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História

Um filósofo do Sertão

História de: Manoel Inácio do Nascimento
Autor:
Publicado em: 13/04/2020

Sinopse

O Brasil e o nordeste de refletem na vida de Inácio. Desde o seu nome que é Inácio como uma promessa ao Santo Inácio pra ver se ele escapava da fome que já haviam matado os seus irmãos. A história do nordeste e do Brasil, dos movimentos sociais até os reisados e novenas, desde o trabalho escravo e a chegada dos transgênicos às debulhas de feijão e os improvisos na colheita de algodão. Confiram a história de Manoel Inácio um filósofo do sertão!

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História completa

"Coloca o nome de Inácio para ver se escapa", porque a mortalidade infantil era muito grande no Nordeste quando eu nasci. Por muito tempo perdurou essa mortalidade infantil. Morria a maioria das crianças antes de completar um ano de idade. Eu era o quarto filho, porque os três morreram antes. A minha mãe colocou o nome de Inácio para ver se eu escapava da mortalidade, então ela colocou pedindo pro santo Inácio.

 Eu lembro que meu pai me levava a partir dos cinco anos… Desde criança pelo menos a minha mãe já levava minha rede com a rede dos meus irmãos e irmãs, amarrava debaixo das árvores onde estava trabalhando. Nós já estávamos assistindo ali, então, nosso aprendizado e familiaridade com o trabalho com a terra, traz uma memória muito antiga, bem de início, de origem de vida, de origem de você estar começando a ver as primeiras coisas. Era sua mãe e seu pai se movimentando pela sua sobrevivência, em nome da sua sobrevivência. Pra vê-los chorar, era quando um de nós pedia comida e eles tentavam esconder a situação. Nunca eles diziam que não tinham. Eles podiam até não comer, mas passavam diretamente para gente tudo que eles conseguia, mas chegou o momento que não tinha mesmo. Chegou o momento que minha mãe fazia  chá de feijão. Áss vezes alguém dava, o vizinho, a vizinha… Ela pegava folha de quiabo, pedia alguém que tivesse algumas folhas… Semente de jerimum, pisava e fazia leite para gente. A gente comia aquilo achando que sentir fome era a coisa mais normal do mundo. Às vezes apertava um pouco mais e chorava com fome, mas não tinha mais o que dar.

Eu trabalhava de segunda a sábado, só tinha domingo para descanso que não era descanso, naquele domingo, nós tínhamos que buscar lenha. Fui crescendo e foi vindo a responsabilidade. A partir de cinco, seis, sete anos, você não sabe mais o que é ser criança. Não sabia mais, você já tinha responsabilidade. Eu ia trabalhar, limpar mato  ou pelo menos para o roçado. Os pais não te deixavam brincando à toa na rua muito, você aproveitava os momentos que podia. Você escapava, mas estava brincando e de repente seu pai chegava de surpresa com um cipó de jucá, batia na bundinha, "para casa”.

 (...)

Teve ainda a triste chegada dos transgênicos. A gente tinha tomate cajá, tinha tomate maçã, tinha tomate papo d'água e para cada um, a gente dava um nome. Tinha vários tomates, a gente vendia e todo mundo gostava. E eu lembro que em 76, 77, a coisa muda. Nós chegamos na feira, expomos nosso tomate, e ninguém quis. Só que a gente chegou e já percebeu que na banca da feira da vizinha, tinha um tomate todo igualzinho. Isso foi uma surpresa, quando olhamos… Todo mundo comprava aquele tomate lá e não comprava mais o nosso. E a gente vai conversar com o cara lá da banca para saber onde ele está arranjando aquele tomate tão bonito. "Não, vocês estão atrasados, todo mundo está plantando agora desse tomate que é distribuído por uma empresa… Acho que também desses programas do governo. Eles distribuíam gratuitamente as sementes para os agricultores. Você chegava lá, pedia as sementes e eles te davam. Até que nós começamos a pegar dessa semente também e aí fomos descartando os tomates que tínhamos. Todo mundo usou as sementes deles, só que elas já eram híbridas, já não tinha mais como reproduzir. A gente nunca se dava conta, só agradecia de ter a semente daquele tomate. Tanto o tomate parecido com uma maçã grande, como o tomate comprido. A gente tinha muitas variedades e ficou apenas com dois tipos de tomate. Trocamos a semente. A gente começou a produzir aquele tomate e começou a ser mais aceito também. Nós passamos muito tempo sofrendo, tendo que sair de casa em casa distribuindo e vendendo no rateio, no varejo, porque ninguém queria mais comprar o nosso tomate ali perto daquele outro

(...)

  Eu nunca fui um cara apanhador de algodão, porque eu ia trabalhar e eu e mais outros jovens começávamos a brincar e cantar versos dentro do roçado. Então, com o fato de estar cantando a gente se distraía. E a gente olhava os outros levando o algodão e ficava morrendo de vergonha. Quase não chegava com algodão em casa. E aí, ia pesar, todo mundo pesando. Imagine as pessoas pesando dez, quinze, vinte, trinta quilos num expediente só e a gente chegar e não pesar nem cinco quilos de algodão. "O que vocês estavam fazendo?".  Isso era porque um trabalhava e o outro  estava cantando. Um cantava de lá, outro de cá. Um dizia um insulto ao outro, um pegava a deixa… Eram repentes que a gente cantava e treinava. Eu cantava, mas o meu negócio era mais escrever. Os pensamentos… Às vezes ficava parado, meio introspectivo, naqueles momentos pensando nos acontecimentos. Quando você está trabalhando, você está pensando, "nossa, quanta ideia". Muitas vezes eu levava e às vezes acontecia isso também. Eu ia para o trabalho e já levava um caderninho e uma caneta.

Muito tempo depois dessa história do algodão, eu fui pegar feijão,  mas já fui mal intencionado. Eu não ia pegar feijão coisa nenhuma, levei um caderno e um lápis, fiquei embaixo de uma árvore e fui escrever  “O cavalo de Figueiredo”. Escrevi um cordel de oito páginas. Nossa, eu voltei para casa e cheguei com todo mundo me questionando, "Cadê o feijão que você foi apanhar?". Saí de manhãzinha para pegar esse feijão e cheguei meio dia, feliz com o cordel escrito, mas nossa, tenso, sem saber o que fazia, aflito, sem saber como eu iria explicar não ter levado o feijão para casa. Fui para o roçado e não consegui catar o feijão. Tinha o cordel… Tentei explicar, mas quem iria me compreender? "Cara, tu saiu daqui para uma coisa, saiu daqui para pegar feijão para o almoço. Já está na hora do almoço! Se não tivesse um quilo de feijão, ninguém iria almoçar hoje". E eu "que se dane o almoço, mas olha o cordel pronto e aí fui batalhar para publicar esse primeiro cordel.

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