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História

Um engenheiro no caminho de Santiago

História de: Antônio Rigotto
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Antônio Rigotto formou-se em Engenharia Mecânica e atuou em diversas empresas da área da mineração, como a Vale do Rio Doce. Nesta entrevista, ele nos conta momentos decisivos da sua carreira, mas também de sua vida pessoal, como sua viagem ao Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.   

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História completa

P/1- Bom, Rigotto, nossa primeira pergunta é para você se apresentar. Seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R - O meu nome completo é Antônio Rigotto. Eu tenho 55 anos, vou fazer 56 mês que vem, e sou nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais.

 

     P/1 - Em qual data?

 

     R - Em doze de setembro de 1944.

 

     P/1 - E a sua família? Seus pais também são de Belo Horizonte?

 

R – Meu pai é de Belo Horizonte, minha mãe é de Itabirito. Meu pai é descendente de italianos, minha mãe é descendente de portugueses.

 

P/1 - E os nomes?

 

R – Meu pai é Eduardo Rigotto; minha mãe, Manuela Rigotto.

 

P/1 - Você sabe um pouco da história das famílias, da origem?

 

R – Olha, o meu avô, que por sinal se chamava Antônio Rigotto, veio para o Brasil. Teve cinco filhos e quatro filhas. Ele veio para o Brasil para construir a cidade de Belo Horizonte; ele era canteiro, que mexe com pedra, né? Era uma pessoa de nível médio, em termos de instrução, e veio para Belo Horizonte para fazer aqueles prédios: o Palácio da Liberdade, a Estação, aquelas coisas, como cantaria. 

Radicou-se lá, trouxe a minha avó que se chamava Rosa Zanella Rigotto e os dois se casaram. Tiveram uma porção de filhos, um dos quais era o meu pai - que foi o único filho que teve filhos. As filhas tiveram filhos, os outros filhos, nenhum teve filhos. A descendência desse meu avô [foi] só os filhos do meu pai, eu e o meu irmão que é vivo, o outro irmão que morreu. 

A minha mãe é filha de portugueses que vieram para o Brasil no fim do século, quando Portugal estava com a sobrevivência difícil. [Havia] terra barata no Brasil; eram lavradores, vieram para o Brasil. Nasceram uma porção de filhos, como era moda naquela época, usava, era fashion ter muitos. Minha mãe, se não me engano, é a sétima ou oitava filha. Morou em Itabirito alguns tempos, depois mudou para Belo Horizonte tentando encontrar uma vida melhor. Encontrou meu pai, casou-se, [teve] sete filhos.

 

P/1 - Sete?

 

R – Sete filhos, bons exemplares, eu diria, e estamos aí.

 

P/1 - Passou a infância toda em Belo Horizonte?

 

R – A infância toda em Belo Horizonte. Morei em Belo Horizonte até os 28 anos de idade.

 

P/1 - Como foi sua infância lá, a sua casa?

 

R – (riso) Meu pai era pedreiro, ele lutava para sobreviver. Ele chegou a ter um emprego público, mas mais ou menos nesta função. Passou a vida dele tentando construir um patrimônio com as próprias mãos, construir casas etc. 

A mão de obra mais barata que ele tinha eram os filhos. Eu sou o quinto de uma série de sete, então eu já cheguei numa fase melhorzinha! Meus irmãos mais velhos sofreram mais do que eu, mas eu desde pequeno que eu trabalhei. Eu sei trabalhar de pedreiro, bombeiro, pintor, eletricista, essas coisas. Tudo o que você quiser eu sei fazer, fazia por necessidade para ajudar o desenvolvimento da família. Os filhos mais velhos tiveram mais dificuldade para estudar, os mais novos tiveram menos dificuldades para estudar, ajudados pelos mais velhos - daí a minha profunda gratidão com o meu irmão mais velho, que me criou e me ajudou a ser alguma coisa.

A infância foi assim, sabe? De vez em quando eu brincava um pouquinho, mas tinha que trabalhar, tinha que estudar. 

Eu fui criado num bairro de classe média em Belo Horizonte, o bairro da Floresta, que é um bairro comparável aqui no Rio com Laranjeiras, Cosme Velho. A gente tinha uma certa liberdade, eu fui criado numa época muito boa de Belo Horizonte. Na minha juventude, eu já trabalhava. O meu trabalho era andar entregando telegrama, então eu tinha muita facilidade para andar, porque andar era comigo. À noite, o nosso lazer era andar. Naquela época a gente já andava... Está gravando, é para dizer né? Andava atrás de empregada, essas coisas, porque naquela época eu… Os costumes eram bem mais moderados do que os atuais. 

A minha vida era isso aí. Estudava de noite, trabalhava de dia, ou não estudava de noite e trabalhava de dia, fazia essas coisas. (risos)

 

P/1 - Andava, né? (risos)

 

R - Andava à noite.

 

P/1 - Mas a casa que vocês moravam, que tinham tantos filhos, como era isso?

 

R – No início, antes de eu chegar, eu sei que eles tiveram mais dificuldades, mas quando eu já me entendia por gente, a gente já morava até em casas confortáveis. Meu pai era… Eu posso dizer que meu pai era classe de classe média baixa de Belo Horizonte. A gente morava em uma casa razoável, meu pai tinha motocicleta, o que era um status na época; uma certa época ele chegou a ter um carro de aluguel com motorista [em] que eu ficava trabalhando. Era uma fonte de renda paralela dele, então a gente foi caminhando aos pouquinhos assim, sabe? As casas eram confortáveis... Variou conforme o tempo, a gente tinha que mudar para uma casinha menor por alguma razão, mas de uma maneira geral eu morei bem.

 

P/1 - Você tem lembranças mais marcantes dessa sua infância, no bairro da Floresta?

 

R – Ah, eu tenho muitas lembranças, viu, menina? Nossa Senhora! Quando criança, eu tinha cinco ou seis anos, eu sofri um acidente muito grave, sabe? Tenho até hoje a cicatriz e o osso aberto aqui. Passei um longo tempo no hospital, eu não sei mais ou menos quanto, mas eu sei que estive assim, meio morre, não morre. Aí me recuperei e com isso eu fiquei meio protegido com um ano ou dois depois do acidente. Depois entrei na vida normal da casa.

Estudei no Grupo Escolar Barão de Macaúbas. Era um grupo escolar de classe média boa de Belo Horizonte, um grupo espetacular. Eu tive excelentes professores, acho que minha formação intelectual começou nesse grupo, e começou muito bem. É triste contar isso, menina! Porque eu estudava na escola pública e alguns amigos que não conseguiam estudar no grupo iam para a escola particular, chamada de PP - pagou, passou -, e era uma subclasse dos estudantes. Eu tinha orgulho de estudar no colégio, no grupo escolar Barão de Macaúbas. Com o tempo foi evoluindo e hoje é o contrário, né?

 

P/2 - É!

 

R – Quem estuda em escola pública se sente diminuído. Acho que isso é alguma coisa que a gente precisa consertar neste país. 

Estudar no grupo Barão de Macaúbas foi muito bom porque eu convivia com gente de um nível acima do meu, aprendi muita coisa. Tive muita inveja também, o pessoal tinha muita coisa que eu não tinha. Dinheiro para comprar merenda... Eu tinha que comprar pão com manteiga, tanto que eu tenho ódio de pão com manteiga hoje. A gente vive comendo pão…. Eu não como esse pão. Sem comer pão eu engordei muito, imagina se eu comesse. (risos)

Fomos levando a vida, fiz o ginásio e fiz o científico. Tive um fato muito marcante da minha vida, um professor que eu estou tentando me lembrar o nome dele porque ele merece ser citado. É o Pimenta. O professor Pimenta foi Reitor da Universidade de Minas Gerais e montou uma experiência espetacular chamada colégio universitário, que era um colégio que fazia só o terceiro ano do então curso científico - hoje é o terceiro ano do segundo grau -, muito voltado pra formar conceito na cabeça das pessoas, sem se preocupar com o fato numérico das ciências. E eu tive a oportunidade de frequentar esse colégio universitário, sabe? 

Esse colégio só funcionou durante três anos, quando chegou o pessoal da ditadura, do golpe militar. Eles perceberam que era uma experiência que gerava muita gente com vontade própria, então preferiam banir. E essa experiência foi muito importante pra mim. Eu considero que na minha vida, eu desenvolvi... Todo mundo é igualmente inteligente, mas você consegue utilizar melhor a sua inteligência na medida em que você consegue algumas regras e alguns macetes. No colégio universitário eu aprendia conceito, aprendia modelo mental, aprendia a raciocinar de maneira, vamos dizer, científica. Isto foi muito importante para mim. Tanto que entrar na universidade foi muito fácil para mim, eu fiz o tempo todo trabalhando em dois ou três empregos e fui um dos primeiros alunos. [Quando] eu me formei, se não me engano, eu era o terceiro ou quarto aluno da minha turma. E quando eu me formei eu já tinha alguns anos trabalhados. 

 

P/1 – Já tinha bastante experiência!

 

R – Bastante. Eu não preciso dizer como as coisas eram bem diferentes. Eu me formei… Eu me casei seis meses antes de me formar. Você já imaginou isso?

 

P/1 – (risos)

 

R – Era, uai, estava noivo. Era noivo ali perto, aquele negócio, um noivado de três anos. Pensa bem: você ficar noivo três anos, a noiva vai casar virgem, aquele trem. Isso era um problema sério. Vocês não conhecem, não sabem o que é a vida, moçada. Olha, a minha geração abriu a porta para a sua. Casei seis meses antes de me formar porque não dava mais para aguentar, né? (risos).

 

P/2 – (risos)

 

R – Um ano depois de casado nasceu nosso primeiro filho. Aí iniciamos uma carreira, que foi a minha carreira já como engenheiro. Na verdade, dois anos antes de eu me formar eu já estava ocupando função gerencial, já trabalhava como engenheiro. Quando eu me formei já tinha um emprego, a minha média de salário era acima da média da minha turma. Eu fiz um concurso para a Usiminas, fui chamado, não deu para ir...

 

P/1 - Qual a faculdade que...

 

R – Eu me formei no Instituto Politécnico da Universidade Católica de Minas Gerais, que hoje chama PUC Minas. Na época, era isso.

 

P/1 - Qual o curso?

 

R – Eu sou Engenheiro Mecânico, dos bons, daqueles que conseguem enxergar o contexto todo da engenharia. (risos)

 

P/1 - Vamos voltar só um pouquinho?

 

R – Vamos.

 

P/1 – Porque a opção pela Engenharia?

 

R – Olha... O sonho do meu pai era que eu fosse engenheiro. Para o meu pai, ser engenheiro significa ser engenheiro civil. E eu queria ser engenheiro, mas o meu raciocínio é voltado todo para a mecânica. Na minha juventude, o sonho era ter um carro. E ter um carro podia ser coisa do tipo “eu compro todas as peças num ferro velho e monto o carro eu mesmo, eu vou ter um carro!” E isso já era um big de um status. Não era como hoje, para ter um carro você vai na Audi e compra, era diferente. Até pelo poder aquisitivo que a gente tinha. Então essa conversa de carro sempre me atraiu muito, mecânica. E eu acabei decidindo ser engenheiro mecânico porque eu queria mexer muito com hidráulica. Aliás, mexi durante alguns anos. Eu fui ser engenheiro mecânico por isso, porque gostava de automóveis e porque eu queria mexer com hidráulica.

 

P/1 - No caso, como você já trabalhava enquanto estudava, o campo profissional também já se delineava? Você já vislumbrava um bom futuro profissional na engenharia mecânica?

 

R – Na engenharia mecânica, sim. Quando eu entrei para a escola - se não me engano eu entrei em 68 ou 69 para a escola -, o Brasil estava começando a deslanchar no campo industrial, tinha pouca mais de dez anos que tinha começado a indústria automobilística no Brasil. Estava começando a política de substituição de importações, e engenheiro mecânico e engenheiro eletricista era uma moeda raríssima neste país. Nós éramos muito disputados, então teve mais esta coisa. A minha questão de sobrevivência era fundamental para mim, nesta época, então isto também influenciou muito. Eu percebi que nesta carreira eu tinha muita... E também um pouco pra fugir do meu pai, que era reformar a casa sem ganhar dinheiro. “Eu vou ser engenheiro mecânico, vou trabalhar numa grande indústria, vou ganhar um big de um salário, vou ganhar três mil dólares por mês.” Foi aquele sonho, na época era um bom negócio.

 

P/1 - E esse período de faculdade, também trabalhando, dava tempo para se divertir?

 

R – (risos) Olha, durante o meu tempo de faculdade eu me divertia muito pouco. Durante toda a minha vida eu me diverti muito pouco, eu precisava trabalhar. Eu trabalhava no Correio, nesta época eu trabalhava na central do telex e era regime contínuo, trabalhava sábado, domingo, todo dia. Quando eu passei no vestibular eu tive o direito de ir para o turno da noite, então eu trabalhava de segunda a segunda, de seis da tarde à meia-noite.

 

P/1 - E estudava que horas?

 

R – Estudava de manhã e durante o dia eu tinha outros empregos, por exemplo: eu trabalhava no SAMAE [Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgotos] de Contagem. O meu emprego no correio me possibilitava. Como eu era plantonista de central do telex eu ficava lá, tinha um operador. Quando dava algum defeito ele me chamava, quando não dava defeito eu ficava estudando, fazendo alguma coisa. Sábados e domingos, que eu não tinha aula, era para eu estudar mesmo, pôr a matéria em dia.

 

P/1 - E como você conheceu sua namorada, que depois veio a ser a sua esposa?

 

R – Isso aí são as armadilhas do destino, né? (risos)

Eu tive uma namorada durante uns seis anos e meio para sete; eu fui apaixonado por essa menina, sabe aquela paixão, assim de matar? Eu tive uma paixão assim, mas terrível. E essa menina não era tão apaixonada por mim, não. Ela até me namorou porque no meio da gente eu era um partido razoável e ela falou: “ Bom, esse aí pode ser o meu.” Mas não era assim aquela garra, sabe como é que é? Quando ela começou a ter uma garra comigo, aí eu falei: “Bom, agora já não está mais com nada.” Terminei com ela. Aí eu iniciei uma fase mais devassa, sabe? Estava começando a aparecer umas moças que tinham mais liberalidade no comportamento e eu falei: “ É comigo mesmo.”

 

P/1 - (riso)

 

P/2 - (risos) Aproveitou.

 

R – Eu era jovem nesta época. Neste contexto eu falei: “Não vou namorar ninguém firme, de jeito nenhum.” Um belo sábado… Pode entrar em detalhes?

 

P/1 – Por favor. (risos)

 

R – Um belo sábado, eu marquei um encontro com duas mocinhas, eu e um colega meu. Na época a gente chamava as meninas de galinhas, sabe? Eram umas meninas mais liberadas, a gente chamava de galinha.

 

P/1 – (riso)

 

R – (riso) Era um nome.

 

P/2 – Ainda hoje se chama. (risos)

 

R – Ainda hoje, né? (risos) E nós marcamos um encontro com duas galinhas num baile lá na Pampulha. Eu não diria com segundas, mas com terceiras intenções, né? E eu saí, me aprontei todo. Estava saindo de casa e minha mãe falou comigo: “Aonde é que você vai?” E eu falei: “Mãe eu vou a um baile lá na Pampulha e só chego de manhã.” E a minha mãe falou comigo: “Não, senhor. Hoje são bodas de prata do seu tio, você tem que passar lá na casa dele primeiro.” Falei: “Ô, mãe, não é possível.” 

As questões familiares para mim sempre foram muito importantes. Liguei para esse meu colega, que era quem tinha carro para ir, porque eu não tinha carro. Eu falei pra ele: “Vou ter que passar na festa na casa do meu tio e em meia hora eu encontro com você.” Saí correndo, fui na casa desse meu tio, tomei um copo de cerveja, abracei, cumprimentei, para...

 

P/1 – Tchau.

 

R – Tchau. Aí a minha prima, que era colega da minha atual esposa, falou assim: “Mas você vai embora sem nem dançar com ninguém?” Eu era um famoso pé de valsa na época. “Não vai dançar com ninguém?” E eu falei: “Ah, não. Eu estou meio com pressa.” “Você tem que dançar com alguém.” Aí eu olhei assim, sabe: “Deixa eu escolher alguém aqui para dançar.” A Luiza deu um sorriso na hora. Falei: “Que sorriso bonito dessa menina.” Eu falei para ela: “Minha filha, vamos dançar, ali que eu preciso depressa ir embora.” Ela falou: “Tá bom, vamos dançar depressa.”

 

P/1 - (risos)

 

R - (riso) Casei.

 

P/1 – Ê, danado, viu! Casou depressa! (risos)

 

R – Dancei. (risos) Eu não sabia que o dançar que ela queria, era o dançar segundo a interpretação do tempo. 

Foi isso aí, casei. Graças a Deus, estou muito feliz. Tem 28 anos que eu estou casado com ela, temos três filhos ótimos. Valeu a pena o casamento. 

Mas tem uma dificuldade: a primeira namorada, aquela tal, a paixão famosa fazia aniversário dia 24/04/47. E eu conheci a minha mulher dia 24/05 e ela faz aniversário dia 26/04/47, então quando eu confundo as datas de aniversário é uma briga. Esse problema eu poderia ter ajeitado isso melhor durante a vida. (risos). O pior é que eu confundo até hoje. 

 

P/2 - Mas ela sabe que a outra sabe?

 

R – Ela sabe, e quando eu confundo é porque ela sabe que eu estou pensando na outra.

 

P/2 - (risos)

 

R – (risos) Aí, você imagina.

 

P/2 –  Não tem jeito. (riso)

R - Não tem chance, eu gasto mais rosa do que a média dos casais por causa disso.

 

P/2 – Para apaziguar.

 

R - Para apaziguar.

 

P/1 - Então, Rigotto, você estava colocando a faculdade, a opção pela Engenharia Mecânica. No curso em si você foi encontrar aquilo o que você pretendia. E como você guiava o seu trabalho?

 

R – O curso me fez muito feliz, sabe? A nossa escola era nova, estava começando em Belo Horizonte, não tinha a fama que tinha a PUC aqui do Rio. Nós percebemos, os alunos, claramente que a gente precisava construir a fama da escola, até para a gente poder ter nome, então nós fizemos alguns pactos importantes. Primeiro, que os professores eram os mesmos, tanto da Federal quanto da Católica, então a gente fez um pacto de exigir dos professores um desempenho acima da outra. E fizemos um pacto entre nós de que não iria haver cola, que todo mundo iria se esforçar para que a turma fosse saindo e mostrando o real valor da escola. Isso encantou os professores, que passaram a se dedicar muito na escola. E nós fizemos, então, um curso muito bom. 

Eu gostava muito da escola. A maioria das cadeiras me encantou, eu estudava por gostar. Na verdade, o professor dava aula boa e eu aprendia na aula; isso me livrava muito de ter que estudar em casa, porque eu aprendia na própria aula, eu era um aluno aplicado. O fato de ter estudado num colégio universitário me deu uma base em física, química e matemática muito boa e isso me alavancou na escola, então eu fiz o curso com o pé nas costas. 

Tomei alguma dependência, alguma segunda época como era de se esperar. Mas eu estudei numa época que tinha um número de cadeiras a fazer por semestre, e se não passasse em todas você podia ter uma dependência, no máximo duas. Tinha que fazer as outras todas mais aquelas duas, senão você era jubilado. Era um regime menos democrático do hoje, né? Mesmo assim, eu fiz o curso com facilidade.

Minha turma é espetacular até hoje a gente se encontra. Quando nós fizemos 25 anos de formados, juntamos um grupo, fomos doze casais para Cancún, uma semana juntos, você imagina bem! Aquele bando de velhos de cabeça branca volta todo à idade da escola, né? Com os conceitos, as esposas são muito amigas. Fazemos esses encontros, esse de Cancún foi muito bom, e ao longo de cada ano a gente se encontra. Com maior ou menor pompa, mas ele tem se encontrado esses anos todos e isso tem sido muito gratificante. Depois que você passou cinco anos estudando junto - tem 28 anos nosso formando - a gente vai virando quase que irmão e um ajuda o outro, o outro ajuda o um, e vamos em frente. Tem sido muito bom. 

A minha faculdade, a minha escola, foi inclusive base de muita amizade até hoje é muito representativa na minha vida. Eu tive alguns amigos que me ajudaram nas dificuldades financeiras. Eu era o pobrezinho da turma; a minha escola era de rico e eu era o pobre. Eu era um dos poucos alunos na sala que não tinha carro próprio, então muita gente me dava carona; quando eu era obrigado a dar um cheque sem fundo para pagar a mensalidade, fazer a prova final, alguns me socorriam. Isso criou uma teia, né? Meus colegas de turma, alguns hoje são brilhantes, muito importantes; eu tenho… A minha turma deu alguns executivos importantes. Se você for aí na Fiat, General Motors e na Ford, você vai encontrar com colegas meus de turma que estão em posição importante. Alguns estão na Itália, outros nos Estados Unidos, e estão muito bem. A minha turma foi uma que se destacou.

 

P/2 - Em que ano vocês se formaram?

 

R - Nós nos formamos em 72, nossa turma é a turma de dezembro de 72. E ainda tem um detalhezinho que eu faço questão de dizer nesta entrevista! Eu estudei numa Universidade Católica que tinha como objetivo formar engenheiros com uma visão humanista da profissão, então do primeiro ao quinto ano nós tivemos aula do tipo Iniciação Filosófica, Iniciação Religiosa, Cultura Religiosa, Filosofia. E até por coincidência eu fui monitor de umas quatro ou cinco cadeiras dessas; com a monitoria eu paguei algumas mensalidades e me orgulho muito de ter sido monitor dessas cadeiras. Apesar de eu ser engenheiro eu tenho um lado filosófico meio zen. Hoje eles chamam de zen, né? Eu sou meio zen.

 

P/2- Nessa época da universidade o senhor já trabalhava nos Correios?

 

R – Eu trabalhei no Correio até 1971, mas eu tinha que trabalhar porque o salário do Correio não dava para pagar a escola, então eu trabalhava no Correio e eu trabalhava também no Serviço de Águas e Esgotos de Contagem - uma cidade próxima de Belo Horizonte, que estava construindo um sistema de abastecimento de água. Entrei como estagiário, fui subindo e virei o chefe de divisão técnica lá. 

Eu trabalhava de dia, estudava de manhã, de dia no SAMAE e de noite no Correio. Um belo dia lá, eu estava mostrando para os empreiteiros uma obra que eles iam fazer e eu saí do ar, sabe quando você apaga? Eu dormia em média duas ou três horas por noite e achava isso uma beleza. Aí desligou, cortou um fusível aqui dentro. Eles me acharam sentado na beira de um córrego, dizem que mais de uma hora depois. 

Essa hora da minha vida é um lapso que não posso te contar o que aconteceu. Eu cheguei em casa… Eu já estava noivo preste a me casar, a gente já estava comprando os móveis e eu falei para ela: “Olha, eu dei uma desmaiada hoje.” Ela falou assim: “Do jeito que você está dormindo...” 

Às vezes a minha noite de dormir era na casa dela. Eu saía do SAMAE, chegava na casa dela umas sete horas, punha a cabeça no colo dela, dormia até às onze e ia às onze trabalhar. Às vezes trabalhava a noite inteira no Correio, quando eu estava no turno da madrugada - nos últimos anos de Correio eu passei para o turno da madrugada. Era um outro direito que tinha no Correio. Se eu chegava e tinha serviço eu trabalhava a noite toda, de manhã eu ia para a aula, e naquele ritmo você vai levando. Jovem, faço qualquer besteira que você quiser.

Esse dia eu apaguei, aí eu falei: “Opa, está na hora de acender uma luzinha aqui.” O emprego do Correio estava ficando tão pequeno em relação a minha função no SAMAE e à minha possibilidade profissional que eu pedi exoneração. Meu pai quase teve um filho, né? Porque pro meu pai um emprego público federal, no qual você não morre de fome nunca, mas também não come empada, e se comer empada é sem azeitona...

 

P/2 - (risos)

 

R - ... como é que eu ia abandonar um negócio daquele, a segurança daquele emprego? Foi uma revolta na minha casa. E eu falei: “Pai, esse Correio está me matando.” 

 

P/1- Não era mais compensador?

 

R – Não era mais. Pedi exoneração e pedi para aguardar em licença. Saí do Correio e pronto. Foi uma das coisas acertadas que eu fiz na minha vida, porque eu nunca serviria para ser funcionário público, de jeito nenhum. Tanto que logo em seguida eles acabaram com o Correio, fizeram uma Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, mudou tudo.

 

P/1- Você já atuava mais como engenheiro?

 

R – Eu já atuava como engenheiro. A partir do terceiro ano de escola eu comecei a atuar como engenheiro. Eu tenho uma autoconfiança muito grande, não sei se é defeito ou qualidade, mas eu tenho. Isso me levou a ir assumindo as responsabilidades de ir fazendo as coisas, o sistema funcionou bonitinho.

 

P/1- Como era esse deslocamento?

 

R – (riso) Eu fazia de tudo o que você quisesse, menina. Nossa Senhora! Lá no SAMAE, numa certa época, eu já tinha direito a carro para trabalhar. Então o carro ia me pegar lá em casa e me dava carona até a escola. E eu saía do SAMAE e passava na escola à noite para estudar. Depois eu comprei uma Vemaguet velha, comprei uma Vemague que eu adorava, chamava-se Cordélia Brasil...

 

P/1- (riso)

 

R -... a desejada das gentes. A Cordélia era um carro maravilhoso. Eu tinha uma Vemaguet 61, menina. Isso foi em 68, 69. Não mais tarde, 69 para 70, eu comprei uma Vemaguet. Ótima, a Vemaguet. Meu irmão ficou com ela só cinco anos, estava jóia, novinha. Na época, era um negócio assim. 

Eu ter um carro foi um marco importante da minha vida. Quando meu pai me ajudou a comprar um carro eu tinha 1400 cruzeiros, meu pai me emprestou 550 e eu fiquei devendo oitocentos para o meu irmão. Paguei em dezoito prestações de não sei quanto. Mas [com] minha Vemaguet também eu não podia andar muito porque ela gastava gasolina, e como é que põe gasolina naquele tanque? Então às vezes eu tinha um sistema de rodízio com os meus colegas, eu fui me virando. Na época eu não adotei a motocicleta, apesar de ser filho de motoqueiro - meu pai é motociclista até hoje.

 

P/1 - Até hoje?

 

R – Até hoje, com 87 anos ele anda de motocicleta. Eu não considerei a motocicleta um transporte bom para a cidade, não, então eu fui me virando desse jeito. Eu andava muito de ônibus, para casar eu vendi a minha Vemaguet para comprar um dormitório e uma geladeira. Casamos andando de ônibus, era um caso sério. Depois, com os primeiros salários eu comprei um carro. 

Ainda teve um lance interessante. Esse lance de Colatina... Eu estava trabalhando no serviço de água e aí entrou para prefeito de Contagem um cara chamado Nilton Cardoso. E o cara é um... Realmente, eu não vou contar as coisas dele nesta entrevista porque ele já é acusado, eu preferiria não fazer acusações aqui. Mas eu percebi que não ia ser possível a minha convivência com ele, ele era ligado praticamente ao prefeito nesta época. 

Eu já tinha ascendido lá dentro do serviço. Percebi que não ia dar para a gente trabalhar. Meu pai me botou os princípios que eu nunca quis abrir mão deles na vida, então preferi sair. Saí, fui trabalhar numa empreiteira de Belo Horizonte - nem consta aí no currículo porque foi pouco tempo. Fui fazer obra de arte em Belo Horizonte. Engenheiro mecânico fazendo obra de arte - [com] essas obras assim, bueiro, canal, ponte, essas coisas, engenheiro mecânico se dá muito bem porque a gente aprende a fazer um lote de cem mil peças. Se você economizar um centavo em uma peça, é vezes cem mil, então você cria essa mentalidade, numa obra civil você mantém a mentalidade e faz sucesso. Eu fiz muito sucesso numa obra em Belo Horizonte, essa tal empreiteira que está citada me chamou para ir para a Colatina para fazer a Variante de Colatina, porque eles estavam em dificuldades na obra exatamente na parte de obra de arte. Tinha muito bueiro, muita passagem inferior para construir e eles estavam em dificuldade. E eu me destaquei nisso lá em Belo Horizonte, então eles me convidaram para ir e ofereceram o dobro do meu salário.

 

P/1 - Qual era a empreiteira?

 

R - ABO Engenharia. Está anotado aí no currículo. 

Menina, nesse lance eu falei: "Vamos embora para Colatina do Espírito Santo.” A minha mulher, professora, abandonou tudo para acompanhar o marido, lógico. Já tínhamos o primeiro filho nesta época. 

Na despedida, antes de sair eu ia viajar numa segunda-feira para assumir a obra - aliás, numa quinta-feira para assumir a obra. No domingo, uns amigos meus fizeram uma despedida numa cidade próxima a Belo Horizonte, na volta; capotei com o carro e quebrei a perna. Aí passamos um período crítico de quarenta dias, que é uma fase marcante da minha vida, sabe? Não podia apoiar o pé no chão porque teve que operar para pôr um parafuso. Eu já tinha saído de um emprego, que por sinal não estava me pagando bem porque a empresa estava em dificuldades e eu estava indo para outro emprego. A empresa precisando de mim lá, e eu com a perna engessada até aqui. Cheguei [a ficar] 41 dias assim, depois de 41 dias eu fui embora na marra.

Comecei em Colatina com a perna engessada. Foi uma fase dificilzinha da minha vida, essa aí. Mas superamos e começamos a obra lá. Graças a Deus, conseguimos fazer a obra subir; a obra estava dando prejuízo e começou a dar lucro. 

Era um ano… Eu entrei lá em 73, em seguida foi 74, o ano do milagre brasileiro. Os bons profissionais foram muito concorridos no Brasil e eu fui um profissional muito concorrido naquela época. Passei por uma fase de remuneração muito boa e naquela época o brasileiro andou ganhando bem. O Delfim Netto, como homem da ditadura, fez uma série de coisas, mas essa coisa ele fez em benefício da minha geração. Ele gerou salários no Brasil, espantosos. Eu ganhava um salário que dificilmente um engenheiro com o tempo que o tinha de formado naquela época ganharia hoje. 

Fiquei em Colatina alguns anos - alguns anos, não; eu fiquei em Colatina acho que dois anos. Depois de Colatina eu falei: "Eu sou engenheiro mecânico, porque eu estou trabalhando de engenheiro civil?” Para você ver como sou besta, né? Eu abandonei o emprego na engenharia civil em 1975, onde eu ganhava muito dinheiro, muito mesmo. Eu tinha um salário destacado em relação a média e fui ser engenheiro mecânico na mineração para ganhar a metade. Minha mulher adorou a idéia, né? Imagina o que ela pensou?

 

P/1- Mas por quê?

 

R - Porque eu queria ser engenheiro mecânico. Eu sou engenheiro mecânico, por que eu iria trabalhar em engenharia civil? Embora estivesse tendo sucesso. 

Eu sou filho de pedreiro, então sempre convivi com obra civil. Com os conceitos de engenharia mecânica que eu tinha estava indo muito bem. Terraplanagem é mais manutenção do que tudo, manutenção de engenharia mecânica, então tinha toda a base para progredir. Eu tenha diversos colegas que permaneceram nesse campo até hoje. Alguns se deram bem, outros não, mas eu resolvi que o ia ser engenheiro mecânico, e trabalhar em engenharia mecânica. 

Trabalhei uns cinco anos em manutenção de mineração, foi aonde começou a minha ligação com mina. E depois de cinco anos eu percebi que as coisas que a gente recebia, os equipamentos prontos, eram muito mal projetados. Projeto no Brasil estava uma porcaria. O Brasil não tinha uma engenharia sólida com tecnologia consistente, e aí eu resolvi que eu ia trabalhar em engenharia mecânica na fase de projetos. Abandonei a mineração onde eu tinha big dum salário e fui trabalhar de novo na Usimec com um salariozinho desse tamanhinho. Nova briga com a minha mulher - briga não, minha mulher sempre me apoiou muito nesse ponto, mas ela reclamava, é lógico.

P/1- Essa firma de mineração, qual foi?

 

R – Chamava-se Itaminas Comércio de Minérios S/A. Era do Joãozinho do Nascimento Pires, o ex-dono do Banco Mineiro do Oeste. Vocês são novos, não conhecem essa história. O Banco Mineiro do Oeste o Delfim Netto tomou e deu para o Bradesco; de compensação para ele deu essas minerações. A ditadura no Brasil era um negócio arrumado, menina, ninguém se dava mal, não. 

Eu fui trabalhar lá com o senhor João. A mineração era desse tamanhozinho quando cheguei; cresceu, eu tive oportunidade de evoluir lá. O [Ricardo] Dequech, que esteve aqui com vocês, também trabalhou nessa mineração, até por convite meu, na época. Foi onde eu conheci o Dequech, para você vai ver como a Vale funciona. Você vai ver o desenrolar desta historinha aqui. 

Fiquei na Itaminas e resolvi trabalhar em engenharia de projetos, para arrumar esses projetos estava uma bagunça. Fui para a Usimec, que era o estado da arte em engenharia na época.

 

P/1 – Onde era a Usimec?

 

R – A Usimec era a Usiminas Mecânica S/A, uma empresa estatal, ligada à Usiminas só para fazer equipamentos siderúrgicos, para desenvolver o Brasil do milagre brasileiro. 

O milagre brasileiro já estava começando a terminar; isso foi em 79, 80, por aí. O povo brasileiro já não estava mais aceitando a ditadura, a realidade daquela política econômica já estava acabando, o mundo todo se globalizando e o Brasil num atraso danado. As estatais perdendo o gás e a Usimec era uma estatal que também estava perdendo o gás. Eu trabalhei lá durante uns dois anos e eu te diria aqui até tive sucesso nesse campo, mas eu estava numa empresa estatal decadente, já estava sobre a preocupação do governo de reduzir a injeção de dinheiro público na estatal. Eu falei: "Gente, o que é que eu estou fazendo aqui? Eu vou pular fora.” 

Saí dessa empresa de projetos e fui para uma empresa americana ligada à Bethlem. A Bethlem americana tinha uma empresa no Brasil que se chamava Amp, que era uma empresa de projetos. Trabalhei nessa empresa uns seis meses e estava até muito bom porque tinha os projetos interessantes que dava para a gente crescer na empresa. Subitamente, o destino dá uns golpes na sua vida. O destino me deu um golpe, minha filha estava numa fase crítica, eu estava precisando muito de dinheiro nesta época. A minha mulher tinha que fazer tricô em casa para sustentar a família porque a Alessandra estava consumindo todo o recurso com um médico, remédio, fisioterapia, TO. Eu, nesta época, dava aula numa universidade à noite para melhorar a renda e de dia eu trabalhava na Amp. 

Quando saí da Usimec… Lá tem uma entrevista de saída com o psicólogo. O psicólogo quer saber por que você quer sair da empresa e ele falou: "Por que você quer sair? Está todo o mundo doido para ficar no emprego.” E eu falei: "Não adianta ficar no emprego, eu quero um emprego que me garanta o futuro, eu vou sair.” Ele colheu mais ou menos o meu currículo, viu o que eu tinha feito, a minha experiência. Eu tinha trabalhado em mineração, e contei isso para ele. Trabalhei seis meses na Amp. 

A esposa dele era psicóloga da Acesita [Companhia Siderúrgica de Aços Especiais de Itabira] e estava brigando com o cara da mineração da Acesita porque ele queria um engenheiro de minas que tivesse um monte de propriedades: que soubesse fazer planejamento de mina, manutenção de equipamento, manutenção de usina, pequenos projetos etc. Ela não conseguia arrumar um profissional engenheiro de minas que o atendesse e comentou com o marido dela que precisava porque ela estava em aperto, o César estava pressionando. Ele falou: "Como é o profissional que você está precisando?” E ela falou: "Tem que ser um profissional que saiba fazer isso, isso e isso.” Ele falou: “Olha, saiu um cara da Usimec uns tempos atrás, até me chamou a atenção porque ele pediu demissão e eu acho que eu até tenho telefone dele lá. Esse cara parece que atende tudo isso que você quer.” 

Ela ligou para mim e falou: "Olha, eu estou precisando de um profissional que saiba fazer isso, isso e isso. Um engenheiro de minas.” E eu falei: "Minha filha, isso tudo o que você falou... Eu sou o cara ideal para essa posição, só que eu não sou engenheiro de minas, não. Eu sou engenheiro mecânico.” E ela falou: "Ah, meu Deus. É isso!” 

Foi um alívio para ela. Ligou para o César, o que veio a ser meu chefe depois, e falou: "César, você está reclamando comigo, mas você é que não soube especificar. O profissional que você quer é um engenheiro mecânico, não é engenheiro de minas. Eu achei um que tem tudo o que você quer, mas é engenheiro mecânico.” Aí, o César que é um bom engenheiro de minas falou: "Que engenheiro mecânico sabe fazer planejamento de lavra?" Ela falou: "Esse cara disse que era ótimo para esta função.” “Manda ele aqui para fazer uma entrevista comigo.” 

O César me chamou lá - depois ele me confessou isso, hoje nós somos bons amigos -  só para me dar um carão. Como é que eu, um engenheiro mecânico, me metia a fazer planejamento de lavras? Ele me chamou para uma entrevista e foi me encostar no canto com o planejamento de lavras. Se deu mal porque eu estudei muito o planejamento de lavra por causa da Itaminas. (risos) Tudo o que ele perguntava eu sabia e no final ele falou assim: "E você sabe fazer manutenção de equipamentos?” Eu falei: "Bom, esse é o meu forte.” E ele falou: "Então eu vou ter que contratar", e me contratou. Foi um lance interessante, porque ele falou para mim: "Eu te chamei aqui para te dar um carão, porque eu como engenheiro de minas achei um absurdo o cara se meter na minha profissão e falar que faz planejamento de lavra. E você me provou que podia fazer.” 

Comecei a trabalhar. Diz ele que aprendeu muito com o meu campo de manutenção de operação da mina, nós ficamos bons amigos e começamos a fazer as contas. Aí começa o pedaço da história que vai te interessar. A Acesita tinha uma mina entre as duas minas da Vale - a Vale tinha a mina do Cauê e a mina de Conceição. São dois morrões. A ligação entre esses dois morrões era uma sequência de minas, todas propriedades da Acesita. E Acesita lavrava lá, na época, umas oitocentas mil a um milhão de toneladas/ano, aquele monstro daquelas minas, com um custo operacional muito ruim porque não tinha escala. Não tinha a tecnologia, não podia investir porque a Acesita era uma siderúrgica, não tinha nada que estar investindo em minas. Era uma estatal que na época estava tentando se expandir, então o recurso que tinha para expandir era na usina, não era na mina. 

O volume de produção era insuficiente para dar uma escala na mina. A gente tentou desenvolver a mina mas não tinha muito o que fazer, porque o transporte era da Vale, então a gente ficava meio amarrado. Fizemos as contas, consideramos que o juro que Acesita estava pagando sobre o débito dela, consideramos o valor que você poderia vender as duas minas para o Vale do Rio Doce - a Acesita ganhava muito dinheiro se vendesse a mina para a Vale. Aí o César falou: "Rapaz, você veio aqui para bagunçar o meu negócio!" Eu falei: "Ô, César, essa é a realidade que tem, isso tudo está errado.” 

Fomos lá conversar com a diretoria da Acesita e expusemos o assunto. Tinha um tal de major - não sei qual a patente dele, para mim todas as patentes militares são iguais. Eu acho que ele era coronel, general. Não sei. Gilberto, sabe? Tinha sido nomeado lá. Ele gostou da ideia e propôs à Vale a venda da mina. A Vale topou a venda depois de uma longa negociação, naquela época era muito comum as estatais terem uma preocupação social muito forte. Um dos quesitos para venda era a de que a Vale absorvesse todos os não aposentados da mina da Acesita. Como eu era não aposentando, eu foi absorvido na Vale.

 

P/1 - Em que ano?

 

R - Isso foi 1982. Absorvido na Vale, aconteceram uma série de coisas. Tem um fato que eu gostaria de contar aqui. A Acesita tinha uma usinazinha que beneficiava o minério de ferro. Ela era ridiculamente pequena em relação às estações da Vale, que eram enormes, tinha um corpo de engenheiros mecânicos especializados em cada área. A mina da Acesita era desse tamanho; a reserva era grande, mas o trabalho de extração era pequeninissímo, era ridículo. E a gente fazia algumas trocas de minério com a Vale, a gente produzia muito mais sinter feed do que a gente precisava, e produzia muito menos natural pellet do que a gente precisava. Então a gente trocava sinter feed por natural pellet com a Vale. A Vale precisava do nosso sinter feed pra corrigir os teores dela. 

Era uma relação de dupla troca que existia, a Vale com a pata de elefante dela em cima porque ela estava com o poder econômico. E a reação dos funcionários da Acesita com a Vale era uma relação humana, mas não muito amigável. O pessoal da Vale olhava para a gente com certo desprezo e a gente olhava para Vale como quem diz: "Se eu tivesse esse tamanho faria melhor.” Isso é normal, quem não é o maior tem que ser o melhor e vice-versa. 

Você pegou essa propaganda do elefante da Cica?

 

P/2- Ah, não peguei, não. (risos)

 

P/1- Eu peguei. (risos)

 

R – Então, a relação era meio esquisita assim. Tinha um britador nosso lá, um britador cônico, um belo dia ele deu um defeito no eixo. Eu mandei desmontar o britador e o reparo no britador era aparentemente simples, mas não dava para fazer na nossa oficina. A Vale do Rio Doce tinha uma imensa de uma oficina, então eu fui lá e conversei com o Zé Wilson, que era o chefe da manutenção, o chefe da oficina, e falei: "Zé Wilson, eu estou com esse eixo assim, assim, assado. Eu preciso fazer um enchimento na chaveta e fazer um _______. Você faz para mim?” Ele falou: "Minha oficina está superlotada. Eu vou fazer se for um negócio pequeno; se for muito grande, não posso fazer, não.” E eu falei: "É uma coisa pequena. O senhor encarregado falou que em duas, três horas, ele faz.” Aí ele autorizou fazer. Fez - isso era uma sexta-feira - e o meu pessoal ficou de pegar na sexta-feira o eixo e montar durante a noite, para no sábado de manhã estar rodando. 

Eu levantei sábado bem cedinho para saber como é que estava e não tinha saído o eixo da oficina, aí eu fui lá na oficina da Vale para ver o que aconteceu. Eu tinha a entrada lá como trocador de minério e usei a minha função de trocador de minério para chegar na oficina. Era um negócio meio maroto, mas eu estava defendendo a minha empresa. Entrei, peguei o encarregado e ele falou: "Olha, na hora que eu soltei o cone eu vi que o trabalho é muito maior. Então eu estava esperando, porque vai gastar muito mais, você vai ter que pagar mais, e eu quero ver se pode fazer.” Eu falei:" Pode fazer, que eu estou precisando desse eixo, eu quero é pressa nele.” Nessa hora chegou o Zé Wilson, o chefe da oficina, e falou: "Espera aí, o que que é isso? Você está invadindo a minha oficina. Eu autorizei a fazer isso se fosse serviço de duas a três horas. Esse serviço você pode tirar daqui e leva para sua oficina lá em Acesita, lá em Timóteo, que eu não vou fazer isso aqui não.” 

Eu fiquei naquela situação. Acabei atirando o eixo de lá, tive que mandar para Timóteo e demorou dois dias para voltar. Passou-se. Mas aí eu fui transferido para a Vale alguns meses depois disso e foram discutir onde iriam me colocar lá em Itabira. Eu era um cara que já tinha mexido em todos os setores da mineração, então horizontalmente eu era muito amplo, mas em termos de profundidade, eu respeitava profundamente cada um dos engenheiros da Vale. Por exemplo, o engenheiro de escavadeira da Vale era muito melhor do que eu em escavadeira. O engenheiro de britador da Vale era muito melhor do que eu em britador. O engenheiro de bombas da Vale era muito melhor do que eu em bombas. Mas nos outros campos, onde eles não eram especialistas, eu era melhor do que eles. 

Isso foi um problema sério, porque eu não tinha nenhuma especialização. O Zé Wilson é um cara muito sério, muito positivo. Eu acho inclusive [que] quis me ajudar muito, me colocou num estágio para eu percorrer todos os setores para eu ter uma visão geral do que era a Vale, das necessidades, e depois ele iria me colocar dando férias para o pessoal dele. Cada engenheiro dele que entrasse de férias eu ia substituir durante as férias. Era uma funçãozinha assim, arranjada, porque ele não me contratou, eu fui cair no colo dele transferido da Acesita, né? 

Aí o Schettino, então diretor de operações da Vale, resolveu que estava na hora de mandar um engenheiro de manutenção para Carajás para ajudar o Mozart. O Mozart era um engenheiro de minas, foi para Carajás para operação e estava tendo muita dificuldade lá com os equipamentos, com a usina-piloto e pediu um engenheiro de manutenção; o Schettino mandou escolher um de Itabira e levar. Carajás na época era aquele negócio, era mato mesmo, lá no meio da selva. Você chegava lá de avião [em] campo de cascalho; tinha malária, isolamento, não tinha nem televisão lá. Os engenheiros de Itabira começaram a refugar para ir para lá. (riso) Todos os especialistas não queriam ir, aí o Schettino mandou oferecer um nível bem elevado salarial, para que algum daqueles topassem. Mas todos estavam esperando a xerifada para ver quem que ia ser xerifado. 

Nessas alturas, eu entrei neste contexto. Surgiu a grande sacada: o Zé Wilson, meio sem querer, meio querendo, ou não… Acabou que o meu nome surgiu como a alternativa para ir para Carajás, aí me perguntaram: “Você toparia ir para Carajás?.” E eu falei: "Olha, eu sou empregado. Eu vou para qualquer lugar.” E ele disse: “Mas eu soube que você tem uma filha problemática.” E eu disse: “Mas minha filha não é problema para mim, não. Minha filha é solução para mim.” Aí vincularam a hipótese. E o Schettino falou: "Mas ele não tem experiência de Vale, ele não tem know how Vale, ele não tem ‘cultura Vale’.” E isso gera meio problema porque o Mozart também não tinha muita cultura Vale, o Mozart era novo de Vale. 

Ficou aquela dúvida e foram discutir numa mesa. Um até falou assim: "Eu acho ele contra-aconselhado porque ele invadiu a oficina para consertar um eixo dele, quando ele estava na Acesita.” Aí alguém perguntou: "Peraí, como é que foi o negócio da invasão? E o outro falou: “Não, ele estava precisando de arrumar o eixo dele, aí ele veio aqui falou com o Zé Wilson que era um serviço de duas horas, mas o serviço não acabou, ele chegou aqui na oficina... Contaram o caso.” Aí o cara falou: " Peraí, nós estamos precisando em Carajás de um cara virador, mesmo. E esse cara está me parecendo virador, quem sabe ele vai?” Aí propuseram ao Schettino a minha ida. O Schettino falou: "Eu aceito que ele ir, mas ele não tem experiência de Vale, ele não vai com o salário que eu ofereci.” Era um nível que eu não me recordo mais; eu sei que era assim: na escala de um a cinco era escala dois. E ele falou: "Não, ele vai na escala um.” Aí o Mário Pierre, na época superintendente lá da mina me chamou e falou: "Você vai para Carajás, vê se dá para você ir para lá. Nós queremos que você primeiro olhe e vê se dá pra você ir porque se você decidir ir é definitivo, não tem volta de lá, não.” E eu falei: "Olha, eu não preciso de ir, não. Eu vou.” E ele respondeu: "Não, mas você vá lá e olhe.” 

Aí eu fui e olhei, passei uns quatro dias lá em Carajás. Serviu para Mozart me entrevistar, gostar de mim ou não, e graças a Deus o Mozart gostou, eu vi uma imensa de uma oportunidade. Eu vi duas oportunidades: a primeira em Carajás, a segunda no Mozart. Duas belas oportunidades que eu vi. Eu falo delas em seguida. Voltei, falei com Mário Pierre: “Eu vou, já conversei com a minha mulher e ela topa ir, agora eu até quero ir.” E ele falou: "É, mas o Schettino… Eu tenho um negócio para te falar.” Ele ficou muito constrangido para me falar: “Olha, você está sabendo que eles ofereceram o nível E-2, mas você vai com o nível E-1, porque você não tem experiência de Vale, é diferente dos engenheiros antigos aqui.” E eu falei: " Não tem problema não; o problema é seu, não é meu.” E ele falou: "Porque que o problema é meu?” E eu respondi: "Porque o que eu estou querendo não é o E-2, não. O que eu estou querendo é o E-5, o último da tabela. E sei que vou conseguir, então você é que vai ter problema de me pular esse primeiro aí. Não é meu problema não, o problema é seu.” E ele falou: "Então você aceita?” E eu falei: "Aceito sim, e você pode saber que eu estou olhando lá na frente.” E fui para Carajás. 

Eu vi duas grandes oportunidades em Carajás. Primeiro, Carajás era uma mina em construção, com a oportunidade de corrigir todos os erros que eventualmente você tivesse nas outras construções, que não tiveram a oportunidade aqui no sul de serem construídas planejadamente, como Carajás. Foram construídas mais ou menos numa evolução, num desenvolvimento sem o recurso financeiro que Carajás teve. Então Carajás foi a única mina do mundo construída assim: “Toma aqui um pacote de dinheiro e faça uma usina bem-feita.” E se fez isso com gente competente.

 

P/1 - E esses erros eram perceptíveis para você, independente...

 

R – Aqui em Itabira.

 

P/1 – Independente do seu pouco de Vale do Rio Doce.

 

R – Eram para todo mundo. E até porque eu era chefe de uma mina, em que eu pegava desde a escavadeira até o vagão, então eu enxergava o contexto inteiro. Em Itabira, quando cheguei durante o estágio, eu comecei a enxergar as coisas que não são produtos de nada errado de ninguém, não. É consequência de um desenvolvimento sofrido. No começo da Vale foi muito difícil, construir Itabira foi uma batalha, foi uma guerra aquilo ali. Os caras fizeram o melhor que podiam, foi uma coisa progressiva. Carajás, não, Carajás foi feito de puft. Num dia Carajás não produzia nada e no dia seguinte produzia quinze milhões de toneladas. 

 

P/1- Quer dizer, era mesmo o aproveitamento mesmo do know how?

 

R – Do know how. Houve um aproveitamento de know how, de tecnologia, de capacidade financeira, de um momento do país maravilhoso para aquilo. Eu vi ali a grande oportunidade. E outra oportunidade foi o Mozart, que era uma pessoa dez anos mais nova do que eu, um cara que se mostrou muito inteligente, esperto, com um espírito de equipe destacadíssimo, e eu falei: "Com esse cara eu me dou bem.” Falei com Mozart na entrevista: “Mozart, eu estou agarrado no seu pé. “ Ele falou: “Por que?” Eu falei: " Porque quanto mais você subir, mais eu vou subir com você. E estando no seu pé eu te ajudo a subir.” Ele falou:" Porque você está me falando isso?” Eu falei: "Porque eu sou dez anos mais velho que você, você pode me enxergar como um concorrente seu e me pifar na entrevista aqui.” Ele deu uma risadinha significativa e falou: “Você vai ficar aqui, sim.” E começou uma grande amizade. 

Hoje eu sou grande amigo do Mozart. Começou aí, na minha franqueza, e na franqueza dele. Nós sempre fomos muito francos, um ou outro. 

Voltei, arrumei os trapos e fomos para Carajás. 

 

P/1 - Foi uma odisseia?

 

R – Odisseia. Chegar em Carajás era uma luta. Você fazia Belo Horizonte/Brasília, de avião, Brasília/Belém, dormia em Belém, no dia seguinte você pegava Belém/Carajás num aviãozinho, num Bandeirante que te descia lá. Com os cachorrinhos, o papagaio, a gaiola e os filhos. 

E fomos. O meu filho mais velho ainda estava no primário, o mais novo ainda não estava na escola, e a Alessandra, é isso aí. Descemos em Belém, ficamos em Belém, dormimos na noite de Belém, era uma luta para dormir. Eu levei a empregadinha que havia conosco, não me lembro do nome dela hoje, mas era uma menina muito interessante, e fomos para Carajás. 

Chegando em Carajás, a minha mudança tinha ido de caminhão, ia demorar muito para chegar. Nós ficamos em uma casa que estava pronta, mas não era para a gente, era para o pessoal da obra. Eles puseram duas camas lá para a gente ficar. Comíamos no refeitório, ficamos lá uns quinze dias porque a mudança tinha chegado, mas a casa para descarregar a mudança não estava pronta.

 

P/1 - Mas, isso no núcleo urbano já, ou não?

 

R – Não, na vila.

P/1 - Em Carajás você chegou em 80?

 

R - Eu cheguei em 82 em Carajás, estavam começando a construir a vila.

 

P/1 - A vila provisória?

 

R - A vila provisória, que era de madeira, a vila N5.

 

P/2 - E tinha escola na vila?

 

R – Não, eles estavam acabando a construção da escola. Quando eu cheguei eu vi a construção terminar. Eu não interferi na construção da escola, no final da construção lá.

 

P/2 – Nesse meio tempo, seus filhos ficaram parados?

 

R – Não. Eu cheguei em setembro, outubro, a escola já estava na fase de começar. Estava chegando o pessoal, não tinha muita gente para ir. A escola estava inclusive funcionando provisoriamente num pedaço que já estava pronto, e eu te confesso que eu nem me lembro mais desse detalhe. 

Eu sei que o prédio do Seteco mesmo de madeira lá na vila já foi construído comigo lá, mas já funcionava a escola, tanto que os filhos do Mozart já estavam estudando lá. A Vanessa já estava estudando lá; o Iuri ainda não, mas a Vanessa já estudava. 

Chegamos, ficamos uns dias. A casa nossa ficou pronta, aprontaram a minha casa, as outras casas estavam todas em construção. Foi um período maravilhoso porque meus filhos estavam gozando de uma liberdade que nunca conheceram. Eram aquelas ruas imensas, não tinha tráfego, não tinha nada, então os meninos ficaram soltos. De vez em quando chegava um pintor lá em casa com o Fabrício amarelinho de tinta porque tinha entrado numa lata de tinta, sabe? O pintor falava: “O senhor passa aguarrás nele, tira a tinta aqui.” Quando ele chegava lá com um pacote de pregos na mão: “Pai, achei um pacote de pregos no meio da rua.” Era assim, sabe? 

Começamos em Carajás. No início éramos eu e o Mozart, e também tinha um outro engenheiro que morava lá, que era o Ricardo Antunes. O Ricardo Antunes era solteiro. Eu costumo falar que ele era meu filho, porque ele precisava de uma casa de família para ficar e ficou na minha. Ele morava no acampamento e ia muito lá para casa, onde tinha comida de casa, onde tinha lar, né? O Ricardo ficou muito lá em casa, muito tempo na casa. Influenciou muito meus filhos, me influenciou, e eu acho que também o influenciei também. Era uma convivência muito estreita, porque a gente trabalhava de dia e o resto era só conviver. Eu aprendi muita coisa com o Ricardo, é um cara de uma cultura fenomenal, já era naquela época, e acho também que contribui um pouco com ele. E aí fomos vivendo.

 

P/1 - E o corpo de engenheiros?

 

R - Na época era eu, o Mozart e o Ricardo.

 

P/1 - Apenas?

 

R – É. Tinha um tal de Joaquim, que era um cara do laboratório químico, mas ele não se ligou na equipe, não, sabe?

 

P/1 - Quer dizer que os restantes eram os empreiteiros?

 

R - Eram os empreiteiros e os engenheiros da obra.

 

P/1- E eram vocês que comandavam tudo aquilo?

 

R - Na verdade, o pessoal de obra tinha o poderio. Nós estávamos lá para fazer que o pessoal de obra se comportasse bem, para que não cometessem exageros, e garantir que as coisas iriam ser feitas da nossa maneira.

 

P/1- Vocês estavam como o pessoal de operação?

 

R - Nós éramos o pessoal de operação, havia duas superintendências.

 

P/1 - Explica, por favor.

 

R - Uma se chamava SUCAR, a Superintendência de Implantação do Projeto Carajás, e outra chamava-se SUNOR, Superintendência de Pré-Operação Norte. Nós éramos a Superintendência de Pré-Operação Norte, que veio a sumir, que é a Superintendência de Minas, e a Sucar foi extinta logo que terminou a obra. O pessoal da Sucar, que era o pessoal de obras, inclusive foi o que sofreu mais, porque eles chegaram e não tinha nem o começo da vila, eles chegaram sem família, sem nada. Formou-se dois grupos, um grupo de obras e um grupo de operação. A gente tinha interesses antagônicos, então naturalmente surgiram alguns atritos, que o Mozart soube administrar com muito cuidado.

 

P/1 - Mas porque interesses antagônicos?

 

R - O interesse do pessoal da obra era terminar o mais depressa possível, sem se preocupar muito com a possibilidade de funcionar ou não, porque o pessoal da manutenção chega e põe para funcionar. Nosso interesse era que ficasse o possível dentro da obra, e que investisse o mínimo possível porque a gente iria pagar na depreciação do investimento. Então o Mozart… Nós, como gente de obra, cortamos muito o excesso de investimento que tinha. O projeto foi feito sem muita noção do que precisava, então tinha uma certa gordura, que nós fomos cortando. 

É claro que o pessoal da Sucar, quando você falava: “Olha, eu não preciso construir isso”, o pessoal achava bom, né? Mas houve muita coisa. A gente queria assumir de uma vez assumir o tratamento de água; isso eles não aceitavam, achavam que a gente ia fazer pior do que eles. Depois, quando eles chegaram num caos, a gente acabou assumindo no caos. E havia interesses antagônicos que naturalmente existem, não pelas pessoas, mas pelo objetivo de cada um.

 

P/1 – As funções, né?

 

R – O pessoal de obras, como pessoas, eram muito boas. Eu gostava muito da turma toda, sabe? Inclusive, a convivência social era muito boa. 

Havia o objetivo de rodar em 84, em meados de 83. Esse objetivo foi cancelado porque o mercado deu uma baixa. Houve a primeira fase triste de Carajás, foi um tal de jacaré que aconteceu lá; houve muitas demissões porque houve muitas contratações em 82 para formar a equipe de obras. Quando reduziu o ritmo da obra, demitiu-se um volume muito grande de gente.

 

P/1 - Contratados pela própria Vale?

 

R - Pela própria Vale e pela Logos engenharia, que fornecia muita mão de obra lá. Houve muita demissão de gente da qual você já tinha se tornado um amigo e isso foi uma fase muito triste em Carajás. Viver naquele lugar, isolado, e ainda vendo gente saindo. Casa que antigamente tinha gente cuidando do jardim e agora não tem mais, porque foi embora. E o projeto, quando é que roda? Aquela incerteza no ar, foi uma fase difícil.

 

P/1 - E isso durou quanto tempo?

 

R - Durou um ano e pouco. No final de 84 eu já tinha a ordem que ia rodar em 85.

 

P/1 - Chegou a parar completamente?

 

R – Não parou. O ritmo de obra caiu, mas sempre manteve-se um certo ritmo de obra. Não saiu a turma toda, não. Houve uma redução substancial de pessoas, mas permaneceu um corpo técnico de obras, um corpo administrativo.

 

P/2 - Mas ainda existia a meta de concluir as obras?

 

R - A meta inicial era 84, que depois caiu. A meta foi para 86, depois ela voltou para o final de 85. Nós tivemos até um rush, durante 85 foi um ano de rush. Mas aí nós já estávamos com outro conceito: já estava acabando a fase da ditadura, a Vale do Rio Doce já estava caindo na sua realidade de empresa que buscava a sua própria rentabilidade, o projeto Carajás já estava sendo examinado com o aspecto crítico de um project finance, então as coisas já foram diferentes nessa retomada. Retomou-se, nós de operação tentamos nos ligar com o pessoal de obra para garantir o funcionamento na época certa. 

Havia uma brincadeira lá, eu não sei se ela era real ou não, mas ela merece ser citada aqui. O pessoal de obra costumava falar: “Obra não se acaba, obra se abandona.” Quando alguém abandona a obra, quem vai operar é que tem que terminar, sem estar aparelhado para isso. Nós tivemos muito trabalho com isso. A participação do Mozart, do Dequech, do Celísio, minha, do Marcone foi muito importante nessa época para garantir o final das obras. Tanto que terminada a fase um, nós resolvemos assumir a fazer dois e três pela operação e a Sucar pôde ser dispensada de lá. 

No final de julho de 85, a gente começou paulatinamente a assumir a obra. A obra teve alguns problemas sérios de engenharia que tiveram que ser resolvidos no corre-corre. No início da operação houve alguns problemas sérios de engenharia que aconteceram, o reservatório de água que não aguentou a pressão de água, mais não sei o quê. Nós tivemos que socorrer às pressas, fundação de britador que falhou. Socorremos e começamos a fazer o projeto partir.

 

P/1 - E esses problemas, seria possível se esperar de acontecer?

 

R – Não, houve algumas falhas técnicas de engenharia, mesmo. Uma das falhas foi nos silos de carregamento dos peneiramentos e britagens, parece que a Morrison _________ esqueceu de considerar o esforço horizontal do minério, sabe? A pressão horizontal do minério. E isso provocou um esforço de todos os silos depois de prontos, que ficou muito mais caro e dificílimo de fazer. Alguns reservatórios tinham erro de cálculo estrutural e aí caíram com a pressão de água, nós tivemos que recompor tudo. Mas superadas essas dificuldades, o projeto rodou muito bem. 

Em 86 nós começamos a montar a segunda fase, compramos 25 milhões de toneladas. Em 87 nós fizemos a terceira fase, uma fase de 35 milhões de toneladas. Em 88 nós estávamos caminhando para 35 milhões de toneladas. Aí já tinha mudado tudo, já existia núcleo, o núcleo já tinha Colégio Pitágoras, já tinha tudo isso aí. 

 

P/1 - Quando você fala a fase um, dois e três, é em relação à meta de produção?

 

R - É em relação a meta de produção. A fase um era de quinze milhões, a fase dois era de 25 e a fase três era de 35 milhões de toneladas, que era a última fase prevista do projeto, na época. Aí construímos o núcleo, começamos a colocar as primeiras coisas no núcleo; [as pessoas] se sentiram desterradas porque o centro era a vila, o núcleo era o desterro. Eu acho que nessa época eu tive um trabalho muito importante, porque os primeiros a ir para o núcleo foram da minha equipe de manutenção e a gente conseguiu colocar as pessoas lá, e conseguimos fazer com que ela se sentissem bem. 

Façamos a transferência da escola para lá, já entrou o Pitágoras. E aí eu quero abrir um parêntese: a minha mulher teve uma participação muito importante nesse processo, ela sempre foi muito preocupada com educação de nossos filhos e é educadora, então ela entrou no colégio logo que chegamos. Ela foi a primeira mulher de engenheiro a trabalhar. 

Quando nós chegamos havia um tabu que mulher de engenheiro não poderia trabalhar. Onde é que já se viu mulher de engenheiro trabalhar? Mulher de engenheiro era para ser dondoca. Ela nunca aceitou ser dondoca, então ela quis trabalhar e eu rompi algumas barreiras - eu estou dizendo uma coisa meio egoísta, meio centrista, mas foi mesmo. Eu andei dando até alguns empurrões, entre aspas, lá. Precisei dar alguns empurrões para abrir oportunidades para as mulheres dos engenheiros trabalharem lá. Eles preferiam trazer mulher de fora do que usar as mulheres dos engenheiros. Uma mentalidade estúpida - eu não sei de quem, não convém falar aqui. Só para você ter uma ideia, todas as pessoas de fora que eram contratadas para a escola tinham um adicional de 25%. Como a minha mulher era contratada lá, ela não pôde ter um adicional de 25%. Toda a vida ela reclamou esses 25%, até hoje ela reclama. Você conversa com ela aqui e agora, ela vai reclamar.

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - María Luisa. Ela tem uma revolta disso até hoje, mas mesmo assim ela teve uma atividade muito importante lá, porque puxou o nível de qualidade da escola e exigiu. No início, lá na vila, a escola era um colégio do estado do Pará, chamava-se CETEP - Colégio Técnico Estadual do Pará, Centro Técnico de Estudo do Pará, alguma coisa assim. Esse CETEP trouxe alguns professores do Pará, mas ela interferiu e através do Mozart e de mim que todo mundo que estava lá e tinha o poder, nós começamos a pressionar a qualidade do ensino. Eles trouxeram uma série de pessoas de Minas, do Rio de Janeiro e de São Paulo, e trouxeram o Pitágoras como fornecedor de tecnologia pedagógica. Isso aí garantiu um ensino naqueles primeiros anos de boa qualidade. 

Quando foi no núcleo, o colégio já construído de alvenaria, houve uma pressão muito grande para se contratar uma entidade mais forte. O CETEP já estava entrando em fase de degeneração e nós sugerimos uma concorrência. Houve uma pressão muito grande para ser o Pitágoras de Minas, porque a gente tinha muita ligação com Minas, a maioria das pessoas era de Minas. O Pitágoras foi e a Luiza entrou no Pitágoras desde o início, houve inclusive um upgrade na qualidade do ensino lá. O ensino nessa época de Carajás foi muito bom; meu filho saiu de Carajás, fez vestibular e passou direto. O segundo filho meu, que estudou lá grande parte da vida, complementou os estudos lá no Vale do Aço, passou na Getúlio Vargas em terceiro lugar em São Paulo. 

O ensino de Carajás foi referência naquela fase. Hoje eu não sei como é que está, mas naquela época era muito referência. Assim como o hospital também, o Mozart tomou muito cuidado com isso, para conseguir atrair e reter talentos lá.

 

P/1 - Com a família chegando, numa vila provisória, e essa convivência com pessoas das mais diversas partes do país. Como foi isso?

 

R – Olha, é uma experiência espetacular e fascinante. Em alguns momentos a gente chorava, sabe? Teve momentos duros e difíceis, e esses eu estou preferindo esquecer. Uma vez, puseram uma cama para a Alessandra dormir. Ss ripas da cama eram tão distantes uma da outra e o colchão era só espuminha de borracha; ela passou entre duas ripas e caiu no chão. E eu e a Luiza muito cansados, só vimos de manhã que ela estava dormindo no chão. (risos) Ela até gostou e passou a dormir no chão naqueles dias que nós ficamos naquela casa, até a nossa mudança chegar. No dia disso a gente chorou um pouco, sabe? 

Mas conviver com as pessoas, gente de todo lugar… Como eu fui o primeiro lá a ter casa e uma família mais estabilizada, o Mozart sempre pediu para eu promover a recepção das pessoas. E eu tive oportunidade, a maioria das pessoas na fase inicial fui eu que contratei. Eu vinha aqui no Sul, pegava os currículos, entrevistava as pessoas e levava para Carajás, aí eu chamava a mim a responsabilidade [de] adaptá-los lá. Colocava o cara no acampamento, no hotel; quando a família dele chegava eu dava assistência, aquele negócio de arrumar mamadeira para o menino, uma fralda que faltou, essas coisas. Da minha casa a gente fez um certo suporte para isso, com isso nós granjeamos muitas amizades em Carajás. Todo mundo que chegou em Carajás, de uma maneira ou de outra, recebeu alguma forma de apoio nossa, principalmente da minha mulher, e nós somos gratos por isso. Isso foi uma coisa muito boa de Carajás. 

Alguns amigos, eu tive a oportunidade de chamar para Carajás o Dequech, o Thiers [Berzotti], que foi o meu amigo em Itabira. Quando o Thiers chegou eu tinha arrumado a casa dele toda, plantei até uma horta para ele. Ele ficou lá em casa uns dias, a casa dele ficou pronta, ele disse: “Eu não vou sair da sua casa, não. Está muito melhor ficar aqui do que na minha casa.” E isso criou um espírito muito bom na operação. A gente convivia muito bem, no clube a gente convivia. E eu gostava muito de festa, eu não sou frequentador de clube para nadar, nunca fiz esporte nenhum. Eu gostava muito era de baile para dançar. Eu sou um pé de valsa, eu danço muito bem, modéstia à parte. A modéstia é um defeito que eu já consegui eliminar dos meus. E nos bailes a gente convivia muito bem, tomava de vez em quando uns porres homéricos para comemorar, e fomos vivendo. 

Conseguimos vencer uma série de dificuldades de Carajás, diversos desafios que nos foram colocados. Superar essas dificuldades técnicas do projeto que sempre existem, foi também um desafio muito grande, nos realizou muito. E no grand finale, a minha saída de Carajás foi um pouco traumática. 

A minha mulher estava muito bem em Carajás. Gostava muito do emprego dela, já era quase diretora da escola. Era uma líder muito importante na escola e se sentia muito bem com isso, era uma professora respeitada. E o nível de educação estava muito bom, a gente sentia que os meninos estavam indo muito bem, o padrão de vida para os meninos era espetacular. 

A gente morava naquele núcleo, na fase maravilhosa do núcleo. Morávamos numa casa ótima em Carajás, a casa foi construída pelo Mozart e eu fui morar nela, então era uma casa sensacional. Isso tudo nos colocou num status que a gente estava tranquilo. 

Carajás era uma espécie de um casulo, sabe, é difícil sair do casulo. Tem gente que não consegue sair do casulo de Carajás. Tem gente que chega em Carajás e a gente vê de cara que não vai suportar e acaba indo embora, mas tem gente que se acomoda no casulo e fica. E com isso, eu decidi que ia me estabilizar mais uns tempos lá. 

Eu estava me sentindo muito bem, realizado profissionalmente, com sucesso; nossa equipe era muito boa e a gente tinha uma relação boa. Aí eu resolvi comprar uma fazenda. O Dequech já tinha comprado uma fazenda ali embaixo e eu resolvi que o ia comprar uma fazenda para usar as horas vagas. 

Numa bela sexta-feira, na hora do almoço, eu cheguei em casa e falei: “Luiza, me ofereceram uma fazenda que eu acho que interessa, vamos descer lá embaixo no Peba para você ver.” Montamos no meu carro, descemos lá no Peba correndo, voltamos um pouco atrasados e eu perdi um ônibus. E tinha um recado do Mozart para eu ligar para ele urgente. Aí eu liguei lá de casa para o Mozart, falei: “Mozart, o que é que houve?” Ele falou: “Rigotto, deu uma zebra lá no porto como o Júlio César.” O Júlio César era o meu colega da manutenção no porto. “O Júlio César morreu, destruiu um reclaimer, e você tem que ir para lá para apoiar o Pacheco urgente. Dá um jeito aí e vai depressa para lá.”  Eu nem fui trabalhar mais, só peguei a passagem, fiz uma malinha e fui para São Luís.

 

P/1 - E a fazenda?

 

R - A fazenda... Nunca mais se tocou no assunto, e o que é pior, a Luiza adorou a fazenda. (risos) Ficou para trás, a fazenda morreu aí. 

Fui para São Luís, [foi] uma catástrofe lá em São Luís, um negócio fantástico. Uma coisa que… Foi talvez a minha melhor experiência de vida, ver o que aconteceu lá com meu colega, o que ele fez com a atitude dele. A melhor coisa que tem é você aprender com o erro dos outros. Aprende com os seus, mas procure aprender com o dos outros, que é muito menos traumático.

 

P/1 - Mas o que que aconteceu?

 

R - Aconteceu o seguinte, essa é uma historinha que até vale a pena ser contada aqui. Menina, em Carajás tem muita história, eu vou te contar umas histórias engraçadas de Carajás, eu sou melhor contador.

 

P/1 – Vai para Carajás e depois...?

 

R – Depois não, depois eu entro só numa fase de... Vamos encerrar o período de carreira aí para eu te contar os causos lá de Carajás.

 

P/1 – Vou cobrar. (risos)

 

R – É... Os dois reclaimers, tanto de Carajás como o do porto, fabricados pela Zanini, estavam com alguns problemas de fabricação.

 

P/1- Reclaimer?

 

R – Reclaimer é aquela máquina que recupera o minério. Tem uma rodona na frente dela com uma porção de caçambas. Ela fica rodando, tirando o minério da pilha e jogando na correia. As duas máquinas vieram com alguns problemas que precisavam ser solucionados. Um deles era o problema dos pinos daqueles tirantes que sustentam aquela lança para frente. Nós discutimos muito a solução e percebemos que a solução era trocar as buchas por uma rótula SKF, ao invés de usar uma bucha meio rudimentar, usar uma rótula que era um rolamento bem mais sofisticado. Para isso você precisava apoiar a lança, desmontar a máquina toda e tirar os tirantes para trocar as rótulas. 

É um trabalho que nós planejamos lá em Carajás. Eu tinha uma equipe, a equipe planejou e executou o trabalho mais ou menos noventa dias. O Júlio César, esse meu colega, foi lá e acompanhou em diversos momentos do trabalho o que nós fazíamos. Inclusive levou uma cópia do nosso planejamento. Eu não sei por que cargas d'água o que aconteceu no porto… Eu, na época, honestamente, eu não freqüentava muito o porto. O Júlio resolveu fazer o planejamento sozinho, ele e o cara da Zanini. Ele com um supervisor que tinha trazido de Vitória e o cara da Zanini com uma cara de confiança dele de São Paulo.

 

P/1 - Zanini seria o quê?

 

R – Zanini era o fabricante do reclaimer que tinha a obrigação de dar a garantia e fazer, mas eles resolveram fazer juntos, os quatro, e fizeram isso. Posso tomar água?

 

P/1- Fica à vontade.

 

(PAUSA)

 

R – Eles resolveram fazer juntos o lance, só os quatro. E mais: o Júlio César… De uma certa maneira, a gente competia lá [no] norte. Tinha uma equipe do sul, o sistema sul e o sistema norte. O sistema norte estava tendo um sucesso danado, eles estavam conseguindo produtividade muito maior, e a gente estava muito orgulhoso disso. 

Lá entre nós a gente estava muito competitivo. O Júlio estava competindo, mas era uma competição saudável, sabe? Eu gostava muito do Júlio. Ele se hospedou na minha casa, eu meu hospedei na casa dele. O outro engenheiro de manutenção que tinha lá era Reinaldo, que hoje está na MRS; acho que vocês devem entrevistá-lo também. Foi uma pessoa muito competitiva, mas muito leal.

P/1 - Qual é o sobrenome dele?

 

R - Reinaldo Bastos, ele trabalha na MRS. Vocês não podem deixar de entrevistá-lo, não. Ele é um dos elementos mais importante das estradas de ferro de Carajás, ele é a própria história da estrada de ferro de Carajás. 

O Júlio resolveu, naquele processo de competição - isso é pressuposição minha, tá? Ele nunca me disse isso, é lógico, ele já morreu. Mas eu acho que ele resolveu mostrar que poderia fazer em muito menos tempo o mesmo trabalho e planejou para fazer [em] vinte dias. Com isso, ele planejou recursos diferentes do que eu utilizei. Ele, esse engenheiro da Zanini e os dois supervisores. Planejaram o negócio de uma maneira e foram executar. Por uma série de razões que você pode pegar por ação do acidente que eu deixei lá, eles cometeram alguns pequenos erros e um erro que foi fatal, sabe? 

Quando eles começaram a operação, a operação ia ser feita 24 horas por dia, e eu fiz em doze por dia. De noite eu não iria trabalhar num negócio perigoso daqueles, e ele resolveu trabalhar, bem iluminado, 24 horas. Ele começou, durante o dia ele chefiava, e botou o engenheiro Pedrini para trabalhar à noite. E deixou tarefas específicas para o Pedrini fazer à noite, que era cortar os dois tirantes e removê-los.

O Pedrini cortou o primeiro tirante, e na hora que ele cortou o primeiro tirante, a máquina deu um estalo muito grande. A máquina era muito grande, tinha 32 metros de altura, corresponde a um prédio de dez andares. Os caras estavam desenvolvendo uma máquina que pesava três mil toneladas. A máquina deu um estalo muito grande e o maçariqueiro assustou, o pessoal se assustou e o Pedrini falou: “Para, vamos rever o planejamento.” Parou, quis pegar o planejamento e rever, e não fez nada. 

Quando foi de manhã, o Júlio chegou e falou: “Pô, Pedrini, você não fez a sua parte, atrasou a obra.” Tinha um PERT/CPM do negócio. O Pedrini falou: "Olha, Júlio, eu estou achando que não está dando para fazer assim. Vai ser arriscado, lá na mina eles não fizeram assim.” O Júlio: “Pô, você é um frouxo” e deu uma esculhambação nele: “Vá para casa dormir, deixa que eu faço.” E mandou os caras fazerem. 

Tinha um engenheirinho lá, o Roosevelt, que falou: “Vá lá e corta aquele tirante.” E o Roosevelt: “Não, mas tem olhar primeiro. Eu vou arrumar não sei o que, vou posicionar o guindaste...” A coisa se arrastou até uma hora da tarde. Uma hora da tarde o Júlio chegou do almoço, subiu na máquina e falou: “Por que ainda não cortou?” E assim, arrogantemente, subiu para a última passarela, essa de 32 metros de altura - ele, o engenheiro da Zanini, o supervisor dele, e o supervisor da Zanini. Chegando lá, virou para o maçariqueiro e falou: “Você está no cinto de segurança, então parta esta merda que eu estou mandando!” O cara cortou. Quando o cara cortou, o tirante fez assim, deu uma chicotada, tirou tudo de cima do descolamento, a máquina colapsou, caiu toda, o Júlio caiu lá de cima. Ele morreu com perfuração do pulmão pelo fêmur. O fêmur perfurou o pulmão dele. Ele, o engenheiro da Zanini, os dois supervisores que estavam lá na passarela gritando e mandando, morreram os quatro. É o preço que a gente paga pela arrogância. 

Aprende com o erro deles, não aprende com o seu não, boba. Não erra, não. Não morre para aprender, não. Usa o erro dele.

Os operários que estavam na máquina, todos estavam com cinto de segurança. Nenhum mais morreu, embora alguns tenham ficado gravemente feridos. 

Nesse lance o Mozart falou: “Vai para lá e ajuda.” Eu cheguei lá no sábado, quando eu cheguei eram umas duas horas da manhã. No sábado de manhã nós levantamos, eu e o Marco Paulo lá de Itabira, que também chegou para socorrer. Nós chegamos, no café da manhã no hotel o jornal estava com a foto da máquina. Para nós, que montamos máquinas como aquela, foi um negócio, é como pegar todas as pesquisas que você já fez na sua vida e queimar. A mesma coisa. A hora que eu vi aquela máquina colapsada ali, eu falei: “Nossa Senhora!” 

Nesse contexto, as coisas evoluíram e surgiram duas soluções técnicas para resolver esse problema da máquina. Uma solução era contratar a empreiteira que ia fazer a recuperação da máquina a peso de ouro num momento grave para a Vale do Rio Doce. Outra solução era usar a equipe da casa, porque a Vale tem uma equipe muito boa, e tentar, usando recursos próprios, recursos de terceiros, fazer de uma maneira mais barata e mais rápida. O pessoal estava pedindo um ano para recuperar a máquina, para você ver a gravidade do assunto. 

Eu me enveredei por esse lado dessa solução, foi uma atitude estratégico-política muito arriscada. O Schettino falou comigo: “Olha, você está me propondo uma solução que é mais barata e mais conveniente do que a outra. Tão mais barata e conveniente, que eu sou obrigada a aceitá-la. Mas se der errado, o prejuízo é enorme. Aí eu vou te botar para fora daqui. Se der certo, você vai ser o melhor engenheiro de manutenção daqui.” Falei: “Ótimo, topo.” 

Fiz o negócio. Foi uma época meio conturbada, eu fui criticado pela decisão, mas encaramos com um espírito de equipe muito forte, e o que mais conduziu isso, e isso é outra coisa que você precisa aprender na sua vida, foi o seguinte: a equipe lá de Ponta da Madeira estava arrasada. O moral dos caras estava pior do que... O Pedrini só chorava, não fazia mais nada. O Roosevelt, coitado, estava em estado de choque, chegou até a ser internado. Os maçariqueiros, operadores, supervisores, a turma toda, a autoestima lá embaixo, mas muito lá embaixo. E aquela situação, o porto no sufoco, com um reclaimer só funcionando, atrasando e _____________. Aquela máquina toda desmontada, quem chegava lá na estrada via aquele troço catastrófico lá no chão. A máquina é imensa, sabe? 

Aí eu chamei a equipe toda. Antes de propor esta solução eu falei: “Olha, gente, nós temos dois caminhos: nós podemos aceitar essas propostas aí da PH ou da Eximbras e eles vêm cá e fazem e nós vamos ficar poleiro de pato para o resto da vida. Ou nós podemos nos encher de orgulho. Vamos bolar um plano, vamos usar a equipe CVRD e nós vamos recuperar essa máquina muito mais rápido, gastando muito menos e essa máquina ainda sai melhor. Eu quero que vocês pensem nisso. Vocês estão todos de moral baixa, porque ninguém vai entender que foi esse ou que foi aquele que errou. Foi a equipe de manutenção do porto que fez a merda, então está todo mundo com o nome ruim. Inclusive eu que estou pretendendo vir para cá se vocês toparem essa proposta.” O pessoal ficou muito down, eles não tinham muita coragem de assumir o desafio. Falei: “Olha, segunda-feira nós conversamos.” 

Fui para casa, não dormi, porque era uma responsabilidade muito grande. Na segunda-feira eu peguei os caras e andei dando uns tapas nuns, esses tapas de animar, sabe? Eu sou meio bruto: “Você é um homem ou rato, cara?” Aí uns mais atrevidos, mais arrojados, falaram: “Não, eu acho que o senhor está certo. Vamos fazer assim.” E aí deu certo. 

O Schettino acabou topando a ideia por essa razão que eu disse e nós pegamos para fazer a máquina. Foi um negócio maravilhoso, porque nós trouxemos gente de Carajás, gente de Itabira, gente de Vitória, gente de todo o lugar do Brasil que podia contribuir na recuperação da máquina. Aí começaram a surgir as ideias maravilhosas - a proposta do empreiteiro era tirar toda a lança da máquina, jogar fora e fazer uma nova. A proposta do nosso pessoal foi: “A parte traseira e a parte da ponta da lança, que são as partes difíceis e demoradas de fabricar estão intactas. É só tirar a parte do meio, que empenou toda, e substituir. Isso nós mandamos fazer uma parte aqui na ____.” “Mas como é que fica a tela de junção?” “Não, isso eu resolvo com processo de solda.” 

Fez uma equipe em cima, até hoje me emociono para contar isso. Até hoje eu fico emocionado. A equipe entrou em cima, o eletricista chegou e falou: “Olha, essa máquina tem três sistemas. Vou deixar um só, ela fica muito melhor. E o sistema que vai sobrar lá eu vou pôr em tal máquina. Vou fazer isso e vou fazer aquilo. E o eixo do motor que empenou, tiro com marteladinha, faz não sei o quê.” 

Houve uma junção de energia em cima do negócio. Em cinco meses e meio, gastando um terço do dinheiro que estava previsto, nós pusemos a máquina para rodar. Está lá até hoje, rodando bonitinho.

 

P/1 – Ainda aperfeiçoaram a máquina? (risos)

 

R – A máquina tinha três sistemas de comando - eu esqueci o nome do comando. Um não conversava com o outro e ela vivia dando problema. Eles tiraram dois, deixaram um só, ficou uma beleza a máquina.

Ainda usamos os outros dois nas outras duas máquinas que não tinham aquele sistema moderno. Mas ficou muito melhor, alguns defeitinhos que ela tinha nós tiramos todos, em cinco meses e meio. A previsão era um ano e com um milhão e meio de dólares nós recuperamos. O orçamento era cinco milhões de dólares, das empreiteiras.

 

P/1 – Em que ano?

 

R – Isso foi em 88, quando eu saí de Carajás. Começou em outubro de 88 e terminou em janeiro, fevereiro de 89. Pusemos a máquina para rodar. Quando a máquina rodou a equipe estava toda com a autoestima no ponto. 

Nós já tínhamos resolvido uma série de outros problemas que tinha no porto, também. A equipe aprendeu, eu aprendi muito com essa equipe, sabe? Aprendi muito no porto. Eu nunca tinha trabalhado em porto, eles me ensinaram muito lá. Também acho que contribuí, foi uma dupla troca. E isso fez com que o meu nome na Vale aparecesse. 

O Pacheco, que era o então superintendente do porto me ficou muito grato, porque ele também ficou enrolado na situação. E nós saímos muito mais rapidamente daquela crise. Quando o Pacheco foi destacado aqui para o Sistema Sul, eu fui para o lugar dele, aí virei superintendente da Vale do Rio Doce.

 

P/1 – Do porto?

 

R – Do porto.

 

P/1 – Superintendência específica do porto?

 

R – Do porto de Ponta da Madeira. 

Aí é que começam as coisas. Era a menor superintendência e a melhor superintendência da Vale. Não a melhor em termos de qualidade, mas melhor para o superintendente. Era a mais… Para mim, o melhor cargo de superintendente que tinha na Vale era no porto de Ponta da Madeira porque o porto era pequeno, novo, estava bem arrumado com essas coisas todas que nós fizemos. Tinha muita gordura para cortar e tinha um futuro enorme, como está lá hoje. 

Nós fizemos um corte de gordura muito bom lá. Eu fiz uma sinergia com o Dequech, comprei todo o serviço administrativo que tinha no porto; comprei do Dequech, que estava na ferrovia do lado. Tinha duas superintendências, uma da ferrovia e uma do porto. Cada uma tinha seção de pessoal, seção de custo, seção de orçamento, tesouraria, financeiro, não sei o quê. Tudo duplicado. Eu falei: “ Dequech, você tem tudo aí, você tem três mil empregados. Eu tenho seiscentos. Você me presta esses serviços, eu te pago uma pequena parcela do seu custo; eu vou ganhar dinheiro, você vai ganhar dinheiro e nós vamos diminuir a equipe aqui fantasticamente.” Fizemos isso. O porto saiu de seiscentos e tantos empregados para trezentos e poucos, ele aproveitou os meus empregados; onde ele tinha um pior do que o meu, onde o meu era pior do que o dele, infelizmente, nós tivemos que... 

Foi a primeira racionalização assim, barra-pesada, que teve na Vale. E fez história, porque todo mundo falou: “Opa, o porto!” O curto saiu de um dólar e vinte para sessenta centavos. “É o Rigotto, é o Rigotto.” Aí fiz o nome, né? Fiquei famoso na história. 

Ainda sou muito atrevido. Um engenheiro nosso teve uma ideia: “Rigotto, o nosso único píer é um problema. Porque se der um problema num navio aqui no píer, nós ficamos parados. Temos que fazer o píer 2. Mas o píer 2 custa 78 milhões de dólares só de obra civil. Caríssimo. Ainda tem problema de maré.” Falei: “E aí?” Ele falou: “Olha, a gente podia usar uma correia da Codomar [Companhia Docas do Maranhão]. Põe uma correia daqui para lá.” 

O Sarney tinha tentado construir um terminal petrolífero lá no Maranhão. O terminal era uma passarela de acesso ao terminal e o terminal propriamente dito. Ele só conseguiu começar a passarela, que tinha 480 metros. Esse começo da passarela era um píer perfeito para o que a gente precisava, então nós tivemos a ideia de fazer um píer 2 alugando um píer da Codomar, que era uma empresa estatal estadual. Isso, na época, na Vale, em princípio foi enxergado como um absurdo, mas depois eu consegui convencer as pessoas e fizemos baratíssimo, inclusive com financiamento muito bom. Nós fizemos esse píer muito barato. 

E [em] pouco mais de seis meses que o píer 2 estava funcionando, houve um problema com um navio no píer 1. Quebrou um navio no meio no píer 1, aí Carajás funcionou todo via píer 2. Eles falaram: “Rigotto é um santo.” Aí é que virou santo, mesmo.

 

P/2 – (risos)

 

R – Só que eu já nem estava lá mais, não. Porque quando surgiu esta história deste píer, a redução que a gente fez em Ponta da Madeira, o Wilson Brumer, que era presidente da Vale, foi convidado para ser presidente da Acesita. E ele resolveu levar gente da Vale para trabalhar com ele na Acesita. Então perguntou para alguém lá, não sei quem: “Escuta, qual que é o melhor superintendente aí para eu levar comigo para a Acesita?” Você está vendo a minha modéstia aí, né?

 

P/2– (risos)

 

R – Foi ele que perguntou, não fui eu, não. Aí falaram para ele: “É o Rigotto.” Aí ele me telefonou... 

Eu não quero dizer que eu sou o melhor, não. Eu que estava mais em evidência naquele momento por causa do píer 1, dessa coiseira toda. “É o Rigotto”, aí ele me chamou para ir para a Acesita com ele. 

Sou diretor industrial da Acesita. O salário é bem melhor e trabalhar com o Wilson Brumer para a gente da Vale é uma honra, porque ele é um cara importante no contexto, é um grande executivo. Saí da Vale e fui ser Diretor da Acesita. Fiquei cinco anos diretor da Acesita. 

Fizemos a fase de privatização. Eu enfrentei a barra da privatização morando lá em Timóteo, não foi mole. Eu prefiro não contar essa fase, porque foi uma fase difícil. Só para você ter uma ideia, quando eu cheguei em Timóteo tinha uma faixa na entrada da cidade: “Fora Brumer, fora Rigotto e sua turma.” Colocada pelo sindicato. A imprensa, o bispo, a escola, o padre local, todo mundo me chamava de demônio. E levei minha família para lá nessa época. Morei lá cinco anos, fizemos sucesso. Graças a Deus a Acesita deu muito lucro comigo lá. Terminado meu compromisso com o Wilson, ainda fiquei um ano na SIFCO, depois é que eu vim para a CSN [Companhia Siderúrgica Nacional].

 

P/1 – Onde?

 

R – Pra SIFCO. SIFCO é uma forjaria da Acesita, na época da Acesita, lá em São Paulo. Depois é que eu vim para a CSN. 

Foi uma época áurea da minha vida. A minha chegada em Timóteo foi muito ruim, mas a minha saída foi muito boa. Eu saí de lá debaixo de homenagens, despedidas etc. O pessoal de lá gosta muito de mim hoje, graças a Deus. Também, eu incentivei muito o campeonato de futebol amador que tinha lá, você entende, né?

P/2 – A-hã! (risos)

 

R - (risos) 

Menina, da SIFCO, onde eu fiquei um ano, resolvi aposentar. Fiquei quinze dias aposentado, aí fui para a CSN trabalhar com o Mozart, que veio para a CSN implantar a diretoria de infraestrutura. Eu fiquei com o Mozart, o Mozart se dedicou a trabalhar a compra da Vale pela CSN e eu me dediquei a implantar a diretoria para ele. 

O Mozart comprou a Vale, foi ser diretor da Vale e me largou lá. Eu fiquei mais uns seis meses, terminando a compra de portos, acertando essas coisas, e aí me convidaram para ir para a mina, para a usina, mexer com metalurgia. A CSN estava com alguns problemas nos altos fornos dela. Nós fomos para lá e conseguimos tocar o problema, está mais ou menos equacionado hoje. Eu acho que até... Em maio do ano que vem nós vamos estar reformando esse alto forno, e aí vai estar... É uma empresa ótima, muito boa, como a Vale do Rio Doce, e estamos lá. 

Agora eu vou te contar os causos de Carajás.

 

P/1 – (riso). Só um minutinho. Posso perguntar um pouquinho antes?

 

R – Pois não, pode perguntar.

 

P/1 – [O senhor] se aposentou...

 

R – Eu me aposentei.

 

P/1 – … se aposentou pela Vale do Rio Doce?

 

R - Pela Vale do Rio Doce. Porque quando eu saí da Vale em 92, eu continuei pagando a Valia. A minha parte e a parte da Vale.

 

P/1 – E isso lhe deu o direito de se aposentar pela Vale?

 

R – Eu continuei porque a Vale tem uma fundação de previdência privada. Eu continuei pagando essa fundação, a minha parte e a parte da Vale.

 

P/1 – E aí você foi para a Acesita.

 

R – Eu fui para a Acesita.

 

P/1 – Mas emprestado?

 

R – Não, não. Eu saí de licença sem vencimentos da Vale, tanto eu quanto o Wilson. Aí eu continuei contribuindo com o fundo. Em 97, quando eu completei 53 anos de idade, eu tive direito à aposentadoria e aposentei. Aí ao invés de ficar pagando aquela fortuna que eu pagava, eu passei a receber uma pequena quantidade de dinheiro. 

Fiquei quinze dias aposentado. Como eu te disse, troquei todas as lâmpadas do apartamento, fiz revisão dos dois carros, consertei a maçaneta, chuveiro, comprei roupa, fiz a barba, cortei cabelo, fiz as unhas do pé...

 

P/2 – Deu uma geral?

 

R – Dei uma pintura no quarto que estava precisando, arrumei uma janela, arrumei a piscina do prédio, aí a Luiza chamou o Mozart e falou: “Leva esse homem que eu não o aguento mais.” Aí eu vim com o Mozart para a CSN e estamos aí.

 

P/1 – Hoje em dia seu cargo na CSN é...?

 

R – Eu sou Diretor de Metalurgia da CSN. Metalurgia da CSN é uma CST, um pouquinho maior. Nós fazemos cinco milhões de toneladas de placas por anos. A CST faz placas. A minha área dentro da CSN é exatamente uma CST, um pouco maior. 

A CSN tem a continuidade do processo, porque lamina essas placas e faz folhas de flandres, aço galvanizado, bobina quente, essas coisas. Essa parte não é comigo, é com um colega. Já foi até comigo. Eu cheguei a ser Diretor Industrial da CSN, mas é impossível para um só tocar tudo. Aí nós dividimos em dois.

 

P/1 – Causos de Carajás?

 

R - Causos de Carajás. Tem milhares de causos de Carajás. Se você bobear, nós ficamos aqui 24 dias contando os causos de Carajás. (risos)

O causo mais famoso de Carajás é o causo da ecologia, né? O Mozart, quando nós chegamos em Carajás, ele nos passou uma carraspana ecológica. Ele falou: “Olha, gente, eu faço questão de fazer esse projeto ser o mais ambiental possível. Eu quero mostrar que a mineração não precisa agredir o ambiente mais que o necessário, então tudo nosso vai ser respeitando o meio ambiente.” 

Trabalhamos muito para isso, a gente adquiriu uma consciência muito forte nessa direção. Resolvemos desenvolver a mina do manganês do Azul, e foi uma mina desenvolvida mais ou menos in house, sabe? Eu e o Dequech desenvolvemos uma instalação para lá, improvisamos um sistema de transporte de manganês para tratar o manganês da planta-piloto em Carajás etc. E a única maneira que a gente tinha de transportar esse manganês era com os caminhões que tinha lá, fora de estrada R-35. Eram caminhões muito grandes, e nós bolamos o seguinte: botava os três caminhões em comboio, punha um caminhão na frente, pequeno, de batedor, com uma luz no capô, e esse caminhão vinha na frente anunciando para todo mundo que tinha caminhão de minério. Anunciamos na televisão que ia ter os caminhões, os R-35 passando, e era uma correria esses caminhões, sabe? Para conseguir dar vazão com três caminhões de 35 toneladas, a coisa começou a precisar [que] os caminhões corressem. 

Um belo dia, um dos motoristas atropelou uma anta. Isso estava um caso lá em Carajás, a gente tinha martelado na cabeça do pessoal o respeito aos animais. Esse operador, chamava Kaon, eu lembro até hoje dele. Kaon não, é o Gaúcho. O Gaúcho imediatamente parou o caminhão, foi no caminhão batedor e falou: “Olha, atropelei uma anta. A anta está ali toda torta.”

O batedor tinha rádio, chamou para a gente. Nós estávamos chegando para trabalhar, era sete e pouco da manhã, aí reunimos a cúpula da pré-operação - eu, o Mozart, o Dequech, o Thiers. E fomos discutir como que a gente ia sair daquela: atropelou uma anta, e agora? E já tinha, estava começando o Jardim Botânico de Carajás, tinha a quarentena lá. O Dequech falou: “Vamos pegar essa anta e pôr na quarentena. Os caras da quarentena passam um mercúrio nela.” Eu falei: “Não, gente, é melhor levar para o hospital. Se essa anta morre e não sei o quê...” 

Tivemos a discussão, põe, não põe, perdemos uma boa parte da manhã nessa discussão. Quando ele chegou à conclusão que o melhor era levar para a quarentena, chega o Kaon com um pernil da anta: “Doutor, nós partimos a anta e esse pernil aqui é para você. (risos) Já estava retalhada, a anta. 

E tinha tido lances assim. Tinha um empreiteiro lá que tinha acampamento fora de Carajás, que estava com mania de caçar capivara lá e nós pusemos o empreiteiro para fora porque ele não podia, de jeito nenhum. E aí chega o cara com a anta... (risos)

 

P/1 – E aí, comeram o pernil da anta? (risos)

 

R – Ah, não. Essa parte é melhor não contar, pode ser usada contra as pessoas que comeram a anta. (risos)

Paca, menina, era um caso sério a tal da paca, sabe? De vez em quando aparecia uma paca, você ganhava uma paca de presente. 

O outro caso mais bacana foi da cobra. Tinha o Evandro, o Evandro é um cara genial. Ele é geólogo, formado em Ouro Preto, estudou alguns anos em Ouro Preto, trabalhou na SAMAE com o Dequech. O Dequech levou o Evandro para Carajás e o Evandro está fazendo um trabalho muito bom. 

A mulher do Evandro é a Marisa. A Marisa é dessas enérgicas, sabe uma mulher enérgica, assim energizada? A Marisa tinha um extra gás! Era daquela que o baile já acabou, ela ainda queria dançar outro tanto. E bebia e pulava, era daquelas que dançava pulando meio metro, a Marisa era ultraenergética. Fazia excursão dos meninos, dava aula em escola, pintava parede e arrumava a casa. A Marisa fazia o que você quisesse, era uma mulher genial, mas tinha medo de cobra que se pelava. E ela morava numa rua que não tinha saída. A rua dela terminava num cul de sac, precisa retornar. Tinha uma série de casas assim. E um belo dia ela está chegando em casa, tinha uma cobra coral desse tamanho no jardim da casa dela. Ela se desesperou para arrumar alguém para matar a cobra. 

Saiu um vizinho meu para matar a cobra, eu falei: “Opa, alto lá! Aqui não se mata cobra, não, cara.” “Ah, como é que eu vou fazer, tem uma cobra na casa dela!” “Eu vou te mostrar.” Peguei um rodo, cutuquei a cobra e fui pastoreando a cobra até no cul de sac, onde entrava na mata. Aí a cobra entrou na mata. 

Voltei todo feliz, falando: “Dei uma lição ambiental aqui pra turma da rua.” Isso era assim umas seis e meia, sete horas, estava começando a escurecer. 

Daí a uns dias houve um evento que foi na minha casa. Um frango ao molho pardo, alguma coisa assim, reuniu todo mundo lá em casa para comer num domingo. Começamos, a Marisa tomou umas cangibrinas a mais lá. Eu estava dançando, ela dança muito bem, eu fui dançar com ela. Ela falou: “Não vou dançar com você, não!” “Por quê?” “Por causa da cobra!” Mas ela falou um “por causa da cobra” assim, que ela fez a catarse da mágoa que estava dentro dela. E de ter que conviver com a cobra no quintal dela. (risos) E o “por causa da cobra” dela todo mundo ouviu, porque por azar, na hora a música baixou. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – Outro lance muito interessante foi o do Tadeu. Tinha um cara lá que chamava Antônio Tadeu Magalhães. O Antônio Tadeu era baixinho, magrinho, mas tinha uma voz de locutor, grossíssima. A voz do Tadeu era uma coisa de louco, sabe? 

Estava começando o núcleo de Carajás, todo mundo morava na vila. Na vila tinha as casas que eram dos chefes de departamento, as casas chiques da gente. O pessoal mais antigo estava todo acomodado na vila e as primeiras casas que ficaram prontas no núcleo foram as casas de operadores de mecânica, de supervisores, então nós começamos a pôr essa turma para ir morar lá. E estava barra pesada, as mulheres se sentindo isoladas lá no meio daquele mato, doze quilômetros lá para dentro do mato. Meio terrível, a história. 

As casas menores, porque já eram de alvenaria; a gente estava fazendo o maior esforço para jogar o núcleo para cima. Ia ter uma cerimônia do Papai Noel, o Papai Noel ia chegar lá dia 24 de dezembro. Escolheram para Papai Noel um gordo de cabelo branco, para poder ser Papai Noel. Rigotto na testa!

 

P/2 – (risos)

 

R – Tudo bem. Aí me fantasiaram de Papai Noel, me pregaram uma barba e nós saímos pela rua. O Tadeu foi na boleia da camioneta com um microfone, anunciando para todo mundo que o Papai Noel ia chegar lá no núcleo e em Carajás. Isso a gente na vila. E eu lá em cima da camioneta, o próprio Papai Noel, aquele trem. Dando uma de Papai Noel. 

Aí começaram a acontecer os dramas do Papai Noel. O Tadeu resolveu, num ponto onde tinha uma porção de crianças, que eu descesse para já cumprimentar as crianças e convidar para ir para o núcleo. Aí eu desci. Para usar uma expressão chula, fodeu! 

Olha o que aconteceu, menina: eu sou um cara muito emotivo, eu me preocupo com as pessoas que trabalham comigo. Chega um menininho, sabe esses menininhos pretinhos, bonitinhos, arrumadinhos, brilhante assim, você vê que a mãe toma cuidado com o filho? Menino bem alimentado, bem nutrido, desse tamanhozinho. Filho de um operador lá que eu conhecia, do Aurélio. O menino chegou perto de mim e me puxou assim, falou: “Papai Noel, Papai Noel!” Falei: “O que foi, meu filho?! Falou: “Olha, o meu pai não deixou eu botar na carta que o caminhão é de pilha, mandou eu botar de corda. Mas eu quero é de pilha. Viu?” Eu falei: “Viu!” E levantei. Olhei para o menino e falei: “Isso é um pai que não teve dinheiro para comprar um caminhão de pilha, então não deixou o filho botar o caminhão de pilha, mandou pedir de corda para não decepcionar.” Aí, cara, não teve jeito. Aquilo… Eu me emocionei, começou a descer uma lágrima ou outra, eu subi na camioneta e falei: “Tadeu, vamos embora!” Ele falou: “Não, conversa mais com os meninos aí!” Falei: “Vamos embora, Tadeu, você fala aí embaixo e vamos andar!” Aí fiquei lá em cima assim meio.. (risos) Fiquei meio down com aquele negócio. Falei: “Gente, que coisa.” 

Na minha casa estava aquela alegria. Foi assim, a gente já estava numa opulência danada porque a gente vivia em Carajás, não gastava dinheiro. Salário de gerente, sobrava dinheiro e eu comprei Papai Noel para os meus filhos de fato. E eu fiquei assim, você começa a enxergar as diferenças da vida nesses momentos; Natal, você fica meio emotivo, lá em Carajás... 

Daí a pouco o microfone do Tadeu pifou e o Tadeu não tinha mais... Ele falando e ninguém cá fora escutando. Aí eu bati e falei: “Ô Tadeu, pifou o seu microfone aí.” Aí ele falou assim: “Então está bom.” Subiu para a camioneta e ficou atrás de mim, falando, imitando, como se ele fosse Papai Noel. (risos) Ele falava alto, ele tinha uma voz potente, poderosa. E ele falando atrás de mim: “Atenção, Papai Noel hoje no núcleo. Vai chegar Papai Noel no núcleo, às onze horas!” 

E aquele trem, sabe? Eu emocionado, ele falando, e eu falando: “Pô, está dando tudo errado, nem o microfone funciona.” E a imagem do menino não me saía da cabeça. Eu falava: “Gente, um pai e uma mãe que bota o menino lustroso daquele jeito enfrenta esse vexame de segurar na carta! Não dá, eu vou arrumar um caminhão de pilha para esse menino aqui de qualquer jeito.” E fui ficando emocionado. 

Deram as onze horas, fomos para o núcleo. O Tadeu consertou o alto-falante, ficou falando. O meu filho já estava lá no núcleo. Eu estava forçando, o meu filho tinha uns cinco, seis anos, nessa época, o meu filho mais novo. Todo mundo olhando o Papai Noel, a meninada encantada com o Papai Noel. O Papai Noel é um negócio que afeta quem acredita, né? Aí o meu filho chegou, pegou e olhou a minha mão., Olhou a minha mão, virou pro amiguinho dele e falou: “É o meu pai.” (risos)

Aquilo acabou de me matar. Aí eu falei: “Tadeu, acabou o Papai Noel.” (risos)

 

P/1 – (riso)

 

P/2 – (riso)

 

R – Aí o Tadeu olhou para mim e falou: “Então eu vou vestir a roupa.” (risos) Só que o Tadeu era desse tamanhozinho, era um tampinha, e a roupa tinha sido feita para mim. E eu era mais gordo do que estou hoje, na época. Aí o cara do núcleo, o administrador, falou: “Ô Tadeu, você não é homem, não, pô?” O Tadeu falou: “Eu sou muito homem!” Mas no alto-falante! “Eu sou muito homem, viu? Mas para vestir essa roupa, não.” Todo mundo ouvindo. (risos) Os adultos ouvindo. 

Foi um dos lances mais interessantes de Carajás. O Tadeu já tinha tomado umas para criar coragem, e ficou aquele trem.

 

P/1 – (riso) Aí você desistiu de ser Papai Noel?

 

R – Nunca mais eu vou ser Papai Noel na minha vida. Esse resto de sábado… Foi um sábado, dia 24. Esse resto de sábado, ou véspera… Não sei, eu sei que era véspera de Natal, nós nem trabalhamos, não. Esse resto de sábado eu passei tentando comprar um caminhãozinho de pilha lá em Carajás.

 

P/1 – Não achou?

 

R – Fui naquelas lojinhas todas. Tinha uma porção de boutique, o pessoal já tinha feito umas boutiquezinhas acolá, desci lá no Peba e não tinha de jeito nenhum. Aí esse menino de noite recebeu um caminhãozinho de corda e deve ter ficado puto com o Papai Noel que ele viu, né? Quer dizer, o esforço do pai for perdido, o meu esforço foi perdido e o menino ainda sofreu a decepção. Eu acompanhei, ele ficou amiguinho do meu filho. 

Isso foi uma história tragicômica. Mas se vocês vissem o Tadeu falando: “Então eu vou vestir a roupa.” (risos)

 

P/2 – (riso)

 

R – Porque estava um sucesso o negócio do Papai Noel lá. Mas na hora que o meu menino me identificou e eu vi que rompi a barreira, ele parou de acreditar em Papai Noel naquele momento. Eu falei: “Agora, o que mais que eu estou querendo desse negócio aqui?” Esse foi um lance interessante. 

Outro lance muito interessante foi um lance dos rapidinhos. Vocês já devem ter ouvido falar dos rapidinhos. Carajás tinha um churrasco rapidinho, sabe? Começava às seis horas da manhã do domingo, porque tinha uns caras que levantavam às seis horas e queriam ir comer churrasco, e outros que gostavam de comer até as dez horas da noite, então tinha gente que ficava das seis da manhã às dez da noite do domingo. Aí se encaminhavam para casa de noite, e o problema é que quando você saía do Serra Norte para ir para casa, era assim: tinha o clube aqui, uma rua, você andava um quarteirão na rua sem casa nenhuma. Tudo descampado. A primeira casa era do Dequech, a segunda casa era a minha. A terceira casa, no outro quarteirão, já era do Ilmo. 

Nessas três casas, pouca gente tinha coragem de pedir para entrar para ir no banheiro. Porque era a casa do Dequech, o Dequech era chefe, eu já era chefe, o Ilmo era chefe lá da Sucar, o Mozart era chefe, então a turma passava ali apertada, sabe? Às vezes o cara tinha tomado cerveja o dia inteiro, queria urinar, esquecia de urinar porque já estava meio tonto na saída do clube, e ia subindo ali. Quando chegava em casa já estava naquele sufoco, então saiu o papo da tesão hídrica, sabe? 

O papo era o seguinte: o pessoal não estava dando conta das mulheres, tomava muita cerveja, não fazia xixi para de manhã conseguir alguma coisa. (risos) Aí nós distribuímos gominha para contribuir. (risos) 

E tinha um tal de… Como é que era o nome? A mulher dele chamava Regina. Ele chamava... Ah, esqueci o nome dele. A mulher dele era muito gorda, fortona. E ele era desses que tomava cerveja, ele era gordão também, sentava de manhã lá e tomava cerveja o dia inteirinho. Sabe aqueles caras que têm prazer de tomar cerveja e conversar? Ele curtia aquilo ali. E ia embora para casa. Ele era o alvo disso: “Ô Zé, você hoje só tomou doze cervejas, como é que você vai fazer?” “Não, eu estou levando a gominha...”

Gominha em carajás tomou esse outro significado aí. 

 

(PAUSA) 

 

R - Deixa eu lembrar um outro causo aqui. 

Ah, um outro caso muito interessante foi logo no início. Na vila, aquela vila de madeira, o Serra Norte foi construído depois. Tinha o clube A e o Clube B. O Clube B era o bom, era o Carajás, o clube da peãozada. Era um clube imenso, tinha um salão grande; ainda foi aumentado porque ainda estava pequeno para a demanda, e toda sexta, sábado e domingo tinha aula dançante. Sexta tinha aula dançante, sábado tinha baile e domingo tinha aula dançante de noite, que era o que a turma tinha para fazer lá. E tinha uma média de uma mulher para cada 2 mil homens, então as poucas mulheres que tinham lá era requisitadíssimas nos bailes. 

Eu sempre fui um cara bem popular. Minha origem é humilde, eu me sinto bem no meio da peãozada. Nós resolvemos ir lá, eu e a Luiza, para esse baile. Chegamos e ficamos lá olhando; tinha muita gente lá, mas pouca gente dançando porque não tinha muita mulher para dançar. Ainda não fazia muito sentido, até mesmo para aquele tipo de gente, ficar dançando sozinho, como se dança hoje em discoteca. Ficamos ali olhando, a gente estava meio: dança, não dança. Minha mulher, na verdade, não dança muito bem. Eu falei: “Luiza, fica aí que eu vou buscar uma cerveja.” Aí eu fui, cometi o erro de ir buscar uma cerveja. Quando eu voltei para buscar uma cerveja, estava a Luiza dançando com um cara negro, um metro e noventa de altura, fortão; um maçariqueiro, soldador, alguma coisa lá, cara fortíssimo, sabe? Já tinha tomando umas e dançando com a Luiza lá e tentando... Que ele vai fazer com uma mulher num clube daqueles? Dar nela um agarro, é natural, né? 

Ele dançando, eu cheguei e comecei foi a rir, sabe? Tinha um rapaz que me conhecia e viu que ela estava comigo, era minha mulher. Chegou perto dele e falou assim: “É a mulher do Rigotto.” O cara ficou branco. (risos)

Pegou ela assim e falou: “A senhora devia ter me falado!” (riso)

 

P/2 – (riso)

 

R - (riso) Ô gente, mas vocês precisavam de ver a cara desse cara falando: “A senhora devia ter me falado, né?” Ela falou assim: “Mas falado o quê?” “Que a senhora é a mulher do doutor Rigotto, aí!” Eu falei: “Que é isso, cara. Dança, não tem problema, não. Que é isso?” Ela falou: “Não, vamos continuar dançando.” Aí o cara, coitado, ele não se continha, era muito para ele. Ele falou: “Não, senhor. Muito obrigado pelo afeto, mas eu não quero essa mulher sua, não.” (risos) E foi embora, não teve jeito.

 

P/1 – Rigotto, e hoje em dia, como diretor da CSN? Como é o seu cotidiano, você tem alguma atividade de lazer?

 

R – Olha, eu vou muito a Belo Horizonte nos fins de semana. De vez em quando minha mulher vai para Belo Horizonte por uma razão ou por outra. Ela dá muita assistência para minha mãe lá, então...

 

P/1 – Sua residência é...?

 

R – É em Volta Redonda.

 

P/1 – Volta Redonda.

 

R – Na verdade, eu tenho uma casa montada em Volta Redonda, uma casa muito boa, e tenho um apartamento montado em Belo Horizonte. Quando eu aposentei deixei o apartamento lá. Eu vim morar aqui no Rio e a Luiza ficou morando lá. Eu ficava aqui de segunda a sexta, na ponte aérea. 

Pra Volta Redonda nós resolvemos: “Não dá certo esse negócio de ponte aérea.” A Luiza veio, nós alugamos uma casa e montamos uma casa nova. Fizemos uma mesclazinha, compramos uns bagulhos aqui. Mas a Luiza costuma ir para Belo Horizonte e eu vou sexta à noite e volto domingo à noite, ou segunda de manhã. 

Eu gosto muito é de teatro, de música, essas coisas. Eu me volto muito para isso. E adoro um bom jantar, num bom restaurante. Em Belo Horizonte eu tenho muito esse lazer. Em Volta Redonda, até por sofrer muito por deixar as amizades para trás, nós tomamos uma decisão de não aceitar muitas amizades, para não sofrer ao perder as amizades. Isso é uma coisa que você vai adquirindo depois de passar por muitos lugares como eu passei. Eu perdi amigos em Itabira, eu perdi amigos em Colatina, eu perdi amigos em Carajás, eu perdi amigos em São Luís, eu perdi amigos lá em Timóteo, eu perdi amigos lá em Jundiaí...

 

P/1 – Perdeu o convívio!

 

R – Perdi o convívio. E não tenho ilusão, não. Amigo, quando você convive, é colega e é amigo. Quando você não convive é só amigo e amigo é só uma lembrança. E lembrança de amigo só dá saudade, minha filha, mais nada.

 

P/1 – E dói, né?

 

R – E dói. E eu sou muito ligado, eu ligo muito com as pessoas, eu gosto das pessoas, então a gente preferiu, lá em Volta Redonda, ficar mais retraído. A minha casa, que é conhecida como a casa das festas - minha mulher adora fazer festas, sabe fazer festas, eu gosto de festas. Nós ainda não fizemos nenhuma festa lá em Volta Redonda. Tirando fim de ano e Réveillon, nós ainda não fizemos nenhuma festa, até para não ficar… Mas infelizmente o mundo vai te empurrando, né? Já tem lá umas dez pessoas que eu estou me sentindo fortemente ligado com elas, e aí começa a aparecer algum lazer. 

Eu tenho me dedicado muito a conhecer a região. O entorno de Volta Redonda é uma região turística, você tem ali uma série de cidades interessantes: Angra dos Reis, Penedo, Itatiaia, Conservatória, Barra do Piraí, Valença; tem uma série de cidades ali em volta que vale a pena, então a gente tem curtido aquilo por ali.

 

P/1 – Você tem outras atividades, além do trabalho, atividades paralelas? A gente conversou um pouco antes você falou que é vicentino...?

 

R – Eu sou vicentino. Na minha juventude, no início da minha maturidade, eu fui vicentino. Fui, não, eu pratiquei a Conferência...

 

P/1 – Sua família é muito católica?

 

R – Minha família é muito católica. Minha mãe é muito católica. Eu sou católico. E eu era vicentino e ajudava muito na Conferência. Depois a vida me obrigou, eu tinha que trabalhar muito, então não sobrou tempo. Absolutamente, não sobrou tempo. Eu tenho que confessar isso. 

Agora eu estou com vontade de retomar isso, mas eu preciso voltar a Belo Horizonte porque eu quero voltar para a minha conferência e tentar recuperar um pouco do que eu fiquei devendo lá. Mas eu passei por um outro projeto, que eu comentei ali fora com você, que foi o Caminho de Santiago. Tem dois anos que... Esse projeto eu comecei a uns dois anos e meio atrás. E eu consegui realizá-lo agora em julho; eu saí em junho e voltei final de julho. Foi um projeto muito interessante. 

O Caminho de Santiago é uma antiga rota de peregrinos, tem mais de 1200 anos que se pratica peregrinação ali. Tem uma série de sentidos, cada um tem um sentido de fazer o seu o caminho. Para mim, o caminho tinha um sentido turístico, esportivo, filosófico, meditativo, religioso, muito religioso. Eu queria sentir bem o que é isso. 

A religião católica é uma religião fora do Brasil. Aqui a gente só ouve contar. As nossas coisas, Aparecida do Norte, são ainda muito recentes. Para mim, elas ainda não provocaram a devoção como coisas como Fátima, como o próprio Santiago de Compostela, Jerusalém, então eu queria muito sentir isso. Eu fiz o projeto de ir para Santiago de Compostela, no Caminho. E de fazer aquele caminho que o brasileiro faz, que é começar na França, na última cidade da França, em Saint-Jean-Pied-de-Port até Santiago, atravessando os Pirineus e o Monte do Erro.

 

P/1 – Por que é o caminho que os brasileiros fazem?

 

R – Os brasileiros, em geral, fazem esse caminho. As primeiras pessoas que escreveram sobre o caminho, o Sérgio Reis, o Maqui, aquele padre Hilário, essa turma escreveu toda começando de... O próprio Paulo Coelho, ele teria iniciado a peregrinação dele lá.

 

P/1 – Mas por que a peregrinação inicia-se tradicionalmente...?

 

R – O caminho você inicia onde você quer. Existem diversos caminhos. Tem um caminho que começa em Roma e vai até Santiago, tem um caminho que começa em Paris, caminho que começa em Orly, que começa em Lion. Tem um caminho que começa em Londres, tem um caminho que começa na Cornuália, tem um Caminho que começa em Berlim. Todos esses caminhos vão afluindo, eles se encontram numa cidade da Espanha chamada Puente la Reina. Ali todos os caminhos se encontravam, exceto o caminho aragonês, que vem de Huesca, mais lá na frente. De resto, todos os caminhos se encontram ali. 

Para chegar ali, o caminho francês que sai de Paris passa por Saint-Jean-Pied-de-Port, atravessa os Pirineus, chega em ___________ e entra na Espanha. É chamado o caminho francês. Sei lá, o primeiro brasileiro que foi começou de Saint-Jean. É interessante porque você atravessa os Pirineus e é um lugar muito bonito de se atravessar. Então criou-se uma tradição não escrita de que o brasileiro começa em Saint-Jean. 

É um pouco dificultante porque atravessar os Pirineus, para quem não está devidamente preparado, é a pior etapa. É muito duro atravessar os Pirineus. Eu fiz um projeto, ia ano passado; não pude ir porque eu tive um problema no olho, deu uma ulcerazinha no meu olho. Eu tive que tratar disso [e] passou o momento ideal.

Nesse ano eu consegui ir. Eu não estava devidamente preparado, sofri um bocado porque os meus pés deram muito problema de bolha. Eu fui com um calçado inadequado, eu fui de tênis, [ao] invés de ir de bota. 

E ainda tem mais um negócio bacana, que eu fui com meu irmão. Essa vida, tudo que eu te contei… Imagina o que meu irmão estava fazendo? Igual a eu, trabalhando feito um burro para criar a família dele. E nós nem tivemos tempo de conversar a vida toda. No caminho, nós saímos daqui… Primeiro a gente combinou tudo. Eu mandei o guia para ele, ele é que planejou as rotas, etapas. Compramos as coisas, o meu irmão tem um poder aquisitivo menor que o meu, eu que financiei a viagem para ele. Ele nunca tinha saído do Brasil, então para ele foi uma experiência, não só a experiência fantástica do caminho como de sair do Brasil, conhecer a Europa. 

Nós saímos aqui num belo dia de noite, só eu e ele, com a mochila nas costas. Descemos em Madri, eu apresentei para ele uma cidade em um outro país, ele chorou quando se viu em outro país. E saímos, jantamos em Madri, andamos,  rodamos em Madri inteira. No dia seguinte fomos para Pamplona, em Pamplona pegamos um carro, fomos até Saint-Jean e começamos o caminho. 

Ficamos 24 horas juntos, 34 dias. Eu resgatei meu irmão no caminho. Isso foi outra coisa, foi um extra do caminho para mim. Fantástico! A conversa com meu irmão foi um negócio assim, é... Não dá para acreditar como é que dois irmãos têm tanta coisa para conversar.

 

P/1 – Para reviver, né?

 

R - É reviver. Tanta coisa que ele me contou que eu não sabia, até de mim mesmo! E dele, do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos, coisas que nós combinamos.  Nossa senhora, menina, é fantástico! 

Houve momentos em que a gente dava gargalhadas. Fizemos imensas farras, porque o caminho é um circuito gastronômico em que você passa nos lugares onde se produz os melhores vinhos da Espanha. Então você bebe os melhores vinhos da Espanha, nos melhores lugares para beber, na mão dos caras que fazem os melhores vinhos, naquelas tabernas.

 

P/1 – Pode ser também circuito gastronômico? (risos)

 

R – Pode ser, não, é um circuito gastronômico. Não tem jeito, você tem que comer bem para andar. Senão, como é que vai andar? Não tem jeito. O peregrino antigo comia pão e vinho. Tinha até o Marcelino pão e vinho, tinha uma história de um caminho. O peregrino atual come presunto cru, ovo, chorizo, bacalhau e paella, e com os melhores vinhos que você pensar. (risos) Então houve momentos em que a gente fez muita farra, riu muito, mas houve momentos que ficaram altamente emocionais. 

Um dia nós estávamos sentados em uma praça em Logronho, meu pé estava num dos piores dias, eu estava com meu pé todo esculhambado. O tênis espremendo meu pé e eu sentindo que era o tênis, aí eu falei: “Gilberto, eu vou comprar uma sandália dessas abertas, modernas, aí.” Fomos numa padaria e eu comprei uma sandalhona desse tamanho; eu senti aquele frescor no pé, fiquei feliz, sabe? E aposentei o tênis. Ele falou: “Não joga fora, não, ninguém sabe como é que essa sandália vai se comportar.” E saí. 

Tem uma praça em Logronho muito bonita. Uma praça imensa muito bonita, onde o povo circula. Nós sentamos lá e ficamos tomando um chopinho que lá chama caña, e o Gilberto adora azeitona, então eu pedi uma degustação de azeitona para ele, ele estava...! Ele nunca podia imaginar, na vida, ter uns cinco pires de azeitona na frente dele, azeitona espanhola, na Espanha, com um vidro de azeite espanhol legítimo, extravirgem. Ele tomando chope, eu feliz com a minha sandália e ele com a azeitona dele. Nós estávamos muito felizes.

Aí começamos a falar de filho, não sei o que... É, a vida são essas coisas simples. No caminho você descobre isso. Subitamente, falando dos filhos, começamos a falar do filho mais velho dele, que foi um dos meus primeiros sobrinhos. Eu tive uma relação especial com esse sobrinho. Daí a pouco estávamos eu e ele chorando igual a duas crianças na mesa. Choramos, menina, abraçados. Falamos. 

Eu peguei o papel que veio enrolada a sandália, aquele papel branco que vem por dentro, escrevi uma carta longa para esse meu sobrinho nesse momento. Ele pegou, embolou a carta e jogou fora. Depois foi lá, catou a carta e mandou para o filho dele. O filho dele deve ter chorado também, quando leu a carta. 

Nós choramos bastante. Daí a pouco chegaram duas brasileiras que estavam no caminho também, que a gente tinha conhecido. Encontraram com a gente lá e falaram: “O que é isso, o que houve?” Eu falei: “Nada, nós estamos felizes, chorando aqui!” (risos)

 

P/2 – (riso)

 

R – Foi muito bom porque reverteu a situação. O caminho teve coisas como essa, sabe? O Caminho tem coisas... Tem uma igreja, eu não lembro o nome da cidade; você entra na igreja, o padre vem te receber. Ele olha para você e adivinha se você é um cara que está lá espiritualmente ou não. Meu irmão estava menos espiritualmente do que eu. Meu irmão é espírita, então ele estava mais voltado para dentro dele, e eu estava mais voltado para ver até o símbolo físico da nossa religião, essa idolatria tão criticada pelos protestantes. Ele olhou para mim e falou assim: “É, o senhor... Tem uma coisa aqui que o senhor precisa ver.” Aí me levou para um segundo salão, onde tem um Cristo com o braço abaixado. É uma obra de arte, não é um Cristo assim, não. É um crucifixo feito há uns trezentos ou quatrocentos anos, mas por um artista de renome. Com uma mão presa e a outra mão abaixada. É um negócio que te choca, ver aquele Cristo assim. E é uma obra feita, naquele tempo, para impressionar, na Inquisição. 

Nesse momento também o padre falou comigo: “Olha, as respostas que você está procurando no caminho, você talvez nem encontre aqui no caminho. Mas você vai encontrar a partir do caminho.” Isso foi de um significado muito grande para mim, porque eu estava meio preocupado. Eu já estava todo esfalfado, perdendo peso de tanto andar, comendo feito um tarado, o pé sangrando dentro da bota. - eu já tinha comprado a bota. Aí o padre chega e entende exatamente o que está acontecendo aqui dentro. Eu falei: “Opa, esses padres são espertos.” (risos)

 

P/2 – (riso)

 

R – E fomos aí. A convivência com as pessoas. No caminho você convive com pessoas de um nível de sensibilidade muito acima da média, então a conversa é muito fácil, você se comunica com as pessoas. 

O meu irmão mal fala o portunhol, né? Tinha um alemão que falava muito mal o inglês e não falava nada de espanhol. Para eu conversar com ele em inglês estava uma dificuldade. E olha que a gente andou muito tempo juntos, ele me ajudou com a história do cajado e eu ajudei ele com a bota dele... E uma dificuldade de comunicação em inglês muito difícil. De noite, nós sentamos numa taberna e tinha uns abades que fizeram uma missa gregoriana. A gente assistiu uma missa maravilhosa. Depois eu te falo da missa. E eu fiquei conversando com esses abades numa mesa de uma taberna. Essa taberna foi construída em 750. Os móveis são ainda os originais. Você precisa ver que maravilha de lugar. Simples, fedorento a mofo, mas assim... Eu conversando com os abades e o Gilberto lá, com o alemão.

Quando os abades foram embora, eu sentei lá. O Gilberto falou: “Toninho, ele tem um problema com a filha dele, a filha dele teve não sei o quê...” Cheio de detalhes do alemão. Eu falei: “Mas que negócio é esse? Como é que você sabe esses detalhes do alemão? Você não fala alemão, pô!” Falou: “Não, nós fomos conversando.” E eu cheguei pro cara e falei: “Escuta, você tem uma filha assim ,assado? Sua filha teve problema disso, teve um acidente e tal?” Ele falou: “Yes, of course.”  Eu falei: “Mas como é que você conversou com o meu irmão?” “Ah, nós conversamos, a little spanish, a little spanish.” Meu irmão não fala nem espanhol, rapaz. Ele fala um portunhol arranhado. Como é que se comunicaram a ponto de saber aquela quantidade de detalhes? Isso foi outra coisa fantástica do caminho. 

E quando você faz o caminho, você percebe o seguinte: o meu caminho começou lá atrás, muitos anos atrás, eu não sei onde. Passou por Carajás, passou por isso tudo, passou pela minha perna quebrada, eu subindo e descendo na obra com a perna quebrada - o patrão, querendo ver se eu aguentava tocar obra, me pôs para andar com a perna quebrada. E eu joguei a muleta fora no ônibus em Belo Horizonte, então foi dose. Isso tudo faz parte do caminho da gente.

Ir no caminho de Santiago, começar em Saint-Jean-Pied-de-Port e atravessar os Pirineus... Eu te recomendo. Se você for, sobe os Pirineus e anda de costas. Para você poder olhar a paisagem [da] França, que é um negócio fantástico. Tudo que você já viu de cartão postal de paisagem.... 

 

(PAUSA) 

 

R - Nós estávamos falando de quê?

 

P/1 – A gente estava falando do caminho. Você quer completar alguma coisa do caminho?

 

R – Não, ele até comentou que já foi a Santiago e conhece bem a catedral. É fantástico o caminho. Eu recomendo a todo mundo. Agora siga as instruções, não vá de tênis, vá de bota etc.

 

P/2 – O senhor andava cerca de quantos quilômetros por dia?

 

R - Eu andei em média 302 quilômetros por dia. Um mínimo de quinze e um máximo de 47. Mas depois de dez dias, andar trinta quilômetros assim é brincadeira. A gente andava até meio dia e meia, uma hora, duas horas da tarde, no máximo. O resto era só tomar vinho e comer presunto. Queijinho de cabra, queijo chez michou, queijo brie, essas coisas.

P/1 – (risos) Mas Rigotto....

 

R – Com pouco pão, tá? Para não engordar.

 

P/1 – (risos) Voltando então ao seu cotidiano e a sua família: seus filhos, quantos são? O que eles fazem, se moram com você...

 

R – Olha, eu tenho três filhos. Adoro meus filhos, eu sou um pai coruja. Meu filhos são ótimos. 

A minha filha é um negócio de louco. Eu tenho um medo porque está emprestada comigo. A minha filha é de Deus e está emprestada comigo. Eu tenho medo do dia que Deus for querer levá-la de volta. É uma companhia que a gente tem, que todo mundo não entende como é que você pode ter uma filha igual eu tenho. Eu tenho dois filhos adoráveis. Um é advogado, formado, empresário de sucesso no Espírito Santo.

 

P/1 – Como é o nome deles?

 

R – O mais velho é Eduardo Rigotto, o mais novo é Fabrício de Abranches Rigotto. A menina chama Alessandra Rigotto. A menina - não, ela é moça, agora tem 25 anos, né? O Fabrício está se formando agora na Fundação Getúlio Vargas lá em São Paulo, já está trabalhando como administrador de empresas, já está encaminhado. Ele está se formando bem. O Eduardo é advogado, trabalhou uns anos aqui no Rio no Bozzano Simonsen, ele foi trainee do Bozzano; ficou uns dois ou três anos saiu, montou uma empresa por conta dele, está dando certo. Já comprou apartamento, comprou casa, vai para a Europa por conta própria, não me pede mais dinheiro. O que você quer mais? 

A minha filha é excepcional. Ela está comigo emprestada. Quando a gente vê os filhos, um vai para o  Espírito Santo e o outro para São Paulo, e na sexta-feira telefonam: “Pai, não posso ir aí porque a minha namorada tem encontro com os colegas, eu tenho que ir com ela.” Aí você sente o que é o valor da sua filha. Ela fica sempre junto conosco. É um neném de seis meses de idade, né? Tem a minha mulher que a manteve viva e tem uma mãe preta que mora conosco, uma espécie de uma sub-filha que eu tenho, e vive lá em casa. 

A Alessandra é alguma coisa assim… Quem vê, quem olha a Alessandra, ela agora anda, sabe? Mas até os sete anos de idade ela não andava, não. Quem vê a Alessandra pensa: “Ih, essa menina deve dar um trabalho. Esse casal sofre.” Você não sabe que bom que é uma filha como a Alessandra, mas gasta muitos anos para a gente saber isso. No início, a gente chorava, ficava chateado: “O que é que eu fiz para merecer uma filha assim?” Hoje eu pergunto do outro lado: “O que é que eu fiz para merecer esse benefício?” Eu acho que eu não mereço, por isso que eu tenho muito medo do dia que Deus for levá-la. Eu sei que Deus vai levá-la um dia desses.

Ela tem problemas sérios, ela dá convulsão, toma uma quantidade de remédios anticonvulsivos muito fortes, esse remédio intoxica. Quando intoxica você tem que parar de dar. Aí ela dá uma convulsão e uma convulsão pode matar. Você fica meio sem saída. Nós já a internamos algumas vezes numa fase crítica dessa, aí a gente sofre muito. Mas fora disso ela é só prazer, como diz o outro. 

Meus filhos são ótimos. O Eduardinho foi um menino que nunca me deu trabalho, é um menino excelente. Ele é poliglota, fala algumas línguas, é um advogado competente, tanto que ele está se dando bem na profissão dele, se formou sem dar o menor trabalho. Eu nunca tive o menor trabalho com meus filhos em escola. Minha mulher também cuida de tudo, ela é muito rigorosa. 

O Fabrício, pelo mesmo jeito. O único trabalho que o Fabrício me deu foi quando ele fez uns dezesseis para dezessete anos, arrumou uma namoradinha e achou que estava gordo, então ele tinha que emagrecer. Estava na fase de crescimento e fazendo regime, não comia. Não adiantava. Quase que eu fiz uma alimentação… Nele, sabe? Depois ele superou essa fase, hoje é até… Como é que chama? Ele é gourmet, está fazendo uns macarrões lá. Está com a mesma namoradinha lá em São Paulo. Mora lá em São Paulo, deve estar encaminhado na vida. Péssimo motorista, mas ótimo pianista. Ele é um pianista maravilhoso. Toca piano muito bem e ainda sabe fazer cascata para o pai. Ele sabe as músicas que eu gosto, sabe os improvisos que eu gosto, aí ele chega lá em casa e toca. E isso para mim é tão importante que ele tem dois pianos, um lá em Belo Horizonte e outro em Volta Redonda. O de Volta Redonda é para atrair, para ele ir lá, senão como é que ele vai lá me ver?

 

P/1 – (risos)

 

R – E vai. São filhos adoráveis, eu gosto muito deles. 

O mais velho chama Amigo, o apelido dele é Amigo. Por quê? É... Surgiu o apelido dele de Amigo. E o mais novo é o Filho Bom. Filho Bom porque quando ele nasceu, Alessandra estava numa fase crítica. Morre, não morre, morre, não morre, aquele negócio era dose. E quando o Fabrício nasceu, nós tivemos uma gravidez de nove meses achando que ia nascer outro igual. A maioria dos médicos falava que o problema da Alessandra era genético. Quando a Luiza engravidou, foi numa escapulida. E eu falei: “Vai vir do jeito que vier.” Então, quando o Fabrício nasceu tinha uma junta médica esperando ele. A junta foi lá, examinou, falou: “Seu filho não tem problema nenhum.” Eu falei: “Olha, pode voltar todo mundo e olhar de novo.” Ele veio e não tinha nada, aí é o Filho Bom. Ficou. Um Amigo, um Filho Bom e pronto.

 

P/1 – Três presentes! (risos)

 

R – Alessandra, na época, a gente não entendia ainda o presente que ela era, não. Agora a gente entende.

 

P/1 – Rigotto, olhando para trás, para a sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa, tivesse o poder de mudar, você mudaria?

 

R – Tem um poeminha isso, né? “Se eu pudesse voltar atrás, eu ia beijar mais meu filho, beijar mais minha mulher, conversar mais com meu filho, ia dançar mais, tomar mais chopinho com os amigos.” Eu não sei, viu? Eu mudaria algumas coisas na minha vida: acho que eu ajudei pouco os outros, eu poderia ter ajudado mais. Eu tentei ajudar, mas não ajudei tudo que eu podia, não. Eu fiz algumas coisas nas quais, na época, eu acreditava fortemente, e fiz porque acreditava, e hoje eu já não acredito tanto. Eu teria feito de uma maneira melhor. Mas eu te diria que isso aí não ia ter mudado muito o rumo da minha vida. Iria ter mudado muito mais o que eu poderia ter feito pelos outros. 

Eu agora estou muito preocupado em poder aproveitar a ociosidade que eu consigo ter para ajudar os outros. Talvez só isso que mudasse. Foi muito bom tudo que eu fiz, os desafios que a gente encarou, as barras - um negócio bem pesado, sabe? Mas foi muito bom. No fim, eu estou com 56 anos, metade deles com a minha mulher, metade com meu pai e minha mãe. Está valendo a pena, como diz o outro. E eu ainda tenho ciúme dela, ela tem ciúme de mim...

 

P/1 – Que ótimo. (risos)

 

R – Aquelas coisas assim. Isso é... Sei lá, talvez eu seja um cara até meio anormal; dizem que isso não é muito normal, mesmo. Mas eu acho que faltam mesmo alguns parafusos aqui dentro, então não tem importância. (risos)

 

P/1 – E para o futuro? Tem sonhos? Como são os planos?

 

R – O meu negócio agora é fazer alguma forma de ajudar os outros. Eu acredito que tanto eu quanto a minha mulher, nós somos um potencial de poder ajudar os outros. Com a experiência de vida que a gente tem, até com a capacidade de trabalho que você tem e não precisar mais gastar o seu trabalho para sobreviver, acho que eu posso ajudar os outros.

 

P/1 – É a sua preocupação, né?

 

R – É. De retribuir. Eu acho que o mundo me deu muitas coisas, então eu quero retribuir um pouco com isso. Outro objetivo, também, é o seguinte: eu quero ter um lugar de criar os meus gansos. Eu sou doido para criar uns gansos. Adoro gansos. Uns gansos, umas galinhas - passarinho e cachorro, não. Cachorro e gato, pelo amor de Deus. Eu só quero bicho mais amigável, então, tendo um sitiozinho para poder criar os gansos, era bom. 

O problema do sítio não é propriamente o sítio. Na verdade, eu até tenho um sítio lá em Belo Horizonte, zero. Eu comprei o terreno para fazer o sítio tem vinte anos; lá está intacto, exatamente como eu deixei. Está virando é reserva do condomínio lá, reserva florestal. (risos) Mas é porque eu não sei se eu vou morar em Belo Horizonte. 

Onde é que eu vou morar? Uma das coisas que acontece com esse tipo de vida que você viu é essa, você não cria raízes. Eu não tenho raízes. Onde é a minha cidade? (PAUSA) 

Pode ser... Além disso tudo que você pôs aí, eu estudei em Tóquio, estudei no Japão, estudei nos Estados Unidos, fiz curso na França, então você vai virando um cosmopolita meio frio. Você chega numa cidade e fala: essa cidade tem isso de bom e tem isso de ruim, o saldo aqui é positivo, então essa cidade é boa. O saldo aqui é negativo, então essa cidade é ruim. Toda cidade você analisa assim, friamente, então você não tem raízes. 

Em Belo Horizonte eu tenho meu pai e minha mãe, não vão viver a vida toda. Quando eles acabarem, fica os meus irmãos, que já não são uma raiz tão forte assim, então onde é que eu moro? Pode ser Miami, né? Quem sabe, Indaiatuba, São Vicente de Minas, Belo Horizonte, Vitória, Tóquio... Tóquio é muito caro! Janjua, na China. Ninguém sabe, né? Eu preciso saber onde vou morar, para fazer o sítio lá perto. E aí pôr os gansos.

 

P/1 – (risos) Bom, para encerrar a entrevista, eu queria saber o que você achou de ter participado do projeto e de ter dado o seu depoimento.

 

R – Olha, eu acho esse projeto muito bom, fantástico. Até para mim é uma coisa boa, saber que vai ficar esse vídeo. Um dia eles descobrem esse vídeo. Acho que é fantástico a Vale estar preocupada com as pessoas que já foram Vale, que não são mais hoje, e que fizeram alguma coisa pela companhia. 

Honestamente, eu acho que a Vale é uma empresa muito construída pelas pessoas dela. É claro que a minha contribuição é insignificante. O somatório das contribuições das pessoas da Vale é que fizeram a Vale. A Vale é produto do trabalho das pessoas dela. Isso é muito mais marcado do que nas empresas comuns por aí. Eu acho que uma característica muito importante da Vale, é essa. A Vale é muito mais produto do trabalho das pessoas do que a média das empresas por aí.

 

P/1 – Você pode avaliar até em função de sua experiência em outras empresas.

 

R – Exatamente. Eu avalio isso com muita tranquilidade. Eu vejo empresas que a contribuição dos empregados é muito grande. Toda empresa, a contribuição da equipe é de uma importância fenomenal, talvez a mais importante. Mas eu vejo na Vale muito mais marcado isso, porque a Vale teve uma fase, da qual eu até não participei, que foi quase heroica. As pessoas, com sua competência, conseguindo superar dificuldades, sem ter dinheiro para fazer as coisas, sem ter até moral, como empresa, para fazer as coisas, e conseguindo fazer. Isso teve uma série de gente que nos antecedeu, que fez um trabalho maravilhoso. Resgatar isso, com esse trabalho, eu acho importantíssimo. Resgatar das pessoas de Carajás - eu sei que vocês já chamaram alguns, também acho isso muito importante. E a Vale, aliás, não é novidade - a Vale sempre se destacou por coisas boas como essa. E uma entrevista muito bem montada, vocês são muito simpáticos na entrevista...

 

P/2 – Muito obrigado.

 

R – Pequenas reclamações sobre essa introdução curta que nós fizemos, por que quando é que começa a entrevista? Nós temos um bocado de coisa para falar.

Eu queria te contar uma histórias, menina. Já que vocês vão deixar isso aí, deixa eu contar só uma historinha para fechar. 

Eu era mensageiro. Mensageiro é um cara que entrega, telegrafa, estafeta - naquela época, hoje você não é capaz de entender telegrama mais. O que é telegrama? Telegrama era um fax que chegava via fio, copiado às custas de um telegrafista, tirar do código morse, escrever no papel as palavras, dobrado e carimbado por uma pessoa, registrado num livro de registro e entregue para um mensageiro, falando: “Vai entregar isso aqui nesse endereço.” Isso é um telegrama. Hoje, você quase não ouve falar disso. Praticamente não se manda telegrama, hoje, mas naquela época não tinha telefone, não tinha telex, não tinha boudeau, não tinha televisão, não tinha fax, e o correio era ineficiente em termos de carta, então a forma de comunicação melhor que tinha era telegrama. 

Se uma amiga sua em São Paulo fazia aniversário, você mandava um telegrama para ela. Se o pai da sua amiga morresse, você mandava um telegrama de condolências. Se você queria informar para um amigo qual o número da Loteria federal que deu aqui, mandava um telegrama. Resultado de jogo do bicho, um telegrama. Fechamento do caixa da minha padaria para o dono que mora em Belo Horizonte, um telegrama. Então era muito telegrama. 

A gente entregava um horror de telegrama por dia, se andava. O turno do nosso trabalho era de seis horas. Você recebia o seu bolo de telegrama, colecionava, que era colocar numa ordem adequada para você sair andando e entregando, e você andava durante seis horas entregando telegrama. É uma tarefa, a pior que eu já conheci na minha vida. Porque você entrega telegramas “feliz aniversário”, “seu filho passou”, “seu filho foi promovido”, “seu filho chegou”, “seu filho vai chegar depois de amanhã”, mas você também entrega telegrama “lamento informar que seu filho sofreu um acidente e morreu.” E você chega numa favela, vem uma velhinha, e fala: “Telegrama? De onde?” “De Teresina, dona.” “Ah, é meu filho. Será que ele já vai chegar?” “Ah, não sei, a senhora vê aqui. Destaco o recibo e a senhora assina aqui.” “Não sei assinar, não, moço.” “Então a senhora faz um cruzinha aqui.” A dona faz uma cruzinha: “Agora o senhor lê para mim.” “Não posso ler não, dona.” “Lê para mim, pelo amor de Deus, quero saber que dia meu filho vai chegar.” Você abre e fala: “Seu filho tomou um porre e morreu, velha sem-vergonha!” Como você dá essa notícia para essa velha? Aquela velhinha, toda cheia... O olho dela brilhando de felicidade porque o filho vai chegar e o telegrama falando que o filho morreu. Para quem tem sensibilidade, isso dói. E choca. E eu passava isso o dia inteiro, então sofria muito entregando telegrama. 

Além do esforço físico, porque você andava muito, gastava energia. Era uma fome interminável, então meu metabolismo ficou uma coisa séria. Quando eu parei de andar entregando telegrama, eu engordei. (risos) Porque o metabolismo continuou, não é? 

E teve um lance interessante, é nesse que eu quero chegar. Um dia de Natal, dia 25, eu estava entregando telegrama na Serra, no bairro que eu moro hoje. E tinha uma casa, eu lembro até hoje… Tinha uma escada que subia e dava numa varanda. Eu toquei a campainha e ninguém atendeu. E eu já não tinha mais o bilhetinho para deixar aviso na caixa de correio que tinha um telegrama e que ninguém quis receber, não me atendeu. 

A minha solução era tentar entregar o telegrama de qualquer jeito. Eu sempre fui muito responsável com isso. Alguns colegas matavam o telegrama. Eu não matava de jeito nenhum, então subi as escadas e bati palma na coisa. O pessoal estava almoçando lá e tinha um moleque mais ou menos da minha idade sentado na varanda. Aí eu falei: “Olha, telegrama, senhor.” Tinha uns três ou quatro telegramas. Destaquei, o cara assinou, me deu e falou: “Muito obrigado.” Eu falei: “O senhor pode me dar um copo d’água?” O cara olhou para mim - eu era um menino, tinha doze, treze anos. Falou assim: “O senhor não prefere um guaraná?” “Claro que eu prefiro!” Guaraná, para quem estava com a fome que eu estava, com a sede que eu estava… E guaraná, na época, era um negócio assim, só em festa, minha filha. E mesmo assim, olhe lá! 

O cara me oferece um copo de guaraná, eu falei: “É comigo mesmo!” Ri até aqui, né? O menino falou: “Ah, pai, não vai gastar guaraná com esse menino, não.” Esse pai, eu acho que na hora ele percebeu a merda que o filho dele estava fazendo, sabe? Falou: “Que é isso, meu filho?” Foi lá, trouxe um guaraná, me deu empadinha também. Eu saí todo feliz com o guaraná, mas puto com o menino. Deus entrou no meio, que todas as vezes que eu passei de novo nessa rua esse menino não estava por ali porque se ele estivesse, eu ia dar uma surra nele! (risos)

 

P/2 – (riso)

 

P/1 – (riso) Merecida!

 

R – Merecidíssima, mas absolutamente descabida, né? Ele deve estar bem de vida, hoje, com a mentalidade que ele tinha na época. 

Aquele guaraná, para mim, foi o pior que eu já tomei na minha vida,  mas eu fiquei feliz porque o pai dele me deu. O guaraná, na verdade, não estava bom, não, não sei por quê. Isso aí é o que o mensageiro passa na vida, sabe? 

Depois o volume de telegramas foi diminuindo porque telefone começou a funcionar melhor, inventaram o telex, veio a televisão, aí o telegrama foi sumindo. Se eu fosse até hoje estafeta, estava desempregado.

 

P/2 – Com e-mail, essa coisa toda...

 

R – Com e-mail. Você pensa bem, cara, eu sento no micro, mando e-mail para Deus e o mundo. Eu pego uma piada que mandam para mim, eu já tenho uma rede de pessoas que eu mando piada comentando. Eu pego uma notícia importante, eu mando para outra rede: “Gente, lê isso aí, entende que os caras estão falando é isso. Daí você pode depreender isso.” Faço um comentário e mando. Vai na hora para aquele bando. Tem gente que me telefona em seguida: “Pô, Rigotto, você tem razão, estão falando isso...” “Que piada beleza!” Naquela época, para sair o resultado da loteria federal aqui do Rio de Janeiro, era um telegrama que saía para cada casa lotérica de Belo Horizonte. Toda sexta-feira às três horas da tarde tinha os mensageiros de plantão, cada um já sabia onde que ele ia levar o telegrama dele com o resultado. Hoje, é botar num e-mail, tum-tum, sai na televisão. Mudou um pouquinho.

 

P/1 – Você quer colocar mais alguma coisa, então?

 

R – Não, cumprimentos a quem bolou esse projeto. Muito bom.

 

P/1 – Então queremos agradecer a sua participação.

 

R – Ótimo, obrigado.




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