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História

Um exército nas refinarias

História de: Marcio Nicolau Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/03/2015

Sinopse

Neste depoimento, Márcio nos conta a respeito de sua família e sua infância humilde no interior da Belo Horizonte dos anos 50. Também nos conta sobre sua militância política já dentro da Igreja Católica e sua formação escolar. Nos fala sobre suas brincadeiras de criança e suas diversões nos bailes da adolescência. Márcio fala de sua trajetória profissional, começando com arquivista numa metalúrgica, em 1973, até entrar na Petrobras em 1975, como auxiliar de escritório em Betim. Fala de sua militância sindical no SINDIPETRO-MG e na CUT, as diversas greves que participou e momentos marcantes dentro da empresa, como greves negociações tensas e acidentes. Reserva espaço para falar do cotidiano agradável e do lazer junto de seus companheiros de sindicato. Termina este depoimento falando sobre seu desejo de transformação social para o Brasil e a importância do projeto Memória dos Trabalhadores da Petrobras.

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História completa

Meu nome é Marcio Nicolau Machado. Nasci em 10 de setembro de 53, em Belo Horizonte.

FAMÍLIA Meu pai é de Barbacena, e minha mãe, de Belo Horizonte. Não sou descendente de estrangeiros. A menos que eu tenha conhecimento, não. Meu pai hoje é aposentado, ele trabalhou na Central do Brasil, na Rede Ferroviária Federal. Quando eu era pequeno ele trabalhava lá. Ele se aposentou já deve fazer mais de 20 anos, 30 anos. Ele era manobreiro, na Central, uma função que existia lá, que controlava fluxo de trem para as indústrias na cidade industrial, em Contagem. Embora quando eu era pequeno, a atividade dele nós não acompanhamos. Minha mãe está em casa, doméstica, cuidando da gente, da filharada. Éramos oito irmãos e perdemos um há uns dez anos. Somos sete hoje. Minha mãe, a vida dela foi cuidar da gente.

CASA E TRABALHO Lembro da minha casa de infância. Lembro, foi sempre uma casa humilde, casa de operário no Brasil. Eu o filho mais velho, então a minha vida toda foi ajudando mamãe a cuidar das crianças enquanto criança também, e mais tarde ajudando na despesa de casa a partir do que a gente passou a ser um pouco de força de trabalho, já depois dos 14, 15 anos - trabalhando em feiras, feiras livres, que existiam muitas antigamente. Hoje em alguns locais ainda existem, mas em Belo Horizonte não tanto quanto existia na época da gente criança, da gente adolescente. Então foi assim minha vida.

BRINCADEIRAS Bom, as brincadeiras de infância eram as comuns naquela época, era brincar de roubar bandeira, pega ladrão, de jogar futebol, sair de casa escondido para nadar nas lagoas que tinha por perto, nos córregos que tinha aquela época, que ainda não eram tão poluídos como hoje, principalmente. A gente que morava na periferia de Belo Horizonte, então aquela época, década de 50, a gente criança, início da década de 60, ainda tinha alguns locais que permitiam este tipo de lazer para a molecada, de nadar nos córregos, nas lagoas que tinha aquela época, então foram essas as brincadeiras da gente, brincar de pega-ladrão, rouba-bandeira, mamãe da rua. Rouba-bandeira, a gente formava dois times, separado por um traço e uma bandeira, que era um galho, qualquer coisa que a gente colocava do outro lado que simbolizava bandeira, e o objetivo era atravessar de um canto para o outro, apanhar a bandeira e voltar sem ser tocado por ninguém dos adversários, correndo. Essa era a brincadeira de rouba-bandeira que a gente fazia.

AUTORIDADE MATERNA Quem exercia a autoridade dentro de casa com a gente era mais mamãe, porque papai, o regime de trabalho dele era 12 horas. Ele trabalhava 12 horas, folgava 24, trabalhava 12, então a gente tinha mais contato diário era com mamãe, que exercia maior autoridade dentro de casa com a gente, com as crianças; papai, não. Papai sempre foi mais afastado, não xingava, não brigava, não dizia nada para a gente. Mamãe é que controlava mais, cobrava os deveres de escola, essas coisas todas, o trabalho de casa, então vida da gente de criança foi mais com a mãe.

IGREJA E POLÍTICA Minha formação religiosa era o catecismo na época da infância. Eu particularmente, a minha militância política eu comecei dentro do grupo de jovens da Igreja Católica, na década de 70. Então a formação religiosa da gente foi sempre na Igreja Católica. Eu participei de fazer primeira-comunhão, de aprender o catecismo, e mais tarde na militância ainda não política essencialmente, mas dentro de grupos de jovens. Eu participei desde, comecei em 74, num grupo de jovens que se chamava Cupem, num bairro lá de Contagem, cidade vizinha a Belo Horizonte, então lá nós participamos desse grupo, que era um grupo em que a gente fazia algum trabalho social de arrecadação em épocas de campanhas, de quilo, de agasalho, ajudando creches. Eu participei nessa época desse grupo, cheguei a ser coordenador deste grupo por dois ou três anos, mas foi o início da militância da gente dentro da Igreja. Na minha casa não se discutia política na época da minha infância. Eu lembro muito vagamente na época da revolução, de papai comentar que a revolução de 64 piorava a situação dele, que era um funcionário público da Central do Brasil, que era uma empresa federal, mas que piorava. Mas discussão de política em casa quase que nenhuma, quase que nenhuma mesmo.

ESCOLA Com 7 anos eu entrei na escola, que dizer, eu entrei na escola assim de primeiro ano, mas jardim de infância eu entrei antes, não me recordo, mas tinha 4 ou 5 anos. Entrei no jardim de infância também lá no Barreiro, uma escola que se chama Maria Brochado, lá eu entrei para fazer o jardim de infância daquela época, hoje é o pré-escolar. Tenho muito pouca lembrança do período do jardim de infância, muito pouca. Do primário tenho mais lembrança, algumas pessoas que até há pouco tempo a gente convivia, mas que já faleceram, um colega que eu tinha, e foi colega no primário, depois nós fomos colegas fazendo científico, e convivemos até pouco tempo atrás, esse colega faleceu. Então eu tenho boas lembranças do período de escola, acho que eu sempre fui um aluno... Procurava cumprir com meus deveres, em casa mamãe cobrava muito isso, e eu era o filho mais velho, então gente sempre tinha que ser o... para dizer: “Seu irmão fez então...” É, então sempre foi assim na casa da gente, é uma lembrança boa, uma lembrança de escola, tanto do período do primário, do período ginasial e até na época do científico. Tive uma professora que chamava dona Efigênia, já era velhinha, foi minha professora de terceiro ano de grupo, o primário. A última professora que tive no primário também, dona Angélica, boas lembranças daquele período, período em que na escola, na época do mês de maio, tinha a coroação das meninas e em junho tinha as dos meninos, então a dona Angélica, essa dona Efigênia, aí eu sempre participei de coroação, desses negócios na escola. Um período legal da vida da gente, período de escola. E tudo escola pública, a vida inteira escola pública, período legal.

ADOLESCÊNCIA Nós participamos, na época de adolescência, a gente fazia muito de um ir na casa do outro, os colegas, os vizinhos. A gente morava no Barreiro de Baixo, uma vila chamada Barreiro de Baixo, que se chamava Santa Margarida. A gente já na adolescência fazia todo fim de semana, um fim de semana na casa de um, na casa de outro, a gente fazia os nossos bailinhos, depois mais tarde, já a partir de 17, 18 anos,já começando a freqüentar clubes, os bailes. Um período legal, época de Beatles e Bee Gees, começo da década de 70, então um período muito legal, as namoradinhas começando a aparecer. O nome da primeira namorada... Não lembro não...

CIENTÍFICO A gente tinha uma dificuldade muito grande, com a questão profissionalizante na região da gente. A gente tinha só... Na minha época não lembro de ter o Senai. Eu tive um irmão que fez curso no Senai, mas um irmão já bem mais novo do que eu. Na minha época não, a gente não tinha na nossa região curso profissionalizante. Na época que a gente está com 12, 13 anos, que é a época que normalmente se entrava para este tipo de curso, a gente não tinha na época e mais tarde... a gente, minha intenção, por exemplo, tinha muito na cabeça que tinha que fazer engenharia, que queria fazer engenharia, então todo muito dizia que para fazer engenharia, era mais fácil fazer científico, dava mais base para vestibular. Então eu fiz o científico, não fiz nenhum curso profissionalizante, mas também não passei no vestibular na época que a gente poderia ter passado, não passei. Não tive essa formação profissionalizante na adolescência ou mesmo na juventude.

PRIMEIRO EMPREGO Meu primeiro emprego formal foi numa metalúrgica, eu havia feito... quer dizer, eu disse que não fiz curso profissionalizante, mas eu fiz um curso no Senac. Eu fiz um curso de escritório, para trabalhar na parte de contabilidade, na parte de arquivo, então meu primeiro emprego foi numa metalúrgica. Eu trabalhei, isso eu entrei em 1973, início de 73 numa metalúrgica, onde eu trabalhei como... Eu entrei para poder organizar o arquivo desta metalúrgica, para trabalhar no arquivo desta metalúrgica, trabalhei dois anos nessa metalúrgica. Eu tinha um primo que trabalhava - primo não, marido de uma prima minha - que trabalhava nesta metalúrgica e precisava de alguém que tivesse algum conhecimento na parte de arquivo, nesta metalúrgica. Eu nunca tinha trabalhado nisso, aí esse primo falou: “Oh, você fez o curso, aprendeu a trabalhar com arquivo, você quer ir lá, porque lá está precisando de alguém para organizar, porque o arquivo de lá está uma bagunça do pessoal?” Aí eu fui para lá. Foi meu primeiro emprego.

SENAC Eu tinha feito este curso já, e não conseguia emprego. Era um curso de auxiliar de escritório, que tinha no Senac lá em Belo Horizonte - não sei se ainda tem este curso hoje lá. Foi em 71, 72, um curso longo, um curso de 12 meses, então este curso embasava a gente bastante para trabalhar com estas questões.

INGRESSO NA PETROBRAS Fui trabalhar nesta metalúrgica e fui até bem quando de lá desta metalúrgica o senhor que era chefe do escritório, ele saiu para uma outra metalúrgica, me chamou também nessa outra metalúrgica para também organizar o arquivo dessa outra metalúrgica, só que nessa eu trabalhei menos de 30 dias, porque eu havia feito o concurso da Petrobras, aí eu fui, entrei na Petrobras já em 75. Fiz o concurso na Petrobras para auxiliar de escritório. Teve uma época na minha vida que a gente fazia tudo quanto era concurso que aparecia, então eu fiz concurso para a Polícia Federal, fiz para concurso para a Petrobras, fiz concurso para o Banco do Brasil, Tribunal de Contas, tudo quanto era concurso a gente fazia, e eu fiz também este concurso para a Petrobras. Eu havia passado no concurso, mas não tinha sido chamado. Mas foi assim sem conhecer direito o que era a Petrobras, no começo da década de 70, 72, 73. Eu entrei em 75, então a gente não tinha expectativa, não tinha conhecimento político das coisas; do que acontecia no país de uma forma geral a gente não tinha conhecimento, era aquela juventude despolitizada completamente, então eu entrei na Petrobras dessa forma. A participação que eu tinha em 75 foi o início da militância nos grupos de jovens, mas que não tinha nenhum tipo de conhecimento de movimento político, até então, até aquele momento não tinha. A minha entrada na Petrobas foi dessa forma, fiz um concurso, passei e fui chamado no início de 75. No dia 11 de março fui admitido lá. Eu fui trabalhar no escritório, auxiliar de escritório, no setor de pessoal, na época estava havendo a ampliação da refinaria, em Belo Horizonte, em Betim.

REGAP A refinaria funcionava em Betim, funciona em Betim, e eu fui admitido lá na Angap, trabalhando cedido para a Regap no setor de pessoal em 76, e logo a seguir, nesta mesma época, fiz também o concurso do Banco do Brasil. Foram algumas coincidências. Tinha feito concurso do Banco do Brasil e já na Petrobras em 76, se não me engano, teve um concurso para operador na Petrobras; eu fui também fazer concurso para operador. Tudo quanto era concurso a gente fazia, então eu passei no concurso do Banco do Brasil e passei no concurso para operador, e quando o banco me chamou eu fui e desisti do concurso do banco, porque eu achava mais fácil. No banco eu ia para o interior, ia ficar longe de casa, longe da minha mãe. Eu desisti de ir para o banco e fui para ser operador na Petrobras mesmo, já em 77. Bom, no escritório era aquela rotina, todo o dia a mesma coisa, mesmo tipo de trabalho. Eu trabalhava no setor de pessoal, o meu trabalho era fazer a admissão das pessoas que estavam entrando na Petrobras, eu trabalhava no cadastro, na admissão e dar baixa, então era uma rotina muito... Fazer controle de férias, de licença médica, essas coisas dentro da empresa, era aquela rotina que se repetia diariamente. Já na operação, não, foi diferente. Uma das razões de eu ir para a operação, de eu ter preferido ir para lá, até a ter ido para o banco, é porque a gente não estaria preso dentro de uma sala. Então esse foi um dos pontos importantes de eu ir para a operação na Petrobras. Eu fui trabalhar no setor de utilidades, e o trabalho na área me chamava mais atenção, e um trabalho que eu gostei de fazer durante estes anos todos dentro da Petrobras.

UTILIDADES A área de utilidades dentro de uma refinaria ela trabalha com caldeiras, fornecimento de vapor para as diversas unidades da refinaria, para a área de processamento, principalmente, para a área de transferência e estocagem, para aquecimento de diesel, fornecimento de vapor, fornecimento de ar comprimido para instrumentos diversos dentro da unidade. Fornecimento de água, tratamento de água, para diversas utilidades dentro da Petrobras. Fornecimento de água e fornecimento de energia elétrica, que a gente... A área de utilidades na Regap é quem cuida da parte de fornecimento de energia elétrica também, para as unidades de processos e para a toda refinaria. Esse é o trabalho do operador de utilidades. E foi um trabalho que eu gostei de fazer durante esses anos todos dentro da Regap.

MILITÂNCIA Bom, minha inserção no sindicato começou a partir desse conhecimento, ou dessa participação no grupo de jovens. Eu comecei a militar na pastoral da juventude, isto já em 77, 78 e a pastoral funcionava na cidade industrial, na região industrial de Contagem, e também no mesmo local em que funcionava a pastoral da juventude, funcionavam outras pastorais, inclusive a pastoral operária, e na pastoral operária que comecei... Eu já trabalhava na Petrobras. Eu comecei a conhecer pessoas que militavam na pastoral operária, antes mesmo de militar sindicalmente nos petroleiros, porque, por exemplo, neste período de 75 até 78, 79, a gente não tinha muita coisa, muito movimento nos petroleiros, mas lá em Contagem, por exemplo, já teve um greve dos metalúrgicos em 78. O contato que a gente tinha da pastoral da juventude com a pastoral operária, quando eu comecei a conhecer as pessoas do sindicato dos metalúrgicos, e ali eu comecei de alguma forma a estar ajudando, principalmente, neste período da greve de 78 lá dos metalúrgicos, e aliado a isso todo aquele movimento que surgiu no ABC paulista, dos metalúrgicos. Eu comecei a participar no sindicato dos petroleiros na época em que Wagner Benevides era o presidente do sindicato. Aí nós começamos a atuar ali, e na próxima eleição que teve, eu já entrei para a diretoria. Foi assim até uma passagem rápida, sem ser oposição no sindicato, sem uma militância muito efetiva dentro dos petroleiros, aí com pouco tempo já comecei a participar da diretoria do sindicato, mas muito com a consciência adquirida nesse contato que a gente teve com os metalúrgicos na região industrial de Contagem - Belo Horizonte e Contagem.

SINDIPETRO MINAS GERAIS A minha primeira participação no sindicato foi no conselho fiscal. A diretoria tomou posse em 1982, então eu participei do conselho fiscal. Em 1985 já entrei na diretoria como secretário do sindicato, aí depois eu fiquei fora três anos. Um mandato nosso a diretoria nossa se dividiu, e nós disputamos eleição e perdemos, então eu fiquei fora do sindicato durante três anos. Em 90 numa outra eleição nós ganhamos a eleição e já voltei como presidente do sindicato em 90 e permaneci até 99. Então esta é a trajetória do movimento sindical lá em Minas Gerais.

DIFICULDADES NA CARREIRA Nesse período todo, quem era direção de sindicato, quem era militante, na Petrobras nunca teve muita oportunidade. Sempre foi a história: se a gente era operador I, e entrava para a diretoria do sindicato, ou começava a militar, você certamente ia sair lá na frente como operador I. Se era auxiliar de escritório iria sair como auxiliar de escritório. A possibilidade de ter algum tipo de avanço dentro da empresa era muito pequena para quem foi militante sindical. E essa foi a minha trajetória. Eu entrei na Petrobras como auxiliar de escritório, fiz um concurso, passei para ser operador, e fui classificado como operador I e saí de lá como operador de utilidades em 94. Em 88, até por esta participação - eu estava fora da diretoria do sindicato em 88 -, teve uma greve na refinaria em maio, aí nessa greve foram oito companheiros demitidos e eu fui um deles. E eu não era da diretoria do sindicato. Retornamos em outubro, finalzinho de setembro, início de outubro do mesmo ano; um pouco antes da promulgação da Constituição retornamos. Fomos reintegrados, e depois, em 94, como presidente do sindicato, novamente demitido. Então a relação da gente com a Petrobras, ou da Petrobras, eu acho melhor dizer da Petrobras com a gente, sempre foi uma relação não muito amistosa neste sentido, de quem era dirigente sindical ter alguma progressão dentro da empresa, sempre foi esse tratamento que a Petrobras e as diversas direções dispensaram para quem era dirigente sindical e quem era militante sindical. Em 88, quando eu fui reintegrado, o que eles fizeram comigo, por exemplo, foi tirar. Eu não voltei na mesma turma em que eu trabalhava. Uma coisa que na Petrobras sempre se fazia, ou lá se fazia vez por outra, era desmanchar quando se tinha um grupinho que começava a se entrosar muito, então eles davam um jeitinho de desmanchar. Diluir aquele pessoal. Tirava, trocava de turno, e quando eu voltei em 88 foi o que aconteceu. Eu não voltei no mesmo grupo de turno, isso já havia acontecido comigo anteriormente, quando eu fui secretário do sindicato, eu fui liberado. Naquela época liberavam-se o presidente, o secretário e o tesoureiro, então eu fiquei liberado. Quando eu retornei da liberação eu já voltei em outro grupo diferente, no outro grupo de trabalhador diferente, e sempre era assim. Quando existia algum movimento, a gente era tirada de dentro da unidade. A direção da refinaria sempre procurava segregar esses trabalhadores que de alguma forma aglutinavam alguém, e sempre dessa forma tentar desestruturar qualquer tipo de organização que você tentasse fazer por dentro da unidade.

ATUAÇÃO DO SINDIPETRO Bom, a Regap em termos do movimento sindical, a refinaria ela começou a ter uma participação maior, acho que todos os trabalhadores petroleiros, a partir das lutas do ABC paulista, principalmente, no caso dos petroleiros, a partir de 83, depois daquela greve histórica de Campinas e Mataripe, então começou a ter uma participação maior dentro dos movimentos - e na Regap também não foi muito diferente. Nós tivemos uma... Eu particularmente me sinto até muito orgulhoso de ter participado desse momento dos petroleiros de Minas Gerais, porque nós tivemos ainda no período de 82 até 86, 87, a gente tinha uma certa liberdade dentro da Petrobras, de ter acesso às unidades, e a gente estava liberado para o sindicato, ou mesmo a gente estando trabalhando sem estar liberado para o sindicato, a gente continuava depois do horário dentro das unidades circulando e conversando com os trabalhadores. Isso fortalecia muito a luta sindical, tanto é que a Petrobras tentou algumas investidas, por exemplo, em 84, se não me engano, ela tentou implantar um pacotão do turno, porque a gente dentro da Petrobras, a gente toma banho, a gente chama de descontaminação, que o trabalho da gente lá a gente se suja toda de óleo, de graxa, e a Petrobras queria que a gente tomasse banho depois do horário de trabalho; e que chegasse para trabalhar, e quando desse o horário certo a gente já estivesse todo mundo pronto, e nós não concordamos com aquilo, porque a gente dizia que a gente se contaminava como o trabalho, a gente teria que se descontaminar durante o horário de trabalho também. Então a participação da gente, quando a gente tinha este espaço para conversar com os trabalhadores, fez com que a gente fortalecesse uma luta para que não aceitasse esse tipo de imposição. Quer dizer, é uma luta que era pequena naquela época; hoje, com o que aconteceu no movimento sindical petroleiro, com essas greves que aconteceram depois de 88, esse tipo de coisa hoje parece uma coisa pequena, mas que naquela época, quando não acontecia nada, em plena ditadura militar, na época do governo Figueiredo, para a gente foi um avanço, porque nós fizemos diversos movimentos para poder evitar que fosse implantado. Isso aconteceu no país inteiro, e na Regap também a participação foi muito boa de todos os trabalhadores, então assim a gente teve uma participação dentro do movimento sindical dos petroleiros de Minas Gerais muito boa.

GREVE DE 88 Durante as greves virou para a gente um trauma, porque em 88 nós tivemos a greve de maio de 88, e essa greve era por conta da URV. Acho que era por conta da URV, não lembro mais, sei que era uma coisa que o governo cria. Essa greve de maio, e nessa greve era uma greve que seria por tempo determinado, e ela acabou por ser por tempo indeterminado, então os trabalhadores... A gente tinha uma inserção muito grande – nós, nessa greve eu não era diretor do sindicato -, o grupo que a gente tinha dentro da refinaria não estava na direção do sindicato, mas a gente tinha uma inserção muito grande com os trabalhadores, principalmente do turno. Nós conseguimos fazer a greve, e o pessoal sentiu-se traído pela direção do sindicato da época, porque era uma greve que seria por tempo determinado e depois ela se tornou por tempo indeterminado, e numa madrugada lá, a direção do sindicato acabou com a greve com acordo com a direção da refinaria que não ia ter demissão, aí voltou para trabalhar de madrugada, e quando passam dois dias, foi uma série de demissões. Foram mais de 500 advertências que os trabalhadores tiveram, então foi assim uma punição generalizada dentro da refinaria, e isso refletiu na Regap por vários anos. A avaliação que a gente faz hoje é que aquela greve se refletiu por vários anos no sentido de desmobilizar os trabalhadores, e conseqüência disso foi que as greves que aconteceram a partir daí, nessa greve de maio, a Regap foi uma das únicas unidades no Brasil que começaram a parar a produção, porque o que estava posto para nós é que a greve não seria por tempo determinado, enquanto no resto do país a greve estava se encerrando, e a gente estava continuando com a greve. Então isso aí deu um baque muito grande, e a partir daí as greves na Regap foram umas greves assim: o país inteiro parava e na Regap batia recorde de produção. Então foi assim uma situação inversa para a gente lá, e que nós custamos para poder reverter este quadro, até que a gente tivesse uma participação maior das pessoas. A partir de 90, que retornamos o sindicato, que nós entramos, diretoria nova no sindicato, começou a reverter este quadro todo que foi posto para nós lá na refinaria.

ACIDENTES Bom, acho que o que mais marca a gente são os acidentes, porque eu acho uma tristeza, de uma falta de responsabilidade muito grande das direções com os trabalhadores. Eu acho que me marcou muito. Eu vivi muito de perto, apesar de já estar de fora de refinaria, de eu estar demitido, me marcou muito de perto foi o acidente de 98 na Regap, um acidente em que faleceram cinco companheiros nossos, e outros acidentes. Eu acho que as coisas que mais marcaram dentro da Petrobras, as coisas que primeiro me senti mal, foi de ver esses acidentes. Aí começa com acidente de Enchova e esses acidentes que aconteceram na Petrobras que mataram muita gente, como acidente da Vila Socó, como acidente de Ipojuca. Eu acho que essas tragédias que aconteceram na empresa marcam muito a gente, porque a gente pensa uma empresa, e na época a Petrobras era uma empresa com um monopólio, ela não poderia de forma alguma deixar que estas coisas acontecessem, e as políticas erradas que foram implementadas neste período levaram a estes acidentes. Esse da Regap, principalmente, essa questão de falta de treinamento, de polivalência que até hoje ainda tem, a terceirização desenfreada que a Petrobras praticou nestes últimos anos, de 80 para cá, principalmente, então isso marcou muito a gente, porque isso gerou acidentes, gerou perdas de vidas. Hoje a gente tem por um lado uma felicidade, eu particularmente, ter a mesma idade da Petrobras, são poucos dias de diferença da Lei 2004 para o meu nascimento, ou do meu nascimento para a Lei 2004. Não chega a 30 dias de diferença. Mas tem essa tristeza de ver acontecer esse tanto de acidentes numa empresa que é monopólio, ou que foi monopólio, e que nós lutamos para que permanecesse monopólio, mas que não investisse o necessário suficiente para que essas coisas não acontecessem na Petrobras nesses anos todos. Esses acidentes que vitimaram essa quantidade enorme de companheiros próprios ou terceirizados, mas que são trabalhadores petroleiros que deixaram assim uma vida ao longo desse caminho para construir essa potência que é a Petrobras, e que infelizmente deixou de investir o necessário em treinamento, em mão-de-obra e em quadros próprios para que essa coisa não acontecesse. Acho que essas foram as marcas, infelizmente eu acho que as piores dentro da Petrobras.

GREVE DE 95 Em 94 foi a greve que na Regap parou a produção da Regap, foi a greve de setembro de 94. Agora, a maior greve, em termo de duração, na categoria, foi a greve de maio de 95. Foi a greve que durou 32 dias, aproximadamente, e foi a greve que teve intervenção no sindicato, que teve uma série muito grande de demitidos. Essa foi a maior greve, e foi a greve que bateu de frente com o governo de Fernando Henrique. Para a gente ela teve uma simbologia muito grande, essa greve de maio de 95, apesar da gente não ter saído vitoriosa naquilo que a gente reivindicava, que era o cumprimento de um acordo assinado por um ministro do governo anterior, do governo Itamar, de ter descumprido, mas para a gente mostrou uma unidade da categoria no país inteiro. Foi a greve, no meu ponto de vista, foi a greve mais forte que a categoria já fez, aquela de maio, e uma greve que teve uma repercussão em nível internacional muito grande.

TOMADA DE DECISÕES Atualmente, para se chegar a uma greve... Antes não era muito diferente. Com a fundação da FUP, a Federação dos Petroleiros, as greves ou qualquer outro movimento que se decida, e normalmente os movimentos na nossa categoria ele são feitos em nível nacional, eles são decididos através de plenárias. A gente realiza normalmente um congresso nacional, se realiza todo o ano, e os objetivos das greves normalmente são nas campanhas reivindicatórias da categoria, e durante o desenrolar das campanhas a gente realiza plenárias. Nessas plenárias se decide ou não por realizar uma greve, dependendo se está atingindo o que a categoria está reivindicando, se existe concessão ou não, essas plenárias vão definir por uma greve e essa definição ela tem... Essa plenária ela é realizada com representação de todo os sindicatos. A plenária decide. Por exemplo, quando ela decide por uma greve, essa decisão da plenária ela volta para os trabalhadores, que vão realizar as assembléias, e vão referendar ou não a decisão dessa plenária, então esse é o critério que até hoje vigora nos petroleiros para a gente tirar todos os movimentos que são nacionais, e até hoje tem funcionado. Quando se decide por uma greve numa plenária, as assembléias normalmente acatam, e a greve é desencadeada no país inteiro. O peso hoje não é por sindicato, hoje é a federação. Mas mesmo antes da federação, porque quando a gente tinha um comando nacional, quando a gente tinha um departamento, quem ficava neste departamento ou nesse comando, ele não era escolhido por sindicato, mas era num congresso. Escolhiam-se as pessoas que iriam compor aquilo dali, essa direção, e o peso dos sindicatos enquanto entidade era igual para qualquer sindicato. Nos petroleiros, hoje, não se observa um sindicato que tenha 500 pessoas, um sindicato que tenha 15 mil pessoas, então o peso das entidades ele é o mesmo. No congresso onde são escolhidas as pessoas ou quem vai dirigir, por exemplo, a federação hoje, a diferença que existe não é do sindicato, mas é da base que este sindicato representa quando se escolhe os delegados que vão para este congresso, então existe uma proporção em relação ao número de trabalhadores na base. Aí nesses congressos é que vai se eleger a direção. A partir de eleita essa direção, o sindicato tem o mesmo peso, não tem um sindicato com um peso maior que outro, quer dizer, isso para essa organização nossa é o que a gente conseguiu de mais democrático. Garante a participação e garante representação de todo mundo nessas instâncias. Quando a gente vai fazer uma plenária, por exemplo, o sindicato, de acordo com o número da base, manda dois, três ou quatro delegados representando aquela base. No caso de Minas Gerais, por exemplo, a gente normalmente, a gente manda três pessoas, que é o número de trabalhadores que tem na nossa base hoje, e um sindicato como o norte fluminense, por exemplo, se a gente manda três, eles devem mandar uns oito ou dez. Quer dizer, o número de trabalhadores na base é muito maior que o nosso, então essa é a forma de representação que a gente tem hoje para tomar decisões a nível nacional. Normalmente essas decisões tomadas por esse colegiado, por essas plenárias, são encaminhadas por todo o sindicato, isso garante a nossa unidade.

RUMO À CUT Como diretor, eu entrei no sindicato em 1982. Bom, tinha um senhor no sindicato que chamava... Chama - hoje ele não está, está aposentado, não mora mais em Belo Horizonte, - João Mendes. Eu entrei na diretoria, a gente desde 79 a gente já vinha participando, ainda sem ser diretor de sindicato, mas já participava dos movimentos sociais e de movimento sindical mais precisamente, e desde esta época, também quando começou a discussão da formação do PT, eu também estava participando disso, apesar de nunca ter sido diretor do sindicato, e essa participação fez a gente conhecer as pessoas do sindicato. Conhecer João Mendes, principalmente, e ele na época estava formando uma chapa no sindicato e me chamou, eu, quem foi presidente do sindicato? O Maia, o João Mendes e diversos companheiros que vieram compor aquela diretoria em 82, mas muito por essa participação que a gente teve fora do sindicato. Então o João Mendes me convidou, eu entrei na chapa em 82, eu entrei no conselho fiscal. Como a gente estava sempre participando, eu a minha vida toda nunca gostei de entrar num negócio e ficar meio vai ou não vai, e no sindicato na época eu participava, eu era de núcleo do PT, núcleo de bairro, participava de associação de bairro, eu ajudei a fundar uma associação no bairro em que eu morava, no Santa Margarida, e sempre gostei de estar participando de tudo, e do sindicato também. Quando eu entrei para a diretoria, eu entrei e comecei a militar mais ativamente dentro do sindicato, aí quando foi na eleição seguinte, uma reunião da turma toda para montar a chapa, o pessoal achou que eu deveria ir para a secretaria do sindicato e ficar por conta, ser liberado, e foi assim que começou essa militância dentro do sindicato. Em 85 nós fomos liberados, eu fiquei liberado no sindicato até 87, meados de 87, quando nós... O grupo que a gente tinha dentro da diretoria se desentendeu com a outra parcela. Em 87 deixei de ser liberado e voltei para a refinaria;88 veio a greve, aí eu fui demitido, maio de 88. Fui reintegrado no final do ano, ficando fora do sindicato. Em 90 a gente ainda era oposição ao sindicato, e em 90 que nós voltamos ao sindicato. Nesse período de 82, quando a gente assumiu o sindicato, foi uma época muito rica dentro do movimento sindical, porque foi uma época de construção do PT, foi uma época de construção da CUT, então a gente participou da época dos Enclats, dos Entoes, quer dizer, toda a preparação que teve para se formar a CUT. E dentro dos petroleiros a gente ajudou muito também a construir as oposições sindicais dentro do movimento sindical petroleiro, que naquela época os sindicatos que tinham isso, em 82... Em 83 foi fundada a CUT, mas em 82 e 83 os sindicatos que tinham uma linha mais ou menos, não era cutista, mas uma linha que se aproximava muito da intervenção do movimento sindical, era o sindicato nosso de Minas Gerais, era o Sindipetro Campinas. Ainda não tínhamos o Sindipetro Bahia, ainda não tinha diretoria nesse sentido, mas nós, Campinas, São José e Mauá, e nesse período nós trabalhamos muito juntos, principalmente o pessoal de Campinas, a formar oposição sindical. O Sindipetro do Rio de Janeiro, o Sindipetro de Duque de Caxias, Sindipetro Paraná, Rio Grande do Sul, e a gente ajudou a participar neste período todo, eu particularmente ajudei a participar neste período. Eu tenho uma outra felicidade de ter ajudado a construir o Sindipetro do Espírito Santo. A primeira reunião que teve no Espírito Santo para se formar a associação profissional dos trabalhadores lá, então fui eu que fui realizar esta reunião lá no Espírito Santo, e hoje quando a gente encontra com o pessoal do Espírito Santo, o Charles, principalmente, que a gente tem mais contato, que está muito aqui no Rio, na federação, a gente comenta este período. Se não me engano em 85, e a gente fica... Eu particularmente fico muito feliz de ter participado dessa transformação que sofreu o movimento sindical petroleiro, a partir dessa intervenção desse grupo de pessoas, e no início com a participação muito forte, que a presença muito forte era do Jacó Bittar naquela época, e depois o Jacó saiu, e essa turma deu prosseguimento a este trabalho. E a gente vem participando disso na formação do DNPC, depois do DNP-CUT. DNPC O DNPC era o Departamento Nacional dos Petroleiros da CUT, porque na época existia outro agrupamento dentro do movimento sindical que formou a Fenape, que era a Federação Nacional dos Petroleiros, e nós estávamos participando em Minas Gerais. Nós estávamos fora da diretoria, a gente era oposição, acredito que quem era da diretoria do sindicato na época era o Maia, e a gente na oposição, e nessa época nós participamos desse DNPC. Esse período foi em 88, 87, 89. Nesse período de 87 até 89.

AVANÇO DA CUT Nesse período eu estava fora da diretoria, mas a gente participava nos congressos da categoria. Estava sempre participando e ajudando, até que esses grupos ligados à CUT começaram a ganhar a eleição. Ganhou no Sindipetro Rio de Janeiro, no Sindipetro Caxias, Sindipetro Paraná, Sindipetro Bahia, e foi ganhando. Hoje todos os sindicatos petroleiros, todos, sem exceção, são filiados à CUT, quer dizer, esse trabalho começou lá em 82, 83 e a gente vem participando dessa história toda, dessa construção, desse sindicalismo na área de petróleo que hoje a gente vê como um dos mais respeitados do Brasil e do mundo. Hoje a nossa federação é uma das principais federações do Brasil, o movimento sindical petroleiro não tem um volume de trabalhadores como tem o metalúrgico, como tem bancário, comerciário, mas com certeza tem um peso político no Brasil, se não é maior é igual ao dessas categorias de peso no país, a gente se sente orgulhoso de ter participado dessa construção toda.

PRESIDINDO O SINDICATO Hoje eu continuo na diretoria. Em 94 eu fui demitido, fomos sete demitidos em Minas Gerais. Eu era presidente do sindicato. Bom, em 87, nós perdemos a eleição no sindicato. A eleição foi no final do ano de 87; no início de 88, assumiu a outra diretoria, nós ficamos fora de 88 até 90. Em 90 nós montamos uma chapa - esse grupo que havia perdido a eleição em 87, em 90 montou uma chapa - e nós ganhamos a eleição, aí eu voltei como presidente do sindicato. Isso foi na época em que o Collor ganhou a eleição, foi aquela virada toda, foi a eleição de 89, a eleição presidencial de 89; no início de 90 nós ganhamos a eleição, assumimos a direção do sindicato em 90, eu assumi como presidente do sindicato e fiquei como presidente até 99. Em 94 eu fui demitido, depois da greve da categoria, em 94, ainda no governo Itamar. Eu fui demitido, mas em 96 teve outra eleição e a decisão daquele grupo da diretoria foi de bancar todos os demitidos na diretoria do sindicato, e eu continuei como presidente. Em 96 estava demitido, quer dizer, o termo correto não é demitido, mas com contrato de trabalho suspenso, porque eu era presidente do sindicato, então aquilo suspendia com apuração de falta grave, a diretoria manteve meu nome na direção do sindicato, como dos outros companheiros que também haviam sidos demitidos. Nessa época não tinha mais disputa no sindicato, não teve chapa de oposição, nós fomos eleitos foi em 90, depois foi em 93, depois 96 foi até 99. Em 99, nesse período nós fizemos alterações no estatuto do sindicato e a diretoria passou a ser colegiada, então não existia a figura do presidente, nem do secretário e nem do tesoureiro, mas diretoria colegiada. Nas eleições seguintes eu permaneci também na diretoria, mas aí nós passamos a funcionar em forma de secretarias. Então da primeira eleição, eu participei, fiquei na secretaria administrativa do sindicato, e hoje eu faço parte da secretaria de previdência e aposentadoria dentro da diretoria do sindicato.

APOSENTADORIA Eu ainda continuo como diretor, mas nesse período eu fui demitido, em 94 - a gente continuou a contribuir para o INSS e para Petros. Na época da demissão eu estava com quase 19 anos de Petrobras, eu trabalho em área de insalubridade, em área de alto índice de ruído, com direito a aposentadoria especial, então nós continuamos contribuindo, e em 97 eu completei o tempo e entrei com requerimento no INSS para aposentadoria, e minha aposentadoria saiu em maio de 97.

PETROS No início minha aposentadoria foi só do INSS, porque como na Petrobras o processo judicial estava tramitando, se a demissão se confirmasse por justa causa eu não teria direito à Petros, mas judicialmente a demissão se confirmou, mas sem justa causa. Eu fiz o requerimento à Petros, depois quando saiu a sentença final do processo, eu fiz o requerimento, e a Petros concedeu a suplementação da aposentadoria. Então hoje a minha relação com a Petrobras, com a Petrobras, a relação formal não tenho, por eu estar demitido, mas por outro lado tem a relação por estar recebendo a suplementação da Petros. Isso eu passei a receber, essa suplementação, a partir de final do ano 2000. Em outubro de 2000 eu passei a receber a suplementação da Petros.

GREVE DE 94 - UNIDADE Nessa trajetória do sindicato ocorreram muitos momentos importantes, mas eu acho que um momento importante dessa trajetória do movimento sindical, principalmente para a gente, para a base de Minas Gerais, foi a partir do momento, por exemplo, da luta dos trabalhadores na Regap. O pessoal dizia que a Regap não tinha jeito nas greves, porque não se parava a produção da refinaria. Acho que um momento importante para a nossa categoria em Minas Gerais foi quando em 94 nós paramos a produção da refinaria, então a gente mostrou que é possível - quando o trabalhador tem unidade, é possível você estabelecer uma luta e atingir um objetivo.

GREVE DE 95 - EXÉRCITO NAS REFINARIAS Eu acho que um outro momento importante também foi aquele enfrentamento com o governo de Fernando Henrique, em 95, porque na avaliação da gente é que não dá para a gente ser o tempo todo desrespeitado e não fazer nada. Foi um momento de enfretamento muito grande, porque vinha um governo muito forte com eleição muito contundente em 94, e a nossa categoria ousou enfrentar esse governo. Teve as conseqüências que teve, para poder derrotar a gente, ele teve que botar Exército nas refinarias, teve que botar polícia militar, teve que fazer o escambau com a gente para poder nos derrotar, e ainda assim, apesar da intervenções que teve, apesar das demissões, eu acho que a gente saiu vitoriosa, porque do ponto de vista sindical, do ponto de vista dos trabalhadores, a gente ter cumprido com nossa obrigação de não esperar que as coisas caiam do céu. A gente tem que lutar para que elas cheguem até a gente, aquilo que a gente deseja, então eu acho que foi um dos momentos importantes nessa trajetória dentro do movimento sindical. E eu acho que ela se coroa com a reintegração, eu acho que ela se coroa com a eleição do Lula no ano passado, que a própria história do Lula, a própria história do movimento sindical, que não é fácil essa trajetória de luta de enfrentar ditadura, de enfrentar polícia, de enfrentar demissão, de se chegar em casa, como eu já cheguei por duas vezes, chegar em casa e a primeira vez encontrar a esposa chorando. Chega em casa, a hora que você conta é uma notícia ruim que ninguém... Quer dizer, a gente que está no movimento sindical, a gente se prepara para isso, mas a família da gente nem sempre se prepara como a gente, nem sempre tem o preparo mesmo para enfrentar essas coisas, e isso aconteceu com vários companheiros da gente.

HUMILHAÇÃO NAS DEMISSÕES Teve um companheiro nosso que foi demitido em 88, e quando eu encontrei ele na porta da refinaria, a gente sai de lá numa situação até vexatória, que a empresa coloca acho que para poder tentar humilhar o trabalhador, como eu saí de lá, põe um vigilante acompanhando a gente. Você sai lá de dentro como se fosse um marginal, você com 15, 20 anos de empresa, ela põe para fora desse jeito, então é uma situação até humilhante. Eu cheguei do lado de fora, encontro um companheiro que também havia sido demitido, chorando, aí eu vou conversar com ele: “Não é bem assim, nós estamos demitidos agora, mas daqui a pouco nós estamos de volta, tenho plena consciência e plena certeza disso”. E naquela época nós fomos demitidos em maio, daí a poucos meses, daí a seis meses estávamos de volta para a Petrobras. São momentos assim que dizem para a gente que a gente não deve desistir dessa luta, a primeira reintegração foi isso, e hoje, agora, depois dessa vitória do Lula, depois das mudanças que começam a ocorrer dentro da Petrobras, a gente espera que estas mudanças avancem ainda mais. Dizem para a gente que vale a pena lutar, vale a pena a gente não dar o braço a torcer quando um direito, alguém está sendo prejudicado, quando alguém está sendo perseguido, que vale a pena um trabalhador dar a mão a outro e enfrentar. Eu, particularmente, fiquei fora este período todo, então a gente sente muita falta de companheirismo de trabalhador ali dentro, não enquanto líder sindical, que estou sempre na porta da refinaria, sempre conversando com as pessoas na refinaria, a gente está acompanhando todos os problemas, tudo que vem acontecendo, mas a falta que a gente sente daquele coleguismo de dentro da unidade, do barulho da unidade, daquele cheiro característico de refinaria, que o pessoal fala que é cheiro de ovo podre, que você passa ao lado da refinaria, você sente de longe. Então a gente sente falta daquilo. Eu particularmente sinto saudade de estar batendo um papo no zero hora - a gente trabalhou de turno o tempo todo -, de estar batendo um papo, de estar mexendo numa caldeira, e muito daquele companheirismo da gente sair do zero hora com uma turma, aí jogar uma bola, para um lazer. A gente sente falta disso, mas a gente supre com outras coisas, a própria participação no movimento, o próprio envolvimento com a família, estar encontrando com esses companheiros fora da unidade, dentro do sindicato. Isto supre, mas são coisas que fazem falta e a pessoa, e eu acho não só o fato de você estar demitido, mas o fato das pessoas que se aposentam, e isso eu acho que se a pessoa não se prepara para essa nova etapa da vida, isso faz muita falta, então tem que se preparar para suprir esses momentos que são importantes. Eu não tive nenhum treinamento na hora de sair. O treinamento que eu tive na segunda demissão foi a primeira, de ter saído escoltado de dentro da refinaria, esse foi meu treinamento.

DIVERGÊNCIAS DEMOCRÁTICAS O convívio com os companheiros do sindicato é um convívio muito bom. No movimento sindical existem diversas correntes de pensamento, diversas forças políticas, nos petroleiros também temos essas divergências. Nós temos também dentro do nosso sindicato com uns companheiros nossos lá, mas sempre foram tratados democraticamente, e uma convivência fraternal, uma convivência às vezes divergente, às vezes dura, mas sempre fraternal, sempre democrática, e isso faz todo mundo crescer. Eu acho que isso faz a gente permanecer dentro do movimento. Apesar da gente ter divergência, apesar de uma hora você ganha, uma hora você perde, mas faz você permanecer no movimento, eu acho que essa convivência de companheiros mesmo é muito legal. Foi muito legal durante esses anos todos, e com certeza vai continuar sendo, e eu, apesar de aposentado, eu acho que a gente aprendeu a gostar da Petrobras, a gente aprendeu a construir essa empresa, eu acho que o aposentado da Petrobras não sai fora da Petrobras, eu acho que muita coisa a gente tira de dentro da gente, que são as perseguições, as verdadeiras sacanagens que acontecem com muita chefia, com os trabalhadores, mas isto a gente tira de dentro da gente. Eu acho que a gente tenta manter uma luta maior, que é manter essa empresa do povo brasileiro, trabalhando para o povo brasileiro, e a gente sente orgulho de ter participado da construção dessa empresa, de ter participado da luta dos trabalhadores. Sinto muito orgulho disso, e o companheirismo faz a gente permanecer nessa luta.

TENSÃO E DESCONTRAÇÃO NAS GREVES Eu no momento não estou lembrando de algum episódio mais marcante numa greve, apesar de que na porta da refinaria acontecia muita coisa. Por exemplo, em todas as greves – todas, sem exceção -, a gente ficava acampada na porta da refinaria. Fosse uma greve de dois dias, fosse uma greve de 30, a gente ficava aquele período todo ali. Então na porta da refinaria nós tivemos muitas passagens agradáveis, mas um caso assim não, nós fazíamos festividades com crianças; nós já fizemos muitas coisas. É, nós já fizemos na porta da refinaria, nós fizemos lá na Regap, um domingo na greve. Tinha uma companheira que inclusive está em uma das fotografias aí, a companheira Angela, junto com as outras companheiras, que eram dos bancários. No Sindicato dos Bancários tinha um departamento cultural que funcionava muito bem, nós também já tivemos o nosso, mais no começo da década de 80, então esses companheiros eles tinham lá uns palhaços, tinha umas pessoas que trabalhavam com essa área, com crianças. Nós fizemos na greve nossa um domingo na greve em que nós levamos palhaços, levamos brincadeiras para se fazer, oficinas de pintura, aí os petroleiros iam com os filhos para lá, e no domingo a gente ficava brincando, fazendo as coisas. Ficava um domingo tranqüilo, não tinha polícia, não tinha nada, não tinha chegada de ônibus parando para fazer piquete, então um domingo tranqüilo - a gente fazia isso. Já fizemos show na porta da refinaria, com o Rubinho do Vale, em greve. Não lembro exatamente o ano, acho que, se não me engano, foi em 82, fizemos esse domingo na greve com... 92, desculpe foi em 92. Na greve de 95 também nós fizemos, não lembro se foi em 95 que teve o Rubinho do Vale, a gente sempre fazia alguma atividade cultural durante a greve, exibição de filmes na porta da refinaria, o carro de som nosso tinha televisão com vídeo, então a gente fazia esse tipo de atividades, jogo de baralho, jogo de cartas, enfim quando não era uma hora de confronto, que tinha polícia, porque nós já tivemos muito disso, a gente fazia alguma coisa para passar o tempo na porta da refinaria. A gente ficava lá, junto com os trabalhadores o período todo, então teve muito momento de confraternização, de fazer um churrasquinho na porta de refinaria. A gente tinha um momento de luta, momento de tensão, mas tinha um momento de descontração também, então a gente sempre teve isso em todas as greves nossas, praticamente. Então foi isso, eu acho que uma trajetória gostosa, essas greves nossas, de momentos tensos em determinada hora, em momentos alegres em outra.

INFORMES, NÃO DISCURSOS Eu falava no carro do som. É difícil reproduzir num estúdio aquilo que você está falando em cima de um carro de som. Normalmente, quando a gente utiliza, no nosso meio, acho que é diferente de outras categorias, que se empolga, que fala, alguém puxa uma palavra de ordem: “Trabalhador unido, jamais será vencido”. Com petroleiro, isso não... Muito difícil. A categoria nossa, nesse aspecto é mais fechada, então normalmente no que a gente utiliza o carro de som, nem muitas vezes para convencer as pessoas, porque o dia-a- dia, a forma como a gente falou de sindicalismo, as pessoas quando param para uma assembléia na porta de refinaria, por exemplo, já estão convencidas de que se deve ou não ir a uma greve. A discussão que é feita anteriormente, o processo nosso, realizar reuniões atualizadas com a categoria, eles já levam as pessoas... O processo de discussão anterior já leva a pessoa na hora da assembléia a ter uma posição definida, ou contra ou a favor, qualquer coisa, mas já tem a posição definida, então na hora que você utiliza o carro de som lá é muito para poder passar uma informação. Às vezes você faz um discurso. Recentemente, por exemplo, eu já estou fora da refinaria há muito anos, mas como eu estou sempre lá, essa discussão agora, por exemplo, de PLR, você faz um discurso para convencer as pessoas a estar participando do movimento, aí você utiliza desde xingamento ao governo federal, ao superintendente, ao pelego que fura a greve. Você abre o leque e xinga todo mundo, ou elogia quem você tem que elogiar, mas você faz no sentido de estar convencendo, agora assim é difícil você fazer um discurso. Assim é muito difícil. Não tem como, você está no meio de uma greve, não tem jeito, você está numa greve lá, o seu pessoal está chegando, estão chegando os ônibus, tem gente no ônibus que não quer descer, você está parando um ônibus, a polícia do seu lado, um carro de polícia lá do seu lado, não querendo deixar você parar, e você está chamando o pessoal para ir para a frente do ônibus. Ali você faz um discurso em que você xinga a polícia, em que você xinga o governo, em que você xinga... No estúdio você não tem aquele tchan, aquela coisa. Você está xingando quando a polícia está na frente - é diferente.

CARTÃO VERMELHO PARA O TST Tem gente que não gosta não, mas eu acho que uma das coisas que a gente fez que eu achei que foram importantes foi o cartão vermelho para o TST, em 92 mesmo. Eu acho que foi importante porque marcou uma posição clara, na época se não me engano, não sei se foi o Pazzianoto, não foi o Pazzianoto não, não lembro quem era o ministro do TST, acho que era o Pazzianoto sim. Mas foi uma época que eu achei que aquilo foi importante para a categoria naquela época, porque era um tribunal - a gente cumpria tudo que determinava a legislação para fazer uma greve, comunicar a empresa, comunicar a imprensa, fazer assembléia com tantas horas, com tantos dias, publicado o edital, não sei o quê, uma série de normas que a legislação determina que tenha que se fazer para cumprir para fazer uma greve. O tribunal vira para a categoria e diz assim: “A greve sua é abusiva, porque as reivindicações são abusivas”. Eles não acham nada legal para poder determinar abusividade de uma greve e diz que as reivindicações são abusivas, diz que foi um parecer do Pazzianoto. Então eu achei que nesse período foi muito importante aquele cartão vermelho para o TST, apesar de que o tribunal depois descontou em 96.

PODER INDEPENDENTE? Porque nessa campanha um dos argumentos que eles disseram para a greve ser abusiva foi isso, que as reivindicações eram abusivas, então na campanha salarial seguinte - não me lembro se foi a campanha de 92 ou de 93 -, a gente coloca nas campanhas salariais algumas bandeiras e algumas palavras de ordem, nessa campanha a palavra de ordem foi cartão vermelho para o TST, porque a gente tinha consciência de que se a gente fosse para uma greve, ou se a Petrobras entrasse com dissídio coletivo, a gente ia chegar no TST. A gente teria possibilidade de estar perdendo algumas conquistas que a categoria já tinha. Então nós fizemos a campanha nesse sentido, só que quando foi em 95 um dos argumentos, não lembro qual o ministro que falou, mas que eles achavam desrespeitosa a atitude dos petroleiros para com o tribunal, e uma das conseqüências disso foi a intervenção que eles fizeram, aquela intervenção econômica que eles fizeram no sindicato. Não cassou ninguém, mas bloqueou as contas do sindicato e estabeleceu uma multa absurda para os sindicatos em 95, mas eu acho que aquele cartão vermelho foi uma resposta aos tribunais que sempre faziam o que o Executivo determinava, e não o que era justo, o que não era justo, mas o que era determinado. Eu achei importante aquele momento para nossa categoria e para a luta em geral, porque para as outras categorias também não era muito diferente a postura dos tribunais, era sempre de obediência ao poder constituído no momento.

MILITÂNCIA TARDIA Se eu tivesse que mudar alguma coisa na minha trajetória de vida eu mudaria, acho que eu começava mais cedo, comecei tarde. Começava a militância. Eu começava mais cedo, eu acho que foi importante essa participação. Eu participei aquilo que eu dei conta de participar, só que eu comecei tarde. Se eu tivesse uma consciência política desde o período do colegial, por exemplo, começo da década de 70, eu acho que eu teria participado mais tempo, porque à medida que a gente vai tomando consciência vai vendo o que aconteceu no país nesse período todo, da época da ditadura militar, da época mesmo pós-ditadura, isso já seria uma participação maior. Então se eu pudesse mudar alguma coisa nessa história eu mudaria nesse sentido, de começar a militar mais cedo.

POR UM BRASIL MELHOR A minha vida inteira, esse período todo, foi essa luta. Eu nunca tive ambição pessoal, eu nunca tive nenhuma ambição pessoal, eu acho que minha vida hoje, minha esposa, eu tenho duas filhas, eu acho que ela, seguindo o rumo que ela tem hoje, ela está tranqüila. A grande ambição que eu tenho hoje, eu acho que tem a grande maioria da população brasileira, é a transformação social que a gente precisa fazer no país. Acabar com a fome, acabar com a miséria, acabar com a violência, ter um povo culturalmente mais evoluído, não sei se culturalmente, mas com mais conhecimento para estar decidindo melhor o seu futuro. Eu acho que essa é a ambição que a gente tem - em nível pessoal, não.

MEMÓRIA DOS TRABALHADORES Eu acho que é importante essa iniciativa do sindicato junto com a Petrobras, porque a história ela sempre foi contada do lado do vencedor, ou do lado da classe dominante, e no mundo inteiro estudar a história de qualquer povo você vai ouvir só um lado da história. Você não ouve o lado dos oprimidos, o lado daqueles que sofreram. Eu acho que essa iniciativa é excelente, porque ela está ouvindo ou ela vai ouvir ainda as pessoas que construíram a Petrobras. Eu acho que a Petrobras foi fruto de uma luta muito grande, a luta do “O Petróleo é Nosso”, eu acho que as pessoas que construíram essa empresa têm a participação tão importante ou mais do que as pessoas que dirigiram a empresa nesse período. Acho importante ouvir, eu não sei os critérios, mas eu acharia importante ouvir a viúva de uma pessoa que faleceu num acidente de trabalho, nós temos recentemente o afundamento da P-36 e vários companheiros no fundo do mar, então eu acho importante que essas pessoas, que são o outro lado da história, estejam contando também a sua versão. E esse trabalho só merece elogios, nesse aspecto só merece elogios de estar ouvindo esse outro lado da história. Creio que não há mais nenhum fato a registrar. Só não falei como no carro de som, mas é porque é complicado. Quem sabe num movimento desses a gente faz, grava e manda para vocês de uma coisa de real, de fato, mas assim é complicado.

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