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História

Um 'furo' de memória

História de: Audálio Ferreira Dantas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/03/2014

Sinopse

A história de Audálio começa no interior de Alagoas. Ele fala de sua infância, da relação com seus pais, de seus irmãos e de seus três casamentos e filhos. Nos transporta através de sua narrativa de repórter para as redações de revistas e jornais por onde passou, nos levando por um caminho de muitas aventuras jornalísticas, inclusive a participação em uma guerra na América Central, a  sua carreira de redator-chefe e editor de inúmeras publicações. Como jornalista, testemunhou também vários episódios da ditadura militar muito marcantes em nossa história. Narra como chegou na vida política quase sem querer, em 1978. Enquanto deputado federal, participou da elaboração da primeira versão da Lei da Anistia em 1979.

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História completa

P- Então, vamos começar com a sua identificação, nome completo, local de nascimento e data, por favor.

R- Meu nome completo é Audálio Ferreira Dantas. Eu nasci na cidadezinha chamada Tanque d'Arca, com apóstrofo, em Alagoas. Quando eu nasci não era cidade, era um distrito do antigo município de Anadia, no dia oito de julho de 1929. O meu registro, no meu registro de nascimento não consta Tanque d'Arca, eu gostaria muito, inclusive porque eu gosto muito do apóstrofo e da cidade. A cidade é muito interessante. 

Ela tem uma praça e quatro ruas que se estendem nos quatro, no sentido dos quatro pontos cardeais, pode-se dizer, né? Era uma passagem de tropeiros, né? Ali as pessoas se arranchavam. Era uma transição da Zona da Mata para o agreste do estado de Alagoas. E, eram os caminhos que se cruzavam naquele lugar, numa beira de rio, muita água, um pé de serra, bonito! Uma cidade muito bonita. Mas o meu registro consta como em Maceió, que é a capital do estado. Até acho que meu pai achava que era mais importante, então me registrou na capital do estado. Consta oficialmente que eu nasci em Maceió, mas eu nasci em Tanque d'Arca. É, lá vivi esses primeiros anos. Eu saí de lá com seis, sete anos, de seis pra sete anos. Antes disso eu vivi em várias cidades do estado de Alagoas. Meu pai era meio inquieto, comerciante. Quando as coisas não iam bem, ele achava que era por causa do lugar. Mudava. 

Eu me lembro, eu me lembro de ter morado além de Tanque d'Arca, em outras duas cidades do interior do estado, duas pequenas cidades: uma que chamava Canudos, virou depois Belém de Alagoas onde nasceram os meus dois outros irmãos, a Olga e o Onésio. E outra chamada Canabrava, que também mudou de nome, eu não sei qual é o nome atual, mas são cidades próximas por lá. Até que veio a migração pra São Paulo, como é de praxe. Ele achou que aqui as coisas seriam mais fáceis pra se estabelecer. Ele tinha negócios de panificação e de armazéns. Armazéns que eram comuns no interior, misturados com... vendia tudo, esse tipo de coisa. Mas aqui as coisas não eram tão fáceis como ele imaginava ... Eu cheguei em São Paulo, acho que... eu não me lembro exatamente o mês, em Santos, via Santos, vim de navio. Portanto, eu não sou, não sou o típico pau-de-arara. Eu sou, eu sou marítimo em termos de imigração. Vim num navio chamado Itapé, que aportou em Santos e de Santos para São Paulo. Bom. São Paulo foi uma coisa muito importante, porque aqui já viviam pessoas da minha família, né? A minha avó, curiosamente a minha avó, a minha bisavó, alguns tios avós viviam aqui no interior, relativamente bem estabelecidos e isso facilitou um pouco as coisas.

 

P- É, já que você falou um pouco da sua avó, a sua memória de avós, tanto por parte de mãe como de pai, quais são as origens deles, você conhece?

 

R- Bom, é.  Eu não..., conheci nenhum dos avôs. Ou de, de um dos avôs? Não, nenhum avô, né, dá licença?  Eu conheci as duas avós e uma bisavó. Os avôs, os homens, morreram mais cedo, eu não me lembro deles. Tenho referências, de história da família, etecetera e tal. O meu avô materno, que era de uma família muito conhecida naquela ocasião, principalmente ainda hoje, em Alagoas, chama-se a família Ferro, no sertão de Alagoas, tida como gente muito valente. Um desses Ferros era a mãe de Graciliano Ramos, dona Amélia, Amélia Ferro. Era, ela devia ser prima do meu avô Napoleão Ferro, prima de primeiro, segundo grau. O Pedro Ferro era o pai dela. Devia ser, eu não sei exatamente, porque outro dia, alguns dias eu já conversei isso, sobre isso com a minha avó que já morreu e ela me falava, mas eu não... não sei exatamente qual era o grau. Mas era esse pessoal, desse pedaço entre Quebrangulo e Palmeira dos Índios que é uma região bastante conhecida. Do meu avô materno, João Martins Dantas, eu tenho poucas referências. É... mais que a família, os Dantas, os Dantas, é que ele fazia parte, de um grupo muito grande de irmãos [engasgada]. Eu conheci vários irmãos dele, os meus tios-avôs. Eram gente muito interessante, que estavam em Alagoas, já alguns vindos de Pernambuco. Os Dantas são muito espalhados por lá. 

A referência do meu avô, do meu avô materno, eu tenho mais, tenho mais por... contado pela minha avó materna, Maria Adélia da Conceição, a Nena. Ela chamava Nena, nome carinhoso de família, que falava dela com uma certa afirmação feminina. Ela contou a história, ele era dado ao jogo, e um dia eles tinham aquela coisa de terras que se herdam, cada um fica com um pedaço e a coisa vai terminando etecetera e tal, e a ela parece que restou um pedaço de terra e uma casa na cidade. E um dia de feira, chegou alguém para cobrar a casa que ele tinha perdido no jogo. E ela botou o cara pra correr [risos] de espingarda! Agora as bisavós, os Ferreira, Ferro, têm histórias muito fortes na família. Uma delas é da minha bisavó que eu conheci, morreu com 96 anos, aqui em São Paulo, 94, desculpe. Chamava Almerinda Ferreira da Graça. É..., um dia, o bando de Antônio Silvino, que foi muito conhecido antes do Lampião, no fim do século, eu acho que até o fim do século, ou começo do século, eu não me lembro bem. Mas o Antônio Silvino, e, segundo expressão dela contada, riscou com a... os cavaleiros dele, os bandos, os bandidos do grupo, né? Uma manhã bem cedo, riscou no terreiro.  Riscar no terreiro, quer dizer, chegou à cavalaria e parou no terreiro. E ele, o Antônio Silvino gritou se tinha... cadê o dono da casa? O dono da casa efetivamente não estava. Meu bisavô chamava Antônio Ferreira. Ele não estava, mas estavam vários irmãos, que ela teve 21 filhos. Estavam vários dos, dos filhos, já homens etecetera e tal, mas ela mandou que todos ficassem quietos e abriu a janela, uma das janelas, era uma casa grande, num alto. Aí ela disse pra ele que não tinha nenhum homem em casa. Aí ele disse então: "Bom dia, minha senhora" e foi embora. Essa é uma das mais belas histórias que eu tenho da minha família, dos Ferro.

Tem também muita história de violência. Se fosse contar tudo isso, a coisa ia brava, né? Como por exemplo, eu tive um tio que era um Alferes da Guarda Nacional, chamava tio Alferes. Tio Alferes era tio da minha mãe, portanto, meu tio-avô, e me disseram aí, o irmão do Napoleão. E ele, eu não me lembro o nome dele, só que era tio Alferes, e conta-se que ele, quando morreu, foi enterrado com a farda da Guarda Nacional e uma espada, que ele usava, que, segundo a lenda da família, era de ouro [risos]. Mas esses irmãos aí tinham histórias. Por exemplo, um deles uma vez, que era intendente de uma pequena cidade, intendente era... era o prefeito antes, né? Antes da República, né? Era o intendente da cidade e um dia ele prendeu um...uma pessoa qualquer, que por acaso era morador na terra de outro irmão...agora não me lembro os nomes. E esse era o Ferro, né, esse era o Ferro! Ele prendeu e aí, o irmão veio tirar satisfação. Ao tirar satisfação, eles brigaram. E sacaram armas, os irmãos e o que veio da fazenda a cobrar a liberdade do preso, do prisioneiro, acertou no tiroteio, não o irmão felizmente, né, mas acertou! Infelizmente, o preso que estava [risos] amarrado a um tronco próximo da prefeitura.  E, matou. Quer dizer, na... na... história da afirmação de autoridade, terminaram sacrificando aquele que pretendiam dar liberdade. 

São algumas histórias muito rápidas da família, que é, como eu disse, que se for adiante vai ser bravo demais, né?

 

P- Se você quiser estender, temos tempo. [risos]

R- Não, não. São histórias muito... muito interessantes. É complicado, é muito complicado, se formos chegar por lá. Por exemplo, Tanque d'Arca, minha cidade, é, o personagem principal de um conto que eu escrevi, agora pouco. Eu não cita..., o nome é outro, mas ela é, está muito fortemente marcada na minha personalidade.

P- É, eu acho que você poderia falar um pouco, então, da sua cidade. E das memórias de infância sua em Alagoas. Eu não sei. Há quanto tempo que você veio pra São Paulo, né?

R- Curiosamente, essa memória, ela, ela talvez seja tão forte, primeiro, porque a cidade é realmente interessante. É uma coisa, uma coisa muito marcante! Até a forma. Aliás, se você for, a rigor, se você for traçar a planta da cidade, o mapa da cidade, é uma cruz, né? Você usa essa imagem, esses caminhos que se cruzam, etecetera e tal. E eu vivi um tempo lá, que ficou meio de sonho, tá? na... primeiríssima infância. Depois acontece de, depois de vir pra São Paulo eu voltei e vivi lá mais uns três anos. Aí, já dos nove aos doze anos, mais ou menos. E vivi com essa minha avó, vó Nena, a vó da espingarda e me afeiçoei muito a terra e a ela, minha avó!  Uma figura muito interessante. Fora que isso tá na minha cabeça. Eu acho que isso é muito importante. Isso tem sido na minha vida alguma coisa importante no sentido de... Eu acho que é uma reserva, uma reserva emocional muito importante.

P- Você se lembra de brincadeiras do cotidiano da cidade nessa época?

R- Ah, sim.

P- Como era assim viver numa cidade pequena com essa carga de história..

R- Olha, a principal coisa é a...cidade era... a situação geográfica é muito interessante, nu pé de serra, uma serra muito bonita. Um bloco de pedra grande, muito bonito... e rios. Um riozinho pequeno que se chama São Miguel. Depois ele fica importante, mas ele nasce por ali, né? O rio São Miguel é importante. E aquilo lá...e...a brincadeira de criança, campo, essa coisa era muito, muito comum. E algumas lembranças familiares, aí já do lado paterno, né? Meus tios e primos, meus tios-avôs. Um deles era poeta... é... poeta. Escrevia, escrevia poesia popular, etecetera. O tio Rufino. O outro tinha um carrossel, imagina, o sujeito era dono de um carrossel que ele instalava a cada festa na praça central, eu era um freguês gratuito do carrossel! Tinha outro... outro, aí já é meu primo em segundo grau, primo de meu pai, que foi o primeiro prefeito da cidade, o José Rufino, Rufino Dantas. E figuras, ah... Um tio meu que era... ele tinha uma tropa de... burros. Negociava, e viajava. Eu achava aquilo muito bonito. Ele se chamava Arcebílio. Não era Alcebíades, não, era Arcebílio. E as vezes ele me...de uma cidadezinha pra outra, de lá pra uma cidade próxima, ele me carregava ... na sela, na frente, segurando. E isso pra mim, isso era uma maravilha de coisa. E ele era o chefe daquela tropa e... e... se chamava os Almocreves. Cê, você já ouviu falar nessa palavra?

P- Não.

R- É do português. Mais, é do português, almocreve. Ou tropeiros, né? E a cidade tinha, lá mesmo, devia ter uns três automóveis só, né? Um deles era um ônibus, chamava Sopa, que ia pra Maceió, acho, pra capital, a cento, cento e dez, cento e vinte quilômetros, acho que duas a três vezes por semana. Enfim, era isso. E da escola ah...nos primeiros anos de escola por lá, algumas lembranças interessantes também. Uma delas era que não sei porque, eu terminei sendo uma espécie de mestre de hinos. Eu ensinava, a professora me mandava ensinar hinos, inclusive nas escolinhas rurais em volta por aí, né. E eu me divertia muito com isso.

P- Hino Nacional?

R- Hino Nacional, Hino da Bandeira, Hino da Independência. Eu sabia tudo. Era uma coisa fantástica.

 

P- Como era o ensino? Quer dizer, era uma escola que atendia várias cidades da região, como era?

 

R- Não... a escola... nessa, nessa ocasião, não havia grupo escolar. Eram escolas isoladas, mesmo na cidade. Escola masculina, escola feminina. Tinha... na, na cidade devia ter umas três ou quatro escolas assim. Eram escolas isoladas. Depois é que veio o grupo escolar, o ginásio, essa coisa toda.

 

P- E, como é que você lembra do cotidiano da sua família, assim... Seu pai era rigoroso...? Como era...?

R- Não, meu pai, pelo amor de... Meu pai era um poeta! Tanto que ele se perdeu pelo mundo [risos]. O meu pai, ele era uma pessoa extremamente... Ele é meu personagem, também. Ele era uma pessoa extremamente hábil do ponto de vista de... Ele era capaz de fazer qualquer coisa. De letras parcas, ele era capaz de fazer qualquer coisa que ele quisesse fazer, né? Ele era capaz de construir as coisas. Ele, se ele quisesse construir, montar esse estúdio... ele via uma vez, ele montava o estúdio, etecetera e tal, a parte elétrica, essa coisa toda. Uma vez ele construiu de uma roda de bicicleta, ele tinha essa habilidade muito grande, de uma roda de bicicleta ele construiu uma dessas rodas de, de loteria que tem o números! Roda, ah, não sei, roleta que chama, qualquer coisa assim. Que havia esse tipo de jogo na feira. E ele foi bancar jogo lá, nas feiras, nas festas, etecetera. Outra vez ele foi, ele trouxe o sorvete pra... sorvete, a raspadinha, pra cidade. Foi um sucesso fantástico!

P- Não tinha até então?

R- Eu não esqueço, eu nunca tinha visto, não esqueço. Então, era um sucesso, porque tinha aquelas cores fortes dos xaropes, aquela coisa, né? E ele transportava gelo em caminhão. Trazia... aí comprou um caminhão ...comprou um caminhão, só que não sabia dirigir bem. Terminou perdendo o caminhão, esse tipo de coisa. Mas o sorvete era ... o sorvete, a raspadinha, era um sucesso, né, que ele fazia. Eu me lembro que ele, que ele mesmo construiu ... o gabinete onde fabricava. E construiu uma espécie de uma...cobertura, um toldo e escreveu: doce e bem gelado.

P- [riso]

R- Era sorvete gelado. E ele então era muito inquieto. Mudava muito. E uma das mudanças foi pra aqui, pra São Paulo. E aqui em São Paulo houve a separação. Ele se separou da minha mãe e a minha avó também... Mas ele foi sempre extremamente liberal. Muito liberal. É... amável, brincalhão, uma figura formidável. Mas era extremamente... É um personagem literário, sem dúvida!

P- Ah... Audálio, como é que você se vê olhando pro passado como criança, nessa fase? Como é que você viu esse seu desenvolvimento? Você era uma criança mais retraída, mais expansiva?

R- Não, bastante retraída, bastante retraída. Pouco expansiva, muito emotiva. 

Sempre! Continuo sendo, né? Emotivo. Sempre fui uma criança emotiva. E... sempre muito marcada pelos fatos. Por exemplo, quando, quando eu voltei para a minha avó, foi em função do chamado do pai. Minha mãe, minha mãe ficou aqui em São Paulo. Ela foi, mas ela voltou e ficou com a mãe dela aqui. Quer dizer, toda essa desagregação familiar, que não deve ser uma coisa particular minha, deve ser um...

Eu analiso isso, com muita, com muita clareza. Como uma decorrência do, do problema da migração, né? A migração, ela desagrega as pessoas na sua vida, essa coisa toda. A minha família, as duas famílias eram bem consistentes, é... nas suas origens. Depois, deixou de ser, em função disso, né? Eu acho que isso acontece com muita gente por aí, entendeu?

P- Como foi essa migração assim, emocionalmente pra você sair dessa cidade tão novo, vir pra São Paulo? O seu impacto de chegar na cidade e como é que se deveu essa desagregação da sua família?

R- Bom. Aí havia um misto de saudade né, que é natural, principalmente em função de criança, de amigo, dessa na coisa toda... paisagem...

Mas também uma alegria de sair pra um mundo novo e tal. Então, a viagem, a viagem foi uma coisa fantástica, desde a saída porque no caminho do, quer dizer, o ônibus indo pra... a Sopa, indo pra Maceió...  tem uma lembrança que nunca vai desaparecer. Eu me lembro até do, de AngústiaAngústia? Não. É.  Angústia de Graciliano Ramos, que é um dos meus preferidos, né?  É quando ele descreve o pé, os pés do pai morto. Quem leu  Angústia deve se lembrar que é uma coisa muito marcante. O pai morreu e ele fica impressionado com o tamanho, a magreza, a... a palidez dos pés do pai. E nesse caminho eu já vi, por eu estar em cima, e numa pequena aldeia, uma povoação, passava um enterro, numa rede, né, que é meio comum no interior, era pelo menos comum no interior do Nordeste. 

Você só via os pés do morto. Eu fiquei impressionado durante semanas com aquilo lá, né? Não dormia direito. Mas... é, a viagem de navio foi um deslumbramento porque a viagem marítima, uma coisa completamente diferente, inesperada. Aquela coisa toda foi muito bonita. A passagem, porque esse navio era costeiro, passou, parou na Bahia, parou no Rio de Janeiro, depois aportou em Santos. Depois o trem subindo a Serra. Todo esse tipo de coisas que foram verdadeiras maravilhas. Santos pra mim, Santos pra mim até hoje não tem nada a ver com o que é a cidade no seu todo. Santos pra mim é aquele morro que se vê da estrada de ferro, da estação da estrada de ferro. Você vê aquele morro, as casinhas lá em cima... Pra mim é a paisagem mais deslumbrante. Ainda hoje quando vou a Santos fico na Nova Cintra, não sei como é que se chamam aqueles morros lá. Fico olhando, tal. Porque é uma coisa que ficou gravada, né? As viagens são.... as viagens são sempre muito interessantes. Mas a saudade, a saudade aqui da terra era muito grande, muito grande. De pessoas... de coisas... Então eu achava que o dia que eu fosse lá de volta, eu ia plantar uma árvore na praça. Quando eu cheguei de volta já, a árvore, a praça estava toda plantada. Não, não tinha muita graça mais!

 

P- E como é que foi esse impacto de São Paulo? Você se adaptar? Como é que a cidade era naquela época?

R- Olha, nós ficamos... Eu fui para o interior. Esqueci de deixar na ficha. Eu fiquei uns meses, uns meses no interior... é numa fazenda no município de Quatá, na Alta Sorocabana, onde morava uma tia minha, um tio meu, que eles tinham uma pequena, uma fazendinha, né? E aí nós fomos pra lá. E o meu pai pensava se estabelecer lá. Mas ele não dava pra isso. Ele era um homem, um homem urbano, meu pai, né? Apesar de viver naquela cidade pequena, mas ele era mais urbano do que rural. Ele nunca se deu bem com coisa de agricultura, que a origem da família é quase toda agricultura. E ficamos alguns tempos lá e depois viemos pra cá. Ele tentou aqui em São Paulo. Aí nós tínhamos a... minha avó Filomena, que morava aqui, já era casada, a segunda vez, né? Casada aqui com um cidadão português chamado Benjamim dos Santos. E... e aí se deu, porque aí ele ficou procurando... Ele achava que podia estabelecer um negócio aqui como lá. E não era fácil, né? Lá era muito mais fácil. 

Lá ele comprava um caminhão de farinha de trigo. Ele mesmo fazia as prateleiras, fazia [risos] o balcão e montava uma padaria. Ele construía o forno, ele construía a máquina de fazer a massa, de ele fazer... ele pegava cilindros de ferro não sei onde e engrenava não sei onde. Ele mesmo fazia. Então era fácil. Mas aqui não era. E aí essa desagregação se deu.  

Há alguns aspectos nebulosos que eu não me lembro bem. Mas houve a separação, certamente em função desses desacertos, isso eu também nunca quis perguntar em detalhe, tal. E foi aí que eu voltei. Voltei pra terra. Ele ficou por aqui. Ficou por aqui e depois foi pra lá, se casou outra vez. Vez em quando ele aparecia pra me visitar e... Ah, bom, tinham também ...os meus dois irmãos menores estavam comigo. Nessa foram todos pra lá de volta, tá? Cê vê que a coisa foi bem complicada. De vez em quando ele aparecia, e chegava... Ele era um, um príncipe, figura fantástica, enorme. Depois eu vi que não era tanto, né, era mais baixo do que eu. Devia ter uns...um metro e sessenta e oito, por aí [riso] e sessenta e sete. Mas foi isso. Depois eu continuei, ele ficou lá, fez as coisas que ele quis. Eu vim pra cá, eu vim e fiquei pra cá com a minha mãe depois.

P- Você volta e vai morar com a sua mãe..

R- É, assim, sim.

P- E nesse retorno você...você passa a morar definitivamente aqui em São Paulo?

R- Ah, sim definitivamente.

P- E onde é que você mora em São Paulo. E quais são as suas memórias da cidade nesse período?

R- Bom, olha, ah... Memórias importantes...?  A primeira é a estação de estrada de ferro, Estação da Luz. Que é fantástica, né? Depois, muitos automóveis, principalmente a noite e eu me lembro... usavam, os automóveis usavam iluminação na grade, na frente, colorida, uma coisa bonita. Depois... o bairro, né? Santana, que a minha avó, o meu avô, segundo avô, tinha uma, aquela área onde eles moravam lá era quase tudo chácaras, antigas chácaras, lá no alto de Santana, Mandaqui, aquele pedaço lá. Essas coisas me marcaram muito. A diferença de... a diferença de clima, a diferença de espaço, era tudo muito diferente. Mas de qualquer forma me marcaram muito, por exemplo... as viagens de bonde. Pra você tomar o bonde de onde a gente morava até o bonde devia ter uns quatro quilómetros que se fazia a pé, né? Até o Largo São Bento! É o trem da Cantareira, o famoso trenzinho da Cantareira, que eu conheci. Durou pouco, depois. Ele, ele não demorou muito a acabar. É... enfim, essa coisa... São Paulo pra mim foi uma coisa boa também, bonita, uma cidade com muitas atrações etecetera e tal. 

 

P- Você estudou nesse período? Como é? Você imediatamente já chegou estudando?

R- É, sim, sim. 

P- E como é que foi seu desenvolvimento escolar?

R- Aqui foi um pouco tumultuado [risos] também, né, pra, pra variar. Uma parte eu tinha já feito, o primário, que fiz a admissão, o ginásio e o antigo colegial, né? 

Era um pouco difícil também, né? Porque aí, aí inclusive eu fui trabalhar. Deixa ver... Devia ter uns dezessete anos. Eu comecei a trabalhar. Trabalhei em balcão de padaria, coincidentemente [risos] né? E... o melhor, uma, uma temporada ... eu estudava de noite com certa dificuldade etecetera e tal. E a minha tendência, a tendência... eu sempre, sempre tive uma tendência a ... pra escrever, muito grande... Leitura, muita leitura! Eu terminei desaguando no jornalismo por causa disso, né? Por causa disso. Então eu tive um meio prático de entrar na ocasião.  

Em cinquenta e poucos, né, como, como repórter fotográfico. Eu, eu sabia... tinha aprendido a fotografar, mais ou menos, né? E até que... como posso ganhar, na Folha de S. Paulo. Pouco tempo depois eu estava escrevendo matéria na Folha de S. Paulo assim... E daí então, disparei. Quer dizer, a minha entrada para o jornalismo foi uma coisa assim, vocacional mesmo, né? Escrevia cartas pra Rachel de Queirós [risos]. Eu achava muito bonitas as crônicas da Rachel de Queirós. Até que hoje eu não acho muito, não. Os livros dela, romance... acho interessante, mas as crônicas não. Mas eu escrevia para ela e tal. Até que eu fui pra Folha e, modéstia a parte, eu fiz parte do primeiro, isso aí sem dúvida é... o primeiro grupo de jornalistas modernos. Porque até então em São Paulo, no Brasil porque até então, o jornalismo era uma coisa, uma empresa, ainda hoje são muitas empresas familiares. Mas eram empresas familiares muito familiares mesmo. Muito fechadas. Então a Folha era dos Alves de Lima, o Estadão dos Mesquita, o Conde Pereira Carneiro no Rio de Janeiro, Jornal do Brasil... os Marinho no Globo. Continua de certa forma, mas eles tiveram que se industrializar, vai? Tiveram que... E eu junto com outros jornalistas aí nessa... nos meados dos anos cinquenta, nós fomos de certa forma responsáveis... entramos nesta fase em que as grandes empresas jornalísticas entravam na fase industrial, de modernização industrial. A Folha começou a construir essas oficinas que estão até hoje aí... A redação, na Barão de Limeira, Barão de Campinas, naquela época... Ela vinha, da Alameda Cleveland por aí e daí foi. Então éramos ... jornalistas, um grupo de jornalistas que escrevíamos. Zé Hamilton Ribeiro, que veio um pouquinho depois de mim e já estavam outros: o (Ideu Onarga?) o Domingos de Lucas Júnior e outros que serão pessoas que não se conformavam com a linguagem. Nós começamos a mudar a linguagem... Eu, por exemplo, nunca escrevi... acho que esses contemporâneos também nunca escreveram "precioso líquido" em lugar de água, "nosocômio" em lugar de hospital... "necrópole" em lugar de cemitério. Nunca, nunca! Nós não tínhamos medo de repetir a palavra. Se fosse preciso repetir a palavra, não se procurava uma outra. [risos] Ou se procurava ... Mas a gente repetia! E também numa fase em que a reportagem começou a ser importante no jornalismo. Antes era a notícia, a notícia imediata. E a reportagem começou a crescer. Eu nasci repórter, digamos ah... modéstia... modéstia a parte, de grande reportagem. 

Na Folha, eu viajei muito, comecei a viajar. E talvez isso tenha sido responsável por eu... é... deixar o resto das coisas... inclusive o estudo que eu pretendia continuar, eu deixei por aí. Porque eu me encantei com a profissão. E outra coisa: oportunidades. Isso um pouco mais tarde. Oportunidades econômico-financeiras importantes e... que eu deixei, porque pra mim era isso. Porque se eu ficasse limitado a... a trabalhar num jornal só cinco horas, eu não ia fazer. Eu não ia poder viajar, não ia poder... De forma que eu antes dos trinta anos eu já tinha viajado por quase todo o país. Pra mim isso foi muito importante na minha formação. Depois eu viajei... saindo da Folha para a revista O Cruzeiro etecetera, eu viajei praticamente o mundo todo. Acho que não me arrependo. Acho que foi a minha vocação foi direitinho no rumo. 

Eu fiz parte depois da equipe da revista Realidade, não da primeira, mas já no desenvolvimento da revista. A revista Realidade que foi é... a... por excelência, a revista de texto. E aí eu escrevi alguns trabalhos que eu acho que eles são...  eram trabalhos de autor. Era mais ou menos o que se chama de new journalism, essa coisa toda. Mas eu acho que não tinha nada a ver diretamente com o que se fazia nos Estados Unidos, mas era uma coisa daqui. Cada jornalista escrevia no seu estilo etecetera e tal. E tive oportunidade de fazer trabalhos que são únicos, porque são o meu estilo e... Escrevi algumas reportagens tanto na revista O Cruzeiro como na Realidade, que eu acho que foram importantes nesse contexto do desenvolvimento do jornalismo no Brasil.

 

P- Audálio, nessa fase de início de carreira, como era uma redação? Quando, quando você entrou... sempre esse impacto de quando a gente começa... uma redação é uma lembrança que a gente nunca esquece. Como é ou era a redação e que recordações você tem dessa fase assim de cotidiano de jornalismo?

R- Olha, a redação da Folha estava numa nova fase quando eu comecei. O pessoal falava com muita saudade da Rua do Carmo, que eu não conheci, né? 

Era a antiga redação da Folha. Então já era uma redação moderna etecetera. Mas, evidentemente, um cara como eu, sensível, emotivo e tal, sofri os meus pedaços, né? Porque os veteranos, aquela coisa, aquelas brincadeiras de antigamente... e o foca, ainda mais um pau-de-arara... "Ô, pau-de-arara, como é que é?" e tal... E eu fui, fui enfrentando bem. Mas eu encontrei pessoas, já não havia tanto aquele clima boêmio. Havia o clima boêmio dentro... Mas o clima boêmio típico das redações dos anos quarenta aqui já era. Era profissional, porque os caras... muitos vinham do tempo em que se trabalhava pelo... era bico mesmo. Você trabalhava... mas era advogado, trabalhava um pouco a noite. Outro fazia uma crônica, esse tipo de coisa. Mas eu entrei numa fase em que já era mesmo a coisa pra valer. A Folha por exemplo, fez um concurso... eu já estava lá... fez um concurso para admissão de repórter, de teste, tal, muito exigente etecetera e tal. E aí vieram algumas pessoas importantes, entre os quais o Zé Hamilton Ribeiro, o Murilo Felizberto, uma série de pessoas assim. 

E eu encontrei dos antigos, mestres alguns extremamente importantes! E... assim como o Hélio do Amaral Pompeu, que morreu esse ano recentemente, que era o secretário de redação... o Mário Mazzei Guimarães, que é uma figura maravilhosa, tá aí. Era o redator chefe da Folha da Manhã, que eram três edições diárias. 

O Mário de Araújo Lobo. Eram pessoas... inclusive eles se encantaram um pouco comigo, sabe? Eu era um pouco o... garoto que, poxa, tinha um texto bonito. Errava na concepção, errava na técnica etecetera e tal, mas eles viram todos que eu tinha um potencial de texto muito grande. 

E daí então é que eu fui aos poucos sendo... Eu fui secretário do Suplemento, do Suplemento Dominical da Folha durante muito tempo. Eu tinha vinte e cinco anos por aí. Uma coisa... Eu fui secretário, já fui secretário desse suplemento. Eu fazia a seleção das matérias etecetera e tal. Então eu era curioso, porque pela minha mão passavam personalidades assim, críticos, famosos. Tudo isso era, vinha pra minha mão. Eu lia, botava as vezes título, ia pra oficina, dava dimensão... Enfim, eu aprendi muito na prática, sabe? Foi uma coisa, uma experiência muito boa. Jornalismo foi a grande experiência, sem dúvida. Continua, né? Continua sendo!

P- Você... passou a... a desenvolver o seu talento como escritor dentro da prática? Ou você antes da redação já escrevia, na escola? Como foi esse final de formação sua antes do jornalismo?

R- É, eu cometi algumas, como quase todo adolescente, eu com, com pendores literários, eu cometi alguns textos, algumas tentativas de conto, alguma poesia. Eu, por exemplo, mantinha... polêmica. Escrevia...o jornal chamavaJornal de Debates, que era um jornal político muito interessante. Então, a proposta deles eram artigos de pessoas defendendo posições opostas, né? Eu de vez em quando mandava as minhas opiniões pra lá e tal. Publicava... Esse tipo de coisa. E depois então foi um desenvolvimento que veio naturalmente na velha prática.

P- Bom, e... do ponto de vista da divisão política, você participou de algum movimento nessa época?

R- Participei.

P- Como é que se dava?

R- Participei meio, digamos, inocentemente [risos] porque aí, é engraçado. Você me falou... eu tinha esquecido uma coisa importante, né? Porque não era propriamente emprego, mas eram arranjos. Eu trabalhei como boy... é... um tempo num negócio que se chamava Atualidades. Era uma editora, era uma editora ligada ao Partido Comunista, né? Chamava Atualidades. Então, meu trabalho era empacotar livros, esse tipo de coisa, né? E aí eu tomei contato com algumas pessoas ligadas ao movimento, ao Partido Comunista. Depois no jornal, já na Folha, é... havia dois, duas pessoas notoriamente ligadas, participantes, integrantes do partido...e Noé Guertel, que ainda hoje é um excelente jornalista... é... vivo. O Armando Gimenes. Esse já morreu. E mais algumas pessoas. Eles me botaram numa célula do jornal. Mas eu não...confesso que eu não me empolguei muito com isso. Agora, sem dúvida nenhuma, a minha posição, o meu posicionamento ideológico, a minha posição de esquerda, nitidamente de esquerda, antes e agora... e eu acho que será sempre! 

Que eu acho que é uma atitude perante a vida, né? É... foi muito em função disso, muito em função disso, né? Então eu participei de algum... de congressos de jornalistas, por exemplo, de Congresso de Jornalismo em Belo Horizonte. 

Eu não me lembro... em 1956, 1957. E eu fui por indicação dessas pessoas. Lá, evidentemente, eu era tido como.... eu não era filiado formalmente. É o que se chamava simpatizante, vai? E depois isso, ao longo da minha vida, isso ficou. 

Inclusive quando eu fui candidato a deputado e fui eleito deputado, eu tive muito apoio do Partido Comunista. E não só tive o apoio como isso foi uma acusação feita pela ditadura a todo momento, né? E quando os documentos da ditadura secretos, todos falam que era um membro proeminente [risos] do Partido Comunist ou no mínimo uma pessoa apoiada. Na verdade, não foi. E depois, com a vinda do PT, alguns companheiros do PT chegaram a me acusar que de ser do Partido Comunista. [risos] Não sei porque, parece que eles são contra. É... mas na verdade eu nunca fui filiado ao Partido Comunista. Minha posição política, independente dos dogmas... aí e que esta talvez... É uma coisa que talvez esteja na minha alma. Eu não... dificilmente aceito coisas que sejam impostas. E os dogmas são, por excelência, coisas impostas. 

E eu... e talvez em função disso... Por exemplo, tinha um sujeito chamado Vitorio Martorelli, que era um comunista histórico ... é... grande alma... morreu já o Vitorio Martorelli, já era um velho senhor quando eu comecei. É que ele, os discursos dele, nesses congressos, essa coisa toda era falando do Stalin como o guia imortal dos povos. E eu não gostava nem da imposição do dogma do Stalin, da imortalidade do Stalin, como não gostava da frase. Eu achava a frase feita feia. Então, esse tipo de coisa talvez tenha me afastado de uma filiação e tal. Mas eu tenho grandes companheiros. Quando eu fui presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, e... denunciei as primeiras prisões de jornalistas, em... em 1975 e a maioria deles era desses companheiros comunistas, né? E eu acho que não fiz nada mais do que a minha obrigação em fazer isso.

P- Audálio, em que momento você sai da sua casa, vai morar com sua mãe e vai morar sozinho? Ou com...

R- Não, eu... eu... Eu sempre, curiosamente, apesar dessa desagregação familiar, dessas idas e vindas, eu sempre morei, morei com ela e meu pai, com a minha avó depois, depois com a minha mãe que já no segundo casamento. Ela tem dois filhos... eu tenho dois irmãos do segundo casamento dela: o Paulo e o Roberto. E eu sempre vivi em casa até casar... o meu primeiro casamento assim... jovenzinho de tudo... é... estava em casa, eu saí. Aí eu saí de casa já casado.

P- Como foi?

R- Pra mim foi uma coisa natural assim, sem nenhum... sem nada de especial... o casamento era uma decorrência também. Fui morar perto também da família, da minha mãe, da minha avó, dos meus tios... a maioria aí mora pro lado de Santana. Não houve, grandes, digamos, fatos que marcasse isso. Houve a... aí sim a ida minha para... de volta a Alagoas, e a minha mãe aqui, meu pai no outro lado. E aí sim, aí a coisa... Apesar de que eu acho que a figura importante, mas muito importante, maravilhosa da minha avó...foi quem conseguiu que essa coisa fosse muito superada. Era uma pessoa extremamente dura com a vida, exigente, mas muito corajosa e, ao mesmo tempo, muito doce. Ela conseguia reunir essas coisas fantásticas. Quando se tratava da gente, apesar dela, ela tratar com... com, digamos, não com dureza, mas com firmeza e tal, do ponto de vista de educação etecetera. Mas ela sabia ser extremamente carinhosa com todos! Porque nós, os três irmãos, ficamos com ela um bom tempo. E aí havia, naturalmente, esse problema da separação. Onde é que tá o pai? O pai casou, não sei aonde. [risos] A mãe casou não sei por onde, entendeu? Então, isso aí era uma coisa... Ah, essas rupturas, elas... elas sem dúvida foram importantes. 

P- Você passa então a morar só com a sua avó. E sua mãe se casa e... e...

R- E meu pai também.

P- e constitui outra família. E seu pai, aqui em São Paulo..

R- Não, lá. Ele, ele voltou pra lá. 

P- Ele volta pra lá?

R- Pra outra cidade, né? Voltou para lá. Se casou. Essa, essas coisas evidentemente, ah... ficam lá dentro, né? É, um dia [risos] elas afloram e tal, mas sem maiores problemas. Evidentemente, você não pode dizer que isso não tenha causado problemas. Causaram. Mas não é coisa que... Pelo menos objetivamente, entendeu? Objetivamente, eu sei que... é... Eu fiz análise uma vez só na vida... ah... Faz uns três anos aí... Evidentemente, todas essas coisas vieram, né?  Todas essas coisas foram importantes na análise. Mas eu... eu diria que... que talvez até elas tenham sido importantes no sentido da minha afirmação como pessoa, né? Depois eu passei por todas as coisas que uma pessoa pode...as maiores dificuldades, os maiores perigos... os momentos mais gratificantes. Tudo o que você possa imaginar, tá?

P- Audálio, ah... fala um pouco também do contato... Do conhecimento da sua esposa, como foi... essa fase do casamento...

R- Ah, a minha primeira mulher foi um casamento tipicamente do pequeno burguês assim porque... É a namoradinha, a namoradinha praticamente da rua desde eu acho que eu tinha quinze, dezesseis anos. E a minha mãe que hoje ...vai fazer oitenta anos... Que hoje é uma pessoa, absolutamente, é muito liberal e tal, mas ela era rígida nessa coisa. Então meu casamento foi uma coisa assim, né, como se fosse automática. Eu namorava essa moca, aí não casava. Aí então um dia a minha mãe disse: "Mas como é que é? você vai casar ou não? você tá ficando..." Parecia coisa de italiano do Brás. [risos] né? Contava um companheiro da Folha, o fotógrafo Gil Passarelli, uma figura maravilhosa, não sei se você já ouviu falar. Tinha um... um sujeito que namorava uma filha do italiano no Brás. Ele morava lá perto. E toda noite eles estavam no portão, né? Estavam no portão, namorando, se beijando e tal. Aí um dia, passaram anos e anos e anos e o velho chegou e disse: "ma que, que catso fa? na casa, fica aí só, [risos] fica aí todo dia namorando? tá, tá pensando o que?" [sotaque italiano] Aí o cara disse: "Aí então não dá mais." E aí acabou. [risos] O velho chegou e acabou o namoro, né? Aí então tá, ele contava a história no bar. E o Gil Passarelli parece que era testemunha, ou o inventor da história. Aí ele contando: " Pois é, estava eu lá namorando a Carmela e chegou o pai dela: "ma que? catso - dizia o pai dela - casa ou não casa? Aí então eu resolvi não casar." Mas eu resolvi casar. E o casamento não foi dos mais brilhantes. Uma pessoa, uma pessoa boa, decente etecetera e tal. Mas não deu certo. Era natural que não desse certo, inclusive em função da minha inquietação. E a própria profissão...é... viajava demais. Viajava, as vezes passava meses fora de casa. Esse tipo de coisa... e terminou não dando certo. Mas é uma pessoa que ainda hoje é minha amiga, coisa e tal...

P- Você ficou quanto tempo casado? Teve filhos nesse período?

R- Teve um filho. É, eu fiquei casado... Assim mesmo, eu fiquei casado dezoito anos.

P- Puxa, bastante.

R- Mas era um casamento difícil, né? [risos] Eu também, eu tinha um pouco do conservadorismo da minha mãe. Que a minha mãe dizia: "É, pó, não pode, né deixar a moça tanto tempo, né, agora vai ter que casar, né? "Não tinha nenhuma, razão, digamos, das tradicionais pra casar. Olha, agora, precisa... Não era isso. Mas agora vamos casar.

P- E seu filho? Como foi o relacionamento com ele? O crescimento do seu filho?

R- É, foi, foi razoável. Apesar de muita ausência minha, que de certa forma eu repetia o meu pai, né, muitas vezes, por outras razões. É de certa forma... A minha analista ela disse isso. Repeti, tal. Agora, o meu filho teve sempre uma grande admiração pela minha figura. Suponho, suponho que até hoje. Pela, pela relação que nós temos. 

Não é tão frequente, mas suponho que até hoje ele tem. Eu me lembro que quando ele estava no colégio, no Eduardo Prado, aqui no Itaim, uma vez os amigos dele me revelaram que o apelido dele na escola era " papai conhece." [risos] Por que papai conhece? Porque a aula de geografia, não sei o que... o rio Tocantins... Ah,"o papai conhece". Ou então a Cordilheira dos Andes, " o papai conhece." E por aí afora. De forma que isso marca um pouco o Zé Dantas. O Zé Dantas, ele fez comunicação, é... Só que ele escolheu publicidade, né? Mas não exerceu, não exerceu.  Ele, ele faz produção, ele faz produção de televisão. Produção é um pouco de direção também.

P- Audálio, da fase profissional, a gente já falou um pouco da Folha. Eu gostaria que você lembrasse assim fatos que marcaram sua carreira, tanto do ponto de vista de reportagem que te marcaram, como fatos cotidianos, né? Daí a Realidade, enfim...

R- Aí a coisa, a coisa é muito, vai muito longe! Mas eu pegaria da fase de O Cruzeiro, porque O Cruzeiro era a revista mais importante do país.

Foi a revista mais importante do país, eu creio que até os meados de sessenta. A revista de assuntos gerais etecetera e tal, era talvez os meados de sessenta. Apesar da decadência, né? Eu fui pra revista O Cruzeiro em 1959. E ... e lá eu fiz alguns trabalhos que me marcaram profissionalmente. Eu vou só falar dois deles, tá? Não, três. Um deles foi a reportagem que eu fiz na favela do Canindé. É... que eu já tinha conhecido antes na fase da Folha e lá descobri os originais de Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus. [tosse]. Aí eu fiz uma reportagem sobre isso, transcrevendo trechos dos diários, não sei se vocês conhecem. E que se transformou num sucesso de livraria nacional, internacional. Esse livro foi traduzido em treze idiomas. Foi chamado "Quarto de Despejo”. Foi o trabalho que eu fiz...eu considero o livro uma reportagem, porque eu peguei os originais, fiz uma reportagem e depois peguei os originais e fiz o que se podia chamar de decupagem no texto. Não acrescentei nada, mas extrai as cenas mais importantes e costurei esse livro que eu acho que teve uma importância muito grande...e... para o país e para a humanidade mesmo, porque era um depoimento humano, e de grande importância. Basta ver que o prefácio da edição italiana foi escrito pelo Alberto Moravia, com grande, com grande entusiasmo. 

Bom, esse é um deles. Depois, é, eu fiz uma reportagem e... no Cruzeiro cujo título era "Nossos desamados irmãos loucos". Era uma reportagem sobre o Hospital do Juqueí  em que aí eu exercitava de maneira muito marcante uma linguagem que não era do jornalismo tradicional. Era uma linguagem que ficaria entre a literatura e o jornalismo. Mas era jornalismo na essência porque ele se baseava, rigorosamente, nos fatos. Então, era descrição dos fatos.  A maneira de contar é que era diferente, né? O texto era diferente. O Odilo Costa Filho, que era um escritor, intelectual de grande sensibilidade, era o diretor da revista O Cruzeiro, eu ficava aqui em São Paulo, ele depois foi adido cultural do Brasil em Portugal, uma figura importantíssima da Acadêmica Brasileira. Ele me mandou um telegrama dizendo que estava lendo a matéria e chorando. Isso me marcou muito porque [tosse] realmente eu fiz aquilo com a alma. E... aliás meus trabalhos eu faço sempre, colocando a minha alma nas coisas... A não ser que seja um texto neutro, mas se for uma coisa importante eu tenho que botar minha alma lá dentro, senão eu acho que não sai bem. 

Bom, e depois uma matéria que eu fiz... esse aí é uma das minhas alegrias... sobre um campeonato de dança carnavalesca aqui em São Paulo. Isso era patrocinado pela Televisão Record. Era uma maratona de dança, que se fazia no Ginásio do Ibirapuera durante os quatro dias que ficava lá. Começava no sábado de Carnaval e terminava na terça-feira a meia-noite. E tinha pessoas que iam de sábado a quarta. E eu, eu descrevi isso. Eu descrevi essa coisa. O título dessa matéria era... o "Circo do Desespero".

Foi depois título do livro no qual eu reuni alguns trabalhos. Muita gente até pensa que isto, esse trabalho tinha alguma coisa a ver com um filme que se fez depois, chamado A Noite dos Desesperados. Agora, eu digo olha...É que  Noite dos Desesperados é baseado num, num clássico, que se chama Mas não se Mata Cavalo? Mccoy é o autor, né? Acontece que o... o contexto é completamente outro. O outro é nos Estados Unidos, num campeonato de dança, não era carnaval e tem algumas histórias semelhantes, evidentemente. Mas esse não tinha nada a ver com essa loucura que era pôr pessoas... E outra coisa, as pessoas que participavam disso, eram as mais desamparadas possíveis, miseráveis no sentido total. Desde, desde física até mentalmente, porque as pessoas estavam morrendo em pé magras, esqueléticas. Iam tentar se salvar através de uma coisa dessa. E essa reportagem é... é... Foi o último ano do concurso. Ela acabou com o concurso. Depois inventaram um, um campeonato de beijo, o ano passado, que eu fiz uma matéria pra revista Playboy sobre isso. Aliás, era diferente porque aí já era outro contexto, do pequeno burguês. Aquela eles estavam querendo ganhar um carro, essa coisa toda. Mas na essência era a mesma coisa. E enquanto ao título "O Circo do Desespero" e “A Noite dos Desesperados”, não tem nada a ver, porque o nome A Noite dos Desesperados" veio mais tarde, bem mais tarde e é baseado no livro do Mccoy,  Mas Não se Mata Cavalo?. Bom, é, O Cruzeiro. Depois, na revista Realidade eu fiz algumas matérias que marcaram muito. Eu fui um dos editores da revista. Uma das que mais me marcaram foi o "Rio São Francisco", que eu demorei quarenta e cinco dias, descendo da nascente até o Oceano Atlântico. Fiz uma matéria que... era uma revista inteira, tá? Uma edição especial. E isso aí em termos de Brasil, de conhecer Brasil, de saber, saber as razões de muita coisa, foi muito importante! Depois eu fiz aí também uma matéria chamava "Povo Caranguejo", que também é uma coisa absolutamente...é quase teatro, que eu faço um contraponto entre a caça... é uma aldeia na Paraíba onde a população toda vive da caça ao caranguejo, é uma aldeia incrustada num mangue, perto de João Pessoa. E eu fiz um contraponto entre o caranguejo e o caçador. E eu dou voz ao caranguejo. Então isso é um contra-senso jornalístico, se diria, né, porque eu não ouvi o caranguejo. Mas eu acho que numa matéria desse tipo você pode perfeitamente supor o que aconteça com o caranguejo, certo? Por que o que acontecia? Qual era o modo de caçar caranguejo. Os caras saem, de madrugada, e vão quando se recolhem nos buracos na lama e eles vão tapando os buracos. Vão tapando, tapando e depois eles voltam recolhendo. Por que que eles recolhem? Porque o caranguejo fica sem ar vai subindo tentando o ar, até que quando eles estão em cima eles já estão enfraquecidos. Eu acho que essa, esse itinerário no buraco deve ter alguma coisa que se passa com... [risos] se é que caranguejo tem cabeça, não tem, né? Bom, então eu fiz isso. Era homem-caranguejo e contei essa história, junto com a Maureen Bisilliat, foi quem fotografou. Bom, tem muitas outras, mas eu gostaria de contar, na revista Quatro Rodas. Eu fui pra lá como editor de turismo. Eu saia, a minha predileção pela reportagem... Isso é antes da Realidade, né? Minha predileção pela reportagem era o fato social. E de repente eu me vejo como editor de turismo. Eu fiquei um pouco deslocado e tal... Mas fiz, fui fazer... Viajava muito, lugares maravilhosos, etecetera. Até que um dia inventamos, eu terminei sendo redator-chefe da revista! Inventamos uma matéria que era o roteiro do Brasil ao México, pela Panamericana. Ah... a Rodovia Panamericana... E aí eu fui e ... Essa viagem era pra ser feita com mais dois companheiros: Mário Escobar de Andrade, que morreu jovem, faz dois anos como diretor da revista Playboy. Ele era repórter da revista Realidade. E o fotógrafo Osvaldo Maricato. E o Mário de Andrade desistiu da viagem em Lima, por razões pessoais, da sua terra. Desistiu e voltou pro Brasil. Eu continuei com Maricato até o fim da viagem. Tivemos coisas fantásticas. Essa América, essa América que eu aprendi  a entendê-la como é... uma coisa só, com o Brasil. Porque nós temos diferenças do ponto de vista linguístico, a nossa cultura, nossa formação, e... a nossa, a nossa importância territorial, a nossa importância industrial, uma série de coisas, mas na base, na origem, no frigir dos ovos é tudo a mesma coisa! 

Eu escrevi um conto. Um, eu pretendi um livro e terminei escrevendo, por enquanto só um conto, que eu escrevi em Buena Ventura, na Colômbia, como um ponto perdido no, no espaço por aí. E pra mim Buena Ventura era o Brasil também. Era Santos, era Cabedelo, qualquer lugar desse tipo e as pessoas não tinham, os países e as pessoas não tinham nomes, aliás como acontece nesse conto que antes era Tanque d'Arca, né? Era o homem do vale, o homem da montanha, o país do vale, o país da montanha, etecetera e tal. Mas coisas que estão, que estavam ocorrendo no Brasil, estavam ocorrendo no Peru, estavam ocorrendo na Guatemala, etecetera e tal. Bom, eu parei a minha viagem, essa viagem demorou três meses. Essa viagem foi em 1969. Essa viagem foi interrompida por uma guerra entre Honduras e El Salvador, chamava a Guerra do Futebol. No dia que nós entramos de carro, nos íamos de carro, naturalmente, dirigindo um Galaxi cedido pela Ford do Brasil e... então na fronteira da Nicarágua com Honduras eu ouvi no rádio que havia um apagón em Tegucigalpa. Eu não entendi bem o que era apagón. Depois eu aprendi espanhol muito bem depois disso. Um apagón em Tegucigalpa e nós íamos até Tegucigalpa. Aliás, é uma palavra maravilhosa até, Tegucigalpa! E fomos, entramos em Tegucigalpa, as seis horas da tarde, quando as luzes estavam apagadas... Ah, bom, então é isso. E sob bombardeio! E fomos orientados por soldados do exército a ir imediatamente pro hotel, ao melhor hotel de Tegucigalpa que é uma cidade muito parecida com Guaratinguetá, até a situação geográfica em cima daquela colina. Aquela coisa. 

Fomos pro hotel e aí ficamos dias e dias. Mas eu não aguentava ficar dias e dias no hotel, no Hotel Prado, eu me lembro. Hotel Del Prado se chamava. E fomos, resolvemos ir pra guerra. O Maricato e eu. E como ir pra guerra? Honduras é daqueles países que o Arnauld, que é o autor do Salário do Medo, chama Georges Arnauld, é o autor do romance chamado de Le Salaire de la Peur, que deu um filme, depois chamava o Salário do Medo. Eu dizia que não quero localizar esse livro em nenhum país da América. Eu vivi na Guatemala durante algum tempo, e a Guatemala não é um país, eu sei porque eu vivi lá. E Honduras você podia dizer a mesma coisa, sem nenhuma ofensa à dignidade do povo hondurenho, mas não tinha... então o quartel do exército que ficava ao lado ,se não me engano, ao lado do Palácio do Governo...e ... nós fomos saber como é pra ir, pra fazer a reportagem sobre o que estava acontecendo. A cidade tinha sido bombardeada na véspera e... aí eles nos deram um papel dizendo assim : o general comandante e o chefe de las Fuerzas Armadas de la República de Honduras [em espanhol] dizia assim, que era o Señor  Audálio Ferreira Dantas e Osvaldo Maricato están autorizados a viajar  para el frente [em espanhol] e... não sei, eu não me lembro se era Norte, ou qualquer coisa por su própria conta e risco [em espanhol] [riso]. Então nós fomos. Aí botamos uma bandeira brasileira ... na antena do carro e fomos em frente! Fomos pra frente de guerra. 

Aí eu vi o que era a estupidez da guerra e daquela guerra. Toda guerra é estúpida. Mas aquela guerra... Você passava por caminhões carregados de cadáver cortados a machete [espanhol] aquela coisa horrível etecetera e tal. E chegamos no lugar, uma aldeia no pé de uma montanha, que onde estava instalado um hospital de sangue, chamado assim e ali havia estendidos pela grama mais dezenas de soldados salvadorenhos mortos! A maioria menino, menina ... Aquilo me revoltou extremamente, principalmente depois. Primeiro pela razão alegada da guerra e segundo porque nós queríamos ir à frente. Havia franco-atiradores naquela região ainda, porque os salvadorenhos tinham recuado... Eram em Santa Rosa, chamava, Santa Rosa Copam.  E um general... eles tomaram uma picape, até de fabricação da Willys, fabricação brasileira, dum cara que ia passando e botaram um jornalista...  Tinha jornalistas americanos, ingleses, franceses etecetera, brasileiros e lá íamos nós na carroceria da picape e o general no jipe da frente, né? O general típico, né? Com uma metralhadora, a coisa a tiracolo... E lá foi ele. Aí nós subimos uma grande ladeira de estrada de terra e de repente lá vem de volta um jipe em disparada. E o general dizia: "Que vuelvo, que vuelvo." Aí o pessoal ficou.... Aí o motorista que tinha sido requisitado também resolveu voltar, que ele não era besta, porque havia tiro forte lá pra frente. Então eu digo: por que que essa gente está lutando, principalmente tendo um general imbecil e covarde como esse. [riso] Pois é... Quer dizer são coisas que se eu for contar histórias desse tipo, a gente vai ficar aqui...

P- Audálio, fala um pouco pra gente dessa experiência toda jornalística que você tem... quer dizer, você tem uma vivência também durante a história do desenvolvimento do jornalismo e da relação e... enquanto empresa, do jornalista enquanto profissional dentro das empresas. Você foi presidente do Sindicato dos Jornalistas... Eu queria que você relatasse as suas experiências nesse sentido... Me parece que aí começa sua fase de engajamento político maior, né?

R- Exato. Bom, é... do ponto de vista empresarial, eu devo dizer que, seguramente, se eu não tivesse essa paixão pela reportagem... Todas as vezes... em todas as empresas em que eu trabalhei, eu ocupei cargo de chefia, desde a Folha. 

Na Folha fui chefe de reportagem da edição vespertina. Depois eu fui secretário daquele suplemento. Depois no Cruzeiro eu fui chefe de redação, aqui em São Paulo. Na Quatro Rodas eu fui redator-chefe. Na Realidade eu fui editor. E... e a minha paixão pela reportagem fazia sempre com que eu saísse dessas coisas e depois voltasse pra fazer reportagem. Sim, porque a minha coisa era andar no mundo, né? 

Seguramente, eu teria sido diretor, diretor executivo de uma dessa... não de uma redação numa dessas empresas, porque é algumas vezes eu fui... praticamente convidado pra isso. Mas eu dizia não. É um pouco de covardia também, né? Eu digo vou pensar, eu vou ficar acomodado aqui no posto ... E aí eu não vou mais fazer a reportagem... [risos] Não, não, eu vou ficar por aqui mesmo, né? E assim aconteceu. Bom, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo foi uma decorrência, eu imagino da própria presença que eu consegui e de credibilidade que eu consegui na profissão.

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo estava há doze anos, desde, coincidentemente, desde o Golpe Militar de 1964, ele estava na mão do pessoal, digamos, ligados, não todos, mas a maioria ligado, afinada com a ditadura. E havia várias tentativas. O Zé Hamilton Ribeiro foi candidato a presidente do sindicato antes de mim e... e outros companheiros. E aí até que um dia me pegaram: olha, você, você vai ser o candidato a presidente do sindicato. Eu, eu tremi na base, porque eu achava do mesmo jeito que eu podia ser diretor de uma empresa, e ia perder essa oportunidade como sendo presidente do sindicato. E não deu outra, porque depois daí eu não pude mais voltar pra reportagem, não pude mais voltar pra reportagem. Porque eu fui presidente do Sindicato dos Jornalistas num ano terrível. Nós estávamos saindo do governo Médici, que foi o mais sanguinário da ditadura, e entrando no governo Geisel que viria depois a iniciar o processo de abertura. Mas ele não controlava, absolutamente, ele não controlava os seus alucinados, torturadores, assassinos... Que a ditadura se sustentava em cima disso. É bobagem dizer que a ditadura brasileira é diferente das outras. Talvez ela não tenha sido igual num volume... de assassinatos como foi na Argentina, não sei onde mais, ou no Chile do Pinochet, mas ela foi igual. E o general Geisel era outro general. Apenas a diferença é que os generais se revezavam aí. Bom, agora, eu me senti no momento em que eu fui chamado pela categoria dos jornalistas e aceitei, eu me senti responsável por essa coisa e... E logo depois da minha posse em abril de 1965, nós começamos a fazer coisas no sindicato que eram, absolutamente, subversivas na hora. Organizamos, por exemplo, um seminário intersindical para discussão da política salarial. Isso era o dogma. Quem mandava nisso era o Delfim Netto, que é esse grande democrata hoje, tá aí, citado nas colunas dos jornais. Era o Delfim Netto mais com o amparo dos generais do DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna]

Essa é a verdade. Não se podia discutir salários. Tanto é que a tentativa, a primeira tentativa de se fazer isso deu no que deu. Fomos chamados ao DOPs. [Departamento de Ordem Política e Social]

Diga-se, por sinal, que no DOPs reinava um cidadão chamado Romeu Tuma. Era o delegado lá no DOPs, tá? E foi proibido. O Romeu Tuma hoje, por um desses azares do destino, não tenho nada pessoalmente contra ele, aliás, ele tratava as pessoas de maneira muito civilizada etecetera e tal. Mas ele é hoje ao PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro]...Tem uma coligação aí que ele é candidato a senador... Tá muito bem nas pesquisas. Mas o Romeu Tuma, toda vez que eu fui ao DOI-CODI... É preciso dizer o que era o DOI-CODI? Não? Não é preciso.

O Romeu Tuma era o homem que estava lá, ao lado do General Ednardo e outras figuras do Comando do Segundo Exército e para legalizar os inquéritos do DOI-CODI. O DOI-CODI era, era... Ele não existia. Era uma coisa que funcionava... Era uma célula subversiva dentro do exército, né?  Essa é a verdade. Se você for considerar a rigor. E eu fui muitas vezes chamado lá ou fui lá para saber dos presos. O... Sérgio Gomes da Silva, o Weiss, eram doze. Daqui a pouco eu me lembro os nomes. Até o Vladimir Herzog, que foi o último prisioneiro foi o penúltimo preso assassinado numa dependência do exército, no país. Depois foi o Manoel Fiel Filho. Então, eu me dediquei assim, como é uma das características, me dediquei de corpo e alma a isso e... e fui considerado, depois eu soube... eles ficaram loucos... a inteligência ah... desse pessoal aí! Havia uma tentativa de abertura política e havia um movimento contrário dentro e quem encarnava de forma marcante em São Paulo era exatamente o comandante do Segundo Exército: o general Ednardo D'Ávila de Mello, que várias vezes me chamou lá e... e disse que o processo contra os jornalistas... Eu denunciei a primeira prisão, que foi do Sérgio Gomes da Silva, em outubro. Outubro não, e era... não, ainda acho que era ainda em setembro, em 1975, aproveitando essa e outras, aproveitando o Congresso da ... da SIP [Sociedade Interamericana de Imprensa], no Hotel Hilton. E eu, como presidente do sindicato fui lá e... além de notas que nós distribuímos que nenhum jornal publicava, os jornais são muito machos, mas não publicavam essas notas... e... eles aceitavam a censura.

A maioria deles aceitava a censura. Aceitava, senão, fechava! Sei lá o que. Aí o... o general, segundo eu soube, o general D’Ávila e outros generais acharam que eu devia ser um agente fantástico, um agente superimportante do movimento comunista internacional, porque o meu nome não constava... Aquilo que eu lhe disse desde o início... não constava na... eu não era filiado ao Partido Comunista e a nenhum partido desta natureza. Então, eles acharam que eu devia ser um caso superprotegido pelo, pelo movimento comunista internacional. De forma que com a morte de Herzog, de Vladimir Herzog, no dia 25 de outubro de 1975, é... sem dúvida nenhuma, eu acho que valeu a pena a denúncia. A morte dele foi... uma coisa super dramática, mas ela teve... o sacrifício da vida do Vladimir Herzog serviu para despertar uma coisa que estava amortecida na consciência brasileira. As pessoas aceitavam como se fosse natural o sujeito sair de casa e ninguém saber onde ele estava e depois aparecer o cadáver num caixão lacrado com ordem pra que não se falasse nada. E o Vladimir Herzog foi a... digamos foi a primeira grande denúncia é ...de um assassinato pela ditadura. 

E as pessoas começaram a dizer: "O que é que está havendo, né? A minha irmã, a Olga, que eu fiquei uma semana, praticamente e... entrincheirado no Sindicato dos Jornalistas, na Rua Rego Freitas... ah... praticamente eu não vinha pra casa, nem dormia. E ... ela telefonou chorando, querendo saber o que é que ia acontecer comigo. Eu digo: "Olha, eu acho que hoje eu sou uma das pessoas mais protegidas desse país, porque ao fazer a denúncia eu estou... sou conhecido." O mundo inteiro sabia que tinha sido feita a denúncia do assassinato. Ela dizia: "Mas, ah... é verdade mesmo o que acontecia... acontece isso?" E digo: " É, mas você não sabe? não sabe?" Era isso. Eu acho que pelo, pela reação dela...e... eu acho que o povo, de um modo geral, o... o sacrifício do Vlado ( Wladimir  Herzog) serviu pra isso, serviu pra isso porque com... Houve a primeira manifestação pública importante desde o Ato Institucional número 5. Foi o culto ecumênico na Sé que reuniu, cercado de metralhadoras... quem comandava isso era o além do Segundo Exército, era o... o coronel Erasmo, Erasmo Dias. E houve essa, esse movimento que depois e... eu considero o marco na história recente do país. A ditadura começou a cair efetivamente com a morte de Vladimir Herzog. E eu acho que isso é... é... serviu para que o país... foi uma coisa importante para que o país começasse a sair daquela situação. E no meu caso, eu acho que valeu a pena não fazer reportagens, é... depois de lá.

P- Bom, então o que é que faz Audálio Dantas depois daí até chegarmos a Eletropaulo, que é o assunto que a gente vai falar sobre isso daqui a pouco.

R- Bom, eu... é... ao terminar o meu mandato no Sindicato dos Jornalistas, em 1978, e por insistência muito grande de companheiros e principalmente de um companheiro de quem eu seria concorrente, o Freitas Nobre, jornalista e deputado federal. Eles achavam que eu devia... Orestes Quércia, que é uma pessoa assim hoje atacada por todos os lados. Mas ele foi responsável para que várias pessoas desse tipo... comprometidas com a luta de resistência entrassem para a política. E aí foi o Fernando Morais. O Fernando Morais foi candidato a deputado estadual e eu, federal. É... o Goldman e vários outros por aí, né? E eu fui então candidato a deputado federal e talvez tenha sido o último caso de pessoa que se elege absolutamente sem nenhum... instrumento partidário. Não tinha nenhum... não era... não tinha nenhum diretório sobre a minha influência e também sem nenhum tostão gasto em campanha. Mesmo porque o pouco que foi gasto foi assim aleatoriamente pelos companheiros... 

Um que oferecia um santinho etecetera e tal. Mas eu tive um apoio de 59 mil votos naquela ocasião. Se fosse com máquina, eu teria talvez uns 300 mil. Mas eu tive um apoio fantástico da sociedade. Foi uma coisa muito bonita e valeu a pena por causa disso. Os intelectuais, artistas, eu posso citar alguns hoje que fizeram manifestações. O Chico Buarque escreveu o jingle da campanha, né? Aquela coisa inesquecível. A Elis Regina cedeu a renda da estreia de uma peça... de um espetáculo. Não era uma peça, era um show! Chamava Transversal do Tempo. Outros artistas... pintores, e... os Ohtake, Luís Fernando Lemos, todos os grandes artistas. A Bruna Lombardi estava aparecendo. Esse pessoal todo fez declaração. O Lula fez declaração de apoio pra mim. O cardeal Arns... Então foi uma coisa fantástica! E valeu a pena. E eu cumpri quatro anos de mandato e... dedicados exclusivamente a... exclusivamente não, mas grande parte dedicado à questão da liberdade de informação, da liberdade de pensamento contra a censura.

Como deputado eu organizei a comissão parlamentar de recepção aos exilados. Porque os exilados voltavam a partir de 1979,19 80 e eram apanhados no aeroporto. O computador do DOI-CODI pegava o sujeito. [risos] Então, nós organizamos um grupo de deputados, entre os quais estava maravilhosamente presente a Cristina Tavares, que era jornalista também, Modesto da Silveira, que era um advogado de preso político no Rio de Janeiro e outros...e íamos  ao aeroporto brigar com os coronéis para, pra poder deixar... 

Um dia, o coronel do Aeroporto do Galeão, no dia que estava chegando o Miguel Arraes... ele quis enquadrar a gente e depois parece que titubeou um pouco. Quer dizer, e... e também com a presença de deputados e... permanente no movimento sindical, né, no ABC. A primeira assembleia para discutir a reposição das perdas salariais ocorridas com a falsificação dos índices de custo de vida... e... feita em 1973, 1974 pelo Delfim Netto, foi feita pelos jornalistas, pelo Sindicato dos Jornalistas. Mas é um sindicato que não tem... é... é um sindicato pequeno burguês. É um sindicato de trabalhadores intelectualizados etecetera então não teve repercussão. Depois foi feita uma assembleia em São Bernardo e deu [risos] no que deu, tá? Então, eu, eu participei dia e noite nas portas de fábricas das greves de 1978, 1979. 

Vou até contar uma história aqui. No nascimento do PT... é o PT ainda não tinha nascido! Nasceria um ano depois por aí, acho que em 1980. Ele foi muito marcado por um certo sectarismo idiota, porque... há sectarismo de todo tipo: sectarismo burro, sectarismo idiota... Todo sectarismo é burro. Mas o sectarismo idiota que... quem não fosse daquele grupo era considerado inimigo. E eu, de certa forma já era... apesar disso... Eu me lembro muito bem. Havia aquelas grandes assembleias no Estádio da Vila Euclides e aí ia eu, o Antônio Resnick, o Goldman... Eram sempre uns quatro ou cinco estávamos lá. O Fernando Morais e tal. Aí uns iam para a porta de fábrica e no dia seguinte a gente 'estava lá e tal. Aí tinha uns caras no palanque quando ia começar a assembleia. Aí dizia: " Político aqui, não" [risos]" Político não entra." 

Uma noite, na greve de 1980 que já tinha 45 dias, eu estava sem dormir há... Eles telefonavam pra casa as três da manhã, às quatro eteceteras e tal. Aí eu... eu e outros companheiros opinamos que aquela greve não tinha razão de continuar. Uma greve com 45 dias, sem adesão de outras categorias... Quem conhece um pouco de movimento sindical acha que não... Mas venceu, venceu a maioria que achava que devia continuar a greve. Então eu continuei solidário à greve. Lá vou eu... solicitado para Osasco, para uma Assembleia dos metalúrgicos de Osasco, para pedir ajuda do pessoal. Cheguei lá, uma assembleia e já era meia-noite, uma hora da manhã e sou chamado ao palco! Tinha um pequeno palco assim, ... o auditório lotado e gente sentada no corredor e bem na frente uma menininha com um bonezinho Lenin assim e tal... A própria revolucionária. Quando eu subi, e o presidente do sindicato, Buenos Amorina, anunciou:" Aqui o deputado Audálio Dantas que veio de São Bernardo. Tem um recado a trazer." Aí a menininha disse: "Deixe os metalúrgicos falar." Eu disse: "Vá pra puta que o pariu." [risos] Eu disse pra ela. [risos] Eu acho que isso marca um certo espírito, alguma coisa que não estava bem de acordo com a história. 

Por exemplo, eu... eu vou dizer aqui a primeira vez. 

Já disse algumas coisas... reuniões fechadas... reunião e tal. A coisa era tão brava, tão brava em 1975 que o Lula era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Tomou posse em junho de 1975. Eu estava no meio do Sindicato dos Jornalistas. Fui  posse do Lula, um rapaz imberbe etecetera. Em outubro, ah... é,  a partir de outubro... setembro, outubro, começaram as prisões e... e culminou com a morte do Manoel Hertz... do Manoel Fiel Filho, do Vladimir Herzog... Vários dos companheiros que seriam depois do Partido dos Trabalhadores, junto com o Lula... até uns fundadores estavam no sindicato. Mas o Lula nunca foi, nunca foi ao sindicato, em nenhum desses momentos, tá? Assim como também não foi na missa do Manoel Fiel Filho, na Igreja do Carmo... a qual estavam presentes cerca de 100 pessoas apenas. Com isso eu quero dizer que a história... é a história. Uma coisa importante, uma coisa fundamental. Mas ela tem vários capítulos, que muitas vezes eles precisam ser contados para que as coisas se coloquem no devido lugar.

P- Audálio, fala um pouco pra gente dessa experiência toda jornalística que você tem... quer dizer, você tem uma vivência também durante a história do desenvolvimento do jornalismo e da relação enquanto empresa, do jornalista enquanto profissional dentro das empresas. 

Você foi presidente do Sindicato dos Jornalistas... Eu queria que você relatasse as suas experiências nesse sentido... Me parece que aí começa sua fase de engajamento político maior, né?

R- Exato. Bom, do ponto de vista empresarial, eu devo dizer que, seguramente, se eu não tivesse essa paixão pela reportagem... Todas as vezes... em todas as empresas em que eu trabalhei, eu ocupei cargo de chefia, desde a Folha. 

Na Folha eu fui chefe de reportagem da edição, da edição vespertina. Depois eu fui secretário daquele suplemento. Depois no Cruzeiro eu fui chefe de redação, aqui em São Paulo. Na Quatro Rodas eu fui redator-chefe. Na Realidade eu fui editor. 

A minha paixão pela reportagem fazia sempre com que eu saísse dessas coisas e depois voltasse pra fazer reportagem. Sim, porque a minha coisa era andar no mundo, né? Seguramente, eu teria sido diretor, diretor executivo de uma destas empresas... não de uma redação numa dessas empresas, mas porque é algumas vezes eu fui praticamente convidado pra isso. Mas eu dizia não. É um pouco de covardia também, né? Eu digo vou pensar, eu vou ficar acomodado aqui no posto disse... E aí eu não vou mais fazer a reportagem... [risos] Não, não, eu vou ficar por aqui mesmo, né? E assim aconteceu! Bom, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo foi uma decorrência, eu imagino, da própria presença que eu consegui e de credibilidade que eu consegui na profissão. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo estava há doze anos, desde, coincidentemente, desde o Golpe Militar de 1964, ele estava na mão do pessoal, digamos, ligados, não todos, mas a maioria ligado, afinada com a ditadura. 

Havia várias tentativas. O Zé Hamilton Ribeiro foi candidato a presidente do sindicato antes de mim e... e outros companheiros. E aí até que um dia me pegaram: olha, você, você vai ser o candidato a presidente do sindicato. Eu tremi na base, porque eu achava do mesmo jeito que eu podia ser diretor de uma empresa, e ia perder essa oportunidade sendo presidente do sindicato. E não deu outra, porque depois daí eu não pude mais voltar pra reportagem, não pude mais voltar! Porque eu fui presidente do Sindicato dos Jornalistas num ano terrível. Nós estávamos saindo do governo Médici, que foi o mais sanguinário da ditadura, né? Estávamos entrando no governo [Ernesto] Geisel que viria depois a iniciar o processo de abertura. Mas ele não controlava, absolutamente, ele não controlava os seus alucinados, torturadores, assassinos... a ditadura se sustentava em cima disso. É bobagem dizer que a ditadura brasileira é diferente das outras. Talvez ela não tenha sido igual num volume de assassinatos como foi na Argentina, não sei aonde mais, ou no Chile do [Augusto] Pinochet, mas ela foi igual. E o general Geisel era outro general. Apenas a diferença é que os generais se revezavam aí. 

Bom, agora, eu, eu me senti no momento em que eu fui chamado pelo, pela categoria dos jornalistas e aceitei, eu me senti responsável por essa coisa e... logo depois da minha posse em abril de 1965, nós começamos a fazer coisas no sindicato que eram absolutamente, subversivas na hora. Organizamos, por exemplo, um seminário intersindical para discussão da política salarial. Isso era o dogma. Quem mandava nisso era o Delfim Netto, que é esse grande democrata hoje, e tá aí, citado nas colunas dos jornais. Era o Delfim Netto mais com o amparo dos generais do Doi-Codi. Essa é a verdade. Não se podia discutir salários. Tanto é que a tentativa, a primeira tentativa de se fazer isso deu no que deu. Fomos chamados ao DOPs. Diga-se, por sinal, que no DOPs reinava um cidadão chamado Romeu Tuma. Era o delegado lá no DOPs, tá? E foi proibido. O Romeu Tuma hoje, por um desses azares do destino, ele é, não tenho nada pessoalmente contra ele, aliás, ele tratava as pessoas de maneira muito civilizada etecetera e tal. Mas ele é hoje coligado, ah... coligado ao PMDB na...Tem uma coligação aí que ele é candidato a senador... 'Tá muito bem nas pesquisas. Mas o Romeu Tuma, toda vez que eu fui ao DOI-CODIi... É preciso dizer o que era o DOI-CODI? Não? Não é preciso. O Romeu Tuma era o homem que estava lá, ao lado do General Ednardo e outras figuras do Comando do Segundo Exército e para legalizar os inquéritos do DOI-CODI. O DOI-CODI ele não existia. Era uma coisa que funcionava... Era uma célula subversiva dentro do exército, né?   Essa é a verdade. Se você for considerar a rigor. E eu fui muitas vezes chamado lá ou fui lá para saber dos presos. O Sérgio Gomes da Silva, o Weiss, eram doze. Daqui a pouco eu me lembro os nomes. Até o Vladimir Herzog, que foi o último prisioneiro e... foi o penúltimo preso assassinado numa dependência do exército, no país. Depois foi o Manoel Fiel Filho. Então, eu me dediquei assim, como é uma das características, me dediquei de corpo e alma a isso e... e fui considerado, depois eu soube... eles ficaram loucos... a inteligência ah... desse pessoal aí... Porque eles... havia um movimento, uma tentativa de abertura política e havia um movimento contrário dentro e quem encarnava de forma marcante em São Paulo isso era exatamente o comandante do Segundo Exército: o general Ednardo D'Ávila de Mello, que várias vezes me chamou lá e... e disse que o processo contra os jornalistas... 

Eu denunciei a primeira prisão, que foi do Sérgio Gomes da Silva, em outubro. Outubro não, e era... não, ainda acho que era ainda em setembro, em 1975, aproveitando essa e outras, aproveitando o Congresso da SIP... da SIP, Sociedade Interamericana de Imprensa, no Hotel Hilton. E eu, como presidente do sindicato fui lá e... além de notas que nós distribuímos que nenhum jornal publicava, os jornais são muito machos, mas não publicavam essas notas... e... e... eles aceitavam a censura. A maioria deles aceitava a censura. Aceitava, se não, fechava. Sei lá o que! 

Bom, e aí o general, segundo eu soube, o general D'Ávila e outros generais acharam que eu devia ser um agente fantástico, um agente superimportante do movimento comunista internacional, porque o meu nome não constava... Aquilo que eu lhe disse desde o início... não constava ...eu não era filiado ao Partido Comunista e a nenhum partido desta natureza. Então, eles acharam que eu devia ser um caso superprotegido pelo, pelo movimento comunista internacional. De forma que com a morte de Herzog, de Vladimir Herzog, no dia 25 de outubro de 1975, é... sem duvida nenhuma, eu acho que valeu a pena a denúncia. A morte dele foi... uma coisa super dramática, mas ela teve... o sacrifício da vida do Vladimir Herzog... serviu para despertar uma coisa que estava amortecida na consciência brasileira. 

As pessoas aceitavam como se fosse natural o sujeito sair de casa e ninguém saber onde ele estava e depois aparecer o cadáver num caixão lacrado com ordem pra que não se falasse nada. E o Vladimir Herzog foi a... digamos foi a primeira grande denúncia de um assassinato pela ditadura. E as pessoas começaram a dizer: "O que é que está havendo, né? Eu fiquei uma semana, praticamente entrincheirado no Sindicato dos Jornalistas, na Rua Rego Freitas... ah... praticamente eu não vinha pra casa, nem dormia. E ... minha irmã Olga telefonou chorando, querendo saber o que é que ia acontecer comigo. Eu digo: "Olha, eu acho que hoje eu sou uma das pessoas mais protegidas desse país, porque ao fazer a denúncia eu estou... sou conhecido." 

O mundo inteiro sabia que tinha sido feita a denúncia do assassinato. E ela dizia: "Mas, é verdade mesmo, acontece isso?" E eu digo: " É, mas você não sabe? não sabe?" Era isso. Eu acho que pela reação dela...eu achava que o povo, de um modo geral, o sacrifício do Vlado [Wladimir Herzog] serviu pra isso, serviu pra isso!

Houve a primeira manifestação pública importante desde o Ato Institucional número 5, e foi justamente o culto ecumênico na Sé, cercado de metralhadoras... Quem comandava isso era, além do Segundo Exército, era o coronel Erasmo Dias. E houve esse movimento que depois eu considero o marco na história recente do país. A ditadura começou a cair efetivamente com a morte de Vladimir Herzog. E eu acho que isso serviu para que o país... foi uma coisa importante... para que o país começasse a sair daquela situação. E no meu caso, eu acho que valeu a pena não fazer reportagens, é... depois de lá.

P- Muito bem. Vamos falar da... da sua entrada pra Eletropaulo. Quer dizer, desse... nesse período enquanto deputado, houve várias atuações como é que foi que... sua entrada pra trabalhar na Eletropaulo como assessor de comunicação?

R- Bom. Aconteceu. Eu gostaria de fazer uma referência a um fato de das conquistas como parlamentar que foi a Lei da Anistia. 

Eu tenho uma participação muito grande. Participei diretamente. Têm emendas minhas aprovadas na Lei de Anistia que terminaram... é... constituindo a Lei da Anistia. 

E em 1982, eu fui candidato a reeleição e... tendo apenas um comitê, que era aqui na Rua Oscar Freire, esquina da Cardeal Arcoverde e um carro que era o meu. 

O resto eram os amigos que faziam alguma coisa com seus carros etecetera e tal. 

Eu não continuei... era um projeto meu. Eu não ia fazer nada para arrumar dinheiro das tradicionais fontes de financiamento. Porque eu acho que um mandato... ele tem que ter essa coisa. Se não, ele deixa de ser, no momento em que ele começa a se comprometer. E como pra mim não alterava em nada a minha vida particular, a não ser a minha atividade, mas o resto continuava a mesma coisa, então eu continuei assim. E... então eu tive 52 mil votos e não deu. Faltaram dois ou três mil votos só. 

E as pessoas disseram: “Mas por que você não foi para um outro partido?" Porque no PTB, elegeu com 40. Não sei aonde, elegeu com 35. No outro partido, elegeu com 27. No PT, elegeu com 23. E não, mesmo porque... Eu acho que a minha briga foi aqui e... o mínimo de coerência... eu continuei aqui. E a minha... isso não era emprego pra mim, tá? Então daí eu fui e voltei a... voltei pra, curiosamente, eu voltei pra redação durante pouco tempo, mas fui chamado pelo governo Montoro, do PMDB. Eu fui ser presidente da Imprensa Oficial do Estado, onde, onde terminei entrando com... um processo criminal e um processo civil contra o Maluf. Depois daí... em 87 eu fui pra Eletropaulo, como cargo de confiança, do governo, né? Os dois são meus dois cargos de confiança. Nesse meio tempo, eu fui presidente do Conselho da Fundação do Conselho Curador da Fundação Cásper Líbero e... na Eletropaulo eu fiquei até o início de 91. 

É... aí que foi que eu tive o contato, como superintendente de comunicação tive contato com a ADC. É isso que você quer?

P- Não, eu quero saber toda a sua experiência dentro da Eletropaulo. Como foi  trabalhar dentro da empresa?

R- Olha...A Imprensa Oficial, eu teria muita coisa a falar, mas vamos deixar pra lá porque aí a coisa se estende muito. Mas a Eletropaulo foi pra mim uma experiência muito interessante porque a empresa pública muito grande, com uma receita anual igual ao PIB [Produto Interno Bruto] de alguns países, de alguns pequenos países por aí, né? 

Tem, se não me engano na... Agora não sei, mas era uma coisa assim como três biliões e meio de dólares, né? Uma coisa fantástica. E uma empresa com uma cultura, muito interessante, principalmente aqueles técnicos mais antigos, remanescentes da Light, que era uma empresa que ficou até quando ela pôde... como empresa... empresa estrangeira... como um negócio importante. Teve um papel importantíssimo na história do desenvolvimento industrial de São Paulo... a Light etecetera e tal. 

Um certo orgulho que permanecia nas pessoas que trabalhavam na... trabalhavam na Light e passavam para a Eletropaulo. Era recente. Parece que a passagem da Light... a saída da Light e entrada da Eletropaulo é de 1981 se não me engano. De forma que eu conheci este lado. E... e fui para uma área muito interessante que é a de comunicação, numa empresa que sucedia a outra, onde a área de comunicação existia.

Isso... isso aí historicamente é reconhecido. A área de comunicação na Light existia para evitar que a Light fosse notícia. Não convinha que a Light fosse notícia. E a minha concepção, assim como a concepção de outras pessoas que foram chegando... já na empresa nacional, na empresa pública, era exatamente o contrário. A minha tese, logo que eu cheguei lá que eu coloquei claramente... é de que a empresa pública... ela tem muito mais obrigação de ser transparente do que qualquer outra. Tanto é que a Volkswagen a General Motors ou qualquer outra dessas empresas... você, como jornalista... se, se ela não quiser, você não passa de seu portão. Mas na empresa pública você não pode fazer isso. E você deve levar o máximo de informação da empresa pública para fora. E isto foi possível, principalmente na primeira gestão da presidência da empresa que foi do Ippólito, André Ippólito, uma grande figura humana e também uma visão humanística importante e me deu muito apoio a isso. 

De forma que levamos a empresa... Eu já tinha feito isso na Imprensa Oficial.  

Na Eletropaulo com muito mais força, porque a Eletrobrás é uma empresa muito grande! O orçamento da comunicação é um orçamento grande. Maior do que... Não sei. Talvez até maior de que alguns estados por aí... com cento e tantas pessoas... Uma estrutura enorme. Com uma área de patrimônio histórico maravilhosa. 

O Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, que é da Superintendência de Comunicação tem uma importância no Brasil... que talvez poucas outras instituições podem ter, porque ele é guardião de toda a história da Light, no bom e no mau sentido, né? Toda a história da Light e, consequentemente, toda a história de São Paulo. Então nós trabalhamos, por exemplo, por uma revista. Tornamos essa revista... é... mensal. 

A Revista do Patrimônio que, que está lá até hoje. Enfim, e... e também abrindo esse espaço para a consulta das pessoas, dos cidadãos etecetera e tal. Um trabalho muito gratificante e... na área de lazer, então entra um papel importante da ADC [ Associação Desportiva Cultural Eletropaulo].  Porque a ADC também é uma herdeira daquela. Porque a Light era, de certa forma, também uma empresa paternalista... no estilo antigo. Organizava o grémio a creche, a associação, a cooperativa fornecedora de alimento que ainda hoje existe: a Esbel [Empresa Sul Brasileira de Engenharia], e por aí afora. É ... mas tinha uma tradição. Essa era uma associação, que se chamava Associação Desportiva Classista... Esse ADC...hoje o C mudou, né? O C mudou hoje. Mas então aí eu tive contato com o Takeo, o Arnaldo, que é da direção e era meu subordinado como chefe do Departamento de Imprensa. E então eu tive uma participação na medida em que os pleitos da ADC, no sentido de ajuda financeira, o material... a impressão de, de papéis, de livro, de documentos... Tudo isso com ajuda do Ippólito. Tudo isso foi feito de maneira... E eu passei a ser uma espécie de protetor da ADC. O pessoal, felizmente, felizmente o pessoal gosta de mim. É por aí. Tem mais coisa, se quiser mais coisa, estamos aí.

 

P- É, eu acho que a gente podia falar um pouco da sua vida pessoal, Audálio, nesse período, porque eu acho que a gente deu um salto ali. E você não... e você teve um segundo casamento depois...

R- Um segundo e um terceiro.

 

P- Então. [risos] Conta um pouco da sua vida pessoal nesse período paralelo.

R- [risos] É. Bom, eu em 1972, 1973 comecei a minha separação. Aí eu tive um segundo casamento com a Maria Marta de Melo, que é minha amiga hoje e é mãe da minha filha Ana. A minha filha Ana tem dezesseis anos. Minha filha Ana nasceu durante a minha campanha para deputado, em 1978. A Ana 'tá hoje com dezesseis anos. A Marta é pedagoga. Não se dedica diretamente a essa profissão, mas ela gosta do assunto. Trabalhou um bom tempo aí. Foi importante também na minha vida política. Ajuda... enfrentou a barra de 1975 a 1978. Ela participou diretamente... Por exemplo, algumas vezes você tinha proteção em frente de casa... que eu não tinha pedido... eu não queria... Eu tinha mais medo... Ainda hoje... Acho que daí ficou... Hoje eu tenho mais medo de polícia do que de bandido. Eu faço essa confissão com toda tranquilidade. Que se o bandido chegar, eu sei que ele vem como bandido. E se eu puder, eu acerto, tá? Agora, há um episódio aí que talvez eu tenha, por razões psicológicas, deixado de lado... mas em 1983 meu pai foi assassinado aqui numa chácara, aqui perto de São Paulo. Foi assassinado por dois meninos: um de doze e um, parece que de dezessete anos. Ele vivia lá naquela chácara e na maioria do tempo ele ficava só. Ele não tinha caseiro... Era a minha preocupação, né, porque ele era um homem de 78 anos. Mas  não, não acertava... Os caseiros não querem ficar com pessoas que fiquem cobrando esse tipo de coisa. Mas aí estava um e esse e num domingo saiu. Lógico, foi passear com a família e aí chegaram esses garotos. Um deles era vizinho de frente, conhecia a casa, entrou e... ele não sabe. E o outro então tentou roubar. Pelo menos é essa a hipótese que, que a polícia levantou e aí, aí ... ele era estourado e deve ter reagido... Eles contaram essa história. E a revista Veja me entrevistou uma semana depois... Eu estava... eu era presidente já da Federação Nacional dos Jornalistas e eu ia indo pra Porto Alegre para uma conferência e a revista Veja perguntou qual era a minha reação diante de tal brutalidade. Eu disse: "Olha, evidentemente eu estou aqui sangrando, mas eu acho que ali havia três vítimas." Independente do Afanásio Jazadji, independente de outros repórteres policiais que chamaram os meninos de... disso, daquilo e aquela coisa que a gente sabe, né? Que eram três vítimas, porque eu não podia admitir que duas crianças fossem monstros desse tipo. Mas eram vítimas de determinadas circunstâncias. Até me lembro que a Veja naquele seu estilo típico disse que... que eu considerava vítima... ela usou uma palavra que não era assim quase de dúvida, mas não era. Era verdade. Agora só o seguinte, só o seguinte: se na hora eu estivesse lá e pudesse fazer alguma coisa, eu mataria um dos dois se fosse preciso para defender. 

É por isso que eu digo. Se o bandido vier, eu sei que ele é bandido, eu vou em cima dele. Se puder, eu mato. Agora, o policial não. Porque a polícia, eu parto do ponto de vista que eles existem pra me proteger e muitas vezes você sabe que não é isso. Aliás, o Zuenir Ventura, meu colega no Cruzeiro, foi meu colega no Cruzeiro... 'tá escrevendo um livro maravilhoso sobre isso. O papel da polícia. Quando chega a polícia, quando chega o poder público é pra... é pra repressão, é pra violência etecetera e tal. 

E as pessoas têm medo e terminam se acumpliciando com o bandido. Evidentemente, eu não me acumplicio, mas é o meu medo. Se tiver de acontecer nesse clima de violência que está por aí, eu serei mais uma vítima. Tomara que não, né? Deus me livre. 

Durante a ditadura, por exemplo, em frente a minha casa eu via uma cara assim... se cheirava que era da polícia eu digo: "Eu não pedi esse cara aqui. Eu vou reclamar. Eu não quero polícia aqui na minha porta, entendeu?" Isso era uma barra pesada para minha mulher. Bom, depois infelizmente essas coisas... apesar de, da vida complicada etecetera e tal eu terminei desfazendo o casamento. Eu tenho agora uma jornalista, a Vanira, com a qual eu tenho duas filhas: uma com seis meses. Hoje ela 'tá completando seis meses. A Mariana Adélia, que eu faço questão de dizer que esse Adélia é uma homenagem a minha avó Maria Adélia que ...Só que ela é Mariana Adélia. Mariana Adélia. Resumidamente, é isso.

P- É, você mora onde atualmente?

R- Eu moro aqui na Rua dos Franceses, na Bela Vista.

P- E como é que é seu cotidiano? Você trabalha...?

R- Bom, eu trabalho muito, né? Porque além do trabalho, eu sou o chefe do Departamento de Imprensa do Metrô. Trabalho lá. Tenho uma empresa de consultoria, de comunicação. Por sinal na mesma rua, é pertinho, né? E antes de ir pro lugar, eu passo lá. Dou uma geral. Depois no final do expediente a Vanira trabalha também, né? Ela é jornalista. Então ela trabalha lá. Na verdade, é quem fica no dia a dia. E é... a... pela primeira vez eu faço um negócio, né, assim [risos]. Primeiro negócio que eu faço. Não é assim... nenhum grande sucesso, mas um relativo sucesso.

P- Audálio, falando sobre São Paulo... parece que... apesar de você ser um Alagoano, sua grande cidade é São Paulo.

R- Ah, sem dúvida.

P- Eu queria que você falasse um pouco assim efetivamente das suas memórias de São Paulo e de como é que você vê a cidade hoje e no futuro.

R- Olha. São Paulo é curioso. São Paulo é... eu acho que eu sofro da síndrome do paulistano. Eu me considero paulistano. Apesar daquela emoção, aquela ligação emotiva com a aldeia natal. O Graciliano Ramos falava de Palmeira dos Índios, que é a cidade da minha mãe que em determinado momento todo homem, todo homem tem uma saudade imensa da sua... de um muro pintado de branco, de uma torre de igreja e tal. Disso aí ninguém pode se livrar, tá? Mas São Paulo pra mim é uma cidade da qual a gente se queixa. Todos os que vivem aqui parece que têm esse problema. Se queixam... que ela é assim... é dura, é isso, aquilo, mas a gente tem uma ligação muito forte. Eu tive oportunidade de morar até no exterior várias vezes e não me atraiu porque eu tenho uma ligação... imagine... Em algumas vezes eu tive saudades da avenida São João, quando eu estava fora [risos]. Tem gente que acha isso uma loucura, mas eu tinha saudade da avenida São João, ué! Principalmente, naqueles dias em que por aqui passavam alguns meninos como Caetano [Veloso], o Gil [Gilberto Gil]... A gente frequentava... A minha vida de jornalista e, consequentemente, de boêmio era... passa por alguns buracos dessa cidade que são imortais. O Ferro's Bar, por exemplo, né?

É ... que era o boteco... Era não, é um boteco de português no sentido... Não é que ... não sei nem se o dono é português, mas naquele sentido de adega de português, de azulejo impessoal ou então muito pessoal... Depois o Jogral, que era um bar maravilhoso do Luís Carlos Paraná, onde a gente cantava junto com o Paulo Vanzolini etecetera e tal. Na Galeria Metrópole, principalmente aí apareceram o Chico, o Gil, o Caetano. E o Vanzolini já mais velho. Essa coisa toda e essa ligação afetiva com a avenida São João certamente ela vem disso, né? De madrugada... você ia tomar café na esquina do Jeca, saindo da Folha. Ou então da revista o Cruzeiro, na rua Sete de Abril. E então é evidente que a avenida São João tinha... batia na saudade da gente, né? O Avenida Danças, [risos] o Avenida Danças. Aliás, parece que ainda existe esse troço. Era um taxi-dancing. Você já ouviu falar nisso, não?

P- Onde é que fica? Na...

R- É, na Avenida Ipiranga, na Avenida Ipiranga. Tinham vários taxi-dancing até os meados de 60. E os jornalistas iam pra lá picotar cartão, né? Ou você picotava cartão ou era cafetão, né? A gente que catava cartão [risos] e... esse tipo de coisa... de forma que São Paulo... São Paulo .. entre outras coisas, ela tem essa universalidade e tem uma organização que não é comum no Brasil. O Rio de Janeiro é lindo e tal. O Cruzeiro cansou de me convidar pra lá. A Abril me ofereceu o vice-reinado do Norte e Nordeste. Sabe o que que é isso? Era a direção da sucursal Norte-Nordeste e eu sou nordestino. Acho que o Roberto Civita achou que eu ia... eu ia dar um beijo nele e eu disse: "Não, não, não." [risos] Não era... é eu ia ter que ficar em Recife, uma cidade que eu acho linda, gosto e tal. Acho maravilhosa até. Mas aí eu digo: não, eu vou ficar lá no Recife. Eu vou me acomodar lá no Recife. Eu conheço lá. O pessoal na sexta-feira sai pra beber na casa do Brennand, na casa... Ou então vai no almoço na casa do Leão, do Souza Leão. Sabe, as pessoas que fazem parte da corte... Eu digo: eu não quero fazer parte daquela corte lá, senão eu vou ficar...E eu vou ter que mudar de São Paulo, né? E vou ficar por aqui mesmo. E por aqui fiquei e acho que não tem jeito. Acho que vai ser o Crematório da Vila Alpina. Aliás, diz a... a Heloísa Ramos, a mulher do Graciliano Ramos, que ainda hoje vive, a maravilhosa pessoa... Ela ficou morando aqui vários anos. E aí eu digo: "Mas escuta, por que é que você troca Maceió, aquelas praias lindas, aquela coisa toda e você vem pra cá, morar na alameda Tietê? "Sabe, ela disse, eu vim pra cá por causa do Crematório da Vila Alpina."[risos] É mais prático e tal. Mas ela não resistiu. Ela terminou indo de volta. É isso.

P- Audálio, pra concluir. Qual é o grande sonho, seu grande sonho...

R- Caramba. Caramba...e... grande sonho? Engraçado. É eu acho que nunca tive assim o sonho assim no sentido especial, de eu vou querer aquela coisa. 

Uma das coisas que eu queria... Primeiro, eu não quero parar de trabalhar, né? Isso aí é... isso aí é... é fora de cogitação. Não vou parar de trabalhar. Talvez seja concluir o livro que eu estou pensando há anos, né? Eu tenho tanta coisa pra escrever. Já vários editores, meus amigos me convidaram para fazer, escrever livros... ou sobre a minha experiência profissional, minhas histórias pessoais etecetera e tal. E principalmente história pessoal, curiosamente, eu... eu me sinto assim meio escrevendo a autobiografia.  Isso eu não acho bom, eu acho uma coisa chata etecetera. Pretensiosa e talvez até de entrega de pontos, né? [risos] Não vou entregar os pontos... Não, eu tenho muito por aí. Agora, escrever algumas histórias das minhas andanças ou talvez escrever um, uma... não pretendo nenhum romance. Escrever o meu livro de contos. Eu tenho alguns contos já feitos. Tem um que chama A Cabra que, que eu gosto muito e pretendo reuni-los num livro. Agora, eu não quero fazer aquilo que muita gente faz pra escrever. Me recolher. Não quero ter sentido do recolhimento. Porque se é assim, eu vou me sentir velho, né? Não quero saber desse negócio. Eu vou... se eu puder... é difícil, mas se eu puder eu vou escrever em intervalos. Se der, bem, se não der também... Não há necessidade de escrever livro. Tem tanta gente mais capaz, com mais sensibilidade pra fazer isso que já escreveu, que já foram escritos os livros e os outros que virão que um a mais um a menos não vai fazer falta. Mas se eu puder, um dia eu termino por aí. É isso.

P- Muito obrigado.

R- Amém.

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