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História

Um homem da terra e do mar

História de: Getúlio da Cruz Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2013

Sinopse

Getúlio conta um pouco da sua infância, das brincadeiras e dificuldades enfrentadas quando criança. Fala sobre seus avós e das dificuldades de convivência com o seu padrasto. Fala-nos sobre quando morou na casa de uma professora para estudar e da volta para a casa de sua mãe. Nos conta quem o ensinou a pescar e como foi a sua primeira pesca em alto-mar. Narra os perigos e aventuras em alto-mar. Compartilha a experiência obtida ao longo dos seus 40 anos de pesca.

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História completa

P/1 – Então, senhor Getúlio, primeiro pra começar, pra gente registrar, eu vou pedir para o senhor falar seu nome de novo, seu nome completo.

 

R – Getúlio da Cruz Ferreira.

 

P/1 – Legal. E o lugar onde você nasceu, qual o local do seu nascimento?

 

R – Sapucaia.

 

P/1 – Sapucaia. A data de nascimento você já me falou, mas fale mais uma vez.

 

R – Dia 13 de março.

 

P/1 – Legal. Senhor Getúlio, o senhor conheceu seus avós?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Conheceu todos os... Tanto por parte de mãe, quanto...

 

R – Só pela parte da minha mãe.

 

P/1 – E o que você se lembra desses avós? Como eles eram? Você tem alguma lembrança deles?

 

R – Como assim você quer?

 

P/1 – O que eles faziam? Por exemplo, seu avô era pescador, seu avô era...

 

R – Ah, meu avô, quando eu cheguei a conhecê-lo, já o conheci bem velhinho.

 

P/1 – Entendi.

 

R – No caso ele teve até logo assim, recente, que eu acabei de conhecê-lo, ele teve um princípio de derrame.

 

P/1 – Aí ele já tava bem velhinho.

 

R – Ficou um tempo defeituoso. E a minha avó no mesmo motivo dele, velhinha quando eu cheguei a conhecer, pegar um entendimento, passei a me entender, foi na época que eu a conheci, ela já era bem velhinha também.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Logo com pouco tempo ela faleceu também.

 

P/1 – E o senhor falou que nasceu lá em Sapucaia, o que você se lembra da cidade na época que você nasceu? Como era?

 

R – Ah, não tem como lembrar, não.

 

P/1 – Você ficou pouco tempo lá?

 

R – Fiquei pouco tempo. 

 

P/1 – De Sapucaia, você foi pra onde?

 

R – De Sapucaia, viemos embora pra Guarixima.

 

P/1 – Guarixima você já tem mais lembrança? Você já lembra?

 

R – Aí já tenho mais lembrança. Eu não cheguei... Guarixima até teve na época que eu não tinha gente da minha família que me dava apoio assim, procurava um estudo pra mim, nem nada, aí eu fui morar já na casa de outra pessoa. Deixei minha mãe, e a moça era uma professora, cismou de me chamar pra eu viver com ela, pra ela me dar o que eu merecia, um estudo. Aí eu fui viver com ela, morar com ela. É como se ela me apanhasse pra criar, pra acabar de criar. Fiquei um bocado de tempo morando com ela, depois de uns quatro ou cinco anos, aí aconteceu um imprevisto com ela também, ela faleceu. Um problema que deu no estômago dela, ela faleceu. Aí eu vim embora pra casa da minha mãe aqui, que a minha mãe já tava morando aqui.

 

P/1 – Aqui em Barra.

 

R – É. E foi na época que eu vim pra cá, com dez anos de idade. E aos dez anos vim, bati aqui e fiquei. Daqui por ali mesmo eu fui me virando. Não fiquei definitivo morando com a minha mãe, morava na casa de uma pessoa, na casa de outra. Com dez anos de idade mesmo eu já caía no mangue pra poder pegar um caranguejinho pra vender pra arrumar alguma coisinha pra dentro de casa, comprar alguma coisinha pra dentro de casa. Foi o começo da minha vida, foi assim.

 

P/1 – E você falou dessa professora, o que você se lembra dela? Que pegou você pra criar dos cinco aos dez anos. Como ela era? Como você a conheceu? Era professora sua mesmo na escola?

 

R – Não, ela era conhecida da gente mesmo.

 

P/1 – Era conhecida.

 

R – Conhecida. Ela gostava, era muito amiga da minha mãe, aí quando minha mãe falou que vinha embora pra Barra, ela, na brincadeira, falou assim: “Olha, o Getúlio vai ficar com a gente. A senhora não vai levar Getúlio, não. Ele vai ficar comigo, eu vou apanhar ele pra morar conosco”. Aí minha respondeu: “Ah, depende dele”. Ela foi, na hora que ajeitou as coisas pra vir, minha mãe me perguntou: “Você vai fazer o quê, Getúlio?”. Eu falei assim: “Eu vou ficar com Isa mesmo”. O nome dela era Isa. “Eu vou ficar com Isa.” Foi no momento que fiquei com ela lá, vivemos lá uns quatro ou cinco anos, aconteceu esse imprevisto com ela, foi onde eu procurei a casa da minha mãe.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Tornei pra morar com a minha mãe de novo.

 

P/1 – E desse período de infância, você se lembra de brincadeira? O que vocês brincavam de moleque? O que faziam?

 

R – Ah, jogava muito bola de gude.

 

P/1 – Muito bola de gude? Brincava de bola? Tinha mais alguma coisa?

 

R – A brincadeira minha era mais bola de gude. Eu nunca fui chegado à bola, não.

 

P/1 – E bola de gude tinha algum jogo especial? Tinha algum jeito de jogar? Como era?

 

R – Bola de gude a gente jogava assim, normal igual as crianças jogam, e a gente preparava umas sinuquinhas pra gente fazer as bolas de gude as bolas da sinuca.

 

P/1 – Como se fosse sinuca.

 

R – Aí a gente fazia isso aí.

 

P/1 – Legal.

 

R – Era a brincadeira da gente.

 

P/1 – Legal. E quando você chegou aqui em Barra, só sua mãe morava aqui, né? Seu pai já não morava aqui.

 

R – É. Aí minha mãe já morava com outro senhor.

P/1 – Entendi.

 

R – Quando veio embora pra cá. Já era outro senhor. Só que a gente não se caçava bem. Ele nos maltratava muito em casa. Foi num período que saí de casa, não deu certo pra gente conviver ali a família completa. Eu morava para o norte, o meu irmão já morava para o sul, aí extraviou a turma assim, todinha, a minha irmã, aí nós não continuamos. Quer dizer, separou a família por completo, deixamos de viver juntos. Por esse motivo, que o nosso padrasto, não se dava bem com a gente.

 

P/1 – Mas aí você continuou morando em Barra, só que não morava mais lá com eles?

 

R – É. Aqui em Barra mesmo.

 

P/1 – E como era isso, Getúlio? Como fazia pra se virar? Você foi morar na casa de algum outro conhecido? Como era?

 

R – É. Eu morava na casa de outros conhecidos. Quando eu comecei em pescaria de mar, aí o cara foi e falou assim: “Getúlio, vamos...”. Eu falei: “Rapaz, eu tava querendo pescar”. Ele foi e falou assim: “Vamos comigo, eu vou te dar meia parte”. Fui ganhando meia parte com ele. Ganhava meia parte, chegava quando a gente acertava a conta, eu pegava meu trocadinho, pagava uma porcentagem à mãe dele. Uma pensãozinha, né? Via quanto ela queria, ela me cobrava e eu dava aquele tanto. Todo final de semana eu dava aquele total a ela ali pra poder...

 

P/1 – Então foi ele que te ensinou a pescar?

 

R – Ele que me ensinou.

 

P/1 – E quem era ele? Como você conheceu?

 

R – Esse aí era um rapaz chamado Jorge Pissé. A turma o chama de Jorge Pissé. 

P/1 – Entendi.

 

R – Foi um rapaz... Hoje ele não trabalha mais, ele vive mais botando uma redinha no rio, pondo um bagrezinho pra vender. Ele não enfrenta lá fora mais, não.

 

P/1 – A primeira vez que você foi pescar já foi no mar, já começou pelo mar?

 

R – Já comecei pelo mar.

 

P/1 – E como foi? Você se lembra da primeira vez, Getúlio? Como foi primeira vez?

 

R – A minha primeira pescaria não foi com o Jorge Pissé. Foi com o irmão dele, um mais velho que ele, um tal de João Cabeludo. Eu fui no camarão. Rapaz, passei mal, enjoei pra caramba. Quando vou entrando na boca da barra, me jogaram um balde de água, foi onde me espantei, que eu tava dormindo, enjoado. Foi onde me espantei, quando fui ver, já tava por dentro da boca da barra já, a gente já tava dentro do rio, já tinha vindo embora. E a segunda vez foi com esse rapaz, foi pescaria de caída. Cação, esses peixes poleiros, pescaria de caída. E a gente ficava a noite todinha lá, saía às duas horas da tarde de casa, viajava até seis horas da tarde, chegava lá para o lado de umas quatro horas de viagem, a gente largava a rede. Largava a rede e ficava de rola a tombo d’água, pra onde a água puxasse a gente tava indo. A corda da rede amarrada no barco, aí onde a gente amanhecia o dia, a gente metia a mão na rede e vinha pra terra. A gente pegava era cação. Naquela época dava muita fartura de cação. Era trancado de 800 quilos de cação numa noite só, 1 mil quilos.

 

P/1 – Essa pescaria chama pescaria de caída, que você falou?

 

R – Caída.

 

P/1 – Com rede?

 

R – Pescaria de caída. É. O começo da minha pescaria foi isso aí. E logo as primeiras vezes que eu fui com ele, até na hora de puxar a rede ele me amarrava. Ele me amarrava assim no mastro, que tem um mastro no barco, aí ele me amarrava, ele passava uma corda em mim ali pra poder evitar cair na água. De repente o barco balançar e eu cair na água. Aí ele me amarrava. Ficava amarrado puxando a rede. Ele na proa e eu arrumando a rede nos cantos pra ficar o barco paradinho, certinho. E eu amarrado. Quando dava o balanço que às vezes eu ia, a corda ia e me segurava pra eu não cair, pra poder evitar cair dentro d’água.

 

P/1 – Entendi.

 

R – O meu começo de mar foi isso aí.

 

P/1 – E aí você começou a viver da pesca por que era a única alternativa? Como foi?

 

R – Pra mim, a única alternativa que tinha era isso aí. Que eu não tinha estudo. Quando a pessoa tinha um estudo, tem outra solução. Mas eu não tinha estudo, a única alternativa que tinha era enfrentar o mar mesmo, como enfrento até hoje. Eu tenho aí 40 anos de mar.

 

P/1 – Quarenta anos de mar. Você começou com essa pesca de caída e continuou sempre pescando. Eram só vocês dois que iam sempre no barco?

 

R – Em um barco só, éramos só nós dois, mas tinham mais barcos na época.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Era uma faixa de um... Nessa época tinha umas oito caídas aqui dentro de barco, oito barcos de caída. Hoje tem aí um ou dois, só. Mas começou pouco tempo pra cá de novo, mas levou muito mais tempo a turma sem botar a caída, trabalhar com isso aí. Muito tempo mesmo.

 

P/1 – Por que diminuiu tanto? A caída é mais difícil? Como era?

 

R – Eu não sei. A turma esfriou, acabou, os pescadores de caída saíram fora, os caras que enfrentavam, não trabalharam mais, foram botando as caídas fora, vendendo, aí acabaram com as caídas. Agora que tem dois barquinhos aí que estão começando de novo na caída.

 

P/1 – E como é? Você falou que acordava cedo e ia. Como sabe pra que lado vai? Como vocês decidiam assim, pra colocar o barco lá?

 

R – Pelo rumo?

 

P/1 – Pra onde que ia o barco.

 

R – Rapaz, isso aí a gente ia pela mente da gente mesmo. A gente marcava a posição pela serra. Quando o tempo tava limpo, a gente largava a rede pelas marcas da serra. Porque pelas marcas da serra a gente sabia onde a gente tava. A mediação mais ou menos, né? Ali em frente ao Bueno, pá, aí tinha até um tal de... Uma serra que a gente chama o Cacimbo. Aquela serra ali, quando ele ficava ali querendo um Cacimbo meio, a gente já tá querendo descer pela parte do sul, ele ficava trepadinho, tinha tipo uma pedra, aí ela andava. Quando ela ficava aqui em cima querendo descer, aí a gente já tava mais ou menos ali em frente o Bueno. Quando acabava de descer, que ele queria subir, fazer uma caidinha pra subir na parte do sul, aí a gente já tava em Atafona.

 

P/1 – Então era o movimento da serra que...

 

R – É. A gente sabia a imediação certinha que a gente tava. Tá entendendo?

 

P/1 – Entendi.

 

R – E quando caía o tempo assim...

 

P/1 – Nublado.

 

R – Nublado ou cerração, a gente navegava pelo rolo do mar. Naquela época a gente não tinha bússola, não tinha nada de GPS, não tinha nada, não. Então a gente fazia esse cálculo aí, viajava pelo rolo do mar, debaixo de cerração, debaixo de chuva, aí a esperança da gente era essa.

 

P/1 – E como era o barco, Getúlio? Que você me contou a pouco que tem um mastro, só iam duas pessoas, mas já era um barco, não era mais um caíco.

 

R – Não, um barco mesmo. Um barco a motor mesmo. O barco era do tipo desses barquinhos que a turma pesca camarão. O tipo do barco era esse aí.

 

P/1 – E o motor era a gasolina, era a diesel...

 

R – A óleo mesmo.

 

P/1 – Óleo já?

 

R – É.

 

P/1 – Legal.

 

R – É um barquinho de sete metros e meio, oito metros, era o tamanho dos barcos que a gente enfrentava fora na caída, na pescaria.

 

P/1 – E nessa época, quais eram os peixes que tinham maior quantidade? O que tinha mais?

 

R – Que tinha mais quantidade, que dava muita fartura, era a tal da peroá, nessa época.

 

P/1 – Peroá?

 

R – É. Era a peroá que mandava mesmo na...

 

P/1 – O que vocês pegavam, o que faziam? Já temperava, usava pra comer, vendia, o que faziam com esses peixes?

 

R – Não a gente vendia para os atravessadores. Tinham uns frigoríficos aí já, aí a gente vendia pra eles. Eles ali pegavam e...

 

P/1 – E distribuíam, né?

 

R – Distribuíam lá para o lado do Rio.

 

P/1 – Então já chegava da pesca e já levava direto para o frigorífico?

 

R – Já levava para o Rio. Quando era fartura, já levava para o Rio. Quando era pouquinho, negócio de 50 quilos ou 60 quilos, ele às vezes até vendia para os pescadores mesmo. Que os pescadores chegavam, às vezes compravam um, dois, aí vendia ali para o pescador mesmo. Mas quando era quantidade acima de cem pra cima, aí já era fartura de barco, era uma meia dúzia de barco trabalhando, ou mais um cadinho, aí eles juntavam e mandavam tudo para o Rio.

 

P/1 – Entendi. E aí quem definia o preço eram os atravessadores? Quem define era os...

 

R – Eram eles que tinham o preço.

 

P/1 – Tá certo. E como é um dia inteiro de pesca. Nesse caso é o que você falou, acorda muito cedo e o horário de pescar é à noite?

 

R – É.

 

P/1 – O horário que pega o peixe é à noite.

 

R – A gente saía daqui duas horas da tarde, andava quatro horas pra fora, chegava lá, lançava a rede, deixava a rede, ela ficava caçando a noite toda. Chegava de manhã, lado de umas três horas da manhã, a gente metia a mão na rede pra poder chegar a tempo ao porto, pra poder dar tempo de safar e voltar de novo.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Tá entendendo? Porque naquela época a gente não tinha urna pra trabalhar, gelo. O que tem aqui, tá mandando hoje, é a urna. Você bota a urna, bota gelo ali pra dentro, trabalha à vontade.

 

P/1 – Aí ficam vários dias.

 

R – A modo eu agora trabalho lá fora, pescaria lá de fora. Eu levo 12, 13, 14 dias. Essa viagem mesmo, levamos 14 dias no mar.

 

P/1 – Então você começou fazendo essa pescaria que ia um dia e voltava, e aí mudou, começou mudar.

 

R – É. Aí mudei. Dessa pescaria, eu passei à pescaria de camarão, dessa pescaria da caída.

 

P/1 – A pescaria de camarão é mais no raso? Qual é a diferença?

 

R – É mais no sequeiro. É na beirada da praia. Da pescaria de camarão eu já passei pra pescaria de peroá. Da pescaria de peroá, depois de muito tempo, que deu uma fracassada aí, que não tem mais fartura, quantidade de peroá mais, sumiu mesmo, ninguém sabe qual foi o motivo que aconteceu. Aí eu fui e passei a trabalhar lá fora. Tem pouco tempo que trabalho lá fora, um negócio de uns nove anos.

 

P/1 – Quando você diz “lá fora”, é alto-mar?

 

R – É lá perto das plataformas um pouco.

 

P/1 – Perto das plataformas.

 

R – É. São três horas de viagem pra lá.

 

P/1 – E quando você faz essa viagem, essa de alto-mar, como é? Vocês se organizam pra passar 15 dias, como faz?

 

R – A gente leva bastante rancho, alimento, no caso, e água tem que levar bastante, óleo a gente leva quase dois mil litros de óleo, pra poder a gente chegar lá, a pescaria estiver fraca, a gente já vai com esse sentido de levar mais dias.

 

P/1 – Entendi.

 

R – A gente não sai com nada. Vamos supor, a pescaria da gente antigamente, na época que eu comecei trabalhando lá fora...

 

P/1 – Nove anos atrás.

 

R – É. Era negócio de... Ninguém passava de seis, sete dias. Eram de sete dias pra trás.

 

P/1 – O número de dias é de acordo com “conseguiu pegar, volta”.

 

R – É. Voltava. Já vinha embora com bastante pescaria. Hoje, no caso, hoje as coisas, cada ano que passa, vão ficando mais difícil. A dificuldade é mais. O peixe vai rendendo, a quantidade de barco também, tá entendendo? A quantidade de barco vai rendendo e quanto mais quantidade de barco vai rendendo, e o tamanho deles também, que no caso, naquela época que nós começamos trabalhando, há nove anos, o maior barco que tinha aí, no caso, que frequentava lá fora, era barco de 13 metros.

 

P/1 – Dava quantas pessoas? Quantas pessoas no barco, Getúlio?

 

R – Trabalhava com seis pessoas, nós aqui, né? Agora, a turma lá pra fora, lá para o lado de Angra dos Reis, aqueles cantos lá, já é mais quantidade, que eles lá trabalham num negócio de caíco. Aí dizem que trabalhavam até 15, 20 pessoas, ou mais. E agora não, agora eles estão fazendo barco até de 20 metros. Quer dizer, quanto mais...

 

P/1 – Quanto maior, maior a capac...

 

R – Quanto maior, mais... A pescaria aqui aonde eles “coisam”, só vão catando tudo.

 

P/1 – Entendi.

 

R – E às vezes a pessoa... Tem muita gente, tem... cada um... Eu passo na posição agora, vamos supor que aqui tem uma posição de peixe, aqui nesse tijolo, aqui é um buraco, aqui é uma posição, aí eu passo ali, no caso, às vezes, vem você também, que mexe de barco também, é dono de barco, você já tem essa posição aqui também. Eu passei aqui hoje, amanhã você já tá vindo de terra pra fora, você vai passar por aqui também. Aí o que eu deixei ali pra mais tarde, ou amanhã, ou depois, eu às vezes chegar ali, apanhar mais, coisa assim, você já chega aqui e já apanha.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Quer dizer...

 

P/1 – Acaba tendo uma competição também, né?

 

R – Não é isso? Só vai diminuindo a produção. Quanto mais você tira, vai diminuindo.

 

R – E, Getúlio, o barco que você vai hoje em dia é seu barco? Como é?

 

R – No caso agora é meu e do patrão.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Eu trabalhei com ele na faixa de um... Quase 20 anos. Desde a pescaria de peroá. Tá entendendo? Quando foi agora, de uns dois anos pra cá, ele foi, teve uma pessoa que tinha feito uma proposta pra mim de me dar um barco à sociedade pra eu ir pagando na própria pescaria do barco, sem eu tirar centavo nenhum do bolso. Eu ia permanecer ganhando minhas duas partes, que no caso, mestre são duas partes e meia. Como a pessoa entra em sociedade, não são duas partes e meia, são duas partes. Aí eu ia continuar ganhando minhas duas partes livres, e a parte do barco, que no caso ele tem a parte do barco... Não, é dividido por dez: cinco partes, camarada; cinco para o barco. No caso dessas cinco do barco, eu tenho duas e meia.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Duas e meia minhas, duas e meia do patrão, que no caso ele me deu sociedade. Essas duas e meia minhas são que eu já vou abatendo no barco, na parte do barco que ele me vendeu.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí no caso agora, graças a Deus, eu sou sócio, tenho a parte do barco agora.

 

P/1 – E hoje em dia já quitou a sua dívida?

 

R – Não quitei, não. Mas com negócio de uma ou duas viagens aí eu acabo de quitar. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – Na época eu dei 45 mil.

 

P/1 – Esse barco vocês vão em quantas pessoas?

 

R – O barco foi valorizado em 90 mil. Eu dei 45 na parte.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Ele cobrou 45 pra eu ir pagando assim a ele, em pescaria.

 

P/1 – Entendi. E são quantas pessoas, Getúlio? Nesse barco, quando vocês vão pescar, vocês vão em quantos?

 

R – São cinco.

 

P/1 – São cinco.

 

R – Eu e mais quatro.

 

P/1 – E aí cada um tem uma função? Como é? Cada um faz uma coisa dentro do barco?

 

R – No caso, dependendo, às vezes tem dias que todos fazem uma coisa só. Certo?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Já tem dia que cada um faz uma coisa. Às vezes dá um problema no espinhel, dá um bolo, a gente tem que “coisar”, aí um já vai preparar estorvo, preparar os estorvos pra botar de novo no espinhel, outro já vai desembolando. Então cada um faz uma coisa. Agora, quando não é pescaria de espinhel, tudo é uma coisa só. Pescaria de… no caso, de linha, aí é tudo aquilo ali que tem que fazer.

 

P/1 – A pescaria de linha pega um peixe de cada vez? Como é a pescaria de linha?

 

R – Não, a pescaria de linha é o seguinte, têm vários tipos. Pescaria de linha, têm dois tipos de pescaria de linha: tem a pescaria de olho de cão, que você bota 20 anzóis, aí no caso quando chega à posição que larga o aparelho se o peixe estiver comendo, aí vem tudo cheio, aquela pargueira ali bem... Às vezes...

 

P/1 – Ah, sobem os 20 às vezes?

 

R – Às vezes se falhar ali é negócio de dois, três anzóis, o resto vem tudo com peixe. E tem pescaria de dois anzóis, é pescaria de olho de boi, esses peixes grandes que a gente apanha com a tal da lula. Você ali de repente você puxa dois peixes, mas às vezes puxa um só também. Tá entendendo? É a pescaria que traz mais peixe é essa pescaria olho de cão que eu tô falando.

 

P/1 - Entendi.

 

R – Que a gente coloca 20, 20 e poucos anzóis.

 

P/1 – Entendi. Getúlio, qual é a pescaria que você mais gosta o jeito de pescar? Você já pescou camarão, você já me falou que teve uma mais artesanal, essa aqui é maior.

 

R – Rapaz, a pescaria que eu mais gostei foi a pescaria de peroá.

 

P/1 – Peroá? Como é a de peroá? Porque a gente acabou nem falando dela ainda.

 

R – De peroá a gente ia na linha também. A gente trabalhava com 30, 50 anzóis. 

 

P/1 – É uma linha só e vão vindo vários anzóis.

 

R – Uma linha só. É. Aí faz a pargueirinha, a pargueirinha aqui fica pequena. A pargueirinha de 50 anzóis é mais ou menos daqui naquela paredinha ali da porta.

 

P/1 – Entendi.

 

R – A gente botava um pauzinho assim no “coiso”, pra poder dar a altura, espichar,e dobrava assim. Aí trabalhava com ela e às vezes até em pé.

 

P/1 - Entendi.

 

R – E quando dava certinho, encontrava bastante peroá, naquela época era muita fartura.

 

P/1 – Peroá dava muito?

 

R – Muita coisa. A gente botava a pargueira, não trazia menos de 20 peroás pra cima, não. Uma pargueira aí de 40, 50 anzóis, trazia 30 e pouco, 40 peroás.

 

P/1 – Caramba!

 

P/1 – Uma pescaria boa dava quanto? Qual a quantidade?

 

R – E era uma pescaria rápida. Olha, rapaz, uma pescaria boa é o seguinte, variava muito no preço, porque...

 

P/1 – Mas digo, eram cem quilos, era... Não tenho ideia.

 

R – De quê? De quantidade?

 

P/1 – É.

 

R – Não, trazia mais. Duzentos quilos, 300, cada linha.

 

P/1 – Entendi. Cada linha?

 

R – Cada linha.

 

P/1 – Nossa Senhora! O barco trazia então tonelada.

 

R – O barco trazia ali mil, mil e poucos quilos de peroás.

 

P/1 - Entendi.

 

R – Quatro pessoas.

 

P/1 - Entendi. E você sempre pescou em barco então, né? Nunca foi de...

 

R – Nunca trabalhei de caíco, não.

 

P/1 – Entendi. Numa semana normalmente você sai quantas vezes pra pescar, Getúlio?

 

R – Hã?

 

P/1 – Agora você sai por mês, né? Porque você fica 15 dias em média.

 

R – É.

 

P/1 – É uma vez...

 

R – Em casa o certo mesmo é de 12 dias pra frente. É raro trabalhar menos.

 

P/1 – Entendi.

 

P/1 – Então normalmente você vai, fica 12 dias, volta, e aí espera quanto tempo pra voltar?

 

R – A gente chega aqui, leva aí uns quatro dias, ou dependendo o movimento do barco… Eu tive um probleminha, se eu não tivesse com problema, nós já estávamos no mar.

 

P/1 – Você já tava no mar. Entendi.

 

R – Por causa da semana santa. A semana santa é o finalzinho do preço do peixe do verão.

 

P/1 – Entendi. Então o preço tá caindo agora?

 

R – É. O preço do peixe, terminou a semana santa, vai lá embaixo. Aí entra o verão, quando começa entrar na safra do dourado, aí o preço do peixe sobe. Aí você passa o verão todinho. Início da primavera até verão e tudo pegando um precinho mais ou menos. Depois termina a semana santa, o peixe vai lá embaixo.

 

P/1 – Inverno e outono o preço é...

 

R – A turma aproveita essa hora. Até a paixão agora. Depois da paixão já sabe que...

 

P/1 – Passou lá 31 de março, começa...

 

R – Esfria. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí tem que matar mais quantidade pra ganhar pouco.

 

P/1 – Entendi. Deixe-me perguntar uma coisa. E aí quem compra ainda esses peixes? Hoje em dia quem compra esses peixes? Como você faz?

 

R – Hoje esse peixe aí a gente manda pra um cara lá no Rio.

 

P/1 – O bacalhau?

 

R – É o bacalhau. Ele tem o caminhão dele.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Tem o caminhão dele aqui, tem em Gargaú, tem em Atafona, tem lá em Macaé. Ele tem caminhão em vários lugares aí.

 

P/1 – Quase todos os pescadores que fazem essa pescaria de alto-mar trabalham com ele?

 

R – A maior parte trabalha com ele.

 

P/1 – Porque se ele tem o caminhão, como é?

 

R – Fora gente aqui de Itaipava, que a gente não sabe.

 

P/1 – Entendi.

 

R – A turma de Itaipava aqui para o norte aqui a gente não tá sabendo, não. Mas nós estamos achando que... Eu acho que ele tá querendo entrar em Itaipava também, aí para o norte.

 

P/1 – Ele é um cara que compra todos mesmo, ele compra...

 

R – Ele apanha o peixe, chega lá, vende e tira a comissão dele.

 

P/1 – E é ele que define o valor? Como é?

 

R – Ele tira a comissão dele lá, mas ele nunca paga o certo a gente, não. Se ele vender um peixe bem vendido... Eu tô falando porque já teve companheiro nosso pescador que já foi acompanhar...

 

P/1 – O processo todo.

 

R – O processo. Aí chegou lá, o cara foi vendendo o peixe, vendendo, vendendo, e ele vendo o preço que foi vendendo o peixe, pá, quando chegou no último preço que o cara vendeu, o preço mais baixo foi o preço que ele deu no peixe do cara, pra pagar o peixe todinho. Quer dizer, aqueles preços melhores, ele tirou aquele preço melhor, negócio de dois reais, ou um real e pouco, tirou pra ele e, além disso, tirou a comissão e tira negócio de... Tem balanceiro, tem carretim, tem acostamento, tem não sei o quê, tabuleiro, aí ele vai e tira tudo. Aí de um barco fica um bom dinheiro pra ele.

 

P/1 – Vocês recebem o dinheiro na hora que vocês entregam o peixe ou recebem depois?

 

R – Rapaz, antigamente, há uns cinco anos, nós mandávamos o peixe, o peixe ia hoje, amanhã o caminhão vinha embora, chegava aí negócio de umas nove, dez horas da manhã. O dinheiro vinha, dinheiro quente. Quer dizer, houve uma vez aí um negócio de um roubo aí, que até hoje ninguém ficou...

 

P/1 – Não sabe o que aconteceu, né?

 

R – Não sabe o que aconteceu, que daí pra cá ele parou de mandar dinheiro pra nós. Dividiu, mandava mais ou menos a metade e a metade mandava em cheque. Dessa metade mandar em cheque e metade mandar em “coiso”, daí agora ele não manda nenhum centavo em dinheiro pra gente mais, não. Manda tudo em cheque.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Só que esse cheque, ele manda um, dois cheques do dia assim, um cheque pra vencer amanhã e outro pra vencer daqui a três dias. E os outros ele pisa no sujeito, fica negócio de dez ou 12 dias pra vencer ainda os outros cheques, os cheques mais prolongados. Tá entendendo?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Mas mesmo ele fazendo isso, é dos melhores pregoeiros que tem no Rio, é ele.

 

P/1 – Que dá o melhor valor aqui.

 

R – Sabe por quê? Porque ele… Sabe o dourado? Você vende dourado pra qualquer um comprador. Você pode tocar pra Cabo Frio, Macaé, que não encalha, se ligar pra eles lá, eles vêm até apanhar o peixe da gente aqui, a turma de Cabo Frio e Macaé, e paga dinheiro vivo, e não tem nada de comissão nem nada. Mas chega uma época de peixe de fundo, pescaria de olho de cão, às vezes dá bamburra, dá bastante, não encontra pregoeiro nenhum pra segurar a bamburra que ele segura. Que ele dá os pulos dele.

 

P/1 – Entendi. Então ele segura o ano inteiro.

 

R – Ele segura é direto. E ele não tem esse negócio, não. Ele não se enrola, não. Pode mandar barco de cinco toneladas cada barco de olho de cão. Cada barco. Podem chegar aí 15 barcos, um atrás do outro, 15, 20 barcos, um atrás do outro, um chega hoje, amanhã chegam cinco, depois chegam mais três ou quatro, pode mandar tudo, ele dá jeito. E o peixe dele não encalha, não. Que seja preço bom, que seja preço ruim, mas ele dá conta dele. O problema é que o peixe não empaca.

 

P/1 – Getúlio, e pra comprar gelo, comprar óleo, pra comprar todas as coisas que vocês precisam?

 

R – É aqui mesmo.

 

P/1 – É no frigo...

 

R – Tem o frigorífico aí de Carlinho, ali o tal de Carlinho Aratú, aí a gente compra o gelo. E tem Zé Augusto lá em cima também. Realmente lá em Zé Augusto, essa fábrica de gelo lá é até de bacalhau.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí eles fornecem gelo lá para o Zé Augusto. Eu também, quando não tem gelo aqui, que falta no Carlinho, eu carrego lá. O rapaz me deu crédito pra eu chegar lá e carregar a hora que eu quiser, o Zé Augusto. Ele é muito legal também comigo. Quando... Eu não fico sem trabalhar, por falta de carrego no barco eu não fico, não, porque eu carrego aqui e carrego lá embaixo.

 

P/1 – Entendi. E você já me falou um pouco nesse período, por exemplo, nesses nove anos o que mudou? Você já me falou que agora precisa ficar mais tempo, porque diminuiu a quantidade de peixe.

 

R – É.

 

P/1 – Que mais você acha que mudou ao longo desse tempo aí?

 

R – Rapaz, o que eu acho que mudou foi realmente o negócio de pescaria mesmo. Camarão, na época que pescava camarão a fartura era dobrada, logo assim que eu comecei. Hoje, pra poder ir ali apanhar 30, 40 quilos de camarão, o sujeito tem que melar bastante pra poder apanhar, senão não apanha, não. Antigamente a gente dava um lanço, um lancinho de 50 minutos, apanhava 20, 30 quilos de camarão, 50 quilos. Hoje tem que rodar o dia todo, quase, pra apanhar negócio de 40, 50 quilos de camarão, e rede boa.

 

P/1 – Entendi.

 

R – E com duas redes ainda. Hoje, no caso, tem que arrastar com duas redes. Antigamente, logo assim que eu comecei, a gente arrastava com uma rede só, rapaz. Você dava lanço e 50 quilos de camarão. Um lanço com uma hora de arrasto você apanhava 50 quilos de camarão. Hoje tem que botar duas redes e trabalhar bonito pra poder tirar um camarão desses, senão não tira, não.

 

P/1 – [risos].

 

R – Há várias coisas. Só vai...

 

P/1 – Ficando mais difícil.

 

R – Só vai ficando mais difícil.

 

P/1 – Você falou dessa coisa de as plataformas que hoje em dia eles chegam quase até as plataformas de petróleo, né? Você percebe que lá perto das plataformas é mais difícil? Você acha que as plataformas tem algum impacto também?

 

R – Algum o quê?

 

P/1 – Algum problema? Elas dificultam? É mais difícil pegar peixe lá perto das plataformas?

 

R – Não. Tem vez que é onde a gente se safa. Melhor é perto delas. Porque às vezes as águas estão corridas, não tem como a gente trabalhar de fundo, às vezes não tem isca pra trabalhar, chega uma época aí que... Olha, nós vamos pra época agora, que não é época de dourado. O dourado tá acabando. Chega uma época que a gente pega uma maré corrida, às vezes, cara, o sujeito, mesmo a gente não querendo, nem podendo, que é proibido trabalhar em beirada de plataforma.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Mas às vezes a gente vai lá escondido.

 

P/1 – É a alternativa, né?

 

R – A alternativa que tem é a gente fazer isso, pra poder não vir pra terra… Porque a despesa da gente, que a gente sai pra fora aí, é negócio de seis, sete mil reais. Se a gente botar duas despesas dessas e vir com uma despesa dessa pra terra, não tiver como pagar e fazer outra despesa, o bicho já fica meio… Pra gente. Porque como a gente vai pagar duas despesas de vez?

 

P/1 – Entendi.

 

R – E vamos ganhar o quê? E a família da gente vai comer o quê? Aí fica difícil. A alternativa que tem é a gente se aproximar dela mesmo pra ver se a gente arruma alguma coisinha, pelo menos à noite. Mesmo que a gente de dia não fique, mas à noite, a gente trabalha durante a noite, quando for dia querendo clarear ou...

 

P/1 – Aí sai.

 

R – A gente vai e sai fora.

 

P/1 – Vocês também comem muito peixe? Por exemplo, do que vocês pescam, vocês também se alimentam desse peixe?

 

R – A gente come.

 

P/1 – Peixe também é uma moeda de troca? Por exemplo, dá pra trocar por farinha, dá pra trocar outras.... Com o mercado?

 

R – Não. Lá?

 

P/1 – Não, por aqui, aqui em Barra.

 

R – Não, isso é difícil.

 

P/1 – Bem difícil. Hoje em dia já é muito difícil isso, né? Você vende o peixe, pega o dinheiro...

 

R – A gente vende mesmo.

 

P/1 – Tá certo. E me fala uma coisa, Getúlio, a história lá no mar, tem alguma história engraçada, ou ocorreu algum perigo, alguma coisa, histórias no mar aí, no barco?

 

R – Olha, rapaz, perigo que já aconteceu comigo, o seguinte, o aperto que eu passei no mar, eu já passei um aperto assim, um dia navegando pra terra tava vindo um navio de pesquisa, sendo que na hora que eu tava navegando pra terra, a posição que ele ia passar, ele ia passar por fora de mim. Eu tava navegando assim, ele vinha assim. Ele ia passar por fora da gente, pela popa da embarcação. Aí, rapaz, eu não sei o que aconteceu, o que deu nele, que eu permaneci no meu rumo vindo embora pra terra, nós estávamos até viajando nesse dia. Tava um sudoestinho calmeirinho, um sudoestinho devagarzinho, bem calmeirinho, aí, rapaz, naquele dia foi até bom eu estar no leme, porque se fosse o camarada meu, eu acho que naquele dia todo mundo morria. Rapaz, tô vendo que formou aquela leseira, parece “coiso” que fez um embate, deu um embate de um jeito, aí eu desconfiado falei: “Gente, cabrão, que leseira é essa aí? Não tá ventando?”. Eu fui e olhei. Eu fui, cismei e abri a portinha desse lado aqui do vento mesmo, que eu tava navegando assim, o vento era sudoeste, aí abri essa portinha aqui, primeiro antes eu olhei pela popa assim, que a casinha do meu barco tem um corredor, os beliches é o comprido. Aí tem um corredor, da roda de leme mesmo na casa do comando, a gente olha pra trás, vê lá atrás o que tá passando pela popa do barco. Eu olhei, não vi o navio. Olhei para o lado assim, na portinha que tava aberta do lado de cá, olhei: “Cadê esse navio, gente?”. Eu desconfiei pela leseira que deu no mar, eu fui e abri a outra portinha. Rapaz, quando eu abri a outra portinha, foi Deus que me incentivou, cara. Quando eu abri a portinha assim, que eu olhei, rapaz, o navio já vinha...

 

P/1 – Em cima.

 

R – Em cima. Só deu tempo pra eu acelerar mais o bote e fazer assim. A popa quase que roça do lado do navio ainda. Quase que... Por uma coisinha que o navio não tora nós. Gente assim em cima do convés do navio tudo olhando pra nós. Brincadeira.

 

P/1 – E é normal acontecer de navio... O navio maior não respeita? Como é?

 

R – Rapaz, eles às vezes não tiram, não. Eles às vezes, se quiser, o sujeito que é pequeno que tem que sair. Um barquinho na beira de um navio vira uma caixa de fósforo. É o mesmo se eu jogar um palito de fósforo aqui.

 

P/1 – [risos]

 

R – É. Um palito de fósforo aqui na beirada desse tijolo aqui. Olha a diferença que vai ficar isso aqui para o tijolo. É a mesma coisa. O navio, se ele passa perto do sujeito, o sujeito pra olhar pra ele, tem que olhar assim. Aí a gente fica lá embaixo. Então o pensamento deles, eu acho que é isso, se a gente quiser, a gente tem que sair .

 

P/1 – Que loucura.

 

R – Se a gente não estiver vendo-o, hum. Mas no caso, quem errou foi ele.

 

P/1 – Entendi. Porque ele mudou o trajeto.

 

R – Porque ele mudou a navegação dele.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Tá entendendo? Quer dizer, se eu fosse um cara que tivesse até cochilando no leme, já era. Ia todo mundo, ninguém sabia até hoje pra onde nós estávamos, não. Tinha desaparecido todo mundo.

 

P/1 – Que loucura.

 

R – E outro aperto que eu passei foi o seguinte, nós estávamos largando o espinhel, nós largamos o espinhel, aí nós temos a bomba de porão que a gente usa, que mantém o barco sequinho. Aí naquele momento, a gente tem a bomba de porão e tem a bomba elétrica, que quando o barco enche de água, ela puxa a água, é automático. Na hora que eu comecei a largar o espinhel, eu olhei lá pra baixo, tava sequinho o barco, não tinha água nenhuma. Aí começamos largando o espinhel, largando, largando, largando. O automático não amarra, nem nada, não acendia luzinha, nem nada, tô largando o espinhel. Esse dia deu tudo errado, tudo falhou. Parece que tinha que acontecer alguma coisa com a gente naquele dia. A luzinha tudo certinha, fica de frente assim pra mim, o governo no barco fica de frente, tô olhando, ele tá tudo certinho, apagado. Rapaz, quando nós terminamos de largar o espinhel, quando a gente termina de largar o espinhel, eu sempre desço pra poder tirar a correia da bomba que toca a tina, pra poder manter a isca dentro da tina, a isca viva. Aí terminou, acabou a isca, eu entrei lá embaixo, abri pra entrar lá embaixo. Rapaz, quando eu vou abrir a porta, que eu olho para o barco, meu Deus do céu, me apavorei, o barco tava quase no fundo. Aí, rapaz, entrei lá pra baixo, meu Deus do céu, comecei chamando os meninos: “Gente, vem cá, me ajude aqui que nós estamos indo para o fundo”. Quando eu falei para o menino que nós estávamos indo para o fundo, o camarada não acreditou: “Você tá ficando doido?” “Vem cá, rapaz, é sério, conversa séria, rapaz”.

 

P/1 – Cheio de água o barco.

 

R – Chapado de água, já tava tapando o motor. Aí fui um cara também que não sou apavorado, entrei lá pra baixo, quando entrei lá embaixo pra ver a bomba de porão, o que aconteceu, a água já tava por aqui em mim. Na hora que eu entrei, que abaixei assim pra coisa assim, a água invadiu, eu só fiquei com a cabecinha de fora mesmo. Com muita paciência fui procurando daqui, dali, levei a mão na bomba de porão, a bomba de porão puxando água. Procurei no mangote detrás lá da tina, tudo certinho. Aí foi que eu fui do outro lado, no outro mangote, eu falei: “Tem aquele mangote ali pra eu corrigir”. Foi que eu fui corrigir o outro mangote, cheguei lá o mangote tinha soltado…, Tava botando tudo no fundo, a braçadeira pocou. A pressão da água, a braçadeira já cansada, aí não aguentou, pocou-a, o mangote foi. O mangote foi e saiu. Um mangote dessa grossura aqui, a bomba de porão não tem como dar conta, não. Porque a bomba de porão é de uma.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Essa de duas e meia, a bomba de porão não dá conta.

 

P/1 – E aí como fez? Tapou o buraco?

 

R – Aí coloquei no lugar.

 

P/1 – E começou a esvaziar?

 

R – E começamos esvaziando de balde. Esvaziando de balde, a bomba elétrica tinha estourado o fio, foi onde o automático...

 

P/1 – Não ligou a luz.

 

R – Não ligou. Estourou o fio, aí eu entrei ali debaixo da água, no maior sufoco ali, debaixo d’água, consegui pegar o fio, colocar no lugar, botei no lugar, voltou a funcionar, e meti o chicote no motor. Aí foi indo, foi indo, bomba de porão e a bomba elétrica secando, e nós de balde também. Com muita dificuldade, graças a Deus conseguimos botar o barco normal.

 

P/1 – Salvar.

 

R – Foram os dois apertos que eu passei. Foram esses aí.

 

P/1 – Olha só. E, Getúlio, deixe-me te perguntar outra coisa aqui em terra já. Como é a relação com os outros pescadores? Tem cooperativa, associação? Como é? Tem alguma organização aqui dos pescadores?

 

R – Não. Não. Não tem, não.

 

P/1 – Em geral um pescador ajuda o outro? Fala assim: “Pô, lá tá melhor”, não? Como é?

 

R – É, rapaz, pescador, pra falar a verdade a você, eu acho que a classe de pescador tinha que ter mais união do que tem. Porque cada um pensa de uma maneira. Eu, se realmente os pescadores pensassem igualmente a mim e mais uns dois que tem aí, parceiros que tem aí, eu acho que os pescadores teriam uma união muito grande, eles seriam muito unidos. Mas é totalmente diferente, porque a maior parte deles, só querem pra eles. Tem pescador aí que são tão desunidos com o sujeito, que se eles pudessem ver o sujeito chegar ao porto toda viagem em apuro, pra eles era um prazer. Porque se eles estiverem na posição, tiverem achando peixe, às vezes o sujeito passa perto deles, tá vendo que o sujeito tá andando em vão sem achar nada, e eles ficam quietos. Aconteceu um lance com um parceiro da gente mesmo, que o cara pertinho de outro pescador, o cara tinha uma ave, parece, um boiado, e tinha bastante peixe nesse lugar, dourado, dourado com palombeta. O cara acabou de fazer a carga dele ali, rapaz, lacrou o porão do barco dele, e outro parceiro, colega da gente, pertinho dele, o cara não teve coragem de chamar ele  pra ir pra lá, que tinha peixe com fartura, pra ele fazer a pescaria dele. Deixou o cara vir embora batendo caixa, mas não chamou o rapaz. Então eu acho que é falta de união.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Porque eles veem o que eles passam lá fora. O que um passa, todos eles passam. E é um serviço arriscado. O movimento da pescaria é o seguinte, a gente sabe que a gente sai de casa pra ir para o mar, mas a volta dele a gente não sabe, só Deus. Só aquele lá de cima que sabe se a gente vai voltar ou não. Porque a gente sai pra trabalhar, a gente não sabe se realmente vai voltar. É isso aí que acontece. Então eu acho que a classe de pescadores tinha que ter mais um pouco de união.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Mas realmente é totalmente diferente.

 

P/1 – E hoje dá pra viver da pesca, Getúlio? Só da pesca?

 

R – Dá. Dá pra ir equilibrando.

 

P/1 – Você faz alguma outra atividade pra complementar ou só pesca mesmo?

 

R – Só pesca.

 

P/1 – Legal. E você já ensinou alguém a pescar, Getúlio? Já ensinou mais gente?

 

R – Já. Já dei um treino já...

 

P/1 – É mais difícil ensinar ou aprender?

 

R – Já dei um treino já ao meu filho, tá pescando comigo, ele trabalha até comigo. Mas a vontade dele é embarcar. Ele tem vontade de embarcar. Já embarcou esses tempos atrás aí, mas não deu certo pra ele.

 

P/1 – Quantos anos ele tem?

 

R – Parece que o contrato lá da firma foi cancelado e foi um bocado de funcionário mandado embora. Lá do navio da Polvo.

 

P/1 – Ah, ele gosta de trabalhar embarcado?

 

R – É, embarcado. Ele gosta de trabalhar embarcado.

 

P/1 – Mas pescando?

 

R – Hã?

 

P/1 – Pescando? Aí ele faz o quê?

 

R – Não, trabalhando em negócio...

 

P/1 – Plataforma de petróleo?

 

R – Plataforma de navio, essas coisas. Aí ele trabalhou uns tempos lá, aí parece que o contrato lá foi cancelado, deu um problema lá que cancelou o contrato e foi um bocado de funcionário mandado embora. E nessa foi na turma que ele tava, foi mandado embora também.

 

P/1 – Getúlio, então o senhor tava falando que seu filho acabou ficando desempregado aí. Você tava me contando agora, pode contar história de onde estava.

 

R – Isso. Aí ele tá tentando ver se ele junta mais um trocado pra poder ele fazer um curso, pra poder ele ver se consegue embarcar de novo.

 

P/1 – E em geral, você acha que os jovens se interessam pela pesca aqui na comunidade?

 

R – Alguns. Alguns, mas força é esse negócio, embarque. Estão querendo mais embarque mesmo.

 

P/1 – Eles querem mais trabalhar em outras coisas.

 

R – E realmente eles não estão errados, não. Que pescaria o sujeito sofre muito. Sofre muito mesmo. Tem vez lá que o sujeito trabalha dia e noite, virando direto. Às vezes você tem descanso negócio de uma hora e meia, só, ou uma hora. Tá entendendo? É o sono, o cochilo que a gente tira, durante noite e dia trabalhando. Quer dizer, é muita noite de sono perdida. E o sono que você perde, você não recupera nunca na sua vida. Quando a gente vem embora, a gente vem zonzo de tanto sono. Tem vez que a gente senta à mesa, a mulher prepara o rango, bota na mesa, quantas vezes eu sentado à mesa, eu cochilando com o garfo na mão, a minha esposa: “Não vai comer, não?”. Eu me espantava. O cansaço é bravo, machuca a pessoa.

 

P/1 – Quando passam os 15 dias lá, os 12 dias, que seja, passam os 12 dias trabalhando, não tem...

 

R – São 12... Aí é contado, praticamente contado. São 24 dias, porque você trabalha dia e noite. Se você descansar ali, é uma noite só. A maior parte é tudo rodado, é dia e noite trabalhando. A pescaria de dourado então arrebenta a pessoa, porque você vira a noite todinha. Olha, você larga o material de manhã cedo, acaba de sair de manhã cedo, entra a noite embarcando o espinhel, terminou de puxar o espinhel, você já engata pra posição de cavalinho, apanhar isca pra iscar. Às vezes tem dia que você amanhece o dia apanhando cavalinho. O cavalinho aparece mais tarde, você tem... Precisa dela, tem que roletar, senão não tem como trabalhar.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí você trabalha noite e dia ali rodado.

 

P/1 – Senhor Getúlio, na sua vida, qual foi a importância da pesca? Ou qual é a importância da pesca na vida do senhor?

 

R – A importância como, você quer dizer?

 

P/1 – Por exemplo, você fala assim: “Pô, a coisa mais importante da pesca foi me dar comida...”. Que espaço ela ocupa na sua vida? O que ela fez por você, a pesca?

 

R – O que fez por mim?

 

P/1 – Isso. No final das contas ela te ajuda a pagar as contas? O que ela ajudou para o senhor. É a principal...

 

R – O que eu achei importante pra mim é que a pesca é uma ilusão, mas é um troço mais... Sei lá, quando você consegue fazer uma pescariazinha boa, é um troço que você às vezes tem compromisso atrasado, aquilo ali te dá uma força. Você às vezes tá com duas prestações, três prestações atrasadas, você faz uma pescaria boa, dá um empurrão, você vai lá, paga a prestação e ainda fica folgado. Então eu acho que ela é ilusão e não é. É mais ilusão pra quem é estragado, porque...

 

P/1 – Quando você diz que ela é uma ilusão, o que você quer dizer? Deixe-me entender.

 

R – Hã?

 

P/1 – Quando você diz que ela é uma ilusão, o que você quer dizer?

 

R – O que ilude muito na pessoa. A vontade dela pra fazer pressão, o cara: “Quero pescar”, porque acha bonito, então ele se ilude naquilo ali. Às vezes se ilude numa pescaria que não tem quase resultado pra ele. Que tem pescaria realmente que não tem quase resultado mesmo.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Igualmente pescaria de camarão. Pescaria de camarão hoje não tem quase resultado. Essa pescaria de camarão nosso aqui. Porque é peixe para o sal, sal para o peixe. É mão pra se alimentar mesmo, porque pra ele fazer um compromisso pra ele pagar...

 

P/1 – Não consegue.

 

R – Não consegue. Porque não tem produção pra isso. Tá entendendo? A pescaria lá de fora já é diferente.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Ali você pode dar uma viagem ali de... Você pode dar uma viagem ali de ganhar, vamos supor, R$ 500 parte. Mas pode de repente dar uma viagem, pegar um preço bom, você botar 3 mil na sua mão, em uma viagem.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Em 12 dias.

 

P/1 – Só que isso aí varia muito, né?

 

R – Varia. É isso aí que eu quero dizer.

 

P/1 – Por isso a ilusão. Entendi.

 

R – Isso aí.

 

P/1 – Senhor Getúlio, me fale uma coisa, a gente falou da pesca, como é ter uma vida no mar e uma vida na terra? Porque acaba tendo duas vidas quase, né?

 

R – Hã?

 

P/1 – A família fica na terra e o trabalho fica no mar. Como é ficar tanto tempo longe da esposa, dos filhos, como administra isso?

 

R – É, rapaz, é ruim, porque a gente fica mais fora da família do que junto com a família. Porque eu realmente, se eu fosse uma pessoa que tivesse um estudo, eu não ia escolher a pescaria pra mim, eu ia escolher um serviço em terra, que eu sempre tivesse junto com a minha família. Direto. Sempre aproximar da minha família. Agora, praticamente, vamos supor em um ano se a pessoa fica pelo menos, vamos botar aí...

 

P/1 – Metade do ano.

 

R – Não fica, não.

 

P/1 – Não fica metade.

 

R – Não fica metade, não. Se ele ficar aí, são uns quatro meses junto com a família, direto, assim.

 

P/1 – Se contasse direto.

 

R – Contados os dias que ele fica. Porque a gente leva 12, 13 dias de mar, ou 14 dias, vem, chega, quando o barco tá bom, sem problema, o sujeito chega aí, o máximo que a gente passa em terra são três dias, rapaz. No quarto dia  estão saindo de novo. Aí ele leva mais 12, 14 dias.

 

P/1 – Pra voltar.

 

R – Pra voltar. Quer dizer, em um ano se ele ficar é...

 

P/1 – É muito. Entendi.

 

R – São poucos meses com a família. Ele fica mais distante da família do que junto.

 

P/1 – E deixe-me perguntar agora um pouco agora da família. Como o senhor conheceu sua esposa? Conheceu aqui na comunidade mesmo? Como foi?

 

R – Conheci aqui mesmo.

 

P/1 – E apaixonou? Amor pela primeira... Como foi? Foi num baile? Como foi? [risos].

 

R – Rapaz, foi [risos]... Foi na casa da tia dela mesmo. Não. Conhecemo-nos assim, nessa vez que eu falei que eu vim embora pra cá, lá de Guarixima, por incrível que pareça, ela e minha mãe foram lá me buscar na Guarixima.

 

P/1 – Quando você era pequenininho. 

 

R – Era. Tinha a idade de dez anos. Aí nos conhecemos, pá, de lá pra cá “coisa”, e ela ficou morando aqui mesmo, nessa área aqui mesmo ali pra dentro. Aí o tempo foi passando, pá, ninguém esperava que ia acontecer aquilo também. Ela saiu daqui, foi lá pra Itapemirim, morar na casa do irmão dela. Ela foi acabar de se formar na casa do irmão dela lá em Itapemirim. E de lá pra cá ela... Foi uma vez, ela apareceu aqui em Barra, ela já tinha já uma idade boa, aí nós começamos lembrando o passado, conversando daqui, dali, aí: “Você lembra quando você foi lá me buscar lá em Guarixima?” “Lembro. E como esqueço?”. Aí fomos conversando sobre isso aí e daí pra frente foi nascendo já. Aí passamos a gostar um do outro, namorei-a a primeira vez, depois eu namorando-a ainda vacilei com ela. Casei a primeira vez, aí depois não deu certo com a outra família, fui, separamos, acabamos voltando namorar de novo, eu e ela, e foi acabar nós... O fim nosso foi viver junto mesmo.

 

P/1 – [risos].

 

R – Hoje nós temos quatro filhos. O mais velho tem 23 anos.

 

P/1 – E como é ser pai, senhor Getúlio?

 

R – Hã?

 

P/1 – Como é ser pai?

 

R – Eu acho bom, né? Não tenho arrependimento nenhum, não.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Lembrar que meus filhos também não me dão aporrinhação, eles são tudo “coiso”, são uns meninos que são trabalhadores. Não dá aporrinhação a mim, nem à mãe. A menina, quem dera que todos os pais dessem sorte com as filhas igualmente eu dei com a minha. Que ela só sai de casa mesmo pra igreja dela. Quando ela quer dar uma saída, é junto com a gente mesmo, nós vamos ali fora à pizzaria, ou vamos lá a São Francisco dar uma rodada lá. O passeio dela é assim com a gente. Não é menina bagunceira, não, graças a Deus. Quem dera que todos os pais dessem a sorte que nós demos. Eu fico feliz com isso. É bom.

 

P/1 – Tá certo. Tem duas últimas perguntas aqui para o senhor, a primeira é: qual é o seu sonho? Você tem um sonho hoje? Você fala assim: “Olha, Gustavo, tenho esse sonho”. Algum sonho que você tem ainda.

 

R – Rapaz, o sonho meu é o seguinte, o sonho meu foi sempre, desde quando eu comecei nessa vida minha, era o sonho meu ter um barquinho. Porque a gente ter um barco, facilita muito pra gente. E o que a gente desejar adquirir na vida, a gente tem aquele trocadinho que tem uma coisa pra garantir, né? Que a gente tendo um barco da gente sozinho, a gente pode fazer um compromisso de uma coisa que a gente tem vontade de adquirir e comprar, que Deus vai dar o privilégio pra gente pagar. O sonho meu é esse aí.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Certo?

 

P/1 – Certo.

 

R – E graças a Deus, com certeza eu tô chegando lá.

 

P/1 – Tá perto aí. E pra finalizar, senhor Getúlio, queria te perguntar como foi ser entrevistado, contar aí sua história, como você se sentiu? 

 

R – Hã?

 

P/1 - Gostou de ser entrevistado?

 

R – Gostei. Legal. O papo foi muito bom, legal e importante, né? 

 

P/1 – Importante. Com certeza.

 

R – É importante. Isso aí é muito importante.

 

P/1 – Ajuda a gente a pensar sobre o que gente... Aonde a gente chegou, onde a gente tá.

 

R – Com certeza. É bom.

 

P/1 – Tá certo. Tá ótimo, senhor Getúlio, então.

 

R – Obrigadão mesmo.

 

P/1 – Obrigadão. Eu te agradeço, viu?

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