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História

Um grande conhecedor de madeiras

História de: Domingos Sanches Pena
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Em seu depoimento Domingos Sanches Pena recorda sua infância na cidade de Breves e como começou a sua vida de marítimo, navegando entre as localidades do Pará. Recorda o começo de sua profissão no Projeto Jari e como foi aprendendo aos poucos a conhecer cada tipo de madeira da Floresta Amazônica. Como classificador de madeiras pode aprender e ensinar sobre a flora brasileira. Finaliza falando sobre os filhos e o trabalho que desenvolve atualmente no viveiro de orquídeas do Projeto Jari.

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História completa

Eu nasci dia 15 de setembro de 1939, às 4h30 da madrugada, no município de Breves, Rio Tajapuru, estado do Pará. O nome do meu pai é Manoel Gonçalves Pena e minha mãe Josefina Sanches Pena. Eles são de Breves também. A minha avó paterna chamava-se Maria Pena. E materna chamava-se Julia Sanches. Os meus bisavós, eles falaram, que vieram do México, só que ficaram aqui no Pará e ficou sendo paraense, brasileiro.

 

Eles eram seringueiros, do tempo da borracha, trabalhavam em seringa, aqui no município de Breves. Já meu pai trabalhava em engenho de açúcar. Meu pai fazia açúcar com a cana de açúcar. Foi por essa causa que eu não pude frequentar certas escolas. Desde pequeno eu trabalhava no engenho porque era movido a boi, tração animal, que quando os bois eles se ‘ferreavam’ que não queriam andar, então não tinha quem fizesse eles andar, então eu chegava, batia neles, brincava com eles, eles corriam e ficavam, funcionavam normal. Meus pais casaram e foram para Breves. Tiveram seis filhos. Eu sou o segundo.


As casas que morávamos em Breves era casa de palafita, no ribeirinho. Por dentro era tudo em estilo rústico. Coberto com palha de buçu e assoalhado com paixiúba. É uma palmácea que tem muito no interior. Tinha o quarto da mamãe, tinha o nosso, tinha o da empregada, e um quarto cômodo, fora a sala. Os irmãos dormiam tudo junto. Mas eles foram crescendo e saindo. Breves não mudou nada, continua quase do mesmo jeito. Só que corria mais dinheiro era por causa da fábrica da borracha. Passou para madeira e agora é só comércio.


A gente brincava muito. Era turma do banho de rio, era jogando bola, brincando com pipa, e assim era na infância. Desde os 10 anos eu estudava e trabalhava. Entrei na escola acho que com 7 anos e já comecei a estudar. A escola era bonita. A professora chamava-se Filomena dos Santos Soares, que até hoje eu ainda tenho saudade dela. Nós íamos de canoa, a remo. E ia muita gente. Eu estudava na parte da manhã e na parte da tarde eu ia para o engenho. Depois eu passei a estudar em casa.  

 

Nessa época nós éramos católicos. Minha mãe era muito católica. Mas foi depois que eu cresci que eu comecei a estudar várias religiões, e procurando uma religião certa. Fui encontrar a verdade na Igreja Adventista do Sétimo Dia porque estava tudo baseado na Bíblia Sagrada.  Com 13 anos comecei como marítimo. Eu viajava de Belém ao Madeira. Rio Madeira, no Rio Amazonas. Fazendo escalas em Breves, Gurupá, Almeirim, Santarém, Óbidos, Oruximiná e Maués, Terra Santa, Manaus, e de lá nós entrávamos no Madeira. Ia até Cruzeiro do Sul e Xapuri, que demorava um mês e quatorze dias de baixo para cima. Eu tinha 15 anos e fui até os 18 anos.

 

Só que um dia, quando eu estava com 16 anos, eu achei que eu não devia seguir essa profissão de marítimo. Eu entrei como moço de convés, que quando eu saí eu já era o comandante.Essa região é uma região muito pobre. A vida dos ribeirinhos é uma vida muito sofrida. Desde essa época era difícil colégio, difícil professor, a maioria do pessoal era analfabeto. Só que a gente tinha que dançar conforme a música. Era carregar negócio de mercadorias para essas cidades. Começava de açúcar, café, toda essa parte básica, até bebida. Quando o dono entregava mercadoria e em troca comprava pirarucu, essas carnes, boi, essas coisas toda, e trazia para vender Belém. Acidentes sempre existiam. 


Eu tive uma visão comigo de querer saber tudo. Porque é assim, se eu vejo um livro eu quero saber tudo daquele livro. E eu ouvia falar da parte botânica, ouvia falar o que é que engenheiro florestal fazia e eu comecei a estudar também isso tudinho. Desde os 15. O que me inspirou era o conhecimento, o que eu queria conhecer, porque a parte marítima eu já conhecia, religião também já conhecia, então faltava eu conhecer as plantas, porque é uma coisa grande. Comecei a trabalhar nessa serraria, mas foi tempo que a serraria acabou, porque a exportação ficou meio ruim, e eles pararam. E eu fiquei em Macapá. Eu comecei a trabalhar por conta própria, compra e vendia alguma coisa. 


Nove de maio de 1971, um dia eu estava no hotel em Macapá à noite. A gente estava batendo um papo com o pessoal e um falou para mim: “Olha, é o seguinte, eu me chamo de Iuiu  e eu estou aqui para contratar classificador de madeira para levar para Jari. Você não quer dar uma experimentada lá na Jari?”. Eu disse: “É, rapaz, eu vou lá dar uma experimentada”. Não sabia nadinha sobre o Projeto Jari. Só ouvia só comentário. A única coisa que eu sabia era que o dono primeiro dela, era José Júlio de Andrade. Era um cearense que conquistou essas terras tudinho. Ele era coronel com patente comprada, que naquele tempo era assim, quem tinha dinheiro comprava tudo. Quando foi dia 14 de maio de 1971, às 9 horas do dia, eu me apresentei no escritório do Jarilândia. Era o nome da Companhia Florestal Monte Dourado.  


Era bom nesse tempo, a gente ganhava muito dinheiro, porque fazia muita hora extra. Eu lhe digo sinceramente, quando eu recebi meu primeiro pagamento, eu cheguei em casa com o dinheiro, eu disse à esposa: “O que nós vamos fazer com esse dinheiro?” Eu já estava casado. Quando eu fui para o Jari eu já era casado. Primeiro eu fui para Macapá depois é que eu trouxe ela para ir para Jarilândia. E no tempo dos americanos, que o dono era o Ludwig.


Minha profissão era classificador de madeira. Ainda não tinha planta, era só classificador de madeira. Quando a exportação parou, um bocado dos identificadores foram demitidos. Me botaram para o almoxarifado. Surgiu o São Raimundo, que era um projeto muito grande, o projeto arroz. Eu saí  de Jarilândia, e fui para o São Raimundo ser enquadrador de peças. Peguei esse livro no almoxarifado e comecei ler e ver esses negócios como era que acontecia. Só de ler eu aprendi. Quando foi depois o projeto arroz começou a cair, eu vim transferido para uma serraria aqui em Monte Dourado de São Raimundo. Quando cheguei aqui fui trabalhar na serraria. Então a gente começou a fazer curso. Veio o Senai para cá, fazer curso de identificação de madeira. Eu tive aula com Nilo Tomás da Silva aqui mais ou menos um cinco anos direto. Ele era o botânico aqui da Jari. Ele era filho de índio. Mas muito inteligente. Conhecia tudo. 


A gente saía de férias, saía para passear. Era por carta, porque nesse tempo não tinha celular, não tinha computador, não tinha nada aqui, não. Mandava para certas pessoas conhecidas. Demorava a chegar outras cartas. Não tinha, nadinha. Não tinha Correios, só chegaram depois. Os Correios chegou depois que a fábrica chegou.A diversão mais era no Laranjal do Jari. Ia para lá, quem gostava de dançar ia, para farrear. 


Eu comecei aprender as plantas que fornecem madeira, as plantas medicinais, que servem para remédio e as plantas que são os frutos comestíveis. Quando foi autorizado para nós marcarmos madeira nativa para fazer celulose, veio gente da Embrapa, veio gente de Belém, veio gente de Manaus, tudo identificador. Pessoas qualificadas para marcar madeira, chegaram aqui e ficharam, e foi tudo para mata, para os pátios de madeira nas estradas para marcar madeira. Eu treino o pessoal, os identificadores. Todo identificador que tem aqui é treinado por mim.  Tem identificador que já mandou até o agradecimento para mim, que está na África, fazendo o maior sucesso. Gente que aprendeu comigo aqui. Eu é que preparo as listas tudinho. Estudava mas era pouco de ir à floresta, eu só ia pegando algum detalhe que ele falava. 


Para mim pegar o primeiro diploma de identificação de madeira eu tive que fazer, dentro de uma hora, 100 fichas de dendrologia. Dendrologia é você conhecer a planta por dentro e por fora, escrever, só fazer preencher aquela ficha. O manejo florestal sustentável aqui é muito bem organizado. Só você olhando para você ver como é a nossa preocupação com o meio ambiente.  No Congo eles usam o manejo florestal digital. 


Conheci minha esposa foi em 1979, sabe, eu me empreguei numa firma de exportação de madeira em Macapá, na PVS, e um dia teve uma festa.  Eu vi essa menina, mas eu já estava gostando de uma prima dela, e eu resolvi deixar a prima dela e comecei a gostar dela. A gente casou.  Só que ela era muito novinha quando a gente casou. Ninguém casou, a gente se amigou, porque o padre não quis fazer o casamento devido a idade dela. Ela tinha 13 anos. Eu tinha 29, quase 30 anos. Mas porque foi o seguinte: eu estava bem empregado nessa firma, ganhava bem dinheiro, sabe, e tinha morrido o pai dela, morrido a mãe dela, eles moravam no interior com os parentes, com os tios. Os tios também não eram muito bons. E eram 5 filhos que eles tinham. Depois que a gente se amigou, a empresa me deu uma casa. Eu levei ela para lá, ela levou os meninos e eu terminei de criar eles tudinho. Teve que criar as meninas. As meninas estão tudo formadas, trabalhando.


Depois começou a nascer meus filhos. Nasceu primeiro o Arnaldo, ele trabalha em Goiânia, é auditor e é contábil, depois nasceu Amiraldo, que trabalha aqui no coração da fábrica. E nasceu uma filha minha, Lucélia. Ela começou a estudar aqui, terminou o segundo grau, eu botei para Belém, ela queria ser dentista. Hoje ela é doutora cirurgiã odontológica. Hoje ela trabalha em Belém, tem a clínica dela e é funcionária da prefeitura. E eu tenho outra, a mais velha, que nasceu primeira, ela é deficiente, ela sofreu com paralisia infantil. Essa uma não trabalha, ela vive em casa. E nasceu um filho meu, o Alex. Terminou o segundo grau e eu botei ele para Belém para estudar. Ele viu uma profissão de engenharia de peças, onde é usada na Finlândia, que tem umas pessoas que usam essa profissão, que é uma profissão muito rendosa.  Só que ele não teve sorte.  Ele sofria uma doença com nome de colite. Quando ele estava no mês para se formar, ele faleceu, em Belém. E tem outra filha, de novo, que é a Natali, que essa uma estuda Letras em Macapá. Eu trabalho aqui. Trabalho no viveiro. No viveiro eu faço só supervisionar as orquídeas.


Olhe, eu não sei, eu fico até pensando sobre meus sonhos, porque o sonho que eu tinha era conhecer muita coisa, sabe, as plantas. Mas eu tenho 26 diplomas, de muitas coisas. Eu sou fotógrafo, sou identificador de madeira, sou classificador, trabalhei em almoxarifado. O meu sonho agora é ficar trabalhando aqui até quando Deus quiser, o dia que Ele não quiser mais, eu já estou aposentado. Uma coisa que tem que ficar registrada é o seguinte, é que eu tenho um conhecimento tão bom, e até aqui não tem outro para me substituir. Eu tenho que deixar para outros o conhecimento.

 

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