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História

Um guaranazeiro à moda antiga

História de: Homero Martins Ribeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Em seu depimento, Homero Martins Ribeiro fala sobre sua infância, sua família e a região onde até hoje mora. Aborda as dificuldades da terra, da idade, do preço do guaraná que planta no decorrer dos anos e sobre a ajuda, por vezes limitada, da prefeitura. Conta sobre as técnicas para preparar a terra, semear, plantar, colher e preparar o guraraná, além das festividades envolvendo a fruta na comunidade.

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História completa

Homero Martins Ribeiro. Eu nasci em Vera Cruz em 15 de setembro de 1943. Meu pai por um tempo trabalhava em Pau Rosa, depois voltou para a lavoura, plantar na roça e era só. E plantar só roça. Plantou guaraná também, mas naquela época que, em Paroari, onde trabalhava, não deu bem, nem guaraná, ele só ficou com a roça ali. Foi o tempo em que eu saí dele, ele ficou velho, se aposentou, a mamãe também se aposentou, eles ficaram velhos e eles ficaram corrente por aqui,  até que morreram, eu fiquei, eu e outro irmão que mora nessa casa aí. Mas só que não está agora. Tenho outros irmãos em Manaus, tem outros para cá, por Paroari.

Comunidade Vera Cruz é bom pra gente, porque a Vera Cruz produz muita farinha bonita. A comunidade cresceu um pouco com isso, que o produto mais valorizado é a farinha daqui. A farinha da Vera Cruz é especial, o pessoal sempre trabalha bem aqui a farinha. O guaraná também.

A nossa casa era de palha, como essa, cercada de palha mesmo, tudo cercadinho de palha. Era pobrezinha. Depois que eu saí do meu pai, é que eu trabalhei um bocado, consegui fazer uma casa, criei um filho, e esse filho que me ajuda.

Eu não tive muita oportunidade para estudar, porque meu pai só trabalhava em mato. Naquela época a gente trabalhava aí, então era difícil professor pra ensinar a gente. E meu pai nos puxava pro mato pra trabalhar com ele. A gente não podia estudar quase porque era difícil naquele tempo aula pra lá, tinha mais pra cá mesmo. Mas pra lá não tinha, e eu trabalhava com eles pra lá. Eles todos trabalhando no Pau Rosa, então era difícil.

Eu trabalhava já, eu comecei a trabalhar desde 12 anos. Com 12 anos meu pai já me levava, desde pequeno eu já andava com ele mas pra trabalhar mesmo de 12 anos pra lá. Sempre me levava no trabalho e eu trabalhava, andava com ele pelo mato. Eu fui, eu aprendi mais é trabalhar mesmo, trabalhar eu sei muito, de mato eu conheço muito. Agora, meu filho não, meu filho estudou. Eu já botei ele pra estudar um pouco, aprender um pouco.

Na época que comecei o guaraná era muito falado. Eu era muito animado para fazer o plantio do guaraná. Eu plantei guaraná, eu plantei dois mil pés de guaraná, cultivei, eu estava trabalhando bem, depois como eu falei que o guaraná teve uma base e depois ele perdeu até o preço, não tinha mais valor e com o tempo eu deixei. Fui plantar outras coisas, a roça mesmo, outro tempo que eu estava pra cima, com todo mundo, mas não deu. Eu tive que voltar de novo pra cá, voltei e estou aí. 

A época boa de se plantar é janeiro, fevereiro, até março a gente planta. Antes de começar o verão, porque no verão não presta mais. A colheita começa mês de novembro, vai terminar pra dezembro. A gente apanha ele lá.

Na festa do guaraná, a gente vai lá, tem aqueles barracos, você vai lá naqueles barracos. Tem gente pilando guaraná lá, tem gente torrando, tem gente fazendo bastão, tem gente moendo. De todo jeito tem. Tem gente que só está ralando pra você beber. Na língua de peixe. Tudo é assim por lá. É bonito. Tem outras vendas também, também comida, bebida.

Eu quase não sei disso, não. Mas no tempo que eu comecei a colher guaraná, a gente levava daqui – eu e esse meu cunhado pra lá –, os compradores vinham no largo encontrar a gente pra comprar o guaraná. A gente ia levar daqui o guaraná já medido a litro e medido a litro o peso dá certo, mas tem vezes que passa. Quando a gente enche muito o litro passa de um quilo, então a gente encheu o litro, botava de bem a boca dele acertava bem, levava. Chegava lá, o comprador vinha e às vezes a gente lograva ele, às vezes ele lograva a gente. Ele perguntava: “Quantos quilos tem nesse saquinho?” Quando tinha três, a gente já dizia que tinha cinco; ele pegava, ele não ia mais pesar mesmo, que já estava medido. Então a gente já tinha falado que era cinco mesmo, ia levando, ele botava dentro do saco dele, e pronto, e por isso ficava. Era assim, quando nós lográvamos, a gente, como aliás esse cunhado aqui logrou um lá: “Eles estão animados com o guaraná, que ele chegou lá com ele e eles perguntaram quantos quilos que tinha, e ele já disse que tinha 15”. O cara pegou todos os 15 pra ele, botou o guaraná no saco dele e ficou com o dinheiro. É assim que era. Mas compravam muito naquele tempo, quem compra por aqui no largo, assim que era.

 

 

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