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História

Um grande contador de histórias

História de: José Maria dos Anjos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2021

Sinopse

José Maria conta sobre sua infância em Rosário, sua vida na Vila Madureira e sobre sua vida atual, como agricultor na Vila Canaã. 

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História completa

 

P/1 - Qual o nome do senhor?

 

R - José Maria dos Anjos.

 

P/1 - O senhor nasceu onde?

 

R - Rosário. 

 

P/1 - Em que dia foi, seu Zé?

 

R - Quinze de setembro de 1953.

 

P/1 - Onde fica essa cidade, seu José?

 

R - Interior de Rosário, São Miguel.

 

P/1 - É longe daqui?

 

R - Uns sessenta e poucos quilômetros, mais ou menos isso.

 

P/1 - Quando o senhor nasceu, quem morava com o senhor nessa época?

 

R - Quando eu nasci, quem morava comigo eram meus pais e meus irmãos.

 

P/1 - Qual o nome da sua mãe?

R - Joana dos Anjos.

 

P/1 - E como era a família da sua mãe, de onde eram?

 

R - Tudo maranhense, de lá mesmo.

 

P/1 - E a família do seu pai era de onde?

 

R - Manoel Martins Carvalho, o nome dele. De lá também.

 

P/1 - Você sabe como o seu pai conheceu sua mãe? Eles contaram para o senhor?

 

R - Isso eu não sei, não. Foi em quebra de coco, nesse tempo quebrava muito babaçu. Viviam de quebra de coco, fazendo cofo, pra fazer panedo para panelar sal. Não existia sal moído, era sal grosso. 

 

P/1 - Era isso que ele fazia?

 

R - Fazia os cofos e tinha o comprador dos cofos, para poder empanelar sal. [Era] panedo que chamava.

 

P/1 - E o senhor via ele fazendo isso?

 

R - Eu fazia e faço cofo até hoje. Ainda sei fazer. Era a profissão da gente. E trabalhando, arrancando mandioca na agricultura.

 

P/1 -  E pra quem não sabe, o senhor pode contar como se faz esse sal?

 

R - O sal é feito da água salgada. Faz as camboas, aí naquelas paredes entra água salgada, nego fecha. Nesse período o sol tá arrebentando, aí a água passa um tempo ali, vai salitrando, fica a pedra de sal. Aí se mete a pá e vai só ajudando, pra ir no carro. Dá-se o nome de salina. 

 

P/1 - Aí quebra?

 

R - Aí vai pro maquinário pra refinar o sal, embalar. Nessa época, tem muito sal grosso. É na beira da praia que faz a salina. Da água salgada que vem o sal. 

 

P/1 - O seu pai pegava da beira da praia?

 

R - A gente comprava o sal, fazia os panedos pra empanelar e fazer os cofos para os compradores que iam para o fabricante. [Eram] feitos da palha do babaçu.

 

P/1 - Lá onde o senhor morava tinha rio? 

 

R - Tinha o Rio Itapecuru.

 

P/1 - Pescava também?

 

R - Pescava, vivia de pescaria também. Era no arroz, no pirão bravo.

 

P/1 - Como era isso?

 

R - Pescavam, pegavam o peixe. Ali tinha muita fartura de peixe. Era só um prato para oito pessoas. Num prato ia fazendo o pirão no caldo do peixe e botava a esteira, botava folha de banana. Fazia o pirão e ia colocando em cada uma das esteiras até completar os oito, e o peixão no meio. Papai colocava o de cada um e eu não olhava para o prato de ninguém. E se esquecesse de botar no prato de um e reclamasse, o pai dizia não e se ficava quietinho.

Hoje se você bota pra três e um ficar sem, já reclama: “Cadê o meu?” A gente comia calado o pirão purinho, nós não pedíamos. 

 

P/1 - Eram quantos irmãos?

 

R - Nós somos oito, duas mulheres e seis homens. Era pra ser nove, mas morreu um, pequeno.

 

P/1 - O senhor como era nessa escadinha?

R - O importante é o lugar onde eu nasci. Nasci em cima de uma cama, linda, maravilhosa. Nove forquilhas, forradas com talo de palmeira; uns sacos de açúcar, saco de pano, rasgava e emendava um no outro, forrada de palha de banana. Era um colchão. Era uma cama. 

 

P/1 - O senhor nasceu em casa, então?

 

R - Nasci em casa, nós todos. 

 

P/1 - Foi com uma parteira?

 

R - Existia uma parteira boa, nós buscávamos ela em seis quilômetros. Buscava de cavalo. A finada Maria da Conceição.

 

P/1 - O senhor conheceu ela?

 

R - Conheci. 

 

P/1 - Como ela era?

 

R - Ela era do tipo de mulher que chegava, examinava a mulher… Isso eu não vi porque eu era criança. Ela via que não tava na hora de nascer e aplicava uma injeção, dava um remédio que eu não sei qual era, pra dar força. Não demorava, a mulher tava berrando na cama.

 

P/1 - A sua mãe e seu pai falaram como foi, se o senhor deu trabalho pra nascer?

 

R - Graças a Deus, na minha irmandade nós somos todos unidos e nunca demos trabalho pra minha mãe para nascer. Minha mãe nunca precisou de hospital pra ter neném. Até hoje, tem dezessete anos que minha mãe faleceu, nunca deu trabalho pra ninguém. Deu trabalho quando teve outros problemas de saúde e precisou vir pra dentro da cidade de Rosário. Nós tivemos uma crise em 1952, 53, mais ou menos. Só sei que minha mãe tava em um buchão pra ter neném em agosto, meu pai fez um mutirão que blocaram o mato e meu pai matou um porco pra dar comida para o pessoal pra fazer um tal de dez ribas. Roçavam o mato fino todos, e tinha um dia para derrubar aquele palmeiral grosso todinho. Dia de Corpus Christi. 

Minha mãe chegou, o pessoal chegava com seus machado amolado e minha mãe disse: “Martins, hoje é dia de Corpus Christi.” Ele respondeu: “ Oh, minha velha, eu já fiz a despesa. O pessoal tá todo aqui, Deus me perdoa.” E o pessoal: “Vamos embora”, uns vinte homens. Eram muitos hectares de roça, mas cada qual, depois que passasse o fogo, ia dividir - isso aqui é meu, isso aqui é seu. 

Meu pai foi pra lá, minha mãe buchudona. Quando foi duas horas da tarde, minha mãe tava arrumando… Eu era pequeno, minhas duas irmãs são mais velhas, e ela, buchudona, disse: “Vamos embora buscar coco, babaçu pra quebrar, pra de tarde comprar farinha e querosene” - porque não tinha energia, era lamparinazinha de querosene. Quando minha mãe vai chegando, meu tio vem voltando correndo, duas horas da tarde. Quando minha mãe olhou pra ele, ele já tinha mudado de cor e minha mãe disse: “O que foi que aconteceu com o Martins?” “Fomos nós, cortando uma vara. Uma vara bateu nele e ele não pode andar.” Ela disse: “Ele morreu, não morreu?” “Não, arrumamos uma rede pra trazer ele.” 

Mamãe acabou com a viagem pra gente ir buscar coco, voltou pra casa e foram buscar meu pai. Meu pai vinha atrás. 

O vento lá é norte, os outros na frente e ele ia derrubando as palmeiras que iam ficando pra trás. Tinha duas, ele cortou uma, ela tombou em cima da outra e ficou no toco, entendeu? A ponta lá em cima ficou em uma palmeira e essa aqui ficou no toco. Quando ele foi pra trás, ela escorregou e caiu em cima da perna dele. Ele começou a gritar pedindo socorro e os outros na frente, o vento trazia a voz dele pra cá e os outros pra lá. Quando eles pararam e viram que ele não estava cortando mais, vieram e acharam meu pai preso embaixo da palmeira. Suspenderam, tiraram ele, botaram na rede, levaram pra casa. 

Nesse tempo a medicina era péssima. Hoje vai pra um socorrão desse e passa um mês ou mais com a perna quebrada para poder tratar daquela perna ou um braço. Tem que parafusar. 

Uma senhora chamada Anjinha, moradora depois de Rosário… Foram buscar ela. Ela fez uma esteira de pala, pegou um pintinho pequenino da primeira pena, carvão - conhece urucu? Socou tudinho junto, deu pro meu pai tomar uma lapada e o resto ela emplastou com mastruz na perna. 

Papai morreu, ele morreu em noventa. A perna ficou colada no osso, porque esbagaçou. Quando morreu, saíam umas pipocas da perna dele. Ele espremia e saía um farelinho de osso verdinho da cor do mastruz, cicatrizou. 

Aí é que a vida ficou sofrida. Com quinze dias mamãe ganhou neném, meu pai com a perna quebrada em cima de uma cama, um estaleiro de talo que se chamava de cama, cheio de palha de banana. Sabe o que nós fomos comer, eu e minha irmandade? Um caldeirão, nesse tempo era um caldeirão de ferro, fazia angu de farinha seca, tinha quatro ou cinco ratos escaladinhos para nós assarmos no carvão e casca de babaçu. Temperava o rato todinho, escaldava e botava pra assar pra nós comermos. Papai em cima de uma cama, com minha mãe sofrendo. 

Até hoje eu tô aqui. A doença que eu sinto é a visão que eu perdi agora, mas vocês veem como era lá. Queria era poder enxergar. Fazer essa cirurgia pra mim foi um prejuízo. Tô aqui vivinho, meus irmãos todos vivos, tudo trabalhador de roça. 

 

P/1 - O pai do senhor era bravo?

 

R - Era bravo, porque ele não gostava de mentira. E se nego achasse qualquer coisa lá na rua… Lá não tinha rua, era caminho. A casa era tapada toda de palha. Tinha vez que quando vinha uma chuva, a gente ficava no meio da casa por causa das goteiras. A gente era carente, pobre não, porque acho que pobre nem existe. 

 

P/1 - Como é pobre e como é carente?

 

R - O carente é aquele que com pouco ou muito tem, é seu. A pobreza é a pior palavra. Pobre, é ruim a palavra, eu não gosto. 

 

P/1 - O pai do senhor, como ele era?

 

R - Era caboclo.

 

P/1 - E o jeito dele era como?

 

R - Papai, se nego achasse qualquer coisa ali, ele dizia: “Onde é que achou, quem te deu? Vai deixar onde achou.” A nossa criação era essa. Toda a minha irmandade foi criada assim. Se ele estivesse conversando aqui, chegasse uma pessoa… Ele fumava cachimbo, terminava de almoçar e ficava com minha mãe pra lá. Nós íamos brincar debaixo de um pé de café, chegava uma pessoa e dizia: “Ê, Martins!”  Ele mandava um de nós ir ver quem estava na porta. “É fulano de tal.” Ele levantava, vinha atender. Se ele precisasse de nós, ele chamava um, mas nós não podíamos passar no meio deles conversando não, Deus nos livre. Nós voltavamos pra onde estávamos, não podia ficar ali perto nem falar com ele. A brabeza dele era essa. 

 

P/1 - Mas ele era bom?

 

R - Bom… Comia muito peixe, cozinhava pra alguma pessoa que chegasse. “Rapaz, já almoçasse?” Ele levantava ou minha mãe levantava e botava refeição para aquela pessoa, não era contando com a gente que tava em casa, não. 

Até hoje eu tive uma boa família que Deus me deu, essa companheira, com a minha filha, minha enteada mas eu considero como minha filha mesmo e ela me considera como pai. Só eu e ela naqueles mato onde vocês foram ontem mas pode ir lá, se tiver com fome tem o que comer, cozido, esperando qualquer um que chegue.  

 

P/1 - A sua mãe era como?

 

R -  Minha mãe era bem negra, meu pai bem caboclo. 

 

P/1 - Ela cuidava de casa, roçava?

 

R - A lida da minha mãe era cuidar de menino - nós éramos muitos - criar galinha. Quando nós estávamos no ponto de trabalhar na lavoura com meu pai, quando nós voltávamos, nós trazíamos um maço de vinagreira, ela matava uma galinha às seis horas e cozinhava pra nós comermos. De manhã, se não tivesse o café era um mingau e farinha seca, tomava e ia pra roça, mas [ao] meio-dia tinha que comer alguma coisa. Manga com farinha a gente comia na roça, pra vir só de tarde. 

 

P/1 - Ela cozinhava bem?

 

R - Rapaz, hoje não, mas antigamente não existia curso pra culinária. Hoje você pega um peixe, bota um pouquinho de corante, um pouquinho de óleo, bota um pouquinho de limão, bota não sei o que e tem um peixe bem temperado. Antigamente pegava o peixe, lavava, sal, limão, ferveu, espumou, tá cozido. Era com pirão, não precisava de arroz não. Arroz é água, acredita? 

 

P/1 - Como assim?

 

R - Você já comeu pirão com peixe, cozidão? Não se sentiu forte depois da comida? Mais macho do que você é? Machucado? Pois é. (risos) Você se sente forte com o pirão.

 

P/1 - E sua mãe como ela é, o jeito dela? Como ela cuidava de vocês?

 

R - Minha mãe, ela cuidava. Nós remendávamos roupa com quantos anos… Deixe eu ver. Onze anos. Nós andávamos nus com calçãozinho feito de saco de açúcar, os calções que elas faziam pra gente vestir. Só calção mesmo, não existia cueca. A gente andava com o berimbau pro lado, correndo, brincando. 

 

P/1 - E vocês brincavam do que nessa época? 

 

R - Pião. Papagaio pra lá não existia, só pião. O que você perguntar e for do meu conhecimento eu digo, e é verdade. Quem nunca passou por isso? Hoje eu estou num berço de ouro que Deus me deu. 

Eu tive uma família antes dessa aí. Eu morava nesse lugar onde eu nasci e tenho um filho que trabalha nesse colégio aqui, o Francisco. Ele tava no ponto de ir para estudar, chegou um cunhado meu e disse: “Rapaz, eu quero te vender minha casa lá de dentro de Rosário.” Eu morava no lugar onde eu nasci, Curimatá, São Miguel. Nós tivemos seiscentos cruzeiros, “tu me paga com três meses”. Falei com a mulher e ela disse: “Vamos embora.” 

Ele fez a casa de talho, madeira boa. Eu que dei a madeira, madeira de roçado que eu tinha na roça. Fui pra dentro dessa casa. 

Com dois meses, sabe o que acontece? Ele, de Bela Vista, perto de Pindaré, vende a casa comigo dentro. Não me disse nada, só chegou e disse: “Zé Maria, já vendi a casa pra Silvino.” Eu disse: “Rapaz, eu tinha como te pagar com três meses.” Aí eu fiquei como um cara naufragado no meio do mato, dizendo: “Pra onde é que eu vou, será que me salvo, será que o tubarão me come?” (risos) 

Meu primo, que morava ali pertinho, me chamava de ‘fiote’, disse: “Sebastião vendeu a casa contigo dentro? E pra onde é que tu vai?” Eu disse: “Não sei, rapaz.” “Na minha casa não te cabe”, realmente, porque ele tinha muito filho também. “Eu tenho um galinheiro lá no fundo do quintal, te serve?” Eu disse: “Serve.” Tiramos as galinhas de dentro, limpamos tudo. Com três meses surgiu uma invasão, peguei um terreno. 

 

P/1 - Esse terreno era onde? 

 

R - Em Rosário, dentro de Rosário. Hoje vim pra cá, tenho essa companheira. Agradeço muito, em primeiro lugar a Deus e segundo, minha coragem e terceiro, [a]  minha mulher que me ajuda.

Enfrentei. Hoje considero ter duas casas: essa em frente ao comando da polícia [e] tenho a casinha lá do polo. Tem mar pra eu trabalhar e Deus tá me dando coragem. Eu quero que ele me dê outro olho pra eu ficar bom, que coragem eu tenho.

 

P/1 - O senhor, quando chegava de noite na sua infância, fazia o que na sua casa? Seu pai, sua mãe?

 

R - Fumaça, dá muita muriçoca. Nego pegava casca de coco e fazia fumaça pras muriçoca sair. “Vamos embora pescar”, pegar um peixe pra nós jantar. Nós íamos pra beira do rio, tinha muito peixe, nós ‘rapidão’ tava de barriga cheia. 

 

P/1 - Pescava como lá?

 

R - Na beira do rio a maré é o seguinte, enche e vaza; água doce. No que eu tava secando sete horas a gente tinha as tronqueiras, cercava no meio das moitas e cercava com a tarrafa. Mexia naquelas tronqueiras velhas, o peixe espirrava e era só pegar. Não passava duas horas, tava com bastante peixe. 

Hoje não, diz que o peixe… A fartura de peixe não diminuiu não. A população aumentou, aí também tem que cair um pouco, né? Você vai numa feira, [pra] todo lado você vê peixe.  

 

P/1 - E que peixe vocês comiam lá, naquela época?

 

R - O curimbatá, o bodó. Tem o cascudo serra, o surubi, piranha, traíra, o piau, o cabeça gorda. 

 

P/1 - Seu pai e a sua mãe contavam histórias pra vocês dormirem?

 

R - Não, não contava muita história. A história que ele contava era quando nós mijávamos e ele dava uma lapada no lombo - pra não teimar muito, mas não era bater pra matar. E a tacada que nós pegamos serviu para exemplo e respeito, acredita?

 

P/1 - Vocês faziam coisa ruim? 

 

R - Fazia coisa errada. Vou contar uma pra vocês: papai me deu uma pisa na hora do jantar. Ele saiu pra roça com a minha mãe e minhas duas irmãs. Quatro. Papai deixou uma curimatá desse tamanho aqui (mostrando o tamanho), assada, dentro de um cofo com uma cuia de farinha branca, pra nós almoçarmos. Em frente da nossa casa tinha um tio dele, o finado João Cupertino; fez um jirau de vara, pegava o arroz e milho, botava em cima, cortava os cachinhos de banana e botava em cima. Meu pai tinha deixado alimentação pra nós, pra eu e meus dois irmãos que são mais velhos do que eu. 

O velho tinha uma escadinha que ele colocava no jirau que ele fez, e eu, que não tenho o que fazer, subo no jirau com aquelas bananas madurinhas. O velho tava sentado. Eu nem pedi, subi e comecei a comer banana. Ele disse: “Meu filho tá com fome, não tá?” Eu disse: “Eu tô”, mas [eram] nove horas. Ele me deu farinha e eu, com as cascas jogando no chão… Ele disse: “Quer comer, come, meu filho.” Depois eu disse: “Quero mais não” e desci. 

Quando papai chegou quatro horas da tarde, ele disse [o tio]: “Oh meu filho, fiquei com tanta pena de Zé Maria.” “Que foi, titio?”  “O bichinho chegou aqui doido de fome. Subiu no jirau, tava comendo banana. Eu ofereci farinha, olha o monte de casca no chão.” Papai: “Foi mesmo? Mas eu deixei comida pra eles.” 

Eu não tava sabendo que o velho tinha contato pro meu pai. Papai disse: “Vamos banhar” e traz umas cabaças, uma cabaça cheia de água. Eu disse: “Tá bom” e fomos banhar. 

Meu irmão, meu pai mandou mamãe botar peixe no fogo, bastante peixe, botou a esteira e disse: “Zé Maria, senta aqui pra cá!” Papai aqui, mamãe ali, um monte de peixe ali; papai fazendo um pirão pra mim deste tamanho [mostrando o tamanho] e eu pensando: “Será que é pra mim mesmo?” Eu comendo e pensando “Eita, que o negócio melhorou pra mim.” 

Ah, meu preto, o bucho encheu e eu disse: “Não quero mais, não.” Papai disse: “Come!” O cipó tava escondido e eu não vi, ele repetindo: “Come!” Mamãe brigou com ele dizendo: “Mas tu quer fazer o menino comer e ele não quer mais.” E ele dizia: “Vai comer”. 

Papai levantou, puxou pelo meu braço, me levou [pra] fora da mesa e desceu o couro. “Isso aqui é pra tu não subir mais em jirau de ninguém pra apanhar, tirar banana, que eu deixei comida pra ti!”

Pois o velho morreu e eu não falei mais com ele. Serviu de exemplo porque eu ia me acostumando naquilo, chegar, pegar coisa alheia e comer. Foi um exemplo pra mim, foi uma benção que papai me fez. 

 

P/1 - De não pegar o que é dos outros.

 

R - Porque o velho tava lá. Por que eu não pedi: “Titio, me dê uma banana dessas?” Era só ali chegar e comer. Mal sabia o resultado que tinha ali nas minhas costas. É a criação. 

 

P/1 - Ele fez isso com algum irmão seu? Bateu, dava bronca?

 

R - Dava bronca, meu pai dava bronca. Duas ou três vezes, falava muito. Chamava a gente dizendo: “Olha, cuidado, cuidado.” 

Tinha um tal de sábado de Aleluia, domingo de Aleluia que deixavam tudo pra esse dia. Ele ia só botando no caderno, dizendo: “Olha, olha.” Chegava no dia, pegava o menino e dizia: “É por causa disso, assim assim.” 

P/1 - Ele anotava?

 

R - Acho que ele botava na mente. E eu pensava que ele tava esquecido. 

 

P/1 - Vocês iam pra missa esse tempo?

 

R - Tinha missa. Tinha que ir de tamanco, tamanquinho no pé, calcinha curta. Era tamanco, que nem nessa história de Camões. Dizem que quem botou o nome naquilo foi Camões, né? 

 

P/1 - Ah, é? 

 

R - Foi. Tu conhece tamanco? 

 

P/1 - Foi o português que colocou?

 

R - Foi. Tu sabe o que é o tamanco? 

 

P/1 - Não.

 

R - Chama ‘tó’. É o mesmo que chamar tamanco. É de madeira, coberto com couro, de pau; fica ‘potoc, potoc’, porque estala no asfalto. Camões fez um pra ele, fez um pé maior e um menor e andava manco. O português perguntava: “Tá manco?” Ele respondeu: “Tamanco!” Aí pôs o nome de tamanco. Entenderam?  

 

P/1 - Entendi, aí veio pro Brasil.

 

R - Sim. 

 

P/1 - E você gostava de ir na missa? 

 

R - Gostava, eu ia, mas hoje depois que eu tô aqui eu fui na missa quando fui batizar uma filha. Depois na Mauro Fecury, mas aqui mesmo ainda não fui. 

 

P/1 -  Lá no Rosário vocês tinham rádio?

 

R - Tinha. O rádio era a pilha. Era um tal de rádio Jabuti que era assim [mostrando o tamanho grande], bom demais. Energia não tinha nada, não.

 

P/1 - E você se lembra do que vocês ouviam nessa época?

 

R - Ouvia muito um programa do Jairzinho, de um tal de Manezinho, era radialista. Eram de São Luís e a gente escutava tudo no interior. Bom demais. 

 

P/1 - O senhor gostava de ouvir mais o quê? O senhor se lembra de quando o senhor era criança?

 

R - O canto dos pássaros. O canto dos pássaros é bonito. Da natureza. A gente ouve o sabiá da mata às seis horas. Quando vem a chuva no começo do inverno ele canta, aquele canto saudoso. Comove. O berro do gado quando começa a chover, quando ele é transferido de um lugar para outro; o gado lembra de onde ele veio quando começam as chuvas. Começa a trovejar e eles começam [imita o berro do gado], já dói. 

 

P/1 - O senhor gosta desse barulho. 

 

R - Sim. 

 

P/1 - O senhor gosta de viver no interior. 

 

R - Até hoje eu gosto de viver no interior, como eu vivo ali.  

 

P/1 - E vocês chegaram a ir em escola lá no Rosário?

 

R - Eu comecei porque quando chegaram meus doze anos, minha prima tinha casado. A mãe que eu considero hoje, que me criou até os 22, que foi quando eu me casei de novo - não com essa aí, com outra, a primeira. Aí eles me deram [ajuda], a minha prima e mãe de criação, dos meus doze aos 22, pra eu estudar. Ela não tinha nenhum filho. Ela ensinava em casa, educação particular [pra] mais dez a doze crianças e eu tomava de conta da cozinha, cozinhar. 

 

P/1 - O senhor, com doze anos, ia cozinhar.

 

R - Sim. Ela ensinando e eu consertando peixinho e temperando tudinho. Ia buscar água numa distância de uns oitenta metros da casa nossa, de onde eu ia puxar. Era uma bomba. Puxava essa água, enchia as vasilhas do quintal todinho. Doidinho para bater uma bola, o campo de futebol era perto, era só atravessar a rua. Eu dizia: “Minha madrinha, eu vou bater uma bola.” E ela: “Você já temperou o peixe, ajeitou tudinho, já encheu a água, então vai e volta logo.” Isso era umas quatro horas, eu tava indo pro campo bater uma bola, mas [às] seis horas eu tinha que estar de volta pra botar comida no fogo e ajeitar tudinho. 

 

P/1 - Quem ensinou o senhor a cozinhar? 

 

R - Minha madrinha mesmo. Agradeço a Deus. 

Ela vem pra cá. Tem um senhor que trabalha comigo, ela diz: “Olha, tem a comida aqui na geladeira; tem frango, tem peixe, tem carne. Escolhe o que tu quer comer.” Eu não me aperreio. Faço mocotó - não é todo mundo que sabe fazer, preparar mocotó. Quando a turma toda vai pra lá, Valberlene vai. Nós compramos quatro, seis quilos, preparamos tudinho. Tem gente que ainda traz escondido pra casa, pra jantar. 

 

P/1 - Essa sua madrinha morava onde?

 

R - Mora até hoje em Rosário. 

Eu estudei, mas eu era muito desobediente. Eu tinha minha turma, nós estávamos na escola paroquial. A diretora [era] muito legal, Dona Doroteia. Eu ia pra essa escola, tinha as meninas que iam comigo e tinha uns meninos mais peraltas do que eu. Eles batiam nas meninas e eu comprava briga, entendeu? E na hora da merenda elas dividiam comigo. 

Mas estudei pouco, estudei só até a primeira série. Vim pra cá, me matriculei, estudei, mas foi o tempo em que eu comecei a trabalhar lá no terreno que eu ganhei, onde é a ENEVA hoje. Eu me dediquei. 

Eu ia passar pra quarta série, mas como era muito cansativo pra mim de onde eu trabalhava no terreno pro colégio - era longe, perigoso à noite, aqui em São Luis já - eu tranquei minha matrícula, não estudei mais. Fui me dedicar a trabalhar lá no terreno para ter o que eu tenho hoje. 

Lá tinha a MPX, depois a ENEVA. Hoje me indenizaram, tenho minha casinha aqui porque eu não tinha casa. Tenho aquela outra lá, tenho meu automovelzinho. Se eu fosse deixar, fosse só estudar, eu não tinha nada disso. 

O estudo é bom, acredita? O estudo é bom, porque o estudo você não dá. Você ensina um, mas não dá estudo. Você dá estudo pra alguém? Você ensina, orienta, mas você não dá nada, não. Quando ele morrer ele vai com você. Você deu? Não deu não? 

 

P/1 - Mas o senhor ganhou esse terreno onde? Na Vila Madureira?

 

R - Foi. Exatamente. E lá quando chegou foi indenizado todo mundo. Removeram a gente pra cá, [para] aquela área pra trabalhar. Hoje já construí uma casinha lá, tem uma área boa pra eu trabalhar, tem essa aqui, graças a Deus - à ENEVA, que eu não falo da ENEVA. 

Tem gente que ganhou também aqui, mas não tem hoje. Ganhou área pra trabalhar, não tem hoje, por que? Vendeu. Nós ganhamos aqui com computador, geladeira, fogão, liquidificador, televisão - eu tenho ainda. Computador eu não tenho porque eu não sei mexer em computador, mas doei pra minha filha, ela mexe com esse negócio. E tenho hoje meu lar e muitos que tinham, ganharam, não têm casa, não tem terreno, não tem nada. Do que adiantou? Tão sofrendo. É isso aí.

 

P/1 - Voltando um pouquinho quando o senhor morava com seu pai e com a sua mãe, o senhor tem alguma história que se lembra daquela época, que fica na cabeça do senhor, que marcou?

 

R - História? História assim como? Deixa eu ver se eu raciocino. 

 

P/1 - Uma história boa, ou ruim, uma história que marcou o senhor. 

 

R - Ó, eu não tenho história assim. A história que eu tenho é o seguinte: a curiosidade mata, acredita? A história que eu tenho foi minha mesmo. 

Morreu um senhor distante, pobre, que chegou pedindo lugar pro meu pai para fazer casa. Uma família muito grande, pobrezinha. Ele morreu enfraquecido, [de] tuberculose. O pessoal foi fazer o caixão dele porque nesse tempo “pacs” não tinha não, o pessoal fazia era caixão mesmo para enterrar. Depois é que o pessoal inventou esse tal de “pacs” pra vender caixão, mas antigamente era o pessoal mesmo que fazia, fazia enfeite pra enfeitar caixão. Não comprava caixão feito assim não, ou então era enterrado na rede. E a tampa que fizeram pra esse cabra lá era uma canoa, porque a tábua não deu pra fazer a tampa. 

De manhã tinha que ser enterrado em São Miguel, mais distante um pouco - uma légua, mais ou menos. Aí eu vi meu tio finado Zé Paulo, o irmão do meu pai vinha com o cofo só na cachaça, porque no interior era assim, só na cachaça. Era enfiando o pau ali [pra carregar] o caixão, ele ia rangendo até lá e o pessoal gritava: “Lá vai o irmão das almas.” É assim que é. 

Na hora em que começaram a gritar “lá vai o irmão das almas” eram cinco horas da manhã, pra chegar no cemitério cedo. Eu levantei e saí cedo pra olhar. A primeira coisa que eu vi foi o pé do cabra de fora e eu era criança na época. Emburaquei pra dentro de casa, fui correndo feito um bicho porque a tábua não deu pra fazer a tampa do caixão, aí ele veio com os pés de fora. 

É história da pobreza. Mas não ficou em cima da terra, foi enterrado. 

 

P/1 - O senhor nunca tinha visto uma pessoa morta?

 

R - Não, eu vi um afogado uma vez. Já vi vários, mas nessa época não, eu era criança. Mas tirando história assim, não. 

 

P/1 - O pai ou a mãe ou o avô do senhor contava histórias dessas que o povo conta de lendas, de Curupira, Saci?

 

R - Ó, contava. Lendas [do] ‘surrupira’, o caçador. Você sabe o que é o caçador? É o cara que vai com a espingarda pra matar o bicho lá no mato. O bicho do mato tem dono, como nós temos dono. 

Nós não temos dono? Você não tem dono? Quem é o seu dono? Responda? É Deus. Deus é que é o nosso dono, não é? Não é ele que comanda a gente aqui na terra? Não é ele que desce ar livre pra gente respirar? Esse oxigênio gostoso que ele dá? Pois nós temos dono, entenderam? 

Sim, como no mato os bichos tem dono. É o ‘surrupira’, como você falou. 

O caçador ia todo dia caçar, matava, uma caçinha pra ele comer. Um dia ele foi e matou um veado, um veado tão grande que ele não pôde carregar. Era o cavalo do ‘surrupira’, o ‘surrupira’ chegou e deu bronca nele: “O que é que você faz aqui? Você matou o meu cavalo, eu podia lhe dar uma pisa!” Aí ele ficou todo perdido, pretinho, desse tamanhinho. “Você vai levar agora!” Aí ele lutou, lutou e não pôde e disse: “Mas eu não posso levar.” E o ‘surrupira’ disse: “E pra que você matou o meu cavalo?”

O ‘surrupira’ foi bem assim, pegou um olho de pindoba, palmeira e tchau. Quebrou, meteu a unha, fez um cofo desse tamanhinho, pegou o veado; tirou o couro rápido, esquartejou, botou quatro pedaços e botou dentro do cofinho. Aí o cabra ficou olhando o cofo pequenininho, ele não pôde carregar o veado e ele botou o veado dentro de um cofo pequeno.

O ‘surrupira’ ajudou ele a botar nas costas e ele saiu andando. Rapaz, um cofinho desse tamanhinho caber um veado desses, não acredito. Foi derramar a carne, Na hora em que ele pegou um quarto, botou dentro de um cofo e encheu, ficararam os três lá. Não coube, ficou três quartos lá e ele disse: “Meu Deus.” 

O pretinho chegou de novo e o ‘surrupira’ disse: “Pra que você derramou essa carne?” Você vai levar, eu vou botar de novo aqui e se você derramar eu vou te dar uma pisa.” Pegou lá, chegou quase morto em casa de tanto carregar. Quer dizer, ele foi mexer com o que não devia, não era dele. O ‘surrupira’ botou quatro pedaços dentro de um cofinho, coube. Ele foi tentar fazer o mesmo, mas como ele ficou com medo foi embora. 

 

P/1 - Ele é dono dos bichos então?

 

R - É dono do bicho. 

Um senhor que trabalha comigo lá no polo - acho que vocês não olharam ele, mas ele tava lá porque ele foi ontem embora, ontem de tarde… Um magrinho velho. Ele tava quase empautado no mato de tanto caçar e toda vez ele matava. Depois ele ia no mato e não matava nada, aí um senhor de mais idade que ele disse: “Ribamar, tu quer matar caça? Pega um copo virgem, compra uma garrafa de cachaça, tira pra dentro do mato e onde tu achar um pé de tucueiro bem limpo por baixo, bota a garrafa de cachaça lá, acende uma vela e deixa aquele copo ali. Com sete dias tu vai lá.” 

Com sete dias ele foi lá e a garrafa tava seca, botou outra. De lá pra cá era difícil ele não matar paca, matar uma cotia, qualquer coisa ele tinha que matar. Ele já tava viciado, esse que trabalha comigo lá. 

 

P/1 - Pra quem ele deixou essa garrafa?

 

R - Pro ‘surrupira’, deixou dentro da touceira lá. Disse que ele já tava quase empautado lá. Difícil o dia em que ele não fosse que não matava. 

 

P/1 - O senhor já viu essas coisas lá?

 

R - Eu não. Nunca vi. 

 

P/1 - Mas o senhor acredita?

 

R - Dizem que tudo existe, né? Mas eu nunca vi não. 

 

P/1 - Essas coisas de Matita Pereira, visagem.

 

R - Mula sem cabeça, se existe isso aí eu não sei. 

 

P/1 - Lá onde o senhor cresceu tinha tio também, primo perto ou não?

 

R - Tinha, minha família toda. Inclusive eu até perdi um tio que era pra eu ter ido junto com ele, mas Deus é bom, ele foi e eu fiquei.

 

P/1 - O que aconteceu?

 

R - Ele morreu de acidente, partido com uma lança no meio, com uma lança de guindaste. O perigo do guindaste é que nem jacaré. Triscou no rabo do jacaré, ele tá virando pra pegar, né? De frente não, mas de lado. A mesma coisa é o guindaste. Na hora que ele desce e o cabo dele faz isso [movimento para a esquerda e direita] ele tá roçando tudo. 

Depois que matou meu tio, matou mais quatro numa lapada. 

 

P/1 - O senhor tava perto?

 

R - Não, era pra eu ter ido junto com ele trabalhar. A gente ia junto com ele, mas eu tinha outro compromisso e não fui. A gente era muito ligado um com o outro. Naquele dia tava chovendo muito, dia primeiro de maio, tá com uns quarenta anos, mais ou menos. Era pra eu estar junto com ele, era pra eu ter morrido também. Onde o titio tava eu tava junto com ele, ele era muito ligado comigo; irmão de papai, assim da tua altura, mais moreno. Gente boa, ele. Foi embora, não teve nem indenização nenhuma. Trabalhava numa empresa, não tinha carteira assinada. 

 

P/1 - O senhor ganhou esse terreno na Vila Madureira? Como foi essa história?

 

R - Esse terreno da Vila Madureira foi um senhor que tinha um loteamento lá, mas não trabalhava lá e saiu dividindo pra várias pessoas, pra quando passassem a indenização dividissem com ele. E me deu uma área tão ruim, longe de gente… E eu enfrentei a batalha. 

Com pouco tempo eu fiz um sítio. Tinha pé de fruta botando já, fiz um sitio e a empresa pintou deu uma merreca pra gente. A gente dividiu com o dono da área; foi o acordo, nós demos, e a empresa precisou da área pra fazer a termelétrica, aí nós viemos pra cá, nos removeram pra cá - uma área pra gente trabalhar com agricultura que é lá na Pindoba. Graças a Deus, tamos aqui 

 

P/1 - Então só voltando, o senhor saiu de casa com doze, foi morar com a sua madrinha e estava cozinhando pra ela... 

 

R - Eu não tava propriamente lá cozinhando. Eu fazia porque ela era madrinha e prima e me criou até essa idade. 

 

P/1 - Até os vinte e dois, né?

 

R - Que foi o tempo em que eu me casei. Ela não tinha condição, não tinha filho nenhum. O filho era eu, sobrinho, e ela me criou. Ela aperreada, ensinando os meninos e aí ela dizia: “Zé Maria, toma de conta aí!” E eu ia pra cozinha. 

Eu me botava pra fazer, entendeu? Não era assim: “Vai e apanha se não fizer”, tipo serviço escravo, me obrigando a fazer. Eu ia fazer porque ela tava ocupada. E aquilo ela tava me ensinando, dizendo: “O fígado bate aqui, tira essa pele…”, aí eu ia fazer aquilo. Era mesmo que eu estar num colégio. Eu tava aprendendo. 

A casinha era pequena, de taipa. Mas é bom a gente aprender, né?

 

P/1 -  O senhor ficou dez anos aprendendo com ela essas coisas. 

 

R -  Eu era assim, tipo pessoa de confiança. Filho de criação, sobrinho, primo e afilhado. Era minha prima legítima. E meu pai de criação, que era o marido dela, confiava muito em mim. Sabe como é? Confiava em mim de sair e dizer assim: “Eu tô viajando hoje, mas eu tenho filho homem em casa pra responder qualquer coisa.” 

 

P/1 - Em que período o senhor começou a sair e a namorar… teve isso?

 

R - Ah, senhor, não fala em namoro que eu comecei foi cedo. 

 

P/1 - Como é que o senhor fazia para conhecer as meninas?

 

R - Senhor, meu amigo, se eu contar… Tinha uma menina filha do meu padrinho, ela me batia pra eu me deitar com ela. Ela faleceu já, me batia pra eu ficar com ela. Era uma mulher de dezoito anos e eu tinha seis anos, mais ou menos, acredita?

 

P/1 - Cedo então?

 

R - Apanhava. Meu padrinho trouxe ela de Coroatá, a casa lá era grande e meu padrinho - padrinho mesmo, não tô falando dessa que eu morava, o padrinho legítimo - era filha dele e ela que me batia. Dizia: “Vem baixinho e cala a boca”, pra deitar com ela. Comecei novo na perdição, obrigado, porque não sabia de nada. 

 

P/1 - Mas quando é que você começou a fazer por conta própria? 

 

R - Ah, eu já tava com dezessete anos. Por conta própria, [com] uma coroa de uns quarenta anos.

 

P/1 - Ah é? Conheceu como?

 

R - Ela vendia mingau, ela não tinha ninguém. Comecei. Ela dizia: “Tu é doido, tu é criança.” Eu sempre fui desenrolado nisso aí. 

 

P/1 - Gostava de sair?

 

R - Não, nunca gostei de sair assim não. Meu negócio não era sair, meu negócio era deu ou desce, era assim que eu era. Mas muito festeiro eu nunca fui, não gostava de bagunça não. Tinha meu trabalho pra fazer. 

 

P/1 - E o senhor saiu da casa da sua prima aos 22 por quê?

 

R - Foi o tempo em que eu me casei. Fui pra casa de um sogro, passei quatro anos, cinco anos. Não deu certo, me separei, arrumei outra; depois não deu certo, separei. Depois arrumei outra, passei uns tempos, depois larguei, arrumei essa outra e tô com essa aí, casei com essa daí. 

 

P/1 - O senhor teve filho antes?

 

R - Tenho dois. Tenho um que tá com quarenta e nove anos, o mais velho. O outro mora aqui mesmo, tem uns quarenta também. 

 

P/1 - O senhor não gosta de sair mas gosta de cantar, de dançar?

 

R - Não sou muito cantador não. Eu canto pra comprar fiado, se o quitandeiro o barraqueiro for fraco eu derrubo ele. (risos)

 

P/1 - O senhor se casou, trabalhava já. Saiu da casa da sua madrinha. Trabalhava no quê?

 

R - Na cerâmica, de fazer artesanato, pote, alguidar, filtro de barro, essas coisas. Moringa, bilha... 

 

P/1 - Isso onde?

 

R - Em Rosário. 

 

P/1 - E como se faz esses potes?

 

R - Não tem aquelas carretilhas de enrolar o fio, da Cemar? Tinha umas carretas. Tira uma parte daquela, coloca um eixo. Bem embaixo pode ter uma peça de pau brocada, com um rolamentozinho que dê pra pegar naquela ponta de eixo, embaixo. Em cima tem uma cabeça redonda - àquilo se dá o nome de torno. 

Tem a bancada aqui. Amassa o barro, corta primeiro com ferro - o barro liguento, a ____ bem liguenta. Corta com o ferro pra amaciar, quebrar aqueles caroços mais grossos. 

Tem aquele arame que queima o pneu, o arame não fica mole? A gente amarra em dois pinos um arame desse tamanho [faz a medida com os braços abertos], amarra dois paus na ponta dele pra cortar, tirar raiz, amaciar o barro. Depois bota em cima de um banco largo, dessa largura aqui, mas que dê uma espessura de três metros, mais ou menos; amacia o barro todo na mão. 

Depois dali, vai fazer o que se dá o nome de empelo. As bolinhas de barro desse tamanho assim, bem macias. Você faz aquela bola, vai pra cima do torno. Bota um pouco de areia na cabeça do torno pra não grudar. Bota o torno pra rolar com essa perna [a direita]. A bola “shhhhh” [faz o gesto do torno girando], você pega aqui [no braço] e pega aqui [como quem modela o barro no torno e vai subindo com as mãos]. Ele estica, depois você mete o dedo aqui [no meio do barro e vai descendo com as mãos], torna a levantar ele, aprumado pra ele não fazer isso [faz o gesto do barro ficar torto]. Você bate o dedo aqui e esse dedo aqui, levantando ele [sobe com as mãos]. 

Pote, filtro, jarro, moringa, bilha, não têm forma. A forma é isso. Aquele bojo que fica é que você vem trazendo pra fora pra dar o bojo, aí você mete dois dedos pra fazer a boca. Dobra [a boca do vaso], tem uma taboca pra alisar ele todinho.

Com três a quatro dias vai pra cima do torno, que é pra aperfeiçoar ele e enxugar pra enfornar, botar no forno. Com 24 horas tá queimado. [Com] dois, três dias, você tira.

 

P/1 - Como o senhor começou a trabalhar nisso, seu Zé Maria?

 

R - Eu já tinha minha família, me casei novo. Não ia depender dos meus pais. Quem casa quer casa, então quem tinha que se virar era eu. 

 

P/1 - O senhor já estava com filho nessa época?

 

R - Já tava na forma, aí tem que se virar.

 

P/1 - Depois o senhor foi trabalhar com outra coisa ou ficou…?

 

R - Aí eu fui trabalhar de servente. Foi o tempo que eu vim pra cá, entrei na arte de pedreiro e aí segurei. 

 

P/1 - Como o senhor conheceu sua esposa atual? 

 

R - Eu tava solteiro. Ela foi passando e eu olhei. “Rapaz, aquela galega ali acho que dá um ‘raspa’.” (risos) 

Eu tava trabalhando na casa de um primo dela, rebocando uma laje. E ele dizendo: “Eu tenho uma prima, rapaz… Falta um marido. Mocinha…” “Pra quem é essa mocinha?” Eu já tinha visto ela, mas não sabia se era mocinha ou era moçona, sabe? 

Quando eu olhei, [ele disse:] “Olha ela ali!” Ela com um shortinho branco, toda bonitinha. “Essa não vai me querer não.” 

P/1 - Por que o senhor achava que ela não iria querer?

 

R - Eu achava que ela não ia querer. Ela, com a filha mais nova que a gente tem, a meninazinha…

Eu cheguei perto dela e falei “boa tarde”. Ela: “Boa tarde.” (faz expressão séria)  “Essa mulher tem uma cara ruim. Não vai dar pra ser.” (risos) Mas ela tava querendo já e graças a Deus deu certo. Estamos aqui até hoje. 

 

P/1 - Ela já tinha filha?   

           

R - Já tinha três filhas, essas que me consideram… Valerlene, a outra, que é a mais velha, não sei se você já viu. Graças a Deus. 

 

P/1 - E o senhor não achava… Tem gente que não gostaria de pegar três filhos de outra pessoa. 

 

R - Você já ouviu falar: quem ama cabra ama quem? Os cabritos. É desse jeito. Foi melhor eu me agarrar com ela, que tem três filhas, do que morar com ela tendo três filhos. Algum não ia prestar, algum ia querer me bater. Eu não ia querer apanhar.

Hoje nós somos todos assim [unidos]. Eu passei uns dias ruins com uma dor que me apareceu lá no polo; na hora que a mais velha soube, foi bater lá, me aplicar uma injeção. É só saber que eu tô ruim, todas elas… 

Se fosse um filho homem, talvez estivesse fumando droga, eu iria falar e ele iria querer me bater, chegava bêbado e iria querer me bater. Esturrava pra mãe deles, na hora que ela fosse falar alguma coisa iria gritar algo; eu não iria gostar, iria falar pra ele e ele iria partir… Graças a Deus, só filha mulher. Não tenho arrependimento, foi uma glória na minha vida.

 

P/1 -  Nossa época, o senhor estava construindo o sítio na Vila Madureira ou já estava pronto?

 

R - Já. Nós fizemos juntos, construímos juntos, eu e essa aí. Já estamos com uns vinte e poucos anos. 

 

P/1 - E como era a casa? 

 

R - De taipa, coberta de palha. Arrumadinha. 

 

P/1 - Vocês iam lá pra ficar muito tempo ou ia e voltava? 

 

R - Não, pra ficar. Chegamos lá e ficamos. Saímos de lá quando a empresa precisou da área. Não fui só eu, centenas de pessoas. Precisou, tem que entregar e sair, né? 

Mas não jogaram a gente fora. Até hoje a ENEVA tá dando suporte, coisa que eu nunca vi. Empresa nenhuma faz o que ela faz, porque com dez anos era pra estar… [faz o gesto de encerrar]. 

Alguém que falar dela tá falando de si próprio. Eu não falo mal da empresa, de jeito nenhum. Gosto. 

 

P/1 - Como eles foram falar com o senhor quando precisaram das terras? Chegou alguém e falou o que pro senhor?

 

R - Primeiro chegou o pessoal de cadastro. Teve um pouquinho de entrevista, umas palestrinhas, fazer cadastro, teve sondagem de terra - outra empresa fazendo sondagem, praticamente pago por ela. Na época, era a MPX; depois mudou, é a ENEVA. 

Teve a sondagem de terra, da área, depois chegou o pessoal pra fazer o cadastro de todo mundo. [Disseram:] “Você tá sabendo que essa área aqui vai ser ocupada por uma empresa que vem montar uma termelétrica?” Foi assim. E graças a Deus, agradeço.  

 

P/1 - Vocês tiveram que se juntar pra conversar como ia ser, o senhor e os outros moradores?                           

    

R - Nós tivemos uma associação lá. Tinha umas reuniões lá [nos] finais de semana. Tem associação, então já tem reunião pra nego conversar, todos, né? Se fossem só dois não, mas tinha muita gente. 

Foi feito o acordo de que a área ia ser ocupada por uma empresa. Todo mundo concordou. Não ia sair despejado, eles iam indenizar de acordo com sua propriedade. Não era uma indenização assim, alta, [era] de acordo… Conferiam o que você tinha. Assim que foi feito. 

 

P/1 - Por que vocês vieram todos juntos e não quiseram que cada um ganhasse dinheiro e fosse pro seu destino? 

 

R - Ah, teve gente que disse assim: “Eu não quero ir pra lá. Não quero casa, quero é meu dinheirinho”. E hoje tão mandando comprar área dentro do polo, uma coisa que a gente não podia aceitar - outra pessoa comprando dessa pessoa que não quis vir pra cá. Acho isso uma coisa errada.

Quando foi pra gente sair de lá, a empresa fez o seguinte: pagou pra cada um alugar casa, até aprontarem aqui. Alugava a casa e a empresa pagava trezentos reais, até a pessoa ser removida pra cá. 

 

P/1 - O senhor gostava, apoiava a ideia de vir pra Vila Nova Canaã? O senhor veio visitar? 

 

R - Viemos visitar, teve a visita aqui pra gente olhar a área. Teve a visita quando estavam construindo. Teve a visita lá onde nós estamos hoje, no polo agrícola, [pra] olhar a área. Teve tudo isso.

 

P/1 - Como vocês construíram essas demandas? “A gente quer assim, quer assado”? O que vocês falavam pra ENEVA? 

 

R -  Eu não falei nada. Eu apoiei porque tinha que apoiar de qualquer maneira. Não tô me dando mal. Essa daí, comigo… 

Meu olho tá começando a doer. 

 

P/1 - O senhor não quer dar uma pausa? 

 

(PAUSA)




P/1 - O senhor fez uma lambada?

 

R - Eu fiz quase nesse ritmo. Quer ouvir? 

 

P/1 - Eu quero. 

 

R - (cantando)

Se você vai construir, fale com o pedreiro

Fale com o carpinteiro pra ele medir a madeira

A sua casa é grande, sala, quarto e corredor

Uma despensa grande é que vai lhe dar valor

Eu sou dono de um depósito, vou vender a madeira

Vou botar a madeira, vou botar a madeira

A sua casa é grande, vai levar muita madeira

 

P/1 - O senhor disse que canta mal, como assim? Quem botou essa ideia na cabeça do senhor? 

 

R - Eu mesmo. 

 

P/1 - O que mais o senhor gosta de cantar? O senhor canta quando? Quando acorda? 

 

R - Eu canto sempre mesmo, assim…

 

P/1 - Quando está trabalhando?

 

R - Isso. A gente canta trabalhando, lembrando de certas coisas e vai cantando. 

 

P/1 - Quer cantar mais alguma? Pode cantar, tá legal. O que o senhor gosta mais de cantar? 

 

R - Brega. Mas não é minha. 

(cantando)

Eu não sabia que ela era casada

Foi por isso que eu telefonei

Em nosso encontro ela não me disse nada

Por minha culpa, também não lhe perguntei

Seu telefone descobri só porque ela 

A sua agenda comigo esqueceu

Do outro lado ouvi uma voz tão diferente

Seu marido foi que me atendeu

Pedi desculpa, logo fui dizendo

“É linha cruzada, meu amigo, foi ligação errada”

Pedi desculpa e logo fui dizendo

“É linha cruzada, meu amigo, foi ligação errada”         

      

P/1 - Essa música é pra quem? O cara ligou na casa da mulher…

 

R - Liga, o marido atende. O cara tem que disfarçar um pouquinho: “Desculpa, foi ligação errada.” (risos)

 

P/1 - Quando o senhor trabalha o senhor gosta de cantar?

 

R - Eu canto em qualquer coisa. Canto até bumba-meu-boi, se for possível.

 

P/1 - A sua mãe, seu pai cantavam trabalhando?

 

R - Não, quem cantava mais era os meus irmãos. O pai não. 

Eu tenho eu irmão mais velho, ele brincava de bumba-meu-boi. Ele tá com o mesmo problema, pior do que eu, na visão. Eu, tá um pouquinho do lado, mas tá. Ele tá com os dois lados. 

Ele brincava de bumba-meu-boi e fazia assim [faz o gesto de abrir a boca sem som]. Jurava que tava cantando, mas não tava não. Dançando, tudinho. No dia seguinte, ia só assobiar, fififi, fififi… Não cantava. 

 

P/1 - Conte uma coisa, vocês que escolheram como ia ser o polo, o que vocês iam plantar? 

R - A gente nunca tinha trabalhado com parte de hortaliça. Viemos pra cá, teve técnico pra ensinar como era. Nessas casas todas aqui tinha canteiro de hortaliça; o técnico tava ensinando como trabalhava, pago pela empresa. 

Lá no polo, a mesma coisa, técnico, então nego aprendeu a trabalhar. Nós aprendemos e [fomos] levando a vida. 

 

P/1 - O que o senhor diria que aprendeu a fazer com essas pessoas que não sabia?

 

R - Fazer canteiro no chão, fazer canteiro pra plantar hortaliça. Eu não sabia, só ia fazer o jirau em cima, no interior eu fazia pra plantar. Mas aqui não. A gente já pegou a prática. Graças a Deus, eu tô bem. 

 

P/1 - O senhor, o pessoal produz lá no polo. Como é, todo mundo tem que produzir do mesmo jeito? 

 

R - Produz do mesmo jeito porque lá não tem assim… Nós temos padrão de perdição, de perda. Se eu faço um canteiro de cheiro aqui, planto dois; aquele ali planta dois também. Outro planta dois, planta tudo uma coisa só. Quer dizer, vai ter falha. Se você trabalhasse só com cheiro, eu trabalhasse só com a cebola, eu comprava o cheiro da sua mão e você comprava a cebola, tinha a couve... Mas quando um planta dois canteiros grandes sozinho - o menor que eu digo é de uns vinte metros. Planta todo mundo uma coisa só, entendeu? 

Se um plantasse só uma área pra milho, quando chegasse a época você vendia o seu milho, vendia sua alface, outro vendia sua macaxeira… Mas sai tudo de uma vez, aí tapa o meio campo todinho. Se cada um plantasse um produto, não é pra faltar; você também, esse aqui, não é pra faltar. 

Onde você plantou o cheiro verde, você arranca e tem que plantar outra coisa, não pode repetir naquele mesmo local. Você tem que plantar feijão, pra fortalecer a terra. 

Não só uma coisa, num lugar só por muito tempo. 

 

P/1 - Vocês plantam tudo sem agrotóxico? 

 

R - Não existe, nem pensar. Eu tenho uma ponta, uma área que eu tenho lá. Se eu fosse botar pra matar o capim - não sei se você sabe, é o capim-gengibre. Ele enraíza na terra todinha. Planta nenhuma sai nele. Eu botava o veneno, matava o capim e acabava com a terra. Acredita? 

Não, tô arrancando o capim pra não estragar a terra, porque o veneno que mata o capim atinge a terra, acaba. Com o tempo, não presta pra nada. 

 

P/1 - Então vocês escolheram não usar agrotóxico. 

 

R - Por isso que ninguém usa lá. Lá tudo é natural - banana, tudo. Ninguém bota remédio não. 

 

P/1 - Vocês vendem onde? Como vocês fazem pra vender, entregam pra onde? 

 

R -  Se eu tivesse material, tivesse a produção… Do Ceará vem quase todo dia carradas e carradas pra CEASA. Se tivesse aqui, nossa produção ia toda daqui, da ilha. Se tivesse uma CEASA aqui, na região, a produção que dá nessa área é grande, dava pra abastecer também. 

Os daqui vão comprar na CEASA o que vem de fora. 

 

P/1 - Eu vi que entrega na escola, por exemplo. 

 

R - Entrega em muita escola, tem muitas escolas [que] vai banana, vai tudo. 

 

P/1 - Vocês vendem em feira também?

 

R - Vende. Eu não vendo, mas tem parceiros lá que vendem. 

 

P/1 - O senhor quer fazer uma pausa? 

 

R - Vamos até o fim. Eu tenho que ir embora cedo, porque eu preciso botar de comer pros meus bichos lá. 

 

P/1 - Então vamos direto. Conte pras pessoas o que o senhor planta na sua casa, que bicho o senhor cria agora no seu sítio. 

 

R - Meus porcos, galinhas, meus patos. 

 

P/1 - E planta o que lá?

                                      

R - Tenho dois tanques com peixe - tambaqui, tilápia. Tem plantação de cana.

 

P/1 - E hoje lá mora quem? 

 

R - Na minha casa? Agora, só meu cachorro, que tá vigiando. Tá amarrado bem na entrada da garagem.  

 

P/1 - Como o senhor vê agora a Vila Nova Canaã? O senhor acha que precisa melhorar ou não? 

 

R - Realmente, não é só aqui no Canaã. Até a cidade, geral precisa de melhora. Quando falta uma coisa, falta outra. É que nem aquela história do corvo.

 

P/1 - Qual é essa história? 

 

R - “De dia falta água, de noite falta luz. Em casa só tem uma coisa, o milagre de Jesus.” A mesma coisa. Falta melhorar o Canaã? Não. Pra todo lado que você vai você não vê reclamação, que falta melhorar? Então é geral. 

Você vai no centro, inclusive agora, a cidade tá bonitinha. Mas os candidatos dizem que falta isso, falta isso, tem que fazer. Tem que melhorar muita coisa, não é só aqui não.

Aqui falta melhorar a pavimentação nas ruas, merece isso aí. A iluminação tá boa, mas se aqui fosse tudo ‘no tapete’, tava bonito. É isso, não reclamo de nada não. 

 

P/1 - E no polo, o senhor pensa em fazer algo mais no seu sítio? 

 

R - Eu penso em melhorar um pouco. Talvez vá melhorar, não sei. 

A administração é péssima de presidência, isso eu acho péssimo.

 

P/1 - Por que? 

R - Não apoio muito a presidência que toma conta de lá. Nós temos a nossa associação, mas… Em primeiro lugar, pra mim era presidência que assumisse, todo final de ano tinha que ter ‘prestamento’ de contas. Quando fala em ‘prestamento’ de contas, é briga. Tá com dois anos que não tem ‘prestamento’ de conta. E não tem dinheiro, não sei pra onde é que vai. Quando entra um dinheiro lá, são dez mil, teve época até de quarenta mil, e não tem benefício, o dinheiro some. Não sei se é cupim, porque rato lá, se tem é pouquinho. Deve ser algum cupim que rói o dinheiro. 

Só o meu teve um desconto de novecentos reais, não sei de que, um mês atrás aí. Então acho que é uma coisa que precisa melhorar. 

 

P/1 - O que o senhor faria lá no polo, que o senhor acha que é o certo de se fazer lá? 

 

R - Pra melhorar? Acho que trocar de presidência. O presidente já completou oito anos, mas tá dentro dos doze. Já comandou oito anos, já era pra ter saído e não quer sair. E ‘prestamento’ de contas não existe. Tá alguma coisa errada, não tá?

 

P/1 - E como está hoje a relação da empresa com o pessoal aqui? Eles ainda visitam vocês?                              

 

R - Meu amigo, eu não tenho o que falar mal da empresa. Eu falo bem, porque uma empresa [que por] dez anos, que precisou dessa área lá botou a gente pra cá… Outra empresa já tinha feito o quê? Lavado as mãos.

Ela não deu tudinho pra nós? Deu a área, deu casa, geladeira? Deu. E até hoje tá enxugando as nossas mãos. Lavou as mãos da gente e ainda tá enxugando. Eu posso falar de uma empresa dessas? Posso não. Já era pra ela ter limpado as mãos, mas até hoje ela tá… Precisando… 

Por causa que eu já tô idoso, que eu passei, já tô na terceira idade… Se eu fosse mais jovem, eu ia pedir serviço na empresa porque eu sei que é boa demais. Sabia que ela ia dizer assim: “Tem serviço pra você.” 

Ela ajudou demais, já completou dez anos e ainda tá mantendo. Não posso falar dela. Inclusive, de uma das nossas representantes na empresa, a Beth… Uma pessoa excelente. É um anjo. Ela não merece [que] falem da empresa e nem dela. 

 

P/1 - A Elisabeth, que vai até hoje…

 

R - Essa Elisabeth. 

 

P/1 - O que vocês estão planejando pro futuro [com] a Beth, vocês estão conversando alguma coisa? 

 

R - A gente não tem muita ideia conversada, mas a gente vê o que ela faz. Conversa popular, bom dia, boa tarde, ela conversa; algum projeto bom que ela tem, agora mesmo tem um projeto que a gente tá tentando - teve até uma reunião hoje pela manhã - de plantação de cacau. Ela falou que tá lutando pra ver se consegue isso, e hoje veio o pessoal, estivemos conversando. Ela quer ver se a gente… [Uma] pessoa dessa é boa, não posso falar mal dela. Deus não deixa falar não. 

 

P/1 - Antes da gente terminar, o senhor gostaria de falar alguma coisa, contar uma história?

 

R - Sobre o quê?

 

P/1 - Sobre o que o senhor quiser, na verdade. 

 

R - Só história que eu tenho pra contar, coisas seriíssimas acontecidas. 

Eu tenho duas coisas pra fazer, não sei se você vai me perguntar. Uma pessoa com 96 anos trepar num pé de pitombeira que dá na faixa de uns vinte metros de altura… Com 96 anos tá bem idoso, não tá? Trepar num pé de pitombeira pra pegar pitomba…

 

P/1 - Quem foi? 

 

R - Minha avó. Era um lance de pau, de comprimento, não tem galho. Ela nem subiu nem desceu. 

 

P/1 - Ficou presa lá?

 

R - Desapareceu. 

 

P/1 - Sua avó sumiu?

 

R - Sumiu. Ela gostava de trepar, subiu no pau. Minha avó sumiu. 

 

P/1 - Nunca mais apareceu? 

 

R - Ela sumiu no pau. 

 

P/1 - Qual é a outra história que o senhor quer contar? Eu não sei perguntar porque eu não sei qual é, mas o senhor pode falar.

 

R -  É piada. O caçador foi pro mato. Fez um _____ num pé de marfim - uma fruta que cai na mata, que o veado come. Preparou a espingarda, foi. 

Vou deixar essa de lado, vou buscar outra. 

O senhor de idade atirava bem, o bisavô do meu pai. Atirava bem de espingarda, não errava um tiro. Ele precisou pescar, foi tirar uma palhinha pra fazer o cofinho pra ir pescar - um cofo de atirar coque; coloca aqui do lado, vai pescando e colocando aqui. 

Tinha um capinzal, uma vertente que ele atravessava pra chegar na ponta de mato, onde tinha as palhas. Ele atravessou o capinzal, quando chegou lá tirou a palha e olhou o comido de uma palmeira, cotia roendo o coco. Ele disse: “Aqui tá bom de cotia, vou matar essa cotia de tarde.” Ele fez uma tocaia de palha pra se esconder e quando a cotia chegasse, ele matasse. 

Ele fez lá, foi pra casa. Gostava de um conhaque, né? Quando foi quatro horas: ‘Vixe, tá na hora de eu ir pra serra, _________.” Foi esperar essa cotia. Ele foi no comércio, tomou um par de conhaque; levou o vidro, encheu de conhaque pra tomar no mato. Botou aqui dentro do mocozinho - mocó é aquele que bota o chumbo, a espoleta, tudo. Foi embora.

Quando chega na ponta de capim pra ele atravessar, uma cobra agarrou…[faz o barulho da cobra] Ele tinha a vista meio ruim, disse: “A cobra pegando essa gia. Tu não vai comer essa gia.” 

Saiu com a espingarda, quando chegou a cobra tava agarrada com a gia. Ele imprensou a cobra aqui e a gia escapuliu. Disse que a ____ ficou com a boca aberta pra querer agarrar ele; ele pegou o vidrinho, abriu aqui e na hora que ela abriu a boca ele jogou conhaque dentro da boca da cobra. A cobra saiu rolando, foi embora. 

Dentro da tocaia que ele fez, ele se assentou. Quando ele viu, fazia assim no mocó [faz um barulho] - era a cobra com outra gia, pra trocar por uma dose de conhaque. Tu acredita? 

Ele já tinha bebido o conhaque. Ela voltou com a gia. (risos) Cobra besta! (risos)

 

P/1 - O senhor tem outra dessa?

 

R - Agora que vai entrar o veado, viu? 

O cara foi pra espera de veado. Bom de tiro, ele confiava. O veado, quando são cinco horas da tarde, ele tá no ponto. Espingarda boa, ele confiava. 

Chegou no mato, aí tá lá. Por isso que não é bom atirar em todo bicho - como eu disse, todo bicho tem dono. 

Ele confiava na espingarda, tá lá sentado. Quando ele viu, fez ´pá!’ Ele olhou, um veadão; ele armou a espingarda, meteu em cima: pá! O veado ____em cima dele. Ele quebrou aqui, botou outro cartucho: pá! O veado, sisudo. 

Ele disse: ‘Esse veado é danado.” Botou outro cartucho, pá! O veado sisudinho. “Pisca, rapaz! Tu não tá piscando?” (risos)

O veado é ele, eu tô atirando nele e ele tá sisudo em cima de mim, sô! (risos)

Ele tinha que fazer isso (olhar pra trás), pra não ficar… Ele atirando e ele sisudo. Pisca!

 

P/1 - O senhor começou a contar essas histórias faz muito tempo?

 

R - Não, comecei agora. Não foi agora que você pediu pra eu contar? Mas eu sabia dela há tempos. 

 

P/1 - Eu tô perguntando se o senhor gosta de contar [histórias] faz tempo. 

 

R - Tem a história da jovem. Já ouviram falar da jovem que não era pra andar, de perna fechada? 

P/1 - Não. 

 

R - Pra não cair a honra, a virgindade dela podia cair. Ela só andava assim, bonitinha. Tinha o irmão dela, os pais iam pra roça. 

Veio um caboclo que já sabia da história, que era pra andar bem devagarzinho. Não era pra pular, não era pra correr, [senão] a virgindade caía. 

Ela tá lá, andando de perna fechada. Chega um caboclo num cavalão bonito. “Ô moça, me dê um copo d'água aí.” Ela vem toda de perna fechada, andando devagarzinho… 

Ele disse: ‘Moça, o que você tem? Você tá doente?” Ela disse: “Não, moço. Eu tenho que andar devagarzinho mesmo, pra minha honra não cair. Papai e mamãe pedem pra eu andar bem devargarzinho.” “Minha filha, eu sei costurar.” “Sabe, moço?” 

Ele disse: “E esse menino aí?” O menino disse: “Moço, me dá um bombom?” “Tá aqui o dinheiro pra comprar.” O comércio [era] meio longe, o menino foi.

Ele foi costurar, pra não cair a honra da menina. Terminou de costurar, o menino chegou e ficou olhando. Parou lá o negócio, ela saiu pulando. “Pode pular.” Ela pulava, pulava. O menino tava olhando.               

O caboclo montou no cavalo, foi embora. Quando a mãe dela chegou da roça mais o pai, ela tava dando pinote. 

“Minha filha, não faz isso! Tua virgindade vai cair!” Ela disse: “Não, mãe. Chegou um moço aqui, costurou. Eu pulei foi muito e não caiu.” O menino disse: “Não costurou mais porque não quis, pai. Tinha dois novelos de linha no pé ainda.” 

Entenderam? 

 

P/1 - Sim. (risos)

O senhor gostou de contar um pouquinho da sua história pra gente hoje, de lembrar essas coisas? Como é que foi? 

 

R - Lembrar? Como assim?

 

P/1 - Falar do seu pai, da sua mãe, da sua infância…

 

R - O que eu tinha pra falar eu já falei. Não lembro mais não.

 

P/1 - Como assim o senhor não lembra? O senhor contou tanta coisa pra gente…Não esquece o nome de uma pessoa. 

 

R -  De nenhuma pessoa eu esqueço assim, não. Fácil, não.

Eu já falei muita coisa que foi perguntada, falei coisa que não foi da pergunta. Mais ou menos como que é pra eu falar? 

 

P/1 - Tô perguntando pro senhor como foi contar essa história. Não sei se já gravaram isso. 

 

R - Escutei essas histórias, coisas do antigo, do passado. Escutava os mais velhos conversando, aí… Entenderam? O jovem, o mais velho conta, aí a gente vai gravando na mente. 

História de pescador, que é um bicho mentiroso. Pega peixe com o quê? "Rapaz, peguei um almoço.” Ele não diz o que pegou em quantidade de peixe. Pegou uns quilinhos. “Peguei muito peixe hoje”. Não, ele acha que o cara quer pedir o peixe dele, não fala a verdade.   

 

P/1 -  Obrigado, seu Zé Maria. A gente só não estica mais porque o senhor falou que precisa… 

 

R - Eu tenho que ir embora. 

 

P/1 - Obrigado. 

 

R - Você deve desculpar se eu passei do limite. 

 

P/1 - Imagina! Foi ótimo.

          

.                      

       

     


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