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História

Um ensino que mantém o interesse dos alunos

História de: América Cavalieri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/06/2020

Sinopse

Conta sobre sua experiência no ensino fundamental e suas lembranças da Escola Playpen e da influência da escola em sua vida

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História completa

 

 

P/1 — Primeiro eu queria te agradecer por ter vindo até o museu, ajudar a gente a fazer esse projeto. Eu queria que você falasse pra gente o seu nome, onde você nasceu e sua data de nascimento. 

 

R — Meu nome é América Cavalieri. Eu nasci em quatro de julho de 87, em São Paulo. 

 

P/1 — E o nome dos seus pais?

 

R — Ronald Cavalieri e Cynthia Garcia.

 

P/1 — E o que eles fazem?

 

R — O meu pai é arquiteto e minha mãe, historiadora de moda e jornalista. 

 

P/1 — Eles são de São Paulo? Onde eles nasceram?

 

R — No Rio. Os dois são cariocas. 

 

P/1 — Você sabe como eles se conheceram?

 

R — Eles se conheceram num show do Miles Davis no Teatro Municipal do Rio. Só! (risos)

 

P/1 — E por que eles vieram para São Paulo? 

 

R — Para trabalhar, e eu nasci aqui. Eles vieram antes de eu nascer. 

 

P/1 — E o nome os seus avós? Você chegou a conhecê-los?

 

R — Meu avô, por parte da minha mãe, chama Francisco Pedro e minha avó, Lourdes. O pai do meu pai Washington, e minha avó, Léia.  

 

P/1 — E o que eles faziam ou fazem?

 

R — Meu avô, pai da minha mãe, era administrador, trabalhava numa multinacional. E a minha avó... Minhas duas avós nunca trabalharam. O pai do meu pai também era administrador, cuidava de hotéis.   

 

P/1 — Você sabe um pouquinho da história da origem da sua família, se eles são aqui do Brasil mesmo?

 

R — O pai da minha mãe vem de Santa Catarina, é de origem alemã. A mãe da minha mãe… A família é baiana, mas com ascendência espanhola. O pai do meu pai e a mãe do meu pai são de origem italiana. 

 

P/1 — Você sabe da história dessas migrações?

 

R — Eu não sei muita coisa. 

 

P/1 — Você tem irmãos?

 

R — Tenho um irmão mais novo. 

 

P/1 — Quantos anos?

 

R — Dezessete. 

 

P/1 — Ele está estudando? 

 

R — Espero que sim! (risos)

 

P/1 — América, agora nós vamos começar a perguntar um pouquinho da sua infância: onde você morou, como era o bairro, como era a sua casa... 

 

R — Quando eu nasci eu morava numa vila no Jardim Paulista. Putz, era um sonho! Era vilinha de paralelepípedo, um monte de criança, brincava na rua. Minha madrinha morava na casa do lado, ela sempre fazia uns quitutes pra mim! Muito bom!

 

P/1 — E de que vocês brincavam na rua?

 

R — É, brincava no meio da rua. Pique-esconde… Eu era a mais novinha, eu era sempre “café com leite”... (risos)

 

P/1 — E você lembra da casa?

 

R — A casa era incrível! O meu pai é arquiteto e ele reformou a casa inteira! Tinha uma coluna no meio da casa e o meu pai fez de um jeito que a coluna tinha que ser oval. “Porque tinha que ser oval, porque não sei o quê”... E tinha várias obras de arte, que os meus pais gostam muito, vários livros! 

Tinha uma casinha minha, tipo casinha mesmo, no meio da sala pra eu brincar. Tinha um jardim com uma escultura amarela, linda, do Sérvulo Esmeraldo. Incrível! 

 

P/1 — E qual era a sua brincadeira preferida?

 

R — Eu sempre gostei de brincar dessas coisas que tem que correr, que tem que se mexer. (risos) Eu gostava de fazer tudo! Sempre fui muito ativa. O meu pai cozinhava, eu queria cozinhar junto. A minha babá... Eu queria brincar com a minha babá, eu queria brincar com as crianças de correr na rua. Fazia tudo!

 

P/1 — E a sua madrinha, como era ter uma madrinha que morava pertinho?

 

R — Ah, era muito fofa! Ela tinha uma presença boa, sabe? Era que nem morar do lado de um anjinho, que ele está sempre ali pra você. Eu gostava de ir na casa dela, tinha a minha caneca, a comida que eu gostava...

 

P/2 — O que era o quitute que você gostava?

 

R — Era pão com manteiga, mel e Nescau! (risos)

 

P/1 — E tinha amigos na vila? Você lembra deles?

 

R — Tinha. Lembro. Era muito legal!

 

P/1 — Teve alguém que te marcou mais nesse período?

 

R — Ah, sempre tem, né? Sempre tem umas pessoas que te marcam mais. 

 

P/1 — Tem alguma história de vocês brincando? 

 

R — Tem. Por exemplo, todo mundo tinha irmãos e eu era a única filha única, eu era a mais nova. Todo dia eu chegava em casa das brincadeiras e falava: “Todo mundo tem um irmãozinho, menos eu!” Eu falava exatamente nessa entonação. (risos) Eu achava as meninas lindas, porque elas eram mais velhas; elas tinham um cabelo comprido e eu tinha uma franjinha. Um dia a minha mãe chegou em casa eu estava “assim”, porque eu achava que quem não tinha franja, tinha cortado aqui! (risos)

 

P/1 — E tinha festas? Vocês comemoravam que festa na sua casa?

 

R — Na vila?

 

P/1 — Tanto faz. Nos dois.

 

R — Na vila, todo ano tem uma mega Festa Junina, com tudo de Festa Junina! Hoje em dia eu nem sei mais se tem, porque a minha madrinha ainda mora lá. Todos os moradores se empenhavam. Era muito legal. Na minha casa, a gente comemora tudo e tal, Natal, mas não é assim... Quando eu era pequenininha, era mais... Mas os meus pais não são tão ligados assim a essas festividades. Era mais um aniversário, acho que é mais um momento, um dia você quer dar um presente, você foi viajar, traz uma coisa, ou então “vamos sair pra jantar num lugar diferente hoje”. Natal foi sempre meio: “Ah, vamos lá na casa da vovó!” (risos)

 

P/1 — E você lembra de algum aniversário seu, da festa? Conta pra gente. 

 

R — Lembro. Eu lembro de vários aniversários. O primeiro aniversário que eu lembro eu era muito pequena; eu lembro que em vez do “r” eu falava “l”, falava “palede”, enfim. E o meu pai, se ele fala sério comigo, não tem jeito. Não existe eu não fazer o que ele está falando, não obedecer, porque eu sei que é pro meu bem, enfim... (risos) Eu lembro que ele sentou comigo, eu devia ter uns três anos, e falou: “Olha, América, agora você está ficando uma menina grande. Não pode mais falar “palede”, “colação”, essas coisas. Não pode! Você é uma menina grande!” Eu nunca mais falei.

Nesse aniversário o meu pai fez um bolo incrível em formato de coração. Ele fez uns arranjos de flor maravilhosos, bem de menina, sabe? Cor de rosa, branco, umas folhagenzinhas bem delicadas. Estava muito lindo! Um monte [de] bexiga... Na minha casa sempre foi meio assim... Festa... Aniversário de criança, tinha flor, bexiga... Não “festa da Minnie”, “festa com Peninha”, sabe? “Festa da Pequena Sereia”... (risos)

 

P/1 — E tem alguma história engraçada dessa vila? Ou alguma coisa diferente, que marcou muito? 

 

R — Não sei, agora... Sei lá, lembro de tudo: de brincar, de ficar pegando bicho - taturana, que eu adorava - da convivência, cachorro… Tudo, enfim.  

 

P/1 — E nas férias, o que você fazia?

 

R — Sempre em algum momento das férias, eu ia pro Rio. Eu ia passar final de semana no Rio bastante porque a minha família inteira é do Rio, por parte de pai e por parte de mãe, então tem os primos... Eu não tenho ninguém aqui e o meu pai voltou a morar no Rio. Agora sou só eu, minha mãe e meu irmão. 

 

P/2 — E o Natal era lá, então? Quando você fala “Natal na vovó”...

 

R — Tudo é no Rio, nada é aqui. E aí sempre, vai pra Disney, mas depois vai pro Rio; eu ia pra Nova York com a minha mãe e minha avó, mas depois ia pro Rio. Sempre. 

 

P/1 — E como era lá no Rio? Você ia pra praia, você gostava? 

 

R — Ah, um sonho! Quando eu era pequena, eu sempre tive um olhar muito estético, porque a minha mãe trabalha com moda e o meu pai é arquiteto, então eu sempre prestei muita atenção. Quando eu era pequena, São Paulo era bem sóbrio. Eu lembro disso muito claro. A minha mãe andava de Havaianas na rua e as pessoas olhavam… Ela era uma aberração da natureza. Pintava as unhas de roxo! A minha casa era uma aberração! 

Eu sempre fui a estranha no ninho. Eu chamo América, meu pai e minha mãe são cariocas, e naquela época era muito mais, carioca e paulista era muito mais rixa. O meu pai cozinhava e a minha mãe não sabia fritar um ovo. Minha casa era cheia de livros. Eu era tipo a estranha! 

 

P/2 — Pra quem?

 

R — Eu estudava em escola bilíngue, ninguém estudava em escola bilíngue naquela época. Pra mim mesma, eu era diferente das outras. Mesmo na Playpen eu me sentia diferente, porque eu ia à casa das outras pessoas e não era que nem na minha casa. Eu chegava em casa, a minha mãe estava dançando, ouvindo Prince, cantando. Eu falava: “Mãe, para com isso! Eu trouxe uma amiga, não faz isso, por favor!” (risos) B52’s… 

Enfim, eu vivia numa casa com uma cabeça artística carioca em São Paulo que, na época, era muito careta. Você ia a um restaurante, só tinha cantina italiana creme de leite! São Paulo era muito mais stiff

Até perdi o fio da meada. Ah, então, aqui era tudo cinza e no Rio tinha um resquício de anos 80 que, pra mim, era esquisitíssimo, eu achava o fim da linha! (risos) Eu tinha uns cinco, seis anos; eu não usava biquíni porque eu achava o fim do universo uma mulher ficar de barriga de fora, com cinco anos! 

Eu ia à praia e tinha umas pessoas com umas coisas meio fluorescentes, resquício dos anos 80 e eu achava o ó do borogodó. Eu falava: “Mãe, eu não gosto de ir à praia do Rio de Janeiro, só tem gente cafona!” Eu ficava em casa, no ar condicionado, vendo Cartoon Network. (risos) Brincava com os meus primos, enfim, gostava de fazer essas coisas, de ir à Lagoa andar de bike, gostava de ir no mar, mas ficar na praia... Eu gostava de tomar sorvete, mas eu via umas aberrações na praia! Teve uma época que eu não ia, me recusei, só ficava em casa assistindo Cartoon Network. E tudo bem, ninguém me forçava. 

Eu lembro que eu me achava... Porque o meu avô morava num apartamento superbacana no Rio, na frente da praia, e tinha um quarto que era “o meu quarto”. Eu era a única neta que tinha um quarto na casa do vovô, porque como eu não morava no Rio, eu ficava na poltrona dele, em frente à TV, reinando, vendo Cartoon Network o dia inteiro; em casa eu nunca podia fazer isso, porque eu sempre estava fazendo alguma coisa. Eu lembro que eu adorava Tom e Jerry e eu amava quando tinha umas comidas do Tom e Jerry, porque aí eu olhava a comida, eu ia lá na cozinha: “Esmeralda, eu quero um sanduíche assim, assim e assim e com azeitona no palito.” (risos) Tinha que ser a comida igual do Tom e Jerry! (risos) Essas coisas, enfim. 

Eu lembro do meu irmãozinho. Ele era um capeta; até hoje, ele é encapetado! Eu ia pro Rio antes porque eu podia ficar sozinha com os meus avós; o meu irmão não, precisava [de] babá. Ele era muito rápido, pai e mãe e eu lembro da minha avó falando: “O Pedro está chegando, temos que colocar todas as louças no alto, tudo que quebra, no alto!” (risos)      

 

P/2 — Ele não nasceu quando vocês moravam na vila?

 

R — Não. Quando o meu irmão nasceu, a gente morava num apartamento na [Rua] São Carlos do Pinhal. 

 

P/2 — Por que vocês mudaram da vila? 

 

R — Não sei por que a gente mudou. Juro que não sei! A casa era alugada, não sei se tinha essa coisa do proprietário querer de volta. A gente foi para um apartamento que era legal também, mas meu irmão não teve, sorry, a infância que eu tive! (risos)

 

P/1 — América, você falou que você ia pra Disney. Teve alguma dessas viagens que você lembra mais, que foi incrível dessa parte da sua infância? 

 

R — A primeira vez que eu fui para a Disney… Porque meu pai e minha mãe, eles não são assim, a família Doriana. (risos) Todo mundo na minha classe, na Playpen, tinha aqueles tênis que acendem, até lembro o nome, ou aquele tênis que tinha um personagem do lado - acho que nem tem mais esse tipo de tênis, tipo da Disney. Eu ia no [Shopping] Iguatemi, passava em frente à Noa Noa e falava: “Mãe, por favor, eu quero um tênis de personagem.” (risos). Ela olhava pra mim: “Pelo amor de Deus, América, isso é muito cafona!” (risos). Então, os meus pais eram, sei lá... 

Eu ia pra casa dos meus amigos e a mãe deles usavam training colorido e eu achava o máximo, parecia uma americana que trabalhava na Disney, e na minha casa era zero isso. E os meus pais conversavam comigo meio que nem adulto, não forçando a barra, mas não era nhem-nhem-nhem. 

Quando eu fui pra Disney pela primeira vez com os meus pais, que eu vi o meu pai indo comigo na Montanha Russa. Eu falei: “Vamos de novo!” “Nooossa! Tem alguma coisa aí…” Não é tão teoria da conspiração, tão arquiteto demais?” (risos). 

 

P/1 — Como eles escolheram a Playpen? Você sabe qual foi a história? 

 

R — Os meus pais, por serem cariocas, não tinham nenhum vínculo com nenhuma escola em São Paulo, nenhuma tradição. Enfim, nem sabiam direito. Eles foram por indicação dos amigos deles. Quem indicou até foi a Patrícia Carta.  

 

P/1 — E com quantos anos você começou a estudar na Playpen? 

 

R — Com dois ou três. 

 

P/1 — E você lembra desse comecinho?

 

R — Eu lembro! É muito louco porque eu lembro, indo visitar com a minha mãe e eu envergonhada, por causa da roupa que estava usando. Sabe criança que quando vai visitar a escola não quer falar com ninguém...

 

P/2 — Que roupa você estava usando? 

 

R — Eu estava usando um vestidinho branco todo vivado de vermelho com umas florzinhas de gizinho, bem de menininha, que tem um laçarote atrás, umas florzinhas bordadas aqui e branquinho. Enfim, eu lembro do Caio B., da Lilian, nossa! Eu lembro de várias coisas, da titia Marta. (risos)  

 

P/1 — E como eram as aulas dessa primeira infância?

 

R — Quando eu era pequena, a escola era diferente; mudou o projeto da escola. Essa primeira sala que eu entrei, que era dos pequenos, eu lembro que eu achei imenso, uma das paredes inteiras de vidro, então entrava uma luz, sabe? Era muito legal! A sala tinha um monte de coisa colorida, um monte de coisa interativa, era muito legal. Do dia a dia na escola, essa fase muito pequenininha, eu não lembro tanto. 

 

P/1 — Mas dos professores, você lembra? 

 

R — Eu lembro da teacher Maria do Carmo, da teacher Marta, dessa fase bem pequenininha. Mas aí, mais velha, eu lembro mais. 

 

P/1 — E o uniforme?

 

R — Bom, eu nunca mais usei vermelho na minha vida! (risos) 

 

P/2 — Quando você entrou, as aulas eram só em inglês? 

 

R — Quando eu era pequena, era só inglês. 

 

P/2 — E aí, como foi pra você?  

 

R — Eu já falava inglês em casa, porque a minha mãe morou fora a vida dela inteira, praticamente. Ela vivia falando inglês em casa comigo, eu tinha um monte de fitas de vídeo em inglês, que eu amava, tipo Muzzy, que é educativo. Eu já estava habituada. Como eu faço aniversário em julho, eu era a mais nova da classe; como eu já tinha noção de inglês, eles me passaram pra classe da frente.  

 

P/2 — Ah, então você já tinha um repertório... 

 

R — Sim, eu já cantava... 

 

P/2 — Mas o que você achou de chegar num ambiente em que só se falava inglês?

 

R — Pra mim, era totalmente normal. Não achei nada de diferente. Pra mim era muito comum ouvir, minha mãe falava comigo em casa. 

 

P/2 — Muito?

 

R — Falava a ponto de eu estar acostumada. 

 

P/1 — E os materiais da escola, dentro da sala de aula? Você lembra o que as professoras usavam? Nas aulas de artes...

 

R — Eu lembro de muita coisa colorida, cortar papel, massinha, tinta, pintura, eu amava… Giz... Eu amava tudo! Eu lembro das cadeirinhas de madeirinha, muito fofinhas, as minimesas de criança, tudo de anão! (risos)

 

P/1 — E as festinhas da Playpen, como eram? 

 

R — Nossa, eram muito legais! Eu lembro [que] uma vez, uma menina fez uma megafesta na escola e ela fez um teatro com a Caramelo. Eu nunca tive uma festa com a Caramelo. As melhores festas eram a Caramelo que fazia. 

 

P/2 — Era um buffet?

 

R — Não, era uma animadora de festas. Olha que loucura! Hoje em dia isso ia ser proibido. (risos) Ela levava cachorro colorido, pomba colorida, pra dentro da escola! Era muito legal! Ela levava umas fantasias, mas eram fantasias muito boas, que ela devia comprar fora. Aí fazia teatrinho e sempre o aniversariante era o principal. As meninas eram as princesas e eu era sempre o cachorro, porque eu nunca tinha feito festa com a Caramelo! (risos)

 

P/1 — E as festas de fim de ano, Halloween?

 

R — O melhor de tudo era o Dia das Crianças, na Playpen. Isso eu já era mais velha e a gente dormia na escola. Era tipo, “ah….” Eu esperava o ano inteiro pelo Dia das Crianças.  

 

P/1 — E como era essa dormida na escola? 

 

R — Você tinha que ter o sleeping bag, aí já começa: quem tem o sleeping bag mais legal! (risos) Eu lembro uma vez [de] uma menina - coitada dessa menina, ela teve uma vida sofrida, mas ela levou um sleeping bag incrível de um personagem, da Bela e a Fera, e o meu era tipo, sei lá... Verde! (risos) Todo mundo ficou: “Ai, você viu o sleeping bag da fulana?” Ela chamou a minha melhor amiga pra dormir com ela no sleeping bag bacanão e eu fiquei lá, no meu verde, só que a menina fez xixi no meio da noite! (risos) 

Eu lembro também de um ano que teve um Dia das Crianças que teve show do Michael Jackson no mesmo dia e a gente dormiu na escola. Quando eu era pequena, era obcecada pelo Michael Jackson, eu e minha babá. Tudo que eu gostava a minha babá tinha que gostar também. Se eu gostava de rosa e queria pintar o meu quarto de rosa… Eu era filha única, era meio mimada; o meu irmão nasceu só quando eu tinha seis anos, então se eu queria pintar o meu quarto de rosa, eu falava: “Mamãe, o quarto da bá também tem que ser rosa!” Aí eu perguntava pra babá: “Qual a sua cor preferida?”. “Rosa.” “Então tá bom!” Depois eu mudei a minha cor preferida pra laranja, eu lembro: “Bá, qual a sua cor preferida?” “Laranja.” “Ah, então tá bom!” (risos) 

 

P/2 — Já tinha a manha!

 

R — É. E ela me levava pra comprar os CDs do Michael Jackson com a minha semanada. Eu lembro que eu e minha babá, que está na minha casa até hoje, a gente estava no caminho pra escola e o show foi no Morumbi; passou o carro com a escolta do Michael Jackson e a gente ficou: “Ah… Michael Jackson!” A gente foi pra escola, enfim, ficou assistindo o show na classe, porque você dormia com as pessoas da sua classe. Tinha umas brincadeiras à noite e falavam pra levar lanterna, sleeping bag... Era muito legal!  

 

P/1 — Você lembra de alguma brincadeira específica? 

 

R — Na escola?

 

P/1 — É. 

 

R — Queimada. Eu amava queimada, eu era pró da queimada, sempre era a última. (risos) Pique-bandeira eu era meio ruim, mas queimada e pique-bandeira eram as minhas preferidas. Polícia e ladrão... Só essas coisas de correr!

 

P/1 — E como era a relação com os professores, e não só com eles, mas com os porteiros, com a Marinalva? 

 

R — Nossa, eu lembro muito. 

 

P/1 — Você lembra deles?

 

R — Eu esqueci o nome do porteiro... Senhor José. 

 

P/1 — É que esse não está mais na escola...

 

R — Bom, a Marinalva, Dona Conceição, o Edson, a Lourdes.

 

P/2 — Quem é a Lourdes?

 

R — A Lourdes era da secretaria. 

 

P/2 — O que você lembra da Marinalva, hein?

 

R — O que mais me toca de tudo isso é que todo mundo sabia quem você era, todo mundo conhecia sua família, todo mundo te dava atenção. Se você falasse alguma coisa, você era ouvido; não é porque você era uma criança que você não seria ouvida. Isso é o que mais... Até me emociona lembrar! 

Quando eu fui pra uma escola normal, sem ser bilíngue, sem ser a Playpen, eu fiquei impressionada com o desinteresse dos alunos e na Playpen tudo era feito de uma maneira que a gente era muito interessado, sempre. Quando eu fiz o colegial, a gente ia fazer um projeto, o pessoal ficava “ééé, nhénhé...”, aí senta atrás, fica conversando; o bacana é você estar por fora! Na Playpen, não! E não era uma coisa forçada, a gente queria participar porque a gente gostava.  

 

P/1 — E você lembra de algum desses projetos que vocês faziam?

 

R — Lembro! Eu lembro... Ah! Da Marinalva que você perguntou?

 

P/2 — Não, eu fiquei curiosa se você tinha alguma lembrança específica dela. 

 

R — O meu sonho era conhecer a casa da Marinalva… (risos) Porque ela morava na escola e a minha melhor amiga era filha de uma professora, então ela frequentava a casa da Marinalva e eu não! E eu lembro que ela tinha uns cachorros, tinha galinha... Eu lembro que uma vez eu dei uma espiadinha porque abriram a porta... 

O meu sonho era ir na casa da Marinalva. E a Marinalva era uma ‘puta’ gata, né? Hoje em dia eu fico pensando. Sarada, toda bonitona!

 

P/1 — É mesmo!

 

R — A Marinalva é a Glória Maria! (risos) E a Marinalva era legal, mas não era boazinha, tipo, “criancinha, nhé, nhé”...

 

P/1 — Ela colocava a criançada na linha?

 

R — Colocava, mas de um jeito tranquilo. Ela trazia o lanche em todas as classes. Quando ela chegava na classe, eu: “Ah… Ah....” Eu sou meio morta de fome. (risos)

 

P/1 — E como era o lanche da escola?

 

R — Era fruta, ovo duro... (risos) Quando era bolacha, era assim: “Uau, bolacha!”

 

P/1 — E você lembra se vocês chegaram a reclamar da comida?

 

R — Eu tive sérios problemas com a comida. Hoje em dia me arrependo, porque eu fiz um escândalo! Eu lembro... A dona Conceição, coitada, ela deve me odiar até hoje! É que assim, a comida na minha casa era muito boa, não dava pra você comparar, né? (risos) Só que quando você é pequeno, você nem pensa e eu era meio chatinha. 

Eu amava que o lanche era fruta, eu não reclamava. Às vezes, tinha um pão branco, aquele Pullman que gruda no céu da boca. (risos) Eu achava bom o lanche ser fruta, mas a comida me incomodava muito! Acho que hoje em dia não teria me incomodado, mas quando eu era pequena... Porque na minha casa, pra começar, não tinha arroz branco, só tinha arroz integral, então eu não gostava de arroz branco. O feijão de carioca é feijão preto, lá era marrom. (risos) Não sei, eu odiava a comida. 

Todo dia, eu não almoçava e gostava de fazer uma cena; eu entrava no refeitório, pegava o meu prato e falava: “Eu quero cinco grãos de arroz.” Colocava uma folha de alface e comia a fruta de sobremesa. Eu gostava de fazer uma cena, eu ia pra sala dos professores e falava que estava com dor de cabeça porque eu gostava mesmo era de tomar AAS, eu gostava do gosto do AAS. 

Eu chegava em casa, devorava um lanche, ‘meu’, homérico!

 

P/2 — Você ficava o dia inteiro no comecinho? Como era a carga horária?

 

R — Então, eu não sei se quando eu era pequena eu ficava o dia inteiro, mas eu lembro de quando eu ficava até três e meia. A vida inteira eu ficava até três e meia. 

 

P/2 — Aí saía, chegava em casa...

 

R — Aí, chegava em casa com fome e todo dia eu tinha que fazer esportes.

 

P/2 — E não era na Playpen?

 

R — Não. Eu cheguei a fazer judô na Playpen.

 

P/2 — E o que você fazia?

 

R — Nossa, tudo o que você imaginar eu já fiz. Eu já fiz saltos ornamentais, arco e flecha, natação, tênis, balé, judô, tudo! Piano, flauta... Tudo!

 

P/1 — E você falou da sala dos professores. Como era essa sala? Ficava alguém?

 

R — Ah, tinha cream crackers! (risos), tinha bolacha de água e sal. Eu amava roubar bolacha de água e sal da sala dos professores. 

 

P/1 — E o recreio, você lembra do que vocês brincavam na hora do recreio? 

 

R — Ah, de polícia-ladrão, pique-esconde, que era o melhor! Pique-esconde era tipo big time, quando os meninos não jogavam futebol e ia a classe inteira brincar de pique-esconde. Era o mais legal. 

 

P/1 — E você lembra um pouquinho do Halloween no shopping?

 

R — Lembro.

 

P/1 — Conte pra gente. 

 

R — Nossa, o Halloween também era “o” evento! Eu esperava o ano inteiro o Halloween. As minhas fantasias! A minha mãe era muito louca, cara! Ela mandava fazer num costureiro. (risos) Eu lembro que o cara ficava me medindo e perguntando o que eu queria. Uma vez, eu escolhi que queria ir de Mortícia Adams, aí no meio do caminho, quando a fantasia já estava pronta, eu falei: “Não, mãe, eu não quero ser a Mortícia, eu quero ser a Vandinha!” Eu fui com a roupa da Mortícia e com as tranças da Wandinha. (risos)

Eu lembro que o Lucas Marques - ele estudou a vida inteira comigo também - ele era demais! Ele era mais parecidinho comigo. O pai era carioca, a mãe era carioca, ele era filho único. (risos) Eu lembro que uma vez ele se enrolou inteiro com gaze pra ser uma múmia. Ele era mais rebeldezinho esse menino, chegava na escola com a mochila caindo, tomando uma Kero Koko. Isso com oito anos! Eu lembro de todo mundo enrolando ele com gaze, ficou meio ‘toscão’, mas ficou engraçado. 

Eu amava, era toda empenhadinha em cantar a musiquinha certinho lá na Iguatemi. Eu lembro que uma vez a gente foi na DPZ pedir trick or treat. (risos)   

 

P/1 — E qual musiquinha você cantavam, você lembra? 

 

R — Nossa, lembro! Era: “trick or treat, trick or treat, give us something good to eat. Giving us candy, give us cake, give us something sweet to take.” Se não dessem, era “uuuaahhh”. (risos)

 

P/2 — Vocês ficavam torcendo para não darem?

 

R — Não! A gente queria mais a bala, né? E davam muito, era um saco do tamanho de uma criança. 

 

P/2 — Vocês iam perto da escola?

 

R — Uma vez, eu lembro da a gente indo na DPZ. 

 

P/2 — Como vocês iam pra lá? 

 

R — De van, de onibuzinho. Tinha uns passeios muito legais na Playpen. Eu lembro uma vez que a gente foi fazer um passeio pelo centro de São Paulo. Muito legal! Edifício Martinelli...

 

P/2 — Subiram lá, né? 

 

R — É. 

 

P/1 — E quando você passou para quarta, quinta série, que começa a ter mais matérias, você lembra se teve alguma diferença? Você sentiu? 

 

R — Ah, tem umas histórias engraçadas da Playpen. Eu era boa em inglês, teve uma época que eu fazia inglês com a sala dos mais velhos. Eu me achava! Chegava na hora da aula de inglês... (risos) Eu lembro uma vez que estava na sala dos mais velhos e a gente estava fazendo um projeto sobre comidas. Tinha que levar comidas para as pessoas experimentar e o meu pai era sócio do Empório Santa Maria; eu passei lá, peguei uma bandeja de rosbife que eu gostava e levei. Só que eu comecei a ficar com muita fome... (risos) E na hora da aula de inglês, só tinha sobrado a bandeja! (risos) Eu, morrendo de vergonha - já estava na sala dos mais velhos, então eu subi e falei: “Isso era uma bandeja de rosbife. Juro!” (risos) Eu lembro que a professora falou: “Não, tudo bem, tudo bem, imagina...” 

Eu lembro também uma vez que a gente fez um projeto de feira de ciências e era com luz. Era alguma coisa que precisava usar uma lampadinha. Eu lembro, eu ficava em casa, sentada na mesa tentando pensar. Pô, é difícil pra uma criança pensar num projeto com luz pra fazer sozinha. Os meus pais não me ajudavam muito, sabe que faz pela criança? Não. Se eu precisar de ajuda, okay, vamos lá, não sei o quê... Bom, eu fiquei lá quebrando a cabeça, aí o meu pai me deu uma ajudinha, me deu uma ideia. Eu fiz um garfo com um clic; [se] você vai acampar, você precisa fazer sua comida. 

Bom, eu cheguei na escola no dia seguinte, as crianças tinham feito, umas megamaquetes, surreais! ‘Meu’, uma fez um palco de show, pegou caixinha de filme, colocou a luz e fez um círculo com três cores de luz no papel celofane... Qual o nome daquele papel transparente?       

 

P/1 — Acho que é papel celofane mesmo. 

 

R — Que é aquele papel de plástico. Pra trocar a luz e os bonequinhos, eu falei: “Quê?” E eu nunca deixei a desejar, eu me senti um lixo. 

Os pais iam lá ver. No meio do negócio, o meu clic parou de funcionar, o garfo também não acendia mais. Eu: “Que merda, que saco!” Fiquei puta! O meu pai foi me ver na Feira de Ciências e ficou me consolando: “Não, América. Duvido que eles tenham feito! Foram os pais que fizeram.” Hoje em dia eu acho cool o meu garfo. (risos)    

 

P/1 — Você falou do judô. Como era a aula do judô? 

 

R — Ah, éramos eu e os meninos. 

 

P/1 — Só tinha você de menina? 

 

R — Só. Ah não, tinha a Ana Guilhermina, que adorava fazer coisas de meninos. Eu era péssima. Eu só sabia contar. 

 

P/1 — E tinha mudança de faixas? 

 

R — Tinha, mas eu nunca mudava. (risos)

 

P/1 — E você lembra de algum evento especial que teve na Playpen?

 

R — Lembro de vários. Eu lembro muito da festa de 25 anos da Playpen.

 

P/2 — De cinco anos?

 

R — Não, de 25! Quinze, pode ser...

 

P/2 — É, porque 25 anos foi há cinco anos, né?

 

R — Ah não, foi de quinze. Eu lembro que a gente, todos os alunos, menos as miniaturas, aprendemos a cantar aquela música We are the world, que fizeram pra África. Todos! O Michael Jackson, Lionel Richie... Todos cantaram “We are the world, we are the children”. Eu lembro que os pais foram. Todo mundo de mãos dadas em volta da quadra, cantando a musiquinha. Foi bonito. E a gente se empenhado, todo mundo aprendendo a cantar a música. 

Sempre tinha música. Toda sexta-feira, na aula de inglês, tinha uma música. A gente cantava até aprender e depois era outra. Eu amava! Aí [na] sexta-feira, antes de ir embora, a professora colocava [a música] mais alta; a gente dançava na classe, cantando a música... Eu adorava! 

Eu lembro muito da teacher Ana Paula, porque ela foi minha professora de inglês [por] anos. Eu lembro até uma vez que eu paguei o maior mico da minha vida. Foi ótimo, porque eu aprendi cedo! Eu perguntei se ela estava grávida e ela não estava! (risos) 

Uma coisa que me marcou muito era como as professoras da Playpen eram lindas! Elas eram lindas! Nossa, a teacher Patrícia, teacher Patty, uma loira, parecendo uma Barbie. Tinha outra lá… Nossa, elas eram lindas, todas magras. Era uma coisa! Um desfile aquela Playpen! Um dia eu penso: “Nossa, os pais, hein, deviam gostar!” Eu lembro de uma vez que teve uma história dessa teacher Patrícia, que ela foi atravessar a rua da Playpen e o cara ficou tão ‘ohhhh’ que ele freou e o carro bateu atrás dele! Não sei se é verdade, mas eu lembro dessa história.       

 

P/1 — E tem alguma professora que foi a sua professora preferida? 

 

R — Maria Laura! ‘Meu’... Professora da vida! Não era só da escola. 

 

P/1 — E por que ela te marcou tanto assim?

 

R — O ser da Maria Laura é muito... Não sei te explicar. (chora)  

 

P/2 — Você lembra de algum episódio com ela que te marcou? De alguma coisa que ela tenha falado, que você achou demais? 

 

R — Ah, ela tinha umas frases, ela tem um timbre de voz muito bonito, né? Sei lá, umas frases proativas, tipo ‘viver e aprender’. Ela sempre foi muito carinhosa... 

Acho que o mais importante é você aprender a aprender, sabe, do que a-e-i-o-u, tabuada. Você aprender a aprender é você ser uma pessoa aberta. É isso que a Playpen me passou. Fico até assim, porque, juro, [se] tem uma coisa que agradeço os meus pais todos os dias, é ter me colocado na Play Plen, porque eu acho que fez muita diferença na minha vida. (chora)

 

P/2 — Como você acha que ela te fazia a aprender a aprender?

 

R — Não só a Maria Laura, mas a escola como um todo. De você estar aberto, de você ser curioso... É isso que eu falei que é diferente nas outras escolas. As pessoas são muito desinteressadas. A grande maioria das pessoas é desinteressada. E desinteressante!

 

P/2 — Você acha que é uma questão de estímulo da escola?

 

R — Muito! Acho que é uma questão do conceito da escola, de você ser uma pessoa de fato. Você não é um aluno que tem que fazer uma lição, porque ‘nhé, nhé, nhé’. De fato, você tem que cumprir com suas responsabilidades, mas você é uma pessoa ali dentro, pra ser ouvida, pra ser tratada como uma pessoa, enfim, não como um aluno X. Mais um aluno. 

A Maria Laura dava umas coisas meio desafiadoras, uns textos, pedia pra gente ler uns livros que não eram de crianças, sabe? Ela sempre fazia a gente entender de uma maneira muito legal. E ela tem uma energia muito [de] mãe. Ela também não é ‘nhé, nhé, nhé’.   

 

P/1 — América, e a jabuticabeira da escola? 

 

R — Ah, era demais! Eu lembro uma vez que a gente plantou cenouras. A gente fez uma horta. Era muito legal! A gente colheu as cenouras, levou pra casa... 

 

P/2 — Que legal!

 

R — A jabuticabeira… Toda vez eu ia lá. Eu lembro também de uma coisa na Playpen: tinha uns teatros de vez em quando, e eu sempre odiava os meus papéis nos teatros. (risos) Eu lembro uma vez, porque tem aquela coisa da classe… Eu e minha amiga, a Lilian, que era a filha da professora, éramos as mais espevitadinhas, né? Pô, uma vez me deram um papel de avó! Aí, eu falei: “Eu queria ser a principal, a menininha bonitinha que tem um namoradinho!” “Não! Você vai ser a avó!” (risos)

 

P/1 — E do projeto Quinta Dimensão, você lembra? 

 

R — Lembro. Eu não achava muito legal. 

 

P/1 — Você não gostava?

 

R — Não, tô brincando. Sinceramente, eu não acho que a Quinta Dimensão teve um peso tão grande pra mim. 

 

P/1 — Foram mais as outras atividades? 

 

R — O que eu gostei mais foi a viagem para a Califórnia. 

 

P/1 — Ah, conta pra gente como foi!

 

R — Foi incrível! Acho que eu tinha treze anos. A gente foi pra Berkeley dar uma aula de Brasil para os alunos de Berkeley e pra uma escola em Oakland, também. Foi incrível! Foram os alunos, os amigos, e Berkeley é maravilhoso, é um campus assim...  Surreal! 

A Playpen tinha uns professores muito descolados, muito jovens. Tinha muito professor gringo mais jovem. Tinha o John e a Eva, a Eva era maior raver, descolada, com um brinco todo doido, meio alargador na orelha, com piercing, totalmente raver. E o John era americano, mais american budweiser, mas ele era muito fofo e eles eram superjovens. Nossa, foi muito divertido! Lembro da gente passeando, indo comer hot dog

A aula do Brasil que a gente deu... Nossa, Berkeley é demais! Os americanos, os alunos em geral, desde pequenos até a faculdade têm muito isso de cor, com arte gráfica. Isso foi uma coisa que a Guida trouxe, da importância dos grafismos, das cores pra te chamar a atenção, pra você aprender. Em Berkeley eu fiquei impressionada porque é uma faculdade e tinha um monte de projeto com cor, com foto nos corredores. Era uma sala grande que a gente foi dar aula e os alunos ficaram superinteressados, e eles todos modernézimos...  

 

P/2 — Os alunos que assistiram a aula eram da mesma idade de vocês?

 

R — Não, Berkeley é uma universidade. 

 

P/2 — Ah, vocês foram na universidade de Berkeley! Caiu a ficha agora. 

 

R — Berkeley era um campus assim... Nunca vi nada igual na minha vida como aquele campus. 

 

P/1 — Vocês deram aula para os universitários! (risos)

 

R — É, sobre o Brasil.

 

P/2 — Vocês todos? Como foi essa aula?

 

R — Cada um escolheu um tema e uma coisa pra você levar, pra falar sobre. E é muito interessante, é um olhar totalmente antropológico... Misturaram algumas classes e a minha classe era a mais velha. O que, pra eles, marca o Brasil? Eu falei das Havaianas. Eu lembro que alguém falou de brigadeiro... 

 

P/1 — E vocês levaram as coisas, os exemplos? 

 

R — Levamos. Eu lembro que eu levei um livro até das Havaianas. Foi bem legal! 

 

P/1 — E nas horas de passeios, como era? Vocês andavam todos juntos? 

 

R — A gente andava junto. A gente foi passear em São Francisco, foi  a uma praia maravilhosa ali em Bay Area, que era toda de cascalho. A gente fez um piquenique na praia com os alunos da nossa idade de outra escola, acho que em Oakland, e a gente ficava ensinando os alunos a falarem palavrão. (risos)

 

P/2 — Básico! Que ano vocês foram pra lá, você lembra?

 

R — Brasileiro já quer ensinar a falar palavrão, né? Os americanos não são assim! Que ano? Eu tinha treze, tenho 23. Faz dez anos. 2000. 

 

P/1 — E nos quartos à noite? Vocês dividiram os quartos, iam dormir cedo, como era? 

 

R — Eu não lembro de ter sido uma zona. Deve ter sido uma zoninha, mas eu não lembro de [ter] feito uma balbúrdia. 

Nossa! Tem uma coisa histórica na Playpen: as festas do Caio B., do Caio Rodrigo! As festas do Caio B., pra mim, eram o evento do ano! Eu esperava o ano inteiro pela festa do Caio B. Era um final de semana num puta hotel, um hotel fazenda mais irado que eu já fui na vida, em Itu. Com monitores da Papa-Léguas, nem sei se existe ainda. E todo ano! Os monitores eram nossos brothers, aí era o final de semana in-tei-ro nesse hotel, fazendo só brincadeira. Ia na piscina e era patrão, só Milk Shake na piscina, ah…. (risos) 

O hotel [era] gigante e tinha aquelas brincadeiras à noite, com lanterna. De repente, aparece um monitor vestido de monstro, aí eu achava que ia morrer! (risos). 

O dia da festa do Caio B. era uma megafesta num espaço que eles tinham pra eventos, com bailinho. Tinha telão, tinha dança da vassoura, que era pra dançar junto, e eu odiava dançar junto. Eu gostava de dançar com a vassoura, ficava eu e a vassoura. A festa do Caio B., tinha que ter um pijama novo (risos), o enxoval da festa do Caio B.!    

 

P/1 — Todo ano ele fazia essa festa?  

 

R — Todo ano! E os monitores, gente! Que benção essas pessoas para as crianças! Porque [era] uma vitalidade… Brincadeiras o dia inteiro, mímica de filme, a gente ficava na piscina e eles arremessavam a gente, “chuaááá” na piscina. Era demais! As festas do Caio B., eram tipo, algo!  

 

P/2 — Posso perguntar uma coisa? Fiquei curiosa. Embora você não tenha curtido tanto a Quinta Dimensão, como ela se inseria no dia a dia da escola?

 

R — Eu não sei muito. O Caio B. falou alguma coisa da Quinta Dimensão?

 

P/1 — Ele não lembrava muito também. 

 

R — Quinta Dimensão pra mim era uma incógnita! 

 

P/2 — Mas o que era?

 

R — Pra mim, o ápice da Quinta Dimensão foi a gente ter ido pra Califórnia dar essa aula de Brasil. Eu não sei, eu achava a Laura bem chata. Ela falava, parecia o Homer Simpson, sabe? Eu ficava pensando, sei lá... 

 

P/2 — Ela dava uma aula pra vocês? 

 

R — É, ela dava aula da Quinta Dimensão. Pra mim, era aula de computação. 

 

P/2 — Ah, tá. Ela entrava nessa aula de computação. E nas outras matérias, tinha Quinta Dimensão? 

 

R — Não. 

 

P/2 — Não entrava?

 

R — Não. Ainda existe a Quinta Dimensão?

 

P/1 — Não. 

 

R — Ah, aboliram! 

 

P/2 — Mas teve bastante gente que fez. 

 

R — Ah é? Os mais novos que eu, então? 

 

P/1 — É, eu acho que sim. 

 

R — Acho que foi na minha classe que começou, não era uma coisa concreta ainda.  

 

P/2 — Por quanto tempo ficou, será?

 

R — Bom, pra mim foi meio X, a Quinta Dimensão. 

 

P/1 — Além dessa viagem pra Berkeley, vocês tinham alguma atividade de estudo do meio, vocês foram pra outros lugares com a escola?  

 

R — Tinha. A gente foi pro Sítio do Carroção. (risos) Acampamento, eu lembro! Viagem de aprender... Não lembro de nenhuma agora.  

 

P/1 — Mas você lembra de algum passeio?

 

R — Tinha alguns passeios. Tinha esse de São Paulo [em] que a gente ia conhecer o Centro; a gente sempre ia em exposição, zoológico. Sempre tinha passeios, eu adorava! Nesses passeios, você podia levar lanche! (risos) Pra quem nunca podia levar lanche! 

Eu só comia comida da Marinalva. O lanche era da Marinalva. Eu não me referia ao almoço como da Marinalva, porque eu achava tão ruim que não podia ser dela. Era da Dona Conceição! Eu esculachava essa coitada da Dona Conceição. “Essa comida ruim...” Eu era terrível! 

Enfim, eu lembro que quando tinha passeio eu podia levar lanche! Todo mundo tinha uma superlancheira de personagem. (risos) Eu tinha uma lancheira vermelha e o meu lanche era um sanduíche de atum. Os outros levavam aquele Ioio Cream e refrigerante e o meu era um sanduíche de atum e um suco de laranja. Umas cenouras... Aí, putz, a minha mãe esqueceu quietinha, aí: “Ai, pega essas azeitonas aqui!” (risos). Era tipo isso o meu lanche, então eu sempre queria roubar os dos outros, né? 

 

P/2 — Deixa perguntar uma coisa que eu estou curiosa: você falou que quando entrou, tudo bem que era inglês, normal, que você já estava acostumada.  

 

R — Super!

 

P/2 — Aí, quando juntou e começou a ter o português e o inglês, também foi uma passagem normal?  

 

R — Hipernormal. Eu lembro que era um fenômeno uma criancinha falar inglês naquela época, porque não era esse boom que é hoje em dia de escola bilíngue, que todo mundo estuda em escola bilíngue. 

Eu ia aos lugares, as pessoas eram tão caipiras em São Paulo naquela época. Eu lembro que você conhecia um adulto, ele perguntava: “Você gosta da Xuxa?” Minha mãe já queria esfaquear a pessoa! Eu não tive essa coisa de Xuxa! Eu peguei um momento que ela estava meio decadente. Eu gostava de Cartoon Network, eu nasci com a TV a cabo, quando eu comecei a me interessar por televisão. Eu tinha fitas de vídeo, eu não precisava da Xuxa. Os adultos ficavam fascinados que eu sabia falar inglês, então era assim, eu me sentia uma estrela! “Canta uma música?” Eu repetia a mesma música que eu sempre cantava. Era o meu repertório. (risos)

 

P/1 — Qual era? 

 

R — Eu era micro, eu tinha, sei lá, três, quatro anos. Era aquela: Twinkle, Twinkle, little star, how I watch, what are... Eu adorava! (risos)

 

P/1 — Deixa eu perguntar uma coisa: como era a relação dos pais com a escola? Tinha reunião? 

 

R — Tinha. O meu pai e a minha mãe tinham uma relação superboa com a escola. Eu lembro que eu me achava quando o meu pai ia na escola falar com a Guida. E era muito aberto se o pai queria perguntar, dar uma sugestão, enfim. Era muito legal. 

 

P/1 — E da Bienal, você lembra? Você participou da Tomie Ohtake, não participou?

 

R — Participei. Foi muito legal!

 

P/1 — Conta pra gente então. Como foi a preparação? 

 

R — Eu lembro que a gente leu um livro, A drop of water, eu acho, que era ilustrado pela Tomie Ohtake. Era um livrinho curto, ilustrado com umas telas lindas dela. Cada um escolhia uma tela desse livro pra reproduzir. Eu tenho esse livro. 

Ela foi lá passar um dia com a gente. 

 

P/2— Você falou que seus pais eram amigos dela. Você já a conhecia? 

 

R — Já. 

 

P/2 — Ela ia à sua casa? 

 

R — Ah, os meus pais, eu participava muito da vida deles, sabe? Se tivesse um jantar, alguma exposição, uma vernissage, eles sempre me levavam. Então, convivia. 

 

P/2 — E como foi quando vocês escolheram um tema, o que você achou quando deram o livro dela e tinha que escolher uma tela dela? 

 

R — Eu achei muito legal! Eu lembro que a gente se empenhava muito, gostava muito. As propostas da escola eram muito bem colocadas. Sempre. 

Eu lembro uma vez que a teacher Ana Paula... Ela era o máximo, adorava! Ela foi fazer uma viagem pra Austrália e Nova Zelândia e ficou um tempão fora. A gente ficou com uma professora substituta. Ela voltou e a gente fez um projeto incrível sobre a Austrália e Nova Zelândia. E, sei lá... Na Oceania! As pessoas nem dão importância pra isso, né, em matéria de escola. A gente fez um megaprojeto na terceira série. Eu lembro que a Oceania se descolou primeiro da Pangeia, a gente fez uma megapesquisa de fotos, uma capa linda, e era sempre assim! Eu tenho até guardado esse da Austrália.   

 

P/2 — Legal. 

 

R — Eu tenho um do Thanksgiving também, que tem desenho da classe inteira, que eu guardei. 

 

P/1 — Ah, vocês faziam Thanksgiving! Como era? 

 

R — Ah, fazia. Aprendia sobre o feriado, o que era o Thanksgiving, que os pilgrims, chegaram seis em Newland... Enfim. Eles comiam peru e abóbora e a gente tinha que fazer um desenho. 

É engraçado, eu lembro que nesse Thanksgiving sorteou e eu tenho uma coisa, eu sempre ganho os sorteios. Ninguém ganha e eu ganho, é muito engraçado você ver os desenhos das crianças. A metade da classe desenhava um peru! (risos)  

 

P/2 — Isso era legal da gente ver. 

 

P/1 — É legal mesmo! 

 

R — Eu tenho na minha casa e o da Austrália também. 

 

P/1 — E das outras atividades extracurriculares, você lembra de alguma outra? 

 

R — Lembro do professor Ricardo, de Educação Física. 

 

P/1 — O que vocês faziam na Educação Física? 

 

R — Eu lembro como me chamava a atenção a alegria dos meninos na Educação Física porque acho que, pra começar, era “o” professor! Ufa... o homem! Eu lembro que eles amavam e eu amava também a aula de Educação Física. Não tinha essa coisa de achar um saco, sabe? Eu até achei um saco algumas coisas, mas não era essa coisa! 

Escola brasileira tem um clima sacal. É um saco ir pra escola! Eu nunca achei isso da Playpen. A aula de Artes com a Teresa era muito legal, a gente aprendia de fato. Eu lembro da gente pesquisando sobre Kandinsky e ela contando a história que ele viveu durante as duas guerras. A gente fazia tie-dye, roupa... Era muito legal. Era demais!  

 

P/2 — Você estava contando um pouco como foi o percurso na Bienal da Tomie Ohtake. Vocês escolheram cada um, um quadro... 

 

R — Um quadro desse livro. A gente reproduziu e expôs para os pais, para a Tomie Ohtake. 

 

P/2 — Como era reproduzir um quadro? Era uma cópia ou era uma interpretação? O que era? 

 

R — É que criança leva a palavra reprodução mais como cópia, né? Ela não fala: “Ai, vou sonhar com cavalos marinhos...”, enfim. Era pra você aprender porque, imagina, uma Tomie Ohtake da vida! Pra uma criança viver aquela relação entre as cores, entender a intensidade das cores, só de estar copiando de uma artista desse nível já é um aprendizado.

 

P/1 — E você falou pra gente que ela te chamava, que ela sabia o seu nome, já te conhecia...

 

R — É, ela sabia o meu nome. 

 

P/1 — Como era lá na escola? 

 

R — Ah, eu lembro que eu ficava meio sem graça. Eu não queria ficar do lado dela toda hora. (risos) Eu lembro que a gente ficava: “Qual quadro você vai escolher?” 

 

P/2 — Você lembra qual quadro você escolheu? 

 

R — Não lembro. Eu acho que eu escolhi um vermelho que tinha um negócio preto no meio, mas eu não tenho certeza. 

 

P/1 — América, você lembra mais ou menos quando você já estava na oitava série, como foi sua festa de formatura? Como você saiu da Playpen? 

 

R — A minha turma foi o primeiro ginásio da Playpen e adolescente é muito chato, né? Essa fase é muito chata, só melhora depois de uns dezesseis anos. Eu lembro dessa fase que a gente não era fácil, a minha turma. Não dessas coisas de ser desinteressado, mas a gente parecia francês, adora se rebelar contra! Teve um professor que passou duras penas lá com a gente. O que você perguntou mesmo? 

 

P/1 — Da oitava série, do finalzinho. 

 

R — Da formatura. Não sei, eu estava tranquila, mas não tinha muita noção... 

 

P/2 — Você tinha vontade de sair, de ir pra outra escola, de ver como era? 

 

R — Tinha, tinha muita. Jovem, o ser humano é assim, né? Você está curioso, você quer saber e quando você estuda numa escola pequena e já tem uma certa idade, você vê as outras pessoas... Pô, os meus outros amigos das outras escolas… Tinha festa de 15 anos toda semana. Eu não tinha, tinha uma lá, outra cá. 

 

P/2 — Era pouca gente na sua classe, lá? 

 

R — No final, tinha seis pessoas na minha classe. Na quarta série tinha vinte e na oitava tinha seis. E eu estava meio querendo saber como era uma escola grande, ter mais relações sociais diárias; você começa a ter uma carência também disso, nessa idade. E eu nem sonhava o que me esperava! 

 

P/1 — E aí, como foi escolher a nova escola? Você participou desse processo com os seus pais? 

 

R — Hoje em dia eu não acho ruim, mas eu podia ter feito uma escolha melhor. Eu escolhi a FAAP porque a minha mãe sempre me levava nas exposições lá, umas amigas minhas que eu conhecia de outras escolas, iam pra lá... Enfim, fui pra FAAP. Meu Deus! Pro desgosto da vida do meu pai.  

 

P/2 — É mesmo? 

 

R — Ah, o meu pai queria que eu tivesse estudado no Vera, no Gracinha, numa escola melhor. O colégio FAAP não é lá muito bom. Eu acho até [que] o que eu estou falando da minha impressão de desinteresse foi muito por ter estudado no colégio FAAP. Eu até acho que nessas escolas, Vera, Gracinha, os alunos são mais interessados, mesmo estando no colegial. No Santa...

 

P/2 — Você não quis mudar? Foi para o primeiro ano lá? 

 

R — Ah, me embrenhei lá! Balada!

 

P/1 — E como foi esse período novo? 

 

R — Na Playpen, eu acordava, colocava o meu uniforme, comia, escovava os dentes e ia pra escola. Você acha que eu me importava com a cara que eu ia estar pra ver aquelas mesmas seis pessoas que eu conhecia desde os dois anos? E eu era uma pirralha. Bom, eu chego na FAAP de camiseta branca, calça jeans, tênis e mochila! As meninas estão todas mega-arrumadas, de escova, com bolsa, maquiadas, e eu: “Nossa, cara, tem alguma coisa estranha aqui. Alguma coisa errada!” Eu lembro que tudo era muito diferente. As pessoas fumavam maconha no intervalo. Não que eu fosse uma ‘monga’ completa, até porque os meus pais se separaram e a namorada do meu pai tinha uma filha mais velha que eu amo e é uma das minhas melhores amigas até hoje, enfim, mas pô, eu não achava normal. Pra mim foi um choque! Coitada da minha mãe, teve que desembolsar uma grana para os meus looks diários na FAAP. 

 

P/1 — E quando os seus pais se separaram? Você estava na Playpen ainda?

 

R — Estava.

 

P/1 — E como foi? O pessoal da escola te deu uma força?

 

R — Eu lembro que eu tinha muita vergonha de falar que os meus pais estavam se separando. Eu não queria que ninguém soubesse. Eu lembro que foi bem ruim.

 

P/2— Você estava em que série? 

 

R — Eu estava na terceira. Da terceira pra quarta, eu acho. 

 

P/2 — E você foi morar com a sua mãe ou com o seu pai?

 

R — Com a minha mãe, mas o meu pai me levava pra escola todo dia. 

Eu lembro de ter muita vergonha de contar para as pessoas. Não tinha muita gente com pais separados. 

 

P/2 — Seu irmão foi pra Playpen também? 

 

R — Meu irmão foi, mas ele foi expulso com oito anos. Aliás, com menos!

 

P/1 — O que aconteceu?

 

R — Ah, não sei. O meu irmão é muito... Melhor nem explicar. Ele mandou não sei quem da direção ir se foder, com oito anos - ou seis anos, sei lá. Tudo o que você puder imaginar ele já fez!  

 

P/1 — Conta um pouquinho então desse período da FAAP em que você começou a sair, como eram os novos amigos...

 

R — Deixa eu só terminar. Quando os meus pais se separaram, tinha poucos pais separados na classe e uma coisa que eu lembro é que tinha bastante filho único na minha classe, mas pais separados eram pouquíssimos. Eu já era tão diferente, porra, ainda tinha que ter pais separados? Eu já me sentia tão diferente, sempre! Mas eu lembro que no final foi muito bom, porque essa namorada do meu pai… A família [dela] era meio parecida com a minha. Eles eram diferentes também. (risos) E me abriu um leque também de relações muito legal, porque eu convivia muito com as sobrinhas; enfim, ela tinha um filho da minha idade, um ano mais velho. No final, foi ótimo! 

Só esse menino que também era carioca, que era mais parecido comigo, que tinha pais separados desde cedo.   

 

P/2 — E os seus outros colegas? Qual era o ‘perfilzão’? 

 

R — Tinha uma turma na minha classe que tinha vindo de um colégio que chama Ponto Ômega, não sei se vocês já ouviram falar. Tinha a Lilian, a minha melhor amiga, que era filha da professora e mãe dela era bem careta, o pai era bem careta, bem diferente da minha casa. Tinha a Luisa Salata, também: o pai engenheiro, a mãe dona de casa. A casa dela parecia uma cottage, sabe? Tudo bem romântico... Ela morava em Alphaville e eu achava o máximo, achava fodão morar em Alphaville naquela época. “Caceta, eu quero morar em Alphaville” (risos). Tinha o Caio B., que nossa, o pai dele era demais, a mãe dele era demais! O pai dele faleceu, eu lembro o dia que o pai dele faleceu. A gente estava numa festinha.   

 

P/2 — Estavam na escola?

 

R — É. Eu tinha uns oito anos. A gente estava numa festinha num circo de uma menina que o pai [dela] era amigo do meu pai. Era num circo e depois no Friday’s! Eu lembro que a minha mãe foi me buscar no Friday’s, ‘meu’... Aos prantos! Eu nunca vi a minha mãe assim. Aos prantos! Eu entrei no carro: “Nossa, mãe!” “O pai do Caio faleceu.” Na volta da festinha, coitado... Foi muito ruim. Foi a primeira vez que eu lidei com a morte na vida. Foi com o pai do Caio B. 

 

P/1 — Como foi, vocês deram uma força para o Caio?

 

R — Não sei. Foi muito estranho. Sei lá, eu nem sabia... Eu lembro que eu estava ouvindo aquelas palavras pela primeira vez. Infarto, eu nunca nem tinha ouvido isso. E o que você tinha perguntado mesmo?

 

P/1 — Do seu período na FAAP, pra você contar pra gente as histórias do colegial. 

 

R — Nossa... Imagina! Eu descobri, ah…. Meninos! Era tipo isso! (risos) 

 

P/2 — Queria perguntar daquelas coisas dos prédios da escola...

 

P/1 — Ah, a gente pode perguntar. É porque, na verdade, ela não pegou o prédio novo. 

 

R — Mas eu peguei uma transformação. 

 

P/1 — Você pegou a academia de balé, né?

 

R — É, eu fazia balé lá. 

 

P/1 — Ah, você fazia balé? E aí, como era? 

 

R — Cara, eu fazia aula de balé depois na minha sala. Na mesma sala! 

 

P/2 — A sala de aula era sala de balé, é isso?

 

R — É! Eu lembro exatamente como era a sala de balé, que depois virou... 

 

P/2 — Mas como era? Você estudou na casa original, na primeira casa, é isso, né? Já expandida?

 

R — É, já tinha uma expansãozinha ali, eu acho. Mas não para a casa do balé, porque tinha uma que era a casa original, depois um pouquinho e depois o balé. Eu estudei nesse.  

 

P/2 — Mas você não chegou a acompanhar o pessoal que saiu ou que estudou na outra casa? 

 

P/1 — Não, ela saiu antes. Por isso. 

 

R — Mas eu lembro da história do balé, que era a mesma casa. Mas da FAAP, enfim, era isso. Saía à noite e eu gostava dos repetentes! (risos) Os repetentes eram tão mais cool! (risos)... Eles achavam tudo aquilo uma merda... (risos)  

 

P/1 — E você sentia mudança na metodologia, nas aulas?

 

R — Total! Era outra vida! Era todo mundo desinteressado, as aulas eram, na sua maioria, chatas! É que, mesmo a aula sendo chata, eu tenho interesse em aprender a matéria. A Playpen que me passou isso. Eu não gosto de ir mal, eu não acho legal isso... Não acho legal, não acho que ser cool é tirar zero. Enfim, o método era todo outro. Eu não tinha a menor vontade de entrar na sala do diretor pra falar oi pra ele. Na Playpen, não... 

 

P/2 — E os professores na FAAP, como eram? 

 

R — Era muito louco. Tinha uns professores que eram legais, tinha uns gente fina, a maioria era gente fina, até! Mas não sei... A classe lotada, bedel! Eu nunca tinha visto isso na minha vida. Bedel. Eu não conhecia essa profissão. 

Sei lá, foi uma fase. O estudo era [com] o que eu menos me importava, na verdade. Não porque eu não me importasse, eu me importava até, muito mais do que outras pessoas, mas acho que era muita coisa também; era meio maçante, meio chato. Sei lá... 

 

P/2 — Você teve dificuldade pra acompanhar porque era diferente a metodologia?

 

R — Imagina! Foi ridículo. Eu só ia bem!, só tirava notão! Pô, eu sabia aprender, entendeu? Até hoje! Enfim, participava da aula, anotava, fazia as coisas, sempre gostei de participar da aula. 

 

P/1 — E aí você já começou a pensar o que você iria fazer depois do colegial? 

 

R — Eu nunca tive muito essa paranóia, sabe? Acho que como eu nunca quis ser médica ou essas coisas... Eu nunca tive muito isso, não.  

 

P/1 — Deixa eu te perguntar: enquanto você estava no colegial foi que a Playpen fez a reforma do prédio novo, não foi? 

 

R — Foi. 

 

P/1 — E você acompanhou? 

 

R — Porque o meu melhor amigo mora ao lado da Playpen.

 

P/1 — Eu queria que você contasse pra gente como foi acompanhar de fora. 

 

R — Era assim o meu dia: eu saía da FAAP, ia pro Lourenço encontrar os meus amigos...

 

P/2 — Lourenço?

 

R — Lourenço Castanho. 

 

P/1 — Eles foram pra lá, os seus amigos? 

 

R — É, os meus outros amigos. Eu ia pro Lourenço encontrar os meus amigos, o Betinho, que é esse meu melhor amigo. Ia todo mundo pra casa do Betinho, que é do lado da Playpen. Isso era quase todo, dia praticamente, aí eu acompanhei total. Pra mim era meio: “Uau! Demolindo a escola, caramba!”  

 

P/1 — E o que você sentiu quando viu a escola demolida? 

 

R — Ah, é meio chocante, pô, passei a vida lá! É meio impactante, sempre. Mas o cerne, os ideais da escola continuam, então... Foi uma evolução. Eu fui lá depois no prédio novo, conhecer, fiquei curiosa. 

 

P/1 — O que você achou quando entrou no prédio novo? 

 

R — Achei muito, muito legal! Achei muito bom pra criança, sabe? Fácil acesso às coisas, amplo... 

 

P/1 — América, a gente sabe que você mandou um e-mail pra escola...

 

R — É... Nessa época!

 

P/2 — Como é?

 

P/1 — Ela mandou um e-mail pra escola falando da construção...

 

R — Nessa época que estava reformando, eu passava lá todo dia. Pô, me abalou um pouco. Demolindo a minha escola, caramba! Eu mandei um e-mail pra Guida, pra escola, falando que eu estava acompanhando, que estão demolindo a minha escola, mas que eu sei que o mais importante não é o prédio, mas os ideais da PlayPen, enfim. Eu acho que devia ter uns quinze ou dezesseis anos quando fiz isso. 

 

P/1 — E o que você pensou? Você pensou na Guida mesmo ou você pensou na escola inteira?

 

R — Na escola inteira, né? 

 

P/2 — A gente tem esse e-mail?

 

P/1 — A gente tem. 

 

P/2 — Ah, legal!

 

R — A Guida! Eu lembro do dia que eu descobri que o nome da Guida não era Guida! (risos)  

 

P/2 — Como foi?

 

R — Não sei. Eu lembro que eu fiquei chocada quando eu descobri que o nome dela não era Guida. 

 

P/2 — Como é o nome dela?

 

R — Acho que é Maria Margarida Machado. 

 

P/1 — Conta pra gente então, América, o que você foi fazer depois que terminou o colegial. Depois do terceiro colegial, o que você escolheu?

 

R — Eu prestei Direito, mas não quis. Eu fiz cursinho um tempo. Não sei direito porque eu fiz cursinho; acho que porque eu não sabia também direito o que escolher. Eu gostei de ter feito cursinho. 

Eu fiz Relações Internacionais. 

 

P/2 — Onde você fez cursinho?

 

R — Num lugar que chama Hexag. Era o mais perto que tinha. 

 

P/2 — Você estava morando ali ainda na sua casa do Pinhal? 

 

R — Não, no Jardim Paulista ainda, mas na [Rua] Guarará, mais pra baixo. Quando os meus pais se separaram, eu mudei pra lá. Depois dessa casa do Pinhal, eu fui morar no Morumbi e depois eu fui morar na Guarará, que é onde eu moro. 

 

P/2 — Quando você morava na São Carlos do Pinhal, a sua mãe te levava pra Playpen? 

 

R — O meu pai. 

 

P/2 — Ah, você falou que o seu pai te levava todo dia, né? 

 

R — Isso do meu pai levar, eu dou muito valor. Ele escolhia umas músicas, tinha uns períodos que tinha umas músicas assim... Era música por período. A gente ia cantando e, pô, estimulou muito essa questão musical e estar juntos, tomar café juntos. Muito legal.  

 

P/2 — A gente estava falando das Relações Internacionais...

 

P/1 — Isso. Conta: onde você foi estudar, você gostou? 

 

R — Na FAAP. “Once in FAAP, you can never GO on!” 

Eu não gostei muito. Eu acho aquele colégio uma bosta, na verdade. Acho que na vida você aprende muito mais. Eu comecei a trabalhar cedo, com dezessete anos e, sem dúvida, minha faculdade foi o meu trabalho! Sem dúvida alguma!

 

P/2 — E você começou a trabalhar com o que aos dezessete anos?  

 

R — Minha mãe é jornalista de moda e eu sempre vivi nisso. É até engraçado, porque eu não tinha com quem conversar sobre isso na escola. [Na] primeira versão da Fashion Week em São Paulo eu tinha uns sete anos. Eu ficava no backstage, raspando sapato de modelo, enfim. 

Uma vez, foram fazer um editorial na minha casa. Eu desfilava às vezes, na época; tinha Zoomp Kids, Forum Kids. Eu lembro que a primeira vez que eu fui pra balada eu tinha treze anos, fui com a minha mãe na inauguração da Disco. Faz dez anos! Pra quem que eu ia falar? Eu ia conversar com quem no dia seguinte na escola? Mas minha mãe também... Ela me levou pra jantar, os amigos: “Vamos!”  E eu... (risos). Mas o que eu estava falando mesmo?

 

P/2 — Do trabalho...

 

R — Ah, eu sempre fui engendrada nesse meio porque eu sempre fui em tudo com os meus pais. Eu sempre participei muito desse mundo adulto. Eu lembro que era final do ano e estava bem naquela fasezinha “Bob Marley, Janis Joplin, The Doors e o resto do mundo é uma merda.” (risos) 

Minha mãe faz aniversário perto do Natal; a Natalie Klein, da NK, mandou um presente pra minha mãe. Ela estava viajando e eu também. Fui pra Bahia passar o réveillon com os amigos, “bááá” (risos); voltei parecendo sei lá o quê. Voltei antes que a minha mãe, ela me ligou e falou: “Passa na NK, vai agradecer a Natalie.” Eu já conhecia a Natalie, o primeiro porre que eu tomei foi na casa dela. Eu fui lá agradecer e ela falou: “Você não quer trabalhar não?” Eu olhei assim e falei: “Nossa, eu?” Tipo, de birking, blusa cortada, cabelo desgrenhado. 

Ela queria criar um cargo novo na empresa, que era de Assistente de Vendedora, não era comissionado. Eu falei: “Eu quero trabalhar!” (risos) “Trabalhar aqui, com você? Eu quero!” Eu lembro desse jeito, eu falando com ela: “Vou trabalhar de Assistente de Vendedora, mas o que eu quero é trabalhar com você no Estilo”. 

Depois de dois anos eu fui trabalhar no Estilo, porque a minha mãe é historiadora de moda e a minha casa é uma Biblioteca de moda, então eu convivi com isso. Yves Saint Laurent, Dior, os períodos, a moda, tudo. Então...   

 

P/2 — Você curtia isso?

 

R — Pra mim era muito natural. E foi muito legal! Os meus amigos não faziam nada e eu trabalhava nine to five com aquelas mulheres lindas! (risos) Nossa, foi incrível! Eu fiquei cinco anos na NK. Foi o máximo!

 

P/2 — O que era o seu trabalho lá? 

 

R — Como Assistente de Vendedora era engraçado, porque eu era assistente de uma vendedora. Eu ficava com ela o dia inteiro, atendia as clientes, conversava com as clientes, mas eu falava o que eu pensava. Eu falava pra cliente: “Mas você vai comprar essa calça branca, justa assim?” Eu falava o que eu pensava e a vendedora queria me matar! Ela teve muita paciência, me ensinou muita coisa; ela foi muito fofa, sabe? 

As clientes começaram a gostar disso e como eu tinha essa cultura de moda em casa eu sempre referenciava as coisas, porque o mercado de luxo, desculpa, não é você comprar, pegar a sacola e ir embora. A pessoa precisa de um algo mais, entendeu? Se não, você vai na Zara. Você não vai pagar dez mil reais num vestido. Eu sempre tinha uma coisa pra relacionar, eu sabia alguma coisa do estilista, então as pessoas começaram a gostar muito e aí eu fazia altas vendas. Altas vendas!  

 

P/2 — Você virou vendedora? 

 

R — Não. Não virei, fui pro Estilo. 

 

P/2 — Ah, você foi direto. 

 

R — Fui direto. O meu pai não quis que eu trabalhasse comissionada. Ele acha um veneno pra uma menina daquela idade trabalhar com comissão de loja, porque não sai mais. Começa a ganhar uma bolada e não sai mais. Foi isso. Mas era engraçado. As clientes começaram a gostar e eu ia ajudar na venda, aí a vendedora dava uma saidinha e eu (cochicha). (risos) 

 

P/2 — E como foi você mudar pro Estilo? 

 

R — Ah, foi incrível! Eu me achei, foi uma conquista! Trabalhar no Estilo com dezenove anos. Eu comecei como assistente, uma faz-tudo, depois eu tomava conta de um monte de coisa. Rápido, assim! 

 

P/1 — Você continuou no Estilo durante a faculdade? 

 

R — Eu interrompi a faculdade quando eu fui pro Estilo, porque não existia condição humana. 

 

P/2 — Trabalhava muito? 

 

R — Trabalhava. E eu não sou essas pessoas de outro material, que não dorme, que não faz ginástica, que não tem namorado. Desculpa, eu não sou. Tem gente que é assim, eu não sou. Pra mim, eu trabalhava até as oito da noite e... (som de beijo). Eu dou valor pra minha qualidade de vida, muito! Ir à ginástica, dormir bem, me alimentar bem, estar com os meus amigos, com o meu namorado, enfim. 

 

P/1 — E você continua trabalhando? O que está fazendo agora, América? 

 

R — Eu fiquei na NK cinco anos, até recentemente. Como na Playpen, [aconteceu] essa mesma sensação no final da oitava série na Playpen, de querer conhecer outra coisa. Pô, eu já estava há cinco anos e cinco anos é uma relação bem duradoura pra uma adolescente de dezessete anos! E era uma responsa, responsa máxima! 

Eu comecei a querer saber como era outra coisa e foi bem assim, parece que conspirou! Eu recebi uma proposta bacana da Schutz, que é do grupo Arezzo; fiquei lá durante um ano. Foi outra coisa!i Ia pra fábrica toda semana, lá no Sul, em Novo Hamburgo, que é um buraco. Foi bom, foi muito bom! Eu convivi totalmente com outra realidade. 

 

P/2 — O que você fazia?

 

R — Desenvolvimento de acessórios. Estilista. Eu fiquei na Schutz, entrou uma mulher lá que me encheu o saco, uma fraude. Eu saí, fui viajar, enfim. Agora eu voltei e estou procurando outra coisa. Uma nova relação duradoura.    

 

P/2 — Pra onde você foi viajar? 

 

R — Fiquei em Nova York quase um mês. 

 

P/2 — Ah, você acabou de ir. É recentíssimo. 

 

R — É recente.

 

P/1 — América, você acha que além dos seus pais, da sua casa, da sua mãe, essa coisa de mexer bastante com artes da Playpen tem influência com aquilo que você é hoje? 

 

R — Tem muito a ver. Muito! Só em casa não ia dar conta. Você passa o dia inteiro na escola. Tem muito a ver. Uma liberdade de pensamento, sabe? Uma liberdade de absorção de novas ideias. A Playpen sempre passou muito isso. 

E outra coisa, a minha casa sempre andou muito em sintonia com o ideais da Playpen, porque eu sinto muito hoje em dia, desde que eu saí da Play Plen - hoje em dia nem tanto, porque você vai escolhendo suas relações, mas as pessoas não dão valor para o conhecimento. Se você sabe uma coisa, se você está num assunto e você sabe alguma coisa e vai compartilhar você é chato, você é mala! E na minha casa, os meus pais - eu nunca vi nada igual na minha vida - eles são muito cultos.  Minha mãe morou fora a vida inteira, minha mãe fez História da Arte em Firenze; ela lê muito, ela é muito culta. Ela acabou de escrever uma matéria no Estadão sobre o Oscar Wilde. Ela é um poço! E o meu pai é muuuito culto. É um absurdo! Com a minha idade ele trabalhava com o Niemeyer. 

Eu sempre convivi muito com isso, de você compartilhar o conhecimento e de dar valor pra isso. E na Playpen era assim também: as pessoas gostavam, todo mundo era assim. Depois, quando o vi o mundo lá fora, as pessoas acham isso um saco! O mínimo possível é o melhor.   

 

P/1 — Fazendo um pouquinho de comparação, quais são as principais diferenças que você vê da escola que você estudou pra Playpen, na hora de comparar as duas? 

 

R — Nossa, não tem nem palavras pra explicar, porque não dá pra ser mais diferente. Fisicamente, pra começar, e o conceito todo, a energia, tudo. Era uma fogueira das vaidades a FAAP, em todos os sentidos. Não só dos alunos. 

 

P/1 — E o que você acha que foi o principal impacto da Playpen na sua vida? O que você leva com você? 

 

R — Aprender a aprender. Pra mim, isso é o mais importante. A vida é um eterno aprendizado. E você ser sempre tratado como uma pessoa, porque hoje em dia os meus amigos falam: “Nossa, América, você é segura!” “Eu? Sou segura? Eu tenho um bilhão de inseguranças, meu bem, você nem sabe!” Eu sempre pude, eu sempre tive espaço pra me colocar lá - eu e todos os alunos. 

E em casa também, né? Sse eu estava falando, os meus pais escutavam. Não é: “Criança, fica quieta! Vai comer na cozinha!”  Nunca foi assim. Era uma coisa que tinha uma sinergia, na minha casa e na escola. É isso, eu sempre pude me colocar, então porque eu não haveria de poder? Tanto que eu fui enfiar a mão na cara da Dona Conceição - olha que coisa horrorosa, mas, eu me senti no direito. Horrível! 

 

P/1 — Você quer perguntar mais alguma coisa, Camila? 

 

P/2 — Não. Está ótimo. Superlegal. 

 

P/1 — Agora, pra gente encerrar, eu queria te perguntar o que você acha da Playpen comemorar os trinta anos com esse projeto de resgate da memória, da trajetória da escola? 

 

R — Nossa, maravilhoso! Eu fiquei tão emocionada, chorei: “Eles me escolheram pra falar”... (risos) 

 

P/2 — Você chorou? 

 

R — Chorei. Eu estava viajando, mandei e-mail pro meu pai e pra minha mãe... (risos)

 

P/2 — Que legal! (risos)

 

P/1 — E o que você achou de ter participado da entrevista? 

 

R — Achei o máximo! Pra mim é muito bom estar aqui pra falar, porque eu nunca tive oportunidade de resgatar tudo isso. 

 

P/1 — E teve alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de contar? 

 

R — Deixa eu pensar... A teacher Melinda também era muito legal. Eu acho que os meus amigos que estudaram na Playpen...

 

P/2 — Ah, isso é legal a gente saber, que você tem contato com eles ainda. 

 

R — Algumas pessoas eu convivia muito, mas a maior parte tomou rumos muito diferentes, o que seria pra mim outra galera. 

Pô, outro dia eu encontrei o Caio B. na rua. Eu quase fui atropelada! (risos) Eu fui correndo! Eu tenho um megacarinho, gostaria de vê-los como eles são hoje em dia, mas o único que eu vejo mais é esse Lucas, que já era mais parecido comigo. Ele era mais a minha galera assim, vamos dizer.  

 

P/2 — E onde vocês se encontram? Você é amiga dele?  

 

R — Eu o encontro nos lugares mais imbecis, indo almoçar no Rio, ou, sei lá, num desfile.  

 

P/2 — Você o encontra ele na vida assim, por acaso, não porque vocês combinam.  

 

R — Na vida... Mas eu falo com ele no ‘fuçabook’, enfim. 

 

P/2 — ‘Fuçabook’! (risos) 

 

P/1 — Então, superobrigada. A gente agradece por você ter vindo até aqui e ter contribuído. 

 

R — Imagina! 

 

P/2 — Nossa, foi muito legal! Olha quanta coisa ela tem pra contar. 

 

R — Eu falo pelos cotovelos também! 

 

P/1 — Imagina! 

 

R — A oportunidade! (risos) 




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