia de casa em casa, para poder prestar conta daquilo que viu, daquilo que falou. Hoje já é diferente, cada um, a maioria tem seu carro, sua condução, suas coisas, então esse sentimento de união que ligava as pessoas, as famílias e os agregados parece que foi diluindo com o tempo. Acho que a mudança maior é em termos de comportamentos mesmo. Veja só, em Iguape também, alguma coisa se degradou em termos, haviam clubes que reuniam famílias, agrupamentos, isso parou. Veja que em 1920, até as mulheres eram bem ativas, tinham uma agremiação, As Violetas, era um grêmio, um clube, liderado por mulheres. Elas que organizavam palestras, bailes, conferências, saraus, chás, excursões, passeios, e os homens também tinham os seus. Haviam as mulheres de um grupo político e de outro grupo político, sempre a bendita, ou maldita, política a separar as pessoas. Mas até as crianças tinham clubes isolados, clubes separados. Hoje a gente percebe que clube já não existe mais, existe algum agrupamento, alguma coisa, mas o clube naquele sentido de organizar as pessoas, não. Veja, no Clube 15, ao lado de onde era a Casa Paroquial, havia o costume, eu sempre acompanhava o papai, às oito horas o café no clube. Ele saía comigo, subia a escada, tomava café e descia. Eu me lembro que nessa escada do clube, eu levei a primeira bofetada da minha vida, ele estava em cima, e eu estava subindo com o cigarro na boca [risos], me lembro até hoje, não sei se eu engoli o cigarro, ou onde foi parar esse cigarro, ele também não disse nada, só praticou o ato. Nunca mais fumei, eu fui fumar 39 anos depois, quando me removi pra Pariquera, aí aquilo empacou na minha cabeça [risos]. Mas essas coisas separam direitinho, o Camus no livro dele, no conto, fala desse ritual do café. No Clube 15, era ali que se encontravam as pessoas gradas da sociedade, para baterem papo, para conversar, e havia o carteado também, né? A mudança maior é a mudança de caráter social. P/1 - Uma coisa que o senhor disse antes, a primeira vez que o senhor saiu da cidade foi pra estudar, né? R - Foi pra estudar. P/1- Como é que foi sair da cidade de Iguape e ir morar em outro lugar pra estudar? R- Olhe minha filha, não dá nem pra pensar. Aqui, parece que esquenta o coração da gente. Quando eu fui viajar, fui pra Santos, primeira saída, eu fui com um tio. Aquilo parece que rememorava na cabeça da gente tudo aquilo... o Diegues tem um livro, onde ele conta esse trajeto, essa fase que aconteceu como ele, com o Seu Gabino, ele e o Seu Gabino, que era o pai dele, na viagem que ele fez. Então, ele relata a viagem até São Paulo e o drama que ele sentia, na chegada lá, até se adaptar, até se acostumar, até se entrosar com o pessoal. Eu me lembro que eu, em Santos vivia mais isolado, custei a formar amizade, porque a gente sempre pensa, porque o iguapense tem uma característica muito grande, ele não abandona a cidade, a cidade vai com ele, vai dentro do coração dele, então ele pode estar em qualquer lugar, mas ele vai [leva a mão ao coração]. Paulo Moutinho tem um artigo escrito no O Estado de São Paulo, ele fala que andando em Paris ou em qualquer parte do mundo, a gente conhece quem é o iguapense, porque o iguapense é um tipo peculiar, ele demonstra de maneira clara de onde veio, e para onde ele pretende ir, porque ele não pretende ficar. Ele é um viajante, que não finca raízes, ele sempre pensa em voltar, sempre pensa em vir. Então é difícil mesmo, agora, eu me dei melhor com a turma de Sorocaba, quando eu fui fazer o normal. Então lá eles me acolheram de maneira simpática, sabe, uma turma muito boa. Por sinal em 1953, eu estive lá em Sorocaba, no quinquagésimo aniversário da nossa formatura, dos 55 que estudaram comigo, 4 tinham morrido, mas todos estavam lá, e a gente lembrou... lógico, antes era uma fisionomia diferente, depois a gente já tinha uma fisionomia mais abatida, mais cansada [risos], mas foi uma coisa gostosa. Lá em Sorocaba, houve um acerto entre as pessoas, que eu fiquei sabendo depois, que antes eu morava em pensão, e pensão é sempre complicada a coisa, né, então aos domingos, um aluno, uma aluna, sempre me convidava pra passar na casa deles, então era um domingo alegre, um domingo festivo. Eu me lembro que no meu primeiro aniversário, uns dias antes, eu percebi uma coisa meio estranha nos alunos, um chegava com o outro, cochichava, falava para o outro, eu pensava comigo: "Meu Deus, o que foi que eu fiz? Será que eu fiz alguma coisa que desagradei, ofendi alguém?", não, eles estavam se organizando para fazer a minha festa de aniversário. Então além deles fazerem minha festa, eu ainda ganhava presente, mas olha, foi uma turma muito boa, sabe, que me deu... Eu me lembro, ainda em Sorocaba, apesar de ser uma cidade grande, mas tinha característica de cidade do interior. Uma noite, um sábado a noite, eu estava na praça, havia o footing na praça, os moços e as moças, o alto falante tocou lá de vez em quando Saudades de Iguape, o hino nacional de Iguape. Aquilo fez com que, sem querer, a lágrima caía do olho à toa, um rapaz, um colega, perguntou: "O que é que houve, tá se sentindo mal?", "Não, é a música" [risos]. Depois também, para matar a saudades, em Sorocaba, tem uma escola, Antônio Padilha, que é a mesma construção do Vaz Caminha, então às vezes eu me sentava na calçada em frente ao Antônio Padilha, às vezes com o olho aberto, às vezes como olho fechado, me recordando: "Aqui é a rua de casa", então estava ali mais pra poder matar o tempo. Mas olhe, foi um tempo gostoso, um tempo que a gente viveu bem. P/2 - Seu Paulo, como é que foi pro senhor contar um pouquinho da história do senhor pra gente? R - Como? P/2 - Como o senhor se sente em contar um pouquinho da sua história pra gente? R - Olhe, a gente se sente aliviado, parece que volta ao passado, porque a lembrança é viva. É como se a gente subisse o rio contra a maré, da foz, até a fonte, até a nascente, mas vai lembrando coisas boas, e muitas vezes, também, coisas tristes, mas as coisas tristes a gente não dá muita importância, a gente dá mais valor aquela coisa alegre, aquela coisa que marcou de maneira firme a vida da gente. Mas é uma coisa que deixa a gente alegre, consciente, disposto, e parece que a terra é nossa, não mostra os 79 anos que a gente tem, não sei se era isso que você queria que eu falasse. P/2 - Mais alguma pergunta? P/1 - Não. P/2 - Então Seu Paulo, em nome do Museu da Pessoa e do Instituto Peabirus, a gente agradece pela entrevista do senhor e muito obrigado. R - Olhe, eu não sei se... P/2 - Eu... R - Desculpe, não sei se era isso que vocês queriam, mas desculpe qualquer coisa. P/1- Obrigada. R - Tá bom, então tá. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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