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História

Um fotógrafo no meio do garimpo

História de: João Batista Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2009

Sinopse

A vida de João é contada a partir dos trabalhos que teve. Começou cedo a trabalhar na roça, junto com o pai, e depois de um casamento difícil, com a esposa alcoólatra, abandona a família para trabalhar no garimpo. Relata as dificuldades e os perigos do garimpo, principalmente quando este acontece em vales. Sua carreira na fotografia e a lembrança de clientes que pediam fotos específicas o faz rir de tudo que já passou. Sem conhecer nenhum neto e com pouco contato com os filhos, João arranjou uma companheira, com quem vive. Por conta da catarata nos olhos, João tem visão bastante limitada.

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História completa

Gosto de contar minha história porque ela é sobre minha profissão. Tem coisa que eu conto e até dá vontade de rir! Mas também tem coisa chata e difícil. A gente trabalhava com dificuldade, a gente sofria. Hoje tem facilidade para a pessoa trabalhar. Eu nasci no mato, me  criei no mato e depois de formado é que a cidade já foi chegando, foi aproximando mais do povo. Eu fui conhecer cidade, eu já estava com uns 15 anos, antes não conhecia cidade não. Conhecia só o mato. Levantar cedo e correr atrás do cavalo, do boi e ir trabalhar.

 

Meu nascimento é em Mato Grosso, Santo Antônio do Indaiá Grande. Nasci dia 21 de dezembro de 1935. O meu município é Santana do Paranaíba, o primeiro em Mato Grosso do Sul. O meu pai foi um coitado que só aprendeu a trabalhar e não sabia mais nada: só trabalhar em serviço grosseiro. Naquele tempo, o pessoal do mato, a profissão era lavrar mato, lavrar terra. Era plantar arroz, plantar feijão, plantar milho. Colher, capinar de enxada. Eu tenho até uma enxada lá, ó! E era isso, a vida tocava desse jeito. Hoje que mudou. A minha vida foi formada desse jeito e tá terminando assim. Fui muito bom da vista, enxergava longe! Hoje não tô enxergando nada.

 

Eu tô conversando com vocês aqui, mas eu não tô vendo ninguém de vocês. Eu não tô vendo ninguém, não sei como é o rosto de vocês, de nenhum de vocês. Enxergo pelo canto do olho porque minha visão acabou. Eu sofro. Quando apareceu a catarata do olho direito, apareceu uma manchinha, eu olhava no pé, às vezes se eu olhasse no dedão do pé, eu não via. Via a claridade, mas via o pé todo, mas aonde eu visava não, via aquela manchinha. Parece que era uma neblina, mas era a catarata que tava começando. E aquilo foi aumentando, foi aumentando, até que eu não enxerguei nada desse olho.

 

Quando eu casei, minha esposa morria de beber. E eu não queria ela, ela não me servia. Achei bom sair pra bestar, andar. Aí fui pra zona de garimpo, em Mato Grosso do Sul, e por lá fiquei sem saber notícia dela. Sem mandar notícias também, não importei, larguei pra lá. De lá eu vim embora pra cá. Aqui que eu aposentei. Então parei aqui, já tinha perdido ela mesmo... Os meninos formou tudo. A minha menina mais velha casou. Pensa bem: eu saí de lá, deixei ela com 15 anos. Daí há dois anos ela casou. Ela já tem uma filha e essa filha formou advogada, hoje é advogada e casou com um advogado também. Pensa bem. Eu não conheço nenhuma neta. Nenhuma!

 

Garimpo é pegar peneira, cavar chão, tirar cascalho, peneirar ele, pegar o diamantinho e correr. Mas eu corria, vendia o diamante e em vez de eu fazer qualquer coisa, eu corria pro boteco: ia beber cerveja. Bebia cerveja a semana inteira. Mas isso é brincadeira! Agora não tem mais, acabou. O povo revirou tudo. Vocês não entendem, então tô explicando. É isso: lavar cascalho e levantar cedo pra cavoucar. Faz aquela montoeira, pega peneira, vai lá, peneira ele.

 

Tem garimpo que é perigoso. Tem perigo na serra, né? Às vezes de cair, vai cavando por baixo. O cascalho entra. O garimpeiro tem esse negócio, ele entrou no garimpo, ele fica doido: “Aqui tem diamante”. Se o cascalho entrou debaixo de uma pedra, às vezes uma pedra alta... De repente a pedra, vummm, cai em cima do garimpeiro e pronto. Como tem acontecido, não muito, né? Mas sempre acontece.

 

E tem também a fotografia, que eu trabalhei por 15 anos. Eu trabalhava com a Polaroid, que tirava fotografia e revelava na hora. Então, quando eu aparecia numa região que ninguém conhecia, a pessoa falava: “Olha, eu queria uma fotografia, mas o senhor demora pra entregar?”. Eu digo: “Eu entrego agora mesmo”. “Mas como o senhor entrega agora?” Eu digo, “Uai, vamos bater!” Só que aí a fotografia saía mais cara. Naquele tempo eu cobrava 20 cruzeiros numa fotografia com a Polaroid. Eles ficavam admirados! Eu batia e revelava. O cara olhava e falava: “Poxa vida, mas isso aí é bacana!” Um filme de Polaroid era quatro poses. Então eu entregava a fotografia na hora, lá pro meio das fazendas, pros matos. Eu ganhava muito dinheiro. Só que a gente não tinha afirmativa, eu gostava mais de andar, trabalhar. A gente ganha, mas gasta muito dormindo em pensão. Eu não cheguei a juntar grande coisa, não.

 

Naquele tempo era muito difícil a revelação. Tinha que tirar fotografia da pessoa e mandar pra São Paulo pra reproduzir a fotografia e depois punha no quadro pra entregar. Aquilo demorava um ano depois que tirava a fotografia da pessoa! Porque tinha que tirar ao menos 50 fotografias pra mandar pra São Paulo pra poder compensar a despesa pra reproduzir e por no quadro aquelas fotografias pra entregar pra pessoa. Às vezes tinha pessoa que gostava de por a família toda num quadro, às vezes cinco, seis, até 12 pessoas eu punha. Aí tinha que ser um quadro maior, né? E aquilo dava um trabalho danado! Eu entendia de tudo.

 

O que me atraiu pra fotografia? Olha, isso é uma coisa que atrai todo mundo. Porque todo mundo gosta de uma fotografia. De fotografar, de ser fotografado. A fotografia atrai todo mundo. Sai a fisionomia dele, sai tudo, rosto, tudo ali. A pessoa, idêntico na fotografia. Por isso é que atrai. Atrai todo mundo. Não é só um nem dois. Todo mundo é atraído pela fotografia.

 

Fotografar é um trem bom, a gente gostava de fotografar. Não é dizer que eu gostava de fotografia, não: eu gostava de fotografar, como diz, exercer aquela profissão, aquele pedido, aquela hora! Hoje eu não faço nada porque não enxergo nada, mas entender tudo eu entendo. Então é isso: a minha vida foi até, nisso aí foi boa, eu vou dizer pra você!


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