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História

Um futuro em construção

História de: Nathália Kozikas da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nathália nasceu em abril de 1996 na capital paulista. Vinda de uma família bastante unida, conta um pouco sobre a infância na casa da avó, onde aprendeu a ler e a brincar. Sempre muito estudiosa, foi aluna da ETEC e, posteriormente, graduanda em Biomedicina da Universidade Federal de São Paulo. Vinda de família simples, passou por alguns desafios para prosseguir com os estudos, entre eles um ano de call center, como atendente de suporte técnico. Sonha em seguir carreira acadêmica e é bolsista de mestrado na faculdade onde se graduou.

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História completa

Meu nome completo é Nathália Kozikas da Silva, nasci no dia cinco de abril de 1996, em São Paulo. Eu conheço mais a família da minha mãe que foi a parte com que eu tive mais contato. Meus avós maternos têm origens um pouco diferentes: meu avô é filho de imigrante italiana e imigrante lituano, que veio para cá, se não me engano, na época da Segunda Guerra; e a minha avó é descendente de indígenas. Eu não tive muito contato com os meus avós paternos, e eles não estão mais vivos. Mas eu sei que meu avô tem uma origem do nordeste. Minha avó paterna, eu já não tenho tanta certeza. Tem uma história bem bacana por trás, da qual eu pretendo ir atrás um dia.

 

Eu cresci com dois primos mais velhos, ali na casa da minha avó. Eles moravam com ela e eu ficava lá enquanto minha mãe e meu pai iam trabalhar. Era legal porque a gente tinha uma certa diferença de idade. Meu primo mais velho tem cinco anos a mais que eu, e o irmão dele, três anos. Eram dois meninos. A gente brincava junto, mas chegou um momento em que eles tinham outros tipos de brincadeira. Eles podiam sair na rua mas eu não podia, tinha brincadeira que eu não podia participar, mas a gente aproveitou bastante. A gente sempre foi muito unido e a gente brincava muito. Minha avó sempre criava muitas brincadeiras para a gente. Desde pequenininha eu sempre quis ter um irmão ou irmã. Eu tinha meus primos mas não era a mesma coisa. Eu queria ter um irmão mesmo e sempre pedia para os meus pais. Eu fiquei muito feliz no dia que o meu irmão nasceu. Foi um dia muito feliz mesmo. A chegada dele foi realmente muito legal para toda a família porque eu tinha sido a última neta, sobrinha, filha desde então. Doze anos depois chegou o meu irmão e toda a família ficou boba com a chegada de um novo bebezinho. Eu ajudava a cuidar e trocar fralda, e foi algo que fez eu ter uma aproximação muito grande dele. 

 

Minha família é muito grande até hoje. Não tanto quanto antes, mas sempre foi assim, porque meus primos foram criados na casa da minha avó e meu tio morava lá. Minha avó e meu avô foram como pai e mãe para eles. Foi uma criação bem com a avó mesmo. Como eu ficava lá porque meus pais trabalhavam e minha mãe tinha que passar lá todo dia para me pegar, todo mundo estava sempre lá. Meu irmão também fica na casa da minha avó, então é muito comum. Em datas especiais como Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal, era sempre lá que a gente se reunia para fazer os almoços. Ultimamente eu não tenho ido tanto lá, principalmente depois que eu comecei a trabalhar. Eu estava trabalhando e estudando, e a rotina estava pesada. Recentemente eu fui à casa da minha avó e ela falou: “Nossa, eu estava com saudade de você, faz tempo que eu não te via!” Aí eu percebi que é muito estranho eu ter ficado tanto tempo sem ir lá. A gente era sempre muito unido lá na casa da minha avó. 

 

Quando eu era criança eu pensei em ser várias coisas. No fim, acabei não sendo nenhuma delas, mas tudo bem. Por exemplo, a gente tinha um cachorrinho, eu era muito apegada a ele e queria muito ser veterinária. Eu queria ser professora também, tanto que eu tinha uma lousinha que minha avó que me deu, se não me engano, e eu sempre brincava que eu estava dando aula com essa lousinha. Minha avó sempre comprava giz para mim quando acabava e sempre me incentivou muito. Inclusive, quando eu aprendi a ler, foi por influência da minha avó. Eu lembro até hoje. Ela e meus pais sempre compravam gibis da Turma da Mônica para a gente e ela lia, incentivava, dava aqueles primeiros passos, ensinava... Eu lembro que uma vez eu peguei uma revistinha e estava deitada no sofá. Quando me dei por mim, eu estava lendo mesmo. Eu falei, li pra ela e ela ficou muito feliz e orgulhosa. Tenho essa lembrança muito viva comigo. Lembro até o canto do sofá que estava. Foi muito legal. 

 

Eu sempre gostei muito de ciências na escola. Quando eu estava na quinta série, eu tive um professor de matemática e ele, embora tivesse todas as adversidades da escola pública, estava sempre disposto a nos incentivar. Foi bem importante para mim ter esse professor para poder não deixar morrer a motivação. E eu tinha uma professora de português também que era bem legal e que esteve sempre do meu lado em algumas situações que não foram muito legais. Então esses professores me inspiraram quando eu estava no ensino fundamental. Mas as lembranças do ensino fundamental não eram tão legais assim porque é nessa idade que começa a questão de bullying e esse tipo de coisa, e eu tive a minha autoestima bem abalada nesse período. Ter tido o apoio desses professores quando acontecia alguma situação desse tipo foi fundamental para mim. Algo que me fez querer permanecer naquela escola, apesar de tudo.

 

No ensino médio eu mudei de escola porque eu não estava mais a fim de continuar ali. Meus pais não tinham condições de me matricular em uma escola particular, mas eu sabia que eu precisava de algo melhor. Fiz o processo seletivo para entrar em uma escola técnica e consegui passar. Entrei e foi totalmente diferente para mim, porque era um ambiente muito diferente. Como uma escola pública, tinha seus problemas de infraestrutura e tudo mais, mas para mim estava maravilhoso, era muito melhor. Eu não tenho recordação ruim do ensino médio pois foi ali que eu tive a oportunidade de saber o que eu queria e as matérias que eu gostava realmente, já que porque no ensino fundamental não era sempre que eu tinha aula de ciências. Eu contei com a ajuda dos meus colegas de turma, na época, para conseguir me nivelar e deu tudo certo. Fiz amizades que eu carrego comigo até hoje e que são meus melhores amigos e é uma escola muito legal. Para mim foi muito bom que eu tenha ido para essa escola.

 

O processo de decidir o que eu queria fazer, de fato, foi o seguinte: no primeiro ano a gente tinha aula de biologia com uma professora que era, para mim, a melhor professora que eu já tinha tido na vida. Quando a gente tinha aula com essa professora, eu me sentia muito inspirada, gostava daquilo que ela estava falando e queria muito aprender cada vez mais. E o que me incentivou eram meus amigos, que também gostavam. Eu tenho um amigo que se formou em Química, então ele sempre me ajudou em química, em biologia, e gostava muito desse assunto. Tive alguém com quem compartilhar aquilo sem eu me sentir estranha e, além disso, uma professora que explicava bem, que tinha uma boa didática e que despertava em mim o interesse. Isso foi muito importante para eu perceber a área em que eu queria me formar. Então, a princípio, eu queria fazer Biologia, mas comecei a pesquisar outros cursos relacionados à área da saúde e foi aí que eu descobri que eu queria fazer Biomedicina. No segundo ano do ensino médio eu já sabia que eu queria fazer isso.

 

Fiz o ENEM no segundo ano e foi bacana. A gente começou a se preparar para isso com a ajuda dos amigos e meu namorado. E no terceiro ano, que era o ano do vestibular, tinha uma maior pressão, que vinha de mim. Meus pais nunca me pressionaram em relação a isso. Eu não gostava tanto da área de análises clínicas e queria fazer pesquisa. Comecei, então, a desenvolver uma vontade muito grande de ser cientista e me interessei pelo curso da UNIFESP, que foi o primeiro curso de Biomedicina do Brasil. Então determinei esse objetivo: passar na UNIFESP. No terceiro ano eu prestei o ENEM e a prova da UNIFESP, mas não cheguei nem perto de passar e fiquei muito triste. Então fiz algumas provas e consegui uma bolsa muito boa em um cursinho muito bom daqui de São Paulo, onde consegui pagar bem menos. Minha mãe aceitou pagar e meu avô a ajudou. Foi um ano tenso e bem estressante, porque eu só estudava. No final do ano, eu prestei o vestibular de novo e eu passei em todas as universidades que eu prestei, incluindo a UNIFESP. Foi muito surreal, parecia que não era verdade. Eu fiquei muito feliz. Na hora eu liguei para a minha mãe e ficamos as duas chorando no telefone. Lembro que nesse dia meus pais chegaram em casa com comida para a gente comemorar. Foi uma sensação muito boa, de que tinha valido a pena.

 

Na universidade a recepção foi muito legal, eles sempre preparavam algo muito bacana para os calouros. O pessoal já estava me esperando, já pintaram minha cara... Quando eu fui veterana também, a gente se preparou com meses de antecedência para fazer uma recepção. Então foi muito legal, me senti muito acolhida mesmo. Eu cheguei para fazer a matrícula e já tinha gente me esperando. Já o primeiro dia de aula... Foi um baque. A primeira aula que eu tive no curso eu lembro até hoje onde foi, onde eu estava sentada, quem era o professor e qual era o assunto. Era Química Orgânica e foi surreal. Na universidade pública, a maioria dos alunos são pessoas com condições e que vieram de escolas particulares muito boas. Eu entrei pelas cotas de universidade pública e sentia que não estava preparada para aquilo, me sentia burra para estar naquele curso, chorei, e em vários momentos eu fiquei repensando se era mesmo aquilo que eu queria. Mas quem nunca? Mas o saldo foi positivo, eu não me arrependo de ter feito.

 

No último ano eu só tinha algumas matérias eletivas para fazer, então tinha mais tempo livre, mas o TCC consumiu bastante dele. Eu tinha uma bolsa de iniciação científica e era pouquíssimo dinheiro, quatrocentos reais que a gente ganhava para fazer a pesquisa, mas era o meu início de independência financeira, que é algo que eu almejo há muito tempo. Tive essa bolsa de iniciação científica desde o primeiro ano e desde então eu estava renovando e sempre deu certo, mas ocorreu um corte de bolsas de iniciação científica no ano passado e eles ficaram muito mais criteriosos. Nisso, eles para não aceitaram a renovação da minha bolsa por conta de uma DP. Estavam com uma quantidade bem menor de bolsas e não dava para atender todo mundo. Está certo que não era tanto dinheiro assim, mas era algo que me permitia ajudar um pouco os meus pais. Como meus pais estavam se separando, houve muito estresse e eu tinha até pensado em trancar o curso. Então comecei a mandar uns currículos aleatórios para qualquer coisa. Não que eu tivesse a intenção de começar a trabalhar ali, mas eu estava me formando eu precisava arrumar algum emprego. Nesse período de tempo que eu já estava sem a bolsa, eu fui chamada para uma entrevista de emprego na área de call center e fui contratada. Eu já estava finalizando meu TCC, faltava só mais um semestre. Eu saía do trabalho, ia direto para a faculdade, chegava na faculdade e começava já a trabalhar. Tinha dias que eu saía de lá às onze horas da noite. No outro dia já acordava cedo para ir trabalhar e fazia a mesma coisa. Eu trabalhava com suporte técnico a smartphones e computadores dessa marca, um produto que eu não tinha conhecimento. Então eu fiquei um pouco impactada, mas o treinamento foi muito bom e eu consegui me sair bem. O trabalho em si é um pouco estressante mas, dependendo da política da empresa, eles tornam isso um pouco mais tolerável. O fato de você ter pouco tempo para comer era muito negativo, porque se acostumar a comer em vinte minutos é algo que não é muito saudável. O momento de comer é para ser tranquilo, sabe? Então isso era um ponto muito negativo para mim, mas eu me acostumei. Além disso, lidar com algumas situações que a gente não tinha como resolver e não tinha muito controle, como lidar com clientes frustrados, estressados,  era bem chato. Assim que eu saía do trabalho, eu tentava deixar tudo isso de lado, tentava não deixar isso me afetar tanto.

 

Não era todo dia que você atendia um cliente desse tipo e eu tenho algumas situações marcantes com clientes que eram legais. Tem uma situação que me marcou muito, que foi quando uma cliente entrou em contato e estava querendo reaver o acesso a uma conta de email do aparelho do filho dela, que tinha morrido. Embora a mulher estivesse passando pelos problemas dela, ela foi muito educada e muito gentil comigo, como muitos clientes acabam não sendo. Eles sempre falam: “Se coloca no lugar do cliente, às vezes ele está estressado porque está acontecendo um monte de coisa na vida dele.” Mas não sei, essa cliente estava passando por algo muito difícil e, mesmo assim, foi muito educada. Alguns dos clientes tratavam a gente com muita arrogância, achando que o profissional está ali porque ele não tem estudo ou ele não tem capacidade de fazer alguma outra coisa. Acham que a gente é inferior de alguma forma. O principal é deixar as pessoas cientes que o atendente do call center é uma pessoa, é um trabalhador como outro qualquer, então ele está ali exercendo seu trabalho.

  

Mas me formar foi muito bom, muito gratificante, parece que um peso saiu das minhas costas quando apresentei meu TCC. E o momento da formatura em si foi muito legal. Eu lembro que foi muito corrido esse dia porque eu estava trabalhando. Foi em uma sexta-feira e eu trabalhava de segunda à sábado. Minha formatura foi à noite e foi super corrido, me arrumei correndo, não deu para fazer tudo do jeito que eu queria, mas tudo bem. Cheguei, o pessoal da empresa de formatura já me recepcionou e já me colocaram a beca. Tirei várias fotos e foi muito legal. A cerimônia, para quem está assistindo, acho que é um pouco chata. Mas quando você está ali em cima é muito bom olhar a cerimônia e todo mundo reunido. Foi muito bom. Chorei horrores. 

 

Me formei e tinha o objetivo já de entrar no mestrado. Eu já sabia a área que eu queria e o orientador que eu queria. Só que, para você entrar no mestrado, você tem que fazer o processo seletivo do departamento, então eu tinha que fazer uma prova. Como era uma prova difícil, eu tinha que me preparar bastante. Então continuei trabalhando porque minha renda dependia disso e, ao mesmo tempo, também estudava. Então fiz todo um planejamento de estudos, consegui seguir certinho o meu cronograma, fiz a prova no meio do ano e passei. Mas eu ainda precisava de uma bolsa de mestrado. Não dá para conciliar o mestrado com outro trabalho porque não é só estudar, já que ele é um trabalho mesmo. Então, nesse período de tempo, eu comecei a ficar um pouco desmotivada no trabalho, mas eu ainda tinha que continuar trabalhando ali enquanto não saísse a bolsa. Foi nessa época que eu fiquei realmente um pouco de saco cheio de trabalhar com atendimento porque tinha o que eu queria ali me esperando, mas deu tudo certo e estou fazendo mestrado com bolsa hoje em dia. O objetivo a partir de agora é ingressar na área acadêmica e desenvolver meu projeto de mestrado. Provavelmente eu vou acabar entrando no doutorado logo depois, mas eu não sei. Eu estou fazendo mestrado em farmacologia, então, às vezes, pode ser que eu consiga algo na indústria farmacêutica, até mesmo trabalhando com pesquisa para a indústria farmacêutica. Se eu for partir para a área de doutorado, eu pretendo tentar fazer isso fora do Brasil, porque as oportunidades são melhores. Eu não consigo delimitar certinho o que vai acontecer a partir de agora, mas eu sei que, pelo menos por enquanto, é o que eu quero fazer: seguir na área acadêmica e fazer pesquisa.

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