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História

Um feminismo Indígena

História de: Watatakalu Yawalapiti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2019

Sinopse

Watatakalu é do povo Yawalapiti e pode ser considerada uma embaixadora mundial da cultura indígena, filha de uma das lideranças mais importantes da história do Xingu, o Piracumã, Watatakalu nos conta da relação de seus parentes com os Villas Boas, da faculdade indígena - que é uma reclusão -, nos traz um olhar profundo do sacrifício que foi passar por casamento arranjado e, por fim, relata sobre o machismo que enfrentava enquanto atuava como liderança das mulheres do Xingu.

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História completa

Meu nome é Watatakalu Yawalapiti, do povo Yawalapiti. Meu povo está no norte do estado do Mato Grosso, no Alto Xingu, território indígena do Xingu, que a gente fala. O nosso povo é uma das etnias com a menor população da região do Alto Xingu. A gente fala língua aruak, eu conheço muito meu povo, assim, da história dos meus avós... Com o contato do homem branco veio a doença do homem branco também. Então, o Xingu, a região toda, vários povos morreram. Na época, o meu povo era muito pequeno, né, e a minha família, o meu bisavô foi assassinado, porque as outras etnias achavam que meu avô que estava fazendo feitiço. Meu bisavô fazendo feitiço. Na verdade, não era, era sarampo ! Era doença do homem branco, que matava todo mundo e ele foi acusado de feitiçaria, né? E o mataram.

 

O meu pai é uma grande liderança, o Piracumã Yawalapiti,  E meu pai era dos poucos que estavam lá, acho que só estava ele, eu acho, assim. Só foi ele de parente lá, eu fiquei do lado de fora. Os parentes que foram ficaram do lado de fora. Porque eles ficaram com medo. Meu pai não ficou com medo. Falaram pra ele: “Os guardas vão jogar spray de pimenta, eles vão atirar em vocês”. Ele falou: “Pode atirar. A gente está indo lá pra brigar pelo nosso povo, pela terra dos parentes. A gente não pode só ficar olhando, porque já temos terra demarcada. Se nós estamos bem hoje na nossa terra, tem parente que não está. Então nós temos que dar o exemplo de ir lá brigar junto com o parente que precisa”. Isso foi muito forte pra mim. 

 

Eu fiquei três anos na reclusão e lá eu aprendi muito as coisas da arte.  As histórias que eu comecei a compreender, várias histórias que eu ouvia quando eu era criança, quando eu estava em reclusão, né? Aprendi a fazer os artesanatos quando estava em reclusão, aprendi a fazer grafismo, tudo foi durante a reclusão. Esse processo eu acho que é muito importante, né, da parte da reclusão. Porque é uma faculdade indígena. Tudo você aprende lá e quando você está lá, você acha que aquilo ali não vai servir. Mas ele serve pra sua vida, né? E se todo mundo fizesse isso acho que teria muita coisa, sabe, de ruim, que poderia ser evitada.

 

Eu tive um casamento arranjado, eu nunca nem tinha visto meu marido. Eu já ouvia falar dele, né? Mas ele pediu pro meu pai e meu pai falou não pra ele, ele pediu de novo pra minha mãe, minha mãe aceitou e meu pai não ia contra as coisas que minha mãe aceitava, né, porque ele a respeitava muito, então ele achava que, se minha mãe já tinha decidido, ele tinha que respeitar. Aí eu me vi numa situação muito sem saída. E eu vou ter que me livrar dessa pessoa, então foram três anos. A minha vida entre 15 e 18 anos era planejar, todos os dias da minha vida, como eu ia me livrar daquela pessoa até que finalmente eu consegui.

(...) 

Aconteceu um encontro de mulheres, e eu fui chamada como tradutora.  Eu comecei a observar que os homens traduziam errado a fala das mulheres. E que eles mesmos que colocavam a opinião deles em cima das coisas, nem traduziam, na verdade, colocavam o que eles pensavam. Eles mesmos colocavam no papel as coisas que eles queriam. Como estava se falando da saúde, eles mesmos colocavam o pensamento deles. Eu achava aquilo ali... falei: “Esse negócio tá errado”. Aí aconteceu de novo, eu estava lá e eu fui nessa Conferência da Saúde Indígena. Era tudo homem... Tinha acho que três mulheres que eram agentes de saúde, né, que estavam lá ajudando e eu fui falar. Quando eu fui falar, todos os homens ficaram quietos, né? E eu não consegui falar direito. Fiquei muito nervosa. Minha voz começou a tremer. E um homem levantou e falou assim pra mim: “Tá vendo? Mulher não dá conta” – a palavra que ele usou – “Ela só está aí chorando. Não dá conta. A gente não pode ficar atrasando nossas coisas por causa dela”. Então, isso ficou muito forte pra mim, isso que me incentivou a levar, a fazer parte desse movimento indígena, de ir também participar da política indigenista. E quando ele falou: “Não adianta a gente trazê-las, elas só vão atrasar a gente”. Então tive que repetir várias coisas lá e eu quis mostrar que não era assim, que a gente podia, sim, participar das coisas, porque a gente pode, também, ajudar nas coisas, porque é a gente que está lá sofrendo, a gente que está com os filhos, a gente que cuida da casa e da aldeia, a gente que faz as coisas acontecerem. 

Se eu não falo português direito ou outras mulheres não sabem se expressar na frente de um monte de gente, a gente vai aprender. Outro motivo foi que muita gente falava por nós, muitas brancas e brancos falavam o que a gente era, como que a gente era, o que a gente queria, qual que era o nosso pensamento, levava muita mensagem errada pra fora. E que a melhor forma de levar nossa mensagem, o que a gente quer, é a gente ir, mesmo. E a gente mesmo falar por nós..

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