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História

Um estivador cheio de histórias

História de: Arildo de Souza Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/12/2014

Sinopse

Arildo é um estivador aposentado, voluntário na ONG Proeco e que contou sua história ao Museu da Pessoa em dezembro de 2014. Com entusiasmo, fala de sua infância na cidade de Santos e do trabalho do pai como estivador no porto de Santos. Lembra da perda da mãe aos 13 anos e como teve que parar de estudar para ajudar o pai nas despesas da casa. Recorda os trabalhos que teve numa floricultura e numa pensão, antes de se tornar estivador como pai. Fala sobre seu trabalho nos Correios e lembra o acidente que sofreu no Porto que o deixou de licença médica durante 90 dias. Descreve o trabalho que os estivadores faziam no Porto e conta como conheceu sua esposa. Finaliza falando como conheceu a Proeco e seu envolvimento na ONG como voluntário. 

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História completa

Meu nome completo é Arildo de Sousa Costa, data de nascimento é 23 de agosto de 1940.   Sou de Santos. Meu pai é Virgílio Jorge da Costa, minha mãe é Georgina de Sousa Costa. Eles nasceram em São Sebastião, litoral de São Paulo. Meu pai era estivador. E eu abracei a profissão dele na época, porque era um tempo meio conturbado. Eu fui trabalhar no cais com 18 anos, no Porto de Santos, e fiquei lá até hoje. A minha mãe era doméstica. Era semianalfabeta, não sabia ler, nem escrever, mas era inteligente. E eu a perdi com 13 anos, com cinco irmãos menores do que eu. Eu era o mais velho. Meu pai casou pela segunda vez, gosto muito da minha madrasta, não tem nem dúvida, teve três filhas com ela, com a minha madrasta.

Onde a gente morava era tipo um cortiço. Tinha o sobrado dos donos da casa, e o resto moravam a “familiagem” toda. Meu pai criou a mim, meus irmãos, tudo ali naquele cortição até uma idade de dez anos mais ou menos, foi que nós mudamos pra outra casa na Rua Luís Gama. Meu pai sempre viveu de aluguel.  E, naqueles cortições sempre tinha criançada. E nós brincávamos, jogávamos bola, brincávamos de pega-pega, era uma porção de brincadeira.

O meu primeiro trabalho foi numa floricultura. Tinha que cortar o talinho das flores pra elas durarem mais tempo na água. Eu tinha uns dez anos. Acho que eu estava fazendo o terceiro ano primário. A minha primeira carteira profissional foi numa pensão que eu fui trabalhar, lembro até o nome da dona, dona Matusalena. Foi o meu primeiro contato com cozinha.  Quase dois anos eu trabalhei ali. Eu tinha mais ou menos uns 12, 13 anos.  Entrei com sete anos na escola. Eu fui meio doente. Eu tive um problema, fiz a primeira operação da apendicite. Nós estávamos cantando, aula moral e cívica, éramos obrigados a cantar o hino nacional, o hino da bandeira. Eu estava cantando, me deu uma dor muito grande, eu caí. E eu lembro que foi a primeira operação que eu fiz. Isso me marcou muito no colégio, na escola. Estudei num colégio com doutrina espírita, ainda é até hoje, Ismênia de Jesus, que meu pai conseguiu arrumar pra mim e para o outro meu irmão, entramos juntos, ele mais novo do que eu um aninho. Nesse colégio nós aprendemos o bê-á-bá. Eu nunca repeti de ano, tive surpresa de ser sorteado pra estudar no José Bonifácio, na Conselheiro, fazer admissão ao ginásio. Eu fiz até a segunda série, mas a minha mãe veio a falecer, meu pai trabalhando, tinha meus irmãos, então eu já me achava que eu devia ser responsável, pelo menos da casa. Pra mim foi a maior falta que me fez até hoje, a minha mãe. Porque eu aprendi muito, muito, muito com ela.  A minha tia, que veio a casar com o meu pai, por incrível que pareça, irmã dela, da minha mãe. Ela também era viúva, também tinha um menino, então o meu pai foi ficando ali, cuidando da gente, foi ficando, meu pai achou melhor casar com ela, porque ela sentia um amparo melhor.

Eu engraxava sapato na rua, fazia esses bicos. Hoje chamam de virtual, trabalho virtual, pega aqui, pega ali. Vendia pipoca na frente do cinema, às vezes tinha companheirinho nosso que pegava lata de pipoca, uma lata de bolacha, que antigamente vendia tudo em lata, não era em pacotinho como hoje. Então a gente ia ao Juca Pato, pegava as pipocas, você vendia pra depois... Era tipo de um consignado: eu pego aqui, vendo pra depois comprar outra hora. Mas tinha companheirinho que vendia, não aparecia mais. Eu ficava meio assim, mas eu nunca fiz, porque não é meu porte de ser. Trabalhei no correios, Italcable e na Western. Cabo submarino. Um ano e pouco trabalhei e acabou.

Eu comecei a pensar ir pra estiva. Foi quando eu já estava com 16, 17 anos mais ou menos, falei: “Não, vou trabalhar no cais”. Gozado, eu fiz três opções de emprego: Companhia Docas, Cosipa, refinaria e estiva. Porque lá era o seguinte, não era todo dia que se trabalhava. E até hoje é assim. Então eu pensei, fiz o meu currículo, que não era currículo, deixei meu nome pra essas empresas. Pra minha surpresa, a estiva me chamou, fui pra estiva. Pra minha surpresa, uns três meses depois, chamou a refinaria, chamou as Docas, chamou todo mundo, mas eu já estava na estiva. E como eu gostava, que era o emprego do meu pai, do meu tio, meu pai faleceu, meu tio faleceu na estiva, e o meu irmão também, um deles, faleceu num acidente da estiva, então eu fiquei por ali mesmo. E era um trabalho que você não tinha a responsabilidade de marcar ponto, chegar, entendeu? Era um trabalho o seguinte, se você não queria trabalhar, só via que o negócio não era pra ter, a gente mandava outro no lugar. Era assim, era um trabalho avulso, mas a gente tinha um vínculo através da Capitania dos Portos.

O trabalho sempre foi assim, um dia antes a gente já estava sabendo o navio que ia atracar, o tipo de carga, descarga, então as agências equipavam, porque tem muito trabalho que tinha que ter coisa de segurança, vestimenta, macacões, enfim. Então a agência mandava esse dinheiro pra uma central, que era a Capitania dos Portos. E o sindicato também ajudava, é que fazia a contabilidade do quanto ganhou, do quanto não ganhou, pra chegar ao fim do ano, estar tudo certinho. O sindicato fazia a contabilidade também, que essas folhas de pagamento iam tudo para o sindicato. Mas quem fazia o pagamento não era o banco, era o estivador mesmo. O meu trabalho era pegar no pesado, açúcar, café, o que vinha. Nós gostávamos. Eu fazia com prazer o meu trabalho. Mas depois que eu fui aprender a ser monotécnico, o que trabalha com guincho, guindaste. Eu não sei se a palavra certa é monotécnico, mas o estivador, ele trabalha com ponte rolante, guincho, alguns são credenciados pela capitania, eu sou credenciado pela capitania, ou era, porque me aposentei.

Eu peguei um trabalho na Cosipa, entrei, e nós estávamos engatando umas placas de aço, descarga. E a empilhadeira vinha, levantava um plugin, nós passávamos os cabos de aço pra essa carga sai fora. E eu fui passar o cabo de aço, era muito peso, escapou a patola da empilhadeira e me pegou aqui. Não sei se dá pra ver aqui uma cicatriz. E me bateu aqui, isso aqui foi tudo pra cima. Os dentes de cima entraram tudo nos ossos. Os dentes de cima, com a pancada entraram nos ossos. E isso aqui levantou tudo. A pele aqui cortou, levantou. Então quando o paramédico chegou, porque na Cosipa tem paramédico ali na hora, eu queria falar, não podia. Estava tudo bom, não sentia dor, não sentia nada, incrível. Eu só lembro que eu escutei aquilo: vup, vup, vup, vup, era o helicóptero me pegando, trazendo pra Santa Casa direto. Sobrevivi. Eu sei dizer que quando eu acordei no dia seguinte, eu já tinha sido operado, eu fiz uma operação plástica aqui. Eu fiquei internado quase um mês. Depois fiquei em tratamento quase 90 dias.

Ela estava cuidando do meu pai, ela era enfermeira na Santa Casa. E eu conheci Delfina ali no hospital cuidando do meu pai, tratando do meu pai. Um dia eu a convidei pra comer pizza no Cascarama, ela foi, começamos a conversar, tal. E casei com ela. Ela já tinha essa criança. Eu assumi a criança. Legitimei. No dia do casamento legitimei também a criança. Hoje ele é delegado. Ele trabalha aqui na Primeira Delegacia de São Vicente. Eu gostava muito do menino, gosto até hoje. Hoje ele está casado também, já me deu neto, tudo.

Fiquei dois anos sem fazer nada depois que aposentei. Tentei trabalhar, ir para o cais, não deu certo. Porque a gente tem o direito, mas como eu vi uma coisa muito triste e uma modificação muito grande já estava havendo, eu falei: “Ah, não, é melhor ficar sem fazer nada”. Tentei voltar, não dava certo, eu falei: “Vou ficar em casa”. Fiquei em casa o tempo todo. Um dia, não sei por que cargas d’água foi, eu passei perto da Proeco, ela ainda era na aqui na Engenheiro Elias Machado de Almeida, no Bom Retiro, e fui convidado pra pintar um muro. A dona Valéria chegou pra mim, falou assim: “Seu Arildo...”. Aliás, ela não me conhecia, conheci através da Maria. A Maria me levou lá, falou assim: “Eu estou com o muro, está tão feio, as crianças...”. Eu falei assim: “Ah, eu venho, pinto pra senhora”. Comecei a pintar o muro dela. Dois dias depois ela falou pra mim que morava na Praia Grande e tal, se eu poderia abrir a Proeco, porque às vezes tinha problema de vir, chegar na hora certa. “O senhor mora longe?” “Não. Moro aqui pertinho.” Ela me entregou a chave. Aquilo foi uma coisa instantânea assim, sabe? Eu falei: “Caramba!”. Fiquei meio assim. Falei: “Está bom, eu abro pra senhora”. Estou abrindo a porta vai fazer 12 anos, mais ou menos. Mas foi bom demais, porque eu encontrei o que fazer. Eu já estava indo pra mesa de bar jogar sueca, dominó, já estava voltando àquilo que eu fui uma fase na vida. Beber não, não dá, não tenho condições mais, nem posso assim. Então eu aceitei, peguei a chave. Tinha dia que ela vinha mais cedo, dia que ela não vinha na hora, eu abria, as mães já traziam as crianças, deixavam lá, eu me apeguei a essa confiança. Veio a Maria, veio a dona Ivone, começamos a fazer artesanato, isso, aquilo, eu acompanhando. Ia pegar coisinhas na feira para as crianças, fazer o sopão das crianças, aquilo tudo. Eu fui ficando, cativando o pessoal, o marido da dona Valéria também muito bacana comigo, o Helinho, pequenininho, pequeno, fui ficando. Fiquei de voluntário até hoje. Eu falei pra dona Valéria: “Dona Valéria, se for pra eu ter alguma... Eu quero ter a participação na Proeco até o fim assim do jeito que eu estou”. Porque eu gosto. Lidamos com criança. Hoje não tem criança aqui, mas tem criança nos colégios, de vez em quando eu vou. Então comecei a pegar serviço de confiança aqui na Proeco. Tudo que é documentação, a dona Valéria entregava na minha mão, Helinho, o pai dele. Tornou-se uma família mesmo.

Mais ou menos em 97, 98, que conheci a Proeco. Então eu comecei a fazer o que eles me pediam, corria aqui, corria ali. Hoje eu conheço qualquer setor da prefeitura, peguei conhecimento na prefeitura, no Secult, tudo assim, Setcom, mas tudo conhecido já. Entro, tenho uma confiança que eu não posso macular nunca na minha vida, lidar até com valores às vezes da Proeco, tudo. Isso me satisfaz, me deixa vivo, vamos dizer assim. Muito vivo. Eu faço atividade... Fui levar um hall de criança do colégio que eles estão trabalhando, eu ajudo o Helinho no que eu puder. A confiança é tão grande que eu assino com vice-presidente, assino e é válido graças a Deus, que eu não tenho problema assim que me desabone a minha conduta perante a sociedade, essas coisas. Então eu fico grato por a dona Valéria ter dado essa confiança em mim. Ao marido dela também, falecido, seu Felipe.

Vai fazer um ano que sou vice presidente. Não pedi pra ser presidente, pra ser vice-presidente. De repente o Helinho chegou: “Olha, preciso de alguém pra preencher o cargo”. Aquilo tudo. Pediu. Quase eu digo não, mas eu falei: “Espera aí, mas se eu disser não, eu estou indo contra a minha própria... Olha, Helinho, eu não entendo nada disso, não entendo nada de cargo, mas eu vou aceitar por vocês”. Então só aqui, fiz vários cursos aqui na Proeco, participei em São Paulo, onde tinha a corrida de automóvel, pela Mesa Brasil. Aprendi a cozinhar pra criança. Teve época aqui que a dona Ivone não podia, ou estava doente, eu fazia o sopão das crianças, fazia a merenda das crianças. Aprendi tudo na Mesa Brasil. Hoje mesmo era pra fazer uma batata recheada pra você, ou um peixe, não sei se vocês gostam.

O que me deixou marcado na Proeco foi a convivência com as crianças. Muito. Muito mesmo. E depois era criança do Dique, um lugar pobre, entende? E a gente, pô, era o maior prazer, a maior alegria estar convivendo com eles, muito bom mesmo. Pra começo de conversa assim, o Renato Aragão foi um dos meus heróis, não só ele, como a turma dele, Os Trapalhões, o Zacarias, o Mussum, eram heróis pra mim, embora eu já fosse rapaz, mas eu gostava porque é uma... Depois que veio o Criança Esperança, eu vi que, poxa vida, começou a aparecer aqueles negócios da Índia, da África, aqui do Brasil mesmo, no Nordeste, aqui em Santos, que eu vi a olho nu.  Eu via a necessidade de mudar essa situação. Chega a guerra, a Segunda Guerra Mundial, querem uma terceira pra quê, pelo amor de Deus? Então o Criança Esperança sempre foi um programa pra mim muito, muito bom mesmo, muito bacana. Não sei como descrever. Não sei mesmo, filha. Estou falando isso de coração. Eu coopero às vezes com o que eu posso, pelo telefone, pelo “coiso”, entende? Mas pode acreditar, olha, vocês têm um trabalho tão fabuloso que não é se tornar rico. A riqueza está naquilo que você faz, não naquilo que você tem. A importância que eu acho, que quem lida com criança, quem gosta da vida e acha que o mundo pode melhorar, tem que começar pela criança, sem dúvida. E pelo mais velho também, porque ele tem muita lição, tem muita experiência pra poder saber o porquê dessa importância sobre a criança. Eu acho uma coisa muito maravilhosa.  

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