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História

Um ícone da Tijuca

História de: Sebastião Fonseca de Arruda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

De infância humilde numa comundiade no interior do Pernambuco chamada Frei Miguelinho a um dos garçons mais renomados da Barra da Tijuca, Sebastião conta sua trajetória ao Museu da Pessoa. Nos conta um pouco de sua infância simples na roça auxiliando na produção de farinha de mandioca, até a migração ao Rio de Janeiro para ir de encontro aos seus irmãos que já haviam migrado anteriormente. Ainda, nos detalha sua vida e experiência em trabalhar nas mais diversas funções em restaurantes cariocas.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Fonseca.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Gostaria de começar a nossa entrevista, pedindo que você nos forneça o seu nome completo, o local de nascimento e a data de nascimento, por favor.

 

R – Sebastião Fonseca de Arruda, nascido no dia 1 do... Falhou.

 

P/1 – Que mês que você nasceu?

 

R – 19 de janeiro.

 

P/1 – Ah, você nasceu 19 de janeiro...

 

R – 19/01, 19/01/1955.

 

P/1 – Em que cidade, Fonseca?

 

R – Frei Miguelinho, Pernambuco.

 

P/1 – E aonde é que fica essa cidade, assim, no contexto do Estado?

 

R – Essa cidade, ela fica entre Caruaru e Recife.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Severino Fonseca de Arruda e Maria (Gerdino?) de Jesus.

 

P/1 – E a profissão deles?

 

R – Agricultor.

 

P/1 – E os seus avós, você conheceu, lembra-se deles?

 

R – Conheci, lembro-me deles todos. Menos a avó, a mãe do meu pai que eu não conheci. Mas o pai do meu pai, os pais da minha mãe conheci todos.

 

P/1 – Você pode me dar o nome deles, você lembra? O primeiro nome.

 

R – Um chamava-se Manoel Maximiliano de Oliveira, o pai da minha mãe e o outro Manoel Fonseca, não tenho certeza se era de Arruda.

 

P/1 – O que você lembra desses avós? Qual é a sua memória dos avós?

 

R – Eu lembro que eu ia para casa deles, fiquei muito na casa deles. Ficava muito tempo na casa deles, tanto do pai da minha mãe, como do meu pai.

 

P/1 – E era na mesma cidade?

 

R – A casa do pai do meu pai ficava mais distante, ficava já em outra cidade.

 

P/1 – Qual cidade?

 

R – Ficava em Frei Miguelinho e eu ficava mesmo no povoado chamado Chão do Carmo, que era uma vila Distrito de Frei Miguelinho.

 

P/1 – Como é o nome do teu povoado?

 

R – Chão do Carmo

 

P/1 – Chão

 

R – Chão do Carmo

 

P/1 – Chão

 

R – Do Carmo.

 

P/1 – Do Carmo.

 

R – Isso. Foi aonde eu nasci e me criei.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho irmão. Tenho três irmãos, o mais novo sou eu e tenho cinco irmãs.

 

P/1 – Me conta, então, um pouquinho, você conhece um pouco da história da sua família? A sua família está muitos anos em Pernambuco, todo mundo é nascido em Pernambuco?

 

R – Todo mundo foi nascido e criado lá.

 

P/1 – Os seus avós também?

 

R – Também. Todos eles foram nascidos e criados lá. Meus irmãos vieram todos eles aqui para o Rio de Janeiro, todos eles trabalharam muito tempo, voltaram, fiquei eu e o mais velho aqui. Tudo no ramo de restaurante também.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É.

 

P/1 – Então antes da gente chegar ao Rio de Janeiro, queria que você me contasse um pouco quais são as suas memórias de infância nesse povoado que você nasceu?

 

R – Lembro muito. Trabalhei muito na roça, na época. Trabalhei muito na roça com o meu pai, com a minha mãe. Fiz muito trabalho lá e depois meu irmão ligou para mim, disse para mim, vim para cá e voltei, vim trabalhar aqui no Rio.

 

P/2 – Como é que era esse trabalho na roça? O que é que você fazia?

 

R – Na roça, de manhãzinha, você chegava à roça, tinha que limpar o mato. Aí, com enxada, tinha que plantar milho, feijão, batata doce, aipim, mandioca, entendeu?

 

P/2 – Trabalhava na colheita também?

 

R – Na colheita também. Você limpava o mato todo, fazia todo o trabalho, limpava ______ e sempre limpando e você vendo a roça crescer, a lavoura crescer. Aí você, quando crescia, tirava tudo e colhia o milho e a mandioca para fazer a farinha.

 

P/1 – O que a sua mãe fazia em casa? Vocês faziam farinha para consumo, ou, por exemplo, vendia...

 

R – Minha mãe ajudava também. Para consumo, era para consumo que a gente fazia. Minha mãe ajudava muito na casa de farinha também.

 

P/1 – Como que é uma casa de farinha, Sebastião?

 

R – Uma casa de farinha é um troço muito bem... Dá muito trabalho. O troço é um problema. Casa de farinha, você tem que plantar a mandioca, esperar ela crescer. Depois você tem que arrancar mandioca, tem que raspar a mandioca todinha. Tem que moer. Agora não, que já tem motor. Na época moía com a rodona grandona. Pegava aquilo ali, rodava e rodava. Na época eu era pequeno, nem aguentava rodar direito, mas tinha que rodar. Pegava aquilo numa manivela, ficava rodando e uma senhora botando lá mandioca lá na... Que a gente chama de caititu

 

P/1 – Como é que chama o quê?

 

R – De caititu.

 

P/1 – Caititu?

 

R – É, é o rodete. Um chama de caititu, outro chama de rodete. Bota aquela mandioca ali, aquilo vai moendo e vai caindo só aquela massa embaixo. Depois pega aquela massa e leva para uma prensa. Na época, hoje não, que é tudo moderno. Já têm os paneiros, que ele chama de paneiro, é de nylon. Na época tinha que ir lá à roça, no mato, longe, pegar folhas de coco, aquele coquinho pequeno, que eles chamam de coco catolê, outros chamam de coco babaçu, tirar aquelas palhas para cortar todinha, fazer aquelas esteiras para botar massa. Depois virava por cima da outra, botava o que a gente chama de brinquete. Coloca aquele brinquete ali, depois roda um fuso, aí a prensa amassa. Tira, desfaz tudo na mão, depois que você desfaz aquilo ali, vai peneirar todinha. Tira a ______ fora, deixa só a massa limpa. Depois você leva no forno, aí já tem que arrumar madeira antes para botar no forno ali durante... Enquanto a farinha está torrando, você tem que botando lenha no forno e não pode botar muito, tem que ser controlado, senão queima a massa e não dá o ponto. Tem que ficar mexendo com o rodo para lá e para cá, até dar o ponto, tirar, botar no saco. Botava nos animais e levava para casa porque carro não tinha, tinha que ser os animais, cavalo, burro.

 

P/2 – Era trabalho para o dia inteiro então?

 

R – Trabalho para dois dias, é muito complicado uma farinhada, dá muito trabalho.

 

P/1 – Mas para a gente tentar entender, quer dizer, a farinha era um bem muito importante, por exemplo, na tua alimentação naquela época?

 

R – Era porque a nossa alimentação é mais farinha, milho e feijão, né?

 

P/1 – Era uma vida muito dura, quer dizer, vocês...

 

R – Muito dura, muito, muito trabalhosa. Inclusive até não estudei não tive, não tinha tempo de estudar. De manhãzinha, o povo chegava quase de noite em casa, não tinha como estudar. Saí de lá muito novo, cheguei aqui também, arrumei emprego. Comecei trabalhar dia e noite, dia e noite, dia e noite também já não tive mais tempo nem de estudar direito.

 

P/1 – Você, então, chegou frequentar ou não frequentou escola?

 

R – Frequentei escola, mas muito pouco. Fiz uma primeira série ali muito... Não cheguei nem a terminar a primeira série.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É.

 

P/1 – Agora, para a gente entender, por exemplo, a roça de vocês, era uma roça para consumo ou era para comerciar? Era para ser vendido para...

 

R – Para consumo não. Era só para consumo mesmo. Nosso feijão que a gente lucrava era só para o consumo de casa mesmo. Lucrava o feijão todinho, botava para secar. Depois batia ou debulhava todinho na mão, depois botava no depósito, armazenava aquilo ali e fechava para ir comendo durante o período do verão, da seca. No outro inverno, quando vinha o mês de maio, abril, maio, a gente botava, plantava de novo e ia colhendo de novo outras sementes novas.

 

P/1 – Mas vocês, por exemplo, iam trabalhar em roças de outras pessoas?

 

R – Já trabalhei em muitas. Meu pai tinha terreno, na época tinha muito terreno, mas só que ele adoeceu, teve um problema na vista e gastou muito. Fazia tratamento muito distante de casa e na época ele tinha que vender o que ele tinha. Foi vendendo, vendendo. Depois vendeu uma casa no sítio, comprou essa casa em Chão do Carmo, que é aonde fui bem novinho, inclusive não lembro nem de ter chagado lá. Depois desse tempo que ele comprou essa casa nesse povoado, a gente ficou lá, mas ele não tinha mais terra. A gente arrumava terra com os pessoal, pagava uma taxa lá para poder botar o roçado.

 

P/1 – Mas para o teu consumo? Era sempre plantar para comer?

 

R – Para o consumo porque para vender não tinha, não dava. Só quem tinha muito dinheiro que tinha um trator, tinha muita terra, aí sim. Podia botar trabalhador à vontade, botar muito roçado, quando dava, eles arrumavam muito, vendia.

 

P/2 – E você chegou a trabalhar, na plantação desse pessoal que fazia para vender, produzia para vender ou...

 

R – Cheguei trabalhar para os outros também.

 

P/2 – Chegou?

 

R – Cheguei. Antes de eu vim para o Rio, trabalhei muito, muito.

 

P/2 – Como é que era esse povoado, quais são as lembranças que você tem desse povoado que você passou a infância? Descreve para gente como é que era?

 

R – Ah, a lembrança continua as mesmas. Chegou lá, ainda me lembro dos roçados, das terras todas de onde trabalhei, aonde a gente fazia refeição, 12:00, debaixo das árvores lá, entendeu?

 

P/1 – Mas, por exemplo, você consegue me dizer assim, quantos habitantes tinha para a gente entender? É, por exemplo, muito menor do que Caruaru?

 

R – É menor, é menor. Ela é um povoado, assim, tamanho da Tijuca mais ou menos.

 

P/1 – E, por exemplo, tinha comércio? O que vocês precisavam comprar? Vocês plantavam a maior parte das coisas para comer, mas o que você precisava para comprar?

 

R – Às vezes, o que você comprava era... Por exemplo, na seca comprava até água.

 

P/1 – Água.

 

R – Água. Tinha que comprar por lata. Chegava lá naqueles açudes, era comprado por lata. Então, levava o animal lá com três, quatro latas, ou seis, comprava o que precisava e sempre compramos água no verão porque acaba.

 

P/2 – Quanto é que custava uma lata d’água?

 

R – Naquela época eram centavos, não lembro mais, eram centavos, era... Mas eu que apanhava mesmo nas costas. Às vezes quando era poucas assim, duas latas, eu ia às costas mesmo. Eu botava uma lata de um lado e do outro, botava o _____ nas costas e trazia. Chama de galão, né? Trazia um galão, dois. Eu sempre fui da roça. Depois que vim embora para cá, fiquei aqui e não voltei mais. Mas quando chego lá, ainda lembro de tudo, conheço todos os açudes que apanhei água, conheço todos os roçados que trabalhei. Ainda têm pessoas com cento e poucos anos que trabalhei para eles, vivos.

 

P/1 – Ah, é? Olha só.

 

R – Têm pessoas com cento e poucos anos vivo lá, que trabalhei com ele lá. Invés de trabalhar para o meu pai, trabalhava para o meu pai, dois, três dias e dois, três dias trabalhava para ele para arrumar um dinheiro para mim. Meu pai não podia dar porque também vivia na roça, não tinha dinheiro. Então tinha que trabalhar para os outros para poder arrumar.

 

P/1 – E a sua mãe, fala um pouquinho dela, ela teve uma vida dura à beça?

 

R – Minha mãe sempre cuidou da casa, cuidava da casa. Meio dia ia para o roçado, levava comida da gente pronta. A gente estava no roçado, para a gente não vim para casa que era muito distante, levava a comida. A gente almoçava ali, depois minha mãe voltava, vinha embora e a gente continuava o trabalho até de noite. Quatro horas, cinco horas ainda tinha que arrumar algumas madeiras para trazer para guardar em casa, para às vezes fazer farinha, às vezes queimar no fogão de lenha. Lá era lenha ou carvão. Então a gente sempre arrumava aquilo e trazia e a minha mãe sempre trazia lenha também, madeira, sempre cuidou da roça também.

 

P/1 – Mas, por exemplo, um dia de noite, quer dizer, você tocava músicas, tinha rádio, como é que era isso? Você tem essa lembrança?

 

R – Na época televisão não existia, televisão não existia. Só existia na cidade grande mesmo, mas isso já ficava muito distante. Depois compraram uma televisãozinha, botaram lá e já ficava aquele montão de gente no meio da rua, assistindo televisão de noite, da casa dos outros. Às vezes, quando eles estavam de bom humor, deixava a gente ver, às vezes fechava a janela, a gente não via mais.

 

P/1 – Ah, a televisão ficava dentro da casa do...

 

R – Dentro da casa.

 

P/1 – E o povo ficava do lado de fora ouvindo.

 

R – O pessoal ficava do lado de fora. Depois a prefeitura foi, comprou uma televisão e botou lá no meio da rua. Fez uma torre no meio da rua, botou e todo mundo via televisão. Isso em 1971 para 1972.

 

P/1 – Você lembra do primeiro dia que você viu televisão?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta como é que foi, Fonseca?

 

R – Primeiro dia que vi a televisão, televisão era muito ruim. Piscava muito, não era legal, as imagens eram horriveis e a gente doido, curioso para ver aquilo ali e muitas vezes a gente queria assistir muito filme do Zorro, que eu adorava aquilo.

 

P/1 – Zorro.

 

R – É, o Zorro na época. Eu era doido para ver.Telecatch Montilla também. Telecatch Montilla, às vezes saía como daqui, às vezes mais longe do que daqui da Tijuca de pés. Só dentro do mato, de noite, dentro dos matos, só naquelas estradas de mato, ia para casa de uma irmã minha, que ela morava lá só para mim ver aquela luta de Telecatch na época. Na época eu ia só ver aquela luta. Não tinha televisão, não tinha diversão, não tinha nada.

 

P/1 – Não tinha.

 

R – Não tinha. Eu tinha um rádio de pilha daqueles pequenininhos na época, que era a única coisa que eu escutava música nele. Só.

 

P/1 – Alguém tocava instrumento? Tem alguma coisa de tradição nesse lugar de música?

 

R – Não. Tem, mas longe, de Caruaru tem tudo. É forró, é maracatu, é tudo lá em Caruaru. Mas a gente já era separado disso aí. Não tinha como a gente ir. Às vezes tinha um forró com uma sanfona. O camarada arrumava uma sanfona, fazia uma festa, mas o pai já não deixava a gente ir porque a gente era muito novo e ele não gostava que a gente fosse em forró, não gostava que a gente fosse em negócio de festas assim. Não gostava muito não. Os meus irmãos mais velhos até iam, mas eu mesmo nunca cheguei a ir. Por exemplo, meus irmãos, minhas irmãs, tudo aprenderam a dançar, meus irmãos. Eu nunca dancei. Nunca aprendi e também não interessei muito não. Agora sempre sou apaixonado por música, adoro música.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É.

 

P/1 – O que é que você gosta?

 

R – Na época, se eu pudesse, acho que hoje eu seria músico.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – Mas o que você gosta? Gosta, assim, de ouvir que instrumento? Tem alguma coisa predileta?

 

R – Não, adoro é guitarra e música de Roberto Carlos.

 

P/1 – Ah, é? Qual que é a tua predileta? Tem música?

 

R – Todas elas do Roberto.

 

P/1 – Mas isso é desde a época de Pernambuco ou mais daqui?

 

R – Desde a época de Pernambuco, eu sempre vivi com radinho de pilha no ouvido, só escutava Roberto. Acabava um, eu começava mudar de estação só para ver se encontrava outra.

 

P/2 – Você lembra qual foi a primeira que você ouviu, que fez você gostar das músicas dele?

 

R – Rapaz, “a história do homem mal” marcou muito. Até hoje tenho ela. (risos) “História do homem mal”, “ninguém vai tirar você de mim”, aquelas músicas antigas, as canções. Aquelas antigas todinhas até hoje tenho elas todas em casa porque no dia da minha folga é só o que eu faço. Televisão já não gosto muito. Só um jogo do Brasil, um jornal, mas eu gosto mais de música. No dia da minha folga, eu pego música só e...

 

P/1 – Você já assistiu alguma vez o Roberto ao vivo?

 

R – Seria um dos sonhos da minha vida.

 

P/1 – É?

 

R – Seria o sonho da minha vida seria ver o Roberto Carlos ao vivo. Nunca tive tempo de ver.

 

P/1 – É? Mas vai ver. Ainda tem tempo, ele ainda está aí, né?

 

R – Está aí, tenho fé em Deus em ver. Todos os shows do Roberto eu não consigo ver porque eu trabalho.

 

P/2 – Mas ele nunca apareceu lá na ______...

 

R – Não, já ouvi muitos. Inclusive já tomei cerveja ______ falecido Raul Seixas na época. Sidney Magal trabalhou comigo. Na época ele era calouro, cantava no Rincão Gaúcho na época. Começava. A época dele também era muito apertada, muito. Eu fiz muitas coisas para ele, você nem imagina, entendeu? (risos) O Sidney Magal, Raul Seixas, eu já vi muito eles. E muitos artistas eu já vi. Agora o Roberto mesmo eu nunca cheguei a ver não.

 

P/1 – Então me conta um pouquinho, quer dizer, o que os teus irmãos, qual foi o primeiro irmão que veio para o Rio de Janeiro?

 

R – Meu irmão foi o mais velho. Ele veio aqui para o Rio de Janeiro, arrumou emprego numa churrascaria...

 

P/1 – Que ano isso, Fonseca? Você consegue...

 

R – Isso em 1968 mais ou menos. 1968 para 1969.

 

P/1 – Você tinha quantos anos quando ele...

 

R – Na época estava bem novo ainda. Não lembro quantos anos tinha na época. Ele veio para cá, arrumou emprego nessa churrascaria. Começou trabalhar como copeiro também, aquele preparando as bebidas, que chama de... Uns chamam de copeiro e outras chamam de Bar Man. Então eles começaram a arrumar... Ele arrumou esse emprego no Rincão Gaúcho e começou trabalhando. Era quem mandava dinheiro para o meu pai. Todo mês ele mandava um dinheiro para o meu pai e aquele dinheiro que ele mandava, a gente comprava alguma coisa que a gente não tinha. Por exemplo, feijão a gente tinha, quando a gente lucrava o feijão, tinha. Esse a gente não comprava. Quando a gente tinha o milho, a gente não comprava o milho. Então aquilo ali era para comprar uma carne, para comprar, às vezes, um remédio, era para apagar uma luz, era para pagar uma dívida que tinha de, às vezes... Por exemplo, o comércio era muito pequeno, não tinha supermercado, não tinha nada. Era vendas, que chama de bodega. Aquelas venda ali...

 

P/1 – Ah, chamava de bodega lá?

 

R – É, de bodega. Então naquelas bodegas era onde comprava. Às vezes não tinha o dinheiro, pessoal todo conhecido, nascido e criado todo junto ali, eles tinham a venda, a gente comprava fiado, às vezes uma carne, comprava ovo, um óleo, entendeu?

 

P/1 – Vocês tinham criação de bicho?

 

R – A gente criou muitos bichos. É galinha, criou gado, mas depois quando mudou do sítio, teve que vender tudo. Vendeu o gado, vendeu galinha, vendeu tudo. Chegou na rua, a minha mãe não queria mais criar as galinha porque no sítio era solto lá na roça e na rua ela não queria criar porque ela disse que aquelas galinhas da rua ela não comia, que era solta na rua.

 

P/1 – O que você chama na rua é então no vilarejo mesmo, sem ser na roça?

 

R – Isso. Porque na roça era no sítio. Era só mato mesmo. Ali era só mesmo só roça e na rua não. Na rua era muitas casas junta e não tinha como criar galinha solta no meio da rua. A minha mãe não queria criar.

 

P/1 – E roupa, ein? A sua mãe costurava ou vocês tinham como...

 

R – Não, roupa a gente, às vezes, comprava feita. Ou às vezes comprava o tecido e mandava fazer. Tinha pessoas que fazia, entendeu? Tinha pessoas que fazia a nossa roupa, tirava medidas e fazia. Às vezes quando a gente não mandava fazer, comprava feita, às vezes comprava camisa feita ou às vezes comprava o pano mandava fazer a calça ou a camisa.

 

P/2 – Você tem alguma lembrança de comércio de loja, além dessas bodegas que você falou? Mais alguma coisa que te marcou, que você lembre desse período?

 

R – Lembro sim. Aquelas vendas que tinha lá, sempre gostava primeiro, que gostava dos donos dela, eles também gostavam de mim, os donos da venda. Inclusive até trabalhava para eles. Na época eles até saíam, dizia: “Eu vou tomar um café ali, dá uma olhadinha para mim.” Eu ficava sempre olhando para eles a venda. Às vezes muita gente chegava para comprar alguma coisa, eu vendia. Quando ele chegava, o dinheiro que eu vendi está aqui. Sempre entregava o dinheiro para ele, que vendia o negócio lá e sempre confiava muito em mim. Eu sempre trabalhava com eles e tudo até, eram muito meus amigos. Até quando eu vim aqui para o Rio de Janeiro, mandava presente para mim de lá. Mandava aqueles doces de lá que eu gostava, que eles sabia, né?

 

P/1 – Que doces, Fonseca?

 

R – Era aquelas mariolazinha que tinha na época. Aqueles... Tinha uma bolachinha também, uma escurinha assim também que eles vendiam muito no Nordeste e aquilo ali eles mandavam para mim de presente, quando vinha alguém de lá, trazia para mim aquilo ali. Eles sempre mandavam.

 

P/2 – Acontecia de você ou seus irmãos reunir... O seu pai reunir a família toda e vocês irem para uma cidade próxima para comprar alguma coisa, para ir numa feira de repente?

 

R – Muitas vezes, muitas vezes. Frei Miguelinho era a cidade. Então...

 

P/1 – É Frei Miguelinho.

 

R – Frei, fé, Frei Miguelinho. Então essa cidade fica mais próxima a essa... Hoje já está grande também, está quase uma cidade também essa vila que a gente morava. Então, na terça-feira é a feira de lá. Então a gente sempre ia para lá fazer compra. Tinha um caminhão que ia, a gente ia, chegava lá às vezes, o meu pai, os meus irmão, ou a minha mãe ia com o meu pai e os outros, às vezes, não ia porque ficava trabalhando. Ia trabalhar, ia algum, dois ou três ia à feira fazer as compras. Aí chegava lá, comprava carne, peixe, comprava feijão. Comprava aquelas coisas necessárias e trazia para casa na feira.

 

P/2 – E aí vocês faziam tipo uma escala ou ficavam disputando para ver “não, agora vou eu” ou depois, tal...

 

R – Não, quando alguém precisava... Não, às vezes precisava de comprar uma sandália, precisava de comprar um sapato, aí esse ia. Mas no dia que não precisava, ninguém ia. O meu pai falava: “Você vai fazer o que na feira? Vai comprar alguma coisa?” “Não.” “Então você fica em casa. Vai fazer isso, isso e isso”, entendeu?

 

P/1 – Havia uma diferença de educação para as moças e para os rapazes? Por exemplo, a moça também trabalhava na roça?

 

R –Também trabalhava na roça também. Todos eles sempre trabalhavam na roça lá. Minha irmã foi professora muito tempo. Minha irmã foi professora.

 

P/1 – Quer dizer, as moças, chegava a estudar, fazer um Primário?

 

R – Estudaram, estudaram.

 

P/1 – As meninas?

 

R – As meninas estudaram.

 

P/1 – Os meninos não?

 

R – O menino não. O menino... Todos os três são analfabetos. O único que ainda sabe assinar o nome, ainda sabe de alguma coisa sou eu, que eu comecei na primeira série ali e tal, depois vim embora também, não... Mas eles mesmo não sabem assinar o nome, os três. São analfabetos todos os três. Agora as mulheres, todas elas sabem ler e escrever. Minha mãe sempre leu e escreveu bem.

 

P/1 – Sua mãe?

 

R – É, o meu pai também é analfabeto, não sabe ler, nem escrever porque foi criado do mesmo regime também de roça, só cuidando de roça, nunca foi em escola, nunca frequentou escolinha nenhuma, analfabeto.

 

P/1 – Quer dizer, a responsabilidade, então, do trabalho da roça era dos homens?

 

R – Dos homens.

 

P/1 – E as meninas podiam estudar?

 

R – Isso, mas elas também, às vezes, elas também ia lá na roça também. Elas também iam, limpava mato, fazia muitas coisas também.

 

P/1 – Mas por exemplo, a água quem pegava era vocês?

 

R – A água era a gente. Tinha que ser os homens. Vai buscar água lá no rio ou na barragem, a gente chegava lá, colocava água, trazia para casa. Às vezes nas costas ou às vezes animais a gente levava os animais, enchia as latas, botava e trazia. Isso longe, muito distante.

 

P/1 – É?

 

R – É. O sofrimento era grande.

 

P/1 – Imagino.

 

P/2 – Vocês tinham muitos animais, porcos, ou não tinham, como que é...

 

R – Não, já criamos muito porco também. Já tivemos porco, cabrito, ovelha. O meu pai já criou muita ovelha, muito carneiro, mas depois vendeu tudo quando a gente saiu do sítio. Vendeu tudo, aí acabou. Depois não criou mais nada.

 

P/1 – Então, Fonseca, vamos começar entrar nessa parte mais de Rio de Janeiro, por que este teu primeiro irmão veio para cá para o Rio? Por que? Quem é que já vivia no Rio, o que se ouvia falar do Rio de Janeiro lá em sua cidade?

 

R – A gente ouvia falar do Rio de Janeiro que tinha muito emprego na época, né?

 

P/1 – Isso você está falando final da década de 60?

 

R – Isso. Naquela época tinha muito emprego aqui no Rio de Janeiro. Você chegava aqui no Rio procurando emprego, qualquer lugar que você ia, você arrumava na hora. Era de copeiro, era de garçom, era de faxineiro, era de churrasqueiro, era de ramo de restaurante. Era até vigia, era em obra. Em obra tinha uma placa grandona lá, “precisa-se de servente, pedreiro, carpinteiro.” Hoje você chega, não tem mais emprego em obra, não tem mais emprego em restaurante, não tem mais emprego em nada porque os que estão ali, estão dando graças a Deus enquanto está trabalhando porque se sair não arruma mais, entendeu?

 

P/2 – E essa época, a capital já tinha saído daqui do Rio, já tinha ido para Brasília ou continuava sendo aqui?

 

R – Já era Rio de Janeiro. Já... Guanabara já tinha mudado a pouco tempo. Só não tinha a ponte quando eu cheguei. Só não tinha a ponte Rio-Niterói, não tinha ainda. A gente, muitas vezes, saía com carradas de óleo de soja aqui da Tijuca, ia levar lá em Niterói. Pegava aquela barca lá na Praça XV, botava o caminhão em cima, levava, chegava lá, descarregava os caminhões de óleo de soja e trazia de volta. Chegava aqui, lá descarregava, voltava com o caminhão vazio. Depois fizeram a ponte, aí já melhorou bastante.

 

P/1 – Mas então conta, por que o seu irmão veio para o Rio? Já tinha algum parente que estava aqui, que chamou ele?

 

R – Tinha muitos conhecidos que vinha, muitos...

 

P/1 – Da sua cidade?

 

R – Isso, da minha cidade. Tinha muitos que vinha e eles arrumavam emprego e começava arrumar dinheiro e melhorava a vida.

 

P/1 – Sei.

 

R – Então, uma vez, o meu irmão tinha três que vinha, disse assim: “Vamos comigo?” Aí o meu irmão disse: “Vamos lá.” Aí tirou os documentos todos. Naquela época dava um trabalho muito grande para tirar os documentos. Tinha que tira distante lá, numa cidade grande mesmo, chamado Vertente em Taquaritinga, que em Frei Miguelinho não tirava, tinha que ser em Vertente. Eles tiraram a profissional, tiraram os documentos que não tinham e veio embora.

 

P/1 – Como é o nome desse irmão?

 

R – Esse chama-se Sodon.

 

P/1 – Sodon?

 

R – Odom.

 

P/1 – Odom.

 

R – O nome dele chama-se Odom Fonseca de Arruda. Ele começou trabalhar aqui, começou, mandava dinheiro para gente. Quer dizer, quando estava muito apertado, todo mês sempre chegava um dinheiro. Aí dava para comprar alguma coisa, depois ele escreveu para o outro, para o outro... O Juarez vim também. O Juarez veio, foi trabalhar no Recôncavo Gaúcho de churrasqueiro, só assando carne na época.

 

P/1 – Em qual Rincão Gaúcho, que bairro?

 

R – Marquês de Valença, na Tijuca. Então começou a trabalhar de churrasqueiro, já começou mandar também um dinheiro, já melhorou um pouco, ele casou, Odom casou também. Isso já maneirou um pouco do que ele mandava, depois mandou me chamar, eu vim. Na época era menor, só que não era registrado na época. O meu pai me registrou, cheguei até aumentar a idade ainda para poder tirar os documentos para poder vim embora para cá. Cheguei aqui na época novinho, não sabia de nada de comércio, comecei a trabalhar no Rincão Gaúcho como copeiro. Depois trabalhei muito tempo, depois saí do Rincão, fui trabalhar num restaurante chamado Siroco...

 

P/1 – Estão espera aí. Antes da gente chegar lá, queria que você me contasse como é que foi essa tua viagem do Pernambuco para o Rio de Janeiro? Como é que era isso?

 

R – A minha viagem, chegou um primo lá meu, um primo meu viajou e meu irmão falou: “Quando eles virem, você o traz de volta. Traz ele para cá.” Meu primo chegou lá, disse: “Vou viajar tal dia e o teu irmão mandou dinheiro para você ir.” Aí mandou o dinheiro.

 

P/1 – Era, assim, de supetão? Você nem sabia que vinha para o Rio?

 

R – Não, o meu irmão escreveu antes.

 

P/1 – Já tinha mandado notícias.

 

R – Mandou notícias. “Olha, o meu primo vai aí, vou te mandar o dinheiro da passagem. Quando ele vir, você vem com ele.” “Já tirou os documentos?” Eu falei: “Já.” Tinha tirado os documentos, tirei os documentos. Quando o meu primo vier, a gente comprou passagem na Itapemirim, a gente veio embora e a viagem foi muito longa, muito chão.

 

P/1 – Primeiro, era a primeira vez que você entrava...

 

R – Primeira vez, era. Bom, para viajar para longe assim foi a primeira vez. Aí deixei meu pai, deixei a minha mãe, deixei minhas tias que me adoravam, deixou meus avô. Aí vim embora. Depois cheguei aqui, comecei trabalhar...

 

P/1 – Mas aí você chega no Rio e vai morar em que bairro?

 

R – Fui morar na Tijuca mesmo.

 

P/1 – Que lugarzinho da Tijuca?

 

R – Na Rua Conde de Bonfim, 114.

 

P/1 – Que altura que é da rua?

 

R – É na esquina da rua dos Araújos com Marquês de Valença, perto do Alzirão.

 

P/2 – Você foi morar com os seus irmãos?

 

R – Fui morar com meus irmãos. Já fui morar com meus dois irmãos que estavam aqui, Juarez e Odom.

 

P/2 – Eles estavam juntos também?

 

R – Isso, moravam juntos no quarto. E já tinha dois primo que tomava conta do quarto, que morava lá e meus irmãos vieram morar com ele. Então quando eu vim, fiquei no mesmo quarto.

 

P/1 – Era um quarto para a turma toda?

 

R – Um quarto para a turma toda. Cada um tinha as suas camas de arame, aquela que armava e desarmava. Chegava, trabalhava, armava, terminava, botava lá. O outro chegava, já armava, estava saindo um para trabalhar, estava entrando outro para dormir.

 

P/1 – Mas o que você trouxe? Você trouxe uma malinha, o que tinha nessa mala?

 

R – A mala. A mala que eu trouxe foi só escova, pasta de dente, camisas só, sandália e sapato. Só.

 

P/1 – Mas, por exemplo, você trouxe alguma, sei lá, alguma comida para os teus irmãos, algum... Você lembra disso?

 

R – Não, eu não cheguei a trazer não. O meu primo que trouxe um bocado de coisa. Naquela época eles mandava aqueles docinho, que não tinha, mandava queijo feito lá, aqueles queijos que eles fazia em casa e eles mandava sempre aquilo ali. Eu mesmo não cheguei a trazer nada não.

 

P/1 – Então você tinha o quê? Mais ou menos uns 15, 16 anos de idade?

 

R – Tinha 16 anos. Aí vim, aumentei a idade, que não era registrado. Aí fiz o registro, tirei a profissional. Inclusive até a minha reservista, identidade, isso veio tudo depois. O meu irmão viajou, chegou lá, apanhou o que tinha deixado tudo assinado, eles mandaram os meus documentos. Depois me roubaram os que eu trouxe de lá, eu tive que tirar outro todo aqui.

 

P/1 – E quais são as suas memórias, Fonseca, do bairro da Tijuca quando você chegou? As suas memórias de garoto mesmo. Como é que era?

 

R – A Tijuca para mim era um dos bairros melhor que tinha no Rio de Janeiro. Eu não sei se porque eu fui morar logo lá, a princípio, passei a conhecer porque eu nunca fui muito chegado a Zona Sul não. Então na Tijuca, a gente fazia tudo. A gente trabalhava, a gente se divertia na madrugada. Trabalhava de noite, saía de lá, vinha para o Aterro do Flamengo, jogava uma bola...

 

P/1 – De madrugada?

 

R – Era.

 

P/1 – Que isso! É?

 

R – Era. A gente trabalhava de madrugada...

 

P/2 – Então você participa daqueles torneios que tem ali do pessoal dos restaurantes no Aterro, aquele campeonato...

 

R – Já entrei muito aquilo na época. Era. Na época, a gente fazia o seguinte; trabalhava no Rincão Gaúcho, a gente chegava 17:00 da tarde. Quando era 3:00, 4:00 da manhã, a casa fechava. Então a gente subia a Marquês de Valença, chegava na Conde de Bonfim, era mão e contra-mão na época. A gente pegava um 415, descia, chegava ali no Aterro, a gente saltava e jogava bola até 6:00 da manhã. 6:00 da manhã, atravessava a pista do Flamengo para lá, ia para a Praia do Flamengo, chegava lá, tomava um banho de mar 6:00 da manhã. Depois voltava, atravessava a passarela, tinha uma lanchonetezinha do lado ali, perto do Hotel Novo Mundo que fazia umas pizza muito gostosa e a gente...

 

P/2 – _______ lanchonete, você lembra?

 

R – Não lembro mais não. Eu sei que tenho saudade disso até hoje. E a gente comia sempre uma pizza muito gostosa, tomava umas cervejas de manhãzinha, ia para casa. Chegava em casa, tomava um banho, dormia. De tarde acordava e trabalha de novo.

 

P/1 – Dormia não, caía durinho.

 

R – Caía durinho. Isso é verdade. (risos)

 

P/1 – Gente? Trabalhava, jogava bola, bebia cerveja de manhã...

 

P/2 – Haja disposição, ein?

 

P/1 – Que bacana, que bacana! Mais o quê da Tijuca você pode comentar para gente, por exemplo, de lojas tradicionais quando você chegou?

 

R – O cinema que tinha na época gostava muito de ir ao cinema.

 

P/1 – Qual era você lembra?

 

R – Era Metro Tijuca, ou Carioca. Eu gostava muito de frequentar na Tijuca aqueles cinemas na época. Era bom no final de semana... Final de semana não, dia da folga, que a gente, o dia da folga a gente ia ao cinema. Gostava muito de ir ao cinema. Ficava pertinho também da onde morava, que o cinema era na praça, morava na Conde de Bonfim, ali na esquina da Marquês de Valença. Então a gente sempre ia lá e assistia aquele cinema que a gente gostava na época.

 

P/1 – O que era que tinha na época?

 

R – Tinha filme de faroeste, aqueles filme, muitos filme de bang-bang que a gente gostava. Depois acabou o cinema tudo, acabou tudo. Tinha ali na Praça Saens Peña, o Palheta, uma casa muito boa também. Tinha uma sinuquinha em cima, a gente ficava jogando sinuca de madrugada ali, quando a gente saía da churrascaria para ir lá jogar sinuca, tomar cerveja e ficava sempre de madrugada na rua até amanhecer o dia para vim dormir.

 

P/1 – E por exemplo, coisas que vocês precisavam comprar. Por exemplo, uma roupa, se comprava ali no bairro também?

 

R – No bairro.

 

P/1 – É?

 

R – Eu sempre gostei de... Na época, eu às vezes vinha muito comprar na cidade. Eu vinha comprar muito na cidade. Chegava na cidade, na rua da Alfândega, olhava aquelas calças, aquele montão de loja porque todo mundo quando ia comprar, na época não conhecia. Então quando cheguei aqui, o meu primo, ele vendia roupa, esse que me trouxe do Norte para cá. Então, ele: “Vamos lá na cidade, vamos no Centro comprar umas roupa.” Quer dizer, não conhecia o Centro, vinha com ele. Comprava aquelas roupa naquelas loja ali mesmo.

 

P/2 – Qual foi a sua impressão, a primeira vez que você chegou aqui, andou pelo Centro da cidade? Viu o Centro?

 

R – É, achei muito movimentado, um canto muito movimentado, achei muito... Gostei muito do comércio. Acostumado com comércio pequeno chega ali, você via tudo, que lá não tinha comércio grande. Tudo que você queria, você via.

 

P/1 – Você andava de sandália?

 

R – Nunca gostei não. Nunca gostei de andar de sandália. Primeiro que não sei nem andar de sandália. (risos) Nem descalço... Até descalço também dentro de casa nem ando porque os meus pés, qualquer coisa que pise, incomoda. Então sempre gostei de andar de sapato mesmo.

 

P/1 – Porque o pessoal mais do interior de Pernambuco usam aquelas sandálias de couro?

 

R – É, nunca gostei de usar aquilo não. Gostava mais de usar um sapato mesmo, Kichute, essas coisas sempre usei. Agora...

 

P/1 – Kichute, né?

 

R – Kichute. Eu gostava muito de usar o Kichute.

 

P/1 – Não existe mais.

 

R – Não existe. Eu gostava muito de usar um Kichute. Agora sandália mesmo nunca fui muito fã de sandália não.

 

P/1 – Me conta um pouco o teu primeiro dia de trabalho no Rincão Gaúcho, você lembra dessa data, que ano foi, por favor?

 

R – Lembro, lembro, lembro. O primeiro foi o seguinte; o meu irmão falou com o gerente lá, disse: “O meu irmão chegou aí, dá para você arrumar vaga para ele?” “Rapaz, no momento agora está lotado.” Meu irmão falou: “Trouxe confiando em deixar ele aqui trabalhando comigo.” O gerente: “No momento está lotado.” Aí com dois dias eu estava em casa e meu irmão falou: “Tem que dar um tempo agora até ele mandar você vir.” Fiquei esperando uns dois ou três dias em casa. Ele tinha comprado uma casa na rua ______, gerente do Rincão Gaúcho na época e pediu para... Perguntou para o meu irmão se eu estava em casa. Meu irmão “está.” “Será que ele pode ir à casa, vou deixar ele, para ficar esperando o pessoal que vai vim colocar um carpete desse aqui.” Meu irmão disse: “Eu vou chamar ele.” Aí trouxe, ligou para mim, eu vim. Ele botou numa Kombi, me levou lá para a rua _________. Chega lá, ele disse: “Você vai ficar dentro dessa casa aqui, vai chegar dois rapaz, vai colocar um carpete aqui. Você abre a porta e deixa eles entrar.” Eu falei: “Tudo bem.” Fiquei lá, esperando sem saber de nada. Não sabia nem onde estava. Daqui a pouco chegou os dois rapazes. “São nós dois que vamos colocar o carpete.” Eu falei: “Pode entrar.” Eles entraram e botaram, começaram a botar o carpete, a cortar, jogar pedaço para um lado, jogar pedaço para outro. Daqui a pouco estava cheio de coisa pelo chão de sujeira tudo. Eu peguei a vassoura, comecei varrer. Peguei um saco, botei os troços tudo lá dentro. Aí, na época, o Farias chegou lá.

 

P/1 – Farias?

 

R – É, que era o gerente. Ficou só observando eu limpando aquilo ali, varrendo, tirando toda a sujeira, botei tudo. Depois que eles terminaram, eu peguei a vassoura, varri ali, sem ninguém mandar nada. Ele gostou. Chegou perto do meu irmão, disse: “Fala para o teu irmão para vim trabalhar amanhã, pode trazer ele. Ele estava fazendo serviço lá, que ninguém mandou nada ele fazer, mas vi que ele está querendo trabalhar mesmo.” Entrei no Rincão e comecei a trabalhar.

 

P/1 – Qual foi a data na sua entrada, você consegue lembrar, Fonseca?

 

R – Não _____ lembrar não. É muito tempo, foi muito tempo atrás.

 

P/1 – Isso foi no ano de quê, 1970 e...

 

R – 1973.

 

P/1 – 1973.

 

R – É. Comecei a trabalhar de noite.

 

P/1 – Fazendo o quê?

 

R – Trabalhando na copa, preparando... Era serviço de couvert, era montando as travessinhas de couvert, era montando bebida, montando salada. Eles foram me ensinando como é que fazia. Depois aprendi tudo; a fazer salada, aprendi a fazer os couvert, a fazer as bebidas, a fazer tudo. O garçom chegava, pedia a gente já mandava. Preparar sorvete, tirar o sorvete todo, sobremesas, fazer sobremesas que a gente tinha que fazer muitas. Um abacaxi com presunto, um melão com presunto, era figo, era negócio assim. Tudo a gente tinha que preparar aquilo.

 

P/1 – Como é que era um couvert naquela época...

 

R – O couvert já era bem servido. Ele vinha com manteiga, vinha com azeitonas verdes, vinha com patê, com patê e vinha com... E acompanhando as torradinhas, acompanhando um pãozinho de queijo quentinho, feito na hora.

 

P/2 – E já tinha o buffet para as pessoas se servirem, tal, ou não? Tudo vinha da copa?

 

R – Não, tudo vinha da copa. Naquela época não existia isso.

 

P/2 – Ainda não existia?

 

R – Não, o cliente sentava lá. O cumin, que era o ajudante do garçom levava...

 

P/1 – Como era o nome?

 

R – Cumin

 

P/1 – Como que é?

 

R – Cumin

 

P/1 – Cumin?

 

R – É. Cumin é um ajudante do garçom.

 

P/1 – Ainda se usa essa palavra hoje?

 

R – Usa, usa.

 

P/1 – Cumin

R – Cumin. Isso aí, em restaurantes hoje mais _____ que existe são... Chama-se cumin que é o ajudante do garçom. O cumin primeiro, ele bota uma gravatinha e fica ali aprendendo com o garçom. Depois que ele aprende de cumin, aí que ele vai para garçom. Eu não. Nunca trabalhei em restaurante. Foi a única coisa que eu não trabalhei foi de cumin porque eu trabalhei na copa, depois trabalhei na cozinha, depois da cozinha, aí já fui direto para garçom. O camarada perguntou: “Você quer?” Eu já sabia como é que funcionava, como é que o garçom fazia o pedido, como que comandava, como as comandas funcionava. Então eu entrei diretamente de garçom. Nunca cheguei a precisar trabalhar de cumin.

 

P/1 – Agora na Copa, lá ainda do Rincão Gaúcho assim, quantos funcionários tinham na época?

 

R – Na época tinha... Eram duas copas. Tinha uma que era de couvert e sobremesa de um lado e tinha uma que era só para preparar bebida. Na época era eu, meu irmão e mais três.

 

P/1 – Tudo nordestino?

 

R – Tudo nordestino. Todo mundo do Nordeste. Carioca era difícil chegar e ficar. Mineiro muito pouco também. Às vezes tinha um ou dois só.

 

P/1 – Por que você acha que acontecia isso? Pode falar.

 

R – Não sei. Até hoje eu não entendo por que... Por exemplo, os pernambucanos eram poucos. A maioria do pernambucano, eles vão mais para São Paulo. São Paulo dá muitos pernambucanos, que eles vão para lá e o paraibano dá muito para negócio de obra. Tem também no ramo de comércio também tem, de restaurante também tem, mas eles é mais negócio. Você chega numa obra é mais tudo da Paraíba. Então eles aprendem a ser servente, carpinteiro, pedreiro. São os melhores carpinteiros e pedreiros que nós temos hoje são paraibanos, daqueles. Ali um vai trazendo o outro. Está empregado, liga para um, vem e ali vai, entendeu, vai chegando. É a mesma coisa do restaurante também. E hoje em dia, no Rio de Janeiro, a maioria do restaurante funciona tudo com cearense mesmo. É tudo do Ceará. É copeiro, é cozinheiro, é garçom, é mitre, é gerente. Inclusive agora, esses bar, a maioria dos bar antigamente era de português. Agora você chega nesses barzinho é tudo de cearense, que eles aprenderam trabalhar, vão arrumando dinheiro e comprando.

 

P/1 – Nessa época, o Rincão Gaúcho, quem era o dono do Rincão Gaúcho, você sabe?

 

R – Era o seu Orlando, chamava-se seu Orlando. Depois era Orlando e Isaías, Isaías da Costa. O seu Orlando era carioca e o Isaías era português. Inclusive seu Isaías tinha uma fazenda lá em Magé e eu fui muito na fazenda dele. Fazenda muito bonita, muito linda a fazenda dele. Fazia exposição de gado assim. O gado dele sempre ganhou em primeiro lugar. Sempre saía na revista, sempre...

 

P/1 – Gado, por exemplo, ele tinha essa carne que se consumia no Rincão Gaúcho...

 

R – Não, esse gado dele era só de estimação. Não era para abate não. (risos) No Rincão Gaúcho, a carne do abate vinha de outro abatedouro. Não era da fazenda dele não.

 

P/1 – Mas, por exemplo, você chega lá, você vem de uma cidade com muita dificuldades. Vocês comiam a beça no restaurante, esse negócio de ter muita carne, podia-se comer?

 

R – Na época podia comer bastante. Na época podia. Só não podia comer filé mignon e peixe porque a casa trabalhava com aqueles peixes só selecionados. Então, o funcionário não podia comer o peixe e filé mignon se comesse era abuso porque na época também era muito caro, era abuso. Agora carne assada, churrasco, bebida, inclusive na época, a gente tomava cerveja na hora do almoço, ele liberava cerveja para gente. Podia comer o que quisesse; churrasco, podia chegar lá na churrasqueira, mandar encher uma travessa de churrasco, podia comer o quanto quisesse. Só não podia estragar. A gente comia. Já tinha outras casas já que era limitado. Era só aquilo ali. Tinha outras que eu nunca cheguei a trabalhar nessa, mas muitos colegas meu que já trabalhou, que já sofreram muito também, disse que era só pé de galinha, era só pé de galinha com pouquinho de arroz. Eu nunca cheguei a passar por isso. Mas que eu trabalhei, graças a Deus, sempre foram boa chegou um ponto também que a gente enjoou o churrasco, ninguém não queria mais nem ver falar em churrasco. Até o cheiro de linguiça, churrasco e frango, inclusive até hoje eu enjoei disso tudo.

 

P/1 – Então como é que era essa rotina no Rincão Gaúcho? Você entrava que horas?

 

R – 17:00 da tarde.

 

P/1 - E ia até?

 

R – Ia até o dia amanhecido, 4:00. Final de semana, reveillon, a gente saía de lá 7:00, 8:00 da manhã. A noite toda trabalhando na época.

 

P/1 – Em pé?

 

R – Em pé. Em pé e molhados. Pé dentro d’água, trabalhava com as botas cheia d’água, tudo... Saía, chegava em casa, os pé chega, estava _______, tanta água que pegava. A gente sempre toda noite tinha que estar lá, menos no dia da folga. Agora, se tivesse um feriado, ou qualquer um, uma reserva, um banquete, era cortado à folga. Essa semana não folga, aí eles pagavam a dobra a gente. A gente trabalhava sem folga, recebia dobra e trabalhava sem folga.

 

P/1 – Isso financeiramente, por exemplo, na época, você ajudava a sua família? Vocês conseguiam, por exemplo, ___ dinheiro para mandar?

 

R – Ajudava. Não, aquilo ali, no final do mês, quando recebia o pagamento, era com certeza. Tinha que mandar um pedaço para a minha mãe lá e ficava com o outro. Aquele outro que ficava era para comprar roupa. Era só mesmo para comprar roupa e mandava um pedaço para a minha mãe, outro ficava só dava mesmo para comprar roupa, calçado e não dava para mais nada.

 

P/1 – Mas, quer dizer, em termos financeiros, o teu primeiro salário no Rio se diferenciava muito do que vocês recebiam na sua cidade, por exemplo?

 

R – Ah, sem dúvida. Não, aqui pelo menos todo mês a gente tinha o pagamento e recebia o dinheiro. Lá não, lá não tinha como você ter dinheiro, não tinha como ter nada. Lá não tinha. Mesmo você queria trabalhar, não existia trabalho, não existia nada. As coisas eram muito difíceis. Quando era para passar o dia limpando mato na roça para ganhar mixaria, não dava para nada.

 

P/1 – No Rincão Gaúcho, você fica trabalhando até quando, Fonseca? Quantos anos você trabalha no Rincão Gaúcho?

 

R – No Rincão? Não, no Rincão eu trabalhei na época.

 

P/1 – Eu sei. Mas quanto tempo você trabalha lá? Você ficou quantos anos trabalhando lá?

 

R – Ah, fiquei uns quase dois anos. Tinha um senhor que era dono de um restaurante, um português, ficava perto. Então toda noite quando subia, saía da churrascaria, vinha para casa, ele saía do restaurante e encontrava comigo na mesma rua. Saía conversando comigo, perguntava quanto ganhava lá, falei que eu ganhava tanto. Ele: “Eu vou te dar mais um aumento de tanto. Quer trabalhar comigo?” Eu fiquei com medo porque falei com o meu irmão: “Olha, o camarada me chamou para trabalhar com  ele, vai me dar um aumento, assim, assim.” Meu irmão: “Não, é melhor você ficar aqui porque está trabalhando com a gente aqui.” Eu disse: “Não, vou sair.” Eu pedi a conta, fiz um acordo com a firma. Fui trabalhar com ele, trabalhei uns três anos com ele. Só que depois ele vendeu a firma. Essa firma que era o Siroco, vendeu, aí queria que fosse ser gerente de uma dele, de uma padaria na rua Uruguai. “Você vai ser o gerente da padaria”, mas na época eu tive medo de assumir porque tinha pouca experiência, não sabia de muita coisa de comércio ainda. Fiquei com medo. Não quis assumir a padaria. Ele comprou um bar na Praça XV, queria que fosse tomar conta do bar na Praça XV também. Inclusive falou: “Se tu quiser casar, tu pode morar até aqui em cima. Tem um apartamento vazio aí em cima. Você pode... ” Eu disse: “Também não quero não.” Eu fiquei com medo também. Fui, arrumei outro emprego num restaurante.

 

P/1 – Mas conta, então, o que era esse Café Siroco? Aonde que era, qual era o endereço...

 

R – É na rua Pereira de Siqueira, na Tijuca, 56. Na época era uma casa de frutos do mar. Existe um restaurante famoso da antiga, muito antigo no Rio, que chama-se Siri. E o dono do Siri, o Souza, era sogro do Mendes, esse Mendes era um dos sócios, mais o Mário desse Siroco, então montaram uma filial chamada Siroco.

 

P/1 – Siroco.

 

R – Siroco.

 

P/1 – Siroco.

 

R – É, restaurante bar Siroco. Então tinha todo tipo do fruto do mar. Tinha lula, tinha trilha, tinha manjubinha, tinha vôngoles, tinha polvo, tinha muitos tipos de peixe, camarão, todos os tipos. Ali saía muitas comida boa, eu trabalhava muito.

 

P/1 – O que é que você fazia lá?

 

R – Na época comecei trabalhar de copeiro, eu fui como copeiro. Ele mandou um copeiro que tinha lá embora e me deixou. Depois ele falou: “Você quer trabalhar na cozinha?” Eu digo: “Nunca trabalhei de cozinheiro, não sei nem o que é isso.” “Não, mas vou te ensinar.” Tem um rapaz bom na cozinha, ele: “Vou ensinar tu a trabalhar na cozinha.” Entrei na cozinha, ele começou me ensinar a fazer as comida. Risoto de camarão você tem que fazer isso, isso. Começou me ensinando os ingredientes, o que é que levava, o que é que tinha que ser feito,então aprendi fazer o risoto. “Agora você vai aprender a fazer um salgadinho, uma coxinha de galinha.” Ele botava, cozinhava a galinha, tirava, botava massa, fazia, preparava galinha, fritava, mandava experimentar e “agora tu vai ter que fazer.” Eu fui aprendendo, aprendendo. Aprendi fazer tudo também isso na cozinha. Depois saí da cozinha, fui trabalhar numa casa de garçom, ele chegou lá, disse que era o Uirapuru na época. “Você quer trabalhar de garçom?” Eu digo: “Quero.” “Olha rapaz, estou com um problema aí. Tem um rapaz que está doente e estou sem ninguém nessa copa aí para servir os garçom. Não dá para você ficar tomando conta da copa. Eu vou te pagar o mesmo salário de garçom como se você tivesse ganhando de garçom, mas para você ficar aí dentro da copa até o rapaz melhorar.” Eu fiquei, só que ficava na copa de dia e fazia extra de noite numa boate Drive Cassino Royal, lá na Estrada do Juá. Um dos sócios morava de frente, aí me chamava, a gente ia de noite, fazia extra ali. Eu trabalhava de dia, de noite fazia extra, chegava em casa 4:00 da manhã, 5:00. Tomava um banho, deitava, mal acordava, tinha que começar tudo de novo.

 

P/1 – Nossa! Que tranco!

 

R – É.

 

P/1 – Nesse Siroco, você trabalhou quantos anos? Quanto tempo?

 

R – Siroco, eu trabalhei de 1975 a 1977.

 

P/1 – E ele era... Me fala um pouco assim, existe outros restaurantes de peixes na cidade, sem ser esse Siri, você... No próprio bairro da Tijuca?

 

R – O mais famoso era o Siri porque tinha...

 

P/1 – Que ficava aonde?

 

R – O Siri fica na rua Dona Maria, fica na rua Dos Artistas, na esquina da rua Dona Maria.

 

P/1 – Que bairro?

 

R – Tijuca. Lá era o Siri, um dos mais famosos na época que trabalhava com peixe. Depois foi surgindo outros, já foi fazendo outros e hoje mesmo o Siri continuou porque que é famosostas e tem um também ali de frente ao Galeão, que é o Siri da Ilha, entendeu?

 

P/1 – Agora, o Siroco ainda existe, esse restaurante Siroco?

 

R – O Siroco ainda existe.

 

P/1 – No mesmo lugar?

 

R – No mesmo lugar. Só que não é mais do mesmo dono. Inclusive hoje um dos sócios de lá foi garçom comigo na época, trabalhou comigo no Uirapuru como garçom. Aí foi, comprou esse Siroco agora, está como sócio dele. Trabalhou comigo de garçom na época. Hoje é sócio.

 

P/1 – O que diferenciava, por exemplo, você vinha do Rincão do Gaúcho que era especializado em churrasco e vai trabalhar num de peixe. Mudava completamente, por exemplo, uma cozinha, uma... Tudo, tudo, tudo?

 

R – Não, porque quando saí do Rincão, não trabalhava com as comidas. Eu trabalhava com bebida, entendeu? Então, quando cheguei lá, que fui trabalhar com bebida também. Depois é que ele me chamou para trabalhar com comida. Foi quando fui aprender trabalhar com comida.

 

P/1 – Ah, entendi.

 

R – Entendeu? Mas a diferença de um churrasco para casas de peixe é muito simples. Porque o churrasco é só arroz e batata frita, farofa e molho à Campanha. E a casa de peixe não. Tem que fazer um risoto, tem que fazer um camarão à baiana, tem que fazer um polvo à Provençal, tem que fazer um polvo à óleo e alho, fazer um risoto de polvo, fazer um polvo à portuguesa, fazer um bacalhau à portuguesa, um bacalhau espanhola, entendeu? Então, os pratos variam de nome. A diferença é essa.

 

P/1 – E bebida? O que diferencia quando você come uma carne e que você come um peixe?

 

R – Aí já depende do... O peixe pede muito vinho. Uma carne já pede muito uma capirinha, pede uma bagaceira, depois um chopinho gelado?

 

P/1 – O que é bagaceira?

 

R – Bagaceira é uma bebida portuguesa feita do bagaço da uva, muito boa, que o pessoal... É tipo um licor. Acaba de comer, sempre toma... Aquilo ali é muito digestivo, é muito bom. Mas é quente, é quente, quente, quente, mas é muito gostosa.

 

P/2 – Me diz uma coisa aqui agora, você gosta de futebol, né?

 

R – Bom, eu gosto, mas não sou muito ligado não. Já joguei bola quando era moleque, jogava muita bola, gostava muito. Aí parei, não aguento mais jogar, não aguento mais correr, também não tenho tempo.

 

P/2 – Mas gosta de assistir?

 

R – Gosto de assistir. Inclusive essa noite _______ Flamengo. (risos)

 

P/2 – Agora vem cá, como é que era trabalhar em época de Copa do Mundo? Assim, de repente, o jogo... Brasil jogando...

 

R – Não tinha, não tinha Copa do Mundo. Copa do Mundo tinha, mas para gente não. Tinha que trabalhar. Natal é a mesma coisa. Natal, tem natal só para o pessoal que ia porque a gente trabalhava na época. No Rincão Gaúcho, no reveillon então você não aguentava mexer, nem para canto nenhum. Tinha que ficar direto ali, trabalhando. Lá atrás, o pessoal todo mundo dançando, banda de música tocando, pessoal dançando lá e as únicas coisas que a gente fazia era só apertar a mão dos próprios parceiros que estavam sofrendo com a gente também: “Feliz natal, feliz ano novo” e pegava um champagne bem escondido, também bebia. (risos) Ele sabia que a gente bebia. Ele sabia, que a gente sempre bebeu champagne, cerveja. Abraçava só ___________, “feliz natal, feliz ano novo” e pronto.

 

P/1 – Assim, porque é uma pergunta interessante porque então antigamente não tinha essa coisa dos restaurantes botarem televisão ou tinha televisão nos restaurantes?

 

R – Não, é difícil, não tinha.

 

P/1 – Porque hoje muito restaurante tem, por exemplo, Copa o pessoal vai para restaurante ver e tem televisão.

 

R – Ah, sim, sim.

 

P/1 – Antigamente não tinha isso.

 

R – Não tinha. Antigamente ninguém botava televisão. Era só em casa. Ficava todo mundo vendo o jogo. Na hora que terminava, às vezes, você estava vendo o jogo, via só um pedaço do primeiro tempo, ______ trabalhar. Não posso mais ver o outro, tinha que trabalhar, não pode chegar atrasado, não pode faltar. Eu sempre durante esse tempo todo que trabalho em restaurante, sempre trabalhei em restaurante, nunca gostei. A única coisa: nunca gostei de chegar atrasado nem faltar em serviço.

 

P/2 – Então, nessa época, na hora do jogo propriamente dito, o restaurante ficava vazio então?

 

R – Ficava, na época ficava todo mundo em casa. O pessoal via muito em casa. Agora não. Na Parmê, por exemplo, na Parmê, chegou um ponto que não tinha. Depois começaram botar agora na Copa do Mundo sempre bota na Parmê. aí o que a gente faz na hora do jogo? A gente fecha a casa, não entra ninguém, a gente fica vendo televisão, vendo o jogo. Acaba o jogo, abre normal, entendeu? Agora na Parmê, a gente está tendo esse privilégio, mas antigamente ninguém via nada não.

 

P/1 – E esse Drive In que você trabalhava, conta aí porque era virar de noite, ______ para namorar?

 

R – O Drive In era o seguinte; o Drive in tinha um senhor chamado Paulo, inclusive ele já faleceu, que era um dos sócios. A gente trabalhava até 17:00 da tarde, 17:00 a gente tomava um banho, pegava a roupa...

 

P/1 – Ainda no Café Siroco?

 

R – Não, essa estava no restaurante chamado Uirapuru, na Almirante ______ Brasil, só não lembro o nome, esquina com Dona Maria e Santa Luíza, pertinho do Siri mesmo, perto da rua dos Artistas. O Paulo perguntou se não queria fazer uns extras na boate dele como garçom. Na época já sabia trabalhar como garçom. Então eu trabalhava até 17:00 da tarde, 17:00 tomava um banho, pegava o paletó de garçom que tinha e ia para a boate. Chegava na boate, a gente ficava lá até 3:00, 4:00 da manhã. Na época da discoteca, aquilo ali ficava lotado, era muita gente na rua, pessoal gastava muito e já estava, já estava namorando com a minha esposa e já segurando um dinheiro para ajeitar minha casa na Ilha para mim morar lá porque eu morei 20 anos na Ilha completo. Eu saí da Tijuca, eu trabalhava no restaurante e a minha esposa trabalhava num supermercado. Tinha chegado do Norte também aqui, trabalhava num antigo supermercado chamado Elau, ela estava trabalhando lá. Então eu ia fazer compra para o restaurante, que trabalhava para o Siroco, ficava pertinho, e no mercado eu conheci ela na época. Ela era caixa. Comecei a namorar com ela, só passava na caixa dela. Comecei a conversar com ela, terminou a gente se encontrando, namorando seis anos e casou. Tem 20 anos de casado hoje.

 

P/1 – Que bacana! Como é o nome dela?

 

R – É Maria Selma.

 

P/1 – E ela é de onde?

 

R – Paraibana. Ela é da Paraíba ela. Conheci ela, casei, 20 anos. Conheci a família toda. São pessoas maravilhosas, pai, mãe, meus cunhados, gosto deles todinhos, 20 anos que vivo com ela. Fui morar 20 anos... Casei, fui morar na Ilha. Eu ainda morei 20 anos na Ilha.

 

P/1 – Você fez a tua casa? Conseguiu construir uma casa?

 

R – Consegui graças a Deus.

 

P/1 – Que legal.

 

R – Pequenininha, pequenininha, mas construí, fui morar lá. Aí morei 20 anos completo. Depois comprei um apartamento aqui na Tijuca em cima do que ela morava, que o irmão dela tinha um no terceiro andar, apartamento no terceiro andar, e tinha um em cima que era de um camarada. Só que 20 anos depois o camarada quis vender, as minhas cunhadas que já morava lá, que ficavam morando lá, “você não quer vim morar aqui? Vem, vem, vem.” Eu reformei o apartamento todinho, eu mesmo quebrei as paredes, eu mesmo massei, eu mesmo pintei, que eu sei fazer isso. Paguei só as mãos de obra que não sabia fazer; rebaixar teto, trocar cano, essas coisas que não sabia, aí paguei. Mas aí depois que preparei tudo, aí vim morar aqui. Fui morar no mesmo prédio que a minha esposa morava na época, em cima do apartamento do meu cunhado, que ela morou embaixo e agora está morando em cima.

 

P/1 – Quer dizer, uma coisa interessante, Fonseca, quer dizer, era uma vida dura de muito trabalho, como copeiro, ou como garçom, mas essa era uma coisa na época, por exemplo, hoje é assim também, se ganhou o suficiente, por exemplo, para comprar um apartamento?

 

R – Olha, na época não deu. Só depois que entrei na Parmê mesmo, que aí a Parmê sempre trabalhou bem, como garçom tinha uma clientela que era uma fila para entrar na Parmê e uma fila para sentar só comigo, entendeu? Então ninguém... Um dos sócios ficava na porta botando pessoal que chegava: “Pode entrar.” “Não, não, só vou entrar quando ele tiver mesa vazia.” Então só sentava comigo. O pessoal: “Vem cá, essa fila aqui?” “Essa fila aqui é só para sentar com aquele garçom lá.” Era o único que tinha fila para sentar comigo era eu. Mas quando eles entravam lá, já sabia o que ele queria comer, já chegava na porta, às vezes estava fechando um mesa, o camarada pedia a conta, antes de ir no caixa mandar fechar a conta dele, já passava no que estava lá na vez da fila para sentar comigo. “Vem cá, você vai comer carne?” “Não, eu queria comer isso, isso, isso.” Eu escrevia, botava para sair e quando ele entrava, ele só esperava mesmo só para sentar porque quando ele sentava, a comida já estava pronta. Ele só tinha o trabalho de esperar para sentar. Quando ele sentava a comida já estava pronta. Então ele sentava, eu servia a comida ali, tinha os filhos pequenininhos na época, aí botava no colo, brincava com ele, brincava com outro. Passava a saber quem era o pai, quem era o avô, quem era a avó, quem era tudo. Passei conhecer as famílias todas. Então conheci muita gente, muita gente, milhões e milhões de pessoas. Crianças na época, cortava pizza, botava ketchup lá, fazia aquelas bolinhas, botava na boquinha dele lá. Hoje chega tudo já com namorado, outros já casados chegam lá, mas eles me adoram muito,sabem que desde criança que eu carreguei eles no colo. Aquelas garotas já vem hoje com namorado, aqueles rapaz que vem. Tudo é bem, foi bom, muito bom.

 

P/1 – Pois é, mas a pergunta era sobre, profissionalmente, um garçom, você conseguia juntar um dinheiro para comprar um apartamento?

 

R – Sim, sim. Então tinha muita... Tinha essa clientela toda, então tinha cliente ali que na época dava 20%, invés de dar 10%, que a Parmê não cobra 10%. Ela nunca cobrou 10% em cima da conta. O cliente só dá se quiser, se for bem tratado dá, vai ficar o critério dele. Então, na época, eles davam, dava bem para mim e eu sempre consegui juntar. Trabalhava ali, passava necessidade. Às vezes estava com sapato, “não, eu não vou comprar um sapato hoje. Deixa, a semana que vem eu compro.” As vezes uma camisa que achava bonita numa loja, “não, hoje não vou comprar. A semana que vem compro.” Ia guardando o dinheiro. Então fazia extra num canto, fazia extra no outro, entendeu? Trabalhava de dia na Parmê, fazia extra de noite. Às vezes trabalhava dia e noite na Parmê, final de semana trabalhava dia e noite direto. Trabalhava o dia e trabalhava a noite, trabalhava o dia e trabalhava a noite. Aquele dinheiro que ganhava ali, sempre guardava para mim poder ir comprando. Minha esposa também trabalhava e guardava comigo.

 

P/1 – Ela sempre trabalhou sempre nessa Elau?

 

R – Foi só nesse mesmo, depois que conheci, casei, ela não trabalhou mais. Só toma conta só da casa mesmo. Ela chegou aqui...

 

P/1 – Que a Elau também não existe. A Elau era uma casa de quê?

 

R – Não, não existe. Ela era um supermercado, um supermercado que tinha na época. Depois a Sendas comprou, depois não deu certo... A Sendas não, a Casa da Banha comprou não deu certo, depois faliu, botaram o merci, depois do merci fechou. Hoje é um estacionamento de carro, era pertinho também da onde ela mora na São Francisco Xavier, ficava lá. A gente juntava, ela juntou também um dinheiro, depois saiu. Aí juntei com o dinheiro que tinha com o dinheiro que ela tinha, que ganhou na época. Juntei com o meu e preparei a casa lá na Ilha. Inclusive, até às vezes não tinha dinheiro, mas pedia um vale, sempre me deram os vales, emprestavam dinheiro para mim e terminei de fazer a minha obra toda e casei, fui morar na Ilha. Morei 20 anos, muito bom. Até hoje...

 

P/1 – Você ia da Ilha, trabalhava sempre na Tijuca?

 

R – Sempre na Parmê. Quando eu fui morar na Ilha...

 

P/1 – Pois é, mas antes da Parmê, você...

 

R – Morava na Tijuca. Quando fui trabalhar na Parmê, inclusive até cheguei a morar dentro da Parmê num salão que tinha... Eles tinham comprado um apartamento, cheguei a morar lá. Aí depois eles quebraram, fizeram um salão, foi justamente quando estava com a minha casa pronta, com o meu casamento tudo marcado, casei e fui diretamente para Ilha, na época. Fui morar na Ilha.

 

P/1 – Então, vamos dar uma paradinha? Vamos dar uma paradinha aqui, agora, só para um cafezinho, que depois a gente entra... Bom Fonseca, só antes da gente entrar, então, no seu período de Parmê, gostaria que você citasse lojas tradicionais, churrascarias tradicionais na cidade, no bairro da Tijuca e em outros bairros.

 

R – Bom, na época tinha Churrascaria Tijucano na Marquês de Valença. Ficava a Tijucana, o Rincão gaúcho sempre foi uma das mais famosas na época, que engarrafava todas aquelas ruas da Tijuca ali, ela sempre engarrafou aquilo ali. Mas tinha a Tijucana, que era famosa e acabou. Tinha o Laço Gaúcho também na mesma rua, na Marquês de Valença, no final da Marquês da Valença, com esquina com Pereira de Siqueira, o Laço Gaúcho. Inclusive até que os meus irmãos chegaram até a trabalhar lá também e acabou também. O restaurante Almirante.

 

P/1 – Onde que é esse Almirante?

 

R – Na Almirante Cóchrane, na Almirante Cóchrane tinha o restaurante Almirante que era muito famoso também, acabou.

 

P/1 – Tinha alguma especialidade esse restaurante, você lembra?

 

R – Não, não cheguei a lembrar porque nunca cheguei a frequentar. Eu sei que era muito bonito, vivia sempre cheio e acabou esse restaurante, também acabou. Tinha outros também, como o Churrascão Gaúcho na Avenida Brasil, que sempre tinha show ao vivo, muitos cantores, fazia show de final de semana e trabalhava muito aquilo. Hoje acabou. Agora é um hotel. Ficou um tempão fechado lá, quebraram o prédio todo, fizeram um hotel.

 

P/1 – Churrascaria tinha essa coisa de que tocava música ao vivo?

 

R – Tinha em todas as churrascarias tinha show ao vivo. Tinha uma muito famosa também, a Gruta do Barão em Jacarepaguá. Essa na época era uma das mais famosas também, muito falada. Hoje acabou tudo, não sei porque. Eu acho que o pessoal já não pode mais ir a churrascaria ou alguma coisa errada houve que acabou, outras ainda está sendo mantida, mas essas mesmo já foi.

 

P/1 – Então, você estava trabalhando em que restaurante ou bar antes de ir para a Parmê?

 

R – Eu estava trabalhando numa firma chamada mapfre. Essa firma, ela era de... Estava trabalhando com primo meu numa cantina, ajudando ele numa cantina de um hospital. Só que tinha uma firma, essa mapfre, estava fazendo uma obra, fazendo uma construção do hospital. Então, na época, o engenheiro me perguntou se eu queria trabalhar para a firma dele: “Você quer ficar trabalhando na firma? Eu assino a tua carteira e você fica trabalhando comigo.” Só que invés de trabalhar na cantina para o meu primo, ia trabalhar numa outra cantina do lado, fazendo comida para o pessoal da obra. Aí falei “tudo bem.” Que na época eles comiam fora o pessoal da obra, que comia lá dentro. Mas eles comiam fora. Depois que eu voltei, quando eles me contrataram para fazer a comida, já não ia mais comer fora. Eles comiam lá dentro porque a comida foi mudada, entendeu?

 

P/1 – Aí você já cozinhava?

 

R – Já cozinhava. Fazia a comida para eles, todinha, em geral.

 

P/1 – Mas aonde que era essa cantina?

 

R – Era lá na 8 de Dezembro do Hospital Jesus. Fazia as compras todinhas da cantina, fazia todas as compras do material toda na antiga Casa da Banha, também que era uma famosa também, se foi. Fazia as compras todinhas, pegava uma nota discriminada, levava aquilo, ia para o escritório central no Recife. A nota ia todinha para lá e tinha que comprar arroz, feijão, era farinha, era tudo. Eu comprava e mesmo preparava as comida deles todinha. Eles comiam, dava o almoço e janta, almoço e janta, almoço e janta e tinha que fazer as compras todas. Acabava, ia lá, renovava tudo. A empresa pagava tudo. Depois acabou o serviço, eles queria me levar para o Recife de volta: “Vamos para lá, você já está empregado com carteira assinada.” Disse: “Não, não, vou ficar por aqui mesmo.” Toda vez que passava na 28 de Setembro, sempre olhava para a Parmê, sempre via cheinha. Aí eu digo: “No dia que eu sair dessa firma, vou trabalhar de garçom.” A firma acabou o serviço, eles queriam me levar para o Recife, não quis. Fui direto na Parmê na época em 1980, perguntei para um dos sócios se tinha uma vaga para garçom. Ele perguntou aonde já tinha trabalhado, falei que tinha trabalhado no Rincão Gaúcho, tinha trabalhado no restaurante, no restaurante Uirapuru, no Siroco.

 

P/1 – O Uirapuru era de que ramo?

 

R – O Uirapuru era de frutos do mar também.

 

P/1 – Ah, frutos do mar.

 

R – Era. O Uirapuru tinha tudo. Era frutos do mar, era paneladas, era feijoada, era angu à baiana, tinha muitas comidas e inclusive trabalhava muito também. Esse também trabalhei muitos dias e noites também dobrando direto lá também.

 

P/1 – Ainda existe o Uirapuru?

 

R – O Uirapuru existe, só que o meu ex-patrão faleceu, faleceu. Ele existe, mas já não é mais o mesmo também. Está acabado. Na época trabalhava muito. Hoje está acabado.

 

P/1 - Mas essa clientela que vocês tinham nesse restaurante, churrascarias dessa época de década de 70, quem era esse cliente? Era morador do bairro?

 

R – Muitos eram do bairro, outros eram de fora. Tinha muitos que vinha de fora só para comer aquele tipo de comida que tinha ali, entendeu? Mas gostava daquele tipo de comida, então muitos vinham de fora, chegava ali para comer aquele tipo de comida. Um angu à baiana, uma feijoada boa. Eles tinham, eles sabiam onde era aquela ______. Então muitos vinham de Copacabana, ia para lá, entendeu? Tinha muita clientela de fora e tinha muitos do bairro também na época.

 

P/2 – Qual época do ano, que o movimento é maior, que... Tirando aquilo que a gente já sabe, de feriado, datas comemorativas, tal, tirando isso, quando é que o pessoal vai mais? No começo do ano, no final do ano, no meio?

 

R – Outubro e novembro. Outubro, novembro, dezembro. Depois vem janeiro das férias, depois das férias, acabou as férias, aí já começa a fracassar o movimento.

 

P/2 – Você tem alguma idéia, alguma opinião do por que exatamente de outubro a janeiro, a parte mais movimentada?

 

R – O pessoal penso muito no décimo terceiro. Começa pensar no décimo terceiro, então já: “Hoje já posso gastar, tomar um chopinho a mais, tomar outro, vai vim o décimo terceiro.” Então confia muito no décimo terceiro, o pessoal já passa a gastar mais também. É uma época vai de festa também, o pessoal começa a esperar o natal e tal. Novembro para dezembro sempre é bom, entendeu? Outros também viajam de férias, aí faz despedida ali, naquele mês ali, come, bebe, faz aquela... Outros já, mês de novembro já estão fazendo amigo oculto lá, estão distribuindo os presentes porque vão viajar, outros vão sair de férias, entendeu?

 

P/2 – E qual a diferença que você vê do pessoal que frequenta o restaurante hoje e o pessoal que frequentava o restaurante quando você começou à 20, 30 anos atrás?

 

R – Ah, muito grande. A diferença é muito grande. Inclusive tem muitos que frequentavam o restaurante hoje, que eu passo, nem no restaurante não estão. Estão no bar do lado, não vai mais ao restaurante. Naquela época era muito farto. O cliente chegava na mesa, pedia filé cortado à francesa, que era o filé aperitivo, aquele filezinho para beliscar. Pedia provolone à milanesa, pedia entrada, couvert, pedia muita coisa e bebia, tomava metade do chopp, mandava voltar, dizia que já estava quente, mandava mais, entendeu? Hoje não. Hoje eles chegam, já bebe o chopp até o final e já pedem até para dar uma pressãozinha: “Dá, leva lá, dá uma pressãozinha que é para botar uma espuma para acabar de encher”, entendeu? Outro já pede uma feijoada, “ah, mas não vem a carne seca, não encontrei”, já querendo mais um pedacinho, entendeu? Naquela época não. Sobrava era comidas. Era bebida, eles comiam, bebiam, gastavam e eram mesas e mesas grandonas. Hoje não. Hoje agora é muito difícil você ver esse pessoal chegar assim e fazer uma mesa grande assim. Antigamente eles faziam despesa quando você ia botar a mão no bolso, “não, já está tudo certo, já está pago.” Hoje não. Aniversário, todo mundo vai para o aniversário, quando acaba de fazer, “tanto de cada um na ponta da caneta ali, cada um paga o seu”, entendeu? Não tem mais negócio, “vamos fazer uma festa, meu aniversário.” O pessoal é convidado, eles são convidados, mas cada um paga o seu. Antigamente não, era todo mundo pagava.

 

P/1 – Conta, então, um pouco, Fonseca, você entra, então, em 1980 na Parmê.

 

R – É.

 

P/1 – Em qual das Parmê? Só existia essa, como é que era?

 

R – Só existia Parmê de Vila Isabel, na Praça Barão de Drummont. Só existia ela, era muito pequenininha. Tinha uma lanchonetezinha, do lado um salãozinho muito pequenininho. Tinha sete garçons na época, era pequena. Comecei arrumar vaga para garçom e comecei a trabalhar.

 

P/1 – O que é que servia na Parmê naquela época?

 

R – Era pizza. Era pizza, um filé... Era um filé à Parmê que até hoje eles mantêm ele muito bom.

 

P/1 – Você sabe quando é que foi fundada a Parmê, você sabe esse nome o que é que significa?

 

R – Olha, não sei o nome significa e diz um dos sócios, outro dia perguntei, também não sei se ele, diz ele que é “para mim”. Eu também não sei. Sei que quando cheguei lá na Parmê, o letreirozinho era de madeira, pequenininho lá. Era o salãozinho pequenininho, poucos funcionários e comecei trabalhar de garçom nela. Comecei trabalhar e comecei gostar do meu patrão até hoje. Ele também gostou...

 

P/1 – É o mesmo dono ainda?

 

R – É o mesmo dono. Falou comigo: “Você vai entrar aí, vai fazer uma experiência. Se der certo, você fica. Se não der, você também sai. Se a gente tiver gostando, a gente vai segurar você. Também se você não gostar, você pode chegar perto da gente e dizer que não está gostando, a gente libera você. Tudo bem.” Experiência de 90 dias. Tudo bem. Comecei trabalhar, quando foi... Não passou nem um mês, ele chegou: “Você está gostando da Parmê?” Eu falei: “Estou, sim senhor.” “Tá ou não está?” Eu digo: “Estou. Eu não sei se o senhor está gostando do meu serviço.” “Não, você vai ficar aqui um mês ou dois, como é que...” “Eu pretendo ficar até mais tempo, não sei...” “Então você traz a sua carteira para eu assinar.” Levei a carteira, assinou minha carteira. Aí comecei trabalhando com ______ trabalhando. Foi entrando garçom e saindo, entrando e saindo, entrando e saindo. Eu fui ficando lá, fui ficando lá. Trabalhei muito tempo de garçom. Depois...

 

P/1 – Como é que era a tua carga horária nesse começo em 1980?

 

R – Ah, no começo era pesado porque no começo a gente... A casa fechava 3:00 final de semana.

 

P/1 – 3:00 da manhã?

 

R – 3:00 da manhã. Até sair o último que estava sentado lá dentro, ficava tomando chopp, “ah, me dá mais uma saideira.” Até sair era 4:00 horas, 5:00 horas. Tinha dia que a gente saía, o dia amanhecido, no outro dia tinha que dobrar serviço. Pegava era de 11:00 da manhã, aí dobrava, ela dobra, que a gente dobrou muito. Depois ele me chamou para mim ficar de vigia na casa de noite, perguntou se eu podia ficar. Eu digo “fico.” Então a gente fechava a casa, todo mundo ia embora, eu trabalhava de garçom a noite toda. No final, todo mundo ia embora, ia no estacionamento, botava uma bermuda, botava sapato, vinha para cá, aí ficava de noite sozinho lá dentro até de manhã. De manhã quando o outro chegava 7:00 da manhã, que abria a porta, limpava a casa todinha, varria tudo, lavava, tirava uma caminhãozão de lixo que ficava lá no corredor. Lá botava para fora e tomava um banho, ia para casa. Chegava em casa era 10:00, 11:00 da manhã. Tomava outro banho e ia dormir. Quando era mais tarde, acordava e de volta tudo de novo, da Ilha para cá. A gente foi levando, levando, levando, chegou um ponto, um dia, eles me promoveram. Perguntaram se queria ficar como supervisor porque a casa está aí. Foi aberto uma Parmê na rua das Laranjeiras, que foi a primeira filial. Me chamaram para mim ficar lá na...

 

P/1 – Você lembra que ano foi isso?

 

R – Parmê das Laranjeiras, acho que foi aberto em 1980... Se não me engano em 1983 para 1984, mais ou menos. Eles me chamaram para mim ir inaugurar lá, trabalhar lá no dia da inauguração. Fui lá, a casa muito cheia, muita gente lá e tal. Mas já tinha experiência lá de cá. Levei três garçons, trabalhava comigo na época para lá. Aí chegou lá, a gente montou tudo o esquema direitinho, inauguremos a casa, trabalhamos dia e de noite viemos para trabalhar na Vila. Isso foi no Dia das Mães que teve. Depois a gente trabalhou lá, aí ficou. Depois foi abrindo as outras, também não conheço o sistema das outras porque fui à Parmê da Tijuca, fiquei umas três ou quatro vezes fazer um curso. Teve um curso de supervisor. Então fui umas três ou quatro vezes só lá. Do Meyer nunca fui, da Barra não sei onde fica. São João do Miriti, eu passei uma vez, que estava fazendo um serviço na Sendas uma época, eu e o meu patrão, e a gente passou na Parmê do Grande Rio. Muito boa também, é bonita, bem arrumadinha. A gente passou por lá nesse dia, que a gente estava fazendo serviço, estava sendo uma demonstração, negócio de tortas para vender para a Sendas. Umas tortas muito bonitas, que eles estavam fazendo para vender e fomos fazer a degustação das tortas lá na Sendas e fui fazer a degustação, cortava as tortas e dava para o pessoal. Fazia uma fila para comer só torta.

 

P/1 – Agora essa coisa, por exemplo, você começa vendendo pizza, o que diferencia uma pizza de hoje para essa, quando você foi entrar lá em 1980?

 

R – A pizza da época para hoje? Até hoje continua a mesma coisa. O padrão foi sempre mantido. Sempre mantido, eles sempre se preocuparam com problema de higiene, sempre se preocuparam com os funcionários. Eles sempre pagaram cursos, entendeu, para aperfeiçoar os funcionários, pessoas para ensinar a montar uma mesa, pessoas para ensinar chegar perto do cliente, pessoas... Ensina tudo, eles pagam tudo. Isso sempre pagaram para as pessoas aprender e eles sempre cobram muito porque quando eles promoveram a gente para supervisor, eles foram bem claros: “Você vai ficar, esquece que você foi garçom, você agora vai ficar de supervisor, vai mandar nos garçom. Você agora vai cuidar deles.” Aquele negócio, tem que ficar com cuidado. O cliente chega lá, você tem que estar com cuidado, senão o cliente chega, o garçom não vê. O cliente espera na mesa, espera. O garçom não chega, o que é que ele faz? Ele levanta e vai embora. Você: “Não, cheguei ali, passei uma hora sentado, ninguém me atendeu, vou embora.” Vai complicar o supervisor que estava e não viu. Vai complicar o garçom que não atendeu e ______ a Parmê vai perder o cliente. Então isso aí a gente cuida muito disso aí para não acontecer nada disso.

 

P/1 – Mas o que é que mudou, por exemplo, do serviço de garçom do começo da sua experiência para hoje? O garçom... Por exemplo, na sua época não se fazia curso. Hoje um garçom faz curso, por exemplo?

 

R – É, justamente. Na época, garçom não fazia curso. Na época, você tinha que ser aquela pessoa ali. Você tinha que vir de dentro, entendeu? Para ser garçom tinha que vir de dentro. Chegar, assim, agradar as pessoas, fazer agrado, tinha que ter vontade, gosto, dizer assim: “Vou trabalhar e vou fazer.” Porque senão, não... Hoje não. As pessoas, às vezes, têm uns mesmo assim com todo treinamento, pessoa ensina e tudo, mas mesmo assim parece que eles só diz assim: “Sou só garçom, mas por dentro não tem nada de garçom.” Não tem agrado, como a gente faz muita reunião com eles, inclusive ontem teve uma reunião com eles lá... Ontem não, foi terça-feira e a gente explicando para eles o jeito de chegar na mesa, não tem agrado, não ri para o cliente, não dá bom dia, não dá boa tarde, não dá nada. Eu, quando era garçom na época, todo mundo fazia uma fila para sentar comigo por quê? Eu tinha agrado com os clientes. Até hoje eu conheço muitas pessoas, muita e muita, muitos, muita gente importante aí. Artista de televisão chega lá, me procura, conversa comigo, brinca, se abraça comigo, bate papo, conta história de pescador, conta tudo. Como o Rodrigo mesmo, Jorge Dória, esse Romeu que era o Saci do Sítio vai lá toda noite com a família. Eu conheço tudo, muito tempo, muitos anos. Então eles batem muito papo porque tinha conversa para eles para brincar, entendeu? Esses outros não conversam, não bate papo. Quantos e quantos chegavam lá, até o Guilherme que chega lá, brinco muito com ele. Na época chegava lá, o pai namorava com a mãe...

 

P/1 – Nossa!

 

R – O pai namorava com a mãe, chegava lá... Só sentava comigo. Depois casaram, tiveram o Guilherme. O Guilherme quando via no carrinho, que ele estava na Parmê, meu Deus do céu, chorava muito, chorava, gritava, esperneava no carro, fazia tudo. Eu pegava o carrinho: “Não, não, me dá o carrinho aqui.” Eles ficavam lá comendo, eu pegava o carrinho, Guilherme com os pezinhos, as mãozinhas chorando muito. Eu saía, chegava lá na copa, pegava a chupeta do ___, pegava um pouquinho de açúcar, botava no carro, levava _______________. (risos) “O que é que você fez com ele?” “Não, só balancei o carrinho só, ele parou de chorar.” (risos) Até hoje quando o Guilherme vem, eu falo com ele: “Guilherme, tu lembra que eu botava açúcar na sua chupeta.” Ele ri muito, ele sabe. Está um homão hoje, tem um montão deles, garotas, tudo. Quer dizer, aquilo ali...

 

P/1 – Mas o que é que precisa para ser um bom garçom?

 

R – Ah, um bom garçom, você tem que saber tratar as pessoas bem. Saber tratar bem, entender o jeito das pessoas, que tem pessoa que ri, tem pessoa que chega lá: “Vem cá, como é que fio o jogo do Flamengo ontem.” Tem pessoa que você chega “bom dia, boa tarde, boa noite” ele pega o cardápio, nem responde. Então esse que tem que trabalhar em cima dele. Aquele que chega “oi, tudo bem, como é que está” e brinca, aquele é mole. Agora aquele que chega já com problema, que não sei o que ele arruma lá fora, chega cheio de problema, aquele tem que chegar bem perto dele, entendeu, e trabalhando ele, conversando com ele, batendo papo, perguntando se a comida está boa, se não gostou, faço outra. Então, quando na saída, ele vai ver que você fez tanta coisa por ele, que ele vai ter que chegar, agradecer e dizer que você foi bom mesmo.

 

P/1 – Agora você contou, quer dizer, nesse início tinha pizza, as pizzas eram o quê, só mussarela naquela época?

 

R – As pizzas eram pouca variedade na época.

 

P/1 – O que é que tinha?

 

R – Portuguesa tinha umas que acabaram também que eram muito boas, era Gil que era camarão, tomate, cebola e orégano.

 

P/1 – Era pizza Gil?

 

R – Era. Essa Gil era, vinha com tomate, camarão, orégano e cebola. Era muito boa. Essa acabou. Depois tinha portuguesa também que era muito vendida, linguiça calabresa, presunto, cebola, azeitona e ovo cozido por cima da mussarela. Tinha também uma pizza Parmê que ela vinha com aspargo, milho verde e vinha com rodelas de tomate também, era muito boa, também acabou. Depois teve uma Califórnia que vinha com figo, vinha com pêssego, vinha com goiaba em conserva e acabou também. Depois renovaram outras. Aí entrou um cardápio de carne que não tinha na época. Era só filé e um churrasco. Depois entrou estrogonofe de frango, entrou estrogonofe de filé, entrou Escalope, entrou peito grelhado, entrou peito à milanesa, entrou parmegiana, entrou peito à parmegiana, entrou peixe que não tinha também, entrou truta e foi muitos pratos. Hoje o cardápio da Parmê é um cardápio que você tem muitas opções de pegar o cardápio e escolher à vontade, tem muitas coisas.

 

P/1 – E as tortas?

 

R – As tortas também era duas só. Era só chocolate e era o pavê de chocolate feito com biscoito de maizena, creme e cobertura de chocolate. Essa era o falecido Sebastião que fazia. Era o Tião e ele fazia essas duas tortas dentro da cozinha da Parmê.

 

P/1 – Era o quê, torta de chocolate?”

 

R – Era um pavê de chocolate e uma torta.

 

P/1 – O ______ fazia uma torta e fazia um pavê. No outro dia, aquilo acabava, ele fazia para não ficar velho e sempre uma de cada um, também a clientela era pouca. Depois foi crescendo, crescendo e crescendo, chegaram um ponto, fizeram uma fábrica chamada Parmesão, na Alexandre Caraza. Tudo de cozinha ali, de salgado, de doce, levaram para lá. Então chegaram lá, começaram a fazer os doces, começaram a fazer as tortas. Foram fazendo torta de morango, foram fazendo torta de marshmallow, foram fazendo torta de fruta, foram fazendo torta de chocolate, brigadeiro, doce de coco com chocolate, foram fazendo aquela... Pavê de maçã, que eles faziam de chocolate, passaram fazer de maçã. Foram fazendo a torta de... As mais antigas mesmo, a Noel que era de nozes e foram fazendo. Hoje tinha o quê, deve estar na faixa de umas 20 a 30 qualidades de torta e vende muito por dia, vende muita torta daquela.

 

P/2 – E essa mudança no cardápio, esse aumento na variedade de coisas, isso aí partiu dentro de uma vontade mesmo do próprio pessoal da Parmê: “Não, vamos diversificar, tal, vamos ampliar” ou foi atendendo aos pedidos dos clientes? A clientela começou: “Pô, não tem uma pizzazinha assim, uma tortinha diferente?”

 

R – Olha, a maioria mesmo partiu deles. Agora a pedido mesmo, se fosse para fazer hoje a pedido, tinha mais de 60 tipos de pizza diferente porque um pede rúcula com brinjela, outro pede com alcaparra, outro pede com camarão, outro pede com outros tipos de coisa, entendeu? E cada um quer pedir. Então, se for botar todas as pizzas que o pessoal pede, daqui um dia você vai ter que ter um cardápio desse tamanho assim, cheio de...

 

P/1 – Mas, quer dizer, os clientes agora são mais exigentes do que eram? O que mudou nesse cliente carioca ou do bairro?

 

R – O cliente carioca continua o mesmo. Só que o cliente carioca eu achei o seguinte; antigamente, eles eram muito de churrascaria, era muitos de festa, de show ao vivo, essas coisas, né? E antigamente tinha casas que trabalhava com frutos do mar famosas e o cliente carioca gostava muito disso. Agora o cliente carioca ele está mais indo mais para massa, entendeu? Eu acho que o troço, cada dia que passa, aperta mais um pouco...

 

P/1 – Financeiramente que você está dizendo?

 

R – Financeiramente aperta mais um pouco, que eles agora procuram mais massa. Essas casas, por exemplo, como a Parmê, uma casa com cardápio muito bom, tem o que eles querem, tem carne, tem estrogonofe, tem peixe e não é tão caro. O atendimento sempre foi cobrado para dar mil, entendeu? Às vezes existem falhas, mas aquelas falhas depois são corrigidas...

 

P/1 – O que é que não pode acontecer?

 

R – O que não pode acontecer é o cliente chegar e sentar e alguém não ver quando ele chega. Primeiro, quando ele entra na porta, ele tem que ser cumprimentado. Chegou na mesa, tem que cumprimentar e o pedido não pode passar de três minutos, o cliente sentar para ser tirado. Tem que levar o cardápio ______. Enquanto ele tiver escolhendo, tudo bem, mas o garçom tem que estar ali para tirar o pedido sem deixar o cliente esperar nada. Outra coisa também, o cliente olhou, não precisa nem o garçom ficar esperando ele chamar. Olhou para um lado assim, sentiu que ele está olhando, vai atrás dele que ele quer alguma coisa. Isso quando o garçom não trata, o supervisor para cobrir. Olhou, chega perto: “Pois não? Alguma coisa.” E ele já e... Quer dizer, não pode esperar, isso que a Parmê não quer que o cliente espere.

 

P/1 – Porque o tempo das pessoas também é menor? Por exemplo, antigamente, as pessoas ficavam mais tempo na Parmê na década de 80, hoje, como que é isso, Fonseca?

 

R – Mais tempo. Hoje é o seguinte; hoje o cliente, ele não está mais ficando até tarde. As casas noturnas mesmo que tinha quando conheci muitas noturnas, que ficava lotada, como boates que ficava lotada, cinema que ficava até tarde, cheio, isso não existe mais. O cliente de hoje é o seguinte; ele está vindo do trabalho, ele entra no restaurante. Ele comeu, bebeu, vê a conta e vai embora. Ele não quer mais e conheço também muitos que não estão vindo também só por causa da violência no Rio.

 

P/1 – Qual é o horário de funcionamento da Parmê hoje?

 

R – Ela abre 11:00 da manhã e fecha 00:00.

 

P/1 – Você trabalha na Parmê Vila Isabel?

 

R – Parmê de Vila Isabel.

 

P/1 – Esse cliente é um cliente do bairro? É um trabalhador, é um morador, quem é?

 

R – Mas ali tem muitos de fora. Tem muitos clientes de Jacarepaguá que vem, passa sempre ali. Muitos clientes vem da Tijuca, tem Parmê na Tijuca, mas eles não gostam da Parmê da Tijuca. Eles vêem para lá. Tem cliente do Meyer que mora do lado do Meyer, do lado da Parmê do Meyer, mas não gosta, ela vem para a Parmê da Vila.

 

P/1 – Por que você acha isso, Fonseca?

 

R – Não sei. Olha, eu acho que como ela foi uma das primeiras que começou, o tratamento sempre foi cobrado aquilo, aquele regime, todos que vão entrando ali, o regime é aquele, que acho que até hoje, por isso que o pessoal sempre gosta daquilo. Chegou ali, sentou, “oi, boa noite, tudo bem”, todo mundo. Comida rápida, sai, comeu, pediu a conta, vai embora. Às vezes vai na do Meyer, chega lá, não tem uma pessoa que chega lá, “oi, boa noite”, às vezes não conhece, ou às vezes não liga também, que são muitos funcionários. Aquilo que falei, tem sempre os que gostam, se dedicam a fazer o trabalho, têm outros que só fazem por obrigação. Às vezes ele vai na outra, não gosta do atendimento. Então, é por isso que eles vêm de fora e vai diretamente aquela casa. Acho que hoje você tendo um bom tratamento numa casa, aonde você tiver um bom tratamento é onde justamente você vai, que às vezes a comida pode ser muito gostosa, pode ser muito gostosa e muito barata, mas você vai lá, chega lá, chama o garçom dez, doze vezes, assobia, chama o garçom, às vezes o garçom está fumando um cigarro e você está lá: “Cadê o garçom?” Está lá o garçom batendo papo com os outros. Você espera, se aborrece, não tem a quem falar, não tem um supervisor, não tem um responsável para você chegar e desabafar em cima. “Estou aqui esperando, não tem nada.” Então, o que é que o cliente faz? Levanta e vai embora. No caso, às vezes, da porta baixar. O cliente vai saindo, vai saindo e vai saindo, vai passando para outro: “Ah, fui lá, não gostei do atendimento.” Aquilo ali chega um ponto que a porta fecha. Fica desempregado, o patrão perde a casa e...

 

P/1 – Você falou uma coisa de assoviar, o que mudou na forma das pessoas chamarem o garçom? O pessoal chama “psiu, psiu, o garçom”, assovia, como que é?

 

R – É, tem uns que assovia, tem outros que faz assim, tem outros que “o garçom”, tem outros que bate na mesa. Na Parmê não acontece isso. Às vezes quando acontece, até é ignorado. O cara chega lá, dá um assovio assim, nego, todo mundo já fica... Porque não tem esse negócio, não tem necessidade, cada supervisor fica ligado ali. O cara fez assim, já chega “pois não.” Quer dizer, não tem o negócio do cara ficar “oo, oo”, fazendo assim, nem...

 

P/2 – Qual é uma média boa de garçons por clientes assim? O garçom pode atender bem até quantos clientes, vamos dizer assim, sem sobrecarregar?

 

R – Ali, aquilo ali é feito por escala. Aquilo ali é feito uma escala todos os dias e cada setor tem quatro, cinco mesas por garçom. Por exemplo, se pega uma mesa dupla com duas mesas, ela vai ser quatro mesas para um garçom. Se pega mesas pequenas, sem ser dupla, pode botar cinco mesas para um garçom. Então, cada um pega aquilo ali, certo? Cada um pega aquele setor. Ele vai trabalhar do começo até o final só naquelas mesas dele. O responsável por aquelas mesas é ele, entendeu?

 

P/1 – Quer dizer, mas aí o garçom, então, ainda trabalha muito?

 

R – O garçom trabalha muito. O garçom trabalha. Sempre foi emprego que todo mundo sempre criticou, emprego... Emprego de garçom sempre foi difícil. Ser garçom é difícil. Não é dizer “eu sou garçom” não, é difícil. Primeiro você tem que ter gosto, vontade, você às vezes escuta do patrão, às vezes escuta do copeiro. O copeiro dá esporro em você. Chega na cozinha, o cozinheiro... Graças a Deus, na Parmê nunca teve isso, sabe por quê? Os donos nunca deixaram: “Olha, não quero política, não quero problema. Se tiver, eu mando embora.” Acabou. Mas têm casas por aí, o garçom chega na copa: “Ah, me dá isso aí.” O copeiro vem lá com uma faca: “O que é que você quer?” Chega na cozinha: “Faz um filé assim, assim, assim.” Leva para o salão, “passa mais.” Chega lá, “passa mais isso aí.” Na Parmê não. Se reclamar, ele vai mandado embora. Tem que ser certo. Têm muitos que “não, não, não quero mandar passar mais não” porque diz que têm casas por aí que você manda passar, diz que o cara pega, cospe em cima, pisa em cima com raiva porque o cara mandou passar. Na Parmê, se ele reclamar, ele é mandado embora.

 

P/1 – Pois é, como que é um bastidor de cozinha e restaurante? A gente sabe que tem fama, que é confuso, que é bagunçado, que é meio sujo, como que é um bastidor de cozinha na Parmê?

 

R – Aquilo ali é o seguinte; aquilo, na Parmê é muito limpo. Primeiro, que quando eles entram, eles já pegam a cozinha limpa. Durante o período do serviço, ali, às vezes, cai uma massa no chão, cai um negócio ali, imediatamente ele limpa aquilo e está sempre passando um pano em cima do balcão, limpando uma pia, limpando uma coisa, limpando porque senão vai acumulando. Panela suja, vai jogando senão for lavando, vai, entendeu? Então funciona direto normalmente. O garçom vai chegando, vai botando os pratos, o camarada vai tirando a comida aqui, outro já vai botando na máquina, já vai tirando, outro já vai secando. Joga o álcool, já seca, o outro já vai levando para o salão, o outro já vai, tira dali, ________ que é o ajudante do garçom, já tira dali, já bota na mesa, já vai montando tudo na mesa e ali fica a noite toda circulando. Cada um na sua função. Qualquer falha que der numa ali, aquilo é tipo um caminho de formiga, entendeu? É um com prato para lá, outro com bebidas para cá. Qualquer falha que vier ali, então a gente vai saber qual é o problema, onde é que está o problema na cozinha, na copa. O garçom pediu a bebida, o cliente chegou: “Pedi a bebida, o garçom não está vindo.” A gente vai saber, ir atrás do garçom qual foi o problema, onde está demorando. Se o copeiro amarrou a bebida dele, ao quis soltar, ou se é o garçom que foi fazer outra coisa e esqueceu, senão comandou, entendeu? Se ele pediu, às vezes, para o garçom que não era da praça, o garçom não passou o recado. Então tem que estar sempre nessa atividade para não haver falha, mas depois que engrena ali o troço, funciona normal.

 

P/1 – Quer dizer, no fundo um trabalho onde, no fundo, todo mundo depende de todo mundo. É uma cadeia de trabalho...

 

R – Perfeitamente, é uma orquestra, todo mundo tem que estar tudo afinado. Se um desafinar, vai começando atrapalhar tudo.

 

P/1 – Eu queria te perguntar uma coisa, quer dizer, hoje se dá gorjeta para garçom, como se dava antigamente?

 

R – Não, têm muitos que até gostaria, mas não pode mais como dava antigamente. Naquela época que trabalhava de garçom, muitos dava dobrado. Invés de dar 10, me dava 20, 30%. Isso aqui fazia a conta, pagava a conta, tirava do bolso: “Isso aqui é teu separado.” Então eles me davam mais. Hoje, isso que a gente sempre quando está fazendo a reunião, sempre avisa para eles: Olha problema de gorjeta hoje está sério. Às vezes o cliente vem só com o dinheiro trocado no bolso, chega ali, come, quando ele bota a mão no bolso, às vezes sobra só um real para pagar o estacionamento e ficou sem dinheiro. E aí? Às vezes o camarada quer dar, sai até com vergonha: “Desculpa que eu estou sem dinheiro.” “Não tem problema. Parmê não cobra, também não tem problema.” Mas hoje ficou difícil. Hoje uma conta de 200 reais já fica ruim do cliente pegar 20 reais, 10% e dar. Até 10 reais, 15 reais ele dá, os 52 reais de gorjeta ele dá, mas passou de 100 reais, 200, aí já fica difícil para pegar os 10%, “toma os 10% para você.”

 

P/1 – E, assim, como é que... O que mudou, em termos de forma de pagamento? Quando você começa trabalhar na Parmê em 1980 já se aceitava cheque, já se aceitava cartão?

 

R – Cartão não. A Parmê nunca trabalhou com cartão, a princípio. Ela sempre trabalhou com cheque, ticket restaurante e dinheiro. Mas muito tempo, muito mesmo, depois eles inventaram botar o cartão. Botaram o cartão, mas só que depois não deu certo. Não gostaram, aí pararam com o cartão. Agora é só cheque, ticket e dinheiro. Isso de alguma forma interfere, por exemplo, no seu salário final, alguma coisa, não?

 

R – Não. São coisas que funcionam normais, sem problema nenhum, casa sempre cheia...

 

P/1 – Quando tinha mudança de moeda? Plano Collor, Real, Cruzeiro, Cruzado Novo...

 

R – Aquilo ali só Deus sabe como é que a Parmê segurava a gente porque foi justamente na época do Plano Collor, foi justamente quando me promoveram. Naquela época tinha noite da gente vim, garçom folgava três dias por semana. Chegava lá, só as mesas e as cadeiras, não vinha ninguém. Todo mundo sem dinheiro. O próprio Parmê sempre manteve ali, sempre segurou os funcionários todos. Firma que nunca atrasou pagamento, firma que sempre depositou fundo de garantia, tudo em dia. Firma que sempre fez tudo pelo funcionário, ela sempre fez isso.

 

P/1 – E, por exemplo, existe promoções na Parmê? Existe, assim, por exemplo, algum evento, ela faz alguma promoção: “Torta tal nesse dia vai...”

 

R – Não, ela... Não, ela... A Parmê, ela faz sempre, às vezes tem sempre... Por exemplo, nós estamos com uma promoção lá agora de três tipos de pizza; a família calabresa, família portuguesa, família mussarela. Com o tempo elas tiram aquela e bota uma massa, ou bota uma torta, entendeu? Eles botam, fica um tempão naquela promoção e tem a promoção também na lanchonete, que é as fatias de pizza acompanhando um doce, acompanhando uma coca, entendeu? Têm umas três na lanchonete do outro lado do restaurante, têm umas três faixas lá com as promoções. Então você pega duas fatias de pizza, uma torta e um refrigerante, ou duas fatias de pizza, um docinho que é uma bombinha, ______ não tem direito a torta, ou três fatias de pizza, um refrigerante e outro doce que você quiser. Então eles têm e o preço, valor diferente. A pessoa vai e decide, sempre faz promoção.

 

P/1 – E, por exemplo, você sabe se a Parmê faz propaganda, faz publicidade, anuncia em jornal, revista?

 

R – Olha, a Parmê nunca fez propaganda em televisão, nem revista, nem... Nunca botou nada de propaganda não. A única propaganda da Parmê mesmo é o cliente que vai lá. O cliente que sempre vai lá, ele sempre sai falando que foi na Parmê. É até difícil, qualquer coisa que você falar, “eu fui à Parmê” todo mundo “eu fui e gostei muito.” É muito difícil ter um dizer que não gostou, entendeu? Principalmente na da Vila Isabel todo mundo que vai ali, todo mundo elogia e diz que só têm pessoas que vêm da Barra para lá. Tem Parmê na Barra, mas eles não gostam da Barra, eles vêm para lá. Faz questão de vim, entendeu? Agora, já têm muitos que não estão vindo com medo da violência. Fica, tem um ali na Nova América, pessoal já fica com medo de atravessar túnel Noel Rosa para vim para cá porque aquilo lá é tiroteio toda hora, toda hora, toda hora. Então eles ficam com medo. Quando eles vêm, fala comigo: “Fonseca, eu não estou vindo mais aqui porque está com problema seríssimo aí, esse negócio de tiro toda hora na rua, problema e tal, eu não venho, fico lá mesmo.”

 

P/1 – A Parmê tem algum símbolo?

 

R – Tem só uma... Olha, já fizeram um bocado deles, mas nenhum deu certo. Botaram Dom Giovane, botaram um bonequinho lá com uma paletinha. Tem só uma bonequinha com uma paletinha só. Já fizeram outros também, mas não nunca chegaram botar isso aqui, como no Rincão Gaúcho. No Rincão Gaúcho era um cavalinho com um gaúcho montado em cima. Até hoje continua.

 

P/2 – E a Parmê tem alguma embalagem, alguma coisa assim, que seja só dela, que caracterize a Parmê, alguma coisa assim?

 

R – As caixas das torta. As caixa das torta são todas ela com desenho da Parmê, nome da Parmê, tudo, entendeu?

 

P/1 – Quer dizer, tem uma... Você disse, então, quer dizer, que tem, é tipo uma fábrica? A Parmê, então, ela tem a sua fábrica própria?

 

R – Tem a fábrica própria. Ela tem uma fábrica na rua... Teve na Alexandre Calazia, teve na Senador Soares, agora tem uma fábrica ali na Mangueira, na Vila Olímpica da Mangueira, primeira rua na João Rodrigues, ali tem um predião, uma fábrica, coisa mais linda do mundo.

 

P/1 – Lá se produz o salgado e o doce?

 

R – Lá faz todo tipo de massas de... Um está fazendo pizza para vender seca, outros estão fazendo é doce, outros estão fazendo torta, outros estão fazendo é massa, outros estão cortando nhoque, outro está embalando, está todo mundo de máscara, de toca. Até no refeitório, se você chegar lá para tomar café, um negócio para ir lá visitar, tem que botar uma toquinha para poder descer.

 

P/2 – Na Parmê em si, então, hoje em dia na cozinha você só assa os produtos, prepara os produtos? Assim, por exemplo, você não faz a massa da pizza...

 

R – A massa é feita lá, mas a água... Vem a fórmula da fábrica. Vem à garrafinha de água lá com o preparo, então na hora você bota só o fermento, botou a garrafinha, aí vem cinco quilos de massa, dez quilos de massa, 20 quilos. O movimento está fraco, pega uma garrafinha, bate só cinco quilos. Tem muito movimento, bota 10 quilos. Tem muito, bota 20. Botou a água, jogou 20 quilos de farinha, é só rasgar o papel e jogar dentro. Rodou a máquina, bateu a massa, está certinha, no ponto certo.

 

P/1 – Imagine isso quando você chegou no Rio de Janeiro... (risos)

 

R – Naquela época tinha que bater com a mão, esfrega para lá, esfrega para cá, bate para lá, depois tinha que pegar um rolo e esfregar todinha para lá, botar lá na forma todinha, ajeitar. Agora não. Agora é tudo prático.

 

P/2 – Botava ali a raiva do dia inteiro na massa.

 

R – E o trabalho, rapaz, de fazer hoje. (risos) Você vê que até aqueles bolinhos, até aquelas bolinhas de queijo redondinha, aquilo tinha que ser feito na mão. Coxinha de galinha tinha que ser tudo. Agora não. Agora é numa máquina. Jogou ali, já cai só a bolinha certinha e é tudo certinho, tudo padronizado. Já o recheio, já bota tudo.

 

P/1 – Agora você falou de movimento, qual é o dia mais movimentado da Parmê de Vila Isabel?

 

R – Sexta-feira.

 

P/1 – Que horas?

 

R – Depois de 19:00 da noite. Depois de 19:00, 20:00, começa encher até 00:00, está lotado e com fila na frente também.

 

P/1 – É?

 

R – É. Faz uma fila muito grande, hoje mesmo a fila, meu Deus do céu.

 

P/1 – Fala, então, do dia de hoje? (risos) Hoje é dia 12 de...

 

R – Hoje só Deus sabe. (risos)

 

P/1 – Hoje é 12 de junho, Dia dos Namorados, é um dia que enche lá?

 

R – Hoje enche muito e fica lotado. Faz uma fila na frente que vai como daqui até o final da rua hoje.

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – E o que mudou? Antigamente também se comemorava Dia dos Namorados?

 

R – Comemorava, sempre comemorou. Dia dos Namorados sempre comemorou. Dia das Mães sempre foi muito bom. Todos Dia das Mães sempre enchem. Dia dos Pais, todas essas datas, sempre o pessoal ainda não esquece.

 

P/1 – Mas essa coisa, a mulher, ela paga hoje conta? Ela sempre pagou as contas? Como é que isso mudou?

 

R – Mas é o cliente?

 

P/1 – A mulher cliente é.

 

R – A mulher cliente é a mesma coisa. Sempre comeu, bebeu, pagou. Conheço muitas pessoas ali que vai ali na... Inclusive aquele pessoal do Pedro Ernesto, aqueles médicos, têm muitos médicos ali que são todos meus amigos, tudo conhecido, e têm muitas médicas também que vão grupos de 10, 12, 15, entendeu?

 

P/1 – Beber um chopp, por exemplo, um grupo de meninas, mulheres...

 

R – Isso, isso, vão lá, comem rodízio, toma chopp. É difícil elas tomar chopp. Elas tomam mais refrigerante, que elas estão de serviço. Os médicos, de vez em quando, é que às vezes tomam... (risos) Mas elas vão sempre ali e no final sempre paga com cheque, com dinheiro mesmo.

 

P/1 – Mas se você tivesse que dizer “a Parmê de Vila Isabel, a clientela é mais homem ou mulher?” Você consegue visualizar isso?

 

R – Não consegue pelo seguinte; olha, dia de rodízio é tanta garota, tanta garota, mas tanta gente acho que tem mais mulher do que homem, entendeu? Têm mesas ali, às vezes, de 40, 50 pessoas assim, tem quatro, cinco garotos, o resto tudo garota. Fica ______ só de garota mesmo.

 

P/1 – Garota que você está dizendo de quantos anos?

 

R – Garota com 16, 18, 15, 14.

 

P/1 – Mas, por exemplo, mudou a forma... O que as mulheres comem? Por exemplo, esse negócio diet, light, isso mudou? A Parmê tem produto light, diet, como que é?

 

R – Olha, já teve, já teve uma pizza muito boa, que era light. Era feito com...

 

P/1 – Pizza light me engana?

 

R – Não, não engana. (risos) A pizza é light mesmo.

 

P/1 – É?

 

R – Light, mas light mesmo, legal. A pizza light era feito, era... A massa era feito com trigo puro, entendeu? Não era essa farinha de trigo comum. Era aquele trigo puro, levando ricota, invés de mussarela, levava ricota por cima. (risos) Que a ricota não tem gordura nenhuma e ali levava todas as ervas. Levava sálvia, levava alecrim, levava manjericão em cima daquilo ali. Então você comia, não tinha gordura nenhuma. Nem a forma não era nem passado gordura, entendeu?

 

P/1 – Mas aí tomava um chopp?

 

R – Olha, muitas gente, às vezes, tomava um chopinho, tomava um refrigerante, uma coca, mas a massa da pizza não era... (risos)

 

P/1 – A pizza era light.                                          

 

R – Depois que tiraram, até hoje todo mundo pede: “Ah, mas tiraram a pizza? Estava...” Também não botaram mais.

 

P/1 – Tá, então eu acho que devagarzinho a gente vai encerrando, mas eu queria que você falasse agora da sua família e queria que você contasse o seu casamento. Que dia foi, quando foi e como é que foi comemorado?

 

R – Meu casamento foi o seguinte; eu arrumei uma namorada que trabalhava nesse mercado Elau e eu trabalhava no Siroco na época. Então ia muito lá e passei a conhecer ela, fazia as compras no supermercado para o restaurante que eu trabalhava e sempre passava no caixa dela. Comecei a conversar com ela e tal. Bati papo com ela, comecei namorar com ela. Namorei seis anos, morando no Conde de Bonfim, 114, que era pertinho e ela morava nesse prédio que estamos morando hoje. Passei seis anos namorando com ela. Falei com ela, “se você quiser casar comigo, a gente pode até casar. Agora só vou poder casar quando eu puder comprar uma moradia para gente morar. Senão, para pagar aluguel, não vai dar certo.” E ficamos seis anos namorando. Depois foi quando eu saí da moradia que eu ficava na Tijuca, fui morar nesse apartamento que a Parmê comprou. Morei lá uns três meses mais ou menos, quase seis meses, não lembro na época. Aí foi quando eu terminei de fazer o serviço na minha casa na Ilha e fui morar na Ilha, foi quando eu casei.

 

P/1 – Você lembra o dia, a data?

 

R – Foi dia 03/10/1980. Não, dia 03/10/1981, de 1981. Fui casar, falei com seu João, que era um dos sócios da firma, um dos sócios, falei: “Seu João, é o seguinte...”

 

P/1 – Da Parmê.

 

R – É. “Estou com o pessoal aí, vou casar...” Ele estava sabendo que ia casar. “Eu vou casar e estou com o pessoal que está vindo aí para a igreja, só que o apartamento do meu cunhado é muito pequenininho e lá não vai caber o pessoal todo. Também estou sem dinheiro para comprar uma cerveja, comprar uns negócios para o pessoal sair da igreja, pelo menos tomar uma cerveja para não sair com sede. Então gostaria de saber, não daria para mim trazer o pessoal e vim para cá, para o restaurante?” Ele disse: “Pode trazer todo mundo para cá. Tudo bem.” Só que achava que ia ficar misturado. Chega lá, o cliente entrar, a gente ia ficar como cliente, mas não. Fui para a igreja e deixei o salão de um jeito. Quando eu cheguei, o salão estava de outro. Ele tinha tirado as mesas todas que estava por ordem, botou nos canto da parede, fez umas mesa dupla, pegou as cadeira, botou tudo em volta da parede assim. Deixou uma mesa, que é justamente essa foto. Tem a mesa que tem o bolo e tem a parede com aquelas, umas árvores amarela que tinha. Parece até uma floresta de tarde, aquela bem, entendeu?

 

P/1 – Papel de parede?

 

R – É papel de parede, numa parede grandona assim, grandão. Estava lá o bolo e muitas rosas. Cada mesa, aqueles vasos de flores bonitas. Cheguei, nem conhecia: “Poxa, está bonito isso aqui.” De tarde falei: “Olha, nunca usei paletó, certo? Nunca usei terno, não sei nem como é que usa.” Ele disse: “Não, pode deixar comigo que eu te levo uma pessoa para usar contigo.” Aí mandou o Amanso que era um do cunhado de um dos sócios, que era um dos donos. “Amanso, vai com ele lá e arruma ele.” O Amanso chegou, fui lá no quarto de um amigo meu, lá na 28 de Setembro, num quartinho pequenininho, tomei um banho. Já estava o terno todo lá preparado. O Amanso veio lá, botou o terno, botou a camisa, ajeitou, botou a gravata, ajeitou tudo que eu não sabia. Fomos para a igreja casar. Cheguei lá na igreja, casei. Quando saímos, viemos para a Parmê. Quando chegamos lá, já estava tudo enfeitado, todo mundo começou, entrou. Muita bebida, muita pizza. Eu tinha arrumado uns camarão com um amigo meu, que era diretor dali da Praça XV na época, e ele me deu um saco de camarão cheinho, tudo fresquinho. Mandei o cozinheiro preparar os camarão. O cozinheiro só preparar travessa de camarão, pizza, caipirinha, vodka, whisky, o pessoal comeu e bebeu à vontade. No final eu cheguei perto do homem e falei: “E agora, como é que vai ficar isso aí?” “Não se preocupe não. Vai para casa.” Eu fui para casa, fiquei o quê? Era para passar um mês, quando foi com 20 dias, eu já voltei. Digo: “Estou querendo trabalhar.” “Não, mas...” “Não, estou querendo trabalhar que parado não dá não.” Eu sempre preocupado com a conta. Ele disse: “Não esquenta a cabeça não.” Aí, “paga do jeito que você puder.” Fui pagando do jeito que eu... Do jeito que Deus quis, eu paguei. Me cobraram de pouquinho em pouquinho, com décimo terceiro, com pagamento, com... Às vezes com dinheiro de férias. Aí graças a Deus eu casei e continuei com a minha esposa morando na Ilha. Morei 20 anos. Depois foi quando eu vendi a minha casa lá, aí tinha arrumado um dinheiro, voltei, comprei o apartamentozinho na Tijuca, pequeno também. Comprei, fiz uma reforma toda dele, vim morar aqui. A família dela que já morava todo mundo aqui: “Não, vem para cá, vem para cá.” A gente veio, também para mim é bom porque é o quê, cinco minutos da Parmê para casa, é rapidinho.

 

P/1 – E vocês têm filhos?

 

R – Tenho um filho.

 

P/1 – Qual é o nome dele?

 

R – Felipe.

 

P/1 – O que ele faz?

 

R – Felipe está... Estudou até agora. Terminou o segundo grau, agora está listado na Aeronáutica. Está listado na Aeronáutica e esse mês agora, ele vai se apresentar para saber se serve ou se não serve. Se ele não for servir, agora vai ter que arrumar emprego, começar estudar, né?

 

P/1 – Mas você gostaria, por exemplo, que ele trabalhasse no mesmo ramo que você?

 

R – Olha, muitas vezes até já pensei isso, mas acho que não.

 

P/1 – Por que, Fonseca?

 

R – Eu acho que não porque é aquele negócio que falei no passado; olha, trabalhar ali, você tem que ter muito jeito, tem que ter muita vontade, entendeu? Eu acho que essa rapaziada de hoje, principalmente ele, que ele foi criado. Fui criado de um jeito, ele está sendo criado de outro. Fui criado na roça, passando fome. Saía para o roçado de manhã, chegava em casa de noite, sem comida. Queria um sapato, não podia comprar. Queria uma camisa que gostava, não podia comprar. Ele não. Hoje chega: “Pai, quero uma camisa.” “Vai, pega lá.” “Ah, pai, eu estou querendo comprar um sapato assim, assim, assim, me dá o dinheiro.” Graças a Deus eu tenho para dar, eu dou. Só tenho um também. Já não tenho um bocado para poder, pelo menos, fazer com um o que o meu não pode fazer. Mas eu acho que hoje para ele trabalhar em restaurante, eu acho que ele não vai aguentar escutar o que eu escutei de um, de outros, de outros, de outros, de tanta coisa ali. Você, às vezes, é obrigado a engolir seco para não perder o emprego, entendeu? E a melhor maneira que você tem que fazer é o seguinte; tem que engolir seco, você escutar e você certo, dizer: “Não, desculpa, eu estou errado”, que é para poder caminhar. Se você disser... Às vezes você está certo, mas você: “Não, que eu estou certo” e vai querer botar pé firme naquilo. O que é que vai acontecer? A casa vai ficar e você vai para rua. Então eu penso comigo; a gente para fazer isso, eu acho que se você trabalha, ______, não está gostando, eu acho que ou você compra uma casa para você ir trabalhar por conta própria, ou senão você tem que escutar e aturar mesmo o que eles querem.

 

P/1 – Você já pensou sobre isso, de abrir um negócio seu com alguns colegas?

 

R – Já fui convidado muitas das vezes. Às vezes eu pensei em ir, depois pensei em não ir. Muitas vezes eu pensei: “Não, eu vou.” Mas depois, quer saber de um negócio; aí uns foram, não se deram bem. Outros foram, não se deram bem. Outros se deram e eu fiquei naquela “vai ou não vai, vai...” Tive muitos convites, muitas propostas boas, tive muita. Já me chamaram para comprar... Por exemplo, quando eu comprei esse apartamento aqui, o camarada “compra um bar assim, assim, que está bom, que está vendendo barato, não sei o quê.” Eu fiquei pensando para você comprar um bar hoje está difícil porque até uma cerveja para se beber no botequim, hoje em dia você toma uma e acabou. Antigamente você chegava nesses barzinho por aí, você tinha fila para tomar aquela cerveja lá e você queria fechar a porta, como muitas vezes eu estava dentro do bar, o cara: “Vou fechar, eu estou indo embora, estou indo embora, estou indo embora.” O cara: “Não, eu quero mais um, quero mais uma.” Hoje não. Hoje você vai passando na rua, o cara: “Não quer tomar uma cervejinha não?” O dono do bar, entendeu? Quer dizer, fica tão difícil o comércio hoje, que hoje mesmo eu não penso mais em comprar um negócio para mim.

 

P/1 – Agora, quando o Felipe era pequeno, você levava ele, às vezes, na Parmê?

 

R – Ele sempre vai. Ele gosta da Parmê.

 

P/1 – Ainda hoje ele vai?

 

R – Ainda vai.

 

P/1 – Ele come, bebe?

 

R – Ele, a mãe dele. Come, adora pizza. Chega lá, detona todas. “Pai, posso ir no rodízio hoje?” Eu digo: “Vai lá.” De vez em quando ele vai lá no rodízio. Vai ele, uns amigos dele. Outro dia foi ele e os professor lá da Ilha dele. Foi o professor de Química, foi o outro professor lá que foi com ele lá e mais uns garotos que estuda com ele. Sentaram lá, entraram no rodízio lá, comeram pizza à vontade, saíram e foram embora.

 

P/2 – E como é você quando você vai a uma pizzaria, como cliente?

 

P/1 – Você vai?

 

R – Não vou. Eu não vou porque eu já passo a semana todinha lá dentro. Tem um dia de folga. Por exemplo, a minha folga é hoje, por causa do Dia dos Namorados eu não pude, eu tive que folgar ontem. Quer dizer, todo desprogramado, entendeu? Chega lá: “Você vai ter que folgar na quarta porque na quinta não vai dar por causa do Dia dos Namorados.” Tudo bem, mas isso a gente já sabe. É a mesma coisa; meu nome é Sebastião porque eu nasci no dia de São Sebastião. Então, naquela época nasceu no dia do Santo, não tinha perdão. Nasceu no dia de Santo Antônio era Antônio, nasceu...

 

P/1 – Francisco.

 

R – Francisco é São.... É isso aí. Então, na época que eu nasci, foi dia de São Sebastião, nunca passei o aniversário meu em casa. Hoje é o meu aniversário, hoje eu vou ter o privilégio de ficar em casa. Não fiquei. Por quê? Véspera de feriado ninguém folga. Então é feriado tem que trabalhar. (risos) Tem que comemorar antes porque não posso comemorar no dia do meu aniversário.

 

P/1 – Mas, por exemplo, se você folga, você sai para tomar uma cerveja, por exemplo, em algum lugar?

 

R – Na folga?

 

P/1 – No teu dia de folga.

 

R – Olha, às vezes eu gosto muito de tomar em casa. Sabe por quê? Eu sempre sou meio chato. Eu não sei se eu sou chato ou se eu... Eu não gosto de sair para tomar uma cerveja ou um chopp, chega lá e ficar, às vezes, chamando: “Ooo, Fulano, dá mais um chopinho, por favor?” Eu detesto chopp e cerveja com espuma, não gosto. Às vezes eu estou cansado, parece que eu sou vidro; eu chego perto do garçom, “faz um favor para mim; quando trouxer o meu chopp, pede para botar sem colarinho, que eu não gosto de espuma.” Parece que... (risos) Quando o cara vem, _______: “Pega o teu chopp, devolve. Muito obrigado” e vou embora. Porque olha, o maior cuidado que eu tenho é esse, o camarada chega perto de mim: “Traz um chopp para mim sem colarinho.” Quando ele fala aquilo, eu... Às vezes ele fala duas ou três vezes, eu estou marcando, ele “sem colarinho.” “Está bom.” Aí estou lá, “o meu chopp, não esquece que é sem colarinho.” (risos) Eu pensando, “também tenho o mesmo problema seu.” Que diz que casas não gosta de tirar chopp sem colarinho, que diz que o cara que bebe sem colarinho é isso, é isso, é aquilo, entendeu? Não é nada, rapaz. Eu detesto...

 

P/1 – O que é quem bebe sem colarinho?

 

R – O sem colarinho, me ofende, a espuma me ofende. Dá soluço. Começar tomar aquela espuma, começo com soluço e começo, o troço passa mal, não dá certo. Então eu gosto, no dia da minha folga, eu passo em casa, pego umas latinhas, boto lá no congelador, aí lavo um copo bem lavado, boto para gelar também. Quando está geladinho, eu pego a latinha, vou bebendo e vou botando a cerveja na geladeira. Vou lá e assim que eu tomo cerveja em casa, entendeu? Por isso que eu não gosto e mesmo o tempo também, você às vezes fica muito tempo em pé porque esse ramo você não pode encostar, não pode sentar: “Ah, eu vou sentar só um minutinho aqui.” Não, é em pé a noite toda, para lá e para cá. Quando você sai dali, você está com as pernas quebradas.

 

P/1 – Tem uma idade, um número de anos mínimo que, por exemplo, um garçom... Quer dizer, têm garçons que trabalham 30 anos, 40 como garçom?

 

R – Olha, ele até trabalha, mas só Deus sabe como é que ele trabalha porque as penas começam logo a encher de varizes e começa a doer. Tem dia que você está em pé, as pernas começa a querer dar cãibra. Começa a juntar, entendeu, o nervo ali começa a juntar e começa a doer e os pés ardem, faz calo por baixo faz calo por cima e por mais que ele reclame “iii, o meu calo hoje está doendo” e o troço incomoda muito. Tem que botar remédio, tem que operar, tem que fazer tudo. Olha, é uma vida...

 

P/1 – Vocês têm uniformes lá na Parmê?

 

R – Tem.

 

P/1 – Tem.

 

R – Tem. O garçom tem... Antigamente era a gente que comprava. O garçom comprava o paletó, a camisa branca, o paletó branco, calça preta e sapato preto. Agora, eles fizeram um uniforme que o garçom não compra mais, compra só a camisa e a calça. Tem um avental que eles bota por cima e ataca por trás.

 

P/1 – Vocês tinham gravatinha, antigamente, garçom?

 

R – Na Parmê, nunca... Eu já trabalhei com gravatinha, mas em outras casas. A Parmê sempre teve aquela gravata longa, preta e o paletó branco por cima. Agora eles trabalham com avental e o supervisor... Por exemplo, eu trabalho com uma calça social preta e uma camisa social e gravata só.

 

P/1 – Mas você que compra a sua própria roupa?

 

R – Não, a Parmê dá.

 

P/1 – Parmê dá.

 

R – Parmê dá. Compro só o sapato só. Sapato preto.

 

P/1 – Pois é, mas aí a gente falou de sapato, por exemplo, tem um sapato que vocês trabalham? Por exemplo, ninguém pode trabalhar de tênis, né?

 

R – Não pode. É a mesma coisa que eu digo, o camarada que inventou a gravata, eu acho que ele só inventou, mas nunca usou. Ele inventou e mandou os outros usar porque ele nunca usou. E o camarada que usou sapato, um sapato desse para você trabalhar de noite com ele, no final da noite suas pernas está arrasada. O tênis é levinho, é um troço macio e confortável, mas um sapato desse aí, você trabalhar com um sapato desse uma noite, no final da noite você está arrasado de tanto andar porque não pára. É correria mesmo. Não tem negócio de você ficar encostado de braço cruzado, nem, entendeu? É correria mesmo. Você vai lá, vem cá, chama : “Fulano, vai lá. Fulano, o cliente está chamando ali. Já levou isso na mesa tal. Fulano, chega na cozinha, vem cá, esse pedido está saindo?” E corre para lá, corre para cá, que é para evitar o problema. Senão dá problema.

 

P/1 – Está bom. Sebastião, então olha, se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, você mudaria?

 

R – Não, hoje já não dá mais para mim mudar não. Hoje não dá para mim mudar pelo seguinte; hoje eu já estou numa certa posição que já fica difícil de eu tentar outra. O que eu queria mesmo trabalhar era de garçom na época, que de garçom sempre deu _____, uma profissão que todo mundo critica, que é garçom, não sei o que, garçom e garçom tem problema. Todo mundo critica o garçom. O copeiro critica o garçom, o cozinheiro critica o garçom, o patrão critica o garçom e ninguém gosta de garçom. A verdade é essa. Tem fama de ladrão, tem fama disso, tem fama daquilo, tem fama de tudo. Mas eu trabalhei de garçom muito tempo, graças a Deus sempre fui honesto, sempre trabalhei com pessoas honestas. Já vi muitos rodar por causa de desonestidade, querer aprontar, mas não dar certo, entendeu, porque a época dos trouxas já passou, porque antigamente eles faziam o que queriam, hoje já não está mais assim. E para mim voltar mesmo, eu sei lá até que... Se fosse para mim voltar para garçom hoje, talvez até eu até montaria um negócio para mim, uma barraca qualquer para mim vender uma cachaça, uma cerveja, um negócio qualquer. Mas era uma profissão boa. Hoje também não dá mais, fica difícil. Agora para mim mudar mesmo a trajetória hoje, comprar um bar não dá mais certo. É muita despesa, se começar a trabalhar muito, você com três, quatro dias, o assaltante vem, rouba você três, quatro vezes por mês. Se ele vê que tem muito movimento, ele vem e rouba. Se você tem um barzinho ali, mais ou menos, já chega um, quer comprar fiado, não lhe paga mais. Então o negócio mesmo tem que ser um negócio, ou um alto negócio, entendeu, senão você trabalhar de empregado mesmo porque está difícil. Eu conheço muitos amigos meu que tem bar, tem isso, aquilo, todo dia: “Rapaz, o negócio está difícil, estou devendo aluguel, comprei tantas caixas de cerveja, não vendi. Comprei isso, comprei aquilo, tem que pagar isso”, entendeu? Então, quer dizer, fica difícil e... Agora tem que... Estou só esperando mesmo se chega o tempo de aposentar.

 

P/1 – Você já trabalha à quantos anos?

 

R – 30 anos.

 

P/1 – Você está querendo se aposentar?

 

R – É o jeito. É o jeito porque não aguenta mais não. Ainda falta cinco anos para mim. Daqui cinco anos ainda tem que ralar muito. É o seguinte, depois que chegar 35 anos, você já não aguenta mais, você não tem mais firmeza nas pernas, já começa andar com as pernas arrastando, cheio de varizes. Você já deita, já sente as pernas já, entendeu? Já senta, aquilo ali doendo de um lado, doer do outro. Tem dia que eu estou deitado assim, às vezes vendo televisão, daqui a pouco aquela fisgada, eu... Entendeu? É varizes. Quer dizer, não vai adiantar você trabalhar 35 anos, não ganhando tão esse dinheiro todo e no final quando você disser assim: “Agora eu vou aposentar e pegar o dinheiro que você vai levar da aposentadoria para quê? Para comprar injeção de remédio para curar de ferida de perna, de varizes que estou ali, disso, daquilo, como eu conheço muitos.

 

P/1 – Mas você quer aposentar e ir para Frei Miguelito?

 

R – Não. Eu não... Eu até sempre tenho saudade da minha terra, sempre tenho saudade, mas eu sempre botei na minha cabeça que não adianta querer voltar para lá porque lá não vai ter como eu fazer nada. A única coisa que pode acontecer é fazer como muitos que eu conheço, vai, chega lá, pega o dinheiro que arrumou aqui, gasta tudo, aí depois volta duro de novo. Aí chega aqui, nem emprego, nem nada. Fica velho, no final não tem uma moradia, não tem um... Não tem nada. Acaba com tudo. Então para mim morar num canto desse, não vai dar. Querer comprar um negócio de novo, começar tudo de novo, “ah, não tem dinheiro”, “compra, quero”, “não tem não.”

 

P/1 – Mas você vai a sua terra, de vez em quando, você vai passear?

 

R – Vou de vez... Bom, agora mesmo tem nove anos que não fui lá. A primeira vez que eu vim, passei dez anos sem ir. Depois casei, voltei casado lá. Aí de dois em dois anos, eu ia lá. Tem meu pai com 90 anos, está vivo lá e ainda vivo na roça. Com 90 anos, ainda vai ao roçado na roça, ainda anda o dia todinho, de lá, para cá, não...

 

P/1 – E você falando de varizes que ele nem...

 

R – Nem nada. Monta num cavalo daquele ali e vai para a roça, passa o dia todo lá na roça, volta de tarde, sem problema nenhum. A minha mãe está com 88, só que a minha mãe teve um problema sério esse mês agora. Esse mês que passou, ela teve um derrame lá e quase ela morreu. Está com 88 anos. Inclusive está recuperando, graças a Deus está recuperando muito bem, mas ela quase morreu. Estava bozinha, conversando com a minha irmã na calçada de repente ela tombou. A minha irmã: “Vou fazer janta, você fica aí.” Ela ficou sentada, conversando com uma garota. Quando a minha irmã entrou dentro de casa, a garota chamou: “Acorda a tua mãe, que ela acabou de cair da cadeira agora.” A minha irmã chegou lá, pegou, ela estava com a boca torta e um lado paralisado. Levou lá para Caruaru, naquela cidade maior mesmo que tem muitos hospital lá e levou, chegou lá e o médico internou. Aí foram, medicaram logo ela lá, na hora. Foi muito rápido também. Agora está em casa recuperando.

 

P/1 – Mas recupera.          

 

R – Se Deus quiser ela recupera. Agora o problema todo é a idade.

 

P/1 – Essa turma trabalhou um bocado, né?

 

R – Muito.

 

P/1 – Está bom. Então, Fonseca...

 

R – Sofrimento muito grande.

 

P/1 – Tá. Então, o que você acha de um projeto como esse, que é um projeto de memória do comércio da cidade do Rio de Janeiro e o que achou de dar o seu depoimento para esse projeto?

 

R – Olha, eu achei muito bom, achei muito bom e eu acho que é uma coisa boa, que a pessoas ficam sabendo do que se trata, comércio como é que funciona. Que às vezes o pessoal chega lá dentro do restaurante, chega lá, fica brincando. Às vezes o garçom não está nem querendo brincar, entendeu, mas fica brincando lá. O garçom está cheio de problema lá por trás, ai meu Deus do céu, se eu pudesse chegar na cozinha agora, que o meu pedido está errado, eu errei isso aqui. Às vezes, será que eu botei... Era sem cebola, será que eu botei com cebola. E fica. Aí o cliente começa a brincar e você tem que dar aquele tempinho para ele, não pode dar as costas. Mas, às vezes, uns brinca, se diverte, tudo. Enquanto isso têm outros por trás às vezes. Por exemplo, como eu, mês passado com esse problema, só Deus sabe como é que eu trabalhei. Eu estou trabalhando ainda.

 

P/1 – Preocupado com a sua mãe?

 

R – Preocupado com a minha mãe. O camarada chegou: “O Fonseca, tudo bem?” É que eu sou muito conhecido, tem o quê? 24 anos na casa, todo mundo me conhece desde o começo da Parmê. Então eu sou mais conhecido ali do que farinha. Quando falar em Parmê, “vem cá, conhece o Fonseca?” Quem disser que não me conhece, não é cliente da Parmê da Vila. Falou em Parmê, “conhece o Fonseca?” Todo mundo: “Ah, o Fonseca?” Todo mundo, graças a Deus, todo mundo que me conhece sempre fala bem de mim. Mas é assim, rapaz. Você, às vezes, está com tantos problemas ali, com tantos problemas e você tem que chegar: “Oi, tudo bem, tal” e ri para não chorar, entendeu? É triste você chegar com problema seríssimo assim e você ter que receber todo mundo, rir e fingir que não está acontecendo nada. Por trás, o cara está cheio de problema. Eu, graças a Deus, que eu não tenho em casa. Problema em casa, graças a Deus, eu não... Faço tudo para não ter. Graças a Deus que com o meu filho e com a minha esposa, eu não tenho problema. Mas quantos e quantos chega lá com problema lá de família, com isso e chega lá, chora, reclama, eu digo: “Rapaz, bota a tua cabeça no lugar e trabalha, rapaz, trabalha.” “Ah, mas trabalhar desse jeito.” “Eu sei que é ruim, mas vai fazer o quê? Tu vai para casa, o problema vai continuar.” Têm muitos que chega lá com problema de mulher, problema de filho, problema disso, problema daquilo, entendeu? São muitos funcionários, cada um tem um problema.

 

P/1 – Está bom. Por mim a gente encerra. Te agradeço muito o depoimento. Foi sensacional.

 

R – Não tem nada não.

 

P/1 – Muito obrigada pela sua contribuição, Fonseca.

 

R – De nada. Eu vou pegar as fotos lá que eu tenho antiga...

 

P/1 – Combinado.

 

R – E vou botar tudo no envelope. No dia que...

 

P/1 – A gente toca para você, vai buscar direitinho...

 

R – Isso, vai passar dia tal, assim, assim, assim, na Parmê procurar você depois das 17:00.

 

P/1 – Está jóia.

 

R – Aí eu levo, chego lá, dou o envelope...

 

Fim do depoimento.                                            

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

m sabendo como é que o comércio funciona.

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