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História

Um homem que não fugiu da vida

História de: Nilo Alge
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/06/2008

Sinopse

Nilo Alge nasceu em sua própria casa e sempre possuiu uma relação construtiva com a cultura e o conhecimento. Passou uma vida sem riscos, mas não monótona. Ingressou na faculdade de Engenharia, se formou e especializou-se no uso do plástico pela industria. Nilo acredita numa evolução da sociedade brasileira, porém, ressalta, que isso só será possível com o fortalecimento da industria nacional e o ímpeto transformador jovem.

História completa

P/1 – Bom senhor, a gente vai começar a entrevista agora, vou perguntar o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Pois não. Meu nome é Nilo Alge, oito letras apenas. Nasci no dia 27 de abril de 1934, nesta cidade de São Paulo.

 

P/1 – E os seus pais, seu Nilo?

 

R – O meu pai também nasceu aqui na cidade, São Paulo. Minha mãe nasceu em Uberaba, no estado de Minas Gerais.

 

P/1 – O senhor pode falar o nome deles, do seu pai e da sua mãe?

 

R – Pois não. O meu pai chamava-se simplesmente José Alge e a minha mãe chamava-se de Maria Tereza Cecilha Alge. Cecilha como a ilha, não Cecília.

 

P/1 – Sim. E o senhor tem uma lembrança das atividades do seu pai, da sua mãe, o que eles faziam?

 

R – Sim, muitas. Nasci na Rua da Consolação, nasci em casa, na Rua da Consolação entre as Alamedas Tetê e a Franca, um lugar que já era bom, bairro excelente, hoje continua um bairro excelente a região da Consolação. Meu pai era comerciário, ele trabalhava numa companhia que distribuía a linha de lubrificantes Mobil Oil e a minha mãe cuidava da casa, bordava nas horas vagas. Minha mãe perdeu o primeiro filho, ficou traumatizada então não quis ter-me no hospital, nasci então na nossa residência e fui assistido por uma tia-avó que era parteira, orgulhava-se muito de ser parteira diplomada, o que era raro naquela época. Cresci, até quatro anos, quando nasceu a minha irmã, sozinho como filho único, embora não o primogênito. Como falei, a minha mãe perdeu o primeiro filho. E lembro muito bem da expectativa que tinha quando o meu pai voltava do trabalho, seis e meia, sete horas, naquele tempo São Paulo era muito menos movimentado e eu esperava ansiosamente que ele viesse.  Às vezes corria para ir ao colo dele, minha mãe então cuidava, fazia as refeições, cuidava da casa, geralmente tínhamos uma empregada em tempo integral e visitávamos muito meus avós. Na verdade eu tinha os meus avós maternos, eram vivos, a minha avó paterna era viva, casada em segunda núpcia. Nós visitávamos muito os avós, eu tinha vários primos, mais de dez tios, então havia uma vida familiar muito intensa enquanto morava na Rua da Consolação e não estudava ainda. Posteriormente, aos quatro anos, eu mudei-me para a Rua Capote Valente, um pouco mais para baixo, também perto da Avenida Rebouças, daí começou a minha vida escolar com cinco, cinco anos e pouco. Era interessante porque era quase vizinho da professora, da diretora da escola, a escola ficava na Rua Oscar Freire, perto da Teodoro Sampaio, ela me escoltava, quer dizer, saía de minha casa que é na Capote Valente, perto da Avenida Rebouças e ia com ela silenciosamente, não havia o que conversar, íamos até a escolinha, chamava-se Escola Para Todos que era na Oscar Freire, entre a Arthur Azevedo e a Teodoro Sampaio. E ali recebia a primeira educação formal, aprendi a ler muito rapidamente, me lembro que havia uma instrução paulatina, uma cartilha, e alguns alunos iam mais depressa que outros - evidente conhecida de uma forma didática, uma forma pedagógica da época não como é agora e eu aprendi logo que cheguei ao fim da cartilha, daí a professora arrumou um livro um pouco mais avançado. Esta era a minha rotina: ia e voltava com a professora, às vezes minha mãe ia me buscar na escola. Lembro-me de uma vez que estava chovendo muito e ela tinha uma capa de borracha branca, como era naquela época usual e eu fiquei encantado de ter sido apanhado pela minha mãe em vez de voltar com a minha professora para a casa. Daí logo nasceu a minha irmã, tinha quatro anos, nasceu em 38, está viva ainda, completou a pouco 70 anos e nós vivemos muito tempo juntos. Fizemos a escola primária, outra escolinha também, Colégio Pedro Voz, antigo Colégio Abílio que era já na Capote Valente, entre a Artur Azevedo e a Teodoro Sampaio. Então fiz a escola primária lá e tenho muitas lembranças de colegas, alguns ainda remanescem, falo com eles de vez em quando. Fiz escola primária nesse colégio. De acordo com a legislação da época eu tinha que fazer o exame no grupo escolar para receber o diploma. O diploma da escola primária naquele tempo já era alguma coisa muito honrosa e a maioria dos rapazes, meninas daquela época chegavam até o fim do curso primário, somente uns poucos continuavam e iam fazer o secundário. E fiz esse exame no Grupo Escolar Godofredo Furtado, que fica na João Moura, ainda existe. Na João Moura entre também a Teodoro Sampaio e a Arthur Azevedo, me graduei em primeiro lugar da minha turminha. Depois fiz o admissão também nesse Colégio Pedro Voz e prestei um exame de admissão ao ginásio no Colégio São Luis. Daí fui para o Colégio São Luis que ficava onde fica hoje na Avenida Paulista entre a Bela Cintra e a Haddock Lobo, nesse colégio passei sete anos. No prédio antigo, hoje o prédio é novo, muito maior, mas o local é o mesmo. Então fiz os sete anos com os padres jesuítas e sempre um aluno bom para médio, fui primeiro aluno algumas vezes, mas era um aluno bom. Também sempre tive vontade de estudar outras coisas além daquilo que era ensinado no ginásio e no colégio. Então lia muito, sempre fui um grande leitor, desde cinco, seis anos, já gostava de ganhar livros, lia muito. Naquela época se lia muito mais do que hoje, mas lia bem mais do que a média. Isto foi no decorrer de quando entrei no ginásio, primeira série do ginásio em 1945 e fiquei até 1951 no Colégio São Luis, evidentemente um colégio muito diferente do que hoje chama secundário.

 

P/1 – Senhor?

 

R – Pois não.

 

P/1 – Deixe-me fazer uma pergunta para o senhor. O senhor falou para a gente no começo do depoimento, agora, antes da gente entrar na faculdade e nas escolas, o senhor nasceu na sua própria casa e quem fez o seu parto foi a sua tia, certo? Eu queria pedir para o senhor falar um pouco mais sobre esse episódio, contar como isso ocorre, aprofunda.

 

R – Pois não. Naquele tempo ainda havia alguns nascimentos em casa, a maioria das parturientes iam ao hospital, mas algumas ainda iam, nasciam em casa com a assistência de médico ou parteira. A minha tia-avó, chamava-se Angelina Alge Ramalho, era uma italiana do norte da Itália e casada com um paulista quatrocentão, da família Ramalho, e ela fez um curso de parteira. Uma coisa interessante, quando se fez a Faculdade de Medicina, houve interesse em treinar pessoas que tinham certa prática, até às vezes eram chamadas de curiosas, parteiras curiosas, para ter, digamos, elementos de gene, elementos de, digamos, obstetrícia para evitar problemas de mortalidade infantil e problemas com as parturientes. A minha tia-avó fez esse curso e era a parteira da família. Eu nasci em casa, como falei, assistido por essa minha tia-avó e ocorreu tudo bem, nasci uma criança normal. Mas depois, até na primeira infância, eu era cometido de febre muito alta, convulsões e tal até que aos três, que é muito prematuro na época, fui operado das amídalas e aí passou, melhorei bem desses problemas de febre, gripe, resfriado, tosse e etc. Isso praticamente desapareceu. Então me lembro ainda, tenho algumas impressões dessa minha primeira casa, que foi do zero até os quatro anos e lá ficava numa vila, três ou quatro casas, havia um jardim na frente que era onde brincávamos, as crianças vinham de outras casas e brincavam nesse jardim fronteiro as três ou quatro casas da vila, não me lembro se eram três ou quatro. Era então uma infância despreocupada, nunca fui rico, mas também nunca tive necessidades não atendidas. Essa era segunda a sábado, mais ou menos, brincadeira, também tinha um quintal onde brincava, gostava muito, a minha mãe me ensinou as letras do alfabeto e, às vezes, ela comprava flores na feira, com os talos, por exemplo, de copos de leite eu fazia letras, gostava muito de brincar. Brinquei muito sozinho, eu era, não digo solitário, brincava com amiguinhos também, mas não sentia falta, tinha muitas brincadeiras imaginativas, sozinho, depois também quando comecei a ler, ou mesmo ter livros de figura, passava muito tempo, muito tempo lendo ou vendo as figuras enquanto não lia, a tarde minha mãe me acalentava numa cadeira de balanço, toda à tarde, as crianças da época pelo menos, não sei hoje, dormiam e ela cantava uma música que eu me lembro apenas do primeiro verso: “Um pintassilgo dourado”. Essa música ela cantava e eu dormia, às vezes ela saía e eu ficava com a empregada. Lembro-me de uma empregada que me pregava pequenos sustos quando eu falava: “E a mamãe, quando vem?” E essa empregada dizia: “Virou sorvete, né?” Eu como sabia que o sorvete derretia, ficava meio assustado, um pouco assustado, mas bem depois era tranquilizado, a gente com mente de dois, três, anos de idade não separa muito a realidade da fantasia. Demorei para falar, falei só com dois anos de idade, minha mãe dizia que eu entendia tudo, respondia com sinais com a cabeça: sim ou não. Mas falei tardiamente, até a minha mãe ficou um pouco assustada, depois voltei a falar e não parei até hoje. Mas era um garoto que sentia bem sozinho, não tinha necessidade absoluta de convívio, mas brincava com crianças.

 

P/1 – O senhor falou dessas brincadeiras sozinho e eu queria perguntar para o senhor como era esse cotidiano, o que você fazia realmente nessa infância, que lembranças o senhor tem?

 

R – Antes da idade escolar?

 

P/1 – Sim sim.

 

R – Evidentemente tinha alguns brinquedos, alguns até caros de armar. Naquele tempo havia os brinquedos melhores, os brinquedos alemães, antes da guerra havia um grande mercado de brinquedos alemães e também alguns japoneses já de menor qualidade. Tinha um brinquedo, por exemplo, que era um carrossel que tinha que se armar com aviõezinhos que circulavam, não podia, depois, passei a armá-lo, mas quando era bem pequeno o meu pai me armava esse carrossel, enquanto girava tocava uma música, vinha uma pequena caixa de música. Tenho ainda hoje uma bonequinha que tem um manípulo e girando-se a bonequinha ela toca música, era uma caixinha de música acionada por um giro, esta bonequinha ainda tem um bom estado, a minha madrinha me deu e eu brincava, brincava com esse carrossel. Já ouvia rádio naquele tempo, não havia televisão, mas havia rádio, havia música, os programas com música para criança. Também fui um grande ouvinte de rádio, mais tarde havia seriados como hoje há novelas, havia séries de rádio para a infância, Aventuras do Tarzan, aventuras de alguns cowboys, mas um pouquinho mais tarde. Eu almoçava com a família, havia um, chamava-se cadeirão, uma cadeira alta e eu almoçava já procurando comer como adulto, tive essa tendência de querer me comportar como adulto e ver como os adultos faziam. Tinha um jogo de pratos especial com figurinha e uma vez eu tomando chá, derrubei um bule, o chá quente caiu sobre o meu ventre, me queimou bastante, fui ao pronto socorro, estava num lugar de adultos conversando sozinho e como eu vivi esse pequeno desastre a minha mãe ficou muito assustada porque queimou bastante com água fervente o ventre. Quando vinham os meus colegas de vizinhança nós brincávamos lá no pátio, isso era brincadeira comum. Também havia naquela época, as meninas brincavam de roda, então, nas noites quentes, as meninas faziam roda e cantavam, e os meninos procuravam atrapalhar (risos), desmanchar a roda, não participavam exatamente disso. Passei a jogar bola, nunca fui um grande jogador de futebol, de bola, passei a jogar bola mais tarde quando estava na Capote Valente, já tinha cinco, seis, sete anos. Essa época era o meu dia a dia. A comida em casa era mista, pouco como a comida típica brasileira, um pouco comida italiana. Meus pais de descendência italiana, embora eu tivesse uma avó mineira de origem portuguesa, família Moreira, introduzia evidentemente alguns pratos brasileiros, comida mista como era de muitos lugares. Minha mãe tinha várias amigas que tinham também meninos pequenos, tinha primos que tinham quase a minha idade, então nós nos visitávamos. Tinha vários primos com a minha idade, um pouco mais velhos, um pouco mais novos e então eram também companheiros de brincadeira.

 

P/1 – Eu vou retomar aqui a música da sua mãe o senhor comentou que se recorda desse verso, eu queria pedir para o senhor contar para gente, não precisa nem cantar, qual é esse verso que a sua mãe cantava para você.

 

R – Histórias?

 

P/1 – Isso. A sua mãe você disse que ela tinha o hábito de ninar o senhor nos períodos da tarde.

 

R – Sim.

 

P/1 – E de que o senhor se recorda de um verso da música.

 

R – É só um verso do Pintassilgo, que eu nem sabia o que era Pintassilgo naquela época.

 

P/1 – Ah sim. E aos quatro anos, então, nasce a sua irmã. Eu queria saber um pouco como é que muda totalmente a sua vida? Vocês passam, vocês mudam para Capote Valente, para outra casa e agora você tem uma irmã. E como é que é esse outro cotidiano, essa relação com a sua irmã?

 

R – Se eu senti ciúmes não me lembro, quer dizer, sempre me relacionei muito bem com minha irmã que chamava de Nenê, porque ficou o Nenê nasceu, o novo Nenê e evidentemente se houve algum sentimento de ciúmes, o que é muito normal entre crianças, deles não me lembro. Lembro-me que tinha uma ideia de escoltar a minha irmã, ela tinha algum problema de saúde, um eczema na cabeça, no couro cabeludo, nascia pouco cabelo e eu a considerava uma criatura frágil, procurei, procurava sempre protegê-la. Relacionava-me bem, não havia assim grande rivalidade, que me lembre. Havia sempre uma ideia de festejar, por exemplo, o aniversário dela, aniversariava, aniversaria ainda a 13 de março, eu 27 de abril, então ela sempre aniversariava um pouco antes de mim. Depois o meu pai aniversaria 16 de abril, então havia assim uma progressão, o meu era o terceiro aniversário da família, minha mãe fazia aniversário em julho, fazia uma ideia da primeira festa de aniversário do ano e eu participava muito. Minha irmã também tinha muitas amigas, inclusive foi uma amiga da minha mulher, a Hebe que está aqui do lado, tem mais ou menos a mesma idade, minha irmã é um pouco mais velha que a Hebe, minha mulher, então nós convivíamos. Muitas vezes eu ia, acompanhava meus pais e minha irmã nas festinhas de meninas, até às vezes eu era o único menino, ficava meio isolado, mas não me sentia mal, prestava muita atenção em conversa de adulto, era muito curioso em ouvir o que os adultos falavam. Às vezes ficava silencioso, isso era interessante porque às vezes as pessoas adultas falavam coisas que não imaginavam que eu estava ouvindo. Muitas vezes ouvia coisas que, entre aspas, não deveria ouvir, não? Porque ficava quieto, ouvindo, não me sentia mal não, não me sentia, como digo, nunca me senti solitário, doentiamente solitário. Minha mãe contava histórias, ela procurava, por exemplo, quando ganhava aqueles jogos de cubos com letras, procurava, sempre tive uma atmosfera não de grande cultura em casa, mas estimulante, sempre estimulante, meus pais nunca pouparam sacrifícios para dar uma melhor educação possível para mim e minha irmã. Nesse ambiente eu era presenteado com livros, como falei, não é? Com seis, sete anos, ganhei uma coleção do famoso Tesouro da Juventude, que hoje não é mais muito conhecido, mas naquele tempo era uma espécie de enciclopédia infantil e eu devorava esses livros. A minha mãe sempre me estimulava, aprendi as primeiras letras antes de ir a escola, ela escrevia e me estimulava a copiar determinadas letras,  estimulava a conhecer logo o alfabeto. Tudo isto me ajudou muito, essa ideia de estimular a crescer. Posso me comparar com os meus primos, cujos pais não eram tão interessados em, digamos, passar informações, informações de, digamos, certa intelectualidade aos filhos. Não sei se foi isso, ou foi mesmo uma questão genética que me fez um pouco diferente dos meus primos, um pouco mais estudioso, mais curioso de aprender, mais interessado em aprender assuntos culturais. Como já falei nunca fui bom jogador de futebol, tinha primos que eram ótimos jogadores de futebol, que saíam muito bem em esportes, eu sempre fui um mau esportista. Até que resolvi me dedicar ao judô já adulto e pratiquei judô durante muito tempo, mas não era um grande atleta mirim. Minha vida corria assim entre livros, músicas, passeios que haviam os parques de diversão, também o meu pai gostava muito de ir na festa de São Pedro, a última festa do ciclo de festas juninas. Comprava fogos e fazia uma exibiçãozinha de fogos na rua, juntava a garotada, aí era mais ou menos o rei da festa, porque o meu pai é que soltava os fogos, meu pai é que comprava a maioria dos fogos, isso me deixava bastante orgulhoso. Também ficava ansiando para o último dia dessas festas chegar porque assim eu tinha os fogos, meu pai soltava. Isso era também uma diversão anual bastante agradável.

 

P/1 – Outra coisa que o senhor levantou foi o rádio. O rádio surge quando na família do senhor?  Você se recorda dele na Rua Capote Valente? Como era?

 

R – O rádio aqui em São Paulo surgiu na década de 20, antes de eu nascer, já havia rádios primitivos que se foram aprimorando. Quando estava na Rua Capote Valente, na Consolação, já havia rádios, havia uma rádio chamada Capelinha, uma rádio que tinha uma estrutura de madeira curva em cima, era o rádio padrão daquela época, uns rádios grandes, havia também rádios móveis. Então já na Rua da Consolação, o rádio já fazia uma parte muito importante, como não havia televisão. Havia o jornal, meu pai recebia A Gazeta. Esse jornal também tinha algumas historietas em quadrinhos, alguma coisa para criança e havia o rádio que transmitia programas. Havia um programa, me lembro, “Escola Risonha e Franca” onde começou a trabalhar o Adoniran Barbosa, o famoso compositor, ele trabalhava nessa “Escola Risonha e Franca”. Havia também o “Nhô Totico”, também era uma pessoa do rádio, muito importante na época, ela imitava muitas vezes e fazia um programa chamado “A Escolinha da Dona Olinda”, onde imitava a professora e os alunos, oito ou dez alunos com sotaques, com vozes muito diferentes, era uma pessoa extremamente versátil, genial nesse aspecto. Havia o programa “A Escolinha da Dona Olinda” que procurava dar lições de moral, tinha também os típicos: o primeiro aluno, tinha o aluno mais relaxado, tinha o descendente de italiano, chamava-se Mingau, se não me engano, ou Mingote, não me lembro bem. Havia o nordestino, havia o descendente de árabes com sotaque meio de árabe, sírio-libanês. Esses personagens todos eram falados no rádio e completados pela imaginação, não havia imagem, então as crianças ouviam esses programas, imaginavam os ambientes, as pessoas, de acordo com essas vozes que, digamos, dialogavam e teciam histórias. Esse programa, “Escolinha da Dona Olinda”, foi muito importante para as crianças, era um descanso pras mães porque nessa hora a criançada ficava ouvindo o rádio e ficava quieta. Então isso era importante: o rádio era um veículo que possibilitava maior imaginação, certa criatividade, como o livro, embora a maioria dos livros para as crianças fossem ilustrados, a pessoa criava um cenário em função do que ele lia, muito mais do que hoje que a televisão já dá quase tudo: dá a imagem e o diálogo. Não estou criticando, absolutamente, é uma nova, novas mídias, novos veículos e as coisas são diferentes, mas esse aspecto de forçar a imaginação, justamente pela imperfeição dos veículos de comunicação é uma coisa muito importante. Também naquele tempo com boas antenas já se pegava algumas estações de ondas curtas, então se ouvia algumas emissores estrangeiras, eu não entendia nada além do português mas ouvia, achava interessantíssimo estar ouvindo alguma coisa da França, ou da Itália, ou dos Estados Unidos. Já a minha mãe mostrava no mapa o país como era distante, isso era bastante incitante em termos intelectuais.

 

P/1 – O senhor tem esse universo cultural estimulante dentro da sua casa e na escola isso vai ser aprimorado. Quando o senhor ingressa na escola como funciona? Porque o senhor mudou para Capote Valente e a diretora da escola já morava perto da sua casa na Capote Valente.

 

R – É, chamava-se dona Deolinda se não me engano, ela me levava à escola, eram apenas menos de três quarteirões.

 

P/1 – Na escola como passe a ser esse seu universo criativo, como funciona a escola para o senhor? Quais são as lembranças?

 

R – Sim. A escola, veja bem, para mim, nunca fui ameaçado de ir a escola, fui instado a me comportar bem para ir a escola, coisa que fiz, inclusive com o meu filho. Porque muitas vezes as mães ameaçavam os filhos com a escola, então os filhos já iam relutantemente aos primeiros dias porque temiam a escola. Eu não, fui à escola já a considerando como um prêmio, uma coisa muito boa. Lá também tinha a hora do recreio, tinha os amigos que brincavam e eu era muito miúdo. Hoje também não sou de porte muito avantajado, mas era bastante miúdo, me desenvolvi mais tarde, sempre parecia mais jovem do que era, talvez por isso não tenha me envolvido muito em esportes. Era um pouco briguento, apesar disso, apesar de ser pequeno, miúdo, era meio agressivo, como acho, me considero ainda hoje meio agressivo. Nesse ambiente de uma pequena escola, com poucas classes, eu lidava com poucos colegas, não era assim como os grupos escolares daquela época que eram grandes, classes muito grandes. Também era uma escola já paga, tentava dar uma coisa a mais do que a escola pública. Então esses primeiros anos na Escola Para Todos, depois no Colégio Pedro Voz eram sempre em classes pequenas, com grupos pequenos. Eu não sei se por isso, ou por outros motivos quaisquer, eu nunca fui de me enturmar com grandes comunidades, com grandes grupos, sempre gostei de me reunir com pouca gente, não sou uma pessoa de grandes expansões em turmas grandes.

 

P/1 – Mas ainda assim o senhor disse que guarda amigos remanescentes dessa época, grandes amigos?

 

R – Não, um ou outro amigo. Alguns eu reencontrei depois. Por exemplo, tinha um amigo Caio que fez a escola primária e o ginásio comigo, depois desapareceu, um dia consultei a lista telefônica, telefonei para ele e nos reencontramos. Tenho ainda alguns amigos mais próximos do ginásio. Por exemplo, no mês passado jantou, almoçou em casa um amigo meu desde 1945, da primeira série do ginásio, ele foi almoçar em casa. Fiquei muito satisfeito, puxa vida, nos conhecemos há mais de 60 anos, ainda estamos aqui, almoçando juntos e conversando. Tem algumas pessoas, muitos da faculdade e alguns do ginásio, do colégio, nós nos reunimos de vez em quando. A minha turma de politécnicos, por exemplo, se reúne toda primeira segunda-feira de cada mês, ontem mesmo houve reunião, então nós temos colegas que são meus amigos, ou conhecidos há no mínimo 55 anos.

 

P/1 – Então do Colégio Pedro Voz o senhor ingressa no Colégio São Luis onde o senhor passa também grande parte da sua vida, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – Nesse período o senhor ainda mora na Capote Valente?

 

R – Sim. Mudei da Capote Valente para a Rua Mourato Coelho, mais para baixo ainda da Teodoro Sampaio, mais Pinheiros mesmo, isso mudei em 1948, quando estava terminando o ginásio. Fiz o colegial no São Luis mas já morando em Pinheiros. No São Luis havia uma diferença muito grande entre o ginásio e o colégio. O ginásio, por exemplo, não havia uniforme diário, mas aos domingos tínhamos que ir a missa, fardados. Também é uma coisa que hoje não existe mais, a farda escolar, grande parte dos colégios tinha um uniforme de domingo, de solenidades, uma farda de corte bem militar com quepe, com cinturão, tudo isso, evidentemente, sem armas, aliás, haviam algumas armas, os oficiais usavam espadas. A disciplina era muito grande, não era muito maior do que todos os colégios. Naquele tempo acho que todos colégios se formavam filas para entrar na aula. Em geral se guardava silêncio quase completo durante as horas de estudos. Havia uma disciplina maior e também a prática de esportes. Havia muita algazarra, por assim dizer, quando se podia fazer alguma coisa assim. No Colégio São Luís havia um estímulo muito grande também à cultura. Os jesuítas são famosos pelo seu amor a cultura: há jesuítas astrônomos, cientistas muito bons, embora cerceados pela igreja. Haviam muito bons professores, Colégio São Luis primava pela alta qualidade do ensino, os professores eram bem pagos e de muita boa qualidade. Lógico que sempre dependia da boa vontade dos alunos, aqueles que queriam aprender, queriam desenvolver podiam fazê-lo porque havia grande possibilidade, professores muito cultos e o ensino era muito bom mesmo. Claro, havia os alunos bons, regulares, maus, como em qualquer lugar, né? Havia um ou outro reprovado, reprovações não eram muito frequentes. Nesse ambiente também fui estimulado a ler. Toda a série tinha uma biblioteca, os alunos eram estimulados a tomar livros da biblioteca e devolvê-los na próxima semana. Como eu era um devorador de livros consegui ser nomeado bibliotecário, com isso tinha maior acesso a livro porque os meus colegas podiam tirar um livro por semana e eu lia vários livros por semana, até alguns padres ficaram preocupados que fosse me dedicar mais a leitura do que ao estudo. Mas isso não teve nenhum problema, consegui fazer o curso sem qualquer problema, sem qualquer reprovação, sem qualquer segunda época. Apesar de ser um grande leitor li muita coisa que nada tinha a ver com os estudos.

 

P/1 – Esse seu gosto pela leitura, o que o senhor realmente gostava de ler, essa paixão? O que o senhor lia?

 

R – Bem, comecei como muita gente naquela época pelo Monteiro Lobato. Monteiro Lobato é um grande escritor até hoje, muito lido por muitas crianças que gostam de ler. Ele ensinava brincando. Quer dizer, eu, por exemplo, li “História do Mundo para as Crianças”, é um livro que dá uma visão histórica, lógico, sobre o enfoque infantil, muito boa. Li aquele livro várias vezes, comecei para mim a ter facilidade, com o mundo grego, o mundo romano, o mundo medieval através da “História do Mundo para as Crianças”. Li todos os livros de Monteiro Lobato, alguns puramente ficcionais, outras historiando, por exemplo, se estudava rudimentos de gramática na Gramática da Emília, se estudava aritmética através de um livro também de aritmética. Até exploração de petróleo, o Monteiro Lobato foi um pioneiro da exploração de petróleo no Brasil, foi até preso por causa disso e havia um livro, “O Poço do Visconde”, por exemplo, que da rudimentos de geologia, mas tudo numa linguagem muito fácil para crianças. Então as crianças podiam adquirir conhecimentos sem até saber que estavam aprendendo. Tem lá: Geografia da Dona Benta, você lia alguma coisa e aprendia geografia. Haviam outras puramente de folclore como a História da Tia Anastácia. O Monteiro Lobato gostava muito também de introduzir figuras da mitologia como o minotauro nesse e em outros livros, o Sitio do Pica-Pau Amarelo onde ele introduzia deuses gregos e heróis: Hércules e outros heróis na história que contava. Isso talvez despertou uma paixonite minha pela mitologia greco-romana que ainda persiste. Gosto muito, hoje não há muito mais o que ler, leio através de livros gravados, ou através da minha mulher Hebe, que lê muita coisa, mas praticamente não há muito mais o que aprender em mitologia. Mas sempre gostei, sempre gostei e mais tarde, inclusive, quando me interessei pela psicanálise, estabeleci correlações, todo mundo conhece o Complexo de Édipo e sabe quem é Édipo da mitologia grega. Há outras correlações dentro da mitologia, a psicanálise e a psicologia em geral. Eu gostei muito disso. O Monteiro Lobato me despertou muito interesse, “Dom Quixote”, por exemplo, “Dom Quixote das Crianças”, que é uma adaptação a infância do “Dom Quixote” me deixou entusiasmado, muito mais tarde li o Cervantes no original. Mas me lembrava, estabelecia uma ponte entre o “Dom Quixote das Crianças” que dava o essencial do mito quixotesco, o próprio original que li mais tarde, li mesmo em espanhol e vi como o Monteiro Lobato era genial em transpor determinadas obras, determinadas lendas e mitos para uma linguagem infantil muito confortável. Depois fui lendo outros livros, outro autor também muito interessante era um alemão chamado Karl May que escreveu dezenas de livros, os li todos em tradução porque não conhecia e não conheço o alemão. E esse Karl May também fazia livros pretensamente autobiográficos, nesses livros ele mostrava como um indivíduo pode ser herói e ao mesmo tempo praticar as virtudes do bem, da honestidade, sempre valente, mas sempre uma postura ética muito elevada. Depois comecei a ler livros mais para adolescentes como os livros do Tarzan, do Fenimore Cooper, “A Ilha do Tesouro”. Fui acompanhando mais ou menos...

 

P/1 – Só um minutinho, a gente vai trocar a fita. (pausa) Senhor Nilo, o senhor estava falando então das leituras que o senhor fez de escritores estrangeiros traduzidos, queria pedir para o senhor continuar nos contando.

 

R – É, depois entrei, digamos, na adolescência, numa fase literária e política. Aí me dediquei muito a autores portugueses e brasileiros, muita coisa de José de Alencar, praticamente todo, li Aluisio de Azevedo todo, Jorge Amado todo, praticamente todo. Gostava muito de Eça de Queiroz, ainda gosto, li praticamente todo o Eça de Queiroz, outros atores portugueses como Alexandre Herculano, Antonio Botelho, se não me engano, Ramalho Ortigão. Esses autores portugueses eu apreciava muito. Também os brasileiros, li muita coisa. Li também poesia, gostava muito de poesia, os parnasianos, os românticos, um pouco de poesia moderna também. Li muito Mario de Andrade, esses nomes conhecidos, quase todos li algumas obras ou até todas. Paradoxalmente não sou um grande apreciador do Machado de Assis, não que não reconheça o valor dele, mas não é um autor que fala muito a mim, eu prefiro muito José de Alencar. Concordo com aquele crítico Agripino Greco que também acha Alencar superior a Machado de Assis, mas isso é uma opinião pessoal e evidentemente que gostos não se discutem, é apenas uma coisa pessoal. Li bastante os mais modernos: Paulo Francis, outros escritores da série de língua portuguesa. Li integralmente Os Lusíadas, por exemplo, me apaixonei uma época por Camões, sonetos de Camões, toda essa parte. Gostava muito de Castro Alves, Olavo Bilac, mesmo os modernos Drummond, Andrade. Não gosto muito da poesia concretista, poesia contemporânea não é muito do meu feitio, embora reconheça que a busca de novos caminhos é um direito, é quase um dever do artista. Mas li mais a parte clássica, não revolucionária, não muito inovador. Li muitos autores franceses também, li Gide, Malraux, Moureau. Quando era criança lia em português, depois comecei a ler em francês mesmo. Mas gostava muito de Julio Verne, também um escritor que me marcou a adolescência. Alguns escritores americanos como ______________ Sinclair, Sinclair Lewis. Gosto muito do, ainda vivo, Gore Vidal. Esses livros todos lia de preferência no original, porque leio em francês, inglês, espanhol, italiano, português e Hebe também lê, ela me ajuda ainda a ler uns livros de língua estrangeira através da dicção dela,, ajuda muito. Nossos gostos coincidem muito. Ainda tem muita leitura que fazemos em conjunto através da voz dela. Sempre fui um grande leitor, sempre gostei muito nas horas vagas, sem prejuízo de minha profissão, porque evidentemente sou um técnico, um engenheiro e procurei me manter, a par da evolução da minha profissão, porque acho que a profissão pode se harmonizar com a visão humanística. O meu ideal sempre foi, digamos, o conhecimento da cultura, apreciação da cultura, valores estéticos, sem perder o pé na profissão, sempre vi e vivi bem da minha profissão, sempre trabalhei nela. Achava que podia perfeitamente fazer várias coisas ao mesmo tempo. Já falei a um colega de vocês que escrevi três livros, só que escrevi três livros na minha vida diferente: um sobre administração, um de ficção e um mais ou menos sobre filosofia que está ainda nas livrarias. Sempre busquei novidades intelectuais. Sou um mau conhecedor de artes plásticas, mesmo quando enxergava apreciava pintura, escultura, mas nunca conheci em profundidade. Sou um pouco melhor conhecer de música erudita, gosto muito de música popular, sempre meu tempo foi ocupado com atividades que exercitassem os neurônios, por assim dizer. Fui um grande leitor, mas nunca deixei de lado outros campos, outros aspectos da cultura em geral. Alguma parte científica que não tem nada a ver com a minha profissão, li muita coisa sobre biologia, sobre história, como já falei, sobre cosmologia, astronauta. Em suma, fui buscando conhecimentos e, como se diz, embora não seja uma verdade total que o saber não ocupa lugar, sempre procurei abarcar o máximo de assuntos que me despertavam interesse. Quase tudo me desperta interesse.

 

P/2 - O senhor descreveu bem a sua infância para gente, mas o senhor lembra de algum fato marcante na sua infância, alguma história específica assim que marcou na memória?

 

R – Na minha infância? Deixe me pensar, como diria a minha infância foi feliz mas não teve grandes lances. Uma vez sofri um tombo muito forte, tenho uma marca aqui ainda e tive contato, digamos, com a fragilidade da vida. Me julgava, embora tivesse havido esse acidente que falei dessa queimadura com chá, isso ficou folgado na minha memória, não era preocupante. Mas tinha uns cinco anos, quando estava no alto de uma mesa, colocado na cadeira em cima da mesa por uma empregada e eu caí. Caí e bati com a testa numa gaveta, talvez me sentisse um pouco, ou me sentisse invulnerável. Sentia fragilidade, aquele sangue correndo e fiquei muito assustado. Muito assustado porque estava vendo que não era invulnerável, que era sujeito a chuvas e trovoadas, a problemas assim. Também haviam certas brigas, brigas mesmo, corporais, briga de garoto não muito perigosas, mas às vezes me envolvia em briga com os meus vizinhos e isso às vezes marcava a pessoa, essa agressividade, enfrentar alguém às vezes, até alguém mais forte, isso é uma coisa que foi me marcando. Mas não tive assim nenhuma aventura por assim dizer, alguma coisa muito emocionante. Nunca me perdi. Nunca sequer fraturei um osso quando criança, muito comum naquela época era criança quebrar braço, quebrar perna, isso não me aconteceu. Tive problemas de fratura depois quando já adulto, quando praticava judô. Então não tenho assim nada muito marcante, a não ser uma vida relativamente tranquila com as principais necessidades, digamos, atendidas, de brincadeiras. Nunca fui, por exemplo, apanhado numa grande travessura, porque não era de grandes travessuras, era de brincar, fazer algumas travessuras, também não fui uma criança perfeita e uma criança perfeita, seja uma criança neurótica (risos). Mas tudo isso foi dentro de certo limite. Sempre fui muito cauteloso, sabe? Tinha certos receios de ser castigado, de ser tido como uma pessoa problemática. Não que tentasse ser um menino modelo, mas sempre fui ser um pouco receoso. Mesmo no São Luis que já era adulto, havia alguns alunos que enfrentavam o professor e faziam brincadeiras perigosas, nunca ousei fazer isso, nem tive muita vontade. Achava que se estava estudando o principal motivo de estar lá era adquirir conhecimentos, então não era assim alguma coisa perto do indisciplinado ou do rebelde. Hoje tenho uma visão, às vezes certas coisas do mundo me revoltam hoje em dia, mas sempre coisas que estão longe de mim, ou que estão perifericamente a mim. Não tenho nada a contar como algo que fosse despertar muita curiosidade. A não ser certos fatos gerais, certos fatos até agradáveis que posso contar. Por exemplo, tenho boas recordações de viagens que fiz, viajei muito por muitos países do mundo, tenho recordações, certas reminiscências muito interessantes. A não ser pequenos assaltos que todo paulistano está sujeito, não tenho assim, nunca corri grande perigo, um ou outro perigo guiando automóvel mas nada nada, nenhum acidente grave, nada. Vocês podem dizer: “Mas que vida monótona!” Não, minha vida não foi monótona, minha vida foi algo criativo. Considero-me vitorioso na minha profissão, ocupei cargos de responsabilidade. Tive prazeres de toda ordem, prazeres estéticos, prazeres eróticos, de todo tipo. Acho que a minha vida foi boa e não foi monótona, só que ela não teve assim alguma coisa muito marcante, nunca fui um combatente. Nunca fui, nunca salvei ninguém, mas também nunca fui salvo por ninguém. Acho que a minha vida ocorreu dentro de uma mediania interessante eu diria, a minha vida é bastante interessante e eu acho que as coisas mais interessantes aconteceram na idade adulta. Na minha infância, na minha adolescência aquilo foi, não digo um mar de rosas, mas aquilo foi bastante agradável, em geral.

 

P/1 – Seu Nilo, o senhor falou que já é quase um adulto quando vai para o Colégio São Luís, o senhor passa a ter um contato mais efetivo com a cidade de São Paulo, se não me engano. Então como é esse convívio na cidade de São Paulo, essa questão de ser paulistano, como é a cidade, as diferenças em relação a hoje.

 

R – Certo. Sinto como base um ano-marco da minha vida, 1954, quando foi aqui o IV Centenário São Paulo, muito festivamente comemorado. Tinha 20 anos. Esse é um ano que guardo em detalhes. Mas São Paulo era uma cidade que já era uma metrópole, já tinha mais de um milhão de habitantes que estava na adolescência, era uma cidade com bons restaurantes, bons teatros, bons cinemas, bons clubes noturnos, boates, tudo isso tinha em São Paulo. Mas era uma cidade, mais ou menos, com a dimensão de um décimo da atual, era uma cidade muito segura, muito agradável sobre esse aspecto, ninguém imaginava ser assaltado. Havia roubos, assaltos, assassinatos, é uma cidade de um milhão de habitantes também tem a sua criminalidade, só que era uma cidade onde isso era uma exceção, não era a regra. Andava-se pelas madrugadas, só tive carro quando era adulto, andava-se de condução, sem essa preocupação de risco de vida, ou de roubo. Era uma cidade grande no sentido de que já atraía eventos culturais, o Teatro Municipal, por exemplo, no Teatro Municipal daquela época, é o mesmo de hoje, havia muito mais música, mais ópera, mais concertos de pessoas importantes que vinham de fora. Havia um circuito que as pessoas, os artistas vinham para o Rio de Janeiro, São Paulo e iam a Buenos Aires. Havia muito, uma vida intelectual muito grande, já numa cidade daquele tamanho. O cinema, aquele tempo, 1954, tomando isso como referência já havia televisão, a televisão era incipiente, era branco e preto, não havia grandes programas, então o cinema era o centro da vida de diversões. Ir a cinema era um programa, o senhor ia à tarde ao cinema, depois saía ia tomar, comer alguma coisa, ou passear, ou namorar. Uma cidade muito diferente da atual, havia pouco tráfego intenso, haviam algumas ruas com tráfego intenso, mas de um modo geral não havia engarrafamentos, não havia favelas. A favela que havia naquela época no Rio de Janeiro no morro, era uma opção das classes menos favorecidas de vez em morar no subúrbio, longe, tomar o trem de madrugada, o famoso subúrbio da Central, morava num morro que era perto dos locais de trabalho, as senhoras que exerciam trabalhos domésticos, tinham que trabalhar como domestica era perto da casa dos patrões. Havia o barraco, o barraco de zinco, barraco de madeira no Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo as pessoas mais pobres moravam em porões, moravam em cortiços. O porão, não é, o nome era uma construção no subsolo das casas, não é, quando a pessoa morava, mas morava sobre um teto abrigado, tinha água corrente, tinha chuveiro nos fundos da casa, não morava sobre terra batida, ou condições muito piores. O cortiço era uma habitação coletiva onde havia uma cozinha comum e quartos, em cada quarto morava uma família. Isso era mais ou menos o limiar da pobreza, os mais pobres em São Paulo, com uma ou outra exceção moravam num cortiço ou num porão, mas em condições bastante razoáveis. Também não havia o problema como hoje. Essas favelas são muito longe de São Paulo, do centro, do local de trabalho, as pessoas passam hoje, sei lá, três, quatro, cinco horas por dia na condução, isso não acontecia, o senhor tomava um ônibus em meia hora estava onde queria estar. O tempo gasto em condução era muito pequeno, com relação à hoje. Havia também condução às vezes super cheia, ônibus, bondes lotadas, não vou dizer que era uma maravilha, mas o tempo de deslocamento era pequeno. Hoje a pessoa perde muito tempo se deslocando de uma faculdade para sua casa, sua casa para faculdade, às vezes tem um emprego, tem dois empregos. O aspecto de deslocamento não era grave. Eu já falei, a segurança não era absoluta mas era muito grande. Essa diferença, as pessoas hoje se resguardarem, tendo de enfrentar um trânsito péssimo e terem que enfrentar uma insegurança essas são as grandes diferenças. Não era, São Paulo, uma cidadezinha provinciana, absolutamente, como digo culturalmente era grande, havia uma vida intelectual rica, já havia um número razoável de faculdades, havia uma vida estudantil, haviam profissionais, haviam exposições de arte. Essa megalópole em que hoje vivemos, tem talvez até alguma vantagem sobre São Paulo antiga, mas ela assusta um pouco pela insegurança e pela dificuldade em locomoção, essas são as grandes diferenças que noto na cidade.

 

P/1 – Vou retomar agora a questão da sua carreira que o senhor tem reiterado. O senhor tem esse universo criativo muito estimulante, e  em um determinado momento o senhor sai do Colégio São Luis e ingressa na Escola Politécnica.

 

R – Sim.

 

P/1 – Já com a opção de engenharia. O senhor se recorda qual é a razão pela qual o senhor opta por cursar engenharia, ou o que te leva a levar essa opção?

 

R – Sim, estava pensando em estudar Direito. Medicina nunca me atraiu muito. Naquele tempo havia três profissões classe A, isso é uma coisa ilegítima, mas é o que havia, a pessoa formava-se em Medicina, Engenharia ou Direito. Depois se não desse para fazer cinco, seis anos de faculdade estudava Odontologia ou Farmácia. A Faculdade de Letras era novinha tinha começado em 34, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras quando se formou a USP, então era uma faculdade ainda meio incipiente que formava professores, a pesquisa era muito pequena aqui em São Paulo. Não apreciava Medicina, tinha que optar entre Direito e Engenharia. Certo desafio de estudar Engenharia me levou a essa tendência. Gostava de mecânica, de física, de ciência exata, mas também gostava de ciências humanas, não era vocacionalmente voltado exclusivamente a ciências exatas. Então resolvi ir para Politécnica, todos os vestibulares eram difíceis das grandes faculdades, não era só na Politécnica, era na Medicina, Engenharia, o Direto era bastante difícil, como ainda hoje o é. Mas dessas três opções que eram opções de classe A, achei que era mais voltada para Engenharia. Como não era muito ligado a construção civil, a construção de edifícios, prédios, que é o grosso da engenharia civil e gostava de mecânica, de eletricidade que tomei contato com a mecânica e a eletricidade no Científico. Em Física se estuda mecânica, estuda rudimentos de eletricidade. Resolvi ir estudar Engenharia. Naquele tempo os cursos de Engenharia eram muito extensos, eu, por exemplo, durante os cinco anos da Politécnica tive oito horas de aula por dia, 48 horas de aula por semana, inclusive aos sábados, tinha aula de manhã e a tarde. Hoje isso deve estar mais atenuado, mesmo na Politécnica de hoje, os cursos são mais especializados, há uma tendência a restringir, a aprofundar uma parte do conhecimento. Não dar uma visão muito abrangente, de acordo com a exigência do mercado de hoje. Naquele tempo a escola era muito dura, a Medicina era também bastante carregada em termos de hora/aula. Direito já era mais fácil, era meio período apenas e grande parte dos estudantes de Direito trabalhavam intensamente e já adquiriam prática. No meu tempo era muito difícil a quem estudasse Engenharia ou Medicina fazer qualquer outra coisa, poderia dar umas aulinhas, eu mesmo dei algumas, mas havia uma dedicação quase plena. Os que podiam fazer o curso com menor esforço ainda aproveitavam porque haviam bailes, competições esportivas. Alguns colegas se dedicavam integralmente ao estudo, quer dizer, tinham aula de manhã, à tarde e a noite estudavam, outros pouco mais folgados, eu era desse tipo, se divertiam ainda bastante. Achei que mecânica e eletricidade eram coisas muito interessantes e gostei, gostei muito do curso. Achei muito interessante,  depois que saí da faculdade não tinha uma subdireção ou uma direção dentro da abrangência. Por quase que coincidência me envolvi no mercado, no ramo de plásticos, materiais plásticos, inclusive fiz pós-graduação lá na França e fiz vários estágios na Europa, no Japão, nos Estados Unidos. Então me especializei em aplicações plásticas, não a fabricação da resina, sim o que se faz com ela, por exemplo, embalagens plásticas, peças plásticas, engrenagens, peças de suporte, fios, trabalhei numa fábrica onde se faziam muitos fios de pesca de nylon, nylon é um material plástico. Também  isso era uma novidade, quer dizer, a indústria plástica começava ali, graduei em 56, as indústrias plásticas começaram praticamente na década de 50 fazendo coisas simples e começaram também a fazer peças para a indústria automobilística, porque o que deu grande impulso a indústria de São Paulo. Porque a indústria de São Paulo até a década de 50 era basicamente têxtil e de alimentos, havia o Matarazzo, o Crespi e outras famílias tradicionais de imigrantes, Simonsen mesmo, Emílio de Morais. Mas o grosso da fabricação era tecido, a tecelagem, têxtil, fios, fiação, tecelagem e alimentos. Se fazia alimentos, industrializavam-se alimentos, conservas. Em 50 já durante a guerra, de 39 a 45, houve um esforço nacional de fabricar aquilo que não se podia importar, depois começaram a fazer peças torneadas, parafusos, até pregos se importava antigamente. Houve também o funcionamento inicial da Companhia Siderúrgica Nacional que propiciou a produção de chapas de aço, o Brasil exportava muito minério de ferro mas não fazia nada de aço, não fazia nada, tudo era exportado, toda a matéria prima era exportada. Começou a indústria metalúrgica ligada à indústria mecânica e a automobilística, começaram a serem fabricados os primeiros carros nacionais, peguei esse boom e começou a nacionalização dos veículos. Os veículos começavam, por exemplo, com 20% de peças nacionais e essas peças iam sendo nacionalizadas. Havia interesses das montadoras de veículos estrangeiras, especialmente Volkswagen, Ford, General Motors em propiciar possibilidades para a engenharia brasileira e os industriários brasileiros de fazerem peças de metal, peças de plástico, peças às vezes até de tecido para os veículos, os veículos iam se nacionalizando. Peguei uma época interessante, de fabricação de peça havia, por exemplo, o lançamento do Ford Galaxie, o lançamento de outros carros, eles começavam com peças importadas, importando e tinha um prazo, havia um grupo chamado de GE, era o Grupo Executivo da Indústria Automobilística que forçava a nacionalização. Começaram a funcionar muitas fábricas para abastecer a indústria automobilística. Eu me beneficiei disso, porque trabalhei durante 11 anos numa fábrica que fazia especialidades, usava os chamados plásticos de engenharia, naquele tempo os engineers in plastics eram os plásticos mais resistentes, mais duráveis que faziam peças para os automóveis,  por exemplo, antigamente toda a ventoinha, todo o ventilador de refrigeração de automóveis era metálico, hoje todos praticamente são de material plástico. Base, componentes de motores, coletores, tudo isso eram metálicos, hoje são de materiais plásticos. Os painéis eram metálicos, hoje são de materiais plásticos, até carrocerias os materiais plásticos são feitos para determinados tipos de veículos, ou partes de carroceria. Então peguei essa parte, me especializei em aplicações plásticas e ao mesmo tempo fui adquirindo conhecimento administrativo, porque em qualquer profissão quando a pessoa vai ascendendo na escala, vai se deparando com problemas econômicos e administrativos, mesmo um professor que amanhã tenha um estabelecimento de ensino, ou um publicitário que amanhã tenha a sua firma de publicidade, no fim a pessoa se envolve.

Fui me envolvendo paulatinamente em Administração e Economia, mas sempre conservando a minha característica de engenheiro industrial. Nunca fui professor, dei umas aulas como convidado, mas sempre fui uma pessoa da produção, da manufatura, produção a partir de matérias primas que outros teriam feito. Essa época, década de 50, 60, até 70 foi uma época de intensa industrialização, infelizmente hoje em dia o Brasil está se desindustrialização, está voltando a ser um país agrícola, triste realidade. A globalização está fazendo com que o Brasil perca terreno em muitos campos de tecnologia, alguma coisa continua se desenvolvendo na própria informática, mas muitas coisas que se faziam no Brasil hoje são importadas, não se fazem mais. Há uma desindustrialização e esses recordes de exportação, essas vitórias em termos de comércio internacional são muito mais calcadas em commodities, em soja, em milho, em carne, olhando historicamente, amanhã talvez, o historiador fazendo uma análise vai ver que após um ciclo de intensa industrialização está havendo, houve para o fim do século XX, começo do século XXI, uma desindustrialização. Talvez a coisa mude, voltemos a nos desenvolver industrialmente, mas no momento é um fenômeno que noto, ainda frequento algumas fábricas, presto uma consultoria a dificuldade que existe dos industriários brasileiros em competirem com os estrangeiros, muitas máquinas que se faziam aqui hoje são importadas, muitos equipamentos se faziam. Navios, por exemplo, o Brasil produzia muitos navios, hoje a produção naval brasileira é muito pequena, quase nula. Algumas coisas já falei, há exceções, não vou dizer que tudo está regredindo, a indústria aeronáutica brasileira está progredindo, uma das poucas indústrias que está progredindo e está conseguindo um lugar ao sol, mas essa ideia, essa política econômica que mais ou menos se atém aos parâmetros da globalização, a falta de um certo protecionismo industrial está levando a essa situação. É uma coisa que lamento, porque não sou contra a agricultura, de forma nenhuma, mas o agronegócio deve ser considerado um aspecto só e o poder nacional depende muito da industrialização. Hoje em dia as nações poderosas são nações altamente industrializadas, sem perder o enfoque agrícola, o maior produtor agrícola do mundo são os Estados Unidos, mas eles não deixam de produzir. No caso dos Estados Unidos seria bom se nós tivéssemos lá, eles não têm hoje muitas indústrias, mas controlam a parte de pesquisa e desenvolvimento, as grandes novidades naquilo que é importante são feitas nas universidades estadunidenses, embora eles apliquem os seus capitais em fábricas na China, fábricas na Coréia. Mas peguei uma fase áurea da industrialização. Trabalhei sempre com materiais plásticos, viajei muito, estudei muito no exterior e era recebido na Alemanha, na França, como um engenheiro de um país promissor, um país que estava crescendo sobre esse aspecto. Hoje nós temos uma grande indústria automobilística, mas praticamente copia o que faz lá fora e importa grande parte dos componentes, especialmente os componentes essenciais são importados. Isso me deixa um pouco triste.

 

P/1 – Vou voltar um pouquinho antes dessa sua trajetória profissional, ainda na Politécnica. O senhor falou que fazia parte desse seu universo a questão da diversão e outras coisas que vocês desenvolviam na própria universidade, vocês passavam tempo integral na faculdade. Queria pedir para o senhor descrever um pouco mais esse cotidiano.

 

R – Pois não. A Escola Politécnica tinha o grêmio que era o centro acadêmico, o Grêmio Politécnico, onde havia um certo aprendizado político, dois aprendizes que conheci foram o Paulo Maluf e o Mário Covas, foram meus colegas, meus contemporâneos na Escola Politécnica. Paulo Maluf, inclusive, foi meu contemporâneo no São Luis, sempre dois anos na minha frente e o Mario Covas um ano na minha frente. Havia uma política estudantil ligada a União Estadual dos Estudantes e a União Nacional dos Estudantes. Naquela época também a esquerda estava crescendo, havia assim uma esquerda importante, então havia o Grêmio. O Grêmio promovia competições esportivas e festas, bailes sociais, além de alguma coisa beneficente. O Grêmio mantinha duas escolas primárias, acho que ainda mantém alguma coisa, não sei, e promovia festas, bailes. Havia bailes mais simples, e além dos bailes de formatura, os bailes beneficentes. Havia o Baile Paula Souza um baile anual, os estudantes procuravam fazer com que suas namoradas, suas amigas fossem patronesses, vendessem convites e havia essas festas que marcavam. Cada faculdade dava o seu baile anual, além dos de formatura, havia também os bailes do CPOR, grande parte dos estudantes fazia curso de preparação de oficial da reserva simultaneamente, naquela época esse curso era nos fins de semana. Haviam os do CPOR também que eram muitos procurados. Haviam as matines domingueiras, há clubes que ainda existem como o Club Homs, na Avenida Paulista que era palco de muitos bailes, hoje ele foi reformado, mas havia bailes no Clube Pinheiros, no Clube Paulistano, que ainda existem. Havia isso de uma forma muito intensa. As competições esportivas, haviam uma competição, não sei se ainda existe hoje, da Escola Paulista de Medicina com a Politécnica, era a Paula e Poli. Havia a competição tradicional entre a Faculdade de Medicina de Pinheiros e a Escola de Engenharia Mackenzie, que era a Mack-Medi. Outras faculdades que promoviam competições, as competições duravam uma semana, dez dias, depois evidentemente havia a comemoração ruidosa dos vencedores, não é? Lá naquele tempo não havia muita droga, a droga era uma coisa muito rara, se falava em droga, mas havia álcool a vontade, então havia muitos que tomavam seus pifões aí, bebiam um pouco demais. De uma forma menos violenta do que hoje, mas havia também alguns excessos, não eram santinhos não. Mas as pessoas viviam na Escola, no Grêmio, iam lá de manhã e saiam à noite, às vezes saia à noite para alguma competição, ou algum baile. Havia também trabalhos intelectuais, pessoas que se reuniam para certos estudos, debates, isso tudo muito centrado na Faculdade.

 

P/1 – O senhor tinha falado que é nessa fase que o senhor começa a viajar, descobrir coisas novas. Fala para gente um pouquinho sobre a primeira viagem se o senhor tem uma lembrança.

 

R – Pois não. A minha primeira viagem ao exterior foi em 1963, quando já era diretor de uma empresa, um diretor bastante novo, naquela época tinha 29 anos e fui nomeado diretor de uma indústria média, mas pioneira, uma indústria de desenvolvimento, fazia coisas que poucas indústrias faziam. Então fui aos Estados Unidos, depois fui à França, a Itália, a Alemanha justamente para ter contatos com fornecedores de matérias primas e visitar fábricas para ver o que podia ser copiado, ou que se poderia comprar know-how. Essa foi a primeira de muitas viagens, porque no campo de vanguarda, quando se está na vanguarda, quando se faz peça é preciso sempre se ver o que há lá fora, principalmente no Primeiro Mundo. Era convidado tanto pelos fornecedores de matéria prima, resina porque era um importador dessas matérias primas, como por fabricantes de máquinas que queriam ou que eu visse as fábricas onde eram fabricadas essas máquinas, ou que visse essas máquinas trabalhando em determinadas indústrias que já existiam. Por exemplo, montei uma fábrica de recipientes plásticos, copos plásticos para a margarina. Fui a Europa verificar em fábricas similares, como operavam as máquinas que minha empresa ia comprar. Também fazia cursos, fiz um curso de pós-graduação na França em aplicações, aí era um curso nos bancos escolares e nos laboratórios. Fiz vários seminários, de uma, de duas semanas, o que é muito importante a pessoa se manter a par do caso mais moderno. Também assinava muitas revistas técnicas que vinham de fora, algumas nacionais. Nas revistas nacionais eu escrevia, tenho talvez uns 40 artigos publicados sobre plásticos, sobre aplicações plásticas e muitas coisas, como isso era feito no Brasil, quais as dificuldades que existiam, muitas vezes, aqui, não havia uma determinada matéria prima, era preciso substituí-la por outra. Havia necessidade de um redimensionamento, isso tinha que ser às vezes aprovado por uma multinacional, se a multinacional mandava protótipos para a Europa, ou para a América do Norte, lá isso era testado, depois se voltava. Às vezes se tinha que discutir o assunto, às vezes uma alteração de projeto. Então participava muito dessa nacionalização progressiva e de inovação, trabalhei em duas fábricas, meu grande trabalho assim extenso foi 11 anos numa empresa chamada Manabi e mais cinco, seis anos numa empresa chamada Itap. A Manabi era uma empresa de artigos técnicos, a Itap era uma empresa de embalagens, as embalagens de vanguarda.

 

P/1 – Seu Nilo, por gentileza, antes da gente entrar na Itap, a gente vai fazer uma pausa aqui para trocar a fita. (pausa). Então, seu Nilo, vamos retomar a entrevista a partir do que o senhor falava das viagens que fez a Europa buscando modelos para indústria brasileira, para essa política de nacionalização. Então queria que o senhor prosseguisse.

 

R – Pois não. Essa política deu muito certo, a ideia de industrializar rápido o Brasil foi do grupo do presidente Juscelino Kubitschek. Essa ideia teve algo bom e algo mau, como geralmente qualquer projeto do governo. Por um lado ela provocou uma industrialização acelerada, por outra criou as raízes da enorme inflação que, depois, causou muitos problemas. Já no tempo do Juscelino a inflação já começou a se tornar ameaçadora, esse é o lado negativo. O lado positivo foi que nós criamos uma mentalidade industrial, aumentou a capacitação dos brasileiros e, na verdade, na década de 50 havia um sonho de que em uma geração o Brasil passasse a ser um país de Primeiro Mundo, um país desenvolvido. Infelizmente esse sonho não deu certo ainda, já se passou a geração e ainda estamos engatinhando, somos eufemisticamente chamados de país em desenvolvimento. Na verdade somos subdesenvolvidos, as razões evidentemente são inúmeras, isso caberiam inúmeros estudos sociológicos e não vem ao caso aqui. Mas havia assim na minha geração, quando jovem, um ímpeto, uma ideia de que um esforço levaria a um crescimento muito grande e a uma mudança de patamar. Infelizmente isso não ocorreu. Num certo sentido, sou um tanto decepcionado com a minha geração. Não digo a minha geração como responsável, mas com o fato de que a minha geração, apesar dos seus esforços, não conseguiu dar essa guinada. Nós temos um país ainda com grandes problemas de países do Terceiro Mundo e que estão sendo resolvidos muito lentamente, ou estão se agravando. Fico muito triste ao ver que a tuberculose aumenta, surge a febre amarela, aumenta o dengue e assim por diante, problemas típicos de falta de saneamento, falta de medicina básica. Enquanto que países pequenos como a Coréia, Tailândia, Malásia crescem a um ritmo enorme e estão nos superando. Fiquei sabendo que o PIB (Produto Interno Bruto) da Coréia que é um paizinho muito pequeno, Coréia do Sul, está superando o do Brasil. Isso me deixa triste, melancólico porque um país com tantos recursos, não consegue crescer solida e constantemente e nas vezes em que cresceu houve uma concentração de renda. Nós continuamos a patinhar. Espero que as gerações que me sucedem consigam resolver esse problema. Nessa época, voltando as minhas viagens, havia um intercâmbio, haviam muitas viagens, haviam também muitas feiras que apresentavam as novidades, as novidades lançadas no mundo. A visita a estas feiras era muito importante. Haviam feiras importantes em Milão, Dusseldorf, Paris, mesmo Nova Iorque e outras cidades. Tóquio estive em feiras sobre plástico. Os industriais mais ousados, os engenheiros, técnicos que formavam a sua equipe viajavam muito para descobrir o que se fazia, verificar depois se o mercado aqui comportava e então importar essas máquinas ou estimular a sua fabricação local. Isso foi um processo muito interessante. Mesmo às vezes era chamado por um industrial que fazia, por exemplo, um moinho de plástico que é uma coisa muito usada, ele tinha um modelo que tinha copiado de um modelo importado, mas os materiais que ele usava não eram o mesmo, eu testava modelos e falava: “Isso aqui, essa peça aqui ficou fraca, possivelmente você não usou um material assim, faça assado, etc.” Havia um diálogo muito grande entre os vários níveis da produção, entre os que fabricavam as máquinas e os que usavam as máquinas. Os que utilizavam os produtos feitos pelas máquinas, certamente uma cadeia produtiva partindo das matérias primas mais elementares e chegando aos produtos acabados. Esse diálogo foi muito intenso na década de 60 e 70, foi muito intenso, havia um crescimento muito grande, o Brasil cresceu naquela época a 10% ao ano constantemente durante vários anos, sem, infelizmente, uma distribuição de renda paralela que deveria ter havido e não houve. Esse entusiasmo era muito grande. Noto, não todos, mas entre os jovens de hoje, tenho uma neta de 22 anos, uma certa, certo desanimo, certa decepção. E também um que é notório, hoje um bom emprego é muito mais raro, as oportunidades são muito menores em proporção aos que saem de uma faculdade, saem de um curso qualquer e querem lutar pela vida. Na minha época quem se graduava numa faculdade boa tinha o seu futuro praticamente garantido, se não houvesse uma catástrofe, qualquer desgraça pessoal ou pública, o indivíduo tinha um acesso, um progresso econômico, financeiro e social quase que garantido. Hoje não, hoje vemos jovens com ótimos been grades, com pós-graduação, falando línguas e que lutam por um lugar ao sol. Talvez isso seja conseqüência da globalização, não sou ainda seguro em afirmar isso, mas como existe uma tendência ao Brasil ser um exportador de commodities. Commodities usa pouca gente, tudo hoje em dia, mesmo na agricultura é mecanizado, commodities exige uma pesquisa intensa, pode ser copiada. Noto que as dificuldades para os jovens hoje são muito maiores, mesmo que o jovem seja privilegiado com uma boa educação, seja uma pessoa inteligente e se prepara. Claro que sempre há alguns vitoriosos, mas noto que as dificuldades são muito maiores. Agora com alguma melhoria no crescimento industrial, alguma coisa que mal ou bem o governo está fazendo, haja certa reversão de expectativa. Vi outro dia dizer que várias profissões estão agora em falta, profissões industriais. Pode ser que haja alguma coisa que dê atenuação, pelo menos do problema de justamente criar um Brasil, tornar um Brasil grande e respeitado. Acho que o nosso país pelo tamanho que tem, pela população que tem, pelos recursos que dispõe, não é muito respeitado lá fora. Observei, não que fui maltratado, desprezado pessoalmente, mas a idéia é sempre de que o Brasil é um gigante que ainda não despertou. É um país com muitos recursos, mas que ainda não os explora convenientemente. Um país dispersivo, um país de certo desperdício. Essa sensação que sinto lá fora. Sem contar a grande rivalidade, a grande inveja, apesar de o Brasil ser pequeno em algumas coisas, é grande em outras, essa rivalidade dos países sul-americanos com relação ao Brasil já é muito grande, existe mercado comum, se fala muito em solidariedade sul-americana, ou latino-americana, mas isso acho que ainda está muito no papel. O Brasil falando português e cercado por países que falam espanhol, ele é tido assim, mais ou menos, como um corpo estranho. O Brasil que mais do que dobrou o seu território violando o Tratado das Tordesilhas. O Brasil que era um país, teoricamente incipientemente, pequeno, e hoje é um grande país, ele avançou em territórios da America Espanhola, isso cria ressentimentos. Mas espero, não sou pessimista, nem otimista, sou uma pessoa realista. É possível que aos trancos e barrancos o país saia dessa estagnação, vejo que o país hoje, em parte, é estagnado, não existem grande investimentos, não existe uma modernização da infraestrutura a altura das necessidades. Isso talvez mude, talvez haja condições mais favoráveis para termos um Brasil grande, embora haja ameaças. Ameaças de, por exemplo, reservas indígenas proclamarem a sua independência, isso não sou eu quem está falando, isso é gente que estuda e se assusta de certa fragmentação. Todo mundo fala do milagre brasileiro de ter conservado a sua integridade territorial, até se expandido.  Isso está ameaçado num certo sentido. Mas, voltando as minhas reminiscências, tive uma atividade profissional muito intensa, muito satisfatória pessoalmente. Fui pioneiro em algumas produções nacionais. Escrevi alguns trabalhos que foram elogiados, reputados, trabalhos em revistas e livros. Participei de congressos, fiz conferências, sempre procurando despertar o interesse da juventude em algumas coisas. Falei que no começo fui professor convidado em algumas faculdades como a Escola de Engenharia Mackenzie, a Escola de Engenharia Mauá para dar uma aproximação, indicar uma aproximação entre materiais novos, especialmente os plásticos que são a minha área, e os bancos escolares. Procurava mostrar, transmitir um pouco do que sabia, um pouco do que eles poderiam aprender depois com mais tempo. Porque acho que uma obrigação de quem é patriota, me considero um patriota crítico, muito crítico, mas patriota é orientar as gerações que vão sucedendo. Sempre procurei aconselhar estudantes, engenheiros recém-formados, jovens, até administradores, procurei transmitir a minha experiência. Ainda hoje pertenço ao conselho de uma empresa, vou lá uma vez por mês junto com a Hebe, a nossa experiência está à disposição deles, sempre nós aconselhamos ou citamos exemplos passadosHebeHebe porque evidentemente é o passado que constrói o presente, constrói o futuro, isso óbvio! Eu já com 74 anos não tenho muito mais o que fazer, tenho que aconselhar, orientar, me esforço e geralmente tenho bons resultados. A juventude é sempre entusiasta, sempre disposta a desafios e tem que ser bem orientada. Acho que isso é necessário e tem faltado. Nossos líderes, de um modo geral, não tem essa preocupação de construir o futuro. Aliás, isto está acontecendo no mundo todo. Vejam, todo mundo sabe que o efeito estufa está aí e pode liquidar com a humanidade e desde que se levantou o problema até agora o que que se fez de prática? Praticamente nada, por quê? Porque isso existe sacrifício, exige menor consumo, existe uma série de problemas que colidem com os interesses presentes de empresários, de investidores e mesmo usuários. Os interesses presentes colidem com os interesses futuros, que por enquanto, infelizmente, o presente tá ganhando. Essa é a minha visão do mundo. As coisas deveriam estar acontecendo e infelizmente ainda não acontecem, ainda estão no papel, nas soluções teóricas, nas discussões, nas dúvidas, quando já muita coisa poderia ter sido, não facilmente, feitas. Há dois mil e quinhentos anos um dramaturgo grego, se não me engano, Ésquilo falou: “É pelo sofrimento que se adquire sabedoria”. Isso é uma verdade, sofrimento não precisa ser estarrecedor, pode ser um sofrimento de a pessoa estudar, sacrificar, dormir menos, se esforçar para adquirir um conhecimento e depois aplicá-lo. O conhecimento também é estéreo se não é aplicado, pode ser até divertido para a pessoa. Tenho amigos que estudam apenas para saberem, estudam apenas para ter conhecimento. Alguma coisa também faço assim, nem tudo que estudei vou aplicar, nem tudo que aprendi tem aplicações práticas. Mas deve haver essa motivação, essa interação entre as gerações é muito fraca no Brasil, muito fraca e a descrença dos jovens, descrença justificada pelos líderes mais idosos é muito grande. Claro, em todos os países há lideres falhos, mesmo hoje temos políticos que dominam o mundo e são terrivelmente inadequados. Mas no Brasil isso é muito mais intenso, me parece. Então, eu viajei muito, aproveitei para conhecer coisas, trabalhei lá fora experimentalmente, por exemplo, fiz estágio trabalhando numa fábrica no Japão, vestindo a roupa de trabalho, uniforme de trabalho para ver como as coisas andavam, como as coisas não andavam. O fato de ser crítico quanto ao Brasil não significa que julgo lá fora tudo é perfeito, de forma alguma, casa país tem seus problemas, cada país tem as suas dificuldades, cada país tem escassez de alguns recursos e abundância de outras. Como também não tenho nada a dizer que o mundo no meu tempo de jovem era melhor do que o de hoje. Não, era diferente. Sinto algumas vantagens que estou falando aqui, mas também havia desvantagens. Acho que o grande progresso que houve agora foi na emancipação feminina, que não é completa, mas progrediu muito. Hoje em dia as mulheres tem mais voz ativa, menos do que deveriam ter, mas ainda tem, já tem voz ativa, já tem melhores empregos, maior controle, liderança. Isso é um progresso. No meu tempo as mulheres que estudavam em faculdade era um número muito pequeno, ou só estudam certos cursos que achavam adequados a mulheres. Haviam-se cursos masculinos e cursos femininos. Hoje não, as mulheres estudam o que acham que devem estudar, há mulheres nas Forças Armadas, isso tudo está mudando. Isso é uma vantagem, uma superioridade dos tempos modernos sobre os tempos antigos. Então evito fazer juízos de valor. Por isso conto a minha vida esperando que tenha algum interesse e alguma coisa que fale possa melhorar, fazer os jovens de hoje, meditarem sobre o que eu falo e construírem alguma melhor para eles e para sociedade. Algo mais?

 

P/1 – Sim, seu Nilo. Gostaria de lhe perguntar sobre o seu casamento. O senhor foi casado duas vezes?

 

R – Sim.

 

P/1 – E o seu filho ele é do seu primeiro casamento?

 

R – Exato.

 

P/1 – Queria que o senhor contasse um pouco sobre esse seu primeiro casamento e do seu filho também.

 

R – Pois não. Me casei jovem, com 23 anos, recém-formado. Logo tive um filho, menos de um ano depois de casado, hoje ele tem quase 50 anos. Esse meu filho fez engenharia também, mas depois resolveu desenvolver a sua vocação musical. Hoje ele é professor de violão e guitarra, tem um estúdio de gravação. Partiu para música, está relativamente bem, vive fazendo o que ele quer e pagando o preço que isso exige. Minha primeira mulher era professora, mas parou de lecionar quando me casei e vivemos alguns anos uma vida de classe média, confortável, com maiores recursos que, por exemplo, os meus pais tinham. Minha vida já indicou certa ascensão financeira e social, certas coisas que fiz com muita facilidade pelo meu filho, os meus pais fizeram com alguma dificuldade. Houve certo maior conforto, maior tranquilidade, nesta primeira parte da minha vida. Depois cheguei a conclusão que não havia mais o porquê me manter casado, certos sentimentos que havia no início não havia mais, desapareceram. Senti-me um pouco saturado, uma vida que estava se tornando monótona. Nesta ocasião perdi a visão da segunda vista, daí fiquei completamente cego e mesmo assim achei que valia a pena tentar uma segunda experiência. Embora conforme falou o doutor Samuel Johnson, um segundo casamento é o triunfo da esperança sobre experiência. Mas não concordei com isso e resolvi tentar uma segunda experiência que deu certo. Toda experiência matrimonial, legal ou não, ela tem prós e contras. Tem sempre, há dificuldades, um novo casamento significa novas dificuldades e novas vantagens por assim dizer. Então tenho. Acho que meus dois casamentos foram bons, cada um no seu tempo, na sua época. Essa é a minha posição. Vivo bem com o meu filho agora, meu filho estranhou um pouco essa mudança de posição, mas vivo bem com ele. Tenho uma neta de 22 anos que está estudando artes plásticas, já fez, está na segunda metade do curso. Convivo com a minha família de uma forma bem. Tenho uma irmã que já falei, nossa constelação familiar é pequena. Tem a minha mulher Hebe, alguns parentes com os quais convivo bem. Tenho bastante relações familiares, tenho amigos também que me satisfazem, de vez em quando nos reunimos. Em suma, não me falta contatos sociais não faltam de jeito nenhum. Essa é resumindo a minha vida familiar.

 

P/1 – Vou pedir para o senhor falar o nome do seu filho. Qual é o nome dele?

 

R – Meu filho chama-se José Fernando Vieira Alge. Vieira da mãe. Já a minha neta, é curioso, ela é filha do meu filho que descende de espanhóis, italianos, portugueses e brasileiros e a minha neta por parte de mãe é de ascendência armênia, ela é uma mistura de muitas nacionalidades e muitas raças. Hoje tenho uma neta que é 50% armênia. É interessante isso em São Paulo, no Brasil, essas misturas de nacionalidades, são mais ou menos comuns, mas raramente acontecem em outros países. Onde um casamento, ou uma pessoa com varias origens, é muito raro, acontece muito na América porque as correntes migratórias vieram, foram se misturando, foram criando novos lares. Mas é interessante isso, hoje em dia muitos brasileiros que descendem de seis, sete, oito nacionalidades, é muito interessante.

 

P/1 – E que mudanças aconteceram na sua vida quando o senhor virou pai e quando o senhor virou avô? O que mudou?

 

R – Bom, quando virei pai evidentemente fiquei muito contente, infelizmente depois devido a problemas com a saúde da minha primeira mulher não pude ter mais filho. Gostaria de ter dois filhos. Meu primeiro filho nasceu até prematuramente porque não esperávamos ter um filho menos de um ano depois de casados, mas ele evidentemente concentrou muito dos meus anseios. Também sempre fui uma pessoa que procura dividir a vida em várias coisas. Acho que fui um bom pai, mas não fui exclusivamente pai. Noto que certas pessoas tem um instituto paternal, ou maternal no caso de mulheres, que praticamente dominam o resto. Eu não, procurei criar o meu filho, fui afetuoso, propiciei muitas coisas que desejava, ele teve uma juventude muito confortável, muito tranqüila. Mas tive minha vida pessoal, continuei a fazer coisas que fazia antes. Hoje em dia também as coisas são difíceis porque o trabalho, o profissional vitorioso trabalha muito mais do que no meu tempo, isso é outra característica. No meu tempo havia possibilidade de trabalhar menos e progredir mais, hoje o trabalho é exaustivo, a mulher também trabalha, quer também fazer a carreira, é um direito, e os filhos tem menos convívio com os pais, embora os pais se dediquem muito aos filhos. É interessante essa contradição. Os pais pensam muito nos filhos, procuram propiciar aos filhos até compensações materiais pela falta de companhia. Hoje os pais se preocupam muito mais em dar o que os filhos desejam, ou propiciar aquilo que pensam que os filhos precisam, tudo isso, mas tem pouco tempo para conviver. Convivi relativamente bastante com o meu filho, muitas diversões eram feitas em conjunto, saía às vezes. Sentia um pouco, às vezes, a minha ausência, achou durante uma certa fase da vida dele que pouco convivia com ele. Não notei isso, talvez tenha sido um erro da minha vida, talvez devesse dar a ver, mostrar ao meu filho, ou mesmo propiciar a ele uma maior convivência. Mas de qualquer forma ele viveu comigo sem grandes atritos, tivemos as nossas divergências, como todo pai e todo filho tem, mas ele viveu bastante razoavelmente comigo e hoje temos relações excelentes. Meu filho, depois, uniu-se a uma senhora e teve a minha neta, agora estou esperando, vou ser avô pela segunda vez porque o meu filho também se casou pela segunda vez e agora a mulher dele está grávida. Vou ser avô com 22 anos de intervalo. É uma experiência interessante essa. O meu futuro neto terá uma irmã de 22 anos, uma diferença bastante grande, mas acho que tudo vai ser harmonizado. Também me dou bem com a minha neta. A minha neta agora aos 22 anos estudando é muito ocupada, mas convivemos bem, o que posso fazer por ela faço, agora mesmo ela começou a estudar francês, eu e a Hebe falamos francês, então estou esperando momentos de poder ajudá-la a isso, se ela ao graduar-se quiser fazer algum curso no exterior e eu puder ajudá-la substancialmente vou ajudá-la, acho que é o que posso fazer pela minha neta e ajudá-la a progredir intelectualmente. Essa é minha convivência atualmente. Tudo tem altos e baixos, agora, atualmente, estou bem com praticamente todos os meus parentes, perdi há poucos dias uma prima que me era muito querida, uma remanescente da minha geração, muitos primos meus já faleceram, os tios quase todos já faleceram, tem bastante idade. Outro dia estava conversando com a Hebe sobre o pequeno número de pessoas que me conhecem desde que nasci, também com 74 anos quem me conhece desde que nasci tem mais de 80. Então há poucas pessoas, algumas ainda, mas algumas pessoas que posso citar que conhecem. No caso do meu segundo casamento foi interessante porque conheci a Hebe desde que eu era criança, e ela também. Depois sempre mantivemos um relacionamento amigável, nos encontrando em algumas festividades, tínhamos alguns amigos comuns, nos reencontramos e acabamos nos casando. Era uma coisa meio inimaginável, na minha idade madura imaginar que um dia me casaria pela segunda vez, que me casaria com a pessoa com quem me casei. Isso é curioso, né? Um fato interessante porque é inusitado, sempre tive a Hebe como uma pessoa de minhas relações, uma pessoa simpática, mas acabei me casando com ela já há 18, 19 anos.

 

P/1 – Esse reencontro com a Hebe, sua atual mulher, como ele acontece? Em que circunstancias você a reencontra?

 

R – Bom, nós nos encontrávamos geralmente em festas de amigos comuns. Até em funerais de amigos comuns também nos encontramos algumas vezes. Geralmente as pessoas se encontram em festas e quando não são amigas propriamente, em festas e mesmo cerimônias fúnebres. Evidentemente não sabia que estava emocionalmente vazio, é interessante isso, depois a gente retroagindo pensa. Encontrei-me com a Hebe, não tinha ideia assim, já tinha 55 anos, não tinha ideia de uma nova vida amorosa, isso foi uma surpresa para mim também. As coisas acontecem inesperadamente em muitos casos. Encontrei a Hebe numa reunião social, num casamento. Começamos a conversar e depois o assunto foi rolando de uma forma inesperada. Suponho que inesperada para ela também (risos). Como eu, evidentemente, estava vazio, meio pronto para desenvolver um sentimento de afeto. Já falei, coisa que não sabia, não me analisava, não me sentia assim, depois que vejo se isso aconteceu, aconteceu porque haviam circunstâncias prévias que me predispunham a tal. Aconteceu esse encontro, depois resolvemos nos unir, depois nos unimos há algum tempo e nos casamos legalmente. Foi uma coisa muito boa porque acho que os casamentos, todos os casamentos deviam ter um estágio antes de uma formalização, assim há um melhor conhecimento e depois também sou favorável, na maioria dos casos, a um casamento legal mas após algumas das dúvidas teriam sido dirimidas.

 

P/1 – Seu Nilo, a gente tá indo para uma fase avaliativa agora da entrevista, esse fechamento, e eu percebo que um momento principal da sua vida foi quando o senhor perde a segunda visão. O que surpreende vendo o seu depoimento é a forma como o senhor se dá com tudo isso. Então, queria que o senhor contasse, tendo em vista tudo isso, como é esse momento, como o senhor reage?

 

R – Com relação a minha cegueira?

 

P/1 – Sim.

 

R – Sou uma pessoa cética, não tenho religião, mas acho que devemos aproveitar o que é possível e neutralizar aquilo que é possível. Num certo sentido, não no muçulmano, mas no filosófico, sou fatalista. Quando perdi a visão, quando acontece uma desgraça com uma pessoa, a desgraça física, ou psicológica, ou financeira há uma pergunta que ocorre a maioria das pessoas “Por que aconteceu isso comigo?”, fiz a pergunta inversa: “Por que isso não poderia acontecer comigo como aconteceu?”. Sei que o Brasil, se não estou enganado, tem mais de um milhão de cegos, por que eu estaria isento de ser cego? Ou de ser paraplégico? Ou de ter tido já um infarto? Tive a cegueira que é uma coisa muito transtornante, não há dúvida nenhuma. Mas encarei isso como alguma coisa estatística. A vida, a doença, a felicidade, a infelicidade se desenvolvem através de fenômenos estatísticos, alguns são atropelados, outros são assassinados, outros ganham na loteria esportiva e assim por diante. O indivíduo, vivendo, está sujeito a tudo isso, não é? Não há blindagem para as coisas boas, como não há blindagem para as coisas más. Acho que há certos fenômenos que atingem as pessoas e não se sabe por que essas pessoas são atingidas. Também não se sabe por que algumas não são atingidas. Tenho 74 anos, boa saúde, tirando a cegueira. Não tenho o que se chamava antigamente de achaques da velhice. Meu corpo ainda é saudável. Evidentemente cuido dele, faço ginástica todo dia, procuro fazer regime alimentar. Tenho ainda um corpo que me satisfaz, ainda posso fazer muita coisa quando a cegueira não me impede. Claro que é um abalo, quando perdi a visão da segunda vista que é quando fiquei completamente cego, evidentemente perdi muito. É difícil avaliar o quanto a gente perde. Perdi muito, algum transtorno mental muito grande. Mas consegui graças, num certo sentido a minha cultura, encarar isso como algo que não se pode imaginar que não nos atinja. A aceitação é muito importante. Tenho feito alguns pronunciamentos em alguns lugares, instituições que tratam de cegos como a Shalom e outras, acho que a primeira condição para alguém enfrentar uma desgraça, um mal estar, é a aceitação, é encarar isso como algo perfeitamente dentro da natureza e dentro dos eventos possíveis. Alguns não aceitam muito, não aceitam nada, muitos entram em depressão, como estou falando de cego, falo de cego como qualquer pessoa que sofre um abalo, especialmente um abalo inesperado. Nunca pensei que ia ser cego. Não tenho cegos parentes, não tenho nada, nenhum antecedente, nenhum antepassado que soubesse que fosse cego. Isso é um abalo muito grande. Mas se a pessoa tem uma cultura predisposta à aceitação, aí vem inclusive conhecimento de História das desgraças, das epidemias que ocorreram, os morticínios que ocorreram na humanidade. Um ser humano é estar sujeito a isso. Quando ocorre um fato negativo como este a primeira coisa é a pessoa aceitar e verificar quais as vantagens, quais as possibilidades de exploração apesar deste evento. Começo com certos raciocínios primários, por exemplo, acho que é muito melhor ser cego do que passar fome sistematicamente e grande parte da humanidade passa fome sistematicamente. Comer três vezes por dia é um privilégio na humanidade. Há milhões, talvez bilhões de pessoas que comem mal e comem pouco. Eu não, nunca passei fome, sempre dormi abrigadamente, nunca passei frio extremo, nunca corri grandes riscos de vida. São vantagens que tenho que explorar, vantagem que tenho de usar para compensar esta posição. Raramente, não quero dizer que nunca, mas raramente fico mal dizendo a minha cegueira. Às vezes eu a mal digo, às vezes quando quero fazer uma coisa e não posso, quando dependo de auxilio externo e o auxílio externo às vezes tarda um pouco, eu me enraiveço. Enraiveço, mas não me revolto, quer dizer, a revolta seria uma coisa irracional, me enraiveço, lamento muito uma situação de impotência, de impossibilidade. Agora fora, extraindo esses momentos que ocorrem mas que não são a minha vida média...

(pausa)

FIM DA PRIMEIRA FAIXA

 

P/1 – Seu Nilo, falávamos sobre a cegueira, o senhor falava sobre os momentos no qual ela era um problema e que o senhor não a mal dizia.

 

R – Falava sobre alguns momentos nos quais me enraiveço por ser cego. Mas, de um modo geral, acho que um homem sempre tem o direito de fugir a vida, acho que o suicídio é um direito, quando há um problema insolúvel como o meu caso, minha cegueira é insolúvel no atual estado da medicina oftalmológica. Um dia talvez esse problema, descolamento da retina, seja superado, no momento não é, acho que quando a pessoa sofre alguma coisa irremediável, se é remediável deve procurar remediá-la, se ela é irremediável deve procurar aceitá-la e conformar-se com isso. De um modo geral aceito um transtorno, uma deficiência com certa calma, com certa tranquilidade. Falo de um modo geral, há horas evidentemente que me sinto no limite do desespero, mas isso é pouco, no começo era mais, agora diminuiu. Procuro valorizar tudo que faço, depois que perdi a visão escrevi dois livros. Alguns receberam algumas críticas elogiosas, me sinto satisfeito. Há alguns meses lancei esse terceiro livro, muita gente foi na noite de autógrafos, batemos papo, conversamos de velhos amigos. Como muito bem, bebo socialmente muito bem, não como mais e melhor por causa da necessidade de conservar uma certa saúde, poderia comer, por exemplo, meio quilo de chocolate por dia e posso comprar esse chocolate, o que é uma vantagem. Poderia comer coisas muito gostosas, poderia aproveitar mais meu desejo de comer, tenho que controlar por outros motivos, não porque sou cego, a cegueira, absolutamente, não me atrapalha, a única coisa é que não posso ver a cor do vinho, mas posso provar, posso tomá-lo. Tenho amigos, ontem eu mesmo fui à reunião com 10, 15 colegas, mais algumas senhoras, passamos lá, comemos uma pizza, também a cegueira pouca diferença. Às vezes tenho curiosidade, por exemplo, gostaria muito de saber como que é o rosto de vocês, não vou saber. No começo isso era muito mais desagradável, hoje guardo o tom de voz, uma frase original que vocês falam, guardo o nome de vocês e devo me contentar com isso. Se não me contento com isso não tem jeito. Tudo aquilo que não tem jeito deve ser enfrentado com paciência, buscando tranquilidade. Muitos anos antes de perder a visão, sempre fui um indivíduo meio ansioso, pus na minha pasta uma frase que lia todo dia automaticamente, abria aquela pasta várias vezes ao dia estava lá a frase, a frase é muito simples é assim: “Tudo o que acontece a mim acontece a muitos”. Não tinha a menor ideia de que ia ficar cego. Mas esta frase, quando tinha um problema, um problema menor, profissional, familiar, problemas que todo mundo tem, esta frase me fazia pensar: é mas deve ter muitas pessoas com o mesmo problema, vou ter que entender que estou compartilhando um problema, ou problemas semelhantes com muita gente, então o negócio é aguentar, não sou o único a ter esse problema. O fato de não ser o único é certo consolo. Acho que uma pessoa que tivesse uma desgraça única no planeta seria muito difícil superá-la. A gente tem que buscar o fato, encarar o fato que isso é uma coisa que atinge muita gente. Esta frase, não é, deve ter se gravado no meu inconsciente e acho que ajudou. Sou igual, estou na mesma condição de um milhão de brasileiros e dezenas de milhões no mundo. Tenho recursos, tenho a minha esposa, lê nas cinco línguas que leio e geralmente nossos gostos coincidem. Não preciso, tenho, fiz cursos para deficientes visuais e havia pessoas que vinham com bengala e tomavam ônibus, iam de ônibus, eu ia de carro com a minha mulher me levando. Não tenho problema, geralmente não tenho problema de deslocamento. Tem algumas coisas que tenho que eliminar, por exemplo, reparei, depois que perdi a visão visitei alguns lugares desconhecidos no exterior, isso faz mal, me deixava muito nervoso não ver coisas que eu tinha sonhado ver, estar diante delas e não as ver. Isto é muito desagradável, fez com que nós restringíssemos muito as nossas viagens por causa disso, prefiro ir a um lugar conhecido do que a um lugar desconhecido porque aí esse lugar desconhecido me desperta muito curiosidade. Não quer dizer que não haja certos momentos muito emocionantes, muito desagradáveis. Me lembro que da última vez que fomos a França estava nas Champs-Élysées, naquela avenida que conheço relativamente bem, fui muitas vezes a França, lá no fundo o Arco do Triunfo, as minhas costas o Arco das Tulherias, aquele panorama magnífico e que não estava vendo nada, sabia como é que era, isso me emocionou negativamente. O que não significa que amanhã não vá viajar, visitar um amigo ou que se vou a algum lugar, se vou a Bahia não ver nenhuma praia baiana, mas posso comer comida típica baiana que aprecio. O negócio é extrair, a solução é extrair o que é extraível. Aproveitar aquilo que é aproveitável. Usufruir daquilo que é usufruível. Não minimizar aquilo que não é usufruível, sei que a perda da visão é algo muito ruim, estou perdendo muita coisa mas tenho que ponderar, pensar nas coisas que ainda não perdi. Ainda não perdi o bom humor, ainda não perdi o convívio de amigos, não perdi uma vida conjugal bastante boa, não perdi o afeto dos meus parentes, consigo produzir alguma coisa escrevendo, além de livros escrevo alguns ensaios, algumas coisas mais filosóficas ou religiosas, algumas coisas sobre física que escrevo também, até sobre matemática faço algumas especulações, consigo, tenho uma prancheta que me permite escrever, não ler, mas escrever e depois ser conferido pela Hebe. Daí mando para os meus colegas, meus colegas discutem um assunto. Em alguns ambientes sou bastante respeitado, sou bastante consultado. Isso, evidentemente, preenche não de uma forma perfeita a minha vida. Tenho talvez o discutível privilégio de me queixar de falta de tempo. É uma coisa fantástica! Às vezes converso com Hebe, às vezes mais tranquilamente, às vezes mais _______: “Por que não posso fazer isso? Não tenho tempo, uma semana que estou querendo ver alguma coisa assim, assado” ver no sentido figurado, né? “Que você me procure certas palavras na enciclopédia, ou anotar certas coisas, escrever certas coisas, ou telefonar e não tenho tempo”. Isso é desagradável, me queixo, às vezes sinto essa sobrecarga, uma agenda carregada, mas imagina se tivesse uma agenda sem nada a fazer. Um tédio. Acho que o tédio é insuportável, mais do que a super ocupação, o tédio que leva as pessoas ao suicídio. Parafraseando Albert Camus, concordo com ele, ele disse que o grande problema é suicidar-se ou não. Não tenho vontade de me suicidar de um modo geral, não quer dizer que às vezes não tenha, não penso até nisso. Mas de um modo geral não. De um modo geral acho que a minha vida vale a pena de ser vivida. Acho que Camus acabou, parece-me que suicidando, ele bateu com o carro numa árvore e ninguém sabe se foi um acidente ou se ele se suicidou mesmo, ele era preocupado com essa visão: a vida vale a pena? Esse livrinho de ficção que eu escrevi o protagonista é um homem que acha que a vida não vale a pena, ele “cientificamente”, entre aspas, é claro, é um livro de ficção, ele esteriliza a humanidade para acabar com a humanidade de uma forma suave. Sem assassinatos. A postura dele e coloco no livro, é o ponto de vista dele. Não que ele acabe vitorioso, no fim a humanidade acaba se salvando no meu entrecho ficcional. Acho que as pessoas que não tem dificuldade de subsistência, tem certo conforto material, que não são ricas, mas que não falta nada essencial, tem convívio com amigos, com parentes. Tem uma vida conjugal boa, consegue ainda resolver assuntos, sou conselheiro de dois prédios, não sou síndico, mas sou conselheiro, atuo, palpito, era de três. Escuto, divirjo, escuto politicamente tudo que consigo ser bem informado ouvindo rádio, ouvindo a televisão, não vendo mas ouvindo, lendo através da Hebe jornal. Sou muito a par do que há no mundo, é lógico, se pudesse, tivesse acesso fácil a internet, posso acessar a internet como cego, há recursos. Mas no momento acho que ainda há um acesso de informações, por exemplo não tenho, não quero ter, nem a Hebe quer ter, computador, porque hoje vejo amigos meus que se queixam, todo dia tem que abrir o e-mail, tem um monte de lixo e buscar informação na internet, receber informações erradas,  trabalhar em cima delas e depois verificar que as informações eram erradas. Mas se houver necessidade amanhã compramos uma máquina lá, a Hebe conhece computação, eu posso aprender, há dispositivos que inclusive transformam o que é visto no computador em áudio. Há computadores que falavam textos, tudo isso existe. Não preciso disso, acho que é muito complicado, consigo preencher o meu tempo todo com isso. Converso com os meus amigos: “bom, se tiver um computador vou dormir menos, porque todo o meu dia é ocupado, imagina se vou ter ainda um computador!” Nosso dia é ocupado com leituras, com ginástica, com administração do que é nosso, tenho que tratar de pagamentos, recebimentos, investimentos, não sou rico, mas tenho que defender o que é meu. Nós somos ocupados. Hoje acordamos cedo, fomos ver o que tinha que fazer e manda um fax para um, telefona para outro, cobra de um terceiro, fizemos ginástica, almoçamos e estamos aqui. Uma tarde muito agradável, aliás. Amanhã tenho um chá no Centro Brasileiro Britânico, vou lá também, vou ouvir uma conferência, vamos tomar chá. Na quinta-feira tem um almoço familiar, almoço do nosso clã. Geralmente às sextas-feiras vou para o Guarujá, no Guarujá vou ouvir o barulho do mar, tomar um pouco de sol, passear, comer uns frutos do mar. Tem muita coisa ainda que torna a minha vida gratificante, sem minimizar uma coisa muito ruim que é a perda da visão, sei que colegas, convivi com cegos que estavam aprendendo orientação, certas coisas você aprende, até a Hebe aprendeu alguma coisa para me guiar, para ajeitar a minha cadeira, para ajeitar o meu talher e alguns entram em depressão, alguns sonham com uma cura impossível, eles se agarram a essa cura impossível. Estou satisfeito porque fiz todo o possível, quer dizer, na época em que perdi a visão todos os recursos do mundo estiveram a minha disposição. Todos os recursos falharam. Mas olha “Puxa vida, gastou tanto dinheiro à toa”. Não. Pelo menos posso dizer que não é que me faltou alguma coisa. Quando leio que muitos brasileiros, por falta de quimioterapia, porque está numa fila de quimioterapia do SUS, passam de um câncer curável para um câncer mortal, como é que posso me sentir infeliz? Eu sei que a fila de transplante, não sei de que órgão, é de anos? Tudo isso são situações muito piores que a minha, claro que algumas melhores, se eu enxergasse, eu mesmo estaria na posição muito melhor. Mas quando olho uma pirâmide, quando eu olho as pessoas que estão em situação pior do que a minha. Acima de mim algumas que estão em posição melhor, não estão no topo da pirâmide que seria o ideal, eu estou próximo ao topo. Essas coisas são um bom consolo. Agora que estou falando a vocês não é uma coisa que nasceu assim, ou que nasceu depois que perdi a visão, já lendo, meditando, estudando, me fixando em frases como essa que citei, isso preparou, se alguém acredita em providência pode imaginar que a providência me preparou para seguir, embora ache que a providência me preparou e não preparou outros? O assunto não se resolve confiando nisso. Também não tenho religião, mas não estou, não fico tenso, ansioso, por não ter religião, muitas pessoas perdem a religião, ficam desarvoradas, desesperadas, buscam outras, ficam procurando sempre o que não encontram, não tenho nada disso. Aos 19 anos cheguei a uma postura filosófica que é essencialmente a mesma hoje, durante 54, 55 anos tenho basicamente as mesmas ideias, aprimorei-as, estudei mais, li mais filosofia, li até religião, mais história, muita coisa, ciências, já falei, ciências biológicas, hoje se não leio, ouço através da Hebe e nós discutimos o assunto. Nós estamos sempre lendo, procurando estar ativa. Agora mesmo a Hebe acabou de ler um livro para mim, um livro em inglês sobre como Churchill, o famoso da Segunda Guerra Mundial, muitos anos antes, 1921, criou o Estado do Iraque, li sobre a formação, como é que o Iraque existiu, porque existiu. Isso me dá muita satisfação ter um conhecimento, isso não vai adiantar nada, vai permitir apenas de conversar com outras pessoas, mas bem informado. Hoje conheço a História do Iraque, começa em 1921, antes o Iraque era uma província do Império Otomano, isso me dá satisfação. Como tenho satisfação em adquirir conhecimentos, também melhor ainda se possa aplicá-lo, mas se não também o simples conhecimento me é agradável, tenho uma vida muito rica nesse sentido. Conversar para mim é muito importante, com pessoas que tenham um assunto a dizer, converso com a minha faxineira, uma senhora analfabeta, converso e troco informações com ela. Converso com pessoas de alta erudição, de grande categoria, doutores de várias ciências, converso. Eu não sou, não fiz doutorado, não passei do bacharelado, a Hebe é doutora em comunicação, tem conhecimentos interessantes, muito de outra área e nós trocamos ideia. Esse fato de poder dialogar, de falar algumas línguas, de ter viajado, de ter uma noção do mundo. Os alemães, não falo alemão, mas algumas palavras são muito interessantes, a ideologia para eles é Vertshaumg, quer dizer, vert é mundo, é uma maneira de ver as coisas passarem. Essa maneira de ver as coisas passarem, essa ideologia minha, acho privilegiada, muito boa para mim, estou satisfeito com ela, pode ser que ela não satisfaça a ninguém, satisfaça a mim. Estar satisfeito com a sua saúde em geral, apesar de cego, com as suas possibilidades aos 74 anos é muito gratificante. Embora tenha momentos em que me sinto muito mal, de um modo geral posso dizer que tive uma vida boa e sou relativamente feliz. Ninguém é feliz de modo absoluto, mas me considero feliz, acho que a minha vida foi útil, foi útil aos meus circunstantes, foi útil ao meu país mesmo, fiz alguma coisa de novo, pequenas coisas, mas fiz. Produzi, participei de processos coletivos positivos para o país. Nunca cometi um ato desonesto. Às vezes a pessoa até comete atos desonestos por necessidade. Nunca fui ambicioso demais para buscar alguma coisa de forma ilegal ou desonesta. Tive algumas veleidades políticas, mas achei a política um terreno muito contrário aos meus princípios. Nunca fiz política, sou considerado, era considerado um ótimo orador, poderia até digamos usar dessa qualidade para conseguir votos, mas a minha maneira de ver a vida colide com, uma política colide com a situação. Não sou nem democrata, nem totalitário, sou meritocrata, quer dizer, sou favorável a governos que tenham especialistas, isso talvez seja uma utopia, talvez nunca existe um governo meritocratista, algumas organizações meritocratas, mas uma sociedade, um Estado meritocrata nunca houve. Acho que tanto a democracia quanto o totalitarismo tem defeitos profundos, a meritocracia é algo unicamente ideal. Então me afasto de qualquer coisa que seja governar ou buscar governar, buscar o poder. Muitas pessoas, acho que a busca pelo poder é uma coisa inata ao ser humano, a renúncia ao poder é uma coisa que alguns alcançam e eu alcancei. É o que acho.

 

P/1 – Para finalizar, eu queria perguntar para o senhor como senhor se sentiu ao dar esse depoimento? Como é que foi essa experiência para o senhor?

 

R – Muitíssimo bem. É muito bem. Fui tratado muito bem. Estou entre jovens, às vezes critico a juventude, não há dúvida nenhuma, como critico a velhice, mas sou muito crítico. Acho que essa instituição ela é ímpar, é excelente. Me esqueci de perguntar a vocês, depois quero saber se isso aqui se calcou em algum modelo pré-existentes, ou é uma criação da dona Karen, não sei, depois vou saber. Mas me sinto muito bem e tenho certo interesse na perpetuidade. Eu sei, estou bem a par da finitude da vida, eu tenho o quê? Alguns anos de vida, se tanto. Evidentemente a probabilidade de morte cresce com a idade, cheguei até aqui, estou satisfeito, já estou acima da vida média brasileira. Mas tenho, gosto de deixar alguma coisa registrada, especialmente com esses meios modernos de vocês, uma coisa muito interessante. Gosto de divulgar, acho que as pessoas que me ouvem, de um modo geral, aproveitam alguma coisa. Um pouco da minha conversa é um blábláblá inútil, é um parágrafo sem sentido. Agora, como é que acho isso? Acho porque onde converso sou bem recebido, sou convidado a voltar, se fosse a muitos lugares e não fosse convidado a voltar então notaria que estava, na verdade, incomodando as pessoas. Acho que se incomodo as pessoas é porque às vezes sou sarcástico demais, sou irônico, crítico. Não faço isso por mal, mas às vezes falo alguma coisa e as pessoas não me entendem, ou se ofendem, isso acontece. Às vezes faço algumas brincadeiras inconvenientes, sinceramente é uma coisa que... E não noto, não acho que sou inconveniente, dou o direito de a pessoa de retrucar na mesma moeda, só que às vezes não encontro uma receptividade boa. Quanto ao resto, a conversar, a discutir, a apresentar ideias, de um modo geral sou bem quisto, bem quisto e respeitado, minhas opiniões geralmente, mesmo sobre assuntos que não são profissionais, são bem recebidas. Não que todo mundo concorde comigo, é claro, mas acham que a minha conversa é estimulante. Eu tenho amigos das mais diversas profissões, outros jornalistas como é a Hebe, tenho amigos advogados, profissionais de várias áreas e me dou bem, me dou bem. Acho que as pessoas devem rezar pela ideia de que tudo que é humano é de nossa alçada, e que não devemos misturar profissão com interesses, a profissão nossa deve ser interessante, mas não deve ser o único objetivo. Eu lamento quando vejo colegas meus, ou outras pessoas, se dedicarem de corpo e alma somente a profissão, acho que isso é uma fuga, acho que ele só pode ser um ótimo profissional, ter outros interesses, outros hobbies, produções mesmo sem perder o fulcro da vida que é a profissão. Busco isso e busco amigos que são assim, amigos que são bons profissionais, podem-se considerar vitoriosos, mas não são enormemente ambiciosos para só pensar nisso, produzem outras coisas, inclusive uma boa conversa que é o que mais aprecio, ou quase o que mais aprecio.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de dizer que não foi dito?

 

R – Não. Queria dizer que estou muito satisfeito. Meu agradecimento aqui à organização é sincero, não é um agradecimento formal. Estou muito satisfeito, o que objetivava consegui quando me candidatei a esse relato. Consegui. Acho que a equipe muito boa, muito adequado. Até instigante! Só espero que tenha também satisfeito vocês, como vocês me satisfizeram.

 

P/1 – Sem dúvida.

 

R – E agradecer mesmo.

 

P/1 – A gente que agradece ao senhor viu? Muito obrigado.

 

FIM DA ENTREVISTA.

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